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Anime/Manga » Gundam Wing/AC » À um passo da execução
Arashi Kaminari
Author of 59 Stories
Rated: T - Portuguese - Drama - Heero Y. & Duo M. - Reviews: 26 - Updated: 11-30-05 - Published: 02-20-05 - id:2272955

À UM PASSO DA EXECUÇÃO
Arashi Kaminari

Capítulo 6

Qualquer um poderia dizer que Quatre, Trowa e Duo eram amigos inseparáveis. Desde que se conheceram, ainda na infância, durante uma apresentação do circo local na cidade, nunca eram vistos separados. Iam a todos os lugares juntos, até mesmo se fosse apenas para um deles ir a padaria comprar pão. Eram os autênticos amigos do peito. Eram!... Até entrarem no colegial.

O pai de Quatre mandou o loirinho para longe dos amigos, enviando-o para um colégio interno muito famoso na Inglaterra. Dizia que era o melhor para o futuro de Quatre. Que o filho tinha que alçar grandes vôos e tomar a sua liderança frente as empresas Winner.

Nunca haviam chegado a estudar juntos. Quatre estudava em um colégio particular; Duo, no colégio público mais perto da Igreja, enquanto Trowa tinha lições particulares com as outras crianças do circo. Mas era comum se verem todo santo dia e era aquilo que mais os afetava: o fato de que não poderiam mais se ver diariamente. A despedida foi marcada pela tristeza da separação, mas com a felicidade da promessa que fizeram de se reencontrarem.

Três anos se passaram voando e quando Quatre retornou, Trowa não apareceu para recebê-lo. Mandou avisa-los que estava com saudades, mas não havia conseguido induzir o dono do circo a fazer uma nova turnê em Louisiana perto da data prevista para o reencontro. De vez em quando, Duo se juntava a Quatre e ligavam para Trowa. Os três passavam horas conversando, esperando o dia do retorno do amigo ausente.

Um retorno que só aconteceu quase dois meses depois. Mas estavam tão felizes que nem perceberam o tempo passar. O reencontro do trio foi muito feliz e ficaram até altas horas se divertindo no antigo esconderijo deles: um dos quartos da mansão Winner na ala dos empregados, que quase ninguém usava.

Logo após, Duo começou a trabalhar para ajudar a pagar seus estudos e doar parte de seu tempo para serviços comunitários da Igreja. Não demorou muito para Duo se decidir por seguir as doutrinas católicas e tornar-se um padre. Se antes já estava difícil manter o contato com seus amigos, piorou com o seminário. Perdeu o total contato com Trowa. Sabia sobre ele por Quatre – que sempre aparecia na Igreja quando podia para ver como o amigo estava. Havia sido por ele que soube que Trowa havia conseguido arranjar dinheiro e trabalho, se estabelecendo na cidade para estudar a sua paixão: a música.

Em pensar que desde o reencontro, já haviam se passado quatro anos. O homem a sua frente não lembrava em nada o jovem calado que havia conhecido na infância e de quem havia sido grande amigo. A pele queimada de sol, junto com alguns traços marcados no rosto jovem e os olhos com algum toque de sentimento, o tornavam um outro personagem. Não o mesmo que havia participado da sua vida.

Já estavam conversando – sobre amenidades – fazia alguns minutos na sala da casa do palhaço do circo e mesmo assim, Duo não conseguia sentir a mesma intimidade que tinha antes surgindo.

– Quatre sempre foi meu amigo, mesmo a família dele sendo contra. A velha política de ser uma coisa e fingir ser outra.

Mesmo nunca tendo sido um alvo, era claro que Duo sabia da certa discriminação dos Winner quanto às pessoas que não tinham o mesmo poder aquisitivo deles. Evitavam um contato maior do que o simples parecer da existência. Amizade ou qualquer tipo de laço mais forte era totalmente vetado. Algumas pessoas já haviam se queixado e outras ainda permaneciam com a agressão silenciosa em sigilo. Achava que nunca havia sido um alvo em potencial, porque era da Igreja desde pequeno e os Winner respeitavam quem possuía alguma crença. Ao contrário de Trowa, que era um ateu convicto desde o início da adolescência. Mas Quatre era diferente e somente os seus dois amigos sabiam o quanto ele era especial.

– Não vamos desenterrar mágoas, meu amigo. As pessoas mudam.

– Duvido. – Trowa disse, acomodando-se melhor na poltrona – Duvido muito. O senhor Winner deve ser uma das exceções a regra. Sem falar que nunca enterrei minhas mágoas. Eu apenas as deixei invisíveis.

– Isso se chama rancor e não lhe trará bem algum.

– Tenho certeza que não apareceu por aqui para me dar uma aula de religião. – cortou-o diretamente – O que estava fazendo lá?

– Estava à procura dos autos do caso Winner.

– E por quê?

– Isso realmente importa? – Duo replicou, como havia aprendido a fazer no seminário.

– O assassinato ocorreu há um pouco mais de um ano e agora você deseja saber o que está acontecendo?

– O processo é privado.

– E mesmo assim estou sabendo do que acontece lá dentro. Sabe por quê? – Trowa indagou, recebendo o silêncio do jovem a sua frente como resposta – Porque eu me interesso pela justiça. Eu quero que Quatre seja vingado.

– Vingança... Isso também não é bom.

– Está levando seus estudos a sério, seminarista. – o jovem de olhos verdes comentou, não conseguindo disfarçar o desdém – Quatre me contou que estava estudando para servir a Igreja.

– Sim. Eu devo a ela por tudo o que eu sou.

– Então vai ser servo de Deus por dívida, não por vocação? – Trowa não havia perdido o jeito de tocar na ferida na hora certa. Aquele sempre havia sido seu ponto forte: achar o ponto fraco dos outros e usá-los contra os próprios donos na hora derradeira.

– Trowa, eu...

– Maxwell... É seu sobrenome, não? – Ótimo. Aquela era uma boa hora para o estudante de música se lembrar do sobrenome até então esquecido e concluir o óbvio – É você o seminarista tão falado. Você está ajudando Heero Yuy.

– Eu sou o guia espiritual dele, é diferente.

– Hipócrita! – Trowa o acusou, levantando-se da poltrona, indo na direção do homem de olhos violetas – Você acha que eu sou idiota? Você vai ajudá-lo, não é mesmo? Não conte comigo para sua ensandice. – declarou, apoiando-se nos braços da poltrona em que a visita estava, fitando-a nos olhos, deixando que seu hálito encontrasse o outro rosto e que suas palavras subjugassem a outra pessoa – Não o ajudarei a salvar o assassino de Quatre e Iria, nem que Deus venha a Terra. Se é que ele existe.

– Não blasfeme contra Deus. – Duo rebateu, projetando-se para frente, enfrentando o anfitrião.

– Você blasfema contra o próprio, seu desgraçado! – Trowa gritou, ao mesmo tempo em que se punha de pé e atirava o, então, amigo ao chão em seguida. Duo bateu com a cabeça no solo e ficou meio zonzo. Quando tentou se levantar, sentiu a mão de Trowa em seu pescoço. Voltou-se rapidamente na direção do homem mais alto e puxou-o para o chão, atracando-se com ele como se ainda fossem crianças de jardim. Há muito não participava de uma luta corporal, ainda mais por um desentendimento tão banal.

– Você pode me bater o quanto quiser, Quatre não voltará. – Duo declarou, após dar uma cabeçada em Trowa – Eu não vim aqui atrás de briga. Eu só quero saber algo sobre o processo. – o seminarista continuou, conseguindo imobilizá-lo por uns instantes com o peso do seu corpo – Se você quer saber, eu também o acho culpado. E eu me seguro toda vez que entro naquela sala para não matá-lo com minhas próprias mãos. – aquilo parecia ter feito algo dentro do artista circense acordar, pois ele logo se acalmou, deixando o jovem de trança levantar – Quatre era tanto meu amigo quanto seu. Eu também quero vingá-lo, apesar de saber que é errado. – pegou suas coisas e dirigiu-se a porta. Não havia mais nada a ser dito. Não. Havia sim! – E só para responder sua pergunta, eu não tenho mais tanta convicção que estou estudando para ser padre por vocação.

– Rashid.

– O quê? – voltou-se ao amigo que ainda estava estirado no chão, ao ouvi-lo pronunciar um nome num sussurro.

– A quarta pessoa era o ex-general Rashid. Era dono de uma próspera empresa. Estava de passagem por aqui. Suicidou-se antes de ser pego. – Trowa respondeu, cuspindo um pouco de sangue em seguida. Ao menos parecia que a briga havia servido de alguma forma.

– Foi bom revê-lo novamente, Trowa.

oOo

Havia percebido que Duo estava há muito ajoelhado, rezando. Para ser preciso, desde a hora que havia chegado da rua à procura de informações sobre o caso do menino e da menina Winner. Não que não se interessasse pelo caso, mas procurava não saber pela boca do sobrinho. Queria notícias imparciais e não cheias de amargura como a qual escutaria se perguntasse ao garoto. Sem falar que já havia pessoas demais importunando o jovem com perguntas curiosas, para ele ter que aturar alguém da própria família não respeitando sua dor. Aproximou-se do garoto que ainda se mantia a rezar ereto.

– Rezas por ti ou pela alma errante? – indagou-o, sentando no banco ao lado de Duo, percebendo que o jovem seminarista abria os olhos para lhe responder.

– Por todas as vidas envolvidas nesse caso.

– Sabe, estive te observando desde aquele dia. Percebi grandes mudanças. Fico feliz por elas.

– Continuo o mesmo Duo. – respondeu, voltando a fechar os olhos. Apertando mais uma mão na outra – Rebelde como sempre.

– Porém mais discreto. Muitos aqui são rebeldes como você. Mas ao contrário da tua alma, a deles criaram certos limites.

– Então estamos em meio a uma grande farsa.

– Não. Estamos em meio a uma grande comunhão pela sabedoria. – Padre Maxwell respondeu, pondo uma das mãos sobre um ombro de Duo.

– Eu pequei.

– O que fizeste dessa vez?

Deu um suspiro antes de dizer, quase que prevendo a reação do padre.

– Encontrei Trowa hoje. Por acaso.

– O jovem Trowa? Há quanto tempo não o vejo. A última vez que tive notícias dele soube que estava estudando música.

– Sim. No conservatório, junto com Quatre. – assentiu, completando em seguida – Ele me bateu enquanto conversávamos. Não consegui me conter e revidei.

– Ele te ofendeu antes?

– Sim.

– Sentiu-se ofendido?

– Sim. – confirmou novamente.

– Quando nos ofendem, devemos mostrar nossa verdade a pessoa e com isso crescer. Não mostrar maior selvageria.

– Qual será meu castigo? – Duo indagou, cortando um provável sermão extenso.

– Nenhum.

– Nenhum? – perguntou novamente, não acreditando na resposta que havia obtido.

– Rezar a tarde inteira sem obrigação, já mostrou que você se auto castigou o suficiente. Ande. Levante daí. Ajude ao próximo. É uma boa forma de remissão dos pecados.

– Obrigado padre. – agradeceu com um sorriso nos lábios, recebendo em troca um cafuné.

– Não há de quê, criança.


15, 22, 23, 24 de outubro de 2005.

Notas da autora:

Maiores informações quanto a demora disponível em http / w w w . arashikaminari . weblogger . terra . com . br .

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