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Anime/Manga » Inuyasha » Noites sem Fim
Analoguec
Author of 38 Stories
Rated: M - Portuguese - Suspense/Drama - Inuyasha & Kagome - Reviews: 116 - Updated: 09-07-06 - Published: 09-06-05 - id:2568629

Nota da Autora: Um capítulo em homenagem à minha queridinha Lis, que aniversaria hoje. Parabéns, parabéns! Mandem presentes pra ela! Desculpe pelo presente simples... Putz, faz um ano que eu publico o fic e ainda nem acabei, que vergonha!

Agradeço a quem fez questão de comentar e tão alegre me deixou: Rin-chan, TheBlueMemory, Kagome-chan LP,Gheisinha Kinomoto, Mali-san, Higashi, Mei-chan, Natsumi Omura, Vane-chan, Has-Has, Lis, Mitz, Hys, KK-chan e Ághata.

Espero que gostem deste capítulo. Quem puder comentar, eu agradeceria (quase ninguém gosta, mas não custa nada tentar sempre incentivar).

Noites sem Fim

Capítulo 6: Uma coisa chamada remorso

Música: Rearviewmirror, Pearl Jam.

Para Lis (happy niver!)

O relógio de Inuyasha marcava quatro e quarenta e oito da tarde quando o olhou pela última vez antes de acender um cigarro. Estava esperando por aquela garota desde as quatro, com o olhar fixo na entrada do colégio Kasuga. Muitos alunos começaram a sair três minutos antes, mas nada de Kagome ainda.

I took a drive today
Time to emancipate

Apoiando as costas contra o muro de uma casa do outro lado da rua, ele tragou e olhou para cima. Fechou os olhos e relembrou o plano do irmão. Iria com ela à casa de chá para apresentá-la aos três, tomando cuidado para que ninguém os visse juntos.

Ao baixar a cabeça, os olhos fixaram-se na figura parada do outro lado da rua. Usando a roupa de colegial, Kagome segurava a mochila na frente do corpo e, um pouco assustada, o encarava.

Olhando para os lados, Inuyasha atravessou a rua e a viu pôr aquela enorme mochila, que mais parecia uma mala de tão grande que era, às costas.

I guess it was the beatings made me wise

-Vamos. – ele passou perto dela e começou a andar – Finja que não me conhece.

Não escutara resposta. A garota tomou a direção de uma estação de metrô e a seguiu a poucos passos de distância.

But I'm not about to give thanks, or apologize

Tirando o celular e pagando o vale-metrô através dele, Kagome foi para a plataforma e olhou discretamente para trás para saber se Inuyasha ainda a seguia. Notou-o parado, procurando algo nos bolsos, até vê-lo desistir. Ele procurava pelo vale, decerto.

Arregalou os olhos quando o viu pular a roleta e seguir tranqüilamente em direção à mesma plataforma que ela, esperando pelo metrô a poucos passos atrás dela.

As portas do primeiro transporte se abriram e Kagome olhou Inuyasha, que discretamente fizera "sim". Ela deveria entrar. E depois saberia para onde iria.

Dentro, ela tirara das costas o peso da mochila e deslocara para um dos ombros. Entretanto, sentiu-o leve segundos depois. Inuyasha tirara dela a obrigação de segurá-la e sem esforço algum a jogara nas costas.

E não trocaram palavras. Mantinham certa distância um do outro. Lado a lado, nem se olhavam.

I couldn't breathe, holdin' me down
Hand on my face, pushed to the ground

Na segunda estação pela qual passaram, quando as portas abriram, Inuyasha passou por Kagome e fez sinal para que descesse. Juntos, eles tomaram outro metrô, em direção ao bairro de negócios da capital.

o-o-o

Num carro estacionado perto da Universidade de Tokyo, dois primos olhavam as fotos de uma pessoa pela internet num laptop.

-Eu não me espanto com a demora de Inuyasha, mas Hakudoushi também?Sesshoumaru viu as horas e voltou a olhar pela janela. Hakudoushi estava demorando, Inuyasha também.

-Ei... – Miroku puxou a manga dele para mostrar uma bonita foto escaneada de Higurashi Kikyo que recebera num mini-CD, através de ajuda de terceiros – Lembra dela?

-Como? – Sesshoumaru piscou.

-Eu lembro quando ela foi uma vez lá com o Bokuseno... Ele abriu a porta do carro pra ela. Não te lembra?

-Não. E como é que você se lembra?

-Ela é bonita. Não esqueço de mulher bonita. – foi a simples resposta dele, fechando o laptop – Bokuseno abriu a porta do carro pra ela, nunca esqueci disso.

O mais velho piscou, lembrando do fato. Sim, ele agora podia notar as semelhanças daquela jovem com aquela garotinha de anos antes.

Alguém bateu no vidro do carro, chamando a atenção deles. Era Hakudoushi, para quem Sesshoumaru destravara a porta para que entrasse.

-Desculpem o atraso. – ele passou a mão nos cabelos claros, exasperando um lado deles – Estava me livrando do meu coordenador. Eu tinha que fazer uma pesquisa, mas até explicar que não podia vir...

-Tomando as palavras do meu pai, por acaso é só você que estuda aí? – Sesshoumaru cruzou os braços, não se interessando pela vida acadêmica do primo.

Hakudoushi não respondeu, limitando-se a observar a paisagem pela janela quando o carro partiu em direção ao bairro de negócio de Tokyo.

o-o-o

-Você disse que não iríamos parar. – Kagome reclamou pela segunda vez enquanto esperava por Inuyasha na fila para comprar um sanduíche numa lanchonete conhecida mundialmente.

-Tô com fome, já disse. Pra onde vamos não tem muita coisa pra comer, não.

-Deuses... – ela resmungou. Ele ainda dissera que era para fingir que não se conheciam. Era possível, era?

-'Bora. – ele falou ao morder um enorme pedaço do lanche, segurando com a outra mão a mochila dela. Ela não poderia ir embora sem aquela bagagem mesmo...

Andaram algumas quadras até alcançarem os limites do bairro de negócios. Como já era final da tarde, logo as primeiras luzes começariam a acender e iluminariam as fachadas das empresas como restaurantes, bancos 24 horas – que dominavam as quadras -, hotéis e outros estabelecimentos. Era a primeira vez que Kagome estava ali, passando despercebida entre tantos que usavam roupas sociais.

Nem viu Inuyasha parar e quase tombou em cima dele.

-Desculpe... – ela murmurou, percebendo então onde estavam.

Era uma movimentada casa de chá. Inicialmente demorou em distinguir entre isso e uma cafeteria, mas notou os detalhes clássicos e o jardim... Era tradicional demais para servirem somente café.

Inuyasha procurava por alguém, virando a cabeça para todos os lados antes de fixar o olhar em um específico carro. Depois, fazendo um sinal para a garota, entrou no jardim da casa de chá e foi para uma parte mais aconchegante, uma das mais bonitas e bem cuidadas que Kagome já vira. Havia bancos perto das flores e das pequenas fontes, e ela também viu três rapazes sentados, como se esperassem por eles. Ao vê-los, levantaram-se e dois deles se entreolharam.

-Que diabos... – escutou um deles, que usava brincos, falar um pouco assustado.

-Yo... Inuyasha saudou e terminou o sanduíche e fez uma cesta na lixeira mais próxima com o papel de embrulho. Voltou-se depois para a acompanhante para apresentá-la – Essa é a garota. O nome dela é Kagome.

Sesshoumaru e Miroku continuavam olhando-a com certo espanto. Era a mesma garota? Porque não era possível que fossem tão...

Enmity gauged, united by fear
S'pose to endure what I could not forgive...

-Muito prazer. – Hakudoushi educadamente falou, trazendo a atenção dos dois primos para ele. Ah, era verdade. Ele ainda não vira a foto escaneada de Kikyo.

-Vamos conversar aqui mesmo? – Inuyasha perguntou, coçando um lado da cabeça.

Os outros três rapazes se entreolharam.

-Que foi? – o mais novo não entendeu.

-Você não disse que a gente ia conversar dentro, animal? – Sesshoumaru franziu a testa.

-Disse?

-Pelos deuses... – Miroku suspirou cansado.

-Por que a gente simplesmente não entra? – Inuyasha ainda não havia entendido o problema... Se é que havia algum em simplesmente entrar na casa de chá sem precisar ser convidado – 'Cês não podem pagar?

-Inuyasha... – Hakudoushi era o único que se mantinha calmo. Não ia perder a paciência na frente de uma desconhecida, ou essa garota acabaria se assustando e não teriam a ajuda dela – Não queremos ser vistos aí dentro. Dava para você chamar a sua ex-namorada e pedir para ela arranjar uma sala longe das outras?

-Ah... – ele finalmente entendera – Então... – ele estendeu a mochila de Kagome a Miroku – Segur'aí. Volto já.

-Ok... – o primo pegou a bolsa e quase teve a coluna desmontada ao tentar jogá-la às costas numa tentativa frustrada de imitar Inuyasha.

Recuperando a pose, ele olhou a garota e a mochila.

-O que você tem aqui dentro? – perguntou.

-Um celular que não é meu. – foi a resposta sarcástica dela.

O único que riu foi Hakudoushi. Sesshoumaru deu um meio-sorriso de aprovação. Gostara do jeito dela.

Alguns minutos se passaram e finalmente Inuyasha reapareceu no jardim, desta vez acompanhado de uma garota que usava um dos quimonos de algodão mais bonitos que Kagome já vira.

-Oi, Haru-chan... – Miroku deu um sorriso perfeito ao vê-la – Quanto tempo, né?

Takeshita Haruko lançou-lhe um olhar reprovador.

-Você não me disse que ele estava aqui... – ela comentou com Inuyasha – Botan não vai gostar.

-Botanzinha ainda está zangada comigo? - Miroku deu uma risada sem graça antes de perguntar.

-Há retratos seus espalhados por aqui. Sua entrada 'tá proibida aqui por dez anos.

-Mas eu... – Miroku tentou arrumar uma desculpa, mas recebeu uma cotovelada de Sesshoumaru.

-Takeshita... – ele a encarava de modo tão frio quanto a qualquer outro inimigo dele, justamente de um jeito que ela não gostava – É possível arrumar uma sala para nós? Longe de todos?

Viu-a piscar. Foi só então que Haruko percebeu que havia uma garota com eles. Usava um uniforme de um colégio tradicional, então não deveria ser alguém que satisfazia fetiches de homens tarados por colegiais.

Sem contar que ela a reconhecia...

-Sesshoumaru-sama... Acho que não vou ser de muita ajuda... Não há salas disponíveis por causa do horário.

-Não há nada que possa fazer? – Hakudoushi tentou persuadi-la – Não podemos ser vistos...

Haruko não tirava os olhos de Kagome na hora de falar:

-Vocês vão demorar muito?

-Não. – o mestiço torceu para que estivesse certo. Não queria demorar.

-Há uma sala que está vaga até às seis. – ela viu Sesshoumaru olhar o relógio e franzir a testa. Sabia que faltava menos de meia hora para seis porque verificara o relógio antes de Inuyasha chamá-la – Bokuseno-sama vai ocupá-la numa reunião... Ele reservou a sala esta manhã.

Aquilo era um problema. Já que ele estaria ali, teriam que agir o mais rápido possível.

-Você sabe com quem ele vai encontrar? – Sesshoumaru ficou intrigado. Se fosse com o pai deles...

A garota, porém, não respondeu. Ainda curiosa a respeito da "amiga"que estava com eles, ela se dirigiu a Kagome:

-Você é da família Higurashi?

Piscando, a outra fez "sim" com a cabeça.

-A irmã dela vem encontrar Bokuseno aqui. Ela e mais alguns outros homens.

Mal. Muito mal.

-Vou levar vocês até lá. Podemos ir pelos fundos. – ela os liderou numa rápida caminhada ao outro lado da casa, quase correndo. Não era possível perder um único segundo.

Abrindo a porta e olhando para os lados para não encontrar Botan, ela fez sinal com a mão para que a seguissem. Subiram uma escada de serviços e andaram por um longo corredor até a última – e mais elegante sala – dali.

-Eu vou bater na porta quando faltar cinco minutos, 'tá? – Haruko falou ao deslizar a porta para o lado – Eu tenho que verificar a sala antes de alguém querer usá-la... Quando não é Botan quem pode fazer.

Os rapazes ficaram um pouco preocupados.

-Não se preocupem, vou tentar mantê-la longe daqui. – ela sorriu e fechou a porta.

Sozinhos, eles se entreolharam. O primeiro a sentar foi Sesshoumaru, seguido por Hakudoushi e pelos outros. Kagome optou por um lugar perto de Inuyasha, único que conhecia ali.

-Bem... – Sesshoumaru cruzou os braços – Meu irmão falou que você o ajudou na noite passada.

Kagome não respondeu. Somente naquele momento é que parecia ligeiramente assustada por estar entre desconhecidos,colaborandocom eles.

-Ah, perdoe-nos. – Hakudoushi percebeu o nervosismo dela e resolveu mudar de assunto – Meu nome é Hakudoushi, sou primo de Inuyasha. Aquele é Sesshoumaru, irmão dele, e este outro – indicou com a cabeça o outro primo – é Miroku.

-Higurashi K-Kagome... – ela gaguejou – Prazer em conhecê-los...

-Kagome... – Hakudoushi parecia o mais profissional de todos, como um médico falando com um paciente antes de uma cirurgia ou de dar uma notícia trágica – Nós não conhecemos a sua irmã, nem ela muito menos nos conhece. Mas ontem ela fez algo contra nós e por isso tivemos de agir daquela forma à noite. – não tirava os olhos dela, procurando todas as reações naquele rosto – Ela, ou alguém ligado a ela, atacou um amigo nosso e precisamos encontrá-lo... Vivo, se possível.

Viu-a baixar o rosto e pôr o cabelo atrás da orelha. De novo essa história...

I seem to look away
Wounds in the mirror waved
It wasn't my surface most defiled

-Kikyo-nee-sama não fez isso... – a voz saiu com traços de angústia – Ela é... é... – engoliu em seco e procurou outras palavras – Ela cuida da nossa família desde que papai morreu... E é uma das pessoas que eu mais admiro... justamente porque não é do jeito que vocês falam. – um lado da boca repuxou num tique e balançou a cabeça para os lados – Ela não é do jeito que vocês pintam. Não pra mim.

-Por isso que dissemos que pode ter sido alguém ligado a ela... Ou que queira jogar a culpa na suaonee-sama. – Hakudoushi definitivamente merecia o papel de porta-voz do grupo – Precisamos encontrar nosso amigo, senhorita Higurashi.

-Ela disse ontem que a irmã passou o dia fora... E que não levou ninguém pra casa deles. – Inuyasha também cruzara os braços e tentava parecer sério para impressionar a garota.

-E é verdade. – ela deu de ombros.

-Infelizmente, só podemos chegar ao nosso amigo através dela. É a única pista que temos... – Hakudoushi franziu a testa e resolveu arriscar – Se... Se por acaso tiver mesmo sido a sua irmã...

-Não foi ela. – ela redargüiu.

-Eu só estou falando de uma possibilidade. Talvez não tenha sido mesmo.

-"Talvez". – ela replicou no conhecido tom sarcástico apresentado antes.

-Só queremos encontrar essa pessoa... E vamos atrás dela através da sua irmã. Não vamos atacar sua família, não vamos matar seus irmãos, seus amigos ou qualquer outro conhecido seu. Por isso... – Hakudoushi respirou fundo – Veja bem, SE tiver sido ela, para onde você, que a conhece tão bem, penso eu, acha que ela levaria o corpo?

O simples pensamento de considerar a irmã uma criminosa a atormentava. Balançou a cabeça de novo e baixou a vista, concentrando-se. É apenas uma suposição, não era verdade.

Mas e se...?

-Ela... – ela fechou por alguns segundos os olhos. Respirou fundo – Nós temos... uma casa em Yokohama... Não vamos com freqüência pra lá desde que... minha irmãzinha sofreu umacidente e ficou cega... – mordeu o lábio inferior e encarou Hakudoushi – Eu não sei se...

-Acha que ela pode ter ido pra lá? – Inuyasha perguntou.

-É perto daqui, né? E muito calmo... Às vezes eu sinto vontade de fugir e me esconder pra lá.

Ficaram em silêncio. Kagome resolveu arriscar timidamente:

-Será que eu falei demais?

Não houve resposta. Todos a encaravam.

-Falei muita besteira, né? – ela sentiu vontade de sumir da frente de todos.

-Kagome... – Inuyasha aproximou-se mais dela – Você sabe onde fica essa casa?

-Não sei o endereço... sei o caminho, só isso. – ela não sentia que estava ajudando muito.

-Não tem como ir até lá? – Sesshoumaru ficou interessado, compreendendo o que o irmão queria.

-Eu posso pedir pra ir lá...

-Isso... – Inuyasha a incentivou – Peça pra ir. Diz que só vai fazer uma visitinha.

-Hmm... – ela concordou discretamente com a cabeça – Eu...

A porta deslizou para o lado e uma figura imponente, usando um quimono deferente do das outras funcionárias, apareceu na entrada.

-Akai Miroku. – ela rosnou e Miroku deu um salto para trás – Eu te proibi de pôr seus pés neste local por dez anos. Esqueceu disso?

-Botanzinha... – ele ergueu as mãos.

-Calado!– Botan andou impetuosamente até ele, tirando um leque da roupa e apontando-o no peito dele como uma arma – Como ousa esquecer disso? Saia daqui imediatamente!

-Mas eu...!

-FORA DAQUI! – foi o berro que chegou aos ouvidos de outros clientes em outras salas, dado por ela.

-Botan... – Inuyasha intercedeu, ficando em frente ao primo para defendê-lo e segurando com força as mãos dela que queriam atacar Miroku - Pára com isso, mulher!

Na porta, Haruko reapareceu ofegante. Apoiando uma mão na batente, quase escorregou no chão de madeira encerrada quando parou de correr.

-Bokuseno... – ela ainda arfava – Bokuseno-sama chegou!

Assustados, os cinco reunidos se entreolharam. Inuyasha soltou as mãos de Botan, que não entendeu o que acontecia, e foi até Haruko, saindo da sala e ficando no meio do corredor:

-Dá pra nos tirar daqui logo?

Na frente da casa de chá, Bokuseno recebia os últimos recados do secretário, que falava ao celular.

-Entendi... Certo, certo. – desligou e virou-se para o patrão – A senhorita Higurashi mandou avisar que não viria hoje... Mas que não faltará à reunião de amanhã.

-E ela disse o motivo? – Bokuseno tomou a direção da entrada, procurando algo nos bolsos; o secretário o seguia.

-Mandou dizer que estava com problemas na família.

-Hmm... – o líder tirou um cartão do bolso e estendeu para o rapaz à porta, cujo serviço era receber as pessoas com um determinado cartão com o número da sala que utilizariam para as reuniões. Entretanto, ao fazê-lo, algo caiu do bolso, fazendo um barulho metálico.

E infelizmente ninguém viu o que era.

Olhando para o chão, Bokuseno arqueava as sobrancelhas. O rapaz à entrada fazia o mesmo, fazendo menção de abaixar-se para procurar no chão.

-Não precisa, deve ter sido só uma moeda. – Bokuseno o parou – Leve-me à sala logo.

-Mas quem sempre leva o senhor é Takeshita-san, Bokuseno-sama... – o rapaz argumentou.

-Que diferença faz? – o tom dele era sarcástico, entrando no ambiente e fazendo sinal ao secretário para que o seguisse – As salas mudam de lugar sem Haruko?

Sabendo o caminho de cor e salteado, Bokuseno andava apressado e sem se importar com os olhares curiosos de alguns presentes. Ele era conhecido pelas colunas sociais, não era à toa que muitos o reconheciam.

Subindo escadas e percorrendo o maior corredor daquele local, finalmente chegando a uma conhecida sala, que ocupara já algumas outras vezes.

A porta estava aberta. Impressionante. E não era só isso...

-Alguém estava usando essa sala antes? – ele perguntou, fazendo cara de asco ao ver o chão sujo de lama.

Escutou passos vibrando no corredor de madeira, e logo que se virou para ver quem passava, viu uma garota suada entrar e cair de joelhos junto a ele, quase encostando a testa no chão sujo.

-Perdão, Bokuseno-sama. – era Haruko que se desculpava – Vou limpar a sala e em cinco minutos o senhor poderá usá-la.

Arqueando as sobrancelhas, ele deu um passo para trás. O secretário e o rapaz que trabalhava na recepção pareciam tão surpresos quanto ele.

-Tudo bem, Haruko... – ele ficou ainda mais um pouco afastado e colocou as mãos nos bolsos, procurando por algo – Vou esperar lá fora... Posso fumar na sacada deste andar?

-Bokuseno-sama pode ficar à vontade. – ela ficou em pé e fez uma reverência.

-Diabos... – ele apalpou os bolsos do casaco – Será que eu...?

-O que foi? – a garota quis saber.

-Meu isqueiro... – ele fechou os olhos e proferiu uma maldição de si mesmo quando se deu conta do que acontecera – Maldição...

Head at your feet, fool to your crown
Fist on my plate, swallowed it down

o-o-o

-Você entendeu, Kagome? – Inuyasha perguntou.

Sentada num banco reservado a funcionários, aos fundos da casa de chá, ela ainda parecia um pouco abalada. Atônita, ela fitava algo no chão, próximo aos pés de Inuyasha – em pé perto dela. O irmão e os primos estavam atrás dele, e, ao que parecia, tinha sido ele o encarregado da tarefa de convencer Kagome de algo.

-Ir... pra...Yokohama... – ela murmurou.

-Pense na possibilidade que vai nos provar que ela não é a pessoa que estamos imaginando, senhorita Higurashi. – Hakudoushi tinha a voz calma. Não queria deixá-la mais tensa com aquele plano – Você só vai observá-la melhor.

Higurashi Kagome fechou os olhos e se imaginou a garota mais sem sorte do mundo por não conseguir raciocinar direito. Baixou ainda mais a cabeça, escondeu a vista com o cabelo e nem notou que os dentes estavam pressionados com força.

Enmity gauged, united by fear
Tried to endure what I could not forgive

-Vai ficar com o celular até lá... E pode mandar informações pra nós com ele. – Inuyasha abaixou-se e ficou do mesmo tamanho que ela para se encararem – Não se preocupe... Mesmo daqui, eu não vou deixar que te aconteça alguma coisa ruim... ok?

Perto dali, alguém acendia um cigarro e guardava o isqueiro, afastando-se depois sem que os outros percebessem.

o-o-o

Quatro dias depois:

O final de semana em Yokohama não estava marcado por nenhuma data especial no calendário. Não havia festival, comemoração, feriado distrital ou algo assim.

Saw things

A desculpa que Kagome usou para passar dois dias naquela cidade era simplesmente para descansar após o período de provas de uma das escolas mais conceituadas da capital. Ela não tinha ido bem, para dizer a verdade, e realmente queria descansar... e descobrir outras coisas.

Saw things

-De novo pensando nessas coisas, Higurashi Kagome? – ela murmurou. Estava deitada de bruços, as pernas balançando para cima enquanto olhava o display do celular que recebera de Inuyasha. Muita gentileza dele em não pedir de volta. Mas ele deveria, certo? Porque já estava começando a ficar estranho ela ficar tão apegada a um simples aparelho.

Saw things

Tinha sido mesmo uma boa decisão passar uns dias naquela cidade? Era terrível ficar sem fazer nada. Em outros tempos, Yokohama já foi algo mais divertido para ela. Havia uma expectativa na família em arrumar as malas para passar uns dias fora, e voltar para a capital e contar aos amigos o que fizera lá.

Saw things

Hoje não.

Clearer

Talvez pelo fato de ter ocorrido um acidente com Kaede naquele lugar, talvez pelo fato da família não estar mais completa. Perguntou-se se por acaso seria diferente se o pai estivesse vivo. Se o pai...

Clearer

Algumas vezes permitiu-se imaginar como seriam os dias se Higurashi Kazuo ainda vivesse. Costumava pensar nas viagens que fariam, nos presentes que ganharia dele, nas festas em que iriam juntos. No que ele falaria, o que ele vestiria, o que ele...

Uma mensagem pelo celular chegou para ela.

-Ah, não... – ela viu o número. Não era Inuyasha, mas sim Miroku. Aquele que era meio pervertido.

E aí? Quer sair comigo?

-Argh..."Só em sonhos", ela respondeu mentalmente. Deixou o celular de lado e afundou a cabeça numa macia almofada.

Um minuto depois, outra mensagem chegou. Ainda era Miroku.

Eu falo pra sua irmã deixar

-Só em sonhos mesmo!– ela exclamou um pouco irritada. Deitou-se de costas e ficou olhando o teto do quarto.

Nada para fazer. Nada.

No fundo Kagome sabia que Miroku mandava aqueles recados para alegrá-la. Tudo porque ela, no dia anterior, ligara para Inuyasha para reclamar da falta do que fazer ali. Entretanto, não tinha sido ele quem atendera. Miroku estava por perto e dissera que o primo dormia... E perguntou se ela precisava de alguma coisa.

Respondendo que estava apenas entediada, ele começou a dar em cima dela... Mas de um modo que ganhou a simpatia dela. Era o tipo de pessoa que falava aquelas coisas de propósito apenas para que a outra se irritasse e esquecesse minutos depois. Era o que os outros poderiam chamar depois de "amigo".

Once you, were in my...Rearviewmirror...

Escutou o motor de um carro e sentou-se na cama, agarrando o travesseiro com a tensão. Talvez fosse a irmã, que saíra desde o início da manhã.

Esgueirou-se até a janela e espiou. Quando percebeu o que fazia, balançou a cabeça.

Desde quando ficara assim, tão cautelosa? Ela estava em casa, na casa dela! Não tinha porque evitar que outros a vissem? E daí que a vissem?

Apareceu na janela. Viu a irmã sair do carro e receber uma arma de Kanna, que guardou dentro da bolsa.

I gather speed from you fucking with me

Com isso, Kagome realmente se escondeu.

Era a primeira vez que via a irmã segurando uma daquelas...coisas. Kikyo parecia tãofrágil, quem iria imaginar que conseguia mexer em armas?

Once and for all I'm far away

Calma, Kagome, calma. Isso não significa grande coisa. Talvez fosse de brinquedo. Apenas para proteção pessoal. Kikyo não era de sair atirando em todo mundo por aí, como alguns faziam em outros países aí pelo mundo.

Respirou fundo. Por algum motivo, sentiu as mãos geladas.

Foi à porta e a maçaneta pareciaescorregar na mão suada. Abriu a porta e olhou de um lado e outro do corredor. Vazio.

Você parece uma neurótica, Kagome,disse a si mesma. Só faltava andar com um capuz e roupas preta, como os seguranças da família.

Mesmo sabendo que era bobagem, ela evitou que outros a vissem andando pela casa. Na verdade, pensando melhor, percebeu que fazia isso sempre que a irmã voltava do trabalho desde que estavam ali. Kagome olhava pelos cantos, procurava por ela, observava detalhes à distância.

Encostada numa parede, ela viu, de um ângulo pelo qual não a podiam ver, a irmã escutando algo de Kanna. A chefe da guarda falara alguma coisa que fez Kikyo arregalar os olhos de surpresa.

-... Ele mexeu a mão...?escutou.

Kagome viu Kanna confirmar com a cabeça.

Quem seria esse "ele"...?

Chega. Chega de conspirações. Você está em casa, menina, e aquela garota ali embaixo, mesmo segurando uma arma, é a sua irmã.

-Kikyo-nee-sama!– ela apareceu no alto da escada e atraiu os olhares – Bem-vinda de volta!

-Obrigada, Kagome. – Kikyo permitiu-se sorrir – O que fez hoje?

-Dormi quase a tarde toda. – ela desceu apressadamente as escadas – Mamãe e os outros saíram, nem me acordaram pra eu ir junto!

-Eles foram aonde? – Kikyo arqueou as sobrancelhas.

-Casa da tia Makino.

Deuses, era possível? Kikyo balançou a cabeça. Tia Makino era a irmã mais velha da senhora Higurashi, uma das que ainda estão vivas. Kikyo não gostava do jeito arrastado como ela falava e das coisas nonsense que de vez em quando dava na telha dela contar a respeito da família. Era uma velha caduca, na definição da garota.

-Então... quer sair agora, Kagome?

-Pra onde? – Kagome jogou-se no sofá e fingiu desinteresse. Os seguranças, inclusive Kanna, se afastaram e as deixaram sozinhas.

-Que tal jantar fora?

-Lá no centro? – Kagome levantou-se de súbito, um pouco mais animada – Como todo mundo?

-Sim. É isso o que quer, não?

Kagome moveu a cabeça num "sim". Não era verdade que ela queria, mas era a melhor opção para sair de casa e esquecer os problemas.

-Vou ligar para mamãe e pedir para que eles nos encontrem naquele restaurante do "Raposa". – Kikyo fazia referência ao gerente de um restaurante cujo rosto lembrava o de uma raposa.

-Então eu vou me arrumar. – a mais nova saltou do sofá e subiu as escadas correndo, parando na metade para olhar para trás – Obrigada,nee-sama.

E voltou a correr, desaparecendo no corredor superior.

-Obrigada pelo quê? – Kikyo murmurou, estranhando o agradecimento.

Reaparecendo atrás dela, Kanna falou:

-Kikyo-sama.

Tendo a atenção da líder da família, a chefe da segurança – curvada numa reverência – ergueu o rosto e revelou um sorriso.

-Nós o encontramos.

A garota continuava com as sobrancelhas erguidas e deu um sorriso.

-Leve-o ao escritório.

o-o-o

Kagome terminou de se arrumar ao colocar um par de brincos em cada orelha. Tinha dois, sim, e aí, foi o que falara para a irmã quando perguntada a respeito daquele detalhe.

Sorriu diante do espelho. E o sorriso alargou mais. Não havia necessidade de espiar a irmã, nem de pensar que tudo é uma sórdida trama dos "inimigos" da família.

Apagando a luz, ela saiu do quarto e precisou se controlar para não começar a saltitar pelos corredores.

Só faltava avisar a irmã e podiam sair... Isto é, caso ela também estivesse pronta.

-Kikyo-nee-sama?– Kagome abriu a porta do quarto da mais velha e não a viu – Ué, pra onde ela foi?

Voltou ao corredor e encostou-se a uma parede, ficando pensativa. A mão esquerda apoiou o queixo e a testa franziu.

Com o silêncio em que a casa estava mergulhada, Kagome assustou-se ao escutar umadiscussão.Olhou para os lados ao reconhecer uma das vozes. Andou ao longo do corredor e desceu as escadas, tomando a direção do corredor do outro andar. Chegou a uma porta que lembrava de ter visto a irmã entrar inúmeras vezes e ficou diante dela.

O nível da conversa atingia pontos altos e baixava depois, como um casal que não quer que os filhos escutem a briga dos pais. Kikyo parecia discutir calmamente com um homem, enquanto este de quando em quando se alterava.

-Kikyo-nee-sama? – ela aproximou-se da porta e quis bater. Entretanto, alguma coisa fez com que baixasse a mão e encostasse o ouvido. Queria saber a respeito do que eles falavam.

I hardly believe,

Finally the shades...

Are raised...

Dentro do escritório, um rapaz de ar arrogante cruzou os braços num protesto contra uma pergunta feita por Kikyo. Ela nem líder dele era; portanto, não tinha autoridade alguma sobre ele.

Entretanto, por causa de um erro, um pequeno erro cometido por ele, existia a necessidade de dar explicações a uma garotinha que tinha a idade de ser a irmã mais nova dele.

-Foi um homem, ok? – ele rosnou contrariado – Falei com ele pelo menos cinco vezes só naquele dia.

Nenhuma alteração marcou o rosto de Kikyo. Apenas os lábios se moveram.

-Oh? – murmurou.

A sala ficou em silêncio. Os seguranças – atrás dela – continuaram parados como se fossem estátuas. Ela e o convidado se encaravam.

-Mas você tem idéia do problema que me causou com isso, não? – ela perguntou, descansando o queixo em cima das mãos cruzadas. O rosto continuava indiferente.

O homem deu de ombros.

-Uma vida a mais, uma vida a menos... Que diferença faz?

Kikyo estreitou levemente os olhos e ele notou.

-Ah, não... – ele balançou a cabeça para os lados e apontou o polegar para si – Agora a culpa é minha de ter matado a pessoa errada?

Não houve resposta por parte dela. Apenas a viu inclinar a cabeça para o lado.

-A culpa de tudo é tua, mocinha! – ele se levantou visivelmente alterado – Aquele hom-!

-Não grite em minha casa. – Kikyo o interrompeu com frieza – Minha irmã pode ouvi-lo no outro andar.

Enfurecido, ele levantou-se e foi para cima dela. No ímpeto, foi tratado como merecia no conceito mais mafioso de ser: quatro tiros o acertaram, e o corpo dele foi de encontro à porta por causa deles, escorregando nela.

Do lado de fora, as costas de Kagome bateram na parede próxima, o coração ficou acelerado depois de soltar um grito. O suor ainda escorregava frio quando sentiu deslizar na parede e chegar ao chão. Parecia até que tinha sido ela a atingida, tamanho o choque que levara.

Saw things so much clearer

Once you, once you...

A porta do escritório se abrira por causa do grito dela. A pessoa que aparecera primeiro foi Kanna, ligeiramente pálida por ver quem estava ali. Mais do que ela estava Kikyo, que apareceu atrás dela.

Saw things so much clearer

Once you, once you...

Assustada, trêmula, Kagome parecia querer atravessar a parede. Ao ver Kikyo, começou a gemer e murmurar coisas sem nexo.

Saw things so much clearer

Once you, once you...

Definitivamente, era terrível descobrir que o que a gente acredita não é, nem de longe, a verdade que esperamos.

Once you... oh yeah...

o-o-o

Próximo capítulo:

"-Eu não sou a pessoa que imagina, Kagome."

"-Você tem cérebro? Tem já idéia do que fez?"

"-É melhor você subir, Izayoi. Isso aqui vai virar um inferno."

Capítulo 7: Bem-vindos ao purgatório.

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