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AS TRÊS VIDAS DE SERENA
Arashi Kaminari
Eu estava preparando o almoço ao som de uma animada música da Shania Twain. Não que eu adorasse música country, mas após alguns dias naquela pequena cidade escutando a rádio principal, eu já havia me acostumado com o estilo musical dela.
Seiya havia sido muito bondoso. Acolheu-me em sua casa para que eu não precisasse ficar em um abrigo. Disse-me que não confiava que eu conseguisse ficar bem por mim mesma sozinha num local desconhecido. Foi muito gentil da parte dele, apesar d'eu saber que já tenho idade suficiente para me cuidar.
Mas era algo temporário. As buscas quanto ao meu passado continuavam, mas não haviam encontrado nenhuma pista até então. Nenhum patrimônio no meu nome, pessoas que me conhecessem ou parentes. Um passado em branco. Seiya brincava comigo dizendo que eu devia ser um fantasma. As vezes eu mesma pensava isso comigo.
As coisas estavam tão difíceis para mim. Eu não queria usufruir do dinheiro de Seiya. Acolher-me em sua casa não fazia parte do seu trabalho, apesar dele apenas desejar meu bem estar. Estava destruindo a vida daquele homem, mas eu não tinha outra forma de me virar naquele momento.
Naquela manhã eu havia tido uma entrevista de trabalho. Fiz alguns testes e o entrevistador disse que entraria em contato comigo. Disse-me que tinha gostado do meu trabalho, mas ainda teria que avaliar outras pessoas e depois decidir com a sua sócia. Creio que tenha ficado com medo por eu não ter um passado.
Como toda cidade pequena que se preze, todos já sabiam que eu tinha perdido minha memória e que estava morando com Seiya enquanto as buscas continuavam. Admito que fiquei desesperançada. Esperava que com aquele dinheiro, pelo menos pudesse ajudar Seiya em alguma despesa e deixar de ser um peso morto.
Pensava nisso quando ouvi um barulho na porta. Deveria ser o Seiya entrando. Havia passado toda a manhã no jardim cuidando das flores, da árvore e do canteiro. Era um dos passatempos dele nos seus dias de folga.
Fui de encontro a ele para perguntar o que ele desejava de sobremesa, mas surpreendi-me ao ver outro homem perto da porta. Era o médico que havia cuidado de mim no hospital, o doutor Kou. Kou! Mas esse era o sobrenome do...
Cumprimentei-o e chamei por Seiya.
oOo
Taiki POVAdmito que me surpreendi ao vê-la em meio a sala da casa de meu irmão caçula. Resolvi dar uma passada na casa de Seiya por ser minha folga e aproveitar para saber sobre o caso da mulher desmemoriada. Ouvi pelo caminho, quando parei num mercadinho, que meu irmão estava hospedando uma mulher de cabelos curtos e loiros. Seria muita coincidência caso não fosse quem eu estava pensando.
Respondi ao cumprimento dela. Percebi que estava tão ou mais surpreendida do que eu, mas eu nada comentei. Esperei pela chegada de Seiya, após ela o chamar. Ele me devia boas explicações.
Os olhos dele arregalaram-se um pouco ao me ver, mas creio que somente eu tenha percebido. Logo cumprimentou-me e apresentou-me a Serena, que disse que já me conhecia por eu ter cuidado dela no hospital. Seiya bateu com os dedos na testa, como sempre fazia quando estava numa situação idiota. Serena perguntou algo a ele e depois que ele a respondeu, pediu licença e retirou-se.
Entreguei a sacola que eu trazia para Seiya, que logo em seguida dirigiu-se a cozinha, entregando-a a Serena. Pediu que eu o acompanhasse até o jardim. Estava terminando de reformar o canteiro. Era até bom que Seiya se ocupasse com outras coisas além do trabalho e encrencas com mulheres.
Sentei-me num balanço que estava amarrado a imensa árvore que havia em meio ao jardim. Olhei o céu e inspirei o ar profundamente. O ar daquela cidade era muito mais limpo do que a da grande metrópole. Pensei que iria me arrepender ao me mudar, mas estar ali só me trazia alegrias. Apesar de ainda sentir saudades do irmão mais velho com quem eu dividia o apartamento na cidade grande, sentia-me realizado podendo ajudar pessoas que não tinha tantos recursos quanto àquelas que eu havia ajudado no passado.
"Desembucha logo! Não quero escutar sermão na hora em que eu estiver almoçando."
Peguei-me surpreso ao escutar a voz de Seiya, que estava de costas para mim. Ele sempre sabia quando eu iria repreendê-lo. Às vezes aquilo me irritava, às vezes me facilitava. Mas eu era tão previsível assim?
"Quando você disse que estava cuidado do caso, pensei que havia acomodado ela em um abrigo." – comecei, fazendo com que Seiya parasse e levantasse a cabeça.
"Eu não lembro de ter citado um abrigo." – ainda agachado, voltou-se a mim, apoiando-se com uma mão no chão, enquanto a outra segurava uma colher de pedreiro – "Eu disse que havia a acomodado. Apenas isso. Desculpe-me se você se precipitou nas suas conclusões." – terminou, voltando-se as plantas.
"Grande coisa! Ocultou-me o fato. Mentir e ocultar não são coisas muito diferentes."
"Mas existe diferença, não existe?"
oOo
Seiya POVEu não estava entendendo Taiki. Ele sempre foi o mais equilibrado de nós três. Yaten sempre foi o decidido, explosivo e incriminador, enquanto eu sempre fui o mais impulsivo. Naquele momento eu podia ver claramente Yaten em Taiki me acusando de ter ocultado algo. Corrigindo, 'mentido' sobre um fato. Eu já era maior de idade, não precisava de alguém me dizendo o que fazer e o que não fazer. Ainda mais me dando lição de moral. Quem ele estava pensando que era?
"O que você quer dessa vez? Ser roubado ou esfaqueado?" – indagou Taiki de forma sarcástica, já me irritando.
"Não seja sarcástico!"
"Estou sendo realista. Você nem sabe quem ela realmente é. Não sabe nada sobre o passado dela." – disse, enquanto levantava-se do balanço – "Já pensou que ela pode ser mulher de um bandido?"
"Ah, meu Deus! Vai dizer o que agora? Que ela é uma espiã!" – e pela primeira vez ouvi a voz de meu irmão sobrepor a minha.
"Você está sendo sarcástico!"
"Ela está aqui a três dias e não me parece uma pessoa ruim."
"Foi o que você me disse nas outras vezes." – acusou-me direta e abertamente.
"Taiki!" – elevei mais um pouco a minha voz, enquanto erguia-me – "Não teste a minha paciência."
"Não teste você a minha paciência." – desafiou-me olhando bem dentro dos meus olhos, tentando intimidar com sua altura enquanto elevava a voz – "Faça o que você quiser. Só não me peça ajuda depois." – sibilou, antes de entrar na casa novamente.
Segui-o, mas era tarde. Ele já havia ido embora. Parei em meio a sala, com os ombros baixos. Parecia que o peso do mundo estava em minhas costas. Eu me sentia péssimo por ter brigado com Taiki. Ele era a única pessoa que eu realmente escutava. Percebi a presença de Serena.
"Sim." – disse por sobre o ombro.
"Tudo bem, Seiya?"
"Sim, não se preocupe." – respondi, voltando meu olhar ao chão.
"Seu irmão não vai almoçar conosco? Estou preparando a sobremesa que ele trouxe."
"Não. Ele tem algo importante para resolver." – respondi , passando por ela e indo em direção ao jardim.
Passei o resto da tarde no jardim pensando. Serena pareceu-me bem receptiva e não incomodou-me. Apenas perguntou-me se eu queria se abrir com ela e com minha recusa, desejou-me melhoras e retirou-se. Ficou na sala assistindo a um filme que passava na TV.
Sorri comigo mesmo, enquanto lembrava os casos que Taiki havia citado. Lembrava-se claramente da garota que havia levado para casa, depois de aparecer na rua totalmente machucada. Não queria levá-la para um abrigo, pois não conseguiria se defender caso tentassem machucá-la. Aquele foi o primeiro erro.
Na segunda noite em minha casa, a garota de dezesseis anos insinuou-se de forma deliberada. Cheguei em casa e encontrei-a no sofá, vestindo uma de minhas camisas sociais e uma gravata. Nada mais. Afastei-a de mim e procurei pela chaves do carro, enquanto xingava a mim mesmo.
Ao procurá-la para levá-la de volta a delegacia, ela apunhalou-me pelas costas na altura da cintura. Mesmo machucado, ainda tive forças para desarmá-la e colocá-la no porta-malas do carro. Não queria correr o risco dela me machucar novamente. Chegando ao meu destino, a garota ainda acusou-me de tentar estuprá-la.
No dia seguinte os pais apareceram e disseram que ela costumava fugir de casa de vez em quando, mas sempre voltava. Ficava de vagabundagem com as amigas que não eram boas companhias e já havia acusado o padrasto de assédio sexual.
A outra louca que havia aparecido em minha vida, não havia me apunhalado, mas roubou minha TV de 29' e minha geladeira, com tudo o que estava dentro. Quando a vi no hospital, senti pena ao saber que ela estava só no mundo. O irmão havia acabado de morrer após um acidente de carro e ela era mentalmente debilitada. Num abrigo não dariam a atenção necessária a sua deficiência. No mesmo dia em que a levei, ela roubou-me e sumiu. Nunca mais tivemos pistas dela. Às vezes eu ainda era alvo de piadas na delegacia por conta desses dois casos.
E se Taiki estivesse mesmo certo? Ela poderia estar fugindo de alguém ou poderia estar mentindo. Eu tinha uma gama de possibilidades na minha frente, mas eu não acreditava em nenhuma delas. O melhor era esperar. O tempo responderia minhas perguntas.