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Naru-L
Author of 71 Stories

Rated: M - Portuguese - Romance/Humor - Shaka - Reviews: 156 - Updated: 04-25-09 - Published: 03-23-05 - Complete - id:2318638

Lust


N.A. – Certo, finalmente terminei. Vivas para mim!

Espero sinceramente que vocês gostem deste último capítulo, porque foi horrivelmente difícil escrevê-lo e me despedir de Aradia e Shaka.

Vou me permitir ser repetitiva e dizer que odeio escrever finais!

Muito obrigada a todas que acompanharam e depois de 5 anos eu finalmente terminei!

Paciência é uma dádiva! XD

Beijos a todas, responderei os reviews assinados pelo site amanhã, ok?

P.s. – Perdoem qualquer erro que tenha escapado da revisão... Como sempre.

P.s. 2 – Eu sei que nunca inseri um trecho de música em Lust antes, mas permitam esse pequeno deslize já que foi a música que ouvi enquanto o escrevia e tem uma pequena ligação com o final.


Capítulo 17

Give me your loneliness
And I’ll give you my tenderness

Truth - Reira

Tudo é uma confusão. Uma grande confusão.

Nada é como deveria ser. O final não é aquilo que você esperava e mesmo assim essa é a primeira vez em muito tempo que você se sente tão bem.

Seus amigos que você conhece desde criança continuam agindo da mesma maneira irritante de sempre, mas irônica e surpreendentemente, tal comportamento não mais te incomoda como antes. Talvez, depois dessas duas semanas, você finalmente consiga compreendê-los.

Porque finalmente compreende a si mesmo.

Bem pouco tempo atrás estar cercado pelo grupo de pessoas que cresceram com você, treinaram e lutaram a seu lado faria com que você se sentisse irritadiço e desconfortável, mas uma coisa você tem que admitir que os últimos dias não teriam sido tão suportáveis se eles não estivessem por perto.

Pelo menos observar o comportamento de dois deles está sendo no mínimo curioso.

Afinal, por que Kanon está fugindo de Milo?

Shaka entreabriu os olhos lentamente ao sentir alguém se aproximar, esperando ver Milo. O cavaleiro de escorpião tinha aparecido frequentemente, parecendo sempre disposto a dizer algo, que por alguma razão continuava sendo um mistério. Contentava-se em acordar Marco das formas mais inusitadas quando o surpreendia cochilando e partia, deixando Shaka mais curioso do que gostaria de admitir.

- Marco não está aqui.

- Eu sei. – Kanon disse, surpreendendo o virginiano. - Acho que Milo finalmente conseguiu irritá-lo, ou o seu mal humor é contagioso, porque ele pareceu bem disposto em me ajudar a despistá-lo.

Shaka arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços na frente do peito, decidindo não comentar o comentário sobre seu humor. Ele nem estava mal humorado. Nos últimos dias. Comparado a dois meses atrás.

- Um dos dois pretende me explicar o que está acontecendo?

- Vai ter que esperar Marco voltar e perguntar para ele.

O virginiano baixou a cabeça, comprimindo os lábios para não deixar escapar a palavra pouco elogiosa que lhe veio a mente ao ouvir a resposta de Kanon.

- Entre você e Milo. – Corrigiu o mais calmamente que conseguiu.

- Ah! Isso...

- Sim, isso.

- Não é nada demais. – Kanon riu. – Só uma pequena coisa que vi depois que você saiu da casa de Aradia.

- Vocês voltaram lá?

- Não, cara, pode se acalmar.

- Você soou como Milo e isso é assustador. – Shaka suspirou, baixando os braços. – Prova que tem passado muito tempo juntos. – Apoiou as mãos no piso, levantado-se. – Então, o que aconteceu na casa de Aradia?

- Eu voltei para deixar a última caixa com o vaso e encontrei os dois...

- Kanon, cale a boca!

Shaka virou-se para o escorpiano que aparecera do nada. Milo parecia sem fôlego e nada feliz com o que quer que Marco tivesse feito para atrasá-lo.

- Por que ele não pode falar?

- Porque ele é imbecil.

- Isso nunca foi razão para que Kanon permanecesse calado antes.

- Ei! – Kanon protestou. – Por que todo mundo fica me xingando? – Suspirou. – Não é como se tudo o que eu fizesse fosse errado, ou que espalhasse mentiras por aí.

- Kanon...

- Eu sei o que vi.

- Não, não sabe. – Milo disse. – Está sempre interpretando errado as coisas.

- Como eu podia interpretar aquilo errado?

-...

- Viu? Estou certo! – Kanon disse, abrindo um sorriso. – Você estava dando em cima de Aradia.

Milo fechou os olhos suspirando, podia sentir o olhar de Shaka em suas costas, e não podia realmente culpá-lo pela reação as palavras de Kanon.

- Hum... – Kanon quebrou o silêncio, chamando a atenção do escorpiano que reabriu os olhos de cenho franzido. – Entendo agora por que eu deveria ter mantido a boca fechada. – Deu um sorriso forçado para Shaka. – Acho que tenho alguma coisa para fazer agora... Sim, tenho que pagar Marco por ter te distraído. – Deu um passo para trás, escapando de Milo que avançou em sua direção e acenou. – Vejo vocês mais tarde.

- Milo... – Shaka disse, fazendo o outro cavaleiro de ouro parar. – O que Kanon quis dizer com ‘ você estava dando em cima de Aradia’?

oOo

Maria tamborilou as unhas bem feitas sobre a bancada de madeira do estúdio de Aradia, esperando que a amiga a repreendesse como costumava fazer, mas nada aconteceu. Suspirou, apoiando o rosto na mão e esperou que a garota terminasse o esboço que fazia. Mais alguns minutos se passaram sem que Aradia sequer notasse sua presença e ela bufou, afastando-se da bancada e deixando-se cair na única poltrona do cômodo.

- Você ainda está aí? – Aradia perguntou sem desviar os olhos do bloco em que desenhava.

- Sim, eu ainda estou aqui. – Maria disse sem esconder a irritação.

- Não escolheu os quadros?

- Você deveria escolher, Aradia. – A garota loira suspirou. – Sabe, eu normalmente não me importaria com seu humor já que está produzindo...

- Mentira, você é bisbilhoteira demais para não se importar.

- Mas! – Maria continuou, ignorando o sorriso que curvou os lábios da amiga. – É meio assustador você estar tão calma.

Aradia suspirou, finalmente soltando o lápis sobre o balcão e erguendo a cabeça para fitar a amiga.

- Ok, já percebi que você não vai simplesmente me deixar em paz... – Ela disse calmamente, seus dedos pegaram o que restara do carvão e começaram a brincar com ele, ignorando a maneira como ele manchava sua pele. - Por que eu não deveria estar calma?

- Olá?! – Maria acenou - Você é a mesma pessoa que estava à beira de um ataque duas semanas atrás quando Shaka deixou você sozinha?

- Claro que sim. – Aradia a encarou como se tivesse enlouquecido. – E eu não estava à beira de um ataque. – Suspirou, baixando a cabeça para o desenho novamente. - Você é tão exagerada.

Maria estreitou os olhos, as mãos apertando os braços da poltrona quando a amiga voltou a ignorá-la. Levantou-se, aproximando-se da bancada e puxou o bloco em sua direção.

- Devolva.

- Talvez depois que você responder minhas perguntas. – Maria folheou o bloco, suspirando ao ver várias versões do mesmo desenho ocupando boa parte dele. – Certo, agora repita que está bem mais uma vez.

- Eu estou bem. – Aradia estendeu a mão. – Agora devolva.

- Por que não vai atrás dele? Ou melhor, por que não foi atrás dele ainda? – Maria balançou o bloco de desenho. – E não tente mentir, dizendo que não pensa nele.

- Não me lembro de dizer que não pensava nele. – Aradia debruçou sobre a mesa e recuperou o bloco. – Irei quando for a hora.

- Por favor, Aradia, divirta-me... – Maria sentou-se em outro banco alto na frente da amiga. – Quando vai ser a hora?

Aradia sorriu novamente, deixando o carvão cair sobre o bloco. Pegou um pano e limpou as mãos da fuligem que cobria sua pele calmamente.

- Quando aquilo estiver seco. – Apontou para uma tela que ainda estava no cavalete.

- Outro? – Maria bufou. – Você já fez quadros o suficiente, Aradia! – Levantou do banco, caminhando na direção da tela que estava de costas para as duas. – Eu vi quando deu duas telas para Milo ontem!

- Bem, uma vez que eu não fiz isso escondido de você... – A garota morena passou pela amiga, impedindo-a de olhar a tela. - Sabia que tinha visto. – Mostrou a língua para Maria. – Eu disse que você era bisbilhoteira.

- Vai me deixar ver isso ou não? – Maria disse, apontando para a tela.

- Vai parar de me alugar?

- Talvez...

Aradia sorriu, saindo da frente da amiga. Esperou calmamente enquanto a garota passava por ela e erguia o pano que cobria a tela, seu sorriso aumentou ao ver a expressão surpresa aparecer no rosto dela.

- Satisfeita?

Um sorriso apareceu lentamente no rosto da garota loira, curvando seus lábios e iluminando seus olhos como se ela finalmente tivesse entendido.

- Então, decidiu quebrar suas próprias regras?

oOo

- Estou esperando, Milo.

O cavaleiro de escorpião finalmente virou para encarar o amigo e teve que se esforçar para não rir da tentativa de Shaka de tentar parecer indiferente. Por que não pensara nisso antes?

- Acho que não há muito o que explicar, há?

Shaka estreitou os olhos lentamente.

- O que diabo isso quer dizer?

- Que falta de modos para falar, Shaka. – O cavaleiro de escorpião se permitiu sorrir enquanto se afastava do amigo. – Você usa essas palavras na frente de Atena?

- Milo...

- E eu aqui pensando que você era o mais educado entre nós. – Milo o ignorou. – Tirando Kamus, é claro, mas todo mundo sabe que ele não é humano...

-...

- Quer dizer, ele é humano. – Milo continuou, encostando-se em uma das colunas da casa de virgem. – Mas ainda está para nascer alguém que derreta a frieza dele a ponto de fazer com que perca o controle e comece a praguejar.

- Milo!

- Ok, péssimo trocadilho. – O escorpiano ergueu as mãos em rendição. – Mas você sabe que é verdade.

- O que você andou bebendo? – Shaka perguntou dando um passo na direção do escorpiano. – Qual o seu problema para ficar divagando com essas idiotices?

Milo sorriu, baixando as mãos.

- E por que está rindo?

- Eu estava mesmo me perguntando o que seria preciso para que você voltasse ao normal. – Milo cruzou os braços despreocupadamente. – É meio assustador ver você tão... Feliz quando Aradia não está por perto.

Shaka suspirou, baixando a cabeça para esconder um pequeno sorriso.

- Eu devia imaginar que era brincadeira. – Respirou fundo. – Quanto tempo levaram pensando nisso? Devem estar mesmo entediados para—

- Ah, mas não é brincadeira.

- O que não é brincadeira?

- Kanon ter me visto abraçando Aradia.

Shaka fitou o escorpiano em silêncio, fechando as mãos com força enquanto as palavras faziam sentido em sua mente. Viu o sorriso de Milo, parecendo desafiá-lo enquanto permanecia parado a apenas alguns passos de distância. Seu próprio sorriso desapareceu, e quase que inconscientemente ele se aproximou do amigo e acertou um murro em seu rosto.

oOo

- Quando foi que eu tive regras? – Aradia riu.

- Não sei, mas isso é diferente. – Maria virou-se para a amiga. – Eu perguntaria qual o significado se não fosse tão óbvio.

- Óbvio? – Aradia perguntou, analisando a tela com uma careta. – Não sei se gosto disso.

Maria abraçou a amiga, rindo.

- Eu acho bastante óbvio, mas pelo que Milo me contou... É assim que tem que ser, não é? – A garota loira piscou. – Ser sutil não funcionou.

- Vocês ficam fofocando como duas velhas. – Aradia bufou. – Não tem nada mais interessante para ocupar o tempo? – Balançou a cabeça. – Espere, não conte. Poupe-me dos detalhes.

- Como estamos sensíveis... – Maria continuou rindo ao se afastar da Aradia. – Não se preocupe, não existem detalhes sórdidos para contar.

- Oh! Acho que estou surpresa com isso. – Aradia cobriu a pintura novamente. – Qual o problema dele?

- Nenhum na verdade, mas para ser sincera... – Maria deu um passo para o lado, soltando a amiga que se afastou da tela. – Acho que estamos melhores como amigos.

- Estranho você se contentar com isso. – Aradia pegou o bloco do balcão. – Repito: Qual o problema com ele?

- Nenhum! – Maria a seguiu para fora do estúdio. – Eu já disse, decidi que somos melhores como amigos.

- Já experimentou para fazer essa afirmação? – Aradia perguntou brincando enquanto fechava a porta.

- Não. – Maria deu de ombros quando a garota virou-se para fitá-la. – Eu gosto dele, nos divertimos nas raras vezes que saímos...

- Mas?

- Nada de ‘mas’. – Maria riu – Talvez eu goste demais disso para me arriscar a perdê-lo como amigo. Você me conhece, Aradia, quando foi que um relacionamento meu durou?

- Pelo que sei, nem os dele.

- Ai está a questão. – Maria disse antes que a amiga tivesse chance de continuar. – Eu gosto daquilo que temos um pouco demais para arriscar perder. – Girou, sem fitar a outra garota. – Nesse ponto, invejo você.

- Por quê? – Aradia perguntou, seguindo a outra garota até a casa. – Você inveja todas as complicações e dúvidas?

- Não, invejo você por continuar insistindo apesar das complicações e dúvidas. – A garota loira passou por ela, subindo os degraus rapidamente e abrindo a porta. – Você tem mais coragem do que eu.

Aradia parou, vendo a amiga desaparecer pela porta. Parte de si não conseguia acreditar naquilo, não estava sendo corajosa, apenas teimosa e masoquista. As duas últimas semanas haviam provado isso, mas ela continuava insistindo. Por que ela continuava insistindo?

Lembranças das últimas semanas: brigas, discussões, choros e ordem. Todas passaram diante de seus olhos, fazendo-a sorrir. Qualquer pessoa com juízo encararia aquilo como um sinal de que deveria desistir, mas não ela. Por quê?

Shiroi latiu antes de passar correndo por ela e entrar na casa.

- Você vai ficar aí até quando? – Maria perguntou enquanto tentava afastar o cachorro. – Seu monstro está tentando me derrubar! Aradia!

Aradia piscou, balançando a cabeça antes de entrar. Tudo o que acreditava, as razões que usara para deixar a casa de sua família. Nada mais parecia ser verdadeiro. Ela não queria mais ficar sozinha.

oOo

Milo sentiu o corpo ser jogado para trás pelo golpe inesperado. Balançou a cabeça, afastando-se da parede que o apoiara e esfregou o maxilar. Devia ter pensado que provocar Shaka demais resultaria nisso.

- Pare. – Milo ergueu a cabeça, quando viu o outro rapaz se aproximar novamente. – Se me acertar novamente, eu vou revidar.

Shaka pareceu considerar aquilo antes de baixar as mãos.

- Explique.

- Você não deveria ter dito isso antes de me acertar? – Milo suspirou, ainda esfregando o maxilar. – Kanon vai me pagar por isso.

- Milo, pare de enrolar e diga de uma vez o que aconteceu.

- Bem, por onde começar? – Milo disse. – Vamos ver... Eu estava conversando com a sua garota enquanto você fugia sem avisar ninguém, sabe-se lá por qual razão.

- Eu não fugi.

- Não foi o que ela pensou. – Milo sentou-se nos degraus. – Então, quando ela resolve entrar e se declarar, o que encontra? A casa vazia... – Ele suspirou dramaticamente. – Precisava ver a coitadinha, ela simplesmente desabou.

Shaka girou os olhos, mas forçou-se a continuar em silêncio.

- E lá estava ela, chorando, de joelhos na porta do quarto, quase sem poder respirar. Era de dar pena.

- Pare com isso, Milo.

Os dois ficaram em silêncio por algum tempo até que o escorpiano perguntou:

- Por que você voltou antes? – Milo apoiou os cotovelos sobre as pernas. – Aradia disse que você tinha prometido esperar.

- Não pode pensar na resposta sozinho? – Shaka caminhou até o escorpiano e sentou-se a seu lado.

- Imagino que você finalmente se deu conta que não é bom o suficiente. – Milo disse simplesmente. – É o que eu sempre penso de mim mesmo. Por que sujeitar outra pessoa aos meus fantasmas quando ela pode conseguir algo melhor?

– O que você disse a ela?

- Que você não havia dito que esperaria lá. – Milo riu sem humor. – Não achei que ‘Seu namorado idiota não se julga bom o suficiente para você’ fosse ajudar no momento.

- Talvez ajudasse. – Shaka disse. – Você apenas lhe deu esperanças que não era o fim.

- Você queria que fosse o fim?

Shaka o fitou em silêncio antes de desviar os olhos para o caminho que levava a Casa de Leão.

- Seria a coisa certa a fazer. – Falou finalmente.

- É o que você deseja?

- Não.

Milo girou os olhos, levantando-se.

- Cara, vocês precisam conversar. – O escorpiano cruzou os braços. – Você me deve. – Apontou o rosto onde o virginiano tinha acertado quando ele o encarou confuso. – Por ter me acertado sem razão.

- Você admitiu que tinha abraçado Aradia! – Shaka disse levantando-se também. – O que achou que fosse acontecer?

- Que você fosse ter a decência de perguntar a razão antes de me acertar, talvez?! – Milo perguntou sarcástico. – Você sempre foi o mais sensato e... – Parou de falar, desviando por pouco de Kanon que surgira do nada. - Droga, essa foi por pouco.

- Sai de cima de mim, Kanon. – Shaka falou entre dentes, empurrando o geminiano.

- Vocês não podem brigar. – Kanon disse, segurando Shaka contra o chão. – Talvez eu não tenha visto direito e—

- Já tínhamos chegado a essa conclusão, mas obrigado por voltar, Kanon. – Milo disse sorrindo. – Apesar de ter fugido antes.

- Eu não fugi. – Kanon disse, virando a cabeça para fitar Milo. – Eu ouvi vocês discutindo.

- E quando é que a gente não discute?

- Fato... – Kanon suspirou.

- Fico feliz que esteja aliviado, mas será que você poderia... – Shaka começou, sendo interrompido por Milo.

- Por que voltou? – Milo perguntou. – Achei que pensasse que eu merecia apanhar pelo que você viu.

- Bem... Eu ainda penso assim, mas Mu disse que você deveria ter contado e não eu. – Kanon segurou Shaka com mais força, ignorando suas tentativas de afastá-lo. – Então resolvi voltar e—

- Sai de cima de mim!

Kanon pulou assustado e o libertou, sentando no chão. Sorriu em um pedido de desculpas.

- Foi mal.

Shaka girou os olhos, sentando-se novamente, ignorando o riso de Milo.

- ‘Foi mal’ ele diz. – Shaka disse sarcástico. – Por que demônios você fica se atirando em cima dos outros?

- Achei que você fosse acertar Milo... – Kanon deu de ombros. – Na verdade eu pensei em tirar ele da frente, mas...

- Ele desviou, eu sei. – Shaka estreitou os olhos para o escorpiano.

- Foi engraçado, cara.

- Não, não foi. – Shaka suspirou antes de levantar. – E agora, se vocês já terminaram com as palhaçadas, tenho mais o que fazer.

- Ainda não. – Mu disse parando ao lado de Milo e lhe entregando um grande embrulho. – Quando Kanon disse que tinha deixado vocês dois juntos, depois de contar o que tinha visto na casa de Aradia, imaginei que tinha chegado a hora de trazer isso.

- O que exatamente é ‘isso’? – Shaka perguntou irritado ao notar mais dois cavaleiros se juntarem a Mu. Afrodite e Saga pararam um de cada lado do cavaleiro de Áries. – E por que vocês escolheram minha casa para fazer reuniões?

- Isso é seu. – Milo disse, entregando o pacote com as telas de Aradia. - Não é uma reunião, podemos nos divertir em outros lugares. Acho que os outros só acharam que eu precisaria de reforço caso Kanon tivesse causado uma pequena batalha entre nós.

- Eu não. – Saga disse. – Só imaginei que Kanon fosse derrubar alguém, com sorte Shaka, novamente e acabaria apanhando. – Sorriu. – Então... Ele apanhou de quem? – Fitou os outros inocentemente. – O quê?

- Você só pode estar brincando. – Mu disse.

- Na verdade não.

- Não vai tentar consertar o que disse dessa vez? – Afrodite perguntou.

- Não, óbvio que perdi Kanon apanhando e vocês não vão me contar o que aconteceu se eu mentir, certo? – Virou-se para os dois cavaleiros. – Agora, quem bateu em Kanon?

Afrodite e Mu giraram os olhos.

- Ninguém me bateu. – Kanon disse levantando-se e lançando um olhar irritado para o irmão. – Isso é frio, cara.

- Desperdício do meu tempo. – Saga suspirou dando meia volta para voltar para a casa de gêmeos.

Shaka ignorou os dois irmãos que começaram a discutir. Fitou o embrulho, sabendo o que encontraria ao abri-lo. As duas telas que Aradia havia terminado na semana anterior. Ainda se lembrava de sua expressão ao lhe mostrar e como o brilho dos olhos negros pareciam haver se apagado quando ele dissera que não se parecia com ele.

- Não vai abrir? – Milo perguntou. – Não tem nem um pouco de curiosidade?

- Sei o que tem aqui.

- Eu não acho que saiba. – Milo parou a seu lado. – Você deve isso a ela.

Shaka o fitou longamente antes de rasgar o papel pardo e revelar o primeiro quadro que ela havia terminado, lembrando-se do sorriso no rosto de Aradia quando ela finalmente o deixara ver aquela pintura e como ele se apagara rapidamente quando ele dissera que não se parecia com ele. Apoiou a tela no degrau e tocou sua própria imagem, admirando a forma como ela conseguira imitar perfeitamente cada linha, cor e sombra. Na briga que havia seguido seu comentário, ele não conseguira lhe dizer que não achava mais que fosse aquele homem.

- Veja o outro quadro. – Mu disse, parando do outro lado de Shaka.

- Eu sei o que tem no outro quadro. – O virginiano disse, franzindo o cenho quando Milo suspirou e tirou o primeiro quadro de suas mãos. – Você pode não fazer isso?

- Você pode não demorar tanto? – Milo perguntou, ignorando a pergunta. – Não vou destruir seu precioso quadro. Pode ficar tranqüilo.

Shaka girou os olhos novamente antes de fitar a segunda tela. Novamente, a cena retratada ali fez com que um sorriso curvasse seus lábios. Árvores e grama preenchiam a maior parte da tela em vários tons de verde e marrom. Podia ver sua figura recostada sob a maior árvore na tela. Não reconhecia a si mesmo na figura. Parecia mais jovem e descontraído, os olhos azuis fitando algum ponto a sua direita pareciam cheios de desejo por algo que não poderia ter. Se fosse honesto consigo mesmo, ele diria que a pintura era um retrato perfeito daquela ocasião, de todas as vezes que havia ido até aquele local, mas tudo o que podia sentir era ressentimento por estar sozinho. Aradia nunca percebera que era esse pequeno detalhe que o incomodava naquele quadro. Ele não desejava estar sozinho.

Suspirou, desviando os olhos da tela.

- Satisfeito?

- Você tem certeza que prestou atenção?

- São dois quadros meus, Milo. Retratos. – O virginiano disse irritado, puxando a tela em suas mãos contra si. – Eu acho que minha visão é perfeita.

- Pare com isso. – Afrodite disse puxando a tela das mãos de Shaka. - Aradia foi bem especifica ao dizer para não apertar a tela porque marcaria a tinta.

- Todo mundo ainda vai na casa dela? – Shaka perguntou irritado. – Vamos deixar isso bem claro. Minha casa ou a de Aradia não são o novo local de reunião de idiotas.

Afrodite estreitou os olhos, apertando a moldura do quadro, mas não respondeu.

- Não notou nada diferente? – Milo perguntou parecendo conter o riso. – Algo que não estava aí da última vez que viu esse quadro?

Shaka suspirou, decidindo ignorar a maneira que o escorpiano parecia se divertir com sua reação. Voltou os olhos para a tela, dessa vez realmente observando cada detalhe ao invés de deixar-se levar pelas lembranças que ela lhe trazia.

- Não tem nada diferen... – Sua voz foi baixando de tom e ele ajoelhou-se para analisar algumas formas que não se lembrava de ter visto antes. – Por que tem um gato dormindo nas minhas pernas? – Estreitou os olhos, pela primeira vez duvidando que sua visão fosse perfeita. Talvez sua mente estivesse lhe pregando uma peça. – Isso é Shiroi? – Apontou para a figura do cachorro que parecia correr em sua direção.

- Acho que você não está mais sozinho. – Afrodite disse.

- Eles nunca estiveram lá. – Shaka disse, ignorando o riso dos outros cavaleiros. – Isso é... – As palavras morreram em sua garganta quando ele finalmente reconheceu a mancha escura na ponta inferior direita do quadro. A sombra tinha a forma de Aradia. – Eu não acredito.

- Isso já estava aí. – Milo disse, rindo para Afrodite. – Eu disse para ela que ele não era inteligente a ponto de encontrar sozinho.

- Os animais...

- Ela os pintou depois. – Mu disse. – Milo sugeriu que você precisava de algo para notar que ela estava no quadro.

Shaka sorriu, ignorando os risos dos outros cavaleiros.

- Isso é meu. - Tirou a tela das mãos de Afrodite de maneira nada gentil e passou pelo cavaleiro de peixes em direção ao interior da casa. – Imagino que agora não precisam mais visitar Aradia.

- Não, mas... – Afrodite girou para segui-lo. – Você não vai fazer nada?

- Claro que vou. – Shaka disse. – Vou arrumar um local para pendurar meus quadros. – Parou, virando-se para tirar o outro quadro das mãos de Milo. – Obrigado.

- Não era essa a reação que nós pensamos que você teria. – Mu disse.

- Qual a reação que imaginaram? – Shaka parou no meio do cômodo, virando-se para fitar os cinco cavaleiros. Franziu o cenho. – E quem disse que vocês podiam entrar?

- Supere, Shaka. – Kanon, que parecia finalmente ter desistido de discutir com o irmão disse. – Não é como se houvesse uma porta para nos deixar do lado de fora, certo?

- Portas... Tem razão. Preciso de portas. – Shaka disse, dando as costas aos cavaleiros e entrando na sala de meditação. – Obrigado por me lembrar, Kanon.

Os cinco permaneceram parados no meio da sala em silêncio antes de fitarem uns aos outros.

- Acho que ele finalmente enlouqueceu. – Saga foi o primeiro a falar.

- Não acha que ele vai colocar pregos nas paredes, acha?

- Como mais ele vai poderia pendurar os quadros? – Afrodite disse com um suspiro. – Não imaginei que ele fosse realmente fazer isso.

- Eu pensei que o idiota fosse voltar lá e falar com Aradia. – Milo suspirou. – Qual o problema desses dois? Eu disse para que ela viesse entregar pessoalmente, até me ofereci para trazê-la e o que ela fez? Disse que estava ocupada terminando um quadro. Quem se importa com quadros? – Ele suspirou exasperado. – Resolva isto primeiro.

- Você sabe as razões dele, Milo, não achou que ver um quadro fosse fazê-lo mudar de idéia, achou?

- Eles são dois idiotas. - O cavaleiro de escorpião suspirou.

- Eu acho que você deve voltar lá, Milo. – Saga disse, chamando a atenção dos outros. – Volte lá e dê em cima da garota. – Cruzou os braços na frente do peito quando Milo arqueou uma sobrancelha. – Ora, vamos, não é como se fosse não tivesse pensado nisso.

- Gosto muito da minha vida para pensar em formas de suicídio. - O escorpiano disse. - Obrigado, mas passo.

- Por que vocês estão aqui? E falando de Aradia... – Marco perguntou da porta. Balançou a cabeça. – Shaka tem razão, vocês parecem um bando de velhinhas fofoqueiras.

- Marco, por que você não vai... – Mu começou, mas pareceu desistir no meio e respirou fundo antes de continuar. – Ver o que seu mestre está fazendo?

Marco deu de ombros antes de passar por eles e entrar na sala de meditação.

- Agora, voltando ao que estávamos falando antes... – Saga começou.

- Esqueça, Saga. – Milo o cortou. – Ela nem é tão bonita assim.

- O que você disse? – Shaka perguntou, surgindo no corredor.

- Ah, você sabe. Ela é bonita, apenas não o bastante para que eu arrisque minha vida por... – Milo parou de falar, repentinamente se dando conta do que estava fazendo. - Ei! Você devia ficar aliviado porque não concordei com a idéia de Saga.

- Não acho que você tivesse uma chance.

- Você me acertou antes!

- Porque pensei que tinha se aproveitado dela.

- Por que estamos discutindo isso? – Milo perguntou. – E por que você voltou? Não estava decidindo onde pendurar os quadros?

- Decidi deixar isso para outra pessoa. – Shaka sorriu quando os outros o fitaram interrogativamente. – O que Aradia estava pintando?

- Um quadro. – Milo girou os olhos quando percebeu como sua resposta havia sido estúpida. – Outro retrato seu. Ela também estava nele. – Sorriu. – Devo dizer que havia mais nele do que eu gostaria de ter visto. Você sabe, eu não preciso olhar para você... Daquele jeito. – Piscou. – Apesar de que eu não me importaria de ver mais de Aradia quando estivesse terminado. – Virou-se para Saga. – Pensando bem, acho que você tem razão, vou voltar lá e—

Shaka agarrou o escorpiano pelo pescoço, interrompendo-o. Lançou um olhar para os outros que fizeram menção de separá-los até que se afastaram antes de voltar sua atenção para Milo.

- Vamos parar de gracinhas, Milo. – Ele disse calmamente. – Agora, por que não me diz o que exatamente ela pintou?

oOo

Aradia sentou-se nos degraus da varanda, as mãos segurando uma xícara de café e ergueu os olhos para fitar o céu noturno. Maria havia partido logo depois do jantar e a casa voltara a ser silênciosa, incomodando-a e lembrando-a de que estava sozinha novamente. Por algum tempo Aradia se mantivera ocupada lavando a louça o mais lentamente possível e guardando todas as peças no armário, até que sem mais poder suportar o silêncio, caminhara até o aparelho de som na sala e colocara o CD mais barulhento que possuía antes de fazer café, enrolar-se no xale e levar uma xícara para a varanda. Podia ouvir as batidas pesadas da Musicas, a voz grave do vocalista, mas isso não estava funcionando como antes. Ela ainda se sentia sozinha.

Ouviu a aproximação de Shiroi e não se surpreendeu quando o cão deitou a seu lado, pousando a cabeça sobre suas pernas.

- Onde está sua amiga? – Perguntou, baixando a cabeça para fitar o cachorro que a encarou curioso. – Acha que devemos lhe dar um nome também? – Baixou os braços, ainda apertando a xícara para aquecer as mãos. – O que você acha de Midnight?

Shiroi ergueu a cabeça e lambeu sua mão, fazendo-a rir.

- Certo, Midnight será. – Suspirou, tomando um gole de café antes de fitar o galpão. O cachorro mordeu sua mão gentilmente, chamando sua atenção. – Não se preocupe. – Ela riu. – Não tenho nada para fazer hoje.

O cachorro latiu, parecendo concordar e voltou a pousar a cabeça em suas pernas.

Aradia suspirou, tomando outro gole de café. Pouco tempo atrás ela se ressentiria por não conseguir pintar, mas não daquela vez. Desde que terminara aquele último quadro ela se sentia estranhamente em paz e satisfeita. Não como das outras vezes quando sua obsessão por um quadro perfeito de Shaka a fazia se sentir frustrada e irritada.

Não. Dessa vez ela se sentia... Em paz.

A garota tomou outro gole de café e voltou a fitar o galpão, franzindo o cenho. ‘Se ao menos aquela droga de tinta secasse mais rápido.’ Disse para si mesma.

- Talvez eu devesse deixar isso de lado. – Disse em voz alta depois de tomar outro gole de café. – Por que é tão importante? – Balançou a cabeça ao perceber que estava falando sozinha. – Estou enlouquecendo. – Tomou o restante do café e moveu as pernas para que Shiroi levantasse e permitisse que ela fizesse o mesmo. – Vamos entrar, aposto que você está faminto. – Sorriu quando o cachorro latiu e ajeitou o xale sobre os ombros, virando-se para entrar. Shirou latiu, levantando-se em alerta e Aradia virou na direção que ele fitava a tempo de ver a porta do estúdio fechando. – Shiroi, não! – Gritou quando o cachorro correu para o galpão ainda latindo. A xícara escapou de suas mãos quando ele desapareceu no interior do estúdio pela porta aberta e sem pensar ela o seguiu correndo.

Aradia parou na frente da porta quando o cachorro parou de latir e respirou fundo antes de entrar. O cômodo estava quase que totalmente escuro, a luminosidade que entrava pelas janelas não era o suficiente para iluminar todo o cômodo.

- Shiroi? – Chamou baixinho, xingando a si mesma por sua estupidez. Quantas vezes Maria dissera que ela não devia deixar o galpão aberto? E se quem quer que estivesse ali conseguira fazer algo para o grande cachorro branco, ela não seria um problema. Respirou fundo novamente, estreitando os olhos para a grande metade do cômodo não iluminada que abrigava os quadros. – Shiroi? – Ela ouviu o som das garras batendo no piso de madeira e suspirou aliviada. Provavelmente o que vira fora apenas o vulto da gata entrando no estúdio para dormir – Não me assuste assim.

A luz se acendeu e Aradia xingou quando a luminosidade a cegou por alguns instantes. Piscou, esfregando os olhos. Sentindo o coração acelerar quando ouviu passos aproximando-se. Girou com toda a força e um grito abafado deixou seus lábios quando a pessoa a abraçou, impedindo-a de atingi-lo.

- Você deveria arrumar um cadeado para essa porta. – Shaka disse. – Ou pelo menos trancá-la.

A garota suspirou em um misto de raiva e alivio. Não ofereceu resistência quando ele a fez virar para fitá-lo. Apenas franziu o cenho.

- Você não deveria invadir. – Disse irritada. – Eu podia estar armada. – A garota girou os olhos quando ele apenas arqueou uma sobrancelha em resposta. – Ok, eu não tenho armas em casa... Mas podia ter chamado a policia e garanto que eles tem armas.

- Eu ouvi quando você chamou Shiroi e correu para cá.

- Cachorro traidor. – Aradia murmurou. – Ele devia ter te mordido!

- Como você disse antes... – Shaka sorriu. – Acho que ele gosta de mim.

- Cachorro estúpido e traidor! – Aradia disse mais alto e lutou para se libertar. Deu um passo para trás quando Shaka a soltou rindo e virou-se para o cachorro que a encarava, balançando o rabo, parecendo feliz. – Não lata se não prende morder! – Ralhou. – Na verdade, não lata, apenas morda.

- Acho que ele sentiu minha falta. – Shaka estendeu a mão para o cachorro que correu para o lado dele e esfregou a cabeça nela.

- O que você veio fazer aqui? – Ela perguntou irritada.

- Agradecer pelos quadros?

- Aqueles que você odeia? – Aradia perguntou, jogando-se na poltrona. – Não achei que fosse gostar. Na verdade, o que pensei foi: Vamos castigar o idiota que partiu sem avisar. – Ergueu a cabeça para fitá-lo. – Eu teria mandado todos eles e meu CD preferido também, mas não achei que Milo fosse aceitar servir de burro de carga.

- Pena... Falhou miseravelmente... – Shaka disse, afastando-se da garota e caminhando na direção das telas. – Eu disse que gostava dos seus quadros.

- Gosta da música também?

- Acho que me acostumei. – Shaka deu de ombros parando na frente das telas enfileiradas, ao lado da que permanecia no cavalete parecendo não notar a reação de Aradia quase pulou da cadeira. – Ou talvez apenas tenha ficado surdo.

- Há há! Muito engraçado. – Aradia apertou os braços da poltrona, tentando não chamar atenção para sua reação. – Já me agradeceu... Agora você pode—

- Você faz isso quando os outros aparecem aqui? – Shaka perguntou sem se virar.

- Faço o que?

- Tem tanta pressa em expulsá-los.

Aradia o fitou em silêncio por alguns minutos, um pequeno sorriso se formando em seus lábios ao perceber o quanto aquilo parecia irritá-lo.

- Não. – Respondeu finalmente, levantando-se. – Na verdade, Kanon trouxe bolo ontem e nós...

- Por que ele trouxe bolo?

- Bom, ele quebrou outro vaso quando esteve aqui com Milo e—

- Por que eles continuam vindo aqui? – Shaka virou para fitá-la. – Eu não estou mais aqui. Não há razão para continuarem vindo aqui!

- Eles são meus amigos também, Shaka.

- Você os conhece a pouco mais de um mês Aradia.

- Nós nos conhecíamos a menos tempo quando... Você sabe. - A garota deu de ombros, arrumando o xale novamente.

Shaka desviou os olhos da figura da garota, parecendo desconfortável.

- Agora se você puder se afastar dessa...

- Isso é meu também? – Shaka perguntou.

- Não. – Aradia estreitou os olhos. – E mesmo que fosse, sabe que eu não gosto que outras pessoas vejam quadros que eu ainda não...

- Parece finalizado para mim.

A garota o fitou em silêncio até que finalmente pareceu se recuperar e se colocou entre ele e a tela. Os braços levantados, com o xale aberto como duas asas, cobrindo sua visão.

- Não é seu. – Repetiu, fracamente dessa vez e completou em pensamento. ‘Ainda não.’. Em voz alta disse. – Nada mais de torturas tolas que não funcionam.

- Pena, eu realmente gosto desse quadro.

Aradia piscou, parecendo surpresa.

- Por quê?

- Não estou sozinho nele.

- Você... – Aradia respirou fundo, baixando os braços lentamente. – Você não estava sozinho nos outros também.

- No último, você quer dizer.

- Em nenhum deles. – Aradia insistiu. – Eu percebi o que me deixava incomodada nos outros. Sempre imaginei que faltasse algo. Faltasse alma. – Ela deu um pequeno sorriso. – Mas eu finalmente entendi quando aquele quadro caiu em sua casa, antes de virmos para cá... – Deu um passo na direção dele. – Eu nunca quis que você estivesse sozinho, por isso em cada desenho, esboço ou quadro que pintei depois daquilo... Eu sempre apareci neles, Shaka.

O virginiano franziu o cenho.

- Acho que eu teria notado isso.

- Notou no último quadro ou alguém contou para você?

Shaka desviou os olhos dos dela desconfortável.

- Achei que não. – Aradia riu parecendo aliviada. – Não percebi isso até que Milo disse que eu precisava ser clara. – Esticou a mão e tocou o braço dele. – Mas eu ainda tinha medo. – Apertou o braço dele. – Não começamos do jeito certo... E se você já tivesse conseguido de mim tudo o que queria? Sempre pareceu tão certo de tudo, de como gostava de sua vida certinha e cheia de regras e horários. Eu sempre estive longe de ser perfeita.

- Eu não—

- E então naquele dia, você me contou... Tudo. – Ela estremeceu quando ele colocou a mão sobre a sua. – Lá estava eu desmoronando, chorando feito uma estúpida porque estava morrendo de medo do que aconteceria quando o domingo chegasse e você resolve me contar tudo. – Aradia sorriu. – E você pareceu mais perfeito ainda, tentando me mostrar suas falhas. Com tanto medo de qual seria minha reação... Parecendo tão certo de que isso faria eu expulsar você. – Ela respirou fundo antes de continuar. – Nada poderia me afastar de você.

- Aradia... – Shaka disse, tocando o rosto dela.

- Eu não sabia o que você esperava de mim, alterei o quadro no domingo e pretendia mostrá-lo para você antes que partisse, mas...

- Eu parti sem avisar.

- O tempo todo que conversei com Milo, você estava me deixando. Desaparecendo como disse que não faria. – Aradia respirou fundo. – Quando eu finalmente decidi ser corajosa e lhe dizer como me sentia... – Ela colocou a mão sobre a dele, tentando arduamente não ceder ao desejo de chorar novamente. – Eu pensei que não pudesse suportar. O que eu mais temia tinha acontecido.

- Desculpe, Aradia.

- Então... – Ela deu um sorriso, afastando o rosto de seu toque. – O que o fez voltar?

- É idiota.

- Você é idiota. – Aradia mostrou a língua. – Idiota, presunçoso, teimoso, irritante, e...

- Ouvi Milo dizer que você não quis entregar os quadros pessoalmente porque estava ocupada pintando outro. – Ele se apressou a falar, interrompendo a lista de qualidades que imaginava ser interminável.

- Perfeito. – Aradia completou. – Insuportavelmente perfeito.

Shaka girou os olhos e ela sorriu.

- Então precisou vir aqui xeretar.

- Ele estava dizendo como gostaria de ver mais de você quando o quadro estivesse pronto. – Shaka deu um passo para trás irritado. – E como tinha visto demais de mim, então...

- Oh! – Aradia riu. – Você pensou que fosse esse tipo de quadro.

- Sim. – Shaka admitiu mal humorado. – Maldito Milo. Eu devia ter imaginado que ele estava mentindo.

- Está desapontado? – Aradia sorriu, fazendo um sinal com a cabeça para o quadro as suas costas. – Podia ser sua única chance de me ver... Por inteiro novamente.

Shaka fitou o quadro, um pequeno sorriso se formando em seu rosto para a cena. Lembravasse com perfeição daquela primeira manhã quando ele tentara acordá-la e Marco entrara. Aradia estava em pé, escondida atrás dele, as mãos em torno de sua cintura, abraçando-o. Pouco podia se ver dela além dos olhos acima de seu ombro e os cabelos negros totalmente desarrumados. Via seu próprio rosto de perfil, virado para poder fitá-la.

- Viu o que acontece quando não me obedece?

O sorriso de Aradia aumentou.

- Você se zanga e faz coisas impensadas como me expor ao seu aprendiz adolescente.

- Eu não... – Ele parou de falar quando ela o abraçou pela cintura.

- Você não está mais sozinho, Shaka. – Ela disse contra seu peito. – E se eu precisar pintar um quadro para mostrar cada momento em que o abracei para convencê-lo disso, é isso o que vou fazer.

Shaka sorriu, abraçando-a.

- Prefiro ter você ao meu lado do que lembranças.

- Eu sabia que não gostava dos meus quadros! – Ela disse em tom de brincadeira.

- Eles são perfeitos, Aradia, perfeitos demais para que eu queira compartilhar com alguém. – Ele beijou seus lábios suavemente. – Muito mais perfeitos do que eu jamais serei.

A garota sorriu, passando os braços em torno do pescoço dele, beijando-o novamente. Afastou-se quando Shiroi latiu e deixou o galpão correndo.

- Eu acho que devemos entrar e fechar as cortinas. – Fez um sinal para a porta quando o cachorro continuou latindo. – O que acha que está fazendo Shiroi latir desse jeito?

Shaka a fitou em silêncio antes de fitar a porta. Franziu o cenho quando o cachorro continuou latindo e ele pode ouvir vozes.

- Eu não acredito.

Aradia riu, arrumando o xale para que ele cobrisse seu corpo e passou o braço pelo dele.

- Talvez seja melhor salvá-los antes que Shiroi morda alguém. – Aradia se encolheu quando ouviu alguém gritar e o cachorro se afastar correndo, provavelmente perseguindo seu alvo. – Tarde demais para isso, talvez – Ela gritou quando Shaka alevantou nos braços. – Pare com isso, tenho que pegar Shiroi antes que—

- Não, você não tem. – Shaka disse – Ele só está fazendo o que você disse. ‘Se vai latir, morda.’, lembra?

- Mas...

- Nada de ‘mas’. – Ele saiu correndo do galpão, fazendo com que ela se segurasse em seus ombros com força. – Deixe os espiões ocupados aqui enquanto vamos para casa.

- Não posso deixar minha casa aberta... Shaka! – Ela escondeu o rosto no peito dele. – Shaka, vou ficar enjoada, pare com isso!

- Não se preocupe com isso. – O virginiano riu. - Ninguém vai assaltar sua casa com eles por perto, Aradia.

A garota finalmente riu, encostando a cabeça no peito dele. Fechou os olhos, sentindo-se realmente feliz e em paz. Nenhum deles ficaria sozinho novamente.

oOo

Maria cutucou Milo quando o casal desapareceu.

- Eu sei. – Milo riu. – Ingratos, nem para nos agradecer.

A garota loira riu.

- Tem alguma idéia de como parar aquele monstro branco?

- Nenhuma. – Ela disse vendo Shiroi perseguir Kanon. – Ele só obedece Aradia.

- Ótimo. – Saga disse com um sorriso largo. – Acho que vou ajudá-lo. Você sabe, Kanon pode se lembrar que é mais rápido que o cachorro e despistá-lo.

- Você é realmente mal com seu irmão. – Maria riu. – Não me lembro de ser assim com o meu.

Saga apenas sorriu antes de desaparecer atrás do cachorro.

- Está com fome? – Maria perguntou. – Acho que vi metade de um bolo na geladeira.

- Não vai me dizer para ajudar Kanon?

- E acabar com a diversão de Saga? – Ela piscou. – Não mesmo. – Ela caminhou na direção da casa. – Pode fechar o galpão enquanto vejo o que mais tem na geladeira? Imagino que aqueles dois vão estar com fome depois do exercício...

oOo

Aradia se espreguiçou lentamente antes de abrir os olhos na manhã seguinte. Sentou-se na cama em um pulo e olhou em volta assustada.

- Você realmente acorda com uma tremenda energia.

A garota girou a cabeça para fitar Shaka deitado a seu lado. Esfregou os olhos antes de passar as mãos pelos cabelos e suspirar.

- É cedo demais para estar acordada. – Ela resmungou, aproximando-se do corpo dele. – Por que você está acordado?

Shaka riu, abraçando-a.

- Voltei para pegar aquilo. – Ele a abraçou quando a garota levantou a cabeça e fitou o quadro apoiado na parede.

- Podia esperar até mais tarde.

- Não, não podia. – Shaka suspirou quando ela deitou a cabeça em seu peito.

Aradia suspirou feliz e abriu os olhos novamente.

- Você não vai sumir quando eu acordar, vai?

- Você está acordada, Aradia.

- Realmente... – Ela disse, decidindo ignorar o divertimento na voz dele. – Seus amigos ainda estão fugindo de Shiroi?

- Não, Saga parecia bem contente alimentando seu cachorro monstro. – Ele riu. – Acho que ele pode tentar roubá-lo de você.

- Hum?

- Imagino que Kanon tenha sido o alvo de Shiroi.

Aradia riu.

- Então eles ainda estão lá?

- Estavam, imagino que já tenham voltado. – Shaka beijou a testa de Aradia. – Maria estava dormindo na sala, não se preocupe. Tenho certeza que vai fechar tudo.

Aradia virou na cama, sentando-se, e fitou o quadro novamente.

- Não posso ficar indo e vindo.

- Não pedi que você fizesse isso.

Ela virou a cabeça para fitá-lo.

- E o que você pediu exatamente?

- Hum... – Shaka sentou na cama ao seu lado. – Acho que preciso ser claro para que não aja mais confusões ou dúvidas. Quero que você fique comigo. Para sempre.

Aradia sorriu e beijou seus lábios.

- Acho que você merece que eu seja clara também. – Apoiou a mão em seu peito. – Sim. Não posso pensar em nada que me faça mais feliz do que ficar com você. Para sempre. – Inclinou-se para beijá-lo novamente quando a porta se abriu. Ela puxou os lençóis, cobrindo seu peito e fitou Marco chocada.

- Bom dia, Mestre... Aradia... Err.. Bom dia... Eu não.... – O rapaz parou de falar e abaixou a cabeça antes que um travesseiro o atingisse. – Desculpe!

- Fora daqui, Marco!

Aradia riu enquanto Marco fechava a porta, ainda se desculpando e viu quando Shaka pegou um de seus sapatos e atirou na porta.

- Começo a entender porque você gosta tanto de atirar coisas.

A garota riu ainda mais e deixou-se cair na cama. Shaka sorriu, inclinando-se sobre ela.

- Onde paramos?

- Acho que íamos comemorar algo. – Aradia respondeu ainda rindo e passou os braços em torno de seu pescoço. – Mas acho que antes você precisa colocar um sino no pescoço de Marco.

- Querida... – Shaka disse, acariciando seu rosto. – Se estivéssemos mesmo comemorando, não acho que ouviríamos o sino.

- Então você precisa arrumar um cadeado para essa porta, ou matar seu aprendiz enxerido. – Aradia parou de falar quando ele a beijou.

- Acho que prefiro a segunda opção. – Shaka murmurou contra seus lábios e a garota riu novamente.

oOo

Seis meses depois.

Aradia sorriu ao se afastar do quadro. Amanhecera a pouco tempo e ela mais uma vez passara a noite em claro pintando. Os primeiros raios de sol banhavam a sala que ela usava como estúdio desde que se mudara para a Casa de Virgem. Ela deixou o pincel cair no piso e fitou a tela finalmente satisfeita. Pulou quando alguém tocou seu ombro e tentou desajeitadamente desligar o MP3, mas acabou desistindo e tirou os fones do ouvido.

- Vejo que terminou. – Shaka disse, rindo da expressão emburrada da garota.

- Eu já falei para não me assustar assim.

- Se não ouvisse música tão alto, teria percebido antes.

- Se você não fosse tão reclamão, eu não precisaria de fones! – Aradia rebateu. – É sempre o mesmo discurso idiota ‘Pare de ouvir essa Musica infernal tão alto’... Isso está ficando velho, sabe.

- Você podia melhorar seu gosto musical.

- Não comece, Shaka! – Aradia passou as mãos pelo rosto e xingou quando percebeu que estavam sujas de tinta. – E não ouse rir!

- Estou rindo? – Shaka perguntou arqueando uma sobrancelha.

- Está pensando em rir! O que é ainda pior... – Ela xingou novamente quando afastou uma mexa do rosto esquecendo da tinta que cobria seus dedos. – Acho que preciso de um banho antes de qualquer coisa.

- Você não respondeu minha pergunta.

- Visto que você está olhando a pintura sem que eu tente arrancar seus olhos... – Aradia disse, virando-se para fitá-lo. – Sim, eu terminei.

Shaka ignorou a ameaça e fitou o quadro pela primeira vez. Quando ela lhe contara seus planos para esse quadro, ele havia protestado, mas não podia negar que o resultado final o agradava.

- Então? – Aradia perguntou, esperando pacientemente.

- Eu gosto.

A garota sorriu.

- Ótimo, então pode dar um nome.

O virginiano sorriu, observando sua própria figura coberta de ferimentos, e a garota seu lado, um braço circulando sua cintura. Ela parecia apoiá-lo, impedindo-o de cair com uma expressão tão determinada no rosto delicado que intimidaria qualquer um. O rosto feminino exibia pequenos cortes, e apesar da aparência frágil ela parecia pronta a pular da tela e atacar qualquer um que ousasse feri-lo.

- ‘Verdade’. – Ele virou para fitá-la e sorriu. – Esse é o nome para o seu quadro.

- Sério?

- Imagino que seja uma representação real da sua reação se isso acontecesse.

Aradia ficou em silêncio por vários minutos antes de abraçá-lo.

- Você não entendeu de novo. – Ela disse finalmente. – Isso já aconteceu. – Sorriu, tocando seu rosto quando ele a fitou confuso. – Todos temos nossos ferimentos.

- Você nunca me viu ferido. – Ele voltou os olhos para a tela. Observando-a com mais cuidado, podia perceber que um se apoiava no outro e apesar de ferido ele exibia a mesma expressão determinada e intimidadora da garota. O mesmo braço que usava para se apoiar nela, abraçando-a protetoramente. – E você nunca... – Ele parou de falar ao notar lágrimas percorrendo o rosto delicado na tela.

- Ferimentos nem sempre são visíveis. – Ela se disse, abraçando-o com mais força. – Pode dizer honestamente que não estava ferido assim... Por dentro? Pode dizer que estava inteiro antes?

Shaka respirou fundo antes de desviar os olhos da tela e a fitá-la.

- Não. – Ele disse. – Assim como você.

- Exato! – Aradia deu um grande sorriso. – Portando, ‘Verdade’ é um nome perfeito.

- Sim, realmente é perfeito. – Shaka a apertou contra si. – Finalmente eu concordo com você, Aradia. Isto é perfeito.

FIM!


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