|
Disclaimer: CCS não me pertence. E nem a cena do filme láááá no final. Que filme? Vá ler pra saber, oras!
Anata no Koe
A sua voz
Capítulo 5
Sim, era ela. Estava ali já há quanto tempo, havia dito o tio de terno da entrada? Vinte minutos? Isso já era tempo suficiente para alguém desistir de esperar por alguém, mesmo que fosse amigo, e ir embora.
E ela estava tão adorável sentada ali... com as mechas castanhas caindo pelas laterais do rosto e os brilhantes olhos verdes baixos, olhando o cardápio, pensativa... Desde quando os olhos dela haviam se tornado tão expressivos? Não lembrava de serem bonitos assim quando eram crianças.
Decidiu entrar. Havia alguma coisa queimando no peito dele ao vê-la. Será que ambos teriam problemas no final do mês para pagar a conta se decidissem tomar um copo com água?
Aproximou-se. Só podia não estar no estado mental normal para falar com alguém que o deixou alterado anteriormente. Mas seria bom, no final das contas, rachar um copo com água para resolver essas coisas pendentes. E Sakura era uma das melhores amigas da infância, não havia momento algum em que não estivessem juntos.
Com toda a coragem que conseguia, aproximou-se.
-Oi.
Viu-a erguer o rosto. Os olhos que ele admirou antes ficaram arregalados, evidentemente com a surpresa de vê-lo ali ao lado.
-Yamazaki também te arrastou pra cá?
A boca de Sakura se abriu como se fosse sair um grito, mas que não veio. Havia percebido também tarde demais o que os colegas aprontaram.
-Eles vão me pagar... – ela murmurou entre os dentes, amparando o rosto entre as mãos.
-"Eles"? – repetiu, reprimindo a vontade de rir.
-Todos eles: Yamazaki, Chiharu e Tomoyo.
-Tomoyo também está no meio disso? – ele não agüentou a risada ao vê-la bufar de raiva ao entender a trama da amiga.
-Grrrr...
O rapaz observou em silêncio o rosto corado de raiva da amiga de infância, enquanto ela bufava e possivelmente tramava alguma coisa ruim contra todos os colegas. Finalmente, depois de um os dois minutos em pé ao lado dela, observando-a em silêncio, falou:
-Posso sentar?
Viu-a ficar ainda mais surpresa. Parecia que havia percebido só naquela hora que Syaoran estava em pé desde que chegara.
-Claro... Só que não vou pedir nada, ou ficarei sem dinheiro por uns dois meses.
-Também pensei nisso. Por isso vou pedir só um copo com água, que aí pelo menos ficarei só um mês sem dinheiro.
Sakura riu. Riu tão naturalmente quando rira ao telefone ao falar com Yamazaki. Se ele tivesse escutado a outra risada, ficaria igualmente encantado. Sentou e esperou que ela voltasse ao normal. Talvez a risada tenha sido um dos motivos para escolher a profissão que agora está exercendo.
-Eu nunca tinha visto você rir assim. – ele comentou e pegou o cardápio – Quanto meses de salário custa um prato aqui?
-O mais barato custa uns três meses do meu. – ela comentou, reprimindo um sorriso – Acho que pra você deve custar só um mês e meio.
-Como se ser diretor de dublagem me tornasse mais rico que o dono da Microsoft. – foi a ironia dele – Eles realmente quiseram nos sacanear, não?
-Amanhã minha vingança será maligna. – ela tentou fazer um rosto sombrio ao declarar de forma maligna – Vou colocar pimenta na batatinha do Yamazaki.
-Nossa, quanto ódio no seu coraçãozinho. – ele continuou irônico – É um plano realmente maquiavélico.
O corpo dela se moveu na cadeira para ficar mais confortável, a cabeça ficou erguida de forma altiva.
-Falando em raiva... – ele quis mudar o rumo da conversa – Ainda está com raiva de mim?
-Raiva? – ela repetiu. Ficou em silêncio e depois lembrou – Ah, sim, estou sim.
-Oh, nossa... – ele ergueu as sobrancelhas – Devo tomar cuidado com as batatinhas ou com o meu café nos seus planos malignos?
-Oh... – ela estreitou os olhos com uma nova ideia – O café realmente é um bom plano. Cuidado, viu?
Ficaram em silêncio, encarando olhares.
-O quê? – ela perguntou – Quer mesmo que eu responda?
Desta vez foi ele quem ergueu as sobrancelhas.
-Se eu perguntei, é porque quero mesmo saber.
Sakura mudou de posição na cadeira. O rosto não encarou o olhar. A expressão pareceu ficar mais triste. Ou melancólica, se Syaoran ainda soubesse ler as expressões faciais corretamente.
-Vamos pra outro lugar?
Aquilo a pegou de surpresa. Aliás, a resposta dela também o surpreendeu.
-Claro... por que não? – ela se levantou e pegou o casaco. Ele fez o mesmo, e ambos olharam para os cantos para que não os vissem ir embora.
Muito discretamente perto dali...
Em um canto bastante afastado no mesmo salão, uma mesa tinha três pessoas. Elas mantinham os rostos escondidos atrás dos cardápios, mas observavam na melhor forma possível o casal se levantar e sair. Não podiam escutar sobre o que falavam, mas tinham uma boa visão do que acontecia. Quando eles foram embora, baixaram os papeis ao mesmo tempo.
-Acho que seu plano deu certo de qualquer maneira, Tomoyo. – Chiharu alargou o sorriso.
-Acha mesmo? – parecia que a garota, sempre muito segura, não acreditava – Talvez eles briguem no meio do caminho.
-Preciso tomar cuidado com minhas batatinhas nos próximos dias. – foi o comentário de Yamazaki – Tenho quase certeza que eles pensam que eu tramei tudo isso.
-Oh... – Tomoyo sorria seguramente – Claro que não. Quem teria um plano mais brilhante que esse? Você não teria.
-Ei, assim parece que eu nem tenho brilhantes ideias.
As duas o encararam com rosto sério.
-Ei, 'tou falando sério! – ele protestou.
-'Tá, Yamazaki, 'tá bom. – Chiharu tentou um consolo educado, mas não muito confiante.
As ruas da capital japonesa haviam se transformado bastante desde a infância. Não as lojas – em maior número agora; não a arquitetura dos prédios mais modernos e/ou futuristas – porque também existiam em HK. Havia muito mais gente e menos sentimento nas ruas que antes. Antes tinha mais espaço para andar, hoje Syaoran tinha sempre que dar espaço para Sakura passar em algum lugar porque alguém atrapalhava o caminho. Quase não conseguiam caminhar um ao lado do outro, mas, ao contrário da tradição japonesa, Sakura não ficava atrás de Syaoran: era o rapaz que fazia questão de ficar atrás dela quando necessário.
Conversavam sobre diversas coisas, principalmente no que Sakura fez da vida depois que ele partiu, o que ele fez no novo país e como precisou se adaptar a muitas coisas, as dificuldades com o sotaque, a forma como lidava com os novos colegas... Teve problemas sim, e sentiu falta de muitas outras coisas. Conheceu e perdeu de vista muitas pessoas, então não pôde responder quando ela perguntou se tivera novos melhores amigos no novo lugar.
-É um pouco difícil meu caso... – ele comentou em determinado momento – Não sou considerado japonês, apesar de ter morado muito tempo aqui, mas também não sou considerado chinês, apesar de ter nascido em HK e saber falar chinês sem sotaque.
-Isso deve ser chato... ser um sem-lugar. – ela falou, escutando com atenção os detalhes da história.
Nem tinham se dado conta da direção que haviam tomado. Só percebera ele quando reconheceu um velho muro coberto de trepadeiras. Era o muro da casa de um vizinho que uma vez o ameaçou bater na cabeça com uma pá de jardinagem porque Syaoran, quando criança, arrancava alguns ramos e estragava o que o senhor Tanaka cuidava com tanto carinho.
-Lembro daqui... – falou de repente para a garota ao lado. Esta parou de andar e olhou ao redor.
-Estamos fazendo o caminho que fazíamos da escola para nossas casas.
-Eu lembro do dono da casa correndo atrás de mim com a pá. – ele riu alto – Tudo porque roubei umas folhas pra fazer aquela coroa que te dei!
-Foi assim que você arranjou? – ela parecia chocada.
O rapaz riu ainda mais alto.
-E ele? O senhor Tanaka? Como ele está? Correndo atrás dos outros garotos da vizinhança?
-Na verdade... – ela começou com um tom menos zombeteiro que o dele – Ele morreu há um tempinho já... A filha mais velha dele ficou com a casa. As pessoas gostavam dele aqui.
-Que pena... – ele suspirou – Eu também. Só não quando ele queria me bater. Mas pena que ele morreu... Às vezes esqueço que as pessoas não são pra sempre...
- É, tem razão... – ela concordou num tom triste – As pessoas vão embora.
Syaoran parou. Ficaram de frente um ao outro.
-Sim... – ele aproximou a mão do rosto dela – Mas elas podem voltar.
-Podem? – ela duvidou, movendo o rosto para sentir o calor da mão que estava ali – Elas voltam mesmo?
-Eu não voltei? – ele questionou.
Sakura não respondeu. Afastou o rosto e avançou em direção a outro caminho.
-Por que está indo por aí? – ele inquiriu.
Viu-a parar e olhá-lo confusa.
-Não era por aí. – ele afirmou – É pelo outro lado da rua.
-Do que está falando? – ela inclinou o rosto num movimento gracioso.
-Nosso lugar secreto. – ele apontou para a direção certa.
Desta vez, ela arregalou os olhos.
-Você lembra disso? – a garota exclamou, evidentemente surpresa.
-Claro que lembro. – ele parecia satisfeito consigo mesmo. Se ela não lembrava e ele sim, então teria mais chances de ter uma conversa mais séria com ela a respeito...
-Impossível. – ela estreitou os olhos.
-É possível sim. – ele teimou.
-Então me leve até lá – ela o desafiou.
Desta vez, quem estreitou os olhos foi ele.
-Você não tem ideia de onde fica isso, né?
-Nem lembrava que a gente tinha um. – ela virou o rosto com altivez, provocando uma gota nele.
-Ah, fala sério, menina. – ele reclamou, guiando a caminhada – Aposto que aquela coisa de "promessa" é tudo coisa da sua cabeça.
Houve um clima estranho quando ele pronunciou aquilo. Sakura corou e baixou o rosto, demonstrando tristeza com a declaração. O rapaz não ignorou e tocou amigavelmente o ombro dela, guiando-a por uma trilha. Era bem iluminado, bem cuidado, e mesmo com o outono chegando não havia muitas folhas no chão. Ao perceber esse detalhe, ele lembrou de algo e comentou:
-Você ainda pisa nas folhas secas por causa do barulho que elas fazem?
-Você ainda lembra disso? – de novo o choque apareceu na expressão dela com a lembrança dele.
O rapaz riu.
-Acho que essas coisas vêm quando estou com você. – ele deu um sorriso e coçou um lado do rosto – Já chegamos.
Era uma pequena praça com alguns brinquedos reformados. Não eram os mesmos da infância, porém.
-Seu balanço não era esse. – ele comentou. Sakura deu um sorriso e sentou no novo brinquedo.
-Realmente é verdade isso? Digo... de lembrar essas coisas quando estamos juntos?
-Não tenho certeza. – ele começou a dar suaves impulsos no balanço para diverti-la. Ela pareceu gostar de brincar novamente – Mas é engraçado como isso acontece, né?
Ficaram em silêncio.
-Eu senti sua falta... – ela começou.
Syaoran apenas escutou.
-Fiquei sozinha esse tempo todo... achando que você voltaria...
E ela parou o balanço pressionando os pés com força no chão. A franja cobriu o olhar.
-Nós fizemos aquela peça quando crianças... você era o príncipe que salvava a amiga princesinha de infância do perigo de se afogar no rio do povoado... eu, no caso... – ela deu uma risada sem graça, engolindo em seco a emoção – E depois de tirá-la da água você prometeu que casaria com ela quando ele fosse o rei. E então eles ficaram noivos...
Novamente ela engoliu um soluço.
-Pra sempre.
Syaoran deu um suspiro profundo e saiu de trás dela, procurando um lugar no chão para sentar-se. Ficou de pernas cruzadas no chão, olhos e ouvidos atentos à história dela. Era óbvio que Sakura tinha que continuar.
-Eu não queria que você tivesse ido embora.
-Não foi escolha minha. – quando criança, nunca é, ele pensou.
-Eu sei que não... – ela deu um sorriso triste e balançou a cabeça com a ideia de que ele pudesse ter escolhido ficar no Japão com ela – Essas coisas acontecem...
Sakura deu um longo suspiro. Tão profundo que demorou um tempo para encontrar as palavras para continuar.
-Fiquei esperando todos esses anos... Pensando se você pensava em mim, se ia voltar logo, se tinha me esquecido...
E ele deixou que continuasse. Ela falou tudo o que aconteceu depois que ele foi embora.
Não deixou um único segundo para ele falar. Não ficou, porém, sem fôlego, e ele ficou escutando até que ela parasse e baixasse o rosto.
-Eu não fiquei bem... – ela sentiu os lábios tremerem, mordeu um segundo antes de continuar – Fiquei muito tempo esperando... como uma boba, é verdade, mas eu acreditei... Eu queria ficar com você... Nós devíamos ficar juntos.
E o tremor nos lábios ficou mais forte. Ele viu as primeiras lágrimas descerem, primeiramente como fios brilhantes, depois numa cascata mais forte.
Não pediu, porém, que ela parasse. Ele não deveria. Nem teria direito a tal. Sakura merecia ter aquele momento de desabafo. Depois de tantos anos ela mereceria, claro, muito mais.
Ficou em silêncio o tempo todo.
Numa hora, ela o puxou para um abraço. Os bracinhos femininos gentilmente se enrolaram no pescoço dele, e ele não protestou. Afagou os cabelos dela e sentiu a camisa ficar encharcada.
-Sinto muito...
As lágrimas ficaram mais fortes.
-Sinto muitíssimo...
Syaoran esperou que ela se acalmasse para levá-la para casa. Sakura ficou exausta depois da crise de choro e o rosto ficou maior, inchado depois do esforço. Não estava mais tão vermelho, mas ainda era possível notar o rubor mais forte nas maçãs, como se o lugar tivesse sido queimado pelo frio de uma pedra de gelo em contato direto com a pele mais sensível. No entanto, vê-la sorrir de quando em quando com alguma lembrança que ele preferiu não perguntar, apenas por educação: achava que não era apropriado ainda saber como ela se sentia.
Ao chegarem no portão da casa de Sakura, eles pararam e trocaram um olhar.
-Eu fico por aqui...
O rapaz concordou com um aceno de cabeça. Ela percebeu uma hesitação na expressão dele.
-Eu vou ficar bem. – ela garantiu sem tanta firmeza que expressava na voz.
E ele ergueu uma sobrancelha a isto.
-Sua família ainda está aí de férias?
Pela primeira vez em horas, Sakura deu aquela risada pela qual era famosa.
-Vão ficar aqui até mês que vem.
-Ui. – ele gemeu e fingiu estremecer de pavor – Eu teria tirado férias também na mesma época se minhas irmãs viessem passar as férias aqui comigo.
Fitaram-se mais uma vez. Sem trocaram palavras, envolveram-se em um abraço. Ficaram em silêncio por vários minutos e não tinham a intenção de se afastarem.
Mas isso aconteceu quando o estômago de Syaoran roncou. E muito alto. Só então se deram conta do horário e do longo tempo que passaram sem refeição. Já passava da hora do jantar.
Sakura riu de novo. Ficou séria e afastou o corpo do dele, marcando a testa numa evidente preocupação.
-Não acha melhor ficar pro jantar? – ela sugeriu – Hoje é dia do meu pai fazer a comida.
-Ah, ótimo. – ele suspirou aliviado – Seria preocupante se fosse o dia do seu irmão.
Syaoran sentiu um tapa no braço. Era uma repreensão de Sakura por falar mal da comida preparada por Touya.
-Vamos... – ela segurou a mão dele e o guiou para dentro de casa, fechando a porta atrás de si.
Perto dali...
-ELES JÁ VAO PASSAR A NOITE JUNTOS? – exclamaram Chiharu e Yamazaki, ambos segurando binóculos para espionar melhor o casalzinho.
-Eu acho que... hmm. – Tomoyo segurou o queixo e a fala.
-O quê? O quê? – eles perguntaram.
-Acho que eles só vão jantar juntos... a família dela esta aí.
-Ah, por favor, né, Tomoyo? – os dois rolaram os olhos quase sincronizados.
-Ter a família na casa não quer dizer muita coisa. – Chiharu rebateu.
-Lembra do capítulo que dublamos semana passada? – Yamazaki tinha sempre argumentos muito fortes – A mãe da Xin Yang Lin encontrou a outra filha dela...
Tomoyo sorriu, observando de longe a casa onde a amiga morava.
Dois anos depois:
-Você fala dessa aliança como se já tivesse uma. – Os lábios de Sakura coincidiram com a fala muda da atriz na tela projetada na parede do estúdio em trevas.
-Duvida disso? – a voz de Syaoran precisava ser desafiante para coincidir, também, com a expressão do ator na tela.
Há dois anos juntos.
-Vamos fazer de novo essa? – Syaoran deu uma pausa e fez um sinal. Yamazaki retornou a cena cerca de um minuto antes.
Dois anos de um sentimento que nenhum dos dois tinha palavras para descrever.
-O que há com você hoje? – ela questionou suavemente, tocando no braço dele – É a terceira vez que fazemos essa cena.
Syaoran deu um sorriso torto e fixou o olhar no papel. Não quis encará-la.
-Nervosismo... – respondeu vagamente.
Sakura franziu a testa. Provavelmente estava nervoso em antecipação à chegada das irmãs de Hong Kong, que planejaram passar alguns dias no Japão em visita ao irmão. Syaoran parecia extremamente preocupado nos últimos dias desde que fora avisado da viagem, e chegou a torcer que uma das irmãs perdesse o horário do voo, que perdessem as passagens ou que um ladrão invadisse a casa e só roubasse isso porque queria fugir com uma gangue para as terras nipônicas fugindo da máfia de Hong Kong... mas não. Nada disso iria acontecer, com certeza. Ainda mais Sakura estava começando a se acostumar com a ideia de conhecê-las, de se dar bem com elas. Era a primeira vez que se encontrariam.
Não quis perturbá-lo mais. Fixou também o olhar no roteiro que precisava interpretar. Estavam há dois dias e meio trabalhando naquele filme, e adorava o papel da heroína. A moça era uma humana apaixonada por um vampiro. Era bastante divertido o enredo, e a cena que dublavam naquele momento era um dos ápices: o vampiro pediria a mocinha em casamento. Ela já havia aceitado passar o resto da vida – humana ou não – com ele, mas se recusava a usar a aliança de noivado.
Yamazaki deu sinal para recomeçar. Sakura deu um suspiro e preparou-se para a sincronização.
Os dedos de Syaoran tocaram o pulso dela e ela sorriu. Ele estava realmente nervoso, percebeu isso pelo leve tremor que a mão dele transmitia como uma corrente elétrica.
A cena recomeçou.
-Você fala dessa aliança como se já tivesse uma.
-Duvida disso?
-Inacreditável. – a heroína bufou.
-Não gostaria de vê-la? Só para ter uma opinião geral?
-NÃO! – a resposta dela veio num grito exasperado, mas seguido de um arrependimento quando a tela mostrou um rosto magoado – Ok, pode me mostrar. Ela não vai me matar mesmo...
-É meio antiga... – a voz dele saiu suave, ignorando o protesto anterior – Minha mãe recebeu do meu pai e agora vou passar a você. Espero que não goste de coisas antiquadas.
Do pulso, a mão de Syaoran segurou firmemente a de Sakura.
-Aposto que ela vai ficar muito bem em você.
No filme, o vampiro abriu uma caixinha preta e um anel cheio de brilhantes pousou na palma da mão da namorada. Ela ficou admirando até que ele o pegou de volta e se ajoelhou na frente dela, a garota ainda sentada na ponta da cama.
O rapaz se ajoelhou ao mesmo tempo que o ator em cena, sem soltar a mão delicada de Sakura. Viu a namorada arregalar os olhos e ficar branca. Parecia que ia desmaiar. Sentiu também os olhos dos colegas de trabalho em cima do casal como numa torcida organizada. Yamazaki tirava até fotos como se fosse um profissional.
-Por favor, por favor... não estrague este momento. – tanto o rosto na tela quanto Syaoran falaram ao mesmo tempo.
-Ah... ! – Sakura, porém, não seguiu a expressão romântica da protagonista e não conseguia se recuperar do choque para encontrar as falas e as respostas coerentes, como ele perfeitamente havia treinado. Por isso ele pedia para repetir a cena... Os olhos verdes estavam como um risco de tão arregalados, a pele branca, a voz ficou sumida.
Por isso estava tão nervoso antes!
-Você me daria a extraordinária honra de ser minha esposa? – Syaoran e o vampiro na tela perguntaram numa vez só.
Mas agora... Ele parecia tão calmo...
E a expressão dela suavizou. Um sorriso emocionado surgiu forcado nos lábios dela. E ele com certeza fazia aquilo porque não queria que fosse na frente das irmãs... melhor que fosse no trabalho mesmo. Aquilo era muito menos vergonhoso que com a família por perto.
Finalmente, tanto ela quanto a heroína humana responderam "sim", e pularam para seus respectivos pares num abraço.
FIM
Nota final da autora: Bem, bem, bem... depois de cinco anos (OMG!) finalmente terminei a história. Nem acredito que isso só acontecia nos intervalos das minhas estadas na Alemanha, e postava quando estava de volta ao Brasil. Pelo menos foi assim desde o segundo capítulo, eu acho... E agora realmente preciso ter vergonha na cara e terminar as coisas que começo. Parece que só agora estou completando as resoluções de 2010, hahaha.
Shampoo-chan pede sinceras desculpas por ter demorado tanto. Não gosto de desistir das histórias e nem de passar muito tempo longe delas. Sei que a escrita muda bastante conforme o passar do tempo, e o que me preocupa nesse caso é que o leitor perceba que sua escrita era antes muito ruim... e também tem o fato de tanto o leitor quanto o ficwriter esquecerem o rumo da história... Felizmente tinha minhas ideias anotadinhas e aproveitava as horas de folga da faculdade em Hannover pra escrever, hahaha.
Este fic foi uma homenagem bem simples e sincera a Mary Marcato, uma das pessoas por quem tenho maior respeito e admiração, apesar da distância, apesar da falta de tempo, apesar dos lapsos nas atualizações... Espero que goste do final! Está exatamente como pensei. No geral, acho que desses cinco capítulos só teve uma cena que imaginei e que não pude colocar, uma cena meio exagerada da dublagem da novela erótica; ficava imaginando a cena da Sakura morrendo de embaraço na frente do Syaoran... Não pude escrever porque depois não sei onde poderia ficar encaixada.
Espero que tenham gostado!
Agradeço a todo mundo que leu e comentou, leu e colocou nos favoritos, leu e indicou a outros para lerem.
Acho que a Shampoo-chan vai pedir aposentadoria em breve, por isso não tenho certeza se teremos alguma outra história de CCS. Enfim... a vida adulta nos chama e Sakura e Syaoran infelizmente não podem me sustentar... (snif, snif)
Muito obrigada por tudo!
Sayounara!
Shampoo-chan