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Anime/Manga » Gundam Wing/AC » Lágrimas da Lua
Litha-chan
Author of 64 Stories
Rated: T - Portuguese - Angst/Romance - Heero Y. & Duo M. - Reviews: 43 - Updated: 09-01-07 - Published: 03-11-06 - id:2839837

Título: Lágrimas da Lua
Anime: Gundam Wing
Casal: Heero Yuy e Duo Maxwell
Gênero: Yaoi, U.A., Angst, Drama, Supernatural - Spiritual, Romance, Lemon? Veremos!
Classificação: Entre 'T' e 'M' até o presente momento.
Status: Em andamento

Disclaimer: Gundam Wing, série, foi produzida pela Sunrise e Bandai, e dirigida por Hajime Yatate e Yoshiyuki Tomino (criador da linhagem). Todos os direitos são reservados aos seus produtores & criadores, eu como fã me dou o direito de usufruir os personagens ao meu bel prazer respeitando os créditos. Apenas alterando e incluindo alguns sobrenomes. Os nomes dos pais de Heero e Duo, assim como dos outros personagens, são de minha autoria.

Observações: Esta fic não busca ofender nenhuma crença-religião, portanto, espero que apenas apreciem a leitura independente do que possa ser relatado aqui sobre assuntos tidos como sobrenaturais e/ou espirituais.

Sumário: Quando a dor da culpa se abate sobre uma pessoa e esta decide se entregar à tragédia, o que pode ocorrer para que sua alma, crença e desejo de viver sejam resgatados? O amor pode ultrapassar todas as barreiras resgatando uma alma envolvida em culpa, dor e sofrimento? Esta história se passa, em sua maior parte, em um cenário onde a lua, o lago e acontecimentos sobrenaturais determinam todos os caminhos e junto com eles encontramos o sentimento mais puro: o amor.

Boa leitura

ATENÇÃO:
Este capítulo ainda NÃO foi revisado. Por favor, relevem os erros que vocês possam encontrar no meio do caminho. ok?


Lágrimas da Lua

- Capitulo 4 -


Após aquele sonho estranho, a única coisa que Heero se viu fazendo era o que mais sabia fazer. Retratar. Era preciso, seu peito se encontrava tomado por uma angústia latente.

Heero em meio a tantas questões, ainda sem resposta, se encontrava esboçando em mais uma tela o que era vívido em sua mente. O rostinho aflito do menino, que de alguma forma lhe falava sem mover os lábios, lhe pedindo que ajudasse ao rapaz que vira na noite passada. Os mesmo olhos exóticos, os traços que mesmo com a diferença de idade eram bem nítidos, provavelmente eram irmãos. E mesmo esboçando na tela crua em grafite, ambas as feições, conseguia sentir a tristeza emanando daqueles olhos.

Lembrava que o menino lhe dissera que era ele o passado dele, e que ele - o seu anjo -, era o seu presente, a sua metade. Algo nessas palavras lhe passava uma tristeza profunda. Tinha certeza que o início para desvendar aquele mistério se encontrava nas últimas palavras do menino, mas infelizmente não conseguira escutar. Acabou acordando justamente na hora que poderia ter alguma pista.

O que lhe restava agora eram apenas as suas pinturas. Quem sabe através delas conseguiria saber algo com alguém daquela região. Ou então, depois de bem analisar todos os detalhes, poderia sair em busca de informações sobre o menininho e, principalmente, sobre o rapaz de longos cabelos e olhos tristes.

"Sabe Duo, eu fico aqui sonhando em ouvir sua risada cristalina ecoando pela casa". Minako fechara o livro e seu olhar se encontrava fitando o céu. "Sinto falta...".

Duo, que ali perto se encontrava, apenas se aproximou um pouco da tia e apoiou a cabeça em seu colo como fazia quando pequeno. Seu rosto sentia falta dos afagos que recebia.

"Também sinto falta tia. Sinto falta de tudo como era antes. Antes de papai... antes de Solo...". Soluçou e elevou o rosto fitando o de sua tia. "Mas tenho medo tia. Tudo está tão diferente...".

Minako fitava agora o rosto adormecido de seu sobrinho na cadeira de rodas. Tão pálido e mesmo assim tão belo. Sua mão deixou o livro para distribuir pequenos toques carinhosos no rosto do Duo.

"Duo, precisamos de você meu querido. Nos deixe ver a cor de seus olhos novamente, escutar o som de seu riso, a sua voz...".

"Acho que já é hora de retornar, senão terei que escutar Karin me dando sermão até a hora do jantar". Heero guardava o material que utilizara e que se encontrava espalhado ao seu redor.

À tarde já se encontrava alta. Não tinha almoçado, apenas comera a maçã e se alimentara de grafite e tinta, como Karin costumava dizer.

Já de posse da bolsa e das telas, Heero começou a refazer o caminho que havia tomado de manhã. Seus olhos esquadrinhavam todo o trajeto tentando achar algo, ou alguém, que lhe pudesse ajudar, mas também atento a cada detalhe, que futuramente poderia pintar.

O som suave da campainha retirou Minako de sua triste adoração.

"Deve ser o loirinho, deixa só confirmar meu anjo". Levantou-se deixando o livro por sobre a cadeira que ocupava e foi em direção ao interior da casa, deixando Duo 'sozinho' por alguns minutos na varanda.

"Maninho?". A voz infantil pode ser ouvida por Duo enquanto este fitava o diminuto jardim.

"Solo! Você sumiu por quê? Já estava ficando preocupado". Duo agora olhava o irmão parado ao seu lado.

"Eu...". Sentia-se um pouco hesitante. "Eu fui ver aquele menino de cara fechada". As mãozinhas – pequenas – mexiam distraidamente pela barra do kimono.

"O quê? Me diga que você não apareceu para ele de novo, Solo...". Duo se agachara em frente ao irmão. Seus olhos mostravam preocupação e até mesmo incredulidade.

"Humm... Bem... Entrar nos sonhos dele conta?". Perguntou sem jeito dando um pequeno sorriso para Duo.

"Solo!". Estava surpreso pela ousadia do 'menor'.

O pequeno notando que as feições de Duo mudavam de surpresa para uma mais fechada tratou de logo tentar se explicar e quem sabe enrolar o próprio irmão.

"Maninho... Você tem que ver... ele te desenhou, ficou lindo! Ele me parece ser um bom menino mesmo com aquela cara fechada, e quando falei com ele no sonho, ele me pareceu muito preocupado e queria saber mais sobre você, mas não sei se ele conseguiu entender...". Os olhos brilhavam. Via naquela oportunidade, a presença do outro rapaz, a única chance de fazer seu irmão voltar a desejar viver.

Seu tempo já era pouco, não teria como depois tomar conta de Duo contra tudo que os cercavam, e antes de ter que seguir seu caminho, gostaria muito de ver seu irmão de volta a vida, de volta aos cuidados e carinho de sua mãe e também gostaria de vê-lo encontrando alguém especial. Tantas coisas para tão pouco tempo...

A voz de Duo retirou-o de seus pensamentos...

"Solo, o que foi exatamente que você falou com ele?". Apesar da enorme preocupação que sentia, ainda mais por notar que o outro rapaz não era uma pessoa 'normal' como a maioria, sentia-se curioso. Por isso queria saber o que seu irmão dissera ao outro.

"Eu... eu pedi a ele...". Os pequenos olhos exóticos encararam o rosto curioso de Duo. "Se-gre-do". Falou já rindo e começou a correr pela varanda.

O riso cristalino de Solo preenchia o espaço - que se encontravam - enquanto corria e olhava o irmão que ainda lhe fitava não acreditando na molecagem.

Duo estava apreensivo – e curioso - com a evasiva de Solo, e envolto pelo clima de descontração que o menor acabara criando, sem notar, começara a correr atrás do irmão em uma visível brincadeira de pique-pega. Esquecendo-se momentaneamente do assunto inicial. 'O que Solo teria dito ao outro rapaz em seu sonho'.

A brincadeira somente foi interrompida com o aparecimento do fisioterapeuta parado na porta da varanda com um sorriso nos lábios e com aquele olhar que passava tranqüilidade na maior parte do tempo.

"Ora... parece que o clima de hoje está agradável". Comentou olhando na direção em que Duo se encontrava com Solo.

Solo olhou para o rapaz e depois para Duo, e sorriu mais uma vez ao tentar sair debaixo do corpo do irmão. Já que Duo o prendera e estava tentando lhe fazer cócegas. Como se isso fosse possível de se fazer em um... 'fantasma'.

"Ah... Quatre chegou... Ufa!". Comentou feliz saindo debaixo de Duo e assim escapando também das possíveis perguntas.

"Tinha esquecido de que hoje ele viria". Comentou baixo voltando rapidamente para a realidade que o cercava.

Quatre não conseguia enxergar nem Duo e muito menos Solo, mas o jovem fisioterapeuta possuía uma sensibilidade tão aguçada que em qualquer ambiente que estivesse poderia sentir presenças, sejam elas boas ou não.

Os olhos aquamarines desviaram-se indo pairar sobre o corpo do rapaz sentado na cadeira. Com um sorriso calmo nos lábios, deixou sua voz ser ouvida.

"Olá Duo, pronto para mais uma sessão hoje?". Aproximou-se da cadeira, agachando-se um pouco e fitou o rosto pálido.

"Mesmo que eu diga 'olá' você não irá me escutar...". Disse ao dar a volta na própria cadeira, encostando-se à mureta da varanda.

Quatre como todo bom sensitivo, logo olhou na direção que 'Duo' se encontrava e pode notar a mudança. Como sempre fazia, resolveu conversar com Duo, mesmo que este não pudesse lhe responder.

"Sabe Duo, eu gostaria de te conhecer. Sentar com você nessas pequenas escadas da varanda e falar sobre várias coisas, mas para que isso aconteça, você tem que colaborar e melhorar logo. Para ser mais exato, você tem que voltar logo".

Solo se aproximou do irmão e abraçou-o pela cintura. Seus olhos fitavam o jovem fisioterapeuta, desejando que ele também ajudasse o irmão com aquelas palavras.

"Acho melhor continuarmos a nossa conversa lá dentro, afinal, preciso que você esteja deitado. Os mesmos exercícios de sempre. E quem sabe, mais tarde, Minako-san nos deixe dar um passeio por aqui perto, hein?". Sorriu e com um toque leve no rosto pálido de Duo para afastar a franja, se levantou.

A poucos metros dali, Heero se aproximava. Duo estava tão distraído observando Quatre soltar os freios da cadeira que não notou o japonês, mas Solo ao ver o rapaz, logo puxou o kimono do irmão pela barra.

"Maninho, maninho... olha, ele ta vindo ali, o menino de cara fechada!". Um pequeno sorriso de felicidade estampou nos lábios de Solo com a oportunidade.

Duo virou o rosto assustado e ao mesmo tempo surpreso. Não queria que o rapaz o encontrasse ali, daquela forma, naquele estado. E sem pensar muito, em um ato de desespero, segurou no braço de Solo, puxando-o rapidamente para dentro da casa.

Heero ao passar pela parte dos fundos da casa, pode apenas visualizar, um rapaz de estatura média, loiro, empurrando uma cadeira de rodas. Não sabia dizer se era homem ou mulher, jovem ou uma pessoa de idade. Provavelmente deveria ser uma pessoa de idade, que estava sendo recolhida pelo rapaz.

Seus olhos logo se voltaram para o local onde vira o seu anjo pela primeira e até então única vez. Não poderia ficar ali parado, quem sabe outra hora, ou outro dia voltaria e ficaria ali até conseguir vê-lo novamente. Apertou o passo, queria chegar logo em casa.

Caminhando as pressas não notou que estava sendo observado por dois pares de olhos exóticos.

-o-

"Heero, onde você estava até a esta hora?".

Mesmo tentando entrar em casa fazendo o máximo de silêncio possível, andando pé ante pé, olhando para todos os prováveis cantos, fora pego. E agora teria que escutar as reclamações de Karin sobre o seu descuido com a sua saúde e outros.

Se não tivesse deixado um dos pincéis, que se encontrava em seu bolso, cair fazendo um mínimo de barulho, poderia ter se trancado no quarto e se preparado melhor. Agora estava ali, parado em frente à robusta senhora que lhe olhava severamente.

"Estava lá fora pintando mais uma de minhas telas".

Era a verdade. Realmente estava.

"Mas você não se alimentou esse tempo todo Heero! Assim você vai acabar ficando doente e depois eu que serei responsabilizada por isso".

Havia se esquecido desse pequeno, mas importante detalhe: Karin e Nanako além de seus serviços habituais, tomavam conta dele. Como se ainda fosse necessário ter alguém tomando conta de si.

"Comi uma maçã, Karin".

Heero só viu a cabeça de Karin balançando de um lado ao outro em negativa antes de sua voz ser ouvida mais uma vez.

"E maçã alimenta? Isso apenas engana a fome. Ande, venha comigo, lague essa bolsa ai e venha já para a cozinha que te farei comer algo que realmente alimenta".

Falou decidida segurando em um dos pulsos de Heero, puxando-o mesmo sobre protestos.

"Mas Karin, eu tenho que tomar banho, estou sujo".

"Coma primeiro, tome banho depois. Senão você me enrola e mais uma vez escapa. Preparei um nikujaga. É só esperar esquentar e pronto".

Heero não via outra saída a não ser acompanhar Karin.

-o-

"Maninho, porque você fugiu?". Solo estava com o rosto infantil muito sério. Na oportunidade de seu irmão se encontrar com o outro rapaz, ele foge?

"Você não entende, Solo. Ele não deve me ver". Falava para o irmão, enquanto seus olhos agora acompanhavam cada movimento feito pelo fisioterapeuta.

Solo soltou um pequeno suspiro. Seu irmão sempre foi teimoso, isso pelo visto nunca iria mudar. Quando eram pequenos, ele o comparava às vezes com uma mula.

"Duo, o que eu não entendo, é porque você não quer que ele te veja".

"Solo, como vou deixar alguém se aproximar, se nem ao menos eu sei o que sou, não posso nem me chamar de fantasma, Solo. Nunca teve alguém que pudesse me ver ou me escutar... Quatre não conta". Falou rápido notando que o menor estava quase apontando para o loiro próximo à mesa de massagem. "Como você acha que me sinto sabendo que posso ser visto e ouvido por alguém?".

"Feliz?". Foi a resposta curta e simples de Solo.

"Assustado! Profundamente assustado, Solo". Duo se moveu até onde seu corpo estava deitado e voltou a falar... "O que ele vê agora é diferente do que realmente existe. Meu corpo está preso em uma cama e meu espírito...".

"Eu já lhe disse que você está assim porque quer, maninho. Você que colocou isto nessa sua cabeça oca".

"Não sei, Solo...".

"Tente pelo menos, maninho... Tente por mim, onegai!".

"O clima continua levemente tenso por aqui, não é mesmo Duo?".

"Eu ainda vou descobrir como ele consegue fazer isso...". Duo comentou olhando para Quatre que agora fazia movimentos circulares com seu pé direito.

Solo soltou um pequeno sorriso com o que seu irmão acabara de dizer, e se colocou ao lado do fisioterapeuta, que tão logo sentiu a presença perto de si, olhou para o lado, na direção de Solo, e deixou um sorriso aparecer em seu rosto.

-o-

Heero já se encontrava a um tempo sentado em sua cama, com a toalha ainda por sobre os ombros e o olhar fixo no esboço de nova tela no cavalete a sua frente.

Tinha se decidido, durante o almoço tardio e o banho, que sairia para buscar alguma informação. Infelizmente teria que usar tato para isso, porque chegar abordando um dos moradores e ser direto, poderia ser visto como falta de educação. Se bem que ser educado ou não pouco lhe importava...

Após os momentos de total inércia, se levantou e depositou a toalha sobre a cadeira da escrivaninha. Rapidamente pegou alguns lápis e seu bloco e caminhou para fora do quarto com um pequeno plano em mente.

"Vai sair meu jovem?".

Heero parou o trajeto já no final da escada ao escutar a voz de Nanako.

"Vou dar uma volta Nanako-san, fazer umas pesquisas...".

"Não volte muito tarde. De preferência, retorne para o jantar".

"Não pretendo jantar tão cedo, Nanako-san... Mal acabei de almoçar, Karin-san me fez o favor de me deixar cheio".

"Ela se preocupa com sua saúde...".

"Eu sei, eu sei... De qualquer maneira, diga a Karin-san que não irei retornar cedo, mas que deixe algo pronto na mesa, sim?".

"Como desejar".

Tão logo terminou de falar, Heero apressou-se para a porta de entrada, dispensando os chinelos e colocando os tênis rapidamente. Não queria perder mais tempo.

Caminhando lentamente pela rua que o levaria até o pequeno parque, Heero pode observar atentamente as casas locais e suas arquiteturas. Era incrível que como nos dias de hoje, o tempo naquele espaço parecia ter congelado.

As casas eram de um estilo tradicional, claro que se podia ver a tecnologia empregada discretamente em pequenos alarmes contra roubos, carros importados, e fios de eletricidade, mas nada disto parecia tirar a harmonia do cenário.

Chegando ao pequeno parque, que na verdade era uma praça muito bem cuidada e repleta de flores, árvores e um pequeno lago artificial, deixou seus olhos vagarem em busca de seu objetivo. Alguém que poderia lhe contar sobre o lago e quem sabe sobre o pequeno menino.

A sua frente pode visualizar dois senhores de idade avançada, sentados em seus banquinhos disputando algum tipo de jogo. Decidiu que tentaria se aproximar deles, o problema seria como exatamente.

Chegando bem perto pode escutar a conversa que era travada entre os dois...

"Você não poderia ter feito um Keima aqui, Sakamoto-san?"

"Por quê? Se eu respondesse seu Keima com um Kosumi, o preto ganharia forças no centro".

"Mas se o preto jogasse no canto, as pedras brancas estariam encrencadas".

"Você acha? Acho que não tem problema pular um cruzamento para o centro".

"Verdade. Mas você cortou toda a minha formação aqui e foi tudo por água abaixo".

"Ora, deixe de ser um velho rabugento, Tachibana-san. Depois de todos esses anos jogando comigo ainda não se conforma em perder... E ainda analisamos cada jogo no final...". Sorriu para o companheiro de jogo e acabou notando a presença do rapaz ao seu lado olhando para tabuleiro. "Olha, temos um espectador... Quer jogar meu jovem?".

Heero segurou um sorriso discreto ao notar a carranca de desagrado do outro senhor por ter perdido a partida.

"Não senhor, só estava observado".

"Uma pena, seria interessante disputar uma partida com alguém jovem. Quem sabe seria um desafio, não...". Implicou descaradamente com o outro.

"Os senhores moram por aqui há muito tempo?".

"Tem tanto tempo que nem consigo me lembrar corretamente com qual idade. Porque meu jovem, você é novo por aqui?".

"Sim, me mudei recentemente...". Pensava que teria que ter toda a paciência do mundo e ser receptivo para conseguir as informações... "É que... Bem, eu sou pintor e estou fascinado com o local, e gostaria de saber a história daqui e principalmente do lago. Minha casa fica bem próxima às margens".

"Humm... Você pinta é? Pintor, pintor como os clássicos ou esses novos grupos de desenhistas que fazem essas revistinhas para jovens?".

"Tachibana-san, isso lá é pergunta que se faça?".

"Sakamoto-san, só fiquei curioso. A juventude de hoje só se interessa por esse tipo de arte, são poucos que gostam do estilo clássico".

"Bem, meu jovem, qual seu estilo? Se não responder, Tachibana-san pode ter um infarto, e velho enfartando é um passo para sepultamento".

"Clássico". Respondeu se sentindo constrangido.

"Um rapaz culto? Sente-se conosco meu jovem, iremos te contar algumas histórias boas e outras não tão boas assim, e algumas assustadoras...". Sakamoto rapidamente ofereceu lugar para que Heero se juntasse a eles...

Já estavam a mais de uma hora e meia ali conversando, era incrível como pessoas de idade podiam falar tanto sobre o passado sem se cansarem. Daquela conversa Heero pode ficar sabendo até mesmo que o dente de leite de Satome Eriko, uma das crianças do local, tinha acabado de cair.

"Ah Sakamoto-san, fale para o jovem Yuy sobre os meninos da família Takahashi".

"Verdade, aquilo foi realmente trágico...".

Heero olhou para o rosto de ambos.

"Vocês podem me contar o que aconteceu?".

"Claro, claro... Yoshiro Takahashi se casou com uma linda mulher estrangeira, americana, e teve dois filhos. As crianças não eram dele, mas ele as tratava como se fossem filhos de sangue".

"Tudo começou a mudar quando Yoshiro perdeu um dos meninos". Comentou Tachibana.

"É, o pequeno Solo. Um dos gêmeos. Uma criança esperta, ativa demais...".

A mente de Heero começou a trabalhar ao escutar aquele relato... 'Gêmeos... Por isso aquelas palavras... '.

"Todos aqui conheciam os jovens Takahashi. Enquanto um era calmo o outro era agitado, mas igualmente eram crianças carinhosas".

"E o que aconteceu exatamente?". Heero estava curioso.

"Por causa de sua agitação, o pequeno Solo acabou se afogando no lago. Antigamente o lago possuía em suas margens alguns barcos, o pequeno entrou em um e acabou caindo".

"Não tinha ninguém para resgatá-lo?". Heero se sentiu agoniado somente em imaginar.

"Apenas o irmão gêmeo, mas ele também não sabia nadar e não pode salvar o irmão. Quando Yoshiro chegou ao local e retirou o corpo do filho de dentro da água, já era tarde demais...".

Heero começou a entender a situação, mas esse 'entendimento' só lhe fez sentir um arrepio pelo corpo. O menino que ele via, era na verdade um... espírito.

"E o outro menino?". Questionou ao sair de seus pensamentos.

"Duo sofreu muito, chorou demais se achando culpado por não poder salvar o irmão, mas o pior foi que Yoshiro acabou colocando a culpa em cima do pequeno. Foram tempos difíceis aquele para o menino".

"O nome do outro irmão era Duo?". Seu rosto assumiu um olhar curioso. Pela linha de raciocínio que estava seguindo.

"Sim, sim...".

"E o que aconteceu com ele? O pai não poderia culpá-lo por um acidente assim. Ele era apenas uma criança!".

"Yoshiro pouco olhava para ele, já que acabava sempre se lembrando de Solo, era notável a preferência que Yoshiro tinha pelo pequeno que falecera... Alguns anos depois, quando o jovem Duo faria sua primeira apresentação no kabuki aos seus 11 anos, mais uma desgraça aconteceu...".

"Até hoje ainda lembro dos gritos de Helen-san, a mãe dos meninos". Comentou Tachibana pesaroso.

"Realmente Tachibana, é difícil de esquecer...". Voltou os olhos para Heero notando que este estava visivelmente interessado no desfecho. "O que aconteceu meu jovem Yuy, foi que na noite anterior a estréia do pequeno no teatro, Yoshiro retornou da rua bêbado. Pelo que me foi contado depois, Duo estava experimentando o kimono da apresentação, Yoshiro bêbado entrou em casa e acabou brigando com a esposa agredindo-a, o pequeno viu a cena de agressão e tentou ajudar a mãe, mas foi seu erro...". Parou o relato e olhou para o céu que já estava escuro.

"Sakamoto-san, o que aconteceu, diga-me, por favor!". Algo dentro de Heero se comprimia.

"O que aconteceu meu jovem... nunca poderei me esquecer". Suspirou pesarosamente. "Eu não pude fazer nada até chegar onde Yoshiro estava, e na época eu estava com uma das pernas imobilizada, não tinha como correr. Eu estava a alguns metros do local, próximo as margens do lago, mas distante da residência deles. Fiquei aterrorizado com os gritos e com as atitudes dele para com a criança. Ele puxava o menino pelos cabelos longos, gritava dizendo que ele era a vergonha da família por se parecer com uma menina, disse aos berros que teria sido melhor que ele tivesse morrido ao invés de Solo, e a atitude mais impensada dele, a pior de toda aquela atrocidade, foi ele tentando afogar o filho, empurrando o pequeno corpo de encontro a água, segurando-o pelo pescoço...". Fechou os olhos sentindo-se triste ao se lembrar da cena.

Os olhos de Heero se arregalaram ao imaginar o que lhe fora dito.

"Tentei andar o mais rápido que conseguia, queria evitar que ele matasse o menino, assisti enquanto me aproximava a luta do pequeno contra a força do pai. Vi Helen-san andando machucada até os dois a beira do lago e gritar pela vida do filho. Uma visão horrível... Horrível! Mas quando estava chegando perto, Yoshiro largou o corpo do menino, olhando-o aterrorizado, e Duo estava amolecido, parecia sem vida, nos braços de Helen...".

Heero engoliu em seco sentindo um aperto em seu peito. Era muita informação, uma história muito triste. Provavelmente a tristeza que via nos olhos de seu anjo, que agora sabia ter um nome, vinha deste passado tão trágico. E pelo andar da carruagem, seu anjo, Duo... estava morto.

"E o que aconteceu depois? Ninguém o prendeu por matar o segundo filho? Ele tem que responder pelos atos dele". Uma revolta se instalava em seu interior.

"Meu jovem... de alguma forma a justiça foi feita naquela noite". Comentou soltando um longo suspiro. "O jovem Duo foi levado para o hospital às pressas, eu e Tachibana-san logo que conseguimos chegar, corremos com o corpo enfraquecido do pequeno. Quanto a Yoshiro... enquanto Helen-san e Duo estavam no hospital, ele acabou tirando a própria vida com uma de suas katanas. Provavelmente estava envergonhado de seus atos".

"Covarde". Comentou com certa raiva contida.

"Covardia ou não, concordamos que foi merecido. Mas o ato de harakiri, não foi honroso".

Heero não queria saber do pai de seu anjo. Ele desejava saber o que aconteceu depois. Se seu anjo fora levado para o hospital, então ele se encontrava vivo. A imagem que ele viu sentado no lago, não era de um morto, um fantasma, como havia imaginado há minutos atrás...

Quando pensou em fazer mais uma pergunta para saber do rapaz, seus olhos divisaram atrás de Tachibana a imagem do pequeno Solo. Um arrepio lhe percorreu o corpo diante da plena noção que ele era sem dúvidas um... fantasma.

Heero mais uma vez engoliu em seco. Solo lhe sorria matreiro, o kinomo azul parecia se movimentar com uma brisa que não estava sentindo no local. Seus olhos seguiram o menino, parecia que este estava lhe chamando, e mesmo sabendo agora o que Solo era exatamente, já que pelo visto só ele estava vendo o menino ali, se viu se levantando...

"Ora meu jovem, já vai?". Sakamoto perguntou quando viu Heero se levantar. "Não quer saber de outras histórias?".

"Desculpe-me Sakamoto-san, Tachibana-san, mas me lembrei que meus pais há essa hora já devem estar em casa para o jantar. E se não aparecer...". Seus olhos não se desgrudavam nem por um segundo da figura de Solo, que parecia saltitar como uma criança normal, lhe olhando como se estivesse esperando para uma brincadeira de pique-pega. Tinha que dar uma desculpa qualquer para seguir o menino.

"Claro meu jovem, melhor mesmo você ir. Quando desejar conversar mais com dois velhos resmungões, ou jogar Go conosco, é só aparecer".

"Sim, aparecerei. Obrigado". Despediu-se e caminhando a passos largos, seguia a figura de Solo.

O riso de Solo durante tudo o caminho arrepiava os pêlos de Heero. Era incrível que somente ele conseguisse ver aquela criança. Nunca fora ligado à religião, nunca pensou em ver fantasmas. Também, se algum dia chegou a ver, não saberia distingui-los, e Solo era prova disto. Se não tivesse escutado a história...

Notou que estavam se aproximando do lago. O caminho usado foi por uma pequena rua entre duas casas próximas a sua, um caminho que não isolava o lago dos demais moradores do local.

Solo parecia andar despreocupado. Em sua cabecinha, estava feliz por ter conseguido convencer o irmão a pelo menos a encontrar o 'menino de cara fechada'.

"Vem, vem...". Gesticulou antes de desaparecer em meio aos arbustos, deixando Heero para trás.

"Espera!". Foi inevitável. Quem o visse diria que estava maluco, falando com o nada.

Heero se embrenhou pelos arbustos, seguindo o caminho que Solo tinha ido, pelo menos estava escutando uma risada bem baixa na direção que ia.

Quando conseguiu sair do meio das plantas, ainda retirando algumas folhas que grudaram em suas roupas e cabelos, pode avistar no mesmo local de antes, seu anjo, Duo. E ao lado dele, Solo.

Os olhos de Heero se alargaram diante da visão. Como antes, ele estava lindo, a perfeita imagem para uma pintura.

"Lindo...". Sussurrou, mais para si mesmo do que para os demais.

Infelizmente, ou felizmente, tanto Solo quanto Duo acabaram por escutar. As reações foram diferentes para cada um. Enquanto Solo abria mais ainda o sorriso, Duo que já tinha sentido a presença de Heero, mas não tinha se virado para olhá-lo, acabou voltando o corpo na direção do japonês.

Seus olhos violetas, fitavam entre vergonha e desconcerto pelo elogio, o intenso olhar de admiração de Heero.

Continua...


Notas do capítulo:

Nikujaga (Cozido à Moda Japonesa ) Trata-se de um cozido tradicional dos tempos da 'vovó'. O segredo é o preparo antecipado para que os legumes possam absorver bem o tempero, bastando apenas requentar para servir.
Retirado do: Site Cozinha Japonesa / Fonte: Revista Nihon Ryoori

Keima e Kosumi, jogadas de Go. Este trecho foi retirado de uma partida entre Touya Akira (lindo em versão Kamus chibi(pelo menos eu acho)) e um de seus senseis da 8ªsérie. Hikaru no Go - Episódio 66. Maiores informações sobre Go, acesse: Wikipédia(dot)org

Agradecimentos:

Primeiramente tenho que agradecer a Blanxe, que ficou me cobrando insistentemente, literalmente me atazanando, e sendo cobaia do capítulo para que este saísse logo. Esse capítulo já estava a meio caminho andado a um século... Affee. ThankU Blanxuda. Depois te pego como cobaia das outras, ok?

Quero agradecer também a quem comentou e esperou pacientemente para que este capítulo saísse e que o meu empacamento terminasse...

Kiara Salkys (que me cutucou hoj mesmo sobre a atualização XD),L'Arcan (tanto Heero quanto Duo, tem aproximadamente 17/18anos por ai), MaiMai, Mady Richellier, Bellonishi, Evil Kitsune (momy que raramente lê e comenta), Ophiuchus no Shaina e Laila-chan. Caso não tenha citado algum outro nome, peço desculpas, é que na hora de agradecer sigo os nomes de quem deixa comentários, ou comentam comigo por MSN. De qualquer forma, agradeço até mesmo aos 'escondidos' que lêem a fic, mas não deixam comentário algum.

Demorei, e estou postando antes que a fic faça um ano de parada O.O Zeus! Que vergonha... Enfim, quem gostou deixa um comentário, eu agradeço e Heero e Duo também, afinal, vocês estão curiosos em saber o que vai acontecer certo? Comentem que eu me ânimo e escrevo mais rápido.

Bjinss

Litha-chan

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