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Nota de março de 2007: Revisei o fanfic e unir alguns capítulos. :) No mais, a história é a mesma. Espero que continuem gostando!
Nota da Autora:
A idéia para escrever este surgiu em meados de agosto passado (logo que eu terminei meu primeiro fic de CCS), e o tempo foi passando e os detalhes foram formulados nesse período. Eu estava (e ainda estou um pouco) enrolada com outros fics que escrevo, mas agora teve um momento que não agüentei mais pensar e repensar nas idéias e resolvi começá-lo...
Como é meu segundo fic de CCS, eu agradeceria se alguém puder comentar a respeito das impressões que teve deste capítulo (se ficou bom, ruim, alguma coisa entre os dois...), principalmente se acharem digno de atenção e comentário de alguém. Tudo será bem-vindo (exceto xingamentos à pessoa da autora e fofocas. Essa última aí fica por conta da vizinha lá do canto).
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Disclaimer: Não é minha série. Vocês não gostariam que fosse, gostariam?
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Kokoro wo Tsunaide
Unindo Corações
Capítulo 1: As razões deles
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Para Jenny-Ci
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Li Syaoran esfregou as mãos antes de aproximar o dedo da campainha da casa da ex-mulher. Fazia frio naquele dia, uma nublada manhã de outono, e ele torcia para que uma chuva não desabasse, para não assustar a uma certa pessoa que ele sabia ter medo de trovões. Ele achava que era ainda muito cedo para ter que cuidar de gente doente que tinha medo de trovões.
Não que ele não gostasse da pessoa... Para ele, passar um dia inteiro com Ayame era uma das maiores bênçãos que um pai como ele poderia ter... A filha estava muito doente, e ele estava desempregado, mas a ex-mulher dele ainda tinha seu emprego, por isso, ela gentilmente pediu para cuidar da filha deles enquanto resolvia problemas e assuntos muito importantes na empresa de publicidade que trabalhava. Sakura vivia um bom momento da carreira e ele, que não desejava mal à mãe da própria filha, esperava que ela não tivesse a mesma sorte que ele tivera com seu último emprego.
Uma ventania soprou mais forte e milhares de folhas secas passaram aos pés dele, algumas prendendo no sapato, fazendo-o levantar um pé para que uma delas saísse debaixo e continuasse a voar junto ao vento.
De um suspiro e tocou a campainha. Segundos depois, percebeu que chegara em má hora ao escutar diversos sons vindos da casa: cadeiras caindo e um grito feminino, além de vidro quebrando, quase tudo ao mesmo tempo e não nessa ordem.
A porta se abriu e um rosto feminino, muito gracioso e que foi, por algum tempo, digno da atenção dele, apareceu. Sakura já estava vestida e parecia um pouco nervosa.
-Você está atrasado... – ela choramingou, franzindo a testa – Eu precisava sair antes das sete!
-Mas você disse que era pra aparecer aqui às sete. – ele se justificou, tirando os sapatos ao entrar na casa quando ela o deixou passar. Olhou o interior com atenção; ele sempre visitava a filha todos os sábados e domingos, e sempre notava a nova ordem dos móveis, feita por Sakura. E percebeu que a sala estava uma bagunça, com brinquedos e pastas de trabalho da ex-mulher espalhados pelo chão ou por cima do conjunto de sofá.
-Eu disse? – Sakura voltou à cozinha, seguida por Syaoran – Eu não lembro disso!
-Você estava cozinhando alguma coisa? – Syaoran perguntou, mexendo discretamente o nariz para sentir o cheiro de algo – Tem alguma coisa queimando.
-Os pãezinhos da Ayame! – ela gritou, correndo ao forno para desligá-lo – Ah... isso sempre acontece quando estou com pressa...
Syaoran abaixou-se e pegou alguns cacos de vidros para levá-los ao lixeiro destinado a vidros. Sim, ele lembrava de uma certa época que isso acontecia. Quatro anos depois e Sakura continuava a mesma atrapalhada quando estava atrasada para alguma coisa.
-Eu faço o desjejum dela hoje... Ayame ainda está dormindo? – ele perguntou para mudar o assunto, pegando papel para limpar o líquido derramado quando o copo se quebrara, tomou cuidado para não ferir os dedos com alguns pequenos cacos que porventura não enxergasse.
-Sim... – Sakura fechou os olhos e deu um suspiro, pegando depois algumas pastas (que incrivelmente conseguiram chegar à cozinha com a ajuda da bagunça) da mesa e juntando-as, batendo de leve na madeira para não ficassem desniveladas – Está desde ontem à noite com aquelas dores de cabeça... Acho que é a vista...
-Ah... – Syaoran tirou o casaco e colocou-o em cima de uma cadeira – Quer que eu a leve ao médico?
Sakura parou o que fazia por um momento e observou-o, pensativa.
-Se não der muito trabalho... Se preferir, pode chamar por um pra vir aqui em casa. Os documentos dela estão naquela mesinha lá do meu quarto, na primeira gaveta.
-Certo... – ele falou, ficando em silêncio ao vê-la pegar mais pastas e nivelá-las na mesa.
-Você ia procurar emprego hoje? – ela perguntou casualmente, voltando à sala para pegar a bolsa, escorregar a alça pelo braço direito e deixá-la no ombro.
-Falou bem: ia. Mas eu posso ficar hoje com ela o dia todo. – balançava-se nas pontas dos pés enquanto falava e olhava o corredor no qual ficava o quarto da filha.
-E quanto ao problema do seu apartamento? Já resolveu?
-Ah... – ele olhou o teto e suspirou profundamente antes de responder – Não. Vou procurar por um lugar pra ficar. O proprietário me deu mais dois dias lá.
-Oh... – ela o olhou. Os lábios estavam entreabertos, como se quisesse falar alguma coisa ou um conselho, mas se fecharam e ela os franziu por um momento, falando por fim – Podemos conversar sobre isso mais tarde.
O jovem de vinte e cinco anos arqueou as sobrancelhas. Já imaginava sobre o quê ela falaria. A pensão de Ayame estava atrasada um mês e ele pedira a ela que aguardasse um pouco pelo pagamento, até ele conseguisse um emprego fixo.
-... Tudo bem, Sakura. Vou esperar por você.
A ex-mulher deu um sorriso e acenou para ele graciosamente.
-Qualquer coisa, pode me ligar. O telefone está anotado num papel lá na mesinha do quarto.
Tudo naquela mesinha do quarto, ele pensou com um sorriso. Tudo que ele precisava, encontraria lá. Sempre que Sakura perdia alguma coisa, a mesinha era o último lugar que ia procurar e, surpresa!, lá estava o que ela queria.
-Boa sorte no trabalho, Sakura. – ele falou, forçando um tom amigável ao ter a impressão de que a conversa seria uma verdadeira dor de cabeça – Qualquer coisa, eu ligarei.
-Até loguinho! – ela falou, abrindo a porta e fechando-a antes que uma corrente fria entrasse na casa e levasse folhas secas para dento. Parte de trás do cabelo dela ficou preso na porta e ela teve que abri-la de novo para tirar a ponta, voltando a batê-la depois de ranger entre os dentes que as coisas sempre davam errado quando ela estava com pressa.
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Era quase dez da manhã quando Syaoran – jogado no maior sofá da sala e cochilando, afinal ele sentiu-se cansado depois de ter um dia cansativo em busca de emprego, como fora o anterior – sentiu que alguém puxava a manga direita dele. Abriu os olhos devagar e sentou-se depressa ao perceber que uma adorável criança de cinco anos estava olhando para ele.
-Pai... – ela murmurou.
-Aya... – ele bocejou e depois puxou a cabeça para que ela se sentasse na perna dele – Já está melhor?
-Eu tô com fome... – ela murmurou, esfregando os enormes olhos verdes – Mamãe já foi?
-Vou cuidar de você. – Syaoran deu um sorriso – Vamos ficar sozinhos até ela voltar. Não é ótimo?
A menina fez cara de choro e fungou, principiando a chorar e fazendo o pai estreitar os olhos.
-Ei, eiIsso não é tão ruim. – levantou-se e segurou-a nos braços, levando-a à cozinha – Quer comer alguma coisa?
-Chocolate! – o choro parou como que por um encanto, e ele a colocou em cima da mesa, quase na borda.
-Está muito cedo pra comer isso.
-Ah, pai...
-Não, Aya.
-Mas nem um pouquinho? – ela pediu com uma cara de criança quase para chorar.
-Ayame... – ele falou num tom de aviso, abrindo a porta do forno. tampou o nariz ao sentir um cheiro de queimado um segundo depois, o mesmo fez a menina.
-Foi a mamãe quem fez? – ela falou numa voz nasalada.
-Sua mãe é louca de tentar fazer tantas coisas ao mesmo tempo... – ele murmurou.
-Vou falar pra ela que o senhor a chamou de louca.
-Não, não vai.
-Vou sim.
-Não vai, Ayame. – ele fechou o forno e voltou a pegar a menina para carregá-la à sala – Vamos pedir alguma coisa pelo telefone, certo?
-‘Tá! – ela ergueu um braço e acomodou-se no sofá quando o pai a deixou lá para pegar o telefone e a lista.
-Sua dor de cabeça passou? – Syaoran perguntou.
-Passou... – ela agarrou uma almofada e a apertou contra o peito, inclinando o rosto nela – Vamos pedir pizza?
-Não.
-Vamos...
-Não.
-Por favor...? – ela fez de novo uma cara de choro.
Syaoran deu um suspiro e acabou assentindo num movimento vago de cabeça, o que fez a menina gritar “oba” e erguer os braços, jogando a almofada para o alto.
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O casamento entre Li Syaoran e Kinomoto Sakura, ex- Li Sakura, ocorrera dois anos antes e durara apenas três anos. O motivo alegado pelos dois fora que nada deu certo depois que ambos se uniram, e nem mesmo Ayame foi um motivo para tentarem mais uma vez. Tudo fora resolvido de forma amigável, e a garota ficou aos cuidados da mãe por ser da mesma nacionalidade que ela.
Syaoran era chinês e veio ao Japão para estudar e se formar em jornalismo. Para ter um visto maior de permanência no país, precisava casar com alguém, e na época já namorava Sakura. Fez uma proposta a ela, que aceitou, recebendo apoio das duas partes: a sossegada família dela (embora tivesse um irmão que detestava Syaoran) e a simpática família dele, ganhando Sakura várias cunhadas.
Mesmo quando o casamento acabou, todos ainda se viam e conversavam como se os parentes ainda estivessem casados... Principalmente porque todos, sem exceção, adoravam Ayame.
Syaoran perdera o emprego com a crise econômica que afetava o Japão. Como precisava estar empregado para ter um motivo para ficar ali, a situação era preocupante. Mas ele não desistia. Não enquanto existisse Ayame.
E lá estava ele, num consultório médico, esperando que aquele simpático médico que não parava de sorrir terminasse se examinar os olhos de Ayame. A preciosa Ayame dele e de Sakura.
Finalmente o médico afastou aquela enorme peça da frente da menina, que estava sentada numa cadeira inclinável, e alargou o sorriso gentil ao falar:
-Pode descer, Ayame.
-Posso ficar mais um pouco? – ela perguntou, segurando as mãos firmemente nos braços.
-Não. – o médico respondeu simpaticamente.
-Papai, posso ficar aqui? – ela fez cara de choro ao pai, que virou o rosto para não se sentir tentado a dizer sim.
-Obedeça ao médico, Aya. – Syaoran falou de onde estava e cruzou os braços.
A garota desceu foi acompanhada do médico, que galantemente pegou na mão dela e a levou até o pai.
-Eu vou precisar usar óculos? – ela perguntou ao sentar-se na cadeira ao lado do pai.
-O que ela tem, doutor... – olhou o nome dele de novo na placa em cima da mesa. Como diabos conseguia esquecer o nome dele com tanta facilidade? – Yukishiro?
-Ela não tem problema algum na vista. – o médico sorriu ao falar, cruzando as mãos.
Syaoran ficou intrigado.
-Não?
-Eu não vou usar óculos? – Ayame falou com tristeza ao pai.
-Não, Ayame-chan. – o médico respondeu por Syaoran.
-Mas... – o pai tentou falar – Ela está desde a semana passada assim... Não pode ser nada na visão mesmo?
-Acredito que seja apenas stress. Crianças geralmente são ativas e acho que, se ela tiver muitas atividades na escola, deve ficar muito cansada.
Aquilo era verdade. Ayame tinha escola, aulas de balé, aulas de piano, aprendia inglês, computação e até mesmo mandarim, uma exigência da família Li.
-Eu vou conversar com a mãe dela a respeito disso, doutor... – ele agradeceu, pegando na mão de Ayame para saírem do consultório – Tenha um bom dia.
-Bom dia, senhor Li. Até outra vez, Ayame-chan.
-Até outro dia! – ela acenou, e o médico os viu sair para que outros pacientes entrassem.
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À noite, quando Sakura chegou e todos já haviam jantado – Syaoran ficou a pedido dela –, ela pôs a menina para dormir e ficou observando o rosto da filha depois de saber o resultado da consulta pelo ex-marido, que estava ao lado dela, já preparado para ir embora. Ayame tinha as mesmas feições da mãe, só as linhas dos olhos que pareciam as do pai. O resto – olhos, cabelos, cor do rosto e até mesmo o sorriso – foram heranças dela.
-Ela pode ficar um tempo sem o balé, o piano e o inglês... – ela começou ao afastar uma mecha que cobria parte da testa da menina.
-Se minha família não pegar muito no pé, do mandarim também. – ele opinou – Aquilo ali é complicado demais e pra mim foi uma dor de cabeça na hora de aprender.
-Do curso de computação também. Ela pode aprender depois... É muito nova ainda... – ela levantou-se da beirada da cama e cobriu uma parte do corpo infantil com a colcha – Ainda mais que o pai está desempregado.
Syaoran nada comentou.
-Vamos conversar, senhor Li. – Sakura falou num tom informal, mais parecendo uma secretária falando a um cliente especial do chefe.
Escutou o ex-marido dar um suspiro, o tipo de sinal que ele fazia quando se preparava para uma possível discussão.
Foram para a sala, onde os dois se sentaram em sofás separados e fitavam um ao outro.
Sakura foi a primeira a falar, cruzando as mãos em frente de um dos joelhos das pernas cruzadas.
-Já que Ayame ficará fora dessas atividades durante boa parte da tarde, e eu estou envolvida com alguns projetos lá da empresa, ela vai precisar ficar com alguém.
-Continue. – ele pediu quando ela ficou em silêncio.
A jovem, em vez de responder, apenas sorriu.
-Ah... – Syaoran teve que controlar a vontade de rir ao perceber aonde ela queria chegar – Ah, entendi...
-Eu sugiro que cuide de Ayame durante esse período.
-Sakura... Querida... – ele inclinou-se e pressionou os braços nos joelhos – Eu ainda não arranjei o meu emprego... Esqueceu disso?
-Você pode procurar por um enquanto ela fica na escola, Syaoran... querido... – ela rebateu – E já que está com problemas com o apartamento, pode vir morar aqui enquanto não arruma um emprego e outro lugar pra morar.
-Espere um pouco... Você quer que eu banque a babá da minha filha? E aquela garota que você arranjou, a tal da Nakuru?
-Não, Syaoran... – ela franziu a testa, preocupada – Eu não confio em mais ninguém além de você... E não gostei dessa menina desde que ela esqueceu Ayame na escola até às oito da noite porque estava...
-Nakuru fez o quê? – Syaoran ficou alterado e viu Sakura mover uma das mãos em frente ao corpo.
-Uma idiotice, nunca mais deixei que chegasse perto de Ayame. – Sakura respondeu e uniu as mãos – Por favor, Syaoran... É um dos melhores momentos que já tive naquela empresa... Faz isso por mim...
-Sakura... – ele deu um suspiro.
-...“Por favor”? – ela apelou, fazendo uma cara de tristeza, ponto fraco do ex-marido.
Demorou a ele responder, mas finalmente Syaoran assentiu e Sakura levantou-se do sofá e deu um pulo.
-Vamos arrumar um lugar pra você aqui... Pode mudar amanhã mesmo. – ela sorriu.
-Tudo bem... Pelo menos eu tenho onde ficar. – ele falou, levantando-se e dirigindo-se à porta depois de olhar o relógio. Quase nove da noite... Tão tarde...
Sakura o acompanhou até a saída e os dois olharam por um momento o céu, que estava coberto de nuvens. Talvez aquele resto de verão fosse daquela forma, mas ainda existisse a esperança de que o outono fosse ameno.
-Virei amanhã... Com as minhas coisas... Vou resolver esta noite a minha saída de lá com o proprietário.
Deu alguns passos e desceu os degraus que levavam a portinhola da cerca, parando para olhar para os lados. As ruas de Tomoeda estavam desertas, mas não havia perigo algum em se caminhar sozinho por elas.
-Syaoran. – Sakura o chamou e ele a olhou.
-Sim?
-Boa sorte. – ela sorriu e ele fez o mesmo.
Li acenou a ela e depois colocou as mãos dentro do casaco, tomando a direção esquerda para ir embora.
E quando ele dobrou a esquina, Sakura fechou a porta.
o-o-o
Faltava apenas uma caixa para que a mudança de Li Syaoran estar completa. Primeiro isso, depois a arrumação do pequeno quarto de brinquedos de Ayame, onde dormiria dali por diante.
Eram algumas caixas e as malas dele que disputavam espaço entre as bonecas da filha, e ele ainda se perguntava onde exatamente dormiria. Ali não tinha espaço para mais nada, era parecido com aqueles apaato’s alugados a estudantes ou a trabalhadores estrangeiros.
Mas, tirando o desconforto, estava bem instalado. Não podia reclamar de nada ou acabaria sem aquele espaço também. Sakura foi tão gentil em ceder-lhe o lugar...
Algum dia iria recompensá-la, ainda mais agora que não enfrentavam a fase horrível de quando eram casados.
Falando nela, a ex-esposa saíra e Ayame estava no colégio. Por volta de três da tarde a pequena estaria de volta, enquanto a mãe só voltaria à noite.
Olhou o relógio no pulso. Dez da manhã ainda. Dava tempo de descansar um pouco antes de procurar algum emprego nos jornais ou ir ao correio mandar o currículo a empresas da cidade. Não queria nada nas linhas de montagem. Como quase japonês, sentia orgulho de ter passado anos estudando para não ter que se rebaixar e trabalhar como operário.
Mas, antes de procurar emprego, teria que arrumar o quarto. Depois pensaria na cama. O sofá poderia substituí-la por enquanto.
Parou e franziu a testa.
O que ele tinha que fazer mesmo...?
Melhor descansar primeiro. Fazer as coisas calmamente era uma habilidade especial que ele tinha.
o-o-o
Daidouji Tomoyo sorriu ao ver a melhor amiga cantarolando enquanto arrumava a mesa do escritório dela. Há tempos que ela não cantava “Platina” de forma tão descontraída, talvez desde que se formara.
Aquilo era... estranho.
–Sakura-chan?
A amiga parou de arrumar os papéis e a olhou.
–O que foi? – Tomoyo perguntou.
– “O que foi” o quê? – Sakura rebateu.
–Você está... cantando. – ela completou com um sorriso.
Sakura piscou duas vezes.
–Há algum problema nisso? – perguntou.
–Aconteceu alguma coisa? – Tomoyo falou gentilmente – Ontem você estava tão nervosa porque Aya-chan estava doente...
–Ela já esta melhor.
–E Li-san precisou ficar em casa e cuidar dela.
–Ele está fazendo um bom serviço.
Os olhos de Tomoyo se arregalaram e a boca ficou ligeiramente aberta.
– “Está”? – ela repetiu.
A outra parou o que fazia e só então percebeu. Não havia contado à amiga a respeito das recentes conversas com Syaoran e o acordo com ele.
–Bem... – Sakura sentou-se e deixou que nos lábios aparecesse um sorriso forçado – Ele está com problemas e resolvi ajudá-lo.
–Oh?
–Ele ainda não conseguiu um emprego e está sem casa. E Ayame saiu dos cursos que fazia à tarde... Ela está meio cansada, sabe? Syaoran vai cuidar dela e morar conosco.
– “Morar”? – os olhos de Tomoyo ficaram ainda maiores.
As duas ficaram num incômodo silêncio.
–Sakura... Você está certa disso?
–Mas o que tem de errado, afinal de contas? – ela franziu a testa – Ele está com problemas. Eu não posso ficar só olhando o pai da minha filha assim se eu posso ajudar.
–Ah... – então era isso. Ajudar os outros era algo tão típico de Sakura... Nada com que pudesse se preocupar, felizmente. Só de lembrar o que acontecia na época em que esses dois eram casados.
Balançou a cabeça e sorriu. Sim, era bom esquecer as lembranças ruins, Tomoyo pensou.
–No final de semana eu posso visitar Aya-chan? – perguntou, levantando-se e ajeitando o cabelo, que caía graciosamente nos ombros, jogando-os para trás.
–Bem... – Sakura hesitou. Ayame precisava se divertir e planejara levá-la à casa dos pais no sábado, que moravam num distrito em Yohohama, a alguns minutos de uma praia.
–Vai levá-la a outro lugar, né?
–Eu queria passar o sábado na casa de papai e mamãe... Se quiser ir...
–Eu gostaria, sim! – Tomoyo bateu palmas, animada – Será um prazer.
–O que será um prazer, milady? – uma voz masculina com sotaque perguntou, fazendo-se presente na sala.
Ao vê-lo, Tomoyo sorriu. Era o homem com quem vivia há alguns meses, morando juntos no apartamento dele. Hiiragizawa Eriol era o nome dele e era japonês, porém vivera muito tempo na Inglaterra, e atualmente trabalhava como diretor daquela agência.
–Sakura-chan vai visitar os pais com Ayame-chan no sábado. – ela começou – Eu gostaria de ir.
–Você vai. – Eriol confirmou gentilmente.
–Você também pode ir, Eriol. – Sakura terminou de arrumar as pastas e abriu um armário para guardá-las na ordem das cores – Não será um incômodo.
–Sinto muito, mas não poderei ir. Estarei ocupado com a leitura de algumas fichas.
– “Fichas”? – as duas perguntaram.
–Ops... São currículos. Errei a palavra. – ele se corrigiu, mantendo a pose – Teremos gente nova e a partir de amanhã começarei a ler e selecionar candidatos.
–Ah... – Tomoyo parecia desanimada – Então... Então eu...
–Então você vai com Kinomoto a Yokohama, Tomoyo. – ele asseverou – O meu serviço será muito cansativo e eu não quero ter a impressão de estar a ignorando por um ou dois dias.
Que bonito, Sakura pensou ao vê-lo encostar-se na mesa e a amiga com aquela expressão doce dela. Um se importando com o outro.
Sentiu algo doer no peito ao lembrar-se da grande diferença da época em que era namorada de e posteriormente esposa de Li. Era triste lembrar o que definitivamente foi o fim do casamento.
“O que foi que erramos?”, lembrou-se da pergunta dele.
–Você já vai pra casa, Sakura-chan? - - a amiga perguntou ao vê-la segurar a bolsa.
–Hmm... – Sakura demorou a responder. Refletir a respeito de certas coisas a deixava lenta – Já... Já vou...
–Tenha uma boa noite, Kinomoto. – Eriol falou e a viu se curvar num agradecimento – Melhoras para sua filha. Tomoyo me contou que ela está doente.
–Obrigada, Hiiragizawa. – Sakura agradeceu e andou até a porta, na qual parou para acenar para Tomoyo e ir embora.
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–Eu gosto desse programa. – Ayame falou ao pai, que fazia cócegas no pé dela enquanto viam tevê.
Syaoran não comentou. Estava pensando em Sakura e no estranho comportamento dela à mesa durante o jantar.
Certamente que ele sabia que a ex-esposa era um pouco desastrada, atrapalhada demais para uma mulher na idade dela. E sempre que a via naquele estado – quebrando coisas, derramando líquidos, deixando cair comida pelos cantos –, era porque Sakura escondia algo ou não tinha coragem de falar alguma coisa.
–Aya-chan, hora de dormir. – a mãe apareceu na sala e avisou – Vá se arrumar.
– ‘Tá! – a menina pulou do sofá e correu para o quarto, fechando a porta aos pais. Não precisava de ajuda para se arrumar para dormir.
Sozinhos, Li encarou a ex-mulher e piscava várias vezes enquanto ela o encarava, como se aquilo pudesse persuadi-la a falar qual o problema que ela tinha.
–O que foi? – ela perguntou.
–Essa pergunta é minha. – Syaoran rebateu, levantando-se para sair da sala e ir ao quarto dele – Você derrama suco de uva na minha perna e deixa cair meu prato no chão como se não tivesse acontecendo nada.
–Não está acontecendo nada. – ela o seguiu e rebateu um pouco irritada. Como ele podia pensar que a conhecia tão bem?
–Ah, claro que não. – foi a resposta sarcástica e bem-humorada dele – É muito comum isso acontecer.
–Syaoran!
Ayame gritou pela mãe e Sakura lançou um olhar atravessado a Syaoran antes de sair do quarto para ver o que a menina queria.
Jogando-se no futon, ele fechou os olhos e suspirou cansado, pensando que talvez Sakura estivesse preocupada com o cansaço da filha. Mesmo assim, sentiu-se irritado. Ela deveria saber da obrigação que tinha em contar qualquer coisa que fosse relacionada à Ayame, principalmente agora.
Olhou o teto e sentiu-se esgotado. Tinha andado bastante naquele dia: andando em agências de correio, mandando currículos, cuidando de Ayame durante toda a tarde... A última parte tinha sido a melhor. Há quanto tempo não passava horas cuidando dela?
Olhou ao redor assustado ao perceber que já cochilara, sem nem ao menos tirar a roupa de dormir. Devia ter sido por dez minutos pelo menos, o que o fizera perceber que precisava dormir.
Levantou-se e bocejou, passando a mão pelos cabelos castanhos e revoltando-os ainda mais. Caminhou ao banheiro enquanto esfregava um olho, ainda sonolento, abrindo a porta para arregalá-los ao ver Sakura quase nua, de costas para ele.
Como ela se virou o rosto para ver quem tinha entrado, os olhares se encontraram e os dois ficaram em cômico silêncio.
Um segundo depois, a cabeça de Syaoran foi alvo de um sabonete, que conseguiu lançá-lo para fora do banheiro e deixá-lo gemendo de dor no chão.
–Ei, Sakura! – ele levantou-se depressa, esfregando a testa irritado, esmurrando a porta depois – Por que fez isso?
–Bata na porta antes, Li! – ela reclamou por uma fresta que fizera - Eu vou tomar banho!
–E qual é o problema? – ele franziu a testa – Eu já te vi sem roupa antes!
Outro sabonete, lançado por Sakura quando abriu subitamente a porta, o derrubou e Syaoran viu estrelinhas no chão.
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Mais de meia hora depois, Syaoran finalmente havia tomado banho e, sentado na beirada do colchão e já vestido, enxugava os pés, resmungando algumas coisas contra a ex-mulher.
–Li? – Sakura bateu na porta – Podemos conversar?
Excelente, ele pensou ao jogar a toalha longe e se levantar, marchando decidido para abrir a porta e dizer coisas importantes na cara dela.
Entretanto, ao fazê-lo e se ver em frente a ela, deu um grito estrangulado e recuou alguns passos até a cama, caindo nela.
–Sa-Sakura! – ele gaguejou assustado – O que é isso no seu cabelo?
Viu-a piscar várias vezes e olhar para cima, como se pudesse enxergar a própria cabeleira, que tinha vários cachos enrolados e presos com grampos, fazendo a cabeça parecer um modelo de escultura da Medusa.
–Bem... – ela deu um sorriso sem graça – É que meu cabelo é muito liso, e eu gostaria muito que fosse parecido com o da Tomoyo... Aí eu faço isto pra ver se dá algum efeito ondulado.
Desta vez, foi ele quem piscou, dando um suspiro de alívio e levantando-se.
–O que você queria falar, Sakura?
–Eu... – ela respirou fundo. Não era difícil dizer aquilo – Vou sair com Ayame no sábado. Vamos passar o dia com mamãe e papai.
–Ah, é? – Li ficou entusiasmado – Posso ir?
–Meu irmão também vai.
–Droga. – o entusiasmo morreu e ele fez uma careta.
–Tomoyo também vai... Será divertido pra Aya-chan.
–Não queria ir mesmo. – ele pegou a toalha e passou por ela para pendurar o tecido num cabide atrás da porta, escutando-a abafar uma risada.
–Você pode ficar cuidando da casa?
–Ah, claro. Além de babá, vou ser vigilante. Muito bom.
–Ei, isso é alguma reclamação? – Sakura colocou as mãos no quadril.
–Sakura, não faça essa pose... Você fica assustadora com esse cabelo.
Ficaram calados, mas o momento durou pouco. Syaoran voltou a se sentar e deu um sorriso gentil:
–Eu não poderia ir... Preciso arrumar um emprego até semana que vem, ou meu seguro será cortado.
–Você não conseguiu nada hoje? – ela sentou-se ao lado dele.
–Mandei meu currículo pra várias empresas... Quem sabe eu consiga alguma coisa, não é?
–Então pode cuidar mesmo da casa?
–Posso. – ele confirmou com a cabeça – E Ayame já está dormindo?
Sakura respondeu afirmativamente e Syaoran levantou-se para sair e ir ao quarto da filha, que ficava perto do dele.
Entrando, ele a viu deitada na cama, segurando um livro com enormes figuras coloridas de animais.
–O que está lendo? – ele perguntou e Ayame baixou o livro, revelando a cabeleira castanha cheia de cachos enrolados, presos com grampos.
Ao contrário do que Sakura esperava, ele não deu um grito estrangulado e nem recuou, e sim aproximou-se da menina para beijar a testa dela.
–Contos de fadas chineses. – ela respondeu.
–Você está tão bonitinha assim. – ele falou e não viu Sakura estreitar os olhos.
–Verdade? – Ayame perguntou, sorrindo ao pai – O meu cabelo é muito liso e tia Tomoyo disse que vou ficar bonita se fizer isso.
–Vai ficar sim, com certeza.
–Ei, Syaoran! – Sakura se enfureceu.
–Ué, o que foi? – ele perguntou inocentemente, não entendendo o motivo de ela ranger os dentes, fazendo brilhar os olhos verdes de raiva – Eu fiz alguma coisa?
–Papai bobo! – Ayame pulou no pescoço dele e os dois se abraçaram – Papai morando de novo conosco!
Sakura só pôde sorrir ao ver aquela cena, que foi o final do primeiro dia depois da mudança dele naquela casa, sem imaginar o que virá pela frente.