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CAPITULO IX
Sakuno abriu os olhos, lentamente, antes de sentar-se, ainda sonolenta. Olhando para o lado vazio, ela sorriu, assumindo que não importava quanto tempo passasse, provavelmente nunca mais iria se acostumar a dormir sozinha. Levantando-se, foi até a janela e ficou contemplando a paisagem londrina. O inverno estava em seu ápice, os flocos de neve caiam suavemente, envolvendo a cidade em um belo e tranqüilizante cenário branco e à aquela hora, somente algumas poucas luzes podiam ser vistas, quebrando a solidez da madrugada.
De repente, sua atenção foi desviada para o desenho de uma pequena carta piscando no monitor de seu laptop, indicando que havia recebido um e-mail. Ela virou-se e sentou-se na escrivaninha próxima à janela. Abrindo o e-mail, a foto do casal Momoshiro apareceu na tela. Ann estava sentada em uma cadeira, no meio do pequeno jardim na casa dos dois, enquanto Takeshi estava agachado ao seu lado, com as mãos sobre a barriga de quase cinco meses da esposa. Embaixo da foto anexada, seguia a seguinte mensagem: " Eu sei que disse que queria que fosse surpresa, mas não agüentei esperar! Vai ser um menino! Takeo Momoshiro! E quando crescer, vai casar com a sua filha!"
Sakuno não pode deixar de sorrir com aquela frase. Ainda podia se lembrar do dia em que recebeu fotos do casamento dos dois, que ocorreu alguns meses depois de sua partida. As que foram enviadas por Kikumaru tinham graciosos comentários, como por exemplo, do quanto ele estava nervoso, como toda hora ficava checando o relógio, temendo que Ann se atrasasse, que não comparecesse e como quase desmaiou quando a viu antes, durante e depois de chegar até o altar, mas com as alianças e votos trocados, ele voltou a ser a pessoa descontraída e alegre de sempre. E agora, ela podia sentir toda a felicidade dos dois, esboçada naqueles sorrisos tão sinceros da fotografia.
Decidindo que iria responder os e-mails pela manhã, ela fechou o computador e levantou-se, pensando no que poderia enviar de presente para o pequeno Takeo. Espreguiçando-se na cadeira, mecanicamente colocou uma das mãos sobre a barriga, para acariciá-la, mas o bebê já não estava ali. Afinal, já fazia duas semanas que sua filha havia nascido.
Ela se lembrou como a bolsa d'agua havia se rompido uma semana antes do previsto e de como acordou com a roupa e a cama, totalmente ensopadas e do tumulto que havia sido arrumar tudo, às 4 da madrugada e sair em disparada para o hospital. Mesmo antes de chegar à maternidade já sentia fortes dores, mas uma hora depois, quando finalmente pôde escutar o choro de seu bebê e segurá-la nos braços, a dor se dissipou, dando lugar a um sentimento terno e reconfortante. Tudo havia se tornado insignificante diante daquele pequeno ser que se aninhava contra seu corpo. Acariciando seu rostinho e, principalmente, quando o bebê abriu os olhos e a fitou com seus profundos olhos castanhos claros, ela teve certeza de que a face de Echizen nunca poderia ser esquecida.
Levantando-se, atravessou a pequena distância que separava seu quarto do quarto do bebê. Olhou para todos os presentes em cima da cômoda, vindos de sua avó, dos avós paternos, Tomoko, suas amigas do trabalho e da faculdade e um enorme urso branco, enviado por Eiji e Oishi, que segurava um balão metalizado com a frase "É uma Ochibi!" gravada. Ela parou por alguns minutos, apreciando a cena a sua frente, antes de cuidadosamente aproximar-se. Sua filha dormia tranqüilamente, nos braços da pessoa que ela amava.
Ela encostou-se na parede e lembrou-se o quanto seu coração estava despedaçado quando deixou o Japão. E quantas foram às vezes que adormeceu abafando o choro no travesseiro, querendo aliviar o peito de todas as magoas e tristezas. Nunca ia poder agradecer o bastante à sua filha. Naquela cidade distante, estando sozinha, ela foi a principal motivação para deixar as memórias doloridas para trás.
Dizem que somente um coração sarado pode comportar um novo amor. E assim, aconteceu. Quando as lágrimas de decepção secaram e um sorriso sincero brotou novamente em sua face, ele apareceu, oferecendo-lhe companheirismo, carinho, compreensão e um amor incondicional por ela e pelo bebê que crescia em seu ventre, que em pouco tempo se movimentava toda vez que escutava a voz masculina tão gentil e sentia suas mãos acariciando a barriga crescente. Ela tinha certeza que, finalmente, sua filha teria um pai amoroso, como sempre havia desejado.
Ele foi a pessoa que estava ao seu lado naquela nova etapa da sua vida. Conversavam sobre a faculdade, a ajudou com a nova língua, a ajudou a acostumar-se com as novas ruas da cidade, em passeios de mãos dadas e sem pressa, nos finais de tarde, sempre que possível. Agüentou pacientemente as mudanças de humor repentinas, a fome por coisas estranhas no meio da madrugada, a acompanhou nas aulas sobre o parto e sobre cuidados com o bebê. Ele tranqüilizou Sumire, garantindo que cuidaria dela e que não precisaria submeter-se a uma viagem tão cansativa. Foi a mão dele que acariciou a de Ryuzaki no momento em que sua filha estava nascendo, confortando-a. Foi ele que carinhosamente beijou sua testa e disse "Bom trabalho", quando o bebê chorava pela primeira vez.
Ela sorriu, lembrando-se de como ele era desajeitado nos primeiros dias, evitando pegá-la nos braços com medo de machucá-la, mas que agora fazia com que o berço que haviam comprado se tornasse uma peça quase inútil, de tanto que a mantinha no colo.
Sakuno aproximou-se e acariciou os cabelos dele, suavemente, fazendo-o abrir os olhos.
- Você estará todo doído amanhã se dormir desse jeito.
- Ela estava chorando. – respondeu, sonolento.
- Por que não me chamou?
- Ela havia acabado de mamar e você de dormir. Sabia que era só manha, então resolvi ficar aqui. Você precisa descansar.
- Obrigada.. – acariciando seu rosto, sorriu. – Mas não terei que acordar as sete da manhã e ir para o trabalho. Você também precisa de uma boa noite de sono.
- Eu sei... – nesse momento, a menininha espreguiçou-se dentro da manta branca e segurou o dedo dele, com a pequena mão. – ... mas ela não quer ficar sozinha.
- Você vai acabar mimando-a desse jeito. – disse, com um sorriso. – Ah, recebemos um e-mail do Momoshiro. Ele e Ann terão um menino. E ele mandou avisar que irá casar com nossa filha.
- Não vai não. – ela não pode deixar de achar engraçado a feição de desagrado que tomou conta de seu rosto.
- Não?
- Não.
- Nunca imaginei que você seria tão ciumento assim.
- Não sou ciumento. Não é, Harumi? – carinhosamente ele passou as mãos no cabelo dela, em um tom mais escuro que os da mãe.
- Ela é linda não é?
- Não poderia ser diferente. - respondeu, fitando-a e fazendo-a sorrir.
- Vamos dormir? Já está muito tarde.
- Tudo bem. - lentamente, ele se levantou e ao colocá-la no berço, ela se remexeu e soltou um breve gemido de reclamação, mas logo voltou a dormir tranqüilamente, ao sentir um carinho de Sakuno em sua face.
Com a certeza que Harumi estava bem, o jovem casal retornou à cama, cobrindo-se com o ededron. Ele a puxou para perto, fazendo-a aninhar-se em seu peito, até que percebeu seu olhar curioso:
- O que foi?
- Posso fazer uma pergunta?
- Pode.
- Você... está feliz? Comigo e com a Harumi?
- Por que você está perguntando isso?
- Você abriu mão de muita coisa... – ela abaixou o olhar, deixando o cabelo comprido cobrir uma parte de sua face. – quero saber se está valendo a pena. Se você é feliz ao nosso lado. De verdade.
Lentamente, ele acariciou seu rosto, fazendo-a olhá-lo nos olhos.
- Não estaria aqui, se houvesse algum tipo de dúvida.
Ela o fitou carinhosamente, feliz. Ele a envolveu em seus braços e enrolou os dedos em uma das mechas do cabelo vermelho.
- E você? Sente falta de algo?
- Hmm.. talvez.
- Do que?
- Disso... – a voz dela chegou aos seus ouvidos de maneira sedutora, quase como um ronronar, antes que ela começasse a beijar seu pescoço lentamente, descendo a ponta da lingua no caminho até seu umbigo, depositando uma pequena mordida, enquanto arranhava as laterais de seu abdômen, suavemente.
- Sak... Sakuno... espere.. ainda não podemos... – disse, engolindo seco, tentando ignorar a provocação.
- Tudo bem... só estava brincando. – ela sorriu e voltou a deitar-se comportada em seu peito. – Sei que ainda faltam alguns dias. Ainda bem que pudemos aproveitar o livro ao máximo, não é? – perguntou com um tom maroto, fazendo-o ficar sem jeito, ao lembrar das diversas horas gastas lendo "Sexo na Gravidez: Dicas & Posições". – Não sinto falta de nada. Está tudo perfeito.
Ele sorriu, timidamente, antes que ela se aproximasse para beijá-lo, quando o choro baixo de Harumi, indicando que havia acordado novamente, alcançou o ouvido dos dois. Ela sorriu e o beijou levemente.
- Eu vou agora. Tente dormir.
- Hm. – ele a observou levantar-se e voltar ao quarto do bebê. Ajeitando-se entre os travesseiros, observou pela milésima vez os porta-retratos que ficavam no móvel perto da cama.
Nenhuma daquelas fotos haviam sido tiradas por ele. Ou melhor, somente uma. E que até hoje ele considerava uma sorte ter saído perfeita, considerando sua total inexperiência com uma câmera fotográfica, ainda mais por tudo o que fez foi apenas ter apertado o botão, sem se preocupar com detalhes como foco ou flash. No entanto, não estavam expostas como as outras. Nunca foi uma pessoa que se apegava a coisas materiais, mas para ele, aquela foto retratava um momento extremamente importante, o que justificava seu egoísmo de escondê-la de todos, até mesmo de Ryuzaki.
Esticando a mão, puxou a segunda gaveta do criado-mudo em que guardava alguns de seus pertences e do meio de alguns papéis, retirou a foto, admirando-a. Sakuno estava deitada na cama do hospital, apesar do cansaço que sentia, apenas uma expressão cheia de ternura refletida em seu olhar, enquanto amamentava a filha dos dois pela primeira vez.
Escutando os passos dela de volta, ele rapidamente colocou a foto em seu esconderijo particular. A jovem abriu caminho entre os lençóis e deitou-se, abraçando-o de lado:
- Durma bem, Ryoma. – disse, antes de fechar os olhos.
- Hm. - ele beijou seu rosto e logo dormiram, serenamente.
Sakuno vestiu-se com o roupão e saiu do banheiro, enxugando os cabelos em uma toalha. Ela estava exausta. O dia havia sido longo e cansativo. Já havia dois meses que estava em Londres e sua rotina ia se tornando cada vez mais atarefada a medida que as atividades da especialização iam se desenvolvendo e tomando cada vez mais seu tempo. E com o avanço da gravidez, ela se sentia mais cansada e sonolenta, somadas com as preocupações com o bebê que iam aumentando a cada nova semana da gestação. Por isso, em horas como aquela, quando chegava em casa, a única coisa que queria fazer era enfiar-se debaixo de uma bela ducha quente, usar algo confortável e ficar curtindo sua preguiça e a barriga em algum lugar macio e confortável pelo apartamento. E assim fez. Foi ate sua cama, apoiou-se nos travesseiros e começou a passar as mãos na barriga, lentamente. Virando o rosto, olhou o quarto interligado ao seu, cheio de materiais e móveis para serem montados e imaginou quanto tempo demoraria até que ficasse pronto. Eiji fizera questão da mandar todos os materiais de decoração por correio e de escolher e contratar um escritório de decoração. Em suas palavras, aquele seria o presente dele e de Oishi para o bebê.
Nesse momento, ela lembrou-se que provavelmente ele mandaria um e-mail sobre a padronagem dos tecidos para ser usado e pegou o laptop no criado mundo, ligando-o. Logo que a internet conectou, ela viu o símbolo de uma pequena carta e foi abrir sua caixa de entrada. Demorou algum tempo para que ela se recuperasse do choque após ter lido o remetente e criado coragem para abrir a mensagem:
Sakuno.
Espero que você esteja bem.
Sinto muito. Não pude ser a pessoa que você desejava.
Sempre temi que você se afastasse. E não percebi que aos poucos, afastei você de mim.
O dia em que pediu para morarmos juntos. Nunca esqueci. Foi importante. E como todas as coisas importantes, só pensei nas responsabilidades que acarretaria. Prometi que cuidaria de você. Não podia fracassar. Simplesmente não conseguia pensar na possibilidade de encarar sua avó e ter que devolvê-la. Essa seria a pior das derrotas. Então, me afundei no trabalho sem perceber que ao mesmo tempo arrastava o que tínhamos, mas no final de cada expediente, você sempre estava lá. Na nossa casa, esperando por mim, o que motivava meu esforço cada vez mais, mas com minha total falta de tato no assunto, acabei não percebendo que negligenciava você. Obrigado por tudo. Não deve ter sido fácil. Demorei para perceber isso e para aceitar uma criança entre nós. Não conseguia vê-la como nada alem de um pacote de mal estares e preocupações que havia criado para você.
E como se tudo já não estivesse confuso o bastante, ocorreu aquele incidente. Tenho certeza de que nunca poderei me desculpar o suficiente. Mas garanto que foi um mal entendido. Nada aconteceu.
Nunca soube o que aconteceu depois que você entrou naquele quarto de hospital, mas Kikumaru contou que vocês estavam bem. Me senti aliviado e pela primeira vez, pude entender seus sentimentos em relação ao nosso filho. Consegui pensar nele além de uma responsabilidade e entender que uma criança metade sua não pode ser apenas um problema.
Infelizmente, novamente, só percebi isso tarde demais.
Então, corri. Corri o máximo que pude por aquele aeroporto. E tudo o que consegui foi ver o seu avião partir.
Voltei para casa, com todas as palavras que deveriam ter sido ditas, novamente entaladas em minha garganta, não conseguindo parar de pensar que aquilo só poderia ser um sinal...
Ryoma.
Ela podia sentir as lágrimas caindo pelo seu rosto. Após tanto tempo, ela já havia perdido todas as esperanças de ter noticias dele. Por mais que seu coração doesse, ela prosseguiu sua vida, tendo a certeza de que o bebê seria o único elo entre os dois. Talvez para qualquer outra pessoa, aquele seria um e-mail de namorados muito mal feito, pois faltavam nelas palavras conhecidas de carinho e amor. Mas, Sakuno sabia. Ela era a única que poderia compreender o significado daquelas frases que com certeza estavam machucando-o intensamente, a ponto de querer colocá-las para fora. Ela deitou-se, abraçando a barriga. Toda a sua força e resolução de esquecê-lo haviam ido por água a baixo após aquele e-mail. Ela o queria perto. Ela queria perder-se em seus olhos claros novamente. Sentir o seu cheiro, calor e a sensação de segurança, quando estava em seu abraço. Por que ele mandou aquele e-mail, apenas para aflorar sentimentos que morreriam decepcionados e sem amparo, novamente?
Sakuno interrompeu o choro e respirou fundo, querendo conter o fluxo das lágrimas. Não, ela não podia esperar isso dele. Não poderia esperar nada. Ele estava do outro lado do mundo. Ele nem ao menos se despediu. E mesmo assim, ainda fazia com que chorasse por ele. Ela levantou-se, forçando seu coração a endurecer-se novamente e agradeceu, quando escutou a campainha tocar, mesmo que não estivesse esperando visitas no momento.
Levantando-se, enxugou o rosto, indo para a porta. Com certeza deveria ser alguma das colegas do corredor, pedindo algo, então nem se preocupou em trocar-se. Ela abriu a porta rapidamente e esboçou um sorriso forçado, que desapareceu rapidamente, junto com o chão dos seus pés, ao comprovar que a visita era, verdadeiramente, inesperada:
- Ry... Ryoma...
- Boa noite. – respondeu, timidamente, fazendo com que ela se lembrasse que também não havia tido sucesso em esquecer sua voz. Ele usava um belo terno, novo, os cabelos mais compridos, caídos em uma franja sobre sua testa. Mesmo que soubesse que era impossível, ele parecia mais alto, o rosto mais belo e os olhos, ainda mais atrativos.
- O que... o que você está fazendo aqui?
- Desculpe vir sem avisar.
- Não, não.. está bem.. entre, por favor. – disse, sentindo o tom de voz falhar.
- Com licença. – ele entrou, timidamente, olhando ao redor. O apartamento, ao contrário do que o que haviam dividido, era pequeno, mas a decoração feita por Sakuno fazia com que parecesse confortável e acolhedor, como sua antiga casa.
- Isso foi... realmente uma surpresa... – ela forçou um sorriso, cruzando os braços, em um esforço inútil de esconder seus trajes. Não entendia por que se sentia tão envergonhada.
- Tinha que entregar isso. – retirando do bolso do paletó um pequeno envelope, estendeu sua mão. - Sua parte.
Ela abriu o envelope e sua expressão tornou-se ainda mais surpresa e confusa ao ver seu interior.
- Ryoma... que dinheiro é esse?
- É á sua parte do apartamento. Eu o vendi.
- Você o vendeu?
- Hm. Não tinha mais sentindo em permanecer ali. Era grande demais.
- Onde você está morando agora?
- Minha mãe conseguiu amansar meu pai. Voltei para casa. Mas, será por pouco tempo. Espero.
- Você não precisava ter vindo até aqui entregar o dinheiro. Poderia ter depositado em minha conta.
- Não seria a mesma coisa. – respondeu, olhando em seus olhos. – Você parece bem.
- O ... obrigada. – ela sentiu o rosto corar e abaixou o olhar, deixando o cabelo molhado e comprido cobrir sua face. Ela não sabia que fazer. Ele estava ali.. A poucos minutos ela chorava por sua ausência e agora ele estava ali, a apenas alguns passos de distância. Ela queria tocá-lo, para ter certeza que sua imaginação não estava lhe pregando peças, mas conseguiu refrear sua vontade. No entanto, não conseguiu fazer com que seu coração se silenciasse. – Ryoma...
- Hm?
- Qual... qual era o sinal? – perguntou, encarando-o, mesmo que timidamente.
- Você leu o e-mail... – ela pode sentir um tom envergonhado em sua frase.
- Li sim.
- O enviei antes de embarcar. Quase perdi o vôo. Recomeçava e apagava tudo, umas quatro vezes. Não sou bom com essas coisas... – ele passou as mãos nos cabelos escuros, sem jeito, mas logo voltou a observa-la quando a viu segurar as mãos com força.
- Estava... lindo... foi a primeira vez que você me escreveu... – ao relembra-se das palavras que acabara de ler, as lágrimas recomeçaram a fluir. Ryoma encerrou a distância entre os dois, colocando as mãos em seu rosto, carinhosamente.
- Não chore. Essa não era a intenção. Por favor... não chore.
- Eu li aquelas palavras e tudo o que pude pensar foi no quanto você estava longe..em tudo que deu errado... em como talvez eu nunca mais o veria...
- Eu estou aqui agora. – ela reconheceu aquele olhar extremamente terno, o que fez seu peito doer ainda mais.
- É, está, mas... nós.. nós não estamos...
- Quero ficar com você. – ele suspendeu seu rosto, fazendo com que olhasse em seus olhos.
- Ryoma...
- Isso é o que vim lhe dizer. Esse era o sinal. – abraçando-a, fez com que ela se aninhasse em seu peito. – Realmente quero ficar com você.
- Mas, Ryoma.. seu emprego... você tem uma vida no Japão, não posso obrigar você a..
- Pedi transferência para uma das filiais da editora aqui. – ele a interrompeu, seriamente. - Conversei com os meus pais e eles vão enviar minhas coisas assim que eu avisar. Fiz tudo isso sem ao menos saber se você me receberia. Não foi uma obrigação.
- Você tem certeza? – perguntou com os olhos marejados.
- Hm. – ele acariciou seu rosto novamente, antes de beijá-la. Um beijo suave, demorado, aproveitando seus lábios macios.
Ryoma deslizou uma das mãos para seu pescoço, trazendo-a mais para perto. Já havia se passado muito tempo. Tempo demais. Ele queria, novamente, memorizar seu perfume e a sensação sedosa de sua pele. Sentindo as mãos de Sakuno deslizarem por suas costas, ele tomou coragem para dar alguns passos pequenos, apesar da urgência que sentia, quando ela agarrou o tecido de sua blusa, querendo arrancá-la. Ele sentiu-se sendo puxado pela sala sem interromper o beijo e o abraço que haviam se tornado extremamente possessivos e exigentes. A parte de cima de seu terno foi o primeiro a alcançar o chão do quarto, enquanto ela o trazia para deitar-se na cama. Ela deitou-se, afundando suas mãos no cabelo escuro e fazendo-o posicionar-se sobre seu corpo. Interrompendo o beijo, ela o fitou quieta e profundamente e pela primeira vez, ele não viu nenhum sinal de embaraço ou rubor em sua face. Apenas desejo.
Seus dedos acariciaram a face de Ryoma lentamente enquanto uma mão livre desabotoava a blusa social que ele usava. Um de seus dedos fez caminho pelo tórax trabalhado parando no botão da calça que foi prontamente desabotoado. Echizen engoliu fundo, sentindo-se extremamente perdido nos olhos rubros e voltou a beijá-la, continuando agora por seu pescoço e pelos ombros desnudos assim que ele puxou o tecido do roupão, que havia se transformado em uma peça incômoda. Continuando o carinho foi em direção aos seus seios, saboreando-os lentamente. Sakuno arqueou o corpo e gemeu levemente ao sentir a língua dele deslizar, sem pressa alguma, provando cada centímetro. Ela, com os olhos fechados, sentia-se totalmente mergulhada naquele mar de sensações e nem percebeu quando ele desfez, facilmente, o nó do cinto do roupão, abrindo a peça por completo, enquanto ainda beijava o vale entre os seios. Ele passava as mãos pelo corpo recém desnudo sentindo sua maciez, quando ela abriu os olhos, ao senti-lo ir em direção a sua barriga. Temendo sua reação, ela o chamou, quase em uma súplica:
- Ryoma.. espere... por favor... – ele não obedeceu. Estava com saudades de tocá-la daquela maneira tão intima e continuou até sentir a forma redonda em seu abdômen, cessando os carinhos.
Sakuno deitou a cabeça no travesseiro, colocando as mãos no rosto, não querendo fitar o olhar de repúdio que com certeza estaria em sua face, ao olhar o ventre despontando. Ela o imaginou levantando-se, vestindo-se e partindo, mais uma vez. Mas nada aconteceu. Apoiando-se nos cotovelos, o viu observar a barriga e com uma as mãos, lentamente, acaricia-la. Ele aproximou os lábios de seu umbigo e sussurrou:
- Me desculpe. - como se não fosse o bastante para que ela acreditasse, falou, novamente - Por favor. Me desculpe.
Pela primeira vez em meses, lágrimas de felicidade escorreram pelo seu rosto, antes que Ryoma se aproximasse e as enxugasse com um carinho. Ele sorriu, um de seus sorrisos quase imperceptíveis, que só ela conhecia, antes de beijá-la mais uma vez, fazendo-a sentir-se extrema e verdadeiramente feliz.
FIM