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Surpresa de Natal
Noite de Natal e que diferença fazia? Era só uma noite como todas as outras. Sabia que em algumas casas, as dos cristãos principalmente as pessoas comemoravam com suas famílias e amigos. Outros não se incomodavam tanto, mas ninguém era indiferente a uma noite tão especial quanto essa, menos ela.
Fazia pouco tempo que Botan resolvera ficar na Terra e agora, debruçada na janela do seu quarto se perguntava o porquê. Porque era uma tonta, sempre foi. Era uma mortal agora, podia ter 30, 50 anos de vida pela frente ou morrer naquela mesma noite, não fazia tanta diferença pra ela. E por que desejou tanto essa vida comum? Para ficar perto dos amigos, dissera ela. Que amigos? Deviam estar em suas casas agora, com suas famílias. Alguns dormindo, outros viajando, não sabia bem. Sabia que precisava parar de enganar a si mesma. Viera por causa dele única e exclusivamente. Suspirou e olhou para o céu estrelado. Pra que fizera essa burrice? Podia vê-lo todas as vezes que tinha vontade sem precisar desse sacrifício. Então por que? Talvez a humanidade lhe desse alguma chance mesmo remota. Seria isso?
Talvez. Uma chance era o que realmente precisava. Uma chance para abrir o coração. Dizer que não era uma tonta estúpida, o quanto gostava dele,osciúmes que sentia dela, que pensava muitas vezes em levá-lo para bem longe de todos e tudo se explodisse menos eles. Não conseguia. Cada vez que o via sentia mais tristeza. Tristeza ao vê-lo com ela, ao vê-lo com os amigos e perceber que estava cada vez mais distante. Não bastava tornar-se humana para obter o que desejava. Tinha muita coisa envolvida. O compromisso dele com a outra, a maneira como a tratava, a amizade que nutria pela amiga. Não era nada fácil, por isso ela continuava ali, como um vegetal. Estática, observando tudo em silêncio e cada vez mais melancólica.
Fechou a janela e voltou à cama. Talvez uma noite de sono a fizesse acordar mais disposta. Sabia mais uma vez que estava se enganando. O sono entorpece por poucos momentos. Quando o dia amanhece todos os problemas continuam existindo.
Fechou os olhos tentando adormecer, virou-se diversas vezes, mas o sono não chegava. Não ia esgotar o estoque de leite, bebida que por sinal detestava. Puxou a coberta até não aparecer o rosto. Quem sabe a escuridão total a fizesse dormir...
Estava adormecida, tinha certeza disso. E o que eram aquelas batidas na janela? Era bastante alto para alguém comum alcançar e já devia ser mais de onze horas da noite. Um pouco tarde para visitas de Natal. Encolheu-se na cama e percebeu que as batidas aumentavam. Saiu da cama e foi ao banheiro encher um balde de água. Ia dar uma lição no engraçadinho, mesmo que fosse um gato ou criança.
Sem pensar mais nada, abriu a janela e despejou toda a água de uma vez quando ouviu a reclamação.
-EI MALUCA! O QUE PENSA ESTAR FAZENDO?
Na mesma hora ele estava na sua frente. Tinha uma agilidade incrível.
-O que quer aqui, Yusuke? É Natal.
-Jura? Pensei que fosse dia das bruxas. Você pirou de vez? Por que me deu esse banho?
-Pensei que era algum desocupado e pelo visto não me enganei.
-Você não tem mesmo jeito. E agora? O que vou vestir?
-Se não se importar em usar roupas femininas, meu armário está cheio. Mas como duvido que você queira, pegue um roupão e assim que suas roupas secarem, RUA!
-Educada como sempre. Sua mãe não te deu educação não?
-Não. E a sua? Entre ali e se enxugue. Vou esperar lá fora.
-Botan...
-Sim?
-Você ta muito bonitinha de camisola transparente.
-Idiota! Tarado! Não sei porque não te joguei janela abaixo!
Saiu do quarto, não sem antes jogar um roupão e uma toalha em cima dele. Só podia estar armando alguma brincadeira. Por quais motivos senão esse ele estaria ali àquela hora? Entregar presente não era. Sentou-se pensando no que dizer quando ele viesse. Após alguns minutos ele apareceu.
-Onde você comprou isso não tinha pra homem?
-Não sei se notou, mas é de homem. Não vê que é grande demais pra mim?
-E o que a mocinha faz com um roupão masculino em casa?
-Comprei por engano o tamanho maior. Eu sou um pouco distraída.
-Muito. Não sei como consegue se alimentar sem se envenenar.
-Vai, Yusuke. Fale o que quer e suma. Eu tenho sono.
-Com sono numa noite de Natal?
-É uma noite como todas as outras. Alguns dormem, outros enchem o saco dos amigos. E dai?
-Dai que você está mais chata que o normal. Papai Noel não te deu o que queria?
-Acho que sim, do contrário eu não teria tanta paciência com você. Paciência. Foi isso que ele me deu.
-Eu venho de casa que não é muito perto daqui, fico um tempão batendo em sua janela, ainda levo um banho e você me trata assim?
-Sem rodeios. Vai dizer ou não que brincadeira é essa que faz você ter o trabalho de me incomodar na noite de Natal?
-Já que é assim... Vim passar a noite de Natal com você. Cadê a ceia?
-Ceia? Tem pizza na geladeira, nem comi... O QUE? Você tomou o que?
-Eu? Nada. Por que a pergunta?
-Yusuke, que piada de mau gosto é essa? Ta filmando pra depois mostrar pros outros a pegadinha? Já entendi. Você ta indo na casa de todos os amigos e fazendo isso, filma e depois se diverte as nossas custas, não é isso?
-Você ta paranóica, pentelha. Acha mesmo que eu ia perder meu tempo? Tem formas mais divertidas de zoar de vocês.
-Eu vou te dar cinco minutos. Se você não disser o motivo de sua ilustre visita vai tomar outro banho. E dessa vez não vai ser de água limpa!
-Pizza pra comer no Natal? Que coisa mais sem graça!
-Tire as mãos da minha geladeira! Você está cada vez pior. Não cresce?
-Não, principalmente quando uma pirralha chata e enjoada fica se fazendo de difícil o tempo todo.
-Já entendi. Você foi expulso. Deve ter aprontado e veio filar bóia. Vá em frente, coma e saia.
-Pensa mesmo mal de mim, heim?
-Ai Yusuke, não me irrite ainda mais.
-Não vou comer isso. Deve ter alguma loja de conveniência aberta. Vamos às compras.
-Vai andar pela rua com as roupas molhadas ou de roupão?
-A roupa já deve ter secado. Tecnologias da vida moderna, heim Botan?
Ele a fez trocar de roupa e segui-lo pelas ruas iluminadas. Ainda faltavam pouco mais de 40 minutos para a meia noite. Após alguns quarteirões encontraram uma pequena mercearia que estava quase fechando. O dono os atendeu, depois que Yusuke implorou, alegando que sua esposa grávida não teve condições de preparar a ceia. Botan não pôde deixar de rir. Voltaram pra casa com uma garrafa de vinho e um tender. Não era muito, mas com certeza bem melhor que pizza. Mesmo que ele estivesse ali apenas pra filar não podia deixar de apreciar sua presença. O homem que amava estava em sua casa na noite de Natal. Sem Keiko, sem os outros, sem mais ninguém. Arrumou a mesa e colocou pratos e copos da melhor forma que pôde. Até que não ficou tão ruim. Sentaram-se e comeram em silêncio. Ela o olhava disfarçadamente, ainda intrigada. Mesmo que fosse uma brincadeira não podia estar mais feliz.
Após a ceia, ele a ajudou com os pratos e voltaram para a sala. Botan sentou-se no chão e Yusuke fez o mesmo. Ainda em silêncio, não faziam nenhum gesto, quando Yusuke deitou-a em seu colo e a beijou. Botan ficou estática, mas logo correspondeu. Era Natal, devia ser sonho, então porque não aproveitar? Ao perceber a realidade da situaçãomexeu-se até que ele a soltasse e tentou se levantar, mas Yusuke não deixou.
-Mais alguma brincadeira estúpida, Yusuke? Por que você sempre estraga tudo? Eu já estava começando a acreditar que você não veio aqui pra brincar comigo.
-E não vim. Vim te entregar uma coisa.
Segurou a mão dela e depositou no centro algo que brilhava. Botan abriu os olhos espantada. Era um coração de ouro. Um pingente. No meio a inscrição YOURS FOREVER.
-O que significa isso, pode me explicar?
-Sabe ler? Então leia a inscrição.
-Já li e continuo achando que vocêpirou ou está me zoando.
-E se eu disser que você está enganada? Botan,eu te amo. Quero ficar com você não apenas nessa noite de Natal, mas todas as noites e dias que virão pela frente. Não sei, mas acho que você não é tão indiferente a mim. Talvez esteja enganado e leve outro banho e quem sabe o balde na cabeça. Se estiver errado só me resta voltar por onde vim.
-E a Keiko?
-Só posso dizer que não é recomendável propor casamento a alguém quando o motivo é apenas gratidão. Foi melhor assim. Ela não seria feliz comigo.
-Não sei o que dizer. Isso deve ser muito caro. Como conseguiu? E se eu não te correspondesse?
-Você pergunta demais, pentelha. Esqueceu que sou o rei do Makai? Só não saia espalhando. E quanto a corresponder, você já respondeu.
-Yusuke, você é maluco.
-Sou, fazer o que, né? Papai Noel te deu o maior dos presentes. Eu!
-Convencido como sempre. E se eu te disser que te odeio e te jogar o balde na cabeça?
-Eu vou te levar pro quarto e te trancar lá até o Ano Novo.
-E se eu disser que te amo?
-A resposta continua sendo a mesma.
Fim
Nota: Eu queria fazer um fic meiguinho de Natal. Pensei em Shun e June (CDZ) ou Kurama e Maya, Mas eu to gostando cada vez mais de Yusuke e Botan. Kurama e Yusuke em primeiro, lógico. Quem sabe com esse eu destrave os fics acumulados. Feliz Natal a todos, especialmente a família doida e briguenta que faz o MENTES INSANAS PRODUCTIONS existir.
PS: Roubei a frase da inscrição do pentagrama de Hades. Não deixa de ser linda.