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Nota de Autora (2006): Aguardem um capítulo novo em breve. :)
Disclaimer: No dia em que esta série for minha, não vou dá-la a ninguém.
Kokoro wo Tsunaide
Unindo Corações
Capítulo 4:Isso é o que chamam de tristeza, não?
Para Jenny-Ci.
A enfermaria de uma escola normal de ensino fundamental japonesa era sempre limpa e – muito raramente – tinha sons: crianças gritando era algo que não se encontrava.
Mas, para a infelicidade de uma pessoa, aquela velha regra de “sempre há uma exceção” se aplicava justamente à enfermaria onde trabalhava.
-Ruby-senseeei!!! – uma menina berrava, esfregando os olhos inchados de choro com força – Ele me bateeeeeu!!
-Não bata na sua irmã, menino! – a enfermeira Ruby gritou de longe enquanto enfaixava a cabeça de um menino desacordado; o local estava lotado.
-Ela ‘tá me mordendo! – ele reclamou, também chorando.
-Não morda seu irmão, menina! – a enfermeira deixou o garotinho inconsciente e foi separar os irmãos brigões – Não se mordam, não se mordam!
Ruby nem reparou a presença de um adulto no corredor que dava acesso às salas de primeiros-socorros. Andando um pouco receosa, olhando para os lados para encontrar a sala certa, a mãe de uma das alunas procurava pela filha. Ao escutar os choros, Sakura tinha dúvidas se deveria ou não atrapalhar o serviço daquela moça alta e de longos cabelos que, depois de separar duas crianças briguentas, as afagava para que parassem de chorar. Estava de costas quando entrou, e Sakura foi tímida na hora de falar para ter a atenção dela:
-C-Com licença...
O rosto da enfermeira virou para trás. No instante que a viu, largou as crianças e quase pulou em cima dela:
-Ah, é a mãe da Ayame, não é? – pegou as mãos de Sakura e falava com o rosto muito próximo ao dela – Mas Aya-chan é a sua cara! Os mesmos olhos e cabelo... Não é à toa que é tão linda! Ah, mas se eu tivesse uma filha assim, eu...
À medida que falava, Sakura piscava perplexa e não conseguia formular nada para falar. Nem pôde protestar na hora em que sentiu-se puxada em direção a um pequeno quarto, ainda sem compreender o que tanto aquela estranha garota falava a respeito dos olhos dela e de Ayame.
Parando perto de uma cama protegida por uma cortina branca, Ruby revelou uma pequena figura adormecida ao puxar o pano para um só lado num único movimento.
-Ela está dormindo, senhora Kinomoto. – Ruby deu um sorriso tranqüilizador – Acho que vai continuar assim por mais uma hora, pelo menos.
Sakura só percebeu que tinha a respiração presa quando Ruby soltou a mão dela e deixou que se aproximasse da filha deitada.
Puxando uma parte da saia para que subisse, Sakura ajoelhou-se e apoiou o queixo nos braços cruzados em cima da cama. Ayame estava com uma expressão pálida e parecia dormir tudo o que precisava dormir em meses. Havia um pano na testa dela e a gravata do uniforme estava afrouxada.
Sentiu a mão da enfermeira no ombro e a olhou. Ruby ainda sorria e oferecia uma cadeira, que trouxera naquela hora, para que se sentasse ao lado da cama. Sakura agradeceu com um movimento de cabeça aquele gentil gesto e sentou-se, não tirando os olhos de Ayame. Ruby puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dela, mantendo o sorriso enquanto esperava por Sakura para falar algo. Como isso não aconteceu, ela resolveu começar a conversa:
-Hoje começa a Semana Cultural na nossa escola. – a enfermeira olhava pela janela e só então Sakura entendeu o movimento na entrada. Havia crianças fantasiadas e outras usando microfones por todos os cantos – Aqui está bem movimentado por conta das competições. Muitos alunos trapaceiam e fazem outros tropeçarem ou dão remédios pra que o adversário perca... – deu uma risada ao ver o susto no rosto delicado da mãe – Coisas de crianças brincalhonas, nada muito grave... E Ayame não passou mal por causa disso.
-O que aconteceu, então?
-Ela passou mal a manhã toda, disse que tinha dor de cabeça. Numa hora não agüentou mais e teve um colapso.
-Oh? – Sakura arregalou os olhos.
-Desmaiou quando visitava umas barracas em companhia de alguns coleguinhas. A senpai dela a trouxe aqui.
-Ela estava bem hoje cedo... – a outra torceu a alça da bolsa, enrolando um dedo nela.
-Aya-chan já sente essas dores de cabeça há meses, não é? – Ruby perguntou.
Sakura confirmou com a cabeça e preferiu ficar em silêncio.
Depois de alguns minutos respeitando a vontade dela, Ruby deu o conselho dela:
-Por que não a leva de novo ao médico?
-“Médico”? –franziu a testa – Mas já a levei a um oftalmologista... Tsukishiro-sensei confirmou que ela está bem.
-Eu não estou contestando a competência de Tsukishiro-sensei. – a enfermeira levantou-se e deu um sorriso gracioso – Mas me parece que o problema dela não está na vista... Que tal um neuro? – deu uma piscadela.
O franzir de testa da mãe deu lugar a uma expressão de dúvida.
-Ela já esteve aqui diversas vezes... – Ruby continuava explicando com calma – Mesmo quando não se sentia mal. Ultimamente ela tem falado muito do pai dela.
-O pai dela voltou a morar conosco... – Sakura tinha um sorriso, como se apenas estivesse pensando alto – Acho que realmente sentia falta d...!
Ficou muda ao perceber que, distraída, a enfermeira estava diretamente em frente a ela, olhando-a como se quisesse ler os pensamentos dela.
-E ela está muito feliz agora, né? – Ruby inclinou a cabeça para o lado, fechando os olhos e sorrindo contente – Que tal então manter aquele rostinho ainda mais alegre ao levá-la a um outro médico para que ela pare de sofrer?
Uma confirmação de cabeça veio de Sakura.
o-o-o
Quatro dias depois:
Silêncio.
Syaoran arriscou atravessar um corredor depois de se certificar, olhando para os lados, que Sakura não estava por perto.
Ao passar para outro corredor, ele fez o mesmo: esticou o pescoço, olhou para os lados e correu para alcançar outro corredor. A sala onde trabalhava – que dividia com Yamazaki e Chiharu – estava a dois corredores dali. Teria que só atravessar e se trancar lá, sem ter que ver a...
-Syaoran. – a mão de Sakura pousou no ombro dele e ele sentiu o sangue gelar.
Recuou e ficou grudado na parede, olhando assustado a ex-mulher.
-O que foi? – ela arqueou as sobrancelhas e cruzou os braços, tentando não parecer tão brava. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, e já estava seriamente desconfiada dos modos dele.
-S-Sakura! – ele gaguejou, arrastando-se pela parede para fugir – J-Já chegou aqui?
-Eu tentei te alcançar quando saiu – ela deu uma pausa e pensou num eufemismo para “correndo” – apressado de casa, sem nem ao menos se esperar por mim. Nós combinamos de ir juntos ao trabalho todos os dias, lembra?
Viu-o dar um sorriso amarelo. Que sorriso cínico e irritantemente amarelo. Ele estava escondendo alguma coisa, tinha certeza!
-Desculpe, Sakura, mas Chiharu é muito exigente... Tenho que chegar antes dela e...
-Ela não é sua chefe, Syaoran. – a ex-mulher levantou ainda mais uma sobrancelha. Aquilo soava muito estranho – Você vai almoçar comigo hoje?
-Se Chiharu deixar... – ele passou a mão no cabelo, sem graça.
Franzindo a testa, ela reprimiu a vontade de dizer coisas em sinal de desgosto. Simplesmente virou-se e foi em outra direção, outro corredor que levava a um elevador. Syaoran a viu entrar e perdeu o contato visual apenas quando as portas se fecharam, suspirando aliviado depois.
Desgrudando da parede, ele andou mais tranqüilamente à sala dele. Arrumou o cabelo e inspirou profundamente. Não havia contado a Sakura a respeito da viagem... E acreditava que ela estava começando a desconfiar, se é que já não sabia.
Dentro do elevador, Sakura tentava se controlar para não bater, rasgar ou arranhar a cara do primeiro infeliz que aparecesse para importuná-la. Simplesmente ficou pensativa. Analisar cada situação com frieza era importante e ajudava a evitar atos desastrosos.
Primeiro de tudo: Quando Syaoran começou a agir daquela forma? Ficar tão desesperado para fugir dela? Logo no primeiro dia de trabalho, quando ela precisou sair porque Ayame passou mal.
Segundo: Motivos. Quais motivos? Por que ele não ficava mais de cinco minutos perto dela? Não era possível que, em tão poucos dias, ele já estivesse lotado de trabalhos a fazer.
Terceiro: Por que, em todas as rápidas ocasiões em que conseguiu conversar por meros cinco minutos, Syaoran citava o nome de Chiharu? E não era apenas isso: ele a chamava de “Chiharu”, não a tratava pelo sobrenome, “Mihara”.
Muito suspeito.
Os dentes dela rangeram. Os olhos continuaram inexpressivos mesmo depois de a porta abrir e fechar para ela e outros usuários.
O celular começou a tocar uma, duas, três vezes. Na quarta vez, ela se deu conta da chamada e procurou o aparelho na bolsa.
-Kinomoto Sakura.
Uma longa pausa se seguiu. Sakura fixou o olhar dela num ponto da parede e ignorou a entrada/saída de outras pessoas.
-Certo. – ela pronunciou – Estarei aí em uma hora, doutor.
Não sabia exatamente em qual andar estava, mas assim que as portas se abriram, ela saiu.
o-o-o
Mais tarde:
As tardes de Syaoran, desde que começara a trabalhar, mudaram de forma quase radical. Por exemplo:
-Precisa de ajuda, Chiharu? – escutou Yamazaki perguntar.
-SAI DAQUI! NÃO SE APROXIME! SAI, SAI! – foi a resposta dela.
E, logo em seguida, um objeto passou voando perto de Syaoran, provavelmente arremessado pela garota para acertar em Yamazaki.
Definitivamente as tardes dele ficaram mais perigosas, principalmente pelo fato de trabalhar com Yamazaki e Chiharu aos tapas numa minúscula sala. Infelizmente teria que ficar ali enquanto o assunto da maldita mudança para Hong Kong não era resolvido.
O que teria ele que fazer primeiramente? Conversar com Hiiragizawa? Conversar com Sakura? Com Ayame? Rejeitar a mudança? Pedir demissão depois de tanto tempo procurando por um emprego?
-Droga... – ele amaldiçoou baixinho. Uma caneta passou perto do rosto dele como uma faca e quebrou a ponta ao encontrar uma parede.
-Ai, minha caneta! – Chiharu reclamou – É sua culpa, Yamazaki!
-Mas quem jogou foi você... – o tom deste foi humilde.
Syaoran fechou os olhos e balançou a cabeça ao escutar os “ais” do outro rapaz, que começou a reclamar quando a colega de trabalho passou a bater nele com a pasta que guardava os documentos mais importantes do serviço que precisavam organizar.
Dando um suspiro, o chinês levantou-se.
-Vou levar isto a Hiiragizawa. – mostrou uma pasta de papelão. Lá tinha organizado em ordem a ficha de todos os livros que precisaria usar no serviço de tradução.
-Ah! – Chiharu parou de bater em Yamazaki e deu um sorriso – Vou com você!
-Bem... – não havia problema, havia? – Acho que pode...
-Yamazaki. – Chiharu ajeitou o cabelo e as mangas compridas da blusa social – Não quebre, não risque, não suje, não bagunce o escritório. Voltaremos em alguns minutos, ok?
-Posso ir com vocês? – ele quis saber.
-NÃO! – ela deu as costas e saiu na frente de Syaoran, batendo a porta com raiva.
Silêncio se fez. O novato chinês olhava um tanto quanto estarrecido a porta.
-Ela não ia com você? – Yamazaki fez a pergunta.
Um outro suspiro escapou dos lábios de Syaoran quando resolveu ir atrás dela. As mulheres japonesas definitivamente possuem um tipo de transtorno bipolar pior que as coreanas das novelas estrangeiras.
Seguiu pelo corredor do andar e conseguiu avistar a garota esperando algumas pessoas saírem do elevador para poder entrar. Correu e conseguiu um canto no cubículo, dividindo o espaço com a estressada colega e mais alguns desconhecidos.
-Ah, é você? – ela o reconheceu – Por que demorou?
Syaoran deu um sorriso sem graça e não sabia como responder. Se dissesse que a idéia foi dele e que era para ela esperar, será que apanharia também, assim como Yamazaki?
O elevador parou em um andar antes do qual queriam ir. Algumas pessoas saíram e outras entraram, empurrando quem já estava lá para o fundo. Um sujeito mais afoito empurrou tanto Chiharu que esta acabou se desequilibrando e quase caiu. Isso só não aconteceu porque quem a segurou foi Syaoran, que a segurou nos braços.
-Sinto muito... – o sujeito falou ao ver o que tinha acontecido.
-Preste mais atenção pra não precisar dizer que sente muito, como se realmente sentisse! – Chiharu soltou logo a língua, ainda nos braços do colega.
Prevendo que logo teria problemas se respondesse, o homem pôs a mão num dos lados da porta e impediu que fechasse. Pediu licença à última pessoa que queria entrar, e saiu.
Foi bom para Chiharu, porém ruim para Syaoran. A pessoa que deu passagem era ninguém menos que Sakura, que retirou o pé direito da entrada do elevador.
-S-Sakura! – o ex-marido fez a colega ficar em pé e a deixou de lado, esticando o braço para tentar agarrar o braço da mulher. Entretanto, as portas fecharam e ele ficou seriamente preocupado ao perceber que era alvo do olhar estreitado dela.
Se antes ele fugia dela, agora precisava se redimir e correr para alcançá-la.
o-o-o
Em outro andar, Sakura pisava duro à procura de um toalete. Só o encontrou minutos depois, batendo a porta para assustar aos outros que passavam por perto.
Parando em frente a um espelho, ela suspirou.
Afinal de contas, o que acontecia? Ele começou a trabalhar há poucos dias, não havia como ter um envolvimento com uma garota tão... estranha quanto Chiharu. Nem bonita era!
Syaoran sempre dissera que ela era linda... A mais perfeita flor do Oriente, como falara na ocasião do casamento deles. Como era mesmo o nome?
-Ah, sim... – ela aproximou a boca do espelho e fez com que ficasse um pouco embaçado. Com o dedo, escreveu em letras ocidentais “Ying Fa” e sorriu. Sim, aquele era o nome dela em chinês, segundo Syaoran.
Aproveitando o rosto próximo, ela olhou-se. O que havia de errado com ela? Virou um pouco o rosto para cada lado, e ergueu o queixo querendo notar os detalhes, querendo notar o que havia mudado em poucos anos? Será que parecia mais velha? Mais angustiada, melancólica? Não havia rugas ou algo assim, mas a região perto dos olhos estava um pouco escura e os olhos pareciam inchados, dando um aspecto cansado ao rosto que ela tentava sempre manter alegre.
Esfregando o punho, ela apagou os últimos resquícios das letras que começaram a desaparecer. Olhou-se mais uma vez de frente e ajeitou o cabelo, ou pelo menos fez o possível. Um sorriso triste se formou nos lábios e a testa ficou franzida, os olhos começaram a marejar.
Engolindo em seco, respirou fundo várias vezes e jogou um pouco de água para limpar o rosto, enxugando-o para retocar a área dos olhos para esconder as olheiras.
Ajeitando a roupa, a pose, erguendo os ombros e endireitando as costas, ela olhou-se mais uma vez apenas para passar os dedos na testa, exatamente no local onde recebera um beijo de Syaoran.
O coração doeu.
E ela não gostou daquilo.
o-o-o
Duas figuras olhavam para os lados da recepção de um prédio de publicidade. Um delas era uma mulher, elegantemente vestida, que segurava a mão da criança – uma menina que parecia contente em estar ali.
-Sabe andar por aqui, Aya-chan?
A menina virou a cabeça para um lado, virou para o outro, olhou para frente e apontou.
-Acho que é por ali.
A mulher franziu a testa.
-Mas ali não é uma saída de emergência?
Ficaram em silêncio.
-Pra onde vamos, Ruby-chan?
-Aya-chan... – Ruby abaixou-se e segurava o rosto dela com a mão esquerda, arrumando alguns fios do cabelo da menina com a outra – Vamos fazer uma surpresinha pra sua mamãe e pro seu papai. Eles estão aqui hoje, certo?
Ayame concordou com a cabeça, sorrindo.
-Ótimo. Vamos procurá-los! – a enfermeira ergueu um braço e apontou determinada para frente – Vamos procurar por todos os andares daqui!
Ayame também ergueu um braço, e as duas entraram em um elevador, chegando ao andar seguinte.
o-o-o
-Quer dizer que vocês foram casados? – a surpresa na voz de Yamazaki era evidente.
Na sala que dividiam para trabalhar, ele, Syaoran e Chiharu estavam sentados à mesa dividindo um lanche durante o intervalo da tarde. Sakura sumira depois que vira o ex-marido suspeitamente agarrando a colega de trabalho, e ele não conseguira encontrá-la para dar as explicações. Claro que ela deveria estar ocupada, mas ainda assim... A possibilidade de nem ter chance de se explicar deixava Syaoran incrivelmente irritado!
-Tivemos uma filha. O nome dela é Ayame. – ele continuou meio sem jeito.
-E você não foi atrás dela? – Chiharu apontou o hashi na direção dele como se fosse uma arma branca, seriamente ameaçadora – Não se preocupa com o que ela pensa?
-Eu tentei correr! – ele justificou – Mas você ficou tentando me estrangular quando eu queria ir atrás dela!
-É claro que não! – ela virou o rosto para o outro lado com certa arrogância – Não foi porque não quis.
“Paciência... Paciência... Não vou perder a cabeça ou ela vai fazer pior que no elevador”, Syaoran raciocinou. Sinceramente, tinha dúvidas quanto à sanidade mental da colega. Deveria ser uma daquelas “bipolares” que os médicos tanto falam para ter cuidado. Numa hora Chiharu está calma, noutro segundo já quer espancar a pessoa com o que lá tiver em mãos: pastas, lápis, canetas, cadeiras, luminárias – que se tornam armas muito perigosas. Yamazaki que o diga.
-Kinomoto-san deve ter se escondido por estar com ciúmes. – Yamazaki ergueu um dedo ao explicar – Sabiam que é costume das mulheres japonesas se esconderem num banheiro feminino quando se sentem magoadas?
-Homens não fazem isso também? – Chiharu estreitou os olhos, jogando um pequeno dicionário de inglês no rosto dele – Mentiroso...
-Bem... – Syaoran tentou mudar de assunto. Se ela tentasse descontar alguma coisa nele – De certa forma, eu concordo com Yamazaki...
-Concorda? – Chiharu parecia chocada e o chinês ficou preocupado com a vida – Com o que ele disse?
-É... – Syaoran coçou a cabeça.
Silêncio. Chiharu não piscou até começar a ter um acesso de risadas, caindo de joelhos no chão.
-CIÚMES DE MIM!!! - ela abraçou a barriga e ria de modo escandaloso, esticando o braço para tentar se erguer – De mim!! Ciúmes!!!
-É que Sakura não sabia o que estava acontecendo... E ela já estava aborrecida comigo desde manhã... – gotas de suor escorriam pelo rosto de Syaoran – Acho que ela ficou chateada... Vamos conversar melhor em casa...
Silêncio. Chiharu parou de rir e se ergueu subitamente com o punho fechado. Um segundo depois, o chinês sentiu um lado de rosto arder com a agressão.
Caído num canto, ele tentou se sentar e se viu ameaçado novamente por Chiharu, em pé diante dele e braços cruzados num evidente sinal de autoridade.
-Você feriu os sentimentos de uma mulher? – ela perguntou mais séria – Não sabe o que fez, hein?
-Er... Não... – ele respondeu num fio de voz.
-Vá procurá-la! – a garota indicou a porta com um dedo – Ela deve estar chorando por aí, pensando que eu quero tirar dela o ex-marido! Daqui a pouco surgirão boatos a respeito de mim por aí!
Silêncio. Um minuto se passara e a cena não mudou.
-Vai logo atrás dela! – ela vociferou e Syaoran correu, deixando um rastro de poeira na sala.
Descruzando os braços depois de vê-lo sair, Chiharu ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha. As elegantes sobrancelhas ficaram um pouco unidas quando franziu a testa ao repensar na situação, torcendo para que Syaoran conseguisse resolver o problema dele...
-Ainda acho que ela não vai desculpá-lo. – Yamazaki deu a opinião dele como se fosse um velho sábio.
-Eu não te perguntei! – ela esbravejou, acertando uma de direita nele.
o-o-o
-É aqui? – perguntou Ruby.
O local era uma espécie de refeitório que parecia estar em reformas.
-Eu acho que não... – Ayame murmurou um pouco encabulada.
-É a terceira vez que não encontramos... Bem, vamos procurá-los! - a enfermeira ergueu um braço e apontou determinada para frente – Não vamos desistir!
Ayame também ergueu um braço, e as duas entraram em um elevador, chegando ao andar seguinte.
Massageando o rosto, Syaoran andou pelos corredores olhando apenas para um lado, esbarrando sem querer em alguém.
-Ah, descul... – olhou o chão e piscou ao ver a pasta caída no chão, piscando ao ver quem era Tomoyo. Pegou rapidamente o que deixara cair e entregou à dona – Sinto muito, Daidouji...
-O que foi isso no seu rosto? – ela ficou preocupada, largando novamente os documentos para tirar a mão dele de cima da região que ele escondia – Brigou com alguém?
-Foi aquela moça, a Chiharu... – ele contraiu o rosto quando Tomoyo tocou nele – O passatempo dela é distribuir sopapos em mim e em Yamazaki.
-Mihara? – ela ficou meio chocada – Mas ela parece tão calminha... Foi ela quem fez isso em você?
-E olha que eu treinei kung fu há alguns anos, mas nunca vi uma direita tão forte. Ainda mais de uma mulher. – ele coçou a cabeça e pareceu lembrar subitamente de algo, segurando Tomoyo pelos ombros – Ah, é mesmo! Você viu a Sakura por aí?
-Ela... – a expressão dele parecia indicar que não falava há dias com ela, o que parecia ser possível – Nós estávamos arrumando algumas notas para a reunião de hoje... – franziu a testa, o que não era muito comum nela – Vocês brigaram?
-“Brigar”? – Syaoran piscou. Nem quando foram casados tiveram brigas muito sérias a ponto de pararem de se falar – Não! Nem conversei ainda com ela sobre aquilo, não tivemos tempo pra nada!
-Todos esses dias e não teve tempo? – a testa franzida nela ficou mais evidente – Pior será se ela descobrir por outra pessoa.
o-o-o
-Kinomoto... – Rika segurava uma pasta enorme com o nome “HONG KONG” na capa – Daidouji saiu?
-Disse que ia falar com Eriol e voltaria pra terminar um projeto. – Sakura deu um sorriso educado e separou alguns livros de Design Gráfico da estante para ver se tinha alguma idéia para um novo trabalho – Quer entregar alguma coisa?
-Por favor. – Rika curvou-se ao entregar a pasta – É da nossa filial em Hong Kong.
o-o-o
-Mas não seria tão ruim, né? – Syaoran deu um sorriso forçado – Digo... Eu não deixaria de mandar o dinheiro pra Ayame... E viria nas férias pra cá... Agora que tenho um emprego, as coisas serão mais fáceis...
-É? – Tomoyo arqueou uma sobrancelha, dando as costas para ele – Até parece que quer ficar longe dela...
-Hã? – ele piscou e observou a amiga da ex-mulher se afastar em direção ao elevador, entrando imediatamente no instante em que um, por sorte, abrira as portas.
o-o-o
-Não... – Sakura murmurou ao ler a primeira página do que Rika entregara a ela – É... – o cabelo caiu no rosto e a voz saiu num sussurro ao completar a sentença -... possível...
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-É aqui? – Ruby apertou a mão de Ayame.
O local era uma gráfica que trabalhava sem parar para mais nada. Não havia nem mesmo quem pudesse dar informações a elas.
-Eles não me falaram que trabalhavam aqui... – Ayame respondeu.
-Vamos procurar no outro! – Ruby ergueu o braço, já um pouco menos animada que nas outras ocasiões.
Ayame também ergueu um braço, e as duas entraram em um elevador, chegando ao andar seguinte.
o-o-o
Duas horas depois, recostada à porta do toalete, Sakura ainda pensava no que fazer. Principalmente quando não queria encontrar certas pessoas do lado de fora. O dia já fora suficientemente ruim sem falar com Syaoran.
Não tivera coragem ainda de procurá-lo. Tomoyo, Eriol e ela fariam um novo projeto que - agora - ela não se interessara em saber a respeito do que se tratava, e se limitaria a ajudar a amiga na organização.
Depois que ela lera o que Rika entregara, ela decidira sair e ir lavar o rosto.
Por que será que algumas coisas atingiam tão forte aos outros e deixava a qualquer um sem reação? E ela não pensava nos problemas com o ex-marido ao deduzir isso.
Deu um suspiro e resolveu sair. Ainda amparada na porta, segurou a maçaneta.
E ficou naquela posição por mais cinco minutos.
Alguém quis entrar e Sakura franziu a testa. A pessoa girava a maçaneta que ela segurava e deu três suaves batidas na madeira. Mas que gente mais mal-educada, não percebia que não podia entrar? Quer dizer, claro que toaletes japoneses eram públicos e tinham o design para agradar a todas as mulheres que queriam retocar a maquiagem, sendo possível ter até três num único cômodo, mas... Ela queria ficar sozinha! Será que era difícil demais para alguém com um pouco de cérebro entender?
-Sakurinha? – Tomoyo parecia preocupada do outro lado – Você está passando mal?
-Não, Tomoyo. – ela ajeitou o cabelo pela última vez e bateu num lado do rosto para ficar mais atenta. Abriu a porta e encarou a amiga – Já vamos começar?
-Daqui a pouco... – Tomoyo franziu a testa – Syaoran estava procurando por você... Brigaram hoje, por acaso?
-Não. – Sakura piscou e passou direto pela amiga, sendo seguida por ela pelo corredor – Só não tivemos tempo pra conversar hoje...
Tomoyo já havia conseguido alcançá-la e andavam lado a lado. Ainda estava um pouco preocupada e tinha dúvidas se Sakura sabia que Syaoran mudaria em breve para Hong Kong. Será que era esse o motivo de não terem se falado?
-Não se falaram por falta de tempo mesmo ou porque estão com problemas demais? – a amiga arriscou enquanto tomavam a direção da sala na qual sempre trabalhavam.
-Não, Tomoyo. Fiquei sem tempo. – a resposta veio seguida de um suspiro quando Sakura entrou, voltando a encostar-se à parede. Parecia ainda mais cansada e velha que a idade aparentava. Arrastando-se a uma cadeira, ela sentou-se e segurou a cabeça entre as mãos, curvando os ombros.
Tomoyo não notou aquilo, pois os olhos bateram direto numa pasta em cima da mesa quando fechava a porta depois de ser a última a entrar. O cérebro trabalhou rápido até finalmente compreender um detalhe da história e... Escutar um soluço.
Virando depressa o rosto para o outro lado, ela percebeu que, escondendo o rosto entre as mãos – os cabelos caindo pelos ombros e pelos lados do rosto curvado -, Sakura chorava.
-Sakura... – ela sentou-se ao lado da amiga e tocou-lhe os ombros – O que está acontecendo? – não era possível que fosse só por causa daquilo... Se a conhecia bem, ela poderia ficar brava e pedir explicações... Não simplesmente sentar e ficar chorando.
Segundos se passaram sem uma resposta. Tomoyo quis insistir, abrindo a boca e fechando-a antes que pudesse completar a sentença quando Sakura começou a falar:
-Eu não sei... não sei o que fazer...
Tomoyo saiu do lado dela e ficou de frente, abaixando-se.
-Como assim? O que você não sabe o que fazer?
Sakura fungou e balbuciou enquanto ainda chorava, ainda com o rosto entre as mãos:
-Descobriam uma coisa em Ayame... – ela confessou – Uma coisa que ela não podia ter...