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Aquele que é igual a Deus, a encarnação do Mal
By Darkrose
Capítulo 4: "Infância e treinos- Só temos um ao outro"
Santuário, Grécia. Manhã.
Ignorando o espanto das crianças, Hermes começou a caminhar em direção a uma estradinha poeirenta e deserta. Saga e Kanon despertaram de seu espanto e correram para alcançá-lo.
Hermes chegou numa casa rústica, de péssima aparência, dando a impressão que ela desabaria a qualquer momento. Mas o que realmente aterrorizou os garotos foi a localização da casa: na beira de um precipício.
-É aqui que você mora, tio Hermes?-indagou Saga, com um pouco de vertigem.
-Oui, Saga. Este é o meu palacete. –o cavaleiro riu da piada
-Argh! Saímos da nossa casa pra vir pra isto! Este buraco no meio do abismo!–Kanon olhou desolado e revoltado para o precipício.
Hermes pensou em dar uma resposta pro garoto, mas limitou-se a encarar o menino com um olhar divertido e ameaçador.
-Nem tudo é o que parece, lembre-se disso. E quando eu começar a te treinar, me lembrarei de suas palavras, rapazinho.
-Tente me castigar, tio, mas não vai conseguir. Mal sabe diferenciar eu do meu irmão. –sorriu o pequeno encrenqueiro, correndo em volta de Saga durante algum tempo e parando ao lado do irmão.
Hermes gargalhou ao ver a tentativa do garoto de confundi-lo. Abaixou-se e agarrou Kanon pela gola da blusa e o colocou pra trás, passando por eles:
-Eu sei diferenciar vocês... Saga é educado e cauteloso... Pelo menos aparenta ser. Mas você, Kanon, é muito insolente e precipitado.
O menino ficou sem graça e baixou a cabeça. O cavaleiro abriu a porta da casa e os deixou entrar. Os levou para um quarto pequeno. Tinha um colchão e um armário velho. Uma cadeira estava de frente à uma janela fechada.
-Très bien (1)... Eu não imaginei que voltaria pra cá com um garoto, quanto mais com dois! –Hermes pôs as malas na cadeira e o restante no chão. Abriu a janela e deixou o sol entrar. – Então, essa noite vocês terão que dividir esse colchão.
-O QUÊÊ?- sobressaltou-se o espevitado.
-Ah, não é tão ruim assim... Prometo que pelo menos cada um terá seu próprio prato. –riu o homem se espreguiçando. – Arrumem suas coisas no armário. Este será o quarto de vocês por um longo tempo.
Ele saiu do quarto e os deixou à vontade. Os menininhos começaram a tirar as coisas da bagagem e colocaram dentro do armário de qualquer maneira. Brinquedos e roupas se espalharam no chão, numa completa bagunça.
Naquele dia, ele optou por não iniciar os treinamentos. Queria fazer com que se acostumassem com a nova casa. Mas no dia seguinte, começaria sem falta.
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Tudo estava escuro. O sol ainda não tinha aparecido; era madrugada. Os meninos estavam embolados no colchão. Saga tinha chutado seu cobertor para fora e roubara o do irmão durante o sono, mas ainda assim, tremia de frio. Kanon estava com a cabeça encostada no ombro do irmão e um fio de baba escorria de sua boca, chegando no travesseiro.
Hermes viu a cena e sorriu de leve. Os dois pestinhas do Parthenon eram adoráveis dormindo. Pigarreou e balançou a cabeça. Não era hora para ficar com sentimentalismos.
Abaixou-se até os dois e os sacudiu, chamando-os.
-Saga... Kanon... Levantem-se, temos um dia cheio pela frente!
Saga abriu uma fresta dos olhos. Tinha o sono leve. Vislumbrou na escuridão o corpo do "tio" Hermes. Virou para o outro lado e tentou voltar a dormir.
O cavaleiro suspirou.
-SAGA E KANON MIXALIS, LEVANTEM-SE IMEDIATAMENTE OU EU IREI JOGAR ÁGUA GELADA EM VOCÊS!
O menininho já estava acordado, desistiu de enrolar na cama e levantou-se num salto. Viu o corpo adormecido do irmão babão e deu um chute de leve na bunda do outro:
-Kanon! Pára de babar no travesseiro e levanta!
-Mas que chatice... Estamos acordando antes mesmo das galinhas!-protestou o menino cheio de sono e mal-humor.
-Bien, bien,(2) isso é apenas o começo, petit garçon (3)... Vistam-se e me acompanhem... A jornada de vocês vai começar...
Enquanto os dois se trocavam, Hermes sentou-se numa cadeira na sala. Olhou para um canto e viu a urna da sua armadura. Questionou-se por um momento sobre como começar a explicar sobre o cosmos, a força interior que cada pessoa carrega dentro de si. Ele aprendeu aquilo quando tinha 15 anos e levou muitos anos para compreender com exatidão as coisas que seu mestre ensinara... Será que crianças de 6 anos seriam capazes de compreenderem melhor?
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Pouco tempo depois, os irmãos Mixalis apareceram devidamente trajados. Hermes sorriu e se levantou, fazendo sinais para que eles o seguissem.
Saíram de casa. O céu começava a clarear lentamente. O cavaleiro de Gêmeos já sabia como começar o treinamento. Iria fazer o mesmo que seu mestre fez. Iria usar o espanto para mostrar para aquelas crianças os reais limites do corpo humano.
-Saga e Kanon... Prestem atenção no que vou falar, pois será importantíssimo e vocês levarão minhas lições para toda a vida. O Universo é composto de minúsculas partículas, invisíveis a olho nu. Chamam-se átomos. Vocês, como boas crianças gregas que são, -sorriu de leve do comentário cretino que fizera- devem saber muito bem o que significa "átomo".
-Significa "Indivisível".-respondeu Saga com certo tédio. Aquilo não lhe parecia muito desafiador.
-Ou seja, que não se parte...-completou Kanon, bocejando de sono.
O cavaleiro revirou os olhos. Não estava tendo um começo de aula promissor. Kanon se espreguiçou e bocejou mais. Como se o sono fosse algo contagioso, Saga também bocejou. Hermes quase bocejou também, sentia-se ridículo naquele papel de mestre. Mas não se deu por vencido. Tinha uma missão, que era treinar um novo sucessor. E também fizera uma promessa para os pais dos dois: que os transformaria em homens fortes e honrados.
- Sie vorsicht aufmerksam... (4)
Saga e Kanon não entenderam nada do que o mestre falara, mas antes que pudessem questioná-lo a respeito do que dissera, viram que uma estranha luz emanava do corpo de Hermes.
O corpo dele brilhava. Uma forte luz dourada envolvia seu corpo. Toda a luz começou a se concentrar num único ponto, na mão direita dele. O cavaleiro ergueu o braço e abriu a mão, como se fosse tocar o céu. No mesmo instante, o céu se iluminou num clarão cegante que deixou os meninos boquiabertos encarando o céu iluminado.
Saga encarava Hermes e o céu e depois olhou para Kanon. O irmão estava com o olhar fixo no horizonte. A luz se apagou e se desvaneceu com relativa lentidão.
O cavaleiro sorriu satisfeito. Tinha conseguido a atenção deles.
-Essa luz que clareou o céu que amanhecia lentamente foi gerada por mim. E vocês sabem como eu fiz isso?
Os meninos balançaram a cabeça, negando. Ainda estavam sem palavras, maravilhados com o espetáculo que o mestre dera.
-Isso foi feito com ajuda dos átomos... Por isso que eu falava deles. O átomo é a unidade fundamental da matéria. Ou seja, tudo nesse mundo é feito de átomos... A minha casa feia, como Kanon chamou, é feita de átomos. As plantas, os animais e as pessoas. Eu e vocês... Todos somos a união de partículas minúsculas e indivisíveis. E como todos nós somos feitos da mesma coisa, da mesma matéria, podemos interferir diretamente no mundo à nossa volta. Para isso, precisamos de energia. E como conseguimos essa energia?
-EU SEI, EU SEI! –berrou Kanon, animado, balançando os braços para responder.
-Então nos diga, Kanon.
-Comendo! Tomando café da manhã por exemplo! Falando nisso, cadê o nosso café?
O cavaleiro revirou os olhos. Não era oráculo nem possuía nenhum poder de vidência, mas previa que aquele garoto lhe daria muita dor de cabeça.
-O café será quando eu mandar. Agora estamos estudando. Mas de certa forma, você está parcialmente correto. Retiramos energia de algo fora de nós. De uma fonte. No caso de algumas pessoas, a força vem da alimentação. Para outras, na forma de orações. Existem muitas e muitas fontes. É algo relativo. Aliás, tenham isso em mente. Nada nesta terra possui uma versão única. Todas as coisas, pessoas, sentimentos, tudo enfim possuem várias faces. Como os gêmeos... Vocês dois são idênticos, mas cada um de vocês pensa e age de maneiras diferentes... Estão me entendendo?
Os garotos confirmaram em silêncio.
-Quando tiverem dúvidas, me avisem. Quero ser claro para vocês entenderem isso. Essas coisas que estamos falando são um pouco complicadas para adultos e para crianças deve ser terrivelmente chato... Mas eu tentarei não ser chato. Não muito, pelo menos. –sorriu Hermes, arrancando alguns sorrisos dos garotos.- Mas enfim, estou falando e falando e ainda não cheguei na parte importante. Eu falava das fontes de energia. Eu disse que elas estão fora de nós. Mas o que aconteceria se, por exemplo, Kanon tivesse um suprimento eterno de doces dentro de seus bolsos? Assim que ele tivesse vontade, ele teria em suas mãos caramelos, chocolates, pirulitos e chicletes... O que aconteceria?
-Provavelmente, ele teria diarréia. E a gente iria sofrer com o fedido do Kanon andando perto da gente. –gargalhou Saga. – Fora isso, ele também teria dor de dente. E iria ficar banguela... BANGUELA, BANGUELA! KANON BANGUELA! –gargalhou mais.
Kanon partiu para cima de Saga e tentou empurrá-lo. Hermes foi mais rápido e se meteu no meio, separando-os.
-Acalmem-se ou eu disparo a luz em vocês!
Os dois se entreolharam. Kanon fuzilava Saga com os olhos. Este, por sua vez, devolvia o olhar com um sorriso debochado e lhe mostrou a língua.
-O exemplo infeliz que Saga nos deu é verdade... Mas voltando à nossa conversa das fontes de energia isso significaria que se tivéssemos a nossa disposição, uma fonte de energia, nós seríamos invencíveis. Agora, vamos traduzir as coisas. Os doces de Kanon, seria a nossa energia. O bolso dele, seria o nosso corpo, dentro do nosso corpo para ser preciso. E o sofrimento meu e de Saga por suportar um menininho com diarréia, seria o efeito colateral que a energia criada pelos doces de Kanon faria conosco.
Os irmãos esqueceram a briguinha. Eles se entreolharam e fizeram uma careta de nojo e espanto.
Saga principiou, hesitante:
-Tio Hermes... Você tá dizendo que a energia é... Que o nosso poder vem dos...
Kanon completou:
-...Dos meus... Dos meus...-corou de vergonha.
Ele se aproximou de Hermes e o chamou, pedindo para que o cavaleiro se abaixasse. Hermes saiu de suas alturas e se ajoelhou diante do garoto. Os dois se aproximaram dele e cada um em, um lado de sua orelha, cochicharam, segredando algo.
O cavaleiro se ergueu às gargalhadas. Nunca imaginou que crianças pudessem ser tão inventivas.
-Tio Hermes! O senhor não respondeu! –protestaram os dois.
Ainda entre risos Hermes tentou se controlar. Depois do acesso de risos, pigarreou e começou a falar. Sentia a bochecha dolorida de tanto rir.
-Pardon, pardon, petit garçons (5)... Mas isso realmente foi engraçado. O problema começou com esse exemplo infeliz e escatológico do Saga...
-Escato o que?-indagaram os dois ao mesmo tempo.
-Escatológico. Vem do grego. Algo a ver com excrementos. E eu me recuso a dissertar mais sobre isso a essa hora da manhã, antes do meu café! ...Bien, deixem-me remediar a situação. O que eu quero dizer é que existem fontes de energia internas e externas. Vocês estão no Santuário da Grécia, para se tornarem guerreiros de Atena. Logo, vocês não podem ficar dependendo de fatores externos para lutar. Vocês devem depender de si mesmos e de suas próprias energias. Todas as pessoas possuem dentro delas mesmas energia suficiente para serem fortes. Entretanto, elas geralmente são criadas dependendo de fatores externos para viver e acabam morrendo sem jamais terem despertado suas forças latentes. E é por isso que vocês estão aqui. Eu despertarei a verdadeira força de vocês.
Ele respirou fundo e caminhou até a beira do penhasco. Sentou ali e ficou observando o nascer do sol.
-Venham ver isso...
Os dois se aproximaram de onde o cavaleiro estava com receio. Kanon sentia vertigem de ficar perto da beirada daquele penhasco. Esticou o pescoço e deu uma olhada para baixo, procurando o chão, mas nada viu. Saga olhou adiante para o horizonte, esforçando-se para ignorar aquele despenhadeiro. Hermes olhou para os dois de relance e sorriu.
-Em breve, vocês ficarão surpresos com a verdade...
-Do que está falando, tio Hermes?
-Nada... Pensei alto. E pare de me chamar de tio, Saga. Sou o mestre de vocês... Agora vou finalizar as explicações de hoje.- Saga e Kanon se entreolharam e saltitaram de felicidade- A energia que eu tanto falei para vocês ela é gerada pelos átomos. Essas minúsculas partículas invisíveis são capazes de gerar energia através da divisão dessas partículas, gerando uma fissão de seus núcleos, ou fissão nuclear.
-Mas t... Quero dizer, mestre. O senhor mesmo disse que o átomo é indivisível. Como agora o senhor diz que dividem seus núcleos?-indagou Saga confuso.
-Os antigos filósofos gregos que inventaram essa definição de átomos. E eles que supuseram que existia uma partícula mínima e indivisível. Entretanto, atualmente, o átomo já foi dividido não sei em quantas partes, mas foi. Agora, na Segunda Guerra Mundial, os americanos jogaram uma bomba atômica no Japão, vocês devem ter ouvido falar... A força dessa bomba deriva da divisão das partículas de um átomo específico. Vinha de uma fissão nuclear. Também é possível gerar energia unindo o núcleo de dois átomos, cujas partículas explodem, gerando uma fusão nuclear.
Kanon olhava o mestre confuso.
-Mestre... O senhor está falando que você e as pessoas que vivem aqui conseguem criar bombas nucleares?
-Quase isso. O que estou fazendo é comparar a força de destruição de cada coisa. E eu garanto que as pessoas deste Santuário possuem mais força que todas essas bombas juntas. A força dos cavaleiros deste Santuário provém de um árduo treinamento... Geralmente, a força deles é advinda da explosão de átomos, como numa fusão... Por isso que expliquei como as bombas funcionam... Essa força, essa energia de que tanto falo e que está presente em tudo à nossa volta chama-se cosmo. Lembrem-se disso.
O cavaleiro olhou de soslaio para os dois garotos e viu a careta que eles faziam. Estavam com sono e fome. Aliás, ele também sentia o mesmo. Ao ouvir sua própria barriga clamar por comida, Hermes decidiu parar as explicações por alguns instantes.
-Chega de explicações por hoje... Vamos tomar o déjeuner. (6)
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Um mês se passara desde que os gêmeos chegaram ao Santuário. Hermes os acordava diariamente antes do sol nascer. Eles já estavam começando a se habituar à rotina de treinos. A princípio, reclamavam de dores no corpo, mas o cavaleiro não diminuiu a carga de exercícios. Ele tinha consciência de que não exigia nada além dos limites deles.
Naquele dia, um pouco depois do almoço, Hermes acompanhava à distância os garotos dando voltas no terreno, numa corrida. Depois passaria uma nova seqüência de exercícios.
Ele estava concentrado, observando o desenvolvimento dos alunos, e nem percebeu a aproximação de uma pessoa.
O desconhecido parou a uns três passos de distância do cavaleiro. Cruzou os braços e observou os menininhos correrem. Esboçou um sorriso de escárnio que não dava para ser visto, pois seu rosto estava coberto.
-Chegou aqui faz muito tempo?-indagou Hermes, à queima-roupa.
-Talvez dois minutos.
O cavaleiro virou-se para encarar a pessoa e sorriu, num misto de provocação e orgulho.
-Aproxime-se, meinliebeKind(7)... Observe de perto o futuro promissor do Santuário de Atena.
O visitante franziu o cenho de leve, mas o cavaleiro não viu. Odiava os apelidos que Hermes lhe dava. Aproximou-se do cavaleiro. Cruzou os braços na altura do peito e permaneceu em silêncio.
Hermes olhou para o visitante de cima a baixo numa análise. Os cabelos compridos e com pontas onduladas, num castanho-avermelhado. O corpo bem feito, vestindo confortavelmente uma calça e uma túnica solta. Um cinturão pendia da cintura fina. Protetores de braço e joelheiras envolviam o corpo dela.
Ele fez uma careta de desagrado, não achou aquele detalhe esteticamente bonito ou desejável. Ergueu a cabeça e fixou o olhar no rosto da pessoa. Queria ver uma vez mais aqueles olhos cor de mel. A única coisa que pôde ver era uma máscara que lhe lembrava a máscara antiga que simbolizava o teatro. A tragédia.
A amazona riu de leve, um riso abafado pela máscara, despertando o cavaleiro de sua observação minuciosa. Hermes olhou na direção dos meninos e os viu aos tropeções. Por algum motivo que ele ignorava, Saga perseguia o irmão e berrava todos os pequenos xingamentos que sabia. Kanon por sua vez, corria em zigue-zague, driblando o irmão enfurecido e gargalhava.
-Se este é o futuro promissor do Santuário de Atena, prefiro não ter futuro. Não quero estar viva para ver isso... –riu sarcástica- Como você ousa treinar estes pestinhas e imagina entregar a armadura do meu pai para um deles? Você desonra a memória dele!
Hermes a olhou de soslaio. Odiava conversar com ela. Ela sempre tentava tirá-lo do sério. Mas ao mesmo tempo, apreciava sua companhia.
Ela se virou para encará-lo. Amava tirar Hermes, o cavaleiro mais arrogante do Santuário, de seu pedestal.
-Também... O que eu podia esperar de você? Eu sei quem você realmente é... Você não é um cavaleiro. Você é
-TIO HERMES! CANSEI DISSO! OLHA, O KANON NÃO ME DEIXA TREINAR EM PAZ! ELE FICA PONDO O PÉ NA FRENTE PARA EU TROPEÇAR TODA HORA! CASTIGA ELE! OU MELHOR, DEIXA QUE EU CASTIGO!
-ISSO SEU FRACOTE! VAI CHORAR PRO TIO! FRACOTE, FRACOTE!- gargalhou Kanon aproximando-se de Saga.
Os gritos indignados de Saga e as gargalhadas histéricas de Kanon atraíram a atenção de Hermes e da amazona. O menininho de cabelo tigelinha parou na frente dos dois. Encarou-os, mas fixou o olhar na estranha.
-Quem é você? Por que usa máscara?
-Ela deve usar isso porque é feia.-Kanon explicou para Saga.
-Ah... Entendi.
Hermes olhou para a amazona e gargalhou. A má educação de Kanon lhe valeu uma boa piada. O cavaleiro a encarou e pôs o indicador nos lábios pedindo silêncio. A guerreira mordeu os lábios, contendo a resposta que tinha para aquele pivetinho insolente.
Ele se virou para os garotos e ordenou:
-Voltem para casa. Arrumem o quarto.
Os dois abriram a boca para protestar, mas Hermes os encarou sério não dando margens a tentativas de o enrolarem. Os dois se entreolharam e caminharam para a casa, reclamando entre si. Saga encarou o irmão e lhe deu um croque.
-Ei! Isso é sujeira! Que que eu te fiz?
-Me fez tropeçar na corrida! Bobalhão!
O cavaleiro acompanhou os dois com o olhar. Assim que eles desapareceram dentro do casebre, Hermes voltou-se para ela.
-Sinto muito pela educação dele, mas ele é muito... Espontâneo, digamos. Entretanto você mereceu. Julgando-os à distância, criticando-os sem os conhecer. Transferindo o ódio que sente por mim, para eles... Quero esclarecer uma coisa, Cora: eu sou o que sou e nunca neguei isso. Você me conheceu, sabe quem realmente sou. Entretanto, eu mereci a armadura de Gêmeos. A armadura me escolheu, com todos os meus pecados, mas me escolheu. E eu a honro, juntamente com a memória do seu pai, meu mestre. Você melhor do que ninguém sabe que ele me salvou. Agora se você veio aqui apenas para por defeito nos meus pupilos, retire-se. O show acabou.
Hermes virou as costas e se afastou deixando Cora sozinha. A amazona virou-se e saiu, amaldiçoando a idéia de espioná-lo.
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Ao adentrar a casa ele viu Saga e Kanon arrumando a cama. Sentou-se num canto, ao lado da janela. Cora sempre o deixava desconcertado. Ela tinha a péssima mania de o lembrar de seus demônios internos.
-Mestre... Aquela pessoa era mulher? E por que aquela pessoa usava máscara?
A voz de Saga tirou Hermes de seus pensamentos.
-Hã?... Ah! Sim, sim... Ela é uma mulher. Chama-se Cora...-imagens desfocadas, lembranças embaralhadas invadiram sua mente. Antes que seus pensamentos lhe pregassem uma peça, voltou-se para os garotos. - Quanto à máscara é por uma regra daqui do Santuário. Mulheres são aceitas para lutar e servir Atena, entretanto para fazê-lo, devem abrir mão de sua condição feminina. A máscara é um símbolo de que essas mulheres não têm mais ligação com a realidade mundana. São guerreiras com a vida devotada a servir e proteger Atena... Aliás, foi bom vocês tocarem nesse assunto. Nunca, em hipótese nenhuma, vejam o rosto de uma amazona. Outra regra do Santuário diz que uma amazona que tiver o rosto visto por um homem deve escolher entre amá-lo ou matá-lo. E isso não me parece saudável.
Saga parou de dobrar os lençóis e encarou o mestre:
-Então é por isso que ela não gosta de você tio? Por que você viu o rosto dela?
O cavaleiro engoliu em seco a pergunta que seu aprendiz disparara. Por vezes detestava a perspicácia de Saga. Sorriu, tentando disfarçar o constrangimento:
-Imagine. Ela gosta de mim. Apenas demonstra de uma maneira... Pouco usual, digamos... –passou a mão pelo cabelo se arrumando.
Kanon estava sério, como sempre ficava quando tinha dúvidas:
-Se as máscaras só as mulheres que usam, por que a armadura de Gêmeos tem duas máscaras? Isso não pega bem!
Ouvir aquilo fez o mestre se descontrair e cair na gargalhada. Esqueceu-se completamente dela.
-Bem que eu notei que tinha alguma coisa estranha na urna da armadura... –puxou o pupilo para perto de si e bagunçou os cabelos que possuíam o mesmo corte de Saga, puxando as bochechas dele em seguida-Pare de mexer nas minhas coisas, rapazinho! E quanto às máscaras, elas são um símbolo de que os cavaleiros de Gêmeos pegam bem! E muito bem, obrigado! -concluiu Hermes, gargalhando mais. Depois se lembrou que estava no meio de crianças. Pigarreou e corrigiu-se. – Na verdade, as máscaras que estão presentes no elmo são uma alusão às duas faces do signo de Gêmeos e também às nossas estrelas guardiãs, Castor e Pólux. Já contei para vocês o mito de Gêmeos?
-Não... Mas nós conhecemos... Nosso pai nos contava. –respondeu Saga. Ele cruzou os braços, como se estivesse se abraçando. Sentiu um aperto no peito que não sabia denominar. Baixou o rosto e se agachou, juntando os brinquedos numa caixa para evitar acidentes. No dia anterior, Hermes pisou num boneco. O boneco ficou destroçado e o mestre ganhou um galo na testa.
Hermes notou o rostinho tristonho que Saga fizera. Observou Kanon se aproximar do irmão e o encarar em silêncio. Aquela união deles iria aumentar durante os treinos. Isso seria ótimo. Mas até que ponto seria positivo? O cavaleiro começou a se questionar sem encontrar respostas. Optou por questionar-se á noite, quando eles dormiam.
-Castor e Pólux eram irmãos gêmeos, nascidos de Leda. Pólux era filho de Zeus, um imortal. Já Castor era filho de Tíndaro, um mortal. Mas essa diferença não influiu na forte amizade deles. Eram extremamente unidos, tanto que ganharam o apelido de "Dióscuros", os filhos de Zeus. Um dos feitos importantes dos Dióscuros, foi a participação na busca do Velocino de Ouro. Junto com Jasão e os demais Argonautas, Castor e Pólux lutaram contra o rei Âmico e raptaram Febe e Helaíra, as noivas prometidas dos gêmeos Idas e Linceu. Pólux matou Linceu, porém Idas matou Castor. Pólux ficou desesperado e implorou para seu pai Zeus para que o matasse ou devolvesse seu irmão. Comovido com tamanha fraternidade, o senhor dos Deuses propôs a única solução para salvar o jovem: Pólux deveria dividir a sua imortalidade com o irmão, alternando com ele um dia de vida e outro de morte. Pólux não hesitou em dar a resposta afirmativa e, a partir desse instante, os irmãos passaram a viver e morrer alternadamente. Para celebrar tamanha prova de amor fraterno, Zeus transformou os Dióscuros na constelação de Gêmeos, onde não poderiam ser separados nem pela morte...
-Que coincidência! Nossa mãe se chama Leda!-exclamou Kanon, procurando algo para animar o irmão.
- Agora só faltam vocês me dizerem que o pai de vocês se chama Tíndaro ou Zeus. Então eu realmente ficarei honrado em treinar os legítimos Dióscuros!-brincou Hermes.
A piada funcionou. Saga levantou a cabeça e riu com gosto. As tensões se desanuviaram naquele momento.
O cavaleiro aproveitou a deixa e resolveu continuar a explicação:
-Então, como eu dizia antes de fazer essa sessão "Túnel do Tempo", o elmo de Gêmeos faz uma alusão ao mito de Castor e Pólux. Esse mito quer nos mostrar não apenas o amor fraternal, mas também mostrar o sacrifício que nós, geminianos, fazemos diariamente, tentando encontrar um equilíbrio. Às vezes, entramos em choque com nosso próprio sentido analítico, com nossa mente racional, que tenta bloquear o outro lado, o lado sentimental. Daí o conflito e a mutabilidade dos humores. O conflito constante entre o intelectual e o emocional, o masculino e o feminino, o mortal e o imortal... Mas enfim, quem não é confuso? Venham comigo... Olhem de perto a armadura que logo mudará de dono...
Os menininhos adentraram o quarto do mestre. Era pouco mobiliado, tinha apenas um colchão, um armário antigo e um criado-mudo. Ao lado do criado-mudo estava uma enorme caixa dourada. Uma urna. Ela era maior que os meninos.
Saga e Kanon correram para perto dela. Finalmente poderiam ver a armadura de perto e observar todos os detalhes. Nada de olhadas esporádicas, aproveitando-se de alguma distração do mestre. Agora eles adquiriram o direito de vê-la.
Hermes encostou-se no batente da porta e cruzou os braços, observando à distância a alegria dos meninos.
-Como vocês já mexiam nela, já devem saber como abri-la. Abram e olhem a armadura que um dia será de vocês. A Sagrada Armadura de Gêmeos.
Antes mesmo que ele terminasse sua orgulhosa fala, os gêmeos se uniram, cada um de um lado, forçando as trancas da urna até que a abriram. Ao mesmo tempo em que a tampa da urna e as paredes dela caíram no chão com estrondo, Saga e Kanon pularam para trás.
-Seus pestinhas! Tomem cuidado com o patrimônio! Essa armadura por enquanto é minha! E se ficarem destruindo ela agora, no momento que eu transferir meu posto para –pigarreou de leve- vocês, vocês não terão mais armadura para protegê-los!
Os dois não ouviam nada do que ele dizia. Estavam extasiados diante da beleza e grandiosidade da armadura dourada. Já a viram outras vezes, mas sempre que a olhavam sentiam como se fosse a primeira vez que a viam. Uma inexplicável sensação de admiração, espanto e reverência inundavam as crianças.
Kanon encarou os braços da armadura. Cruzou os braços e inclinou a cabeça, intrigado.
-Mestre, afinal por que essa armadura tem tantos braços? Isso parece aqueles desenhos daqueles deuses do Oriente! Isso é feio!
O cavaleiro riu da imitação que Kanon fez dos braços da armadura.
-Parando para analisar... É você tem razão! Parece mesmo aquelas imagens de deuses hindus! Que mente fértil, Kanon! Quando eu era mais novo nunca questionei isso. Mas creio que os braços sejam apenas para as máscaras não se sentirem "enciumadas". Afinal, cada máscara representa uma pessoa, um corpo. E um corpo perfeito necessariamente tem dois braços!
Saga ignorou a conversa do irmão e aproximou-se mais da armadura. Com a mãozinha trêmula e hesitante, ele tocou-a. Deslizou a ponta dos dedos no peitoral e subiu. Com as duas mãos, segurou o elmo, como se segurasse uma pessoa pelo rosto. O soltou e deslizou a costa da mão em ambas as máscaras que compunham o elmo.
Ficou um bom tempo encarando o elmo. Desde que Kanon fizera aquela pergunta sobre as máscaras que tinham na armadura, ele se sentiu inquieto e ansiava por revê-las.
Sem pedir permissão, retirou o elmo e segurou. Colocou na cabeça e não enxergou nada. Ele era muito pequeno e aquele capacete (conforme ele resmungou revoltado ao constatar que não servia para ele) era enorme. Tirou da cabeça e fixou o olhar nas feições das máscaras.
Uma face calma e tranqüila que exprimia bondade e uma pontada de melancolia. Do lado oposto, uma face exibia um sorriso maldoso e divertido, demonstrando astúcia e arrogância.
-Essas máscaras são iguaizinhas às máscaras do teatro. A tragédia e a comédia. A bondade e a maldade... Mestre... Nós conseguiremos conviver com isso em equilíbrio?
Hermes se aproximou dele e pegou o elmo. Segurou com uma mão e encarou-o longamente. Por um breve instante, sentiu-se como um Hamlet moderno, encarando o crânio, envolto em brumas melancólicas e confusas. Esboçou um estranho sorriso.
-Talvez sim, talvez não. Depende de cada pessoa... É como eu digo para mim mesmo... Essa é a benção e a maldição para aqueles que possui Gêmeos como constelação guardiã.
Ele colocou o elmo de volta no mesmo lugar e os mandou fechar a caixa. Tal como Pandora, Hermes também queria trancafiar seus demônios e rezava para que seus pupilos não tivessem tais problemas.
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O tempo era estranho. Por vezes corria, loucamente, arrastando tudo e todos que pudessem ficar contra ele. Outras vezes, caminhava com vagar, lentamente, deixando as pessoas imersas num completo tédio.
Entretanto, Saga e Kanon não sentiam nada. O dia era sempre repleto de treinos físicos e explicações sobre a natureza dos átomos, a elevação dos cosmos e outras matérias relevantes para a formação deles como cavaleiros.
Somente à noite, depois do banho e do jantar, eles voltavam a sentir e a ter impressões do que se passava ao redor deles. Apesar do mestre ser exigente, ele não abusava das forças deles. Hermes tinha consciência de que eles eram apenas meninos, crianças. Comprometeu-se consigo e com a família Mixalis a torná-los homens fortes e honrados, mas não pretendia fazer de uma vez. Exigiria aos poucos, aumentando as cobranças gradativamente, quando tivesse certeza de que eles poderiam cumprir o que ele mandava.
Os irmãos estavam deitados no colchão velho. Eles ainda não ganharam o outro colchão que o mestre prometera no primeiro dia. Hermes disse que estava com alguns "probleminhas" e que, talvez, o colchão demoraria a chegar.
Seus músculos doíam. Pernas, braços, ombros e pescoço. O corpo inteiro latejava. Já deveriam estar habituados com as dores, mas elas sempre se pronunciavam antes de dormir.
Saga estava deitado, com as mãos na barriga, fitando o teto. Kanon se jogou no colchão de bruços e enterrou o rosto no travesseiro.
-Ei... Saga? Você tá acordado?
-Aham. Você me acordou. –replicou o irmão, dando um tapinha de leve na cabeça do irmão.
Os dois ficaram se estapeando e se batendo com os travesseiros até perderem o fôlego. Novamente se jogaram no colchão.
-Sabe... Eu estava lembrando daquele dia que o tio Hermes levou a gente até a casa de Gêmeos. Ela é tão grandona! A gente bem que poderia morar lá ao invés desse buraco no meio do nada!Cabe toda a nossa casa lá dentro e ainda sobra espaço!
-É verdade... Mas você viu o que ele disse? Aquela casa existe para proteger. Não é para morar.
-Então por que o tio Hermes deixou coisas lá?
-Acho que é por que ele precisa... Ele tem que proteger, mas também tem que dormir e comer como todo mundo. Acho melhor você parar de chamar ele de tio Kanon... Ele fica bravo!
-Tô nem ai. Ele é tio.-atalhou Kanon
-O melhor é que pelo que ele disse, a casa de Gêmeos é a única do Santuário que tem duas casas. E ele disse que quando a gente ficar mais velho, teremos direito a casa! Vai ser uma casa pra mim e outra pra você!
-Que milagre! Aprendeu a dividir as coisas comigo! Acho que você comeu algo estragado, está passando mal!-gargalhou Kanon.
Saga virou o rosto e ignorou o irmão. Voltou a fitar o teto. Novamente, aquela incômoda sensação de aperto no peito invadiu seus pensamentos. Agora já sabia como denominá-la. Era uma sensação vaga e dolorosa, que perfurava e trespassava seu corpo... Pura e simples saudade. Saudade dos pais. Saudade da sua antiga casa. Saudade da sua antiga vida.
Kanon reparou a expressão melancólica do irmão. Sabia o motivo daquela cara. Mas sentia-se impotente perante aquilo. Não sabia como se comportar ou o que fazer. O máximo que poderia fazer, era fazê-lo rir e sonhar um pouco... Distanciar-se daquela dor.
-Teremos duas casas grandonas! Uma pra mim e outra pra você! Ai a gente pode brincar nelas... Imagina só, Saga, brincar de esconde-esconde ou de pega-pega ali! Ninguém vai conseguir encontrar a gente ou nos pegar!
O rostinho de Saga se iluminou na escuridão. Uma inexplicável alegria, algo quente e reconfortante, invadiu seu corpo, animando-o.
-E a gente vai poder chamar os nossos amigos lá de casa... Nossos pais, vizinhos e todo mundo. Acho que dá até para eles morarem com a gente! E claro, o tio Hermes também! Eu gosto dele!
-Eu também... Mas gosto dele como amigo. Como mestre ele massacra a gente.-retrucou Kanon, pondo as mãos atrás da cabeça e se espreguiçando.
Saga abriu a boca, mas a voz não saia. Hesitava ao falar, lhe faltava o fôlego. Respirou fundo e fechou os olhos, tentando conter seus sentimentos.
-Atualmente, ele é a nossa única família... Estamos sozinhos. Papai e mamãe não mandaram notícias. E nós não sabemos o endereço deles... Perdemos nossos pais, perdemos nossa família. Agora, somos só nós dois. Só temos um ao outro...
Kanon olhou o irmão e ficou em silêncio. Tinha consciência disso, mas nunca ousara expressar tal pensamento em palavras. Virou-se na cama e ficou a encarar o teto. Saga pôs o dorso da mão na testa e ficou imóvel fitando um ponto qualquer do teto.
Os dois mergulharam no silêncio, o mais completo silêncio. Ficaram juntos dividindo-o. Eles sobraram. Precisavam se unir mais e mais.
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Do lado de fora, Hermes estava sem sono. Tentava estimular o sono lendo ou pensando nas suas dívidas. Mas as vozes alegres dos seus pupilos só o deixavam mais acordado.
Levantou-se e foi até a cozinha. Serviu-se de uma xícara de café frio. Desistiu de dormir. Não tinha mais ânimo para isso.
Procurou alguns papéis que deixou separado no seu quarto e ficou lendo na mesa da cozinha, enquanto bebericava o líquido escuro da xícara.
As mãos do cavaleiro seguravam várias cartas. As poucas que ele recebia eram do Grande Mestre pedindo sua presença. Desde que começara a treinar os garotos, Hermes sumiu do Santuário. Ele não queria que os demais soubessem que ele arrumara aprendizes. Não queria que notassem que ele já estava velho demais para proteger as 12 casas.
Porém, a maioria das cartas eram endereçadas para os irmãos Mixalis, Saga e Kanon. A principio, as cartas eram semanais. Como eles não respondiam, as cartas passaram a ser mensais. Atualmente, Ulisses e Leda enviavam cartas a cada três meses.
O cavaleiro examinou algumas cartas, releu outras. Todas diziam a mesma coisa. "Temos saudades de vocês. Nós te amamos. Sentimos orgulho de vocês. Vocês fazem falta!"
Hermes sempre sentia um nó na garganta ao ler aquelas linhas saudosas e amorosas. Entretanto, desde o momento que pegou a mão dos dois, em frente ao Parthenon, decidiu que não falaria dos pais deles. Isso só instigaria a saudade dos dois e eles não se adaptariam aos árduos treinos.
Guardou as cartas e amarrou uma fita, prendendo-as. Ficou num longo silêncio, encarando-as, pensativo:
-Mais tarde, quando estiverem prontos eu entregarei todas essas cartas... Cora tem razão. Eu sou péssimo. Eu nunca deixei de ser quem sou. Eu sou... Eu sou... Ah, nem ouso pronunciar isso para mim mesmo... E aqueles dois dizem que gostam de mim... Como isso é possível? Aqueles dois... Quantos planos fazem... Como são inocentes. Será que não notaram a discrepância? Duas casas e uma armadura... Pobrezinhos... Caíram numa terrível armadilha. E eu realmente sou detestável, pois me aproveito dos sentimentos que eles nutrem por mim e finjo ignorar os planos infantis que eles fazem...
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Muito tempo se passou. Saga e Kanon já não eram mais tão crianças. Seus treinos continuavam os mesmos, mas ganharam o acréscimo de uma parte voltada para a ilusão e para o domínio do espaço-tempo; ataques que costumavam deixar o inimigo desnorteado e facilitava a vitória deles.
Saga e Kanon já estavam dominando as ilusões razoavelmente bem. Um dia até conseguiram enganar o mestre, criando uma ilusão deles treinando em frente a casa, logo depois do almoço. Só não foi tão perfeito porque o mestre sabia que eles nunca em sã consciência sairiam de casa para treinar por conta própria. Encontrou-os a alguma distância da casa, debaixo de uma frondosa árvore, dormindo na sombra. Foram expulsos da comodidade verde dela após ouvirem as ameaças veladas do mestre.
Numa nova e límpida manhã, Hermes se aproximou dos dois. Na noite anterior decidiu passar os fundamentos básicos para ensinar um dos golpes mais usados dos cavaleiros de Gêmeos.
Encarou os pupilos. Saga estava cheio de olheiras e Kanon esfregava os olhos, tentando se manter acordado.
-Guten Morgen! (8) Hoje para alegrar o dia de vocês, resolvi ser bonzinho e passar a base da técnica que os cavaleiros de Gêmeos mais usam. Será, literalmente, uma viagem! Prestem atenção ao que farei e depois eu explicarei com maiores detalhes como fiz.
O cavaleiro relaxou o corpo e fechou os olhos. Estava tranqüilo, pretendia executar o golpe lentamente para que seus aprendizes visualizassem cada movimento que fizesse.
Concentrou-se. Uma enorme aura dourada surgiu, envolvendo o corpo de Hermes. O ar começou a se movimentar, agitando-se, arrastando poeira e pequenos detritos.
Saga fechou um olho e pos a mão na frente do rosto para se proteger, gesto este imitado inconscientemente por seu irmão mais novo.
Os braços de seu mestre ergueram-se num instante. O cosmo estava concentrado neles. Num movimento amplo, ele abriu os braços. Neste mesmo instante, algo estranho abriu-se diante de Hermes.
Parecia um enorme portal. De dentro dele, um vento ainda mais forte dava a impressão de ser vomitado por aquela bocarra descomunal, agitando tudo em volta. Era possível avistar planetas, destroços de guerra, guerreiros medievais, homens primitivos, máquinas nunca vistas, criaturas jamais imaginadas... Como se toda a história da Terra, ou melhor, como se toda a história do Universo tivesse sido jogada num imenso caldeirão e misturada despreocupadamente.
Os pupilos encaravam aquele estranho e desconhecido espaço com legítimo espanto. O mestre virou para eles e fez um gesto de exibição, mostrando o gigantesco e desproporcional espaço atrás dele.
-Saga, Kanon... Tenho o prazer de lhes mostrar a "Outra Dimensão". Aproximem-se, não tenham medo.
Os dois se entreolharam. Levantaram-se e foram até ele. Kanon encarava o espaço boquiaberto, teve o ímpeto de tocar naquilo, mas se controlou. Saga andou ao redor de Hermes e achou aquele portal fantástico.
-Olha só... Estou atrás desse portal, mas na verdade eu não estou dentro dele. Eu vejo as costas do nosso mestre e a nossa casa... É como se não existisse... Incrível!
Os dois voltaram a ficar diante do mestre. Hermes riu do espanto deles e explicou:
-Bem... Como o próprio nome diz, a "Outra Dimensão" é uma dimensão paralela à nossa, na qual vivemos. Um lugar onde o tempo não existe. Ou se existe, ele parou. Passado, presente e futuro fundidos no mesmo lugar. Com este golpe, podemos enviar nossos inimigos para este lugar e eles ficarão presos ai até morrer. É uma prisão espaço-temporal portátil! A menos que sejam espertos e consigam achar a saída... Mas é muito raro conseguirem. Geralmente as pessoas se desesperam e acabam ficando ai mesmo...-riu mais.
Saga e Kanon se entreolharam. O senso de humor do mestre era algo que os deixava sempre com o pé atrás.
-Eu executei o golpe lentamente para vocês observarem os detalhes, como os movimentos, as posições de ataque e tudo mais. Viram tudo? Tem alguma dúvida?
Eles balançaram a cabeça. Saga, num misto de arrogância e autoconfiança, acreditava piamente que executaria o golpe com perfeição. Kanon sentia algo semelhante. Cruzou os braços e mexeu nos cabelos, certo de que iria acertar de primeira.
-Très bien. Concentrem suas cosmo-energias e utilizem a "Outra Dimensão" um contra o outro.
Os dois se entreolharam com receio, relembrando das palavras de Hermes dizendo que aquele golpe confinava os inimigos numa prisão espaço-temporal.
-A maneira mais rápida e precisa de dominar as dimensões paralelas é entrando nelas e aprender por conta própria a caminhar por estes diversos mundos sozinho. Andem logo! Se ficarem presos nela, demonstrarão apenas que não deveriam ser cavaleiros. Será apenas uma confirmação de que o homem não pode enganar o destino.
Os irmãos continuaram se olhando. Kanon mordeu os lábios nervoso e Saga respirou fundo de olhos fechados. Voltaram a se encarar e menearam a cabeça, concordando num mútuo silêncio.
Eles recuaram alguns passos e se encararam. Concentraram seus cosmos e o ergueram. Uma minúscula, porém latente cosmo-energia envolveu o corpo de cada um deles. Se olharam num silêncio concentrado. Ao mesmo tempo, em sincronia, os dois imitaram os gestos do mestre e, de súbito; liberaram todo o cosmo de uma só vez, gerando uma pequena explosão.
-OUTRA DIMENSÃO!-gritaram ao mesmo tempo.
Hermes observava os dois à distância. Sorriu satisfeito. Executaram o golpe com perfeição. Os dois se espantaram. Uma força sobre-humana os sugava para adentrar aquele limbo de tempo.
-MALDIÇÃO!-berrou Saga, relembrando do pai e da mãe.
-Droga! A gente tá sendo puxando para se portal!
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Num dia comum, uma semana depois deles sumirem, Hermes estava deitado no colchão lendo um livro qualquer quando ouviu gritos:
-VIU SÓ COMO EU TINHA RAZÃO? VIU SÓ, BOBALHÃO!
-CALA A BOCA, SAGA! SÓ POR QUE VOCÊ É O MAIS VELHO NÃO TEM QUE TER NECESSARIAMENTE A RAZÃO DE TUDO!
Saga gargalhou vitorioso:
-Mas eu tenho a razão! Como sempre!
-Cala a boca! Estou cansado e com fome!
O estômago de Saga também roncou.
-Tudo bem... Mas só por que eu também estou com fome.
Hermes foi até a entrada da casa e riu.
-Ora, ora... Herzlichwillkommen, (9) petit garçons! Como encontraram a saída daquele portal? Kömm, kömm (10)... Chegaram na hora do déjeuner!
Os dois entraram, praticamente se arrastando pela casa. Estavam incrivelmente cansados. Queriam apenas comer, tomar banho e dormir.
-Ah... Tio Hermes não entendo nada do que diz! Ainda mais quando estou zonzo de fome!-atalhou Kanon.
-Sou obrigado a concordar com ele... Pare de misturar os idiomas. Isso me deixa confuso!-concordou Saga.
-Eu vou tentar, mas não prometo nada. Aprender grego já foi uma batalha para mim.
Os três ficaram conversando, trocando impressões sobre a "Outra Dimensão". Para comemorar o retorno deles, Hermes se prontificou a fazer a melhor comida que era capaz de cozinhar.
Talvez ele não tenha se superado na cozinha, mas naquele dia, Saga e Kanon comeram vorazmente e repetiram. O mestre os observou comendo e sorriu. Sentira falta deles. As más respostas de Kanon e as dúvidas inconvenientes de Saga. As tentativas frustradas de fugirem dos treinos e suas ameaças diárias.
Riu com gosto. Aqueles dois se tornaram sua família. Por um instante sentiu seu corpo invadido por um súbito abatimento. Uma voz rouca e inumana, sussurrara em seus ouvidos, oprimindo seu coração:
"Isso está perto de terminar Hermes de Gêmeos... O tempo se aproxima. A hora morta está chegando..."
Ele respirou fundo e fixou o olhar nos dois pupilos. Uma parte dele chorava em profundo silêncio...
Cenas do próximo capítulo:
Saga e Kanon já cresceram e se tornaram homens fortes e honrados conforme a promessa de Hermes. E chega a hora H. Quem será o cavaleiro escolhido? XDD
Notas:
(1) "Muito bem", em francês.
(2) "Bem, bem", em francês.
(3) "Garotinhos, menininhos", em francês.
(4) "Olhem atentamente", em alemão.
(5) "Perdão, perdão, menininhos", em francês.
(6) "Café da manhã", em francês.
(7) "Minha amada criança", em alemão.
(8) "Bom dia", em alemão.
(9) "Bem vindos de coração", em alemão. Essa parte "de coração", numa tradução bem literal.
(10) "Venham, venham", em alemão
Confissões da autora:
OIEEEEE! VOLTEI! Não sou a Fênix, mas também ressurjo das cinzas! \o/
Sorry gente, desculpe a demora, mas eu estava enrolada com outros projetos (na verdade, ainda estou) e também estava um tanto desmotivada para continuar esta fic, embora eu já soubesse o fim dela desde o primeiro capítulo XD
Prometo não enrolar muito e postar mais vezes. Aliás, já tenho até um roteiro para me ajudar a escrever! (Oh, como sou organizada XD).
Well, well, estou indo... Beijão para todos e até breve!
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