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Parte XIII
"Claro... Agora você lembra da pobre mortal que aparece diante de vós, majestade."
"Pára de besteira, Yukina? O assunto é sério."
"Ah, sim, perdão por debochar de momento tão sublime."
Hiei virou os olhos não acreditando no que ouvia. Pelo que parecia, a irmã ainda estava emburrada por ele ter dito mais cedo que precisava ir embora e que não poderia ficar para conversar. Quando queria ela era tão dramática...
"Tá, tudo bem." - concedeu ao ver que o irmão já estava perdendo a paciência - "O que você queria falar comigo de tão urgente?" - perguntou sentando-se sem cerimônia no sofá da sala da casa onde morou até poucas semanas.
"É que... Bem, você se casou, voltou a trabalhar e eu também trabalho." - bebericou o copo de água que estava em suas mãos, olhando-o intensamente antes de levá-lo a boca para não ter que encarar a irmã, pois não sabia como abordar o assunto. Resolveu ser direto. - "Estou pensando em vender a casa."
"Como?" - a reação da gêmea foi apenas de arregalar os olhos - "Mas por quê?"
"É como eu falei. Você saiu daqui e, bem, essa casa muito grande para eu ficar aqui sozinho. Estou procurando um lugar mais próximo do trabalho também e que seja bem menor."
"Mas pra que você me chamou então?"
"Pra perguntar se você está de acordo. Posso vender a casa?"
"Se você acha que o melhor pra você..." - respondeu com um suspiro. Mas depois de pensar um pouco abriu um sorriso em afirmação - "Você tem a minha permissão."
"Obrigado." - respondeu. Porém logo viu o sorriso de sua irmã desaparecer e ficou preocupado - "O que foi?"
"Hiei, você está ciente de que tem algum que não vai gostar disso, não é?"
"Disso o quê?" - perguntou sinceramente sem entender o que a irmã estava perguntando.
"Da venda da casa."
Yukina falava seriamente e olhando-o nos olhos. Ele ia abrir a boca e retrucar, dizendo que não havia entendido ainda, quando ele fechou a cara, finalmente se dando conta do que ela estava dizendo.
"Você está preparado para enfrentá-lo?" - disse antes que ele retrucasse.
"Yukina: a casa é nossa, minha e sua apenas. A gente comprou com nosso salário justamente para evitar problemas. Aliás, ele não estava pensando na gente quando pôs a casa a venda. A sorte era que já estávamos trabalhando e pudemos dessa forma comprá-la. Se vendeu, não mais é dele e ele não tem que gostar ou opinar."
"Mas agora ele sabe que está com a gente."
"Mas não é mais dele!" - o jovem acabou por se exaltar, soltou uma lufada de ar e passou a mão por sobre o rosto para se acalmar - "Yukina, se você não quer que eu venda, independente do motivo, fale, eu não me incomodo, agora, chegar e dizer que ele não vai gostar, pra mim, não faz a menor diferença."
"Hiei..." - abaixou os ombros e respirou fundo, cansada com a discussão boba - "Eu não me incomodo com o que você vai fazer com a casa, a gente já até conversou sobre isso inúmeras vezes antes, só estou alertando. Ele ainda não foi embora e acredito que não irá tão cedo. E se ele souber..."
"Se ele souber vai ficar sabendo apenas, está bem? Agora chega."
Uma tenso formou-se na sala. Yukina permanecia de cabeça baixa e seus olhos miravam as mãos. Essa cena era a que Hiei mais odiava, pois sabia que tinha, de alguma forma machucado a pessoa que mais lhe era importante na vida. Se levantou de onde estava, sentou-se ao lado da gêmea e, pondo a mão por sobre as da irmã, começou a falar.
"No se preocupe. Eu sei que você s está pensando em mim, mas é uma coisa que eu não posso evitar." - aproveitando que ela permanecia com o olhar baixo ele beijou-lhe a face - "Perdão se te magoei, tá?"
Deu um sorriso e, ainda sem olhar para o irmão recostou a cabeça em seu ombro.
"Você nunca me magoa, Hiei."
"Mentirosa"
Deu uma risada.
"Sou mesmo."
Ambos deram uma risadinha fraca e se olharam olhos nos olhos.
"Mas você sabe que só me magoa quando fica triste e insiste em ficar desse jeito, né?"
Ele apenas soergueu um canto dos lábios.
"Já pus o anúncio de venda na imobiliária. Daqui a pouco coloco na frente da casa."
"Hm... Então pra que me chamou se já tinha agilizado tudo?"
"Se você não concordasse, retiraria o anúncio."
Ela apenas assentiu com a cabeça.
"Por isso você não me atendeu prontamente hoje de manhã?"
"E por isso eu também saí às pressas do estúdio." - respondeu enquanto balançava a cabeça em concordância.
"Precisa de mais alguma coisa?"
"Sim. Na verdade..." - respondeu enlaçando com os braços a cintura da irmã - "Ainda não terminamos de por a fofoca em dia..."
"Ah, verdade! Bem, lembra de..." - com uma sonora gargalhada começaram animados a conversa.
Aquele dia já estava acabando e mesmo assim tinha sido bastante agitado. Encontrava-se neste momento sentado no sofá de dois lugares, com as pernas estendidas por sobre o apoio do braço, pensativo. Depois de sua irmã ter ido embora ele se sentiu mais tranqüilo, aliviado. Estava com saudades dela e conversando puderam matar um pouco essa saudade. Agora ele teria que se acostumar, pois ela tinha uma vida nova. Não poderia a ficar visitando o tempo todo, afinal, como um casal, eles precisavam se aprumar, estreitar os laços e estabelecer o relacionamento. A vida de casado pedia isso, exigia esse esforço e não seria ele a dar uma de cunhado pentelho.
Mas, por mais que ele e a irmã tivessem trocado impressões e tal, nem toda a saudade pode ser liquidada. Afinal, parte dessa saudade se dirigia a uma pessoa em especial que, mais uma vez, o surpreendera naquela tarde.
FlAsHbAcK
A campainha tocou. Fazia bem uma meia hora que sua irmã resolvera sair de perto de si para voltar pra sua casa e seu marido. Ela provavelmente tinha esquecido de alguma coisa, pois seria o único motivo para retornar. Porém, nem imaginava que ao abir a porta poderia se deparar com qualquer outra pessoa.
Talvez até soubesse que poderia ser qualquer um, mas não ele.
"Minamino?"
Um mal estar se instalou no momento em que a porta se abriu e Hiei deu de cara com Kurama. Era tudo o que ele queria e ao mesmo tempo era a última coisa que ele queria que acontecesse. Ainda não havia estruturado todas as emoções que o assolou no casamento de sua gêmea, nem havia ainda, com tantas coisas, pensado bastante a fundo sobre tudo. Até havia pensado sobre seus sentimentos, mas no final das contas, tudo o que ele fez até então foi fugir do colega e de si mesmo.
"Olá, Nobuyuki-san."
E o mal estar continuou. Ambos ficaram ali, apenas se encarando. Num estalo, resolveu que o melhor seria ser cordial com o amigo. Não imaginava que o outro poderia ir a sua casa casa. Na verdade não imaginou que ele sabia onde morava, pois nunca o vira ali antes. Já tinha visto o cunhado, Yusuke, Keiko e até a Shizuka, mas não Shuuichi.
Mil coisas passavam por sua cabeça e mais mil passavam pelo seu corpo. No sabia como agir a tamanha proximidade. Estava com medo do que ele poderia ter ido fazer ali.
"Desculpe o mal jeito." - respondeu balançando a cabeça e dando espaço para o ruivo passar. - "Queira entrar."
"Obrigado" - foi tudo o que respondeu. Nem acreditava que estava mesmo ali. Depois da rápida conversa que teve com Yukina na saída do estúdio ele teve mesmo alguns assuntos a resolver. Quando ia passando pela rua que avistou o bairro onde se encontrava e lembou de uma vez os rapazez terem dado o endereço da casa da Yukina. Então tudo passou rápido demais pela sua cabeça e quando deu por si, estava ouvindo uma voz conhecida lhe chamar pelo nome.
"Sente-se, por favor." - Hiei apontou um dos sofás e sentou-se em outro que estava de frente para o apontado. A sua resposta foi apenas um sorriso que o desestabilizou. Fez toda força do mundo para não demonstrar o quanto se sentia afetado pela sua presença. Após incômodos segundos silenciosos, resolveu ser um bom anfitrião, como nunca o fora com ninguém. - "Eu não sabia que você sabia onde moro."
"Ah, uma vez os rapazes estavam para fazer uma visita Yukina e me chamaram, mas eu estava muito ocupado."
"Eu acho que me lembro desse dia, pois eles comentaram algo sobre um amigo que estava ocupado..." - novamente silêncio. E Kurama percebia que aquilo o deixava inquieto. Mas também percebia que ele não queria se expor demais. Resolveu ir direto ao assunto.
"Imagino que deve estar querendo saber o que eu vim fazer aqui. Bem... Nos últimos dias aconteceram algumas coisas que nos pegaram desprevenidos, não é mesmo? Eu não imaginava que você fosse o irmão da Yukina, da mesma forma que você não sabia que eu era amigo do Yusuke e dos outros." - apenas esperou algum tipo de resposta vindo do rapaz. Após um aceno de cabeça continuou - "Mas também essas coisas causaram o nosso afastamento. Quero dizer, nós estávamos bastante próximos, éramos amigos. E independentemente do que tenha acontecido, sinto falta das nossas conversas..."
A cada minuto que falava via como Hiei ficava mais e mais tenso. Pra dizer a verdade, nem mesmo ele sabia o que falar nem como falar. A única coisa que passava pela sua cabeça naquele momento eram as palavras de Yukina. Resolveu que ser sincero era um bom começo. Estava apenas falando aquilo que lhe vinha boca, sem se segurar. Realmente se sentia bem ao lado dele. Gostava muito dele, mas se não pudesse tê-lo para si daquele jeito, gostaria de poder manter a amizade que tinham.
"Eu sinto que você está fugindo de mim. Não gosto disso. Gostaria que pudéssemos retomar o que tínhamos antes."
"Você deve estar brincando. Não temos simplesmente como ignorar o que aconteceu, Kurama!" - se levantou enquanto falava. Não estava conseguindo acreditar no que tinha ouvido. Não dava simplesmente para acreditar que ele estava propondo que ambos se esquecessem do que tinha acontecido e simplesmente se tornassem amigos. A princípio era o que queria, que tudo se esvaísse com o tempo, mas no fundo tudo o que queria era poder continuar tudo aquilo. Viu Kurama com os olhos arregalados e tinha percebido o que tinha acabado de falar. Ainda estava confuso e não sabia como lidar com aquilo. Virou-se para a janela, de costas para o ruivo e prosseguiu.
"Eu..." - não sabia como falar - "Eu realmente não sei o que pensar." - ficou um tempo em silêncio e depois concluiu, virando-se - "Estou confuso."
"Eu também estou." - Kurama deu um leve sorriso ao perceber que ele tinha sido sincero. - "Na verdade, eu não sei lidar com tudo isso. Sozinho." - Hiei olhou para Kurama com cara de pergunta. - "Acho que por enquanto, nós podemos continuar nossas vidas normalmente, como amigos. Como antes. Hiei, a gente não precisa mudar nada, mas eu..." - desviou os olhos e Hiei pode perceber o rubor nas faces do amigo. - "Eu sei que ficar longe de você não é a melhor solução para nossos problemas."
FlAsHbAcK
Talvez ele tivesse razão. Talvez Kurama estivesse certo, afinal, eles se gostav... Eles sentiam alguma coisa especial. Por mais difícil que fosse para ele admitir. Afinal, nos dias em que estivera longe do amigo, não fazia outra coisa que não fosse pensar no ruivo. Se sentia bem perto dele e a princípio era isso o que importava no momento.
Tomara uma decisão naquele instante. E a seguiria até o fim.
"Só mais uma, vai, ruivinho?"
"Não. Eu já falei que não, Kuronue, que coisa." - bufou perante a insistência do amigo, mas acabou sorrindo - "Larga de ser chato!"
"Ah, eu não sou chato. Sou bem delineado" - deu uma voltinha com as mãos levantadas com um sorriso que beirava o imoral plantado nos lábios. - "Viu só?"
"Nossa... Você consegue piorar as piadas a cada dia que passa, viu?" - dessa vez Mukuro se intromete na conversa se aproximando dos dois rapazes.
"Isso mesmo" - concorda Kurama - "Agora que a sua namorada chegou, vai atazanar a paciência dela, vai!"
"Hei, hei, hei! Cuidado, Minamino. Olha o ditado, desejando o mal para o vizinho... Eu posso ser pior que ele tá?"
"Hn, nem me fale" - pensou alto. - "Olha, eu estou atrasado, não posso mais ficar aqui."
"Quanta maldade! Uma diz que sou uma praga, o outro dá uma de desentendido e sai correndo para um compromisso que eu sei que não tem..." - fala Kuronue fazendo drama teatralmente até que seu semblante se desanuvia - "AH! Você está com essa carinha aí, feliz e quer sair mais cedo? Arrumou um namorado! Ah! Shuuichi tá namorando! Tá namorando!" - começa então a cantarolar igual a uma criança, o que arranca risos de Mukuro e um olhar fulminante do ruivo.
"Pára com isso, Kuronue!"
"Ah, tá bem. Mas vai me dizer que você e o nosso baixinho não se acertaram?"
"Não! Digo... Conversamos e... Estamos nos falando. Voltamos a ser amigos" - respondeu com um sorriso de vitória nos lábios, como se o que tivesse conseguido fosse seu maior trunfo. Porém, aquela atitude só fez com que Kuronue e Mukuro olhassem sérios para ele.
"Amigos?" - falou Kuronue.
"Sim. Não estávamos nos falando, mas agora voltamos a nos falar e está tudo resolvido." - seu sorriso continuava nos lábios enquanto arrumava sua mochila.
"Tudo resolvido?" - falou Mukuro.
"Sim..." - voltou sua atenção para o semblante sério do casal e seu sorriso ia se desmanchando, pressentindo a preocupação dos dois.
Os dois se olharam ao mesmo tempo e quando olharam novamente para o modelo, sabendo que aquela desculpa de estar atrasado, apesar da negação, era uma desculpa para ver Hiei, o arrastaram para o café ao lado do estúdio, apenas para conversarem mais sossegadamente.
Ao se sentarem na mesa, Kurama resolveu se expressar.
"Gente, o que aconteceu?"
"Eu não acredito. Eu simplesmente não acredito!" - falava Mukuro, mais uma constatação que uma afirmação para o ruivo. Kuronue tomou a frente.
"Shuuichi, vocês se gostam e ficam nessa pasmacera? Como você pode fazer isso?"
Só então Mukuro voltou sua atenção para Shuuichi.
"Olha aqui, Kurama. Está na cara que o Hiei gosta de você. Ele passou por muitos problemas na vida dele e isso o traumatizou, entendeu? Eu faço idéia do que seja, ele nunca me contou, mas nos últimos dias eu andei observando e... Ah, deixa pra lá."
"Eu não estou entendendo o que vocês estão tentando falar! Eu estou indo com calma, dá pra ver a insegurança dele..."
"Não!" - se exaltou a fotógrafa - "É pra fazer exatamente o contrário!" - se enfezando, virou o rosto, não conseguia falar mais nada. E o ruivo continuava com um olhar interrogativo que desviou pra o amigo.
"Kurama... Não transforme o que você sente em apenas uma amizade. Você gosta bastante do Hiei, e a gente já percebeu o quanto ele também gosta de você."
"Tá, mas vocês querem que eu faça o quê? Eu não posso forçá-lo a nada!"
"Pelo contrário, você DEVE forçá-lo!" - mais uma vez Mukuro cortava. Finalmente se acalmando, segurou as mãos do modelo a sua frente - "Preste atenção Kurama. Se depender do Hiei, vocês nunca irão sair disso. Ele é uma pessoa maravilhosa, adora você, não, ama você. Mas ele parece ter medo. Muito medo." - olhou bem firme nos olhos dele e falou - "Se você não tomar uma atitude mais enérgica, nada irá acontecer. E tanto você quanto ele irão sofrer muito por não poderem viver o que sentem um pelo outro."
Aquilo o pegou de surpresa. Gostava do Nobuyuki, aliás, Hiei, e pensou ter tomado uma atitude no dia anterior ao falar com o amigo dublador. Também Yukina tinha conversado com ele e sabia ter uma aliada. Aparentemente agora tinha mais dois. Apenas sorriu e falou brevemente a história do que tinha acontecido, tanto a rápida conversa com a Yukina - que ainda tinha mais uma que estava em pendência - e a conversa que teve com o amigo. Ao saber daquilo tudo, os amigos se sentiram mais aliviados e expuseram seus temores a Kurama.
"Kurama, você já viu que o Hiei é meio quieto, totalmente na dele. Algo me diz que aquilo não é uma atitude normal da personalidade dele. Quero dizer... Ele é reservado, mas ele se contém de um jeito que chega a ser mecânico, muito forçado. E eu já vi o Hiei relaxado." - comentava Kuronue.
"Eu sinto que alguma coisa aconteceu com ele. Não sei o quê, como ou quando, mas que aconteceu, aconteceu. E foi sério." - Mukuro deu uma pausa. - "Eu o conheço há muitos anos, tenho mais ou menos alguma idia, mas prefiro no criar hipóteses. Ele não te contou nada, você não viu nada?"
"Não. Ele é bastante reservado, então nada me foi dito".
"E a Yukina? Pelo que você disse, ela queria conversar com você, não é?"
"Sim, ela queria, Kuro. Quando cheguei em casa ontem já estava muito tarde. Vi que na secretária tinham algumas chamadas perdidas, duas eram dela, mas estava muito tarde pra retornar e como hoje eu tive que sair cedo..."
"Eu acho que você deve sim conversar com a Yukina. Ela deve estar querendo te contar alguma coisa." - deu um sorriso tranqüilo para o modelo a sua frente - "Pode ser que ajude." Kurama também sorriu. Era bom saber que as pessoas estavam ao seu lado, o apoiando. Teve que rir quando ouviu do casal que eles quase bancaram o cupido, mas viram que não haveria necessidade. Foi na descontração que ele viu o relógio e percebeu que estava em cima da hora.
"Gente, muito obrigado por tudo, mesmo. Eu agradeço, mas agora eu realmente tenho que ir. Tenho apenas vinte minutos para chegar ao estúdio."
"Sorte que o estúdio fica a quinze minutos daqui apenas. E Minamino: conte conosco".
"Obrigado. Tchau para vocês."
Deu as costas e foi embora apressado. Estava feliz de que a cada minuto que passava encontrava mais e mais aliados. Chegava a se sentir estranho, pois parecia que todo mundo agora estava tentando fazer com que ele e Hiei se acertassem. Parecia um caso público, ou um episódio de novela. Não sabia explicar. Se sentia um pouco incomodado sim, mas ao mesmo tempo se sentia querido. Mas também temia que estivesse forçando Hiei a alguma coisa. Pensava que talvez o amigo percebesse que tudo não passava de uma confuso e que gostava dele apenas como amigo. Bem, agora só restava mesmo pôr tudo em pratos limpos e esclarecer aquela situação. Pior não poderia ficar e com certeza, no nível em que as coisas estavam, não perderia a amizade do dublador.
Foi com esse pensamento que deu de cara com a porta do elevador se abrindo no andar em que trabalhava. Havia chegado um pouquinho cedo, faltavam sete minutos.
"E aí, Minamino? Tudo em cima" - foi recebido por um sorriso de Satoro, como sempre desde que começou a trabalhar no estúdio. Retribuiu sinceramente o gesto.
"Tudo bem, Satoro, obrigado." - olhou para os lados como se procurasse algo, ou alguém.
"O Hiei ainda não chegou, se é o que quer saber." - falou descontraidamente, como se nada estivesse acontecendo. Kurama enrubesceu pelo comentário.
"Bem... Eu na verdade queria saber se a Yukina já havia chegado."
"Haha! Desculpa. Sim, sim, a Yukina já chegou" - Kurama esboçou um sorriso - "Mas também já foi." - o sorriso desapareceu - " que hoje o turno dela era diferente do de vocês. Ela tinha algumas outras coisas para resolver aqui dentro, mas a essa hora já deve ter ido embora."
"Ah..." Neste momento Hiei entra no estúdio e diferente do que todos pensavam, o clima era o mesmo traqüilo e agradável que aquela sala costumava ter há uns dias atrás.
"Ah, há quanto tempo que eu não fazia isso!" - um sorriso puro e sincero foi esculpido no rosto perfeito do belo modelo, com seus olhos fechados se eriçando todo ao erguer os braços e mantendo as mãos juntas como que num alongamento. Recebeu um olhar de canto do amigo radialista. Estavam sentados numa mesa que ficava ao ar livre, num parque, após terem comprado sorvete. Depois da conversa do dia anterior resolveram voltar a saírem juntos, relembrar os bons momentos. Saíram do estúdio e foram andando num silêncio que tinha se revelado confortável e não tenso como estava sendo nos últimos dias. - "Um passeio e um momento para descansar. Apenas aproveitar o dia, sem me preocupar com nada."
Hiei apenas arqueou as sobrancelhas como que em compreensão e concordância. Um estar na companhia do outro era fácil e agradável. Porém, como sempre, Kurama entendia e enxergava muito mais que a visão.
"O que aconteceu?" - perguntou para o amigo.
"O quê?" - sobressaltou-se o menor.
"Sabia que você estava distraído. Perguntei o que aconteceu."
"Muitas coisas..." - respondeu com um suspiro sem tirar os olhos de cima de seu pote com o sorvete.
"Aquela pessoa?"
"Aquela pessoa?" - perguntou Hiei sem entender.
"É. Há um tempo atrás você estava chateado por causa de uma pessoa. Você tinha dito que vocês tinham discutido, se desentendido ou algo parecido..."
Ficou olhando para o ruivo, forçando a memória e então lembrou-se do ocorrido.
"Ah, sim... . Basicamente ele sim." - respondeu voltando seus olhos para o sorvete.
"Hm... "aquela pessoa" creio que seja seu pai, não é?"
"Mas... Como você...?" - perguntou incrédulo. Se Kurama tivesse jogado verde com aquela informação, ele teria colhido maduro. Mas já era de se esperar, afinal, ele tinha observado tudo. Inclusive ele quase que testemunhara a discussão que os dois tiveram na cozinha do templo no dia do casamento.
"O casamento." - concedeu Kurama, sem dar margens segundas interpretações.
Não comentou mais nada. O amigo sempre via mais que os outros. Era astuto e observador, não deixava nada passar desapercebido, mas mantinha tudo em silêncio.
Hiei apenas suspirou e se perdeu por alguns segundos numa música que ouvia, não sabia de onde, mas bastante conhecida sua.
Koori no Naifu o Daite
(Com uma faca de gelo nas mãos)
Kokoro no izumi no soko ni
Koori o haritsumenagara
Ikite yuku no ga
Ore no shukumei
Tatakai nuku sono tame ni
Enquanto eu congelo tudo o que está
No fundo do lago do meu coração
O meu destino é viver
Para lutar até morrer
Kokoro no hotori de anata ga
Yasashiku ore o yonde mo
Mimi o fusaide
Hashiru hi mo aru
Koori no naifu o daite
Há dias em que, mesmo que você
me chame bem junto ao coração
Eu continuo correndo sem ouvir nada
Com uma faca de gelo nas mãos
Dakedo itsu no hi ka heiwa ga
Kono you o atatameta nara
Itetsuku souru mo tokedasu hazu sa
Purizumu o hanachinagara
Mas se um dia a paz
Já aqueceu este mundo
A minha alma congelada poder derreter
Enquanto emana um arco-íris
Sono hi ga kuru made
Keep on going
We are fighting
Don't stop...
Até esse dia chegar
Continue em frente
Nós estamos lutando
Não pare...
Mirai o shinjite kirikome
Ikiru koto wa kake dakara
Jibun o shinjite tobikome
Jidai o tsukuru tame ni ho,ho,ho
Ataque acreditando no futuro
Porque viver é uma aposta
Voe, acreditando em si mesmo
Para construir uma nova era
Kitto itsu no hi ka chijou ga
Rakuen ni kawaru you ni
Ore no buki sae
Tokaseru hodo no
Hizashi ni afureru you ni
Para que um dia,
O mundo se transforme num paraíso
Para que um dia, o mundo transborde de luz
Até as minhas armas derreterem
Sono hi o motomete
Keep on running
We are fighting
Go on...
Buscamos esse dia
Continue correndo
Estamos lutando
Continue...
Mirai e no hashi o watarou
Ikiru koto ga kake naraba
Kotitsuku tsuribashi datte
Hashitte watatte yaru ho,ho,ho
Vamos atravessar a ponte para o futuro
Se viver for uma aposta
Mesmo se for uma ponte pênsil de gelo
Vou correr, vou atravessá-la
Going to my dream
Fighting for my friends
Running to my dream
Fighting for my friends
Indo em direção ao meu sonho
Lutando por meus amigos
Correndo em direção ao meu sonho
Lutando por meus amigos
Kokoro no izumi ni kakaru
Niji no hashi o miru hi made...
Até o dia em que veremos uma ponte de arco íris
Por cima do lago do meu coração...
Nem precisou ouvir a música inteira para reconhecê-la. Ele a conhecia de cor, tinha gravado aquela música dias antes do Kurama ter sido contratado para trabalhar junto dele. Sorriu: havia se lembrado de algo. Olhou para o amigo novamente e apenas falou:
"Hiei".
"Hã?" - o ruivo fez cara de quem não entendia.
"Tudo isso aconteceu por não termos nos apresentado direito desde o incio. Eu já te chamo de Kurama, mas você ainda me chama de Nobuyuki. Isso porque meu nome Hiei." - continuou sorrindo.
"Hiei" - respondeu em resposta ao argumento do rapaz moreno também com um sorriso. - "Mas você não acha que vai escapar da minha pergunta, acha?"
Na mesma hora o sorriso murchou e ficou fosco, ao mesmo tempo que abaixou a cabeça um pouco e desviou o olhar.
"Ah, Hiei, perdão. Eu não quero invadir a sua privacidade. Se você não quiser contar, então não conte, mas é que eu estava preocupado com você." - mostrou-se arrependido. Não queria estraçalhar a frágil confiança que restabeleceram há poucos dias, dessa forma, ficou com medo de pôr tudo a perder e pediu as desculpas mais sinceras de toda a sua vida. Porém, surpreendeu-se quando este sorriu de forma fraca e balançou a cabeça em negação, fechando os olhos e segurando de leve sua mão resolveu falar.
"É o Hiroshi." - puxou a mão de volta sem realmente perceber as emoções que eram exibidas nas esmeraldas. A garganta secando e a cabeça tiritando pelo enorme esforço por assimilar a palavra pai a Hiroshi. - "Eu não o vejo como pai. Muitas coisas ruins aconteceram no passado." - seus olhos que fitavam o nada voltaram-se para os olhos do ruivo com uma intensidade refletidas nunca antes vistas por ninguém. - "E agora ele retorna para reclamar algo do qual não tem o mínimo direito!"
"E isso te incomoda?" - perguntou serenamente, apenas para fazê-lo falar. Aparentemente ele precisava daquilo.
"Claro!" - respondeu, fazendo um esforço quase palpável para que não explodisse. - "Estávamos bem sem ele! Eu e Yukina passamos por muitas dificuldades por causa dele e hoje, hoje que estamos nós dois muito bem, ele aparece novamente? Nunca tivemos um pai e ele resolve aparecer hoje, como se nada tivesse acontecido? Dispenso."
"Já pensou que você poderia tirar mais da metade desse fardo que carrega sozinho nas costas se você simplesmente esquecesse?"
"Como?" - perguntou sem entender.
"Você mesmo falou: passado. Já foi. Já passou" - se aproximou apenas para que seus rostos focassem mais próximos e a profundidade do olhar aumentasse - "Já acabou."
Negou com um movimento débil da cabeça.
"Você não entende..."
"Entendo sim. Sei que é difícil, mas ninguém falou que era pra ser fácil." - se afastou um pouco e levantou-se. Antes de ir embora falou:
"Pense nisso um pouco. Às vezes é o que falta. Se precisar de mim, você sabe onde me encontrar. Saiba que pode contar comigo."
Viu o amigo se afastar e pôs-se também a ir embora com a cabeça repleta por pensamentos sobre o pai, sobre a irmã, a avó, Kurama e sobre si mesmo.
Nem havia reparado no trajeto até sua casa. Só havia acordado quando se jogara no sofá de sua sala.
Estava cansado, exausto para ser mais exato.
Cansado de tudo.
Até aquele momento, seu objetivo havia sido sua irmã: torná-la uma mulher maravilhosa, uma perfeita dama. Hn. Conseguira. Não pode evitar o sorriso. Ela se casou e agora estava muito feliz. Perfeitamente como havia planejado. Exatamente como havia desejado. Agora aquela casa estava grande demais para ele que já não tinha mais objetivos em mente. Era como um velho que concluiu todos os seus planos e agora apenas aguardava a morte. Mas ele ainda era jovem, sabia disso.
Ele poderia muito bem arrumar qualquer outro objetivo. Pela sua idade, até mesmo construir um objetivo.
Ele também poderia muito bem apenas aceitar o destino, mas ele ainda não conseguia isso... Não se permitia.
"O que eu faço agora..." - soltou num sussurro esfregando os olhos com a ponta dos dedos. - "Por hora acho melhor dormir" - concluiu ao sentir o corpo dolorido reclamando por cama.
Tinha ido à cozinha para beber um copo de leite e quando voltava ouviu som de batidas na porta.
Apenas estranhou e nem pensou muito antes de se dirigir até a mesma e abrir, dando passagem para a pessoa sem nem ver quem era e fechando a porta em seguida.
Tudo isso para se arrepender de no ter pensado ser muito tarde para visitas.
Hiroshi...
"A gente vai conversar, Hiei. E vai ser agora."
CONTINUA...
NOTA: A música "Koori no Naifu o Daite" utilizada na fic foi tirada, novamente do site da Lalachan, que não mais se encontra no ar e a tradução foi feita por Eduardo A. D Lima, em 1997 interpretada por Megumi Ogata, dubladora de Shuuichi Minamino (Kurama).
Pois é, pois é. Ainda não tenho meu próprio PC, mas estamos caminhando para tal. Por imprevistos, tivemos que comprar um novo lá pra casa (com o dinheiro do meu note T-T). O pior é que o antigo está com todas as informações da minha fic (inclusive a continuação e outras fics que eu estava escrevendo) e o novo não tem leitor de disquete e o antigo era tão antigo que não tem porta USB e nem o gravador de CD está funcionando. Logo... Estou desesperada...
Bom, for meu desespero, finalmente, depois de quase um ano, consegui (espero) corrigir o capítulo que a ***** desse site fuzilou, comendo todas as palavras que possuem algum tipo de acento ou til.
Gente, espero qu7e se divirtam, não, não abandonei essa fic e sim, espero do fundo do meu ser que finalmente os tils e os acentos permaneçam no .
Beijos e até a próxima (que espero seja breve!) o/
Otaku Chan