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- Não é para jogar a toalha no chão – disse irritado, vendo que teria que pegar outra. Ikki saiu do banheiro, a fim de buscar outra, mas parou ao ouvir Kanon vomitando.
- "O que ele tem?" – pensou aflito – Kanon, eu vou buscar algo para você. Por que não me diz o que tem?
A resposta não veio, como Ikki esperava. Ele saiu do quarto e trancou a porta, indo até a enfermaria, que ficava perto da casa dos cavaleiros de bronze. Chegando no lugar, pediu um remédio que fosse para febre e tosse, e procurou se informar com o enfermeiro.
- Por acaso isso é para aquele rapaz? – indagou ele, curioso.
- Sim, por que?
- Ah! Acho que esses remédios não vão funcionar.
Ikki que até agora estava entretido em pegar todos os remédios da farmácia parou e olhou para o rapaz, que tinha um sorriso enigmático.
- O que ele tem, você sabe?
O rapaz olhou para os lados e se debruçou no balcão, puxando a cabeça de Ikki na sua direção, fazendo sua boca ficar bem perto de seu ouvido.
- Não diga a ninguém que eu lhe contei, mas eu ouvi o irmão dele conversando com a doutora. E parece que ele tem uma doença muito rara, e que até os ingleses o pegaram para pesquisas, e também não há remédio que o faça parar de sentir dor.
- Ingleses? Ele foi à Inglaterra? Quando?
- Há três meses. Você não morava aqui, não é mesmo?
- Não. Conte-me mais. Como se chama essa doença?
- Os médicos não sabem nada sobre ele, mas estão pensando em dar o nome "Kanon" a doença, por ele ser o primeiro portador dela. E ao que ouvi, parece que ele... Bom, não sei como dizer, mas... Ele pode morrer daqui cinco minutos, como também daqui dez anos ou daqui cinqüenta anos. Dizem que ele pode ter contraído, e dizem que ele tem uma substância estranha no corpo, como se fosse um veneno.
- Mas... mas... como isso... como ela funciona? Como pára ela? – indagou desesperado.
O rapaz respirou fundo, e disse:
- Eu ouvi o coração dele, é fora de série. Ele bate rápido às vezes e depois fica tão lento que é necessário fazer massagem cardíaca. Sua respiração fica acelerada e às vezes lenta demais, sendo necessário fazer inalação. E sem contar que... – pausou.
- Que o que? Diga...
- Ele tosse sangue, mas isso é estranho. E o que me parece, o funcionamento dos seus órgãos é lento, e ele precisa ter uma alimentação leve... sua digestão também é sofrida.
- Como sabe tanto? – indagou curioso – e o que mais sabe? Diga... não tem nada, que possa fazer ele se sentir melhor?
- Morfina.
Ikki engoliu em seco. Ele se afastou do homem, que viu a doutora se aproximando deles, ela olhou desconfiada para o enfermeiro e logo disse:
- Venha a minha sala depois, e se prepare.
O enfermeiro sorriu de canto, parecendo nervoso, e disse:
- Eu odeio médicos que enganam, que falam que está tudo bem. Quando minha irmã faleceu, eu só soube o motivo mais tarde... e que raiva senti, pois não podia ajudar. Odeio médicos que enganam... – disse, mostrando um olhar feroz.
- Er... você tem morfina?
- Sim, espere – disse, pegando uma caixa branca – aqui está. Tem que aplicar a injeção no braço ou nas nádegas, mas como você não tem cara de saber como aplicar, e faça isso nas nádegas, ok? E só uma por dia, não vai dopá-lo! E mais uma coisa, dê isso aqui a ele caso fique muito... Impaciente ou irritado.
O enfermeiro saiu dali rapidamente, e Ikki também, correndo até a sua casa, vendo que na porta de seu quarto estava Seiya, tentando espiar pela fechadura.
- Ikki... quem está ai dentro?
- Não lhe interessa – disse, empurrando Seiya longe, para abrir a porta e entrar novamente, trancando-a.
Ele ascendeu à luz e viu Kanon enrolado ao seu roupão azul claro. Ikki não disse nada, mas Kanon estava com a face muito vermelha, e chegando mais perto, viu que ele estava enrolado a um cobertor bem quente.
- Não adianta me trazer essas pílulas, fênix – disse, tremendo levemente. A sua cabeça latejava de dor e seu estomago revirava sozinho. Seu corpo doía e se arrepiava sozinho.
- Eu sei o que você tem.
Kanon arregalou os olhos, mas logo riu baixinho, dizendo:
- Descobriu que é apenas uma gripe então.
- Não – sorriu triunfante – sei que até foi para Inglaterra por isso, Kanon.
Os olhos de Kanon ficaram arregalados e então abaixou a cabeça, irritado com a informação que Ikki tinha sobre sua saúde. Ele se levantou da cadeira, deixando o cobertor cair no chão.
- Você não sabe nada, nada, ouviu bem? – falou irritado.
- Sim, não sei nada Kanon. Agora vem aqui – disse, mostrando a injeção.
- Não, você não irá colocar isso em mim, cansei dessas malditas agulhas – revelou, indo em direção a porta.
Ikki o puxou pelo braço e o arrastou até a cama. Kanon estava visivelmente fraco, e foi agora que Ikki entendeu o porquê dele apanhar tão feio para Milo e Aioria. Seus movimentos estavam lentos há tempos.
Usando sua força conseguiu segurá-lo, Kanon se remexeu e quando sentiu a picada em sua nádega ficou em silêncio, sentindo aquele líquido invadir seu corpo. E aquilo ardia!
- Pronto. Não sentirá mais dor... – disse, feliz.
Kanon ficou em silêncio por um tempo, até que virou de barriga para cima, vendo o olhar atencioso de Ikki. Ele franziu o cenho e mostrou um olhar irado para Ikki, que teve que segurá-lo, ou então iria receber um soco certeiro na cara.
- Pára com isso seu idiota – gritou Ikki, segurando seus pulsos.
Entretanto, de nada adiantou, pois Kanon começou a chutá-lo com raiva. E vendo que não tinha como acalmá-lo, Ikki se arrastou até a maleta branca, pegando um vidro diferente, pegando alguns ml's para logo depois jogar Kanon novamente na cama. Ikki sentou-se nas suas costas, tentando prendê-lo e logo lhe aplicou no mesmo lugar, sendo menos delicado dessa vez, por causa de sua irritação.
Os movimentos agressivos de Kanon cessaram e ele ficou mole de repente. Ikki o virou de barriga para cima, vendo seu olhar entristecido e ao mesmo tempo irritado. Ele sentou-se ao seu lado na cama e viu, que Kanon respirava tranqüilamente agora.
- O que será isso? – indagou, olhando para o vidrinho – se eu soubesse dele antes, teria usado em você há tempos.
- Isso é um calmante extremamente forte, Ikki. Se me der em quantia errada posso morrer – disse.
Ikki se assustou, ele olhou para o vidro vendo que a dose que colocou era muito forte e depois olhou assustado para Kanon, vendo que ele tentava mover seus braços.
- Não consegue se mexer?
- Nos primeiros segundos não. Mas como você deve ter me dado uma quantia alta... acho que vai demorar mais um pouco.
Ikki ficou olhando atentamente, procurando ver se estava bem, e Kanon acabou sorrindo.
- Só Saga cuida de mim com tanta atenção.
- Hum...
- Por que tanta atenção para uma pessoa "como eu", Ikki?
- Porque sinto que se não o fizesse... acabaria sentindo-me culpado – revelou.
- Ah, está preocupado com o remorso que sentiria. Entendo, quando eu estava bêbado, você sentiu medo que Milo me visse e me batesse. E quando Aioria veio da primeira vez, você nos parou por medo que eu perdesse. E também da vez que Milo e Aioria vieram, você os interrompeu, pois teve a infelicidade de estar ali. E também, quando eu sangrei debaixo da árvore, você teve que me levar à enfermaria... – disse, sorrindo e com um tom sarcástico – e agora, você tem que cuidar de mim após descobrir que posso morrer por um descuido qualquer.
- Dessa eu não sabia – disse Ikki, com um sorriso divertido – então, tem que ter cuidado especial? Interessante, Kanon. O que mais tem a dizer?
Um sorriso desenhou-se nos lábios de Kanon, quando este fechou os olhos. Ikki já estava se acostumando com o jeito dele e não iria explodir de raiva novamente. A arrogância de Kanon não passava de uma muralha, que agora, ele descobriu como escalá-la.
- Me diga. Você pode tomar friagem? Pode comer carne vermelha? Pode ficar em lugares abafados?
- Está gostando de brincar de médico, fênix? – indagou, irritado.
Ele se remexeu na cama e conseguiu com muito esforço se sentar na cama, colocando os braços para trás, para ter apoio e não cair novamente.
- Ai, você não sabe dar injeção, também.
- Não sei? – riu alto.
- Não... Você aplica com muita força, e joga o líquido com tudo!
- Bom, quem sabe da próxima vez... Se você ficar quieto, eu possa ser mais atencioso.
- Não terá próxima vez – disse.
- Mesmo? Como você disse... Eu sempre estou atrás de você, porque você sempre está me chamando – comentou – acho que vou ter que andar com uma mochila de primeiro socorros agora.
- Pare de brincar comigo!
Ikki sorriu. Agora conseguira o que tanto desejava. Kanon sempre o maltratava com palavras para que Ikki se irritasse e fizesse o que ele queria: se afastasse. Mas agora, fênix enfrentava suas frases cheias de sarcasmo e ofensas, e vendo que Kanon não tinha como fugir, mostrando seu verdadeiro "eu", que não era tão terrível assim.
- Brincar de médico... será interessante – disse, vendo Kanon cerrar ainda mais os olhos.
Ikki ficou um bom tempo em silêncio, fitando-o. Sua cabeça se aproximava mais da de Kanon, que se intimidou e acabou deitando novamente. Entretanto, Ikki continuava a olhá-lo e ele mesmo não percebeu o que estava fazendo, e quando se deu conta, acabou se envergonhando.
Os olhos de Kanon não serviam apenas para mostrar seus sentimentos, mas eram atenciosos e observadores, notando a perturbação do outro.
- Está com fome? – indagou, tentando aliviar toda a tensão.
- Não.
- Mesmo?
- Já disse que não.
- Não está mentindo?
- Não! – disse mais alto.
- Nunca pensei que você fosse tão irritado. Pensei que fosse frio como Camus é, aquele ali nunca altera a voz.
Kanon sorriu com o comentário.
- Camus não é assim. Ele é emotivo demais até, mas só com quem consegue quebrar a fortaleza de gelo em volta dele.
- Milo...
- Pois é... Apenas Milo conseguiu tal proeza.
- Cômico – comentou.
- Demais.
- Diga-me... Por que diz que Saga o abandona?
- Eu nunca disse isso – disse.
- Ouvi Aioria dizendo, que Saga está se afastando. E ouvi que Shura está com ele, o que tem isso a ver?
Kanon respirou fundo e não respondeu. Ikki puxou seu queixo em sua direção, e perguntou novamente.
- O que foi agora? Quer que eu conte toda minha vida para você?
Ikki arrumou-se na cama e disse:
- Pode começar agora se quiser.
- Já chega. Está passando dos limites, e se você acha que eu não tenho forças para lhe enfrentar está muito enganado, eu...
- Sim, você tem forças para me matar, eu sei. Agora continue a falar sobre sua vida – disse secamente, deixando Kanon irado.
Ikki ouviu Kanon xingar-lhe de tudo quanto é nome, além de criticá-lo e reclamar de como estava sendo tratado. Mas Ikki estava mais entretido nas expressões que Kanon exibia, nos seus lábios carnudos e vermelhos, nos seus olhos brilhantes e enigmáticos e em como algumas vezes gesticulava com as mãos.
A temperatura do quarto subiu, ou apenas o corpo de Ikki começou a ferver, pois este estava ficando cada vez mais vermelho. Ele tocou no rosto de Kanon, vendo que ele parou de falar, e seus dedos alisaram sua pele, sentindo-a como se fossa a mais bela seda.
Os olhos de Kanon se arregalaram quando Ikki desceu com tudo na sua direção, tomando seus lábios. E Ikki, perturbado, mas ao mesmo tempo saciado, colocou seu corpo em cima do de Kanon enquanto tentava penetrar com sua língua aquela boca tão charmosa. E não demorou a acontecer, quando Kanon a entreabriu um pouco.
A língua de fênix serpenteou para dentro daquela cavidade quente e úmida, sentindo seu corpo se arrepiar por inteiro, quando as mãos de Kanon fecharam-se em seu braço enfiando suas unhas ali. E inexplicavelmente, aquilo o deixou mais desejoso.
Ikki se afastava um pouco para buscar um pouco de ar e deixar Kanon fazer o mesmo, entretanto logo voltava a beijá-lo e invadi-lo com tanto fôlego, que o fez finalmente parar de resistir. E quando a língua relutante de Kanon resolveu se enroscar com a dele, Ikki sorriu e acalmou mais o beijo. O seu coração estava mais acelerado agora, pois sentia as mãos de Kanon soltarem-no.
O beijo poderia durar horas para Ikki, mas Kanon havia tossido um pouco, fazendo-o se afastar um pouco, para ver se não era uma farsa e infelizmente ele tossia mesmo. Ikki saiu de cima de seu corpo e Kanon abriu a boca buscando ar, sentindo sua respiração ficar super acelerada o que fazia seu peito doer, mas não doía tanto, pois havia tomado morfina antes.
Ikki tocou em seus lábios, enquanto olhava Kanon tossir. Ele passou a língua por eles e logo se sentiu um idiota por ter feito aquilo, e logo pensou no verdadeiro motivo de ter feito aquilo. E as conseqüências? Não havia pensado nelas, havia agido por impulso e agora pagaria seu preço.
Estava claro agora o motivo de Ikki sentir-se perturbado quando via Kanon. Ele estava apaixonado por aquele olhar, aqueles lábios e aquela personalidade tão forte que ele tinha. Kanon era lindo, e agora admitia isso. E o engraçado era que não sentia atração alguma por Saga, sendo que eram idênticos.
- "É... Shun me parece que estou com o mesmo problema que você estava, meu irmão" – pensou, angustiado.
Kanon parou de tossir finalmente e olhou para Ikki, temendo que ele lhe matasse novamente do coração ou sufocado. Ele se acalmou e disse:
- Você enlouqueceu?
- Hum... – abaixou a cabeça.
- O que está pensando?
- Eu tentei me controlar mais...
- Quer me sufocar?
- Eu não queria que...
- Acha que meu coração agüenta isso?
- Mas eu queria...
- Não tem nada na cabeça?
- Calma eu...
- O que você...
- Cala a boca, Kanon – gritou irritado – não queria fazer isso, eu tentei me segurar. Acha que quero te matar? Pois bem, isso é o que eu menos quero. Eu quero você sim, aqui, comigo. E não to me importando com mais nada – disse, impulsivo novamente, arrependendo-se logo depois.
Kanon ficou um pouco vermelho, mas foi rápido, pois tornou a ficar quieto. Ele sentia-se desconfortável, como se pudesse ser atacado novamente e não sabia o que iria acontecer.
- Me desculpe... eu agi mal, me desculpe – dizia Ikki, repetitivamente.
Kanon até achou tudo aquilo um sonho. Ikki lhe pedindo desculpas? Ele até riu alto, chamando sua atenção, fazendo fênix sentir-se nervoso.
- É uma criança mesmo – e continuou a rir.
- Uma... Uma criança? – irritou-se. Ao que parecia, Kanon ainda tinha o dom de irritá-lo.
- Pois é. Agora, eu acho que preciso dormir um pouco – disse, fechando os olhos – e espero não acordar acorrentado a cama para suas orgias, fênix.
Ikki ficou quieto, sentindo-se uma criança realmente, tendo medo dos pensamentos de Kanon. E fênix se perguntava se Kanon estava ali por estar debilitado demais ou porque havia realmente gostado. Mas o que mais chamou a atenção de Ikki em Kanon foi seu mistério e não seria agora que descobriria tudo que se passava naquele coração.
- Pode dormir sossegado – disse Ikki – foi um erro realmente.
- Claro que foi – sorriu cinicamente, e logo em seguida fechou os olhos adormecendo tão rápido que Ikki acabou se assustando.
- "Como foi que você pegou tal doença... e se você tem... então Saga também a tem? Eu preciso falar com ele... preciso!" – pensou, saindo do quarto e o trancando novamente.
Ikki saiu pelo corredor e logo encontrou Shun, que parecia bastante preocupado com os gritos que ouviu em seu quarto.
- Não é nada – disse Ikki.
- Quem está lá?
- Kanon – disse – agora não diga nada a ninguém.
- Por que? O Kanon... ah! Por Athena... – disse, colocando as mãos no rosto.
Ikki não disse mais nada e deixou um irmão abobado para trás. Ele queria falar com Saga e iria fazê-lo agora. Estava indo na direção das doze casas, e logo começou a subir com a permissão dos cavaleiros de ouro, que protegiam as casas de baixo.
Chegando na casa de gêmeos, Saga veio ao seu encontro, mas não disse nada, pois não esperava que Ikki viesse falar com ele. A maioria dos cavaleiros de bronze que subiam sempre iam falar com a Deusa, portanto, estavam acostumados a ter Seiya passeando por suas casas o tempo todo.
- Saga, nós precisamos conversar.
- O que foi?
- Eu sei da doença de Kanon.
Saga assustou-se, mas não disse nada.
- O que ele tem? Como pegou isso? E você também tem essa do... – antes que Ikki terminasse a frase, Saga agarrou-o pelo braço e o arrastou para uma sala.
- Não fale assim. Podem ouvir – disse, fechando a porta da sala e cruzando os braços logo em seguida – então Kanon lhe disse.
- Não, não foi ele, mas isso não importa, não é verdade? Eu quero saber se você também tem essa doença. Se ela é genética.
- Não Ikki, eu não a tenho. Isso significa que Kanon a pegou de algum modo.
- Entendo... e não tem como medicar também, não?
Saga ergueu uma sobrancelha não entendendo como ele sabia tanto, e então respondeu:
- Como sabe tanto? E não, não há medicamento. Às vezes eu o drogo, pois ele fica agressivo demais e quando sente muita dor, que o teimoso não admite sentir, eu dou morfina. Mas...
- Mas? Mas o que?
- Kanon está com essa doença a mais ou menos dois anos, e ao que me parece ele já usava morfina antes e algumas drogas, ele acabou ficando viciado em drogas.
Tudo parecia virar de cabeça para baixo. Kanon um dependente? Aquilo estava ficando cada vez mais preocupante, e o coração de Ikki parecia sangrar todas as vezes que a voz de Saga invadia sua mente.
- A morfina não faz tanto efeito como antes, seu corpo está se acostumando a ela. Por isso ele usa drogas, para se distrair, para se livrar da dor e dos conflitos que vive aqui no santuário.
- Todos caem em cima dele... E de você...
- Ah! Sim, me olham torto também, mas não tanto como Kanon. Consigo viver bem aqui, pois tenho compromissos apenas com a Deusa.
- "E com Shura também" – pensou Ikki, mas não ousou dizer.
- Me diga Ikki, por que veio até mim? Está preocupado com meu irmão?
Ikki sentiu confiança em dizer o que sentia, pois precisava pedir para Saga que deixasse ele tomando conta de Kanon.
- Eu... – respirou fundo – gosto dele – disse finalmente, sem detalhes – e vou cuidar dele.
Se houvesse uma coisa muito parecida entre os gêmeos, Ikki descobriu agora. Era o olhar tão cristalino que ambos tinham, a expressão de Saga foi tão marcante que Ikki até parou para analisá-la, gostando daquele jogo de observação que estava utilizando nesses tempos. Mas diferente de Kanon, Saga continuou com aquele olhar expressivo quando começou a falar.
- Por que acha isso? Não está brincando com ele, está? Eu juro que...
- Não estou brincando, acha que sou esse tipo de homem?
Após um momento de reflexão, Saga disse:
- Não, realmente. Mas fênix, não o machuque... não o faça. E se você puder ajudá-lo eu agradeceria muito, muito mesmo.
- Saga, só tenho mais uma pergunta. Como ele pegou isso? Vocês não têm idéia?
- Kanon acha que sabe, e por saber ele não quer a ajuda da Deusa, por isso não comente com ninguém.
- Não comentar com ninguém? – indagou curioso – eu acho que todos aqui iriam ficar felizes por vê-lo doente...
- Não, esse é o problema. Kanon acha que pegou essa doença nos mares, enquanto era um general marina. E acha que isso foi o pagamento de ir contra Athena e tentar controlar um Deus, portanto, ele disse para mim um dia: "... Eu sei onde aconteceu e como aconteceu, foi tão bobo, mas aconteceu. Foi um pagamento, talvez isso seja o preço por meus pecados e não quero que ninguém interfira. Se for morrer por isso, eu aceitarei, sem mais".
Ikki respirou fundo e olhou para Saga que tinha uma expressão triste. Ele abriu a boca para falar algo, mas Saga continuou a falar, fazendo-o se calar.
- Ele disse que uma planta no reino dos mares, uma das plantas ali o cortou na nuca um dia, e ele sangrou muito. No entanto, logo estancou a ferida, mas a marca ainda continua.
- Uma planta? – indagou, achando ridículo.
- Sim. E eu já pensei em ir ver a planta e levar para examinar, mas tudo foi destruído naquele lugar, não há vestígios de nada – disse impaciente, sentando-se no sofá vermelho, que ficava perto da porta – uma simples planta, mas era uma das plantas cultivadas no reino dos mares para matar os intrusos. E eu acho que Kanon era muito forte para adoecer e morrer tão cedo. E eu não sei, também pode ser que ela pegou de raspão. Ou não pode ser a planta...
Era um mistério realmente, mas essas informações haviam ajudado Ikki. Ele sorriu e levantou a mão para que Saga parasse de falar, pois parecia que ele iria debulhar-se em lágrimas a qualquer instante, uma cena que ele realmente não queria presenciar. Saga assentiu com a cabeça, e Ikki saiu da sala, dando um tapa em seu ombro.
Quando estava saindo da casa de gêmeos, Ikki encontra Shura entrando. Ele apenas olhou para o cavaleiro de capricórnio, que não entendeu o motivo dele estar ali.
- O que faz aqui? – indagou.
- Nada que seja da sua conta – disse, indo embora.
Shura deu de ombros e foi seguindo o cosmos de Saga pela casa, encontrando-o finalmente, e assustando-se com seu estado.
O vento frio daquela noite bateu nos cabelos de Ikki, ele tinha que ser forte para suportar tudo aquilo. Uma doença não era uma coisa fácil de se lidar, pois não tinha controle, muito menos quando não se sabia do que se tratava.
Chegando na casa dos cavaleiros de bronze, Ikki entrou no seu quarto e se assustou ao ver a janela aberta. Ele olhou para os lados, procurando por Kanon e não o encontrou. Seus olhos pararam no roupão que estava em cima da cama, ele também havia se trocado.
O roupão foi agarrado pelas mãos de Ikki que o levou até suas narinas, aspirando o cheiro daquele homem que lhe deixava louco a cada segundo.
- "Eu sou criança, hein? Deve ter ido buscar suas drogas... e..." – Ikki interrompeu seu pensamento ao ver que aquela droga que o enfermeiro havia lhe dado foi levada por ele – "bem previsível, Kanon".
IV
"Viva intensamente cada minuto da sua vida, porque se você não viver o presente, no futuro só haverá uma certeza: saudades do que não fez".
(Oscar Wilde)
No dia seguinte de manhã, Ikki foi ao refeitório e encontrou Kanon tomando seu café junto ao seu irmão, que lhe olhou de canto quando entrou no lugar. Ikki não fez nada e foi se servir, sentando-se no lugar de sempre.
Após a refeição ele saiu para ir se encontrar com Yan. Quando chegou no lugar marcado, encontrou o garoto sentado com suas roupas de treino, ansioso por mais uma aula prática.
Ikki por sua vez não estava de bom humor. Ele mandou o garoto dar voltas pelo santuário, fazer exercícios e alongamentos. O garoto havia ficado com cansado como ele desejou, mas ainda assim queria aprender um pouco mais de arte marciais.
- Primeiro trabalhe seu corpo, depois lhe ensinarei isso – disse impaciente.
- Sim, senhor – disse, continuando a levantar peso.
A manhã estava indo embora. Ikki levou Yan até o refeitório ensinando-lhe tudo e pedindo para que ele se sentasse com sua turma, e o garotinho o fez, correndo até a mesa dos novos guerreiros.
Ikki viu que Kanon estava saindo do refeitório nesse momento. Ele demorou um pouco, mas logo saiu para segui-lo, escondendo seu cosmos para que ele não percebesse. E o acompanhou até uma cabana de madeira, onde Kanon costumava a dormir quando não queria passar pelas casas zodiacais.
Os olhos atenciosos de Ikki observavam a figura de Kanon mexendo em algumas caixas, e quando viu que ele retirou uma seringa, ele teve a certeza que deveria estar se drogando naquele instante. E Ikki não podia deixar isso acontecer.
A porta da cabana foi aberta de repente e Kanon olhou para Ikki, mostrando um olhar assustado. Como não percebeu a presença dele? Pensava, enquanto olhava os olhos carregados de fúria de fênix.
- Está se drogando, Kanon?
- E o que... você tem com isso? – indagou, levantando-se. Ele retirou a corda que prendia seu braço e colocou a seringa em cima da mesa.
Kanon estava irritado e pelo jeito havia se cansado de ser comandando por Ikki o tempo todo, logo ele que sempre foi independente. Ele tremia violentamente e seus olhos estavam vermelhos, e logo começou a tossir. Ao que parecia aos olhos de Ikki, Kanon estava tendo um ataque.
- "... quando sente muita dor, que o teimoso não admite sentir, eu dou morfina... A morfina não faz tanto efeito como antes, seu corpo está se acostumando a ela" – Ikki lembrou das palavras de Saga ao ver o estado de Kanon.
- Saia daqui agora! – gritou, socando a parece, deixando um buraco nela.
- Sabe que isso não lhe ajudará em nada – disse, apontando para a droga – o que é isso? Heroína?
Kanon não respondeu, ele avançou em Ikki numa velocidade que ele não conseguiu acompanhar e lhe socou o rosto. Ikki cambaleou para trás e pode ver o segundo golpe, e segurou sua mão e depois segurou a outra e o empurrou para trás, fazendo suas costas baterem contra a parede.
Os dois se olhavam tentando prever o movimento do outro. Ikki estava nervoso, ele podia sentir o corpo de Kanon tremer violentamente e seus olhos estavam vermelhos. Iria ficar segurando-o até que ele se acalmasse, mas isso não foi preciso. Kanon teve um ataque de tosses e Ikki o soltou, ajudando-o a se sentar no chão.
- Vai vegetar se tomar essas drogas! Não tem consciência que elas acabarão com você? Você é um idiota mesmo, um grande idiota.
- Cala a boca, cala a boca! – gritou, deitando-se no chão e virando de barriga para cima, para respirar melhor.
- Não vou calar não. Você tem que ouvir... quer morrer antes do tempo, hein? Acha que morrendo vai pagar seus pecados? Você deveria pensar em alguma forma de viver, deveria pensar em uma forma de sentir-se bem consigo mesmo... deveria pedir para Athena lhe curar e...
- CALA A BOCA! Ninguém... ouviu bem? Ninguém sabe nada do que passei ou do que penso, nem mesmo Saga. Eu faço o que sinto o que é certo, e você não precisa se envolver! Saia da minha vida como entrou, rápido e furtivo – disse, tendo um ataque de tosse, mas continuou quando o ataque parou – saia, saia, saia daqui. Não me olhe mais, não fale comigo... não quero ninguém para sentir pena de mim...
Kanon levou um tapa na cara, mas foi de leve, pois Ikki se segurou. Ele fechou sua mão no seu cabelo, torcendo-o com força e controlando sua voz, disse:
- Não percebe que não consigo mais sair da sua vida? Não percebe que me envolvi por completo?
- Eu não me importo de morrer...
- MAS EU ME IMPORTO! – gritou, assustando Kanon, que ficou em silêncio, respeitando aquelas palavras.
- Ikki...
- Hum?
- Deixe-me viver então... Por favor.
- Se deixá-lo viver é dar-lhe drogas que te farão esquecer de mim no futuro, drogas que destruíram seus neurônios, que farão você me esquecer...eu não lhe deixarei viver. Não mesmo... se estou sendo egoísta ou não, não importa. Não vou deixar aquilo entrar em seu corpo...
Utilizando seu cosmos, Ikki apontou sua mão na direção daquela maleta cheia de drogas e a fez explodir. Kanon quase teve um infarto ao ver aquilo, mas se controlou, pois sabia que tinha mais em algum lugar.
Kanon foi envolvido por um abraço terno e quente de Ikki. Ele sentia aquele corpo tremer, e perguntou:
- Tem frio, Kanon? Como aquele dia?
- Um pouco – disse.
E então apertou ainda mais o abraço e afundou a sua cabeça na curva de seu pescoço, aspirando o seu cheiro. Eles ficaram ali por um tempo indeterminado até que Kanon caiu mole em seus braços. Ikki o pegou no colo e o pôs em cima da cama com todo o cuidado.
Ikki virou a cabeça de Kanon para o lado, procurando a cicatriz que Saga lhe falara, e quando a viu sentiu vontade de queimá-la, mas conteve-se. Ele a tocou e sentiu como a pele estava fina naquela parte e um pouco elevada, o que lhe arrepiou por inteiro.
- Por que? – indagou Kanon, com uma voz extremamente baixa.
Ikki virou seu rosto, vendo como ele não tinha forças para se mover e abriu um sorriso tão sincero e carregado de sentimentos que Kanon nem precisou de palavras para entender os motivos de seus atos. E fênix, deu um selo em seus lábios, sentindo o gosto amargo.
- Ikki... me vire... de... barriga para baixo – pediu.
Sem entender muito, Ikki o fez e logo teve a resposta. Kanon havia tossido sangue e como estava fraco demais era capaz de morrer sufocado quando o sangue saísse e ficasse em sua boca.
- Quer alguma coisa?
Kanon olhou-o nos olhos e disse:
- Me aplique alguma coisa que eu me sentirei bem melhor.
- Morfina?
- Não. Vê se sobrou algo naquela mala.
- Já disse que aquelas drogas não entrarão em seu corpo – disse irritadíssimo.
- Mas... eu quero!
- Não as terá.
- Não manda em mim.
- Mando sim...
- Desde quando?
- Desde hoje, agora, nesse momento... Saga me deu permissão para cuidar de você.
- Saga? Falou com Saga?
- Ele não lhe contou. Pois bem, eu falei com ele. Ele me contou tudo, você está sob meus cuidados.
Kanon sorriu amarelo e comentou:
- Está gostando de brincar de médico, não é?
- Muito. Nunca pensei que fosse tão divertido – disse, tocando em sua cabeça.
Kanon fechou os olhos e apagou de repente, assustando Ikki. Mas ele logo viu que foi um desmaio e ficou ao lado dele à tarde e a noite toda, esperando que ele acordasse, temendo que ele tivesse dormido para sempre.
E nesse ritmo, três semanas passaram-se rapidamente. Ikki sempre estava junto de Kanon, protegendo-o com todo seu carinho e dedicação e sempre que podia lhe roubava alguns beijos vendo que até mesmo Kanon havia desistido de resistir a ele.
A vida estava ficando mais fácil para Ikki. A solidão era apenas uma lembrança de seu passado, pois os dias eram super agitados e empolgantes. Adorava provocar e brincar com Kanon, e o que mais apreciava era vê-lo ensinar coisas sobre a vida para Yan, notando como ele era sabido das coisas.
Às vezes puxava uma mesa no refeitório para apenas ele e Kanon sentassem, e não se importava com os comentários maldosos dos outros. A inveja caia sobre o casal não confirmado, pois Kanon não havia aceitado-os como namorados ou coisa parecida. O máximo que Kanon disse foi que Ikki era seu médico e não se passou disso.
Nem tudo eram flores. Kanon tinha ataques realmente assustadores, mas Ikki sempre ia a enfermaria se informar com o enfermeiro que havia se tornado grande amigo dele, e também conversava com Saga que ia ajudá-lo, quando ele entrava em estado de choque. E Ikki lhe dava drogas às vezes, pois viu que era perigoso retirá-la totalmente da vida de Kanon, tinha que ir aos poucos, apesar dele sempre querer mais.
Um estudioso. Ikki havia pegado muitos livros de medicina e procurado conversar com muitos médicos e entendidos do assunto, para poder ajudar Kanon a qualquer hora. Ele estava aprendendo muito, mas isso não foi muito bom, pois cada vez mais que entendia do assunto via que Kanon não poderia viver muito, e aquilo o deixava depressivo.
Era um dia bastante quente. Ikki havia dispensado seu pupilo para poder passar a manhã com Kanon, eles estavam sentados na beira de um riacho, vendo algumas crianças nadarem.
Kanon parecia preso àquela visão, e então começou a falar.
- Eu brincava aqui com meu irmão... Nós dois, nos dias quentes.
- Mesmo? – sorriu ao vê-lo comentar algo de seu passado.
- Sim. Eu sempre tentava afogar Saga, mas ele sempre ficava por cima, e me afogava...
Ikki riu baixinho ao ver a cara de deboche de Kanon.
- Eu não me lembro de tentar afogar Shun, mas sempre estava distante das brincadeiras. Acho que era um grande idiota.
- Não, não era. Cada um tem um jeito, você não era um idiota. Só era um irmão super protetor...
- Tem razão – disse, lembrando-se que não brincava com os garotos, mas que vivia junto a eles, sempre os ajudando e tomando conta de seu irmão.
Yan apareceu de repente na frente dos dois, falando alguma coisa que Kanon deu pouca atenção. Ikki ouviu o garoto, pois se não fosse assim, ele iria ficar falando sozinho por horas, pois Ikki não era muito receptivo e Kanon era pior ainda.
- Vá brincar... isso é parte de seu treinamento, e não se esqueça nunca desses dias – disse Kanon – isso é tão importante, quando concentrar seu cosmos ou defender seus sentimentos.
- Ah! Por que? – o indagou, o que já era previsível, pois ele sempre perguntava o motivo de tudo.
- Por que viver não é só batalhar, mas sim... – Kanon não terminou a fala, pois começou a tossir.
Yan já estava acostumado a aquilo e Ikki o fez prometer não contar para ninguém. Kanon se virou para tossir e conseguir respirar ao mesmo tempo, Yan olhou desesperado para Ikki, que não fez nada. O garotinho se aproximou e puxou uma mecha do cabelo de Kanon que caia por seu rosto, para vê-lo melhor.
- Kanon... O senhor está bem?
- Sim... Vai... Brincar... Agora! – disse, parando de tossir.
Ikki viu Yan sair correndo, sempre olhando para trás. Kanon conseguiu se recompor e sentou-se novamente para observar o rio.
- Onde estava?
- Falando que Saga o afogava – comentou, com um sorriso no rosto.
- Ah! Sim... Eram bons tempos – disse.
Ikki olhou-o de canto, e apesar dele ter se acostumado com os ataques, ele sentia como se lhe dessem um soco em seu rosto cada vez que ele tossia. Mas sempre fingia que nada acontecia segundos depois.
- Ikki... vou descansar um pouco – disse, levantando-se.
- Tudo bem – disse, vendo-o se afastar – logo irei até você... – sussurrou em seguida.
Não passou muito tempo e Ikki viu que não conseguia apreciar mais aquele riacho sem Kanon por perto e foi até a cabana, onde Kanon passou a morar definitivamente.
A cabana era feita de cimento e foi reformada aos poucos por alguns empregados de Saga. Era bem pequena e só tinha duas divisões, era um banheiro e uma sala, quarto e cozinha junto. As paredes foram azulejadas de branco e o piso era azul bem claro. Tinha uma grande janela de madeira, igualmente azul.
A cama de solteiro era grande e ficava num canto e ao seu lado tinha um grande sofá, muito fofo e comprido, que pegava quase toda a parede do lugar. Tinha uma mesa de ferro no centro e apenas duas cadeiras, e alguns armários embutidos no teto, que tinha alguns utensílios de cozinha. E por fim, um guarda roupa, que ficava na parede, embutido, que mal ocupava espaço.
Quando entrou no lugar, viu que Kanon estava tomando um chá que ele mesmo havia feito de madrugada. Ikki até experimentou, mas acabou cuspindo ao sentir o gosto amargo.
- Como consegue tomar isso? – indagou, sentando-se no sofá.
- Não sei, mas tomo – disse, fazendo uma careta quando virou todo o copo, sorvendo todo o líquido quente.
Ikki estava falando alguma coisa para Kanon, quando ficou quieto ao encontrar uma seringa embaixo da cama. Ele não disse nada, e viu que Kanon estava de costas para ele. Ele pegou a seringa na mão e ficou irritado, pois havia feito Kanon lhe prometer que não usaria mais drogas.
- "Então era por isso que estava tão calmo..." – pensou.
Kanon olhou para trás, vendo que Ikki ficou quieto demais e viu o que ele havia pegado nas mãos. Ele ficou encostado a pia de metal, esperando o julgamento do outro, mas Ikki não disse nada e saiu da cabana.
Talvez se o espancasse ele parasse de tomar aquelas coisas, mas se o fizesse ele poderia morrer também, pois a cada dia Kanon estava mais fraco. Ikki não tinha como fazer pará-lo com isso e aquilo o deixava maluco.
Fênix deu uma volta rápida pelo santuário e voltou para a cabana, vendo que Kanon estava deitado em sua cama com um olhar perdido. Ele sentou-se ao seu lado, controlando-se. Afinal, Kanon não era nenhuma criança.
- Por que me desobedeceu? Por que mentiu?
- Ikki... eu não consigo – disse – não consigo.
- Pedisse minha ajuda, me procurasse... – disse.
- Se eu o fizesse... acho que enlouqueceria antes. E por que lhe chamaria se você a tiraria de mim.
- Onde está?
- Não vou dizer.
- Onde as colocou? Por favor... – suplicou, tocando em seu rosto, que estava quente – está com febre de novo.
- Eu tenho febre a cada cinco minutos.
- Eu sei, e isso não o ajuda em nada. Por isso. Por isso mesmo, me diga Kanon, por favor, onde está?
Vendo o olhar suplicante de Ikki, Kanon abriu a boca e gaguejou, fazendo nenhum som definido sair. Ele fechou os olhos e buscou forças para falar, soltando uma voz fraca e entristecida.
- Atrás do quadro de flores...
Ikki se levantou e foi até o quadro vendo que havia um buraco ali e um monte de drogas, as mais variadas possíveis. Heroína, craque, maconha, ópio e cocaína.
- Isso aqui é feito de tudo que é ruim – disse – depois que eu li sobre essas drogas, eu até mesmo parei de fumar.
- Que bom – disse Kanon, sinceramente – eu estou... fumando agora.
- Eu percebi pelo seu hálito.
- Vive me roubando beijos, acho que deve ter notado mesmo. Só não entendi o porquê de não ter dado um "chilique" quando descobriu.
Ikki respirou fundo e pegou uma sacola, colocando todas aquelas drogas ali, sob o olhar atento de Kanon.
- Deixe algo... pelo menos. Morfina não faz mais efeito, você sabe disso.
- Eu sei. E eu descobri que tem uma droga mais forte que a morfina e ela não irá lhe tornar um dependente.
- Qual?
- Pancada na cabeça. Se você tiver um ataque, eu lhe deixo inconsciente – disse, olhando para ele.
- Bem típico de você – comentou, tossindo de leve.
Ikki saiu da cabana e destruiu todas aquelas drogas, para logo voltar para Kanon, que estava mexendo em alguns livros.
- O que está fazendo?
- Vendo o que vou ensinar a Yan, hoje.
- Mesmo? Vai dar aula hoje... deixe-o brincar – disse.
Kanon ficou em silêncio analisando o que Ikki lhe disse e então sorriu, fechando o livro. Ele olhou para fênix, que estava próximo a ele, e então levou uma mão até seu rosto, vendo como ele fechou os olhos, sentindo sua leve carícia.
O momento era único. Era a primeira vez que Kanon o tocara assim, sua primeira iniciativa. Ikki até fechou os olhos, para senti-lo melhor, mas logo os abriu, pois gostava de olhá-lo, de mergulhar naquele olhar. E os seus rostos foram se aproximando e seus lábios se uniram, fazendo o coração de Ikki pular de alegria. Não demorou, e Ikki o abraçou e afundou mais o beijo.
- Ikki... Acho que você... Está me cativando, conquistando, me chamando... A cada dia...
- Até quem fim se deu conta disso – disse baixinho, com uma voz rouca. E logo em seguida o beijou.
Seus corpos esfregavam um no outro, exigindo o contato como se fosse a coisa mais importante a se fazer. Seus corações eram um só, pois estavam em uma única e incessante batida, e acompanhando-os, estavam suas respirações aceleradas.
As pernas de Kanon foram abertas com certa impaciência e ansiedade por Ikki, que ficou entre elas, adorando sentir seu membro que já estava despertado raspar por ali, sendo esmagado por aquela pressão que fazia contra o corpo do outro. Uma mão fechou-se no pano da calça de Kanon e logo a puxou para baixo para ser jogada no chão por Ikki, que olhava furiosamente para todas as peças de roupa que escondiam aquele corpo de sua visão.
E voltando a se deitar sobre seu corpo, Ikki buscou seus lábios novamente, sentindo o seu gosto suave, mas logo deixou sua boca de lado e desceu por seu queixo até o pescoço, dando longas lambidas ali, chupando sua pele lentamente, sentindo o gosto salgado invadir sua boca.
O corpo de Kanon tremeu forte quando a mão de Ikki se fechou em seu pênis, ele ainda usava sua cueca e sentia o pano áspero raspar por seu membro, todas as vezes que Ikki o apertava. O pano branco estava ficando mais úmido, e Ikki não agüentava mais esperar.
- Ikki... – Kanon o chamou, mas foi logo calado com um beijo.
- Não diga nada, vou ser cuidadoso – disse, com todo seu carinho, fazendo Kanon relaxar.
- Mas Ikki... você tem camisinha? – indagou.
- Eu... não! – disse, como se aquilo não fosse nada.
- Ikki, eu não vou fazer nada sem camisinha – disse – não sei se posso passar essa doença para você e...
- Eu não me importo.
- Mas eu sim! – disse, sentando-se na cama e o empurrando para trás.
- Eu vou procurar uma... vou comprar... sei lá – disse, levantando-se imediatamente, saindo da cabana como se fosse um foguete.
Ikki procurou pelas lojas da pequena cidade camuflada pelo santuário e não achou nada.
- "Ninguém usa camisinha nessa merda de santuário?" – pensou irritado, sentindo vontade de explodir tudo – "... Ah! Na enfermaria..." – lembrou-se, correndo até lá.
Quando chegou, Ikki correu até o enfermeiro que havia se tornado grande amigo seu.
- Jun eu...
- Boa tarde, Ikki, tudo bom?
- Eu... eu quero uma camisinha.
- O que? – tossiu.
- Camisinha, camisinha... anda logo!
O enfermeiro não se agüentou e começou a rir, para logo em seguida procurar o que Ikki lhe pedia. Ele colocou algumas em cima da mesa.
- Quantas?
- Ah! Me da tudo isso...
- Tudo? Quer matar sua companheira, hein?
Ikki ergueu uma sobrancelha e ficou em silêncio, logo se sentiu constrangido, mas não demonstrou. Ele passou a mão em tudo aquilo e correu novamente até a cabana.
Quando entrou, viu que Kanon estava sentado em cima da pia e estava vestindo sua calça novamente. Ele bebia um pouco de água e estava com as bochechas vermelhas.
- Demorou tão que até perdi o tesão – disse Kanon.
- O... O que? – Ikki estava apavorado.
- Ah! Ikki, você demorou 30 minutos para achar uma camisinha. Qualquer farmácia tem uma, e também podia ter pedido para seus amiguinhos que não são nenhum pouco santo.
- Eu trouxe – disse, jogando os pacotes em cima da mesa.
Kanon engasgou ao ver o tanto de camisinha que ele trouxera, e então sorriu, dizendo num to debochado:
- Mas o que pensa que vai fazer comigo, fênix?
- O que você acha? – indagou, aproximando-se.
- Acho que vai me matar...
- Deixá-lo apagado no máximo – disse.
Ikki parou na sua frente e puxou as pernas de Kanon em sua direção. Ele olhou para cima, vendo que ele ainda estava bebendo água, enquanto alisava suas pernas.
O copo foi deixado de lado na pia e Kanon inclinou-se para frente, puxando os lábios de Ikki, mordendo-os levemente, enquanto sua mão fazia um carinho lento e carinhoso em sua nuca.
Ikki puxou o corpo de Kanon e o pegou no colo, andando com ele até a cama, jogando-o ali com toda a delicadeza que ele podia ter. Ele foi até a mesa e pegou algumas camisinhas e jogou em cima de Kanon, que pegou alguma nas mãos.
- Morango – riu alto – chocolate, que diferente. Vejamos... abacaxi, hum, não gosto de abacaxi.
- Tanto faz – disse Ikki, pegando qualquer uma.
- Ikki...
- Hum?
- Você já fez isso antes? – indagou, já imaginando a resposta.
- Não – disse, meio receoso – e você?
- Não? – riu alto – ai, o que eu estou fazendo? Tirando a pureza de uma criança!
- Não zombe de mim – disse – e você?
Kanon respirou fundo e disse:
- Claro que sim... Aliás, até demais...
- Hum, isso não diz nada – disse, retirando sua regata.
- Tem toda a razão...
Ikki voltou para o meio das pernas de Kanon e arrancou sua roupa rapidamente, vendo que estava mais excitado que antes. E Kanon viu que tudo aquilo estava indo tão rápido, que não duraria muito.
Ele parou os movimentos de Ikki e fez força, fazendo seu corpo ficar sobre o dele. Ikki ficou olhando para aquele peito desnudo o cobrindo por inteiro e não se importou com mais nada, o mundo podia estar sendo destruído lá fora, que ele não se importaria.
A boca de Kanon começou a chupar o pescoço de Ikki, fazendo-o puxar a cabeça de Kanon com mais força. Uma trilha de saliva foi deixada pelo pescoço indo até um mamilo. A língua de quente de Kanon passou por ali, fazendo movimentos circulares para logo depois chupá-lo com força, deixando-o vermelho, para novamente lambê-lo como se tivesse pedindo desculpas por tê-lo machucado. O outro mamilo foi castigado de mesma forma, e o que foi deixado para trás, agora era beliscado pela mão de Kanon.
A calça de Ikki foi retirada lentamente por Kanon, que mantinha a calma, diferente de Ikki que parecia que iria explodir a qualquer instante. A respiração de Ikki estava agitada e seu peito subia e descia rapidamente, chamando a atenção de Kanon, que agora olhava para seu membro que pulsava.
- Acho que não tem problema... não é mesmo? – indagou Kanon, enquanto segurava seu membro.
- Hum... – Ikki nem sabia do que ele falava, apenas concordou com a cabeça.
Kanon inclinou-se para frente, fazendo seu cabelo cobrir toda a cama e a visão que Ikki tinha dele. Fênix se apoiou nos cotovelos para ver melhor, quando Kanon colocou seu membro em sua boca, fazendo gemer alto e abrir mais as pernas. A mão de Ikki foi parar na nuca de Kanon, puxando-o mais para baixo.
E Kanon obedeceu afundando-se ainda mais naquela carne, sentindo seu cheiro, envolvendo-se por completo. Ele chupava seu membro, mas sempre era empurrado para baixo novamente, fazendo-o sair raramente de sua boca para logo em seguida colocá-lo de novo. Os gemidos de Ikki ficaram mais fortes e Kanon se afastou e o olhou, vendo como estava com a face avermelhada.
Uma coisa era certa. Ikki pouco falava e sempre agia. Ele inverteu as posições novamente, ficando por cima de Kanon, que gemeu baixinho ao sentir suas costas baterem contra o colchão.
A mão de Ikki voltou a se fechar naquele membro, que tanto desejou. Ele começou a masturbá-lo rapidamente, chegando a machucá-lo um pouco, mas logo foi se acostumando e se acalmando, ao ver o olhar prazeroso que Kanon lhe dava. Seu tronco foi inclinado para frente e logo o beijou novamente, sentindo a sua respiração acelerada entre o beijo e logo se afastou para deixá-lo respirar melhor.
- Não... – Kanon pediu, quando Ikki fez a menção de colocar o seu membro na boca.
- Por que?
- A mucosa da boca absorve o meu esperma, isso trás doenças também. Se quiser mesmo fazê-lo, tenho que usar camisinha – disse.
- Disso eu não sabia – disse, pegando uma camisinha qualquer e abrindo-a.
- Mas é verdade... Sempre falam "usem camisinha", mas nesse caso também é necessário, por isso muita gente fica doente – disse preocupado.
Ikki colocou a camisinha de qualquer jeito em Kanon que teve que ajudá-lo, ou não iria entrar de jeito nenhum em seu pênis. E quando finalmente foi posta, Ikki fechou sua boca naquele pedaço de carne, sentindo sua excitação aumentar. Ele sentiu a mão de Kanon se fechar no seu cabelo, puxando-o, torcendo-o e foi obedecendo ao ritmo que ele empunha.
O corpo de Kanon tremeu e seus gemidos ficaram cada vez mais altos, e Ikki acelerou os movimentos e sentiu a mão de Kanon quase lhe arrancar o couro cabeludo, e finalmente ele gozou, fazendo seu corpo tremer em fortes espasmos para logo em seguida ficar calmo. Ikki sentou-se e olhou para um Kanon esgotado, tocando em sua cabeça, sentindo-a arder.
O corpo de Kanon foi puxado para cima, Ikki o fez ficar sentado na cama. Ele olhava para aquele rosto maravilhoso, que havia sido esculpido pelos Deuses e o beijou, sentindo um beijo mais forte e molhado por parte de Kanon, que fechou sua mão na coxa de Ikki. Este por sua vez, virou Kanon de barriga para baixo.
- Hum... – Kanon não disse nada, mas não gostou da posição. Ele olhou para trás, vendo que Ikki estava colocando sua camisinha que entrava totalmente desajeitada. Ele pensou em ir ajudá-lo, mas Ikki já havia colocado-a.
Ikki beijou a nuca de Kanon e foi descendo por seu dorso, sentindo como estava suado e tenso. Ele deslizou o dedo por toda sua espinha e depois levou sua mão até a boca de Kanon, que a abriu e deixou aqueles dedos entrarem, e logo os chupou. Ikki poderia ficar ali a tarde toda, mas queria mais, e então puxou sua mão e a deslizou pelas nádegas de Kanon, penetrando-o lentamente com o dedo.
O corpo de Kanon pareceu se fechar, ele ficou tenso e Ikki começou a alisar sua perna com carinho, enquanto enfiava o dedo em seu interior em movimento lentos e circulares, sempre com muito cuidado. Ele ouviu Kanon tossir em um momento, mas ele logo parou e ele voltou ao que fazia.
Outro dedo foi colocado e outro, assim Kanon ficou cada vez mais relaxado. Ele chegou a se movimentar junto com os dedos de Ikki, mas eles logo deixaram seu corpo e a cabeça do membro de Ikki começou pressionar a sua entrada. Kanon olhou para trás e fechou os olhos, respirando fundo e abrindo mais as pernas, permitindo que aquele grande membro invadisse seu corpo.
No início foi lento. Ikki entrava e saia ao ver que estava forçando demais, ele sentia o corpo de Kanon tremer por inteiro e seus gemidos eram roucos e baixos. Mas aos poucos o espaço foi se abrindo e foi passando pelos anéis lentamente, sentindo uma pele macia cobrir seu membro e aconchegá-lo ali. Quando entrou, Ikki não sentiu mais vontade de sair, mas por instinto começou a se mover para frente e para trás, retirando e colocando novamente.
Os gemidos misturavam-se em uma única voz, em um único compasso e em um único momento. Suas respirações estavam aceleradas, mas não estavam tão agitadas como seus corações, que pareciam que iriam entrar em exaustão a qualquer hora.
Não era só sexo, e se fosse isso teria acontecido há tempos. Havia mais que desejo; havia carinho, havia amor e dedicação de um para o outro apesar de nunca falarem ou expressarem com atos. Nesse momento podiam sentir um ao outro como jamais sentiram ou sentiriam se não o fizessem.
Um queria o prazer do outro, era visível. Ikki fechou sua mão no membro de Kanon, masturbando-o enquanto investia nele, desejando ouvir gemidos altos e prazerosos. E quando os ouviu, sorriu e continuou com mais animo e excitação, como se isso ainda fosse possível.
E em um momento, Ikki saiu de dentro de seu corpo, fazendo tudo ficar silencioso. E o corpo de Kanon é virado para cima, fazendo Ikki se perder naquele olhar antes de penetrá-lo de novo. E desta vez sentiu as pernas de Kanon fechar-se em suas costas, o prendendo, fazendo ter a certeza que ele não poderia fugir dali.
- Ahhh... Kanon, eu te desejo tanto – disse, enquanto o olhava.
Kanon sorriu e não disse nada, ele fechou os olhos e abriu mais a boca, gemendo alto, fazendo Ikki mergulhar naquela visão, mas ele parou o que fazia, chamando a atenção do outro, que abriu os olhos o indagando.
- Deixe... os olhos abertos pra mim – pediu, e voltou a mover-se.
Os grandes e brilhantes olhos azuis ficaram presos ao olhar de fogo de Ikki, que agora se sentia satisfeito. Entretanto, tudo iria acabar logo, Kanon gozou novamente, fazendo seu corpo todo ficar tenso e fechado, pressionando o membro de Ikki dentro dele novamente.
- Isso foi bom – comentou Ikki.
- Quer mais? – indagou, forçando seu corpo novamente, fechando-se no membro de Ikki, esmagando-o como ele pediu. Entretanto aquilo doía um pouco, mas estava mais preocupado com o prazer do outro do que qualquer coisa.
Um gemido alto e rouco deixou a garganta de Ikki, quando ele gozou. Ele continuou a deslizar seu membro pelo corpo de Kanon, sentindo o seu gozo lambuzar todo seu membro que estava encoberto pela camisinha. Ele saiu de dentro daquele corpo e se jogou em cima dele.
Kanon respirava pesadamente, mas ele não queria dizer a Ikki que tudo aquilo fora uma loucura e que seu corpo doía por inteiro e que sua respiração estava dificultosa. Ele definitivamente não queria estragar aquele momento.
Ikki deitou-se no colchão e puxou Kanon em cima dele, para que ele cobrisse seu corpo e aquilo foi melhor, pois ele poderia respirar melhor. Ikki falava algumas coisas carinhosas e sentimentais, mas Kanon não as ouvia, a voz de fênix estava longe e ele não conseguia ficar com os olhos abertos.
- "Não... por favor... agora não" – pensava Kanon, desejando manter-se acordado.
- Não concorda? – indagou Ikki.
- Hum, hum – concordou, sem ao menos saber do que ele lhe falava – Ikki...
- O que, foi?
- Vá buscar algo na cozinha, algo doce, eu quero – disse.
Ikki olhou para ele com preguiça e quando viu aqueles olhos suplicantes não entendeu, mas achou que Kanon deveria estar com muita vontade de comer. Ele se levantou dando um beijo longo em seus lábios e se vestiu rapidamente, jogando os contraceptivos fora com muito cuidado.
- Já volto... – disse, saindo correndo, sentindo-se cansado também.
Kanon pegou seu roupão que estava jogado no sofá e o vestiu. Ele correu até o seu armário e pegou uma dose alta de morfina e aplicou nele mesmo sem cuidado algum, pois estava trêmulo demais. E quando o fez, guardou tudo e foi até o banheiro, abraçando o vaso sanitário para vomitar tudo que havia comido o dia todo junto com uma grande dose de sangue.
Ele se jogou no chão e começou a bater a cabeça na parede, tentando aliviar sua dor, não pensando no que fazia, ele simplesmente queria que ela sumisse. Ele correu até seu compartimento secreto, vendo que havia dado todas suas drogas para Ikki, e então começou a enlouquecer sozinho.
O quarto parecia estar girando numa velocidade incrível e interminável. Kanon se arrastou até a cama, forçando seus músculos ao máximo, mas um passo para ele parecia muito esforço. E sem agüentar mais a pressão ele acabou caindo no chão, batendo a cabeça com força e ficando inconsciente logo, balbuciando:
- Perdoe-me... Ikki...
V
"A maior e mais verdadeira prova de amor está contida no ato diário de se aprender a conviver com alguém, doando, recebendo, compreendendo, aceitando, sendo aceito, compartilhando, apoiando, olhando, vivendo e por fim... Amando".
(Honore de Balzac)
Ikki abriu os olhos assustados ao ver Kanon se mexer, mas logo se acalmou, pois viu que ele estava apenas sonhando. Ele olhava para o relógio que ficava na parede, vendo que estava há horas ali dentro.
Ele havia encontrado Kanon no seu quarto na tarde passada e desde então estava ao seu lado na enfermaria. Saga havia aparecido, quando Ikki lhe contou que ele teve uma recaída, mas ele havia ido embora há horas atrás.
- Ikki, quer um café? – indagou Jun, aproximando-se.
- Ah! Vou aceitar – disse, vendo que o rapaz saiu do quarto.
Alguns minutos depois, Jun entrou pelo quarto com uma caneca quente de café.
- Aqui está – disse, entrando em suas mãos.
- Obrigado. Quando será que ele vai acordar?
- Não sei, pode ser que ele não acorde agora, ou daqui alguns anos ou... Nunca mais – disse.
Ikki se assustou com aquelas palavras extremamente duras, entretanto não disse nada, continuando a olhá-lo e dando alguns goles no café quente que lhe foi entregue.
- Eu acho que esse santuário o estressa demais – disse Jun, chamando a atenção de Ikki.
- Estressa?
- Sim. Você não me contou que aqui, ele não é bem vindo?
- Sim...
- Pois bem, isso não faz bem para seu lado emocional. Ele deve sentir-se péssimo.
Ikki parou um pouco para pensar, e disse:
- Kanon sentir-se péssimo porque alguém não lhe olha com um sorriso no rosto?
- Ah, Ikki meu amigo nem todo mundo é feito de aço. E sem contar, que ele está mais sensível... Já que vocês são tão amigos, Por quê não o leva para fora desse santuário, nem que seja por alguns dias?
Jun viu que ele estava perdido em seus pensamentos e sabia que Ikki não era muito de falar também, então logo saiu do quarto, apertando o ombro de Ikki, mostrando o apoio que lhe dava. E quando saiu do quarto fechou a porta.
Ikki se levantou da cadeira e colocou a xícara de café em cima de uma cômoda. Ele se aproximou e tocou na face de Kanon, fechando os olhos imediatamente para se lembrar da sua boca, dos seus toques e de seus gemidos. Sua mão desceu por seu peito indo até seu braço para depois chegar em sua mão, apertando-a.
- Quer sair daqui, Kanon? – indagou, sussurrando. No entanto, não obteve resposta.
Algumas horas passaram-se e Ikki acabou dormindo na cadeira do quarto. Jun passou no quarto para ver se estava tudo bem e acabou cobrindo Ikki com um cobertor xadrez e logo em seguida fechou a janela do quarto, pois começava a garoar.
O jovem enfermeiro olhou para Kanon e se aproximou dele, escutando sua respiração com o ouvido, tocando em seu peito para ver como as batidas de seu coração estavam fracas. Ele se afastou então, e pensando em voz alta disse:
- Infelizmente, você pode não acordar mais... Que doença estranha.
Jun saiu do quarto finalmente, fechando a porta de madeira lentamente, para que não fizesse um barulho sequer. Se fosse em outras condições, Ikki teria acordado no momento que Jun entrasse no quarto, mas estava exausto demais.
Kanon não mostrou nenhum sinal desde então, e acabou ficando internado por quatro dias direto. Ikki ia visitá-lo todos os dias, às vezes levava Yan junto com ele, pois o garoto não parava de lhe encher o saco.
Os dias eram aterrorizantes, mas Ikki não perdia as esperanças. E um dia, para a felicidade dele, Kanon finalmente abriu os olhos.
Era uma noite chuvosa, na verdade uma tempestade caia sobre o santuário naquela noite. Kanon sentou-se de repente na cama e foi andando até a janela, vendo o longo vestido branco que usava, reparando que era aberto atrás.
- Onde estou? – indagou, sentindo como sua voz demorou a sair. Ele deu um passo para trás e percebeu que seus movimentos estavam mais lentos que o comum e seus ossos estralavam a todo instante.
- Boa noite, senhor.
Kanon olhou para a porta, vendo um rapaz moreno com roupas brancas. Ele parecia alegre, e Kanon não entendia muita coisa, e foi então que ele forçou sua memória e lembrou-se de onde estava.
- O senhor teve uma recaída há quatro dias, lembra?
- Ah! – lembrou-se. E como poderia se esquecer daquela tarde maravilhosa que teve ao lado de fênix?
- Eu irei chamar Ikki para...
- Não o chame – disse rápido – não faça isso.
- Mas... ele ficou o tempo todo esperando que acordasse... eu até o proibi de dormir aqui novamente, pois estava ficando cansado.
- "Por isso mesmo não quero... que ele se envolva mais" – pensou Kanon, ignorando o rapaz – onde estão minhas roupas?
Jun foi até um armário e pegou algumas roupas que Saga havia entregado a enfermaria caso Kanon saísse dali. Era uma calça de sarja bege, e uma camiseta de manga comprida azul escura.
- Aqui está – disse jun, intimidado com o olhar daquele homem, que parecia tão dócil enquanto dormia.
Kanon pegou as roupas e ficou olhando para o rapaz que saiu do quarto, sentindo-se um idiota perante aquele homem tão arrogante, na sua opinião. E quando saiu, Kanon retirou aquela camisola e se vestiu rapidamente.
Jun, porém, correu até o telefone e ligou para o quarto de Ikki, avisando-o e dizendo para ele vir rápido. E não teve tempo de dizer mais nada, pois Ikki desligou o telefone na sua cara e saiu correndo de casa.
Kanon passou reto por Jun, que lhe sorriu amarelo. E quando viu que Kanon estava indo embora, ele se aproximou dele, postando-se em sua frente, dizendo:
- O senhor fez o exame?
- Que exame?
- Er... de sangue.
- Não – disse, sem entender.
- Venha cá, quero lhe entregar alguns antibióticos.
- Não preciso disso – disse, dando um passo para frente.
Jun ficou nervoso, mas não saiu de sua frente. Ele sorriu e continuou a tentar enganá-lo.
- Ordens da doutora Miky, ela ficaria furiosa se o senhor fosse embora sem os remédios...
Kanon revirou os olhos, ele estava irritando-se com todo aquele falatório de que não resultaria em absolutamente em nada. Ele deu outro passo para frente, mas Jun tentou manter-se firme, mas isso não foi possível, quando Kanon o empurrou e apesar de estar mais fraco que antes ele ainda continuava ter uma força incrível.
- Senhor... – gritou Jun.
Kanon olhou para trás impaciente, estava pronto para mandar aquele homem para o inferno caso lhe dissesse mais alguma besteira.
- O que foi? – indagou.
- Nada... já consegui o que queria – disse, sorridente, ao ver um Ikki todo ensopado na porta de entrada da enfermaria.
Kanon olhou para trás e depois olhou com fúria para o enfermeiro que tratou de sair correndo dali.
- Onde... onde pensa que vai?
- Para um lugar onde você não estará.
Ikki se aproximou dele e lhe deu um tapa na cara, assustando Kanon. Ele olhou para aquela face assustada e então começou a gritar com ele.
- Acha que vai ser fácil se livrar de mim?
- Não.
- Duvida do que eu sinto?
- Não.
- Está brincando comigo?
- Não.
- Pára de agir sozinho, você não está mais sozinho!
Kanon não respondeu, ele olhou bem nos olhos de fênix e então disse:
- Ikki, eu estou morrendo a cada segundo e não quero levá-lo comigo. Eu irei embora do santuário... e quero que continue aqui. Afinal, você prometeu a seu irmão.
- Ele entenderá...
- Quebrará sua promessa?
- Kanon... seu idiota... não percebe... não percebe? Será que não percebe? Que eu te amo...!
Ao ver a cara de desgosto de Kanon, Ikki sentiu-se mais aliviado. Ele levou sua mão até aquele rosto, que ficou molhado, pois estava todo encharcado por causa da chuva.
- É atração...
- Não é.
- É desejo...
- Não, não é nada disso. Bom, também... mas é mais que isso. Você me entende. Cada cavaleiro faz uma escolha e todos vivem sob aquilo que acha que é certo... e meu coração diz... que é para eu ficar com você.
Eram palavras lindas, tão lindas que os olhos de Kanon acabaram ficando vermelhos. Ele levou sua mão até seu rosto, cobrindo-o, sentindo-se um perfeito idiota ali, mas ele também fazia o que ele achava que era certo e não queria magoá-lo.
- Eu não quero... que você acorde toda noite ouvindo eu ter um ataque. Eu não quero que você sempre tenha que cuidar de mim. Eu não quero que você fique horas sentado em um banco de madeira esperando eu acordar. Eu não quero que você chore. Eu não quero que você sofra. Eu não quero ficar com você, para fazer você criar sentimentos para depois lhe abandonar. Eu não quero lhe isolar do mundo, quando você está apenas conhecendo-o. Eu não quero definitivamente, lhe ver triste... Não entende isso? – disse, com uma voz baixa e chorosa.
Ikki o envolveu com seus braços, e encostou sua cabeça em seu peito. Ele ficou um tempo em silêncio, e disse:
- Mas eu quero! Eu quero tudo isso... Acha que só pode me trazer coisas ruins? Isso é mentira... Você, você fala de você como se fosse uma praga. Mas é a pessoa mais fantástica que eu conheci. Você é tudo que eu quis, eu... amo a pessoa que você é. Uma pessoa como você... com tudo que eu sempre procurei.
Os dois ficaram em silêncio. Todo o lugar estava silencioso, mas no final de um corredor estava Jun com os olhos cheios de lágrimas ao ouvir declarações tão íntimas e corajosas feitas por ambos.
- Uma pessoa como eu... – riu baixinho – o que você tinha dito naquele dia mesmo? Que eu era arrogante, egoísta... Er... Metido, falso... Traidor, hipócrita e mais uma coisa... O que era mesmo?
- E... Cínico – completou Ikki.
- Ah! É mesmo... E cínico.
- Esse último você que disse.
- Não me lembro disso – disse.
- Foi você que disse...
- Mas você concordou.
- Claro, queria xingá-lo de tudo. Eu era um idiota... não acho mais isso de você.
Kanon parou um instante e o afastou exibindo seus olhos vermelhos, e seus azuis estavam mais brilhantes que nunca.
- Então achava isso mesmo de mim? – indagou, indignado.
- Não! Bem, não tudo. É que eu estava com raiva... e sempre ouvia os outros. Bom... não que eu achasse isso, eu não achava eu...
Kanon lhe deu um beijo rápido, fazendo Ikki calar a boca. E logo em seguida disse:
- Tudo bem, você tem seus momentos, mas geralmente é péssimo com palavras.
- Vamos. Vou te levar para casa – disse, retirando o casaco que usava e andando até a porta, com a mão dada a Kanon.
- Que chuva.
- Está assim desde manhã. Chegando em casa você toma um banho quente.
Kanon ia dizer algo, mas foi puxado por Ikki, que colocou seu casaco em cima da cabeça de Kanon, para protegê-lo. E ele começou a correr na frente, guiando-o, e sempre olhando para trás, para ver se estava tudo bem.
Quando Kanon viu, ele não estava sendo levado para sua cabana, mas sim para a casa dos cavaleiros de bronze, mas ele não disse nada, pois Ikki corria ferozmente. E quando finalmente chegaram, ele respirou fundo e se apoiou nos joelhos para descansar.
- Vamos – disse, puxando Kanon pela mão novamente.
Quando chegaram no último degrau da escada, eles encontram Seiya e Jabu que pareciam estar discutindo, mas eles logo param ao ver Kanon e Ikki os olhando. Mas não puderam olhar muito, pois Ikki logo passou reto por eles, puxando Kanon.
Seiya abriu a boca para dizer algo, mas se calou, pois poderia ser morto se dissesse o que estava pensando no momento. E quando Ikki entrou em seu quarto, ele voltou a discutir com Jabu, mas eles logo fizeram as pazes e trataram de fofocar.
Ao entrarem no quarto, Kanon se sentou na cama, mas Ikki logo o puxou para dentro do banheiro.
- Tome um banho quente – disse, e começou a retirar suas roupas com a ajuda de Kanon.
Quando estava totalmente nu, Ikki o abraçou por trás e beijou sua nuca antes de empurrá-lo até o chuveiro, ligando-o. E rapidamente uma água quente caiu sobre o corpo de Kanon, que relaxou.
Ikki retirou suas roupas e foi até Kanon, abraçando-o embaixo daquela chuva quente. Eles demoraram muito tempo no banho, mas quando saíram, pareciam revitalizados. Kanon foi se deitar, usando um camisetão de Ikki, que chegava até o meio de suas coxas. E fênix estava pegando algumas cobertas no armário para aquecê-los na noite.
Kanon sentiu uma pontada no peito, mas não disse nada. Ele ficou de barriga para baixo e fechou os olhos, como se fosse dormir.
- Está com sono? – indagou, desanimado. Ele pensou que poderia se divertir um pouco como da outra vez.
- Sim. Boa noite.
Ikki se aproximou, retirando algumas mechas de seus cabelos, que ainda estavam úmidas e então mostrou um olhar triste para Kanon, que tentou não olhá-lo mais.
- Está doendo muito?
- Não, vai passar. Descanse.
- Depois de você.
Kanon não respondeu. Ele fechou os olhos e depois de lutar muito acabou dormindo, e vendo que ele finalmente o fez, Ikki deitou-se ao seu lado e dormiu abraçado ao seu corpo.
Na manhã seguinte, Kanon acordou com um barulho alto. Ele se sentou na cama, retirando seus cabelos embaraçados que caíam por seu rosto, para ver a bagunça que estava naquele quarto. Ele demorou a entender o que estava acontecendo até ver as suas roupas empilhadas em cima da cama.
- Mas... O que está acontecendo?
Ikki apareceu na sua frente, quando saiu do banheiro. Ele foi até Kanon e lhe deu um beijo nos lábios para voltar a mexer no seu guarda roupa.
- Nunca pensei que tinha tanta coisa – disse ele.
- Está fazendo as malas? Está indo embora? – indagou, sentindo medo da resposta, mas não demonstrou.
- Sim... – sorriu – estamos.
- Estamos? Desde quando?
- Não disse que queria sair daqui? Então vamos sair... Também estou cansado daqui. Vamos para um lugar calmo.
Kanon se levantou e olhou para Ikki, que não lhe dava atenção. E depois olhou para suas roupas, vendo que só faltava colocar em alguma mala para estar tudo pronto. E as coisas de Ikki pareciam estar prontas também e ao seu ver, ele tinha menos coisas que ele.
- Assim tão de repente. Como? Como viveremos?
- Não se preocupe. Eu já tenho um lugar em mente, só que é meio isolado. Mas eu pretendo comprar um carro logo – disse, distraído.
O canto de um passarinho chama a atenção de Kanon que vai até a janela, vendo que parou de chover, mas o céu ainda continuava nublado. Ele tinha que admitir que queria ir embora daquele santuário, mas não queria isolar Ikki também.
No entanto, fênix pouco se importava com companhias alheias. Logo ele que sempre viveu só. E agora se sentia aliviado por saber que Kanon queria ir embora daquele lugar, mesmo que tivesse prometido para seu irmão que ficaria. Entretanto, havia conversado com Shun quando acordou e ele assentiu feliz com a escolha e os sentimentos de seu irmão mais velho.
Uma hora mais tarde eles foram até o refeitório, onde Saga abraçou seu irmão, dando um beijo em seu rosto para logo lhe falar algumas coisas, que Ikki não ouviu, mas nem se preocupou. Kanon começou a dizer o que faria daqui para frente para seu irmão que assentiu.
Eles comeram bastante e pediram na cozinha para que fizessem um lanche para eles. Ikki tratou de pegar as malas e chamar um táxi para levá-los do santuário até a cidade mais próxima, onde pegariam um trem e depois um ônibus.
A viagem foi cansativa e lenta. Demoraram um dia para chegarem, e quando o fizeram já estava de noite.
Eles foram deixados na beira de uma estrada de pedras. Saga olhou para Ikki, tentando fazê-lo falar onde ele estava lhe levando, mas Ikki não disse. Eles andaram por uma longa trilha que a cada passo ficava mais dificultosa.
- Estamos subindo há horas, Ikki – disse Kanon, respirando fundo.
- Está se sentindo bem? – indagou preocupado – eu carrego essa bolsa.
- Não. Você está carregando minha mala já... Eu estou segurando uma sacola com água Ikki, faça-me o favor! – disse irritado.
Fênix não disse nada e pediu para que Kanon fosse na frente, para observar se ele estava fadigado demais. Mas Kanon se recusou e então continuou a andar na frente, sempre olhando para trás.
Em um momento Kanon aspirou fundo, sentindo um cheiro doce e agradável.
- Que cheiro bom...
- Estamos chegando. É logo ali...
Eles subiram mais e logo começaram a descer tudo que subiram, e aos poucos podiam ver uma casa de madeira ao longe. E então, finalmente chegaram a um lugar plano, onde tinha algumas árvores centenárias, de um verde que chegava a cegar. E o mais maravilhoso naquele lugar era o grande jardim de flores que havia ali. Eram flores de todos os tipos, mas apenas um cheiro forte podia ser sentido.
- Que cheiro é esse?
- Dama da noite. É uma flor, minha favorita – disse.
- O cheiro é muito bom – disse.
- Sim. Eu até dei nome para esse lugar... Chama-se: dama da noite. É onde eu vivia antes de ir ao santuário. E agora será onde viveremos, eu quero que sinta o ar fresco da montanha e o rio é logo ali para você se refrescar...
- É lindo, Ikki. Muito... Perfeito – disse, baixinho.
O lugar parecia ter sido feito por um sopro dos Deuses de tão lindo que era. Nas árvores podiam-se ver flores brancas, com pétalas largas e delicadas que deixavam um aroma doce e bastante agradável, que se espalhava por todo o lugar. Essas flores chamavam-se Dama da Noite e existiam muitas delas ali, chegando a ser uma poluição visual. No entanto, havia mais flores no chão de vários tipos, e o mato verde ameaçava engolir a casa se não fosse cortado imediatamente.
Ikki puxou o braço de Kanon ao ver que ele simplesmente ficou paralisado ao ver o lugar. Sentiu-se vitorioso por agradar o outro, mas tinha que arrumar a casa o quanto antes, pois Kanon precisaria descansar.
- Eu quero ir ao rio – disse Kanon, não se movendo.
- Tudo bem, eu vou entrando – disse, pegando a sacola que Kanon tinha nas mãos e indo até a casa.
Ikki abriu a porta com um empurrão, quase a quebrando e quando entrou viu que tudo estava uma verdadeira baderna. Ele jogou as malas no chão e viu que o piso estava imundo, tinha mato entrando por debaixo do piso de madeira coisa que ele nunca pensou que iria acontecer. As janelas estavam quebradas, porque alguns galhos de árvores bateram, e as paredes estavam empoeiradas e escuras.
- "Por Athena..." – pensou Ikki.
Tinha um lençol em cima da pequena cama de solteiro e quando foi retirado, uma grande cortina de pó apareceu, fazendo fênix tossir levemente.
- Que algazarra!
Ikki olhou para trás vendo o olhar reprovador de Kanon. Ele sentiu um frio na barriga, sentindo medo que ele ficasse irritado ou o chamasse de incompetente.
- Eu não sabia que estava desse jeito. Se eu soubesse eu...
- Shhhh! – pediu Kanon, andando até ele – vamos arrumar tudo isso, sim?
- Sim – disse, perdido no seu olhar.
- Agora você irá varrer todo o chão, sim? – disse, com um olhar tão encantador que Ikki, apenas acenou positivamente com a cabeça.
Kanon sorriu e continuou a usar seu jogo de sedução.
- Depois irá passar um pano em todos os móveis, não é mesmo?
- Sim, depois de varrer... – disse, perdido.
- E depois irá cortar todo o mato... e arrumar uma cama para mim, não é mesmo?
Ikki nem respondeu e saiu dali correndo ou iria agarrar Kanon e não faria mais nada. Ele foi até um pequeno armário, pegando uma judiada vassoura, começando a varrer o chão numa velocidade que era permitida para um cavaleiro. Às vezes, não usava sua força apenas para batalhar, mas também para atividades domésticas.
Quando terminou de varrer a casa, pegou um grande facão e foi cortar todo o mato, irritando-se com os mosquitos e pernilongos que toda hora voavam em seu corpo. Essa havia sido a tarefa mais dura, pois tinha que ficar se abaixando o tempo tudo além de sujar suas mãos.
Enquanto isso, Kanon mexia na cozinha vendo a louça suja, notando uma coisa muito interessante. Naquela casa só havia um par de talheres, um prato, um copo e assim por diante. Ele manteve a calma, sabia que havia um pequeno vilarejo atrás daquela montanha e que iria mandar Ikki comprar coisas urgentemente.
O mato cortado estava espalhado pelo chão de terra, Ikki parou um instante vendo que tinha muito trabalho ainda. Ficou mais de uma hora limpando o quintal e depois que terminou resolveu queimar o mato, usando seu cosmos.
- Finalmente – disse baixinho, entrando em casa.
- Ikki... – chamou-o, vendo aquele olhar cansado. Kanon até teve pena de xingá-lo por tanta imprudência de levá-lo aquele lugar desabitado e sem nada, mas desistiu de repreendê-lo.
- O que foi? – indagou Ikki, vendo que ele ficou quieto.
- Nada... – sorriu amarelo – vai limpar as paredes vai!
- Sim – sorriu animado.
Duas horas mais tarde, Ikki estava jogando todo o lixo em um cesto que havia improvisado. Kanon estava deitado na cama que agora estava menos suja, e não demorou muito a cair no sono.
Quando Ikki entrou viu que Kanon já estava dormindo e achou melhor assim. Ele se aproximou e sentou-se ao seu lado, retirando algumas mechas que estavam no seu rosto, para apreciá-lo melhor.
- Finalmente eu consegui você – disse baixinho, deitando-se encolhido ao seu lado, dormindo.
A noite passou-se e o casal dormiu tranqüilamente, cansados da longa viagem. E quando o sol começou a nascer na linha do horizonte, os pássaros começaram os seus animados cantos. Esses pequenos voadores banhavam-se no rio e brincavam entre si, e os formosos beija-flores envolviam as flores em seus longos bicos.
O sol estava em cima da casa, e estava forte, chegando a queimar quem ficasse por muito tempo exposto. Isso anunciava que já era meio-dia.
Ikki se remexeu na cama e acabou caindo no chão, fazendo um barulho alto. Ele abriu os olhos e começou a se levantar, quando olhou para Kanon, este estava com os olhos semi-abertos e ria baixinho.
- Bom dia – disse ele, sentando-se na cama.
Ikki murmurou algo e foi até o banheiro se lavando, e quando voltou para o quarto, viu que a cama estava arrumada e o melhor de tudo, encontrou Kanon despindo-se.
Com passos lentos Ikki foi se aproximando, desejando abraçar aquele corpo tão atraente, mas quando estava a um passo de concretizar seus planos, Kanon vira-se e diz:
- Vá fazer comprar Ikki de fênix! – disse - não tem louça e nem comida. Aliás, compre panos, toalhas, lençóis e comida, entende?
- Ah... sim – disse desanimado.
- Eu tenho dinheiro ali na bolsa – disse – quem imaginaria que um cavaleiro ganharia tanto por mês, não é mesmo? – comentou, sorridente.
- É... – concordou sem muito entusiasmo e pegou o seu próprio dinheiro, saindo de casa.
E nesse ritmo dois meses passaram-se. A casa estava impecável e reformada. O grande jardim estava cada dia mais bonito e vivo, sendo o ponto de encontro de todos os pássaros da região, além de borboletas e infelizmente, de outros insetos também.
Kanon passava menos mal naquele lugar. Tinha dias que nem tossia ou dava algum ataque, mas eram dias raros e muito felizes para ambos, principalmente para Ikki, que parecia sentir a sua dor. Às vezes Kanon dormia dias direto sem ao menos se mexer na cama, assustando Ikki, que sempre chamava o médico local, mesmo sabendo que não adiantaria. Entretanto, Kanon sempre acordava sem saber que havia dormido tanto.
Nenhum dos dois em todo esse tempo achou que poderia ser feliz dessa maneira, mas a vida mostrou-lhes que tudo mudava e que coisas novas e sentimentos novos apareciam de repente, fazendo tudo que uma pessoa sonhava ou pensava mudar.
VI
Há uma pessoa que com o olhar me toca
E mesmo quando tento fugir
Entrelaçada nos teus braços me encontro.
E tento não dizer que ele é meu mundo,
Mas o faço inevitavelmente, me engolfo num profundo oceano de imagens.
Congelo teu reflexo em minha mente.
Tento pousar meus olhos em outra direção
E quando me perco, encontro-me voltado num beijo...
E como sempre, meu anjo
Resgata-me dos meus medos,
E me leva para o mundo dos sonhos.
(Rafael – Karine Rangel)
Ikki não era mais um garoto, estava com vinte e três anos agora e tinha certeza do que queria, e havia amadurecido também. Seus sentimentos para com Kanon era cada dia mais forte, chegando a assustá-lo de vez em quando.
E quanto a Kanon, este estava mais calmo e feliz do que nunca. Às vezes recebia a visita de seu querido irmão Saga e saia com ele, para se divertir, entretanto, sempre voltava o quanto antes para Ikki. E sua doença não havia sumido e muito menos regredido, a cada dia era mais fácil ele ter um ataque. Kanon não dependia tanto das drogas como antes, mas tinha dias que ficava violento demais as exigindo. Dias raros, felizmente.
A casa antes de madeira, agora era de cimento e muito maior do que antes. Ela tinha dois andares e um carro na garagem, que era o grande bichinho de estimação de Ikki. E Kanon havia começado a criar cães, agora ele tinha cinco e os adorava.
Shun e Hyoga os visitavam às vezes, eles ainda estavam juntos e pareciam se gostar bastante, apesar das incontáveis brigas que tinham. Tinha dias que Shun aparecia ali e ficava por lá durante semanas a fim de fugir um pouco do estresse do santuário.
E hoje era um dia quente, mas úmido por causa das incontáveis chuvas que caíram. Era o dia 15 de agosto, e Ikki iria completar vinte e quatro anos.
Kanon havia preparado alguma coisa especial, e este sabia cozinhar magnificamente bem. E quando Ikki descobriu esse dom especial acabou ficando cada vez mais apaixonado.
Ikki estava dormindo quando uma mão leve tocou seu rosto, ele sorriu e agarrou aquela mão de olhos fechados, beijando-a, mas logo parou ao ouvir a voz de kanon dizer:
- Pode ir parando com isso!
Quando abriu os olhos, viu que era seu irmão Shun que o acordava e Kanon estava ao seu lado com os braços cruzados. Ikki sentou-se na cama de repente e logo recebeu um abraço de seu irmão, que dizia:
- Feliz aniversário, irmão!
- Feliz aniversário foguetinho! – disse Kanon. "Foguetinho" era um apelido carinhoso que Kanon havia lhe dado.
Ikki abraçou seu irmão e logo se afastou dando um beijo rápido nos lábios de Kanon para logo em seguida abraçá-lo, dizendo baixinho em seu ouvido:
- Bom dia, meu amor.
- Bom dia – disse Kanon, alegre.
Os três foram até a cozinha onde estava Hyoga, que cumprimentou Ikki à distância, pois ele mesmo não era muito sociável e Ikki também não mostrava se importar.
Teve um almoço especial naquele dia, e um bolo logo em seguida. Ikki estava animado, mas queria passar o dia apenas com Kanon, queria usar e se aproveitar de seu corpo, e percebendo a necessidade do casal Shun e Hyoga acabaram indo embora.
- Durmam aqui – disse Kanon, vendo ambos se despedindo.
- Não, temos o que fazer – disse Hyoga – mas muito obrigado pelo convite. Vamos voltar mês que vêm.
- Sim. Mês que vem pode preparar que vou vir para cá – disse Shun, abraçando seu irmão.
- Podem vir – disse Ikki.
E depois de se despedirem, Ikki olhou para Kanon e indagou:
- Por onde começar?
- Lavando a louça? – sugeriu, vendo um olhar feroz para cima dele.
Ikki abraçou-o pela cintura e foi andando até a pia, encostando Kanon ali e depois começou a beijá-lo, apalpá-lo, explorando todos os lugares tão bem conhecidos, provocando e arrepiando aquele corpo.
E caíram no chão de pedra matando mais um dia de amor, aquecendo seus corpos tão apaixonados.
Já era noite e ambos estavam deitados na cama, conversando sobre diversas coisas, planejando uma viajem para um lugar com mar, para poderem se divertir. Afinal, eles não viam muitas pessoas e aquilo os deixavam meio malucos de vez em quando.
E nesse mesmo mês eles arrumaram suas malas e viajaram, voltando rapidamente para receberem Shun, que viria na semana seguinte.
Ikki estava sentado na mesa da cozinha com um olhar entristecido, mas logo mudou sua cara ao ouvir uma batida na porta, ele estava tão distraído que nem teve a capacidade de perceber o cosmos de seu irmão menor.
Levantando-se ele foi até a porta, recebendo-o. Eles se abraçaram e Ikki o ajudou a colocar uma pequena mala cor de abóbora para dentro, e percebeu que Hyoga não veio junto.
- Onde está Hyoga?
- Não quis vir... – disse, com um olhar baixo.
- Brigaram de novo?
- Ah, sim – disse, não querendo entrar no assunto.
Ikki apenas respirou bem fundo, e sentou-se novamente na cadeira.
- E Kanon? – indagou, olhando ao redor.
- Dormindo...
- Ah! Depois eu o vejo então – disse, sorridente – ele deve estar cansado.
Ikki fechou os olhos, virando a cabeça para o outro lado. Shun percebeu a atitude nada discreta de seu irmão e viu que tinha alguma coisa errada acontecendo, ele se aproximou e tocou em seu rosto, chamando sua atenção.
- O que aconteceu?
- Ele não acorda faz tempo... – desabafou – o máximo que ele dormiu até hoje foram sete dias, e quando isso aconteceu eu fiquei desesperado. Mas... quando ele dormia, eu esperava que ele acordasse dentro desses sete dias, e ele sempre acordava antes me deixando esperançoso... mas agora...
Shun arregalou os olhos e indagou:
- Há quanto tempo ele...
- Quinze dias... – disse – e ele não se move. Eu já apliquei soro nele, mas ele não se move... não se move! Nada! – disse mais alto, batendo com a mão na mesa.
Shun se assustou e então ficou entristecido, abraçando-o ternamente, dizendo baixinho:
- Ele te ama e vai acordar para você.
- Quando? Quando isso vai acontecer?
- Eu não sei, mas Kanon é forte não é mesmo?
- Sim... eu estou tão assustado...
Os olhos de Shun arregalaram-se ao ver seu irmão chorar e agarrá-lo com força, desabafando. E ele apenas ficou quieto, sentindo sua dor que passou ser sua dor também, desejando que Kanon acordasse.
- Hei. Vamos fazer assim, eu vou embora quando ele acordar.
- Obrigado... – disse baixinho.
- Já chamou o médico? Ele precisa de medicação, não é? E cuidados com o corpo, que não pode ficar muito tempo parado.
- Já sei tudo isso, Shun. Estudei bastante só para cuidar dele.
E desde esse dia, Shun passou a morar naquela casa. E ele ajudava Ikki se distrair e o retirava do quarto, pois fênix ficava horas sentado ao lado de Kanon, olhando-o esperando que ele acordasse. Tinha vezes, que ele achava que Kanon se movia e ficava louco, mas era tudo fruto de sua imaginação.
E nesse ritmo lento e agonizante, passou-se um mês. E a cada dia o coração de Ikki ia se fechando e ficando cada vez mais frio e duro, entretanto, Shun sempre estava ali para ajudá-lo a não enlouquecer, apesar de Ikki ter o expulsado de casa algumas vezes.
- Ikki... você precisa comer – disse Shun. Era tarde da noite, e estava um dia frio e chuvoso. A casa parecia tremer com os fortes ventos, mas nada tão preocupante.
- Não quero.
- Ikki, você está cada vez mais magro... e...
- Cala boca – gritou – deixe-me sozinho!
Shun engoliu em seco e saiu do quarto, fechando a porta, olhando seu irmão deitar a cabeça na barriga de Kanon.
A mão de Ikki fechou numa mecha de seu cabelo azulado, sentindo sua maciez. Ele havia se lembrado que o médico sugeriu que ele rapasse a cabeça de Kanon para cuidar dele melhor, mas havia recusado isso. E quando o médico insistiu, Ikki acabou expulsando-o de casa.
O mundo parecia estar cada vez mais perdido e a vida tão bela começava a se tornar um inferno. No entanto, Ikki não havia sido iludido, ele sabia que Kanon estava doente, e sabia que ele podia ficar nesse estado, mas o amava demais para largá-lo.
Ikki se assustou ao sentir a mão de Kanon se mover, ele se levantou e olhou para ele, vendo seus olhos se abrirem lentamente.
- Kanon! Kanon! – gritou, beijando seu rosto – finalmente, finalmente!
- Ikki... – disse seu nome, com uma voz tão fraca, que não se passou de um sussurro pouco audível.
- Como está se sentindo? – indagou, feliz.
- Que horas são?
- São... oito horas – disse.
- Nossa... dormi tudo isso. Só me deitei um pouco e já dormi até as oito – comentou, baixinho, não entendo o porquê de sua voz não sair.
Ikki fechou os olhos e respirou fundo.
- Kanon... você dormiu muito.
- Eu sei. Mas ainda estou com sono, já que está de noite vou dormir mais – sorriu.
- Não, por favor... não durma mais.
- Por que? Não quer fazer o jantar? – brincou.
- Não. Kanon, você... dormiu mais de um mês...
Kanon arregalou os olhos e logo os fechou, sentindo-se mal com tudo aquilo e bastante surpreso também. Ele pensou em um monte de coisas dolorosas, mas jamais iria dizer para Ikki que estava morrendo, isso seria muito egoísmo.
- Eu... senti tanto medo – disse Ikki, choroso, abraçando-o.
Os braços de Kanon envolveram seu dorso, sentindo toda a dor de fênix. Ele apenas começou a chorar junto com ele, sentindo como seu corpo estava cansado, sentindo vontade de dormir novamente, mas não tinha coragem para tanto.
- Prometo não te assustar mais – disse, temendo que não cumprisse.
- Promete? – indagou, erguendo seu olhar cheio de lágrimas.
- Prometo. E se acaso eu quebrar essa promessa eu quero que você me deixe.
- Não diga isso – gritou – eu morro junto, mas não te deixo!
- Ah! Ikki... eu te amo tanto, isso é tão doloroso. Perdoe-me.
- Não tem o que perdoar, desde o começo eu sabia que iria ser assim. E eu aceitei isso, e sou feliz assim.
Os olhos de Kanon brilharam e então abraçou Ikki e o beijou, fechando os olhos, dizendo baixinho:
- Me deixe acordado, tenho medo de dormir...
- Está cansado. Deite, e eu deitarei ao seu lado.
Kanon sorriu, ele ficou conversando com Ikki, tentando manter-se acordado, mas acabou dormindo e Ikki o fez logo em seguida, agarrando seu corpo frágil, aspirando seu doce aroma.
Shun havia entrado no quarto ao ouvir seu irmão gritar, mas ele não interrompeu o casal. Quando ele viu que ambos dormindo, acabou chorando baixinho, pensando:
- "Espero que não durmam para sempre".
Fim
Essa história mostra até uma pessoa pode ir por outra, até onde uma pessoa pode suportar. Mostra medos e desafios que tememos, mas que a vida nos coloca a prova sem ao menos nos avisar. O amor está acima de qualquer coisa dificultosa, e apenas ele poderia abraçar qualquer dor ou solidão.
Esta fanfiction foi feita para Miky minha amiga secreta. Ela pediu vários casais, mas os dois primeiros casais pedidos foram Ikki x Hades e Ikki x Kanon. Eu não conseguiria fazer algo com Hades, pois já iria imaginar o Shun no meio.
Eu nunca fiz uma fanfiction desse jeito. Eu até fiquei com um nó na garganta quando terminei, e pensar que eu iria fazer um final muito triste. Mas eu deixei um final aberto a vários finais, e cabe ao leitor escolher o que acontece logo em seguida.
Eu não sei se está OOC, mas eu tentei fazer o máximo possível. Kanon é bastante sério e Ikki também, sendo que precisaria de algo mais para envolvê-los.
Não fiz muitos lemons, pois minha amiga secreta parece não gostar muito. Eu não sei, pois nunca tive a oportunidade de conversar com ela, mas eu fiz apenas um para não encher a fanfiction. Mas se fosse livre, creio que eu faria uns quatro lemons.
Eu espero que tenham gostado do título, que é o nome da flor favorita de Ikki, que é um das flores que eu adoro também. E que tenham gostado da minha narração, e perdoem-me pelos erros.
Miky eu espero que você tenha gostado da fanfiction.
1/9/2006
Leona-EBM