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Purgatório
Author: Arashi Kaminari PM
E se um dia você descobrisse que a Terra é o parque de diversão de Deus? E se você soubesse que Ele fez uma aposta com o Diabo? Você se renderia? Ou você resistiria? Inspirado e baseado em Anjos Rebeldes e Constantine
Rated: Fiction K+ - Portuguese - Drama/Tragedy - Reviews: 13 - Updated: 11-30-05 - Published: 06-25-05
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PURGATÓRIO
Arashi Kaminari

Capítulo 02 - Decisões

Mu POV

Percebi que o olhar de Shaka não me ameaçava mais. Ele se atinha a algo além das minhas costas. Voltei-me um pouco na direção contrária e encontrei um dos jovens que Shaka criava tentando andar debilmente sobre a areia. Mal se agüentava em suas próprias pernas. Aquela deveria ser a conseqüência da noite anterior; de uma noite infestada de pecados. Pecados capitais. Deixei que um pequeno sorriso se abrisse em meus lábios e me aproximei, quando o jovem caiu de joelhos sobre o solo e tentava chamar o mentor. Uma cena digna de cinema de quinta categoria. Infelizmente eu teria que arruiná-la.

Apoiei suas costas num dos meus braços e cobri a sua testa com a mão do meu braço livre. Logo Shaka se aproximou e me segurou a mão. Pude perceber o terror que se apossara dele. O garoto lhe era realmente muito importante, mais importante do que imaginávamos. Tanto ele quanto eu. E por alguma razão, não se devia somente pelo significado da existência dele. Havia alguma outra preocupação que eu não conseguia distinguir muito bem.

– Shaka? – o garoto chamou meio incerto, não conseguindo identificar muito bem o tutor, que se aproximava.

– O que está fazendo? – Shaka me perguntou de forma seca.

– Preservando-o: o que é teu dever. – respondi, terminando meu trabalho, fazendo o jovem cair em um sono profundo.

– Devo agradecer?

– Mantenha-o ignorante ao que está por vir, se temes por ele.

– E se eu não conseguir? – Shaka perguntou com aquele ar de contrariedade que eu detestava, enquanto punha o jovem em suas costas.

– Provavelmente, a morte o abraçará. Não deixes que ele cruze meu caminho ou senão, eu não respondo por meus atos. – dei-lhe as costas e desapareci num piscar de olhos.

Então ali estava, agora acolhido nos ombros de Shaka, o maldito. O maldito que todos nós desejávamos. Que todos nós desejávamos que morresse depois de cumprir o seu próprio destino. Ele trazia a morte e Nosso Pai não parecia se importar. Ele era uma maldita aberração. Uma arma para a tentativa de destruição de Nosso Criador. Um golpe contra Nosso Deus, como o golpe daqueles dois no princípio. Nós não deixaríamos que ele se voltasse contra Zeus. Acabaríamos com sua existência antes.

Seus dias estavam contados. Nós contávamos por ele. Mas estávamos lhe dando uma chance de viver, apesar de desejarmos com todas as nossas forças o seu fim: bastava não nos interromper. Não uma aberração! Por Deus, como ele pôde vir a vida?

Que ele queimasse no inferno para a remissão de todos os pecados de seus criadores. Aquele maldito anjo e sua consorte! Para a salvação da alma de Shaka, que pecava mais uma vez mortalmente. Que pecava por nos manter longe daquele maldito por tanto tempo.

Estava indo mais fundo a cada dia. Aquela era uma missão que eu havia designado a mim mesmo. Só me deteria quando a tivesse cumprido. Nunca falharia e não seria naquele momento que o faria.

Não conseguia deixar tudo para trás. Aquela sujeira escondida atrás das asas daquele maldito. Como ousaram tanto? Eu tinha raiva de estar vivo para ver o tamanho de tal ousadia. O maldito pai da aberração já estava morto e mesmo assim não me sentia satisfeito. Minhas mãos estavam sujas de sangue por pessoas como ele. Mas eu não me importava. Se para que obtivéssemos a justiça, eu tivesse que sujar minhas mãos mais uma vez, assim eu o faria. Acabaria com o maldito, como minha última missão, nem que a sua morte fosse minha perdição.

oOo

Ikki POV

– Shaka!

Não pude deixar de escapar tal exclamação. Eu sabia que eu não deveria estar ali; fitando-o dentro de sua própria casa. Agindo com surpresa, quando seria ele quem deveria agir de tal forma. Shaka deveria estar pensando daquela forma, afinal... Eu deveria dizer a ele, mas parecia que as palavras não surgiam com tanta facilidade naquele momento. Quando elas saíam da boca, não havia mais volta. Tinha medo de dizer besteiras e magoá-lo novamente.

– Surpreso por me ver? Nunca se assustou ao me ver pela manhã. – brincou, apesar de sua feição facial continuar intacta.

Eu estava afundando e sabia disso. Apenas não sabia se conseguiria me salvar. Estava me amarrando a uma bandeira branca para ver se o homem a minha frente viria me salvar, assim como ele o havia feito inúmeras vezes antes. Eu sabia que eu o havia deixado e junto a ele, eu havia deixado meu irmão. Que eu não havia cumprido minhas palavras.

Mas nada vinha de graça. Achava que eu havia aprendido a lição. Se Shaka me perdoasse, aquilo talvez fizesse sentido. Porque eu estava lutando pela minha sobrevivência em meio a algo que eu mesmo não entendia. Sabia que havia muito mais do que eu imaginava e eu sabia que meu tutor sabia o que era. Shaka era tudo o que eu precisava naquele momento.

– O que aconteceu? – indaguei-o, enquanto me posicionava de uma melhor forma sobre as inúmeras almofadas, que ficavam num canto da sala – Minha última lembrança é que eu estava vindo para cá e então eu... – branco novamente. Forcei minha mente, mas nada vinha.

– Você...?

– Aquele aperto novamente. A sua visita se aproximou de mim...

– Que visita? – perguntou, atordoando-me, antes de me chamar: Ikki?

Por que não me olhava então? Será que eu havia o magoado tanto assim? Ou ele estaria tentando me proteger? Eu nunca entendi as formas que ele usava para me proteger mesmo. Às vezes me respondia que era melhor eu não saber. Que apenas precisava me salvar de mim mesmo.

Mas eu sabia que se eu precisasse, o indiano a minha frente afundaria comigo para me salvar. Eu estava apaixonado e sempre estaria. Shaka sabia, mais do que ninguém, o que eu esperava dele. Nunca alimentei chances de retorno, mas... Ainda havia a esperança. Quando eu afundasse, eu não queria que ele me acompanhasse. Só desejava que levasse com ele tudo o que se passasse e quem sabe, talvez, salvasse quem quer que estivesse precisando de ajuda com minha lição de vida num futuro próximo.

– Esquece.

– Anda tendo alucinações?

– Não! Eu só... pensei ter visto algo que eu não vi. – respondi, escutando os gemidos de Shun, que parecia estar em meio a mais uma de suas crises.

oOo

Shun POV

Eu não queria ser o que queriam que eu fosse. Apenas me viam superficialmente. Estava sendo observado e julgado a cada passo. Estava me sentindo tão enlouquecido aquela noite. Estava me ferrando com isso.

Não havia para onde fugir. Não havia em quem me refugiar. As pessoas não conseguiam enxergar e aquilo já estava acabando comigo. Tudo o que eu pensava ser real estava desmoronando. Escondido em frente a todos. Ninguém via. Estava começando a me achar louco. Um lunático sem cura. Estava tão mal aquele dia.

Via coisas que ninguém deveria ver em momento algum. Tornaria-me um deles. Não queria ser como aqueles espectros. Mas eu sabia que no fim eu também estaria caindo. Ainda havia esperança, se ele quisesse estar ao meu lado e vir a ser como eu também. Estava tão mal que eu não sentia nada. Eu só queria que houvesse alguém como eu. Estava tão sufocado por mim mesmo, que eu achava que eu era um perigo a minha própria saúde.

– Você pode ver, não pode? – perguntei a Ikki, num momento fugaz de lucidez.

– Ver o quê?

– Não minta para si mesmo. – ele estava me olhando como os outros que não me entendiam. Querendo que eu deixasse isso e não tocasse mais no assunto. Mas não. Eu não o faria novamente. Não naquele momento. – Você pode ver. A hora chegou e já passou. Sua vida se esvai mais rápido a cada segundo que passa. As nossas...

Mas não era assim tão fácil. Ikki havia resolvido negar, mas eu havia resolvido continuar. Seguindo em frente apesar de tudo, mas parecia que eu estava apenas errando. Ikki não via... Eu estava como ele estaria se tivesse continuado. Eu queria que ele me deixasse naquele momento, se achava que eu era um estorvo. Meu irmão não via, porque não queria.

– Eu não entendo.

– Não entende, porque você simplesmente se nega a isso.

Algo me segurava tão forte e Ikki não sentia. Por que não dizia nada? Estava ali. Eu não era importante para ele? Pensei que a cada passo que ele desse algo o atormentasse, mas parecia que aquela não era bem a verdade. Ele não estava nem aí. Estava tão ensandecido quanto eu. Apenas não queria admitir. Tudo o que eu queria era que ele abrisse os olhos antes que fosse tarde demais. Havia um tempo e ele estava se esgotando. Aquilo não era um jogo. O mundo estava perigando.

– Shun! Shun! Shun!

– Benetona... – foi o único nome que eu consegui pronunciar antes de desfalecer mais uma vez.

oOo

Ikki POV

Levantaria a minha cabeça. Todos cometiam erros. Todos começavam novamente. Do nada. Eu não seria o primeiro e esperava não ser o último. Estaria por aí em qualquer lugar, de qualquer forma. Eu não me importaria. Mas eu estaria com meus sonhos e esperanças atrás de respostas. Eu estaria e só voltaria para casa quando eu descobrisse. Se aquela vida fosse tão fácil, não seria tão legal de ser vivida. Não teria sentido.

– Aonde você vai?

– Encontrar meu caminho. – respondi a pergunta de Shaka, sem me virar para sua pessoa.

– Você não tem...

– Eu preciso. Desculpe.

– Tudo bem. – ele assentiu, com aquele tom de quem aceitava, porém não compreendia.

– Sou eu o anjo que todos temem, não?

– Ikki...

– Eu sou. – eu disse rapidamente, não dando chance dele tentar criar uma mentira qualquer – Então aquela história que minha mãe contava enquanto eu ainda era criança, era minha história.

– Eu não vou te impedir. Só peço para me prometer voltar são e salvo.

– Você tem minha palavra de honra. – prometi, ao me voltar a ele e olhar bem fundo em seus olhos.

Eu precisava achar o caminho. Não podia achá-lo no dia seguinte. Ele podia mudar. Poderia ser tarde. Tinha que fazê-lo, não importava quanto tempo eu perderia. Nunca era muito tarde. Tomaria outro suspiro antes de continuar. Tinha que rezar. Eu voaria por aí. Minhas asas me levariam. Eu não me importaria. Eu só voaria por aí, junto aos meus sonhos e minhas esperanças – que estavam guardadas em algum lugar. Eu nunca ousaria, mas daquela vez era diferente. Havia algo muito maior do que eu mesmo e, eu sabia que estava envolvido. Ele e eu. Devíamos nos juntar e descobrir.

oOo

Milo POV

Todos os habitantes da vila haviam se reunido na vendinha da esposa de um velho pescador. Comemoravam alguma coisa, que mais tarde – não muito depois – vim saber ser a retirada de Ikki da aldeia. Logo que me viram, chamaram-me para me juntar a eles, mas o meu asco pelos seus atos me enojaram e eu desisti de almoçar em harmonia com meus companheiros. Dei uma desculpa qualquer e saí dali, impressionado com a capacidade e a frieza das pessoas quanto às outras. Ainda mais com alguém que havia crescido ali, entre todos. Caminhei rapidamente até a casa de Shaka.

– Ikki por aqui? – indaguei ao me aproximar do loiro, que encostado numa das vigas de madeira da varanda, observava o garoto se afastar – Rumores dizem que você o havia posto para fora ontem.

– É o que dizem, é?

– Então...? – como sempre muito evasivo, mas parecia que ele não estava muito disposto para conversa fiada naquele momento – Esquece. Para onde ele está indo com tanta pressa?

– Para um lugar que nós não podemos o acompanhar.

Para qualquer pessoa aquele frase poderia soar por demais indiferente e impessoal, com pouco caso ou como um corte bem dado num assunto que não deveria ser tocado; mas eu não era qualquer pessoa. Eu conhecia Shaka há muito tempo e, eu podia ver naquele momento que, ele estava sofrendo o mesmo ou até mais do que Ikki. Era incrível como as pessoas que menos precisavam da dor, sempre a possuíam presentes em suas vidas.

Já havia visto muitas famílias chorando. Não era uma cena muito agradável, assim como aquela que eu estava presenciando. Ikki e Shun eram aquilo que Shaka chamava de família, desde que perdera a sua original. Havia se apegado a eles de tal forma, que alguns moradores da aldeia viam com maus olhos, porque simplesmente não conseguiam entender de onde vinha tanto amor por parte do indiano para os seus ´filhos´.

Todos se reúnem para se divertirem. Mas naquele caso, eles comemoravam a tristeza de Shaka e aquilo era totalmente absurdo. Sem falar que eu tinha um péssimo pressentimento. Algo muito grande estava para vir e o que mais me preocupava, não era o fato de algo desconhecido estar prestes a acontecer, era Shaka saber e guardar todo o segredo e a dor só para si, numa atitude egoísta. Eu não queria nem pensar no que ele poderia ter visto nas suas últimas meditações.


Por Arashi Kaminari, 22 de outubro. 2, 5, 8 e 24 de novembro.

Nota da Autora:

Obrigada pelos e-mails Arthemisys.

Maiores informações quanto a demora disponível em http / w w w . arashikaminari . weblogger . terra . com . br .

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