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Disclaimer: Os personagens não são meus… apenas Pietro Richellier
Pairing: Acho que os de sempre… sei lá… deixa a história rolar.
Beta: Likaah
Se eu viesse chorando algumas semanas depois
E dissesse que interpretei mal meus sentimentos
Que isso não era mesmo para ter acontecido…
Wufei e Heero esperavam há mais de uma hora na recepção do hospital que algum médico ou enfermeira aparecesse para dar alguma notícia sobre Duo. O que tinha acontecido continuava recente em suas mentes, intenso para ambos de diferentes maneiras.
Após Duo perder a consciência, não tinham perdido tempo em chamar uma ambulância e a polícia. Até então, aquele não era um assunto que dizia respeito aos Preventers e fazer com que se intrometessem com certeza levaria problemas à Comandante Une, mas fizeram questão de internar Duo sob os cuidados de Sally. Não sabiam o que estava acontecendo com o americano, mas ele definitivamente não estava bem. Tinham dado à polícia breves explicações, prometendo maiores esclarecimentos num depoimento depois, aproveitando de suas posições como Preventers para burlar o procedimento de praxe que seria ir diretamente fazer um boletim de ocorrência. Eles queriam primeiro ter certeza de que Duo estava bem.
Heero continuava compenetrado em seus pensamentos e Wufei poderia dizer, quase com certeza, que ele estava tentando decifrar algo que não tinha lhe contado ainda. Mas o chinês não estava interessado no momento em interrogar o parceiro sobre o que tanto ele pensava; sua preocupação com Duo sobrepujava qualquer outra coisa e parecia querer comê-lo vivo, devido à demora e falta de informações que tinham. A lembrança do americano em seus braços, pálido e perdendo os sentidos logo depois de ter lhe dito aquelas palavras, o angustiavam. Apesar de ser tudo o que mais queria escutar, naquele momento, a confissão o fez temer. Havia estranhamente soado como um desabafo de alguém que estava se despedindo.
Ambos se levantaram quando viram Quatre vindo de um dos corredores, ajudando Trowa a firmar-se para andar. O que ficaram sabendo que acontecera naquela confusão toda foi que em meio à tentativa de fuga eles se separaram e Trowa acabou sendo baleado em uma das pernas.
- Foi apenas superficial. – Quatre os tranqüilizou – O meu também, Wufei. – disse, antes que o amigo chinês perguntasse sobre seu braço que também fora ferido.
Percebendo os semblantes ainda preocupados dos orientais, Trowa perguntou:
- Alguma noticia sobre Duo?
- Nada ainda. – Wufei confirmou chateado. – Eu sabia que tinha algo de errado com ele.
Heero passara àquela hora ali no hospital, relembrando dos acontecimentos, da forma como Duo lhe pedira para soltá-lo e ir atrás do disco, o jeito como ele parecia dar mais valor àquele objeto do que à própria vida, mesmo que ali contivesse informações que poderiam trazer problemas se usadas de forma errada; e o que mais o agoniava era recordar de como Duo lhe dissera que iria morrer de qualquer jeito. Ele pensava e repensava sobre aquele momento, sobre aquelas palavras, e estava com medo de aonde suas deduções mais simples o levariam. Não comentava seus receios, para não criar pânico em seus amigos, antes que fosse realmente confirmado; mesmo tendo praticamente certeza do que se passava com Duo.
- Eu não entendo. – comentou Quatre ajudando Trowa a se sentar em um dos bancos. – Ele estava bem antes… como de repente tem um colapso assim?
Quatre estava preocupado e intrigado. Assim como Wufei, ele notara antes de entrar na fábrica que Duo não parecia bem, mas não esperava que fosse algo grave, pois a demora em se ter notícias o levava a pensar de tal maneira. Algo havia afetado seu amigo mais do que eles poderiam compreender.
- Ele não estava bem, Winner. – Wufei corrigiu. – Eu avisei isso anteriormente.
- Ele não está bem mesmo e isso já tem algum tempo. – a voz de Sally chamou atenção dos quatro que se voltaram imediatamente para a médica.
Wufei se adiantou e perguntou ansioso:
- O que ele tem afinal?
Sally suspirou e olhou para cada um deles.
- Nós não temos certeza ainda, mas parece que é um…
- Vírus. – Heero completou.
Sally franziu o cenho e, junto com os outros, olhou para o japonês, que ainda parecia refletir sobre o que falara.
- O que vocês estão sabendo da condição de Duo e estão omitindo? – Sally perguntou quase de forma severa.
Heero hesitou em falar, e Trowa deduziu o que tinha conseguido entender e o que viera a desconfiar também.
- Duo fazia parte daquela pesquisa que tinha no disco. Se ele era a base para a pesquisa, não seria de se admirar que estivesse mais envolvido do que poderia.
Quatre e Wufei caíram em si do que ambos, Heero e Trowa, já tinham se dado conta.
- Eu não estou entendendo nada. – Sally confessou, olhando confusa para os quatro. – Não faço idéia o que vocês sabem sobre o que está acontecendo, mas Duo está doente e não é pouco doente, não.
Heero então se pronunciou, tentando esclarecer o pouco que sabia e tinha deduzido.
- Acreditamos que ele tem um vírus, para ser mais exato uma mutação do vírus que quase dizimou a população de L2. Parece que essa mutação não é contagiosa, mas para quem a porta é fatal.
Sally estreitou os olhos e questionou:
- Mas como ele tem esse vírus, se já foi erradicado há tanto tempo?
- Pelo que entendi, ele sempre teve o vírus encubado, inativo, mas parece que fizeram uma experiência para reativá-lo no sistema de Duo. Assim foi conseguida essa mutação.
- Duo não consegue mesmo ficar longe de confusão.– ela lamentou. – Já que vocês sabem tanto, descobriram onde conseguir um anti-vírus?
Pelo semblante deles ela pôde ver que havia uma falha grande naquela história toda sobre o vírus.
- Tudo bem, eu vou fazer o possível nos laboratórios, mas mesmo que o estado dele já não fosse tão crítico assim, não poderia garantir qualquer resultado para vocês.
- Nós podemos vê-lo? – Wufei se adiantou em perguntar.
Sally olhou em simpatia para os quatro e assentiu com a cabeça.
- Venham. É provável que ele acorde e vocês possam conversar.
Wufei queria que isso fosse mesmo possível, mas queria além de tudo poder conversar a sós com o americano, mas temia que isso não fosse conseguir, já que Heero sempre marcaria suas intenções. Tinha ainda a esperança de que se Duo pudesse esclarecer as coisas para eles, quem sabe não conseguissem um jeito de reverter a situação, até mesmo de reaver o disco que ele tanto queria manter longe daquelas pessoas.
Tudo o que mais importava agora era ver Duo bem de novo, qualquer que fosse o custo para alcançar isso.
Eles entraram no quarto apenas para ver a figura de Duo como se estivesse adormecida no leito. Ele parecia ter um pouco de dificuldade para respirar, vendo pela intensidade que seu peito se movia rápido e em longas puxadas de ar. Tanto Heero quanto Wufei queriam se aproximar, mas hesitaram. Ultrapassar barreiras ali não seria apropriado.
Quatre, por sua vez, fez pelos amigos o que eles temiam fazer. Aproximou-se e pegou na mão do americano, sentindo o quão quente estava. Duo doente era um quadro que não se estabelecia em sua mente.
- Ele vai morrer, sem que façamos nada? – o loiro indagou para os amigos, esperando que alguém tivesse a solução para aquele problema, uma vez que ele ainda não a tinha conseguido encontrar.
Era uma pergunta que a princípio não teria resposta, mas a questão ficou ecoando na mente de todos, principalmente na de Wufei.
"Sem fazer nada..."
Ele deixaria que Duo escapulisse de sua vida, mais uma vez, sem que fizesse nada? Não era aceitável. Não permitiria. Deveria existir uma saída e ele não se chamaria Wufei Chang se não a encontrasse.
- O melhor a fazerem é ir para casa e descansar. Heero e Trowa devem ter repouso. – Sally recomendou. – Eu sei que o organismo de vocês é mais resistente, mas não deixam de ser humanos. – deu uma olhada para Duo na cama como exemplo, sem nada comentar. – Eu vou tentar ver com o centro de análises se há algum modo de ajudar o Duo.
Wufei olhou para Heero e percebeu o silêncio. Ele finalmente reparava na falta de palavras do japonês. Não que este fosse comunicativo ou coisa assim, mas desde que haviam deixado o prédio da fábrica, Heero estava quieto demais.
Percebendo que Wufei e até mesmo Heero precisavam de um tempo a sós, Quatre foi até Trowa e meneou a cabeça para que saíssem.
- Vamos esperar lá fora.
Wufei assentiu com a cabeça, enquanto Quatre ajudava Trowa a deixar o quarto. Logo voltou a fitar o japonês e quis saber o que ainda o perturbava tanto.
- Você está bem, Yui?
Heero deu de ombros e na mesma voz sem emoção, respondeu:
- Se eu disser que não, faz diferença?
Wufei sabia que havia um desânimo em Heero que nunca vira e, por isso, ainda quis contornar aquilo.
- Não podemos desistir, Yui. Não depois de tudo.
Heero se aproximou do leito, com o semblante frio, mas seus olhos demonstravam um misto de ternura e tristeza. Não era só o fato de Duo estar doente que o incomodava. Ele levou os dedos a traçarem levemente alguns contornos do rosto de Duo e finalmente falou:
- Ele disse que te ama.
Wufei esqueceu naquele instante os ciúmes que sentia e ficou um pouco incomodado com o jeito que Heero parecia estar entregando os pontos... Desistindo de Duo.
Mas não era algo bom que o japonês desistisse de lutar pelo amor do americano? Então por que se sentia mal com isso?
- Ele não estava bem, Yui. – falou, buscando contornar a situação, mesmo que ambos soubessem que não havia como reverter o que Duo havia confessado.
- Ele sempre te amou, Chang… desde as guerras. – Heero confessou, sentindo uma dor incrível por fazê-lo. - Ele só me procurou porque você sempre fazia questão de afastá-lo.
A revelação pegou Wufei mais do que de surpresa. Duo já gostava dele na época das guerras, quando ele se afastava para não demonstrar seus próprios sentimentos pelo americano? Duo o amava naquela época, e ele nunca percebera?
- Mas como? Ele sempre foi louco por você.
- No começo não… No começo era você quem ele queria e como você se mostrou alheio, eu me aproveitei.
- E ele se apaixonou por você. Yui, ele foi embora porque era tão louco por você que não agüentou o fora que você deu nele. E quando voltou, não viu como ele ficava na defensiva? – Wufei ainda não entendia o porquê de estar querendo convencer Heero de que Duo não sentia tanto assim por ele como sentia pelo japonês.
- Quando ele voltou, eu pensei que talvez pudesse ter outra chance e me redimir.
Algo dentro de si tinha medo de seguir adiante com aquela conversa, mas uma outra parte ainda precisava saber com toda sinceridade quais era os verdadeiros sentimentos de Heero.
- Você o ama mesmo, Yui? – Wufei perguntou num tom receoso.
Heero hesitou. Por um instante ponderou se deveria expor tanto para aquele que deveria ser seu rival, mas no fim, acabou cedendo.
- Não sei se isso é bom ou ruim agora, mas é o que sinto.
Heero sentiu o toque. A mão de Duo se fechara levemente sobre a sua e assim o japonês fitou imediatamente assustado o semblante do americano.
- Seria bom escutar isso em outras circunstâncias. – confessou com a voz fraca.
Heero sentiu o peito se encher de um sentimento quente, mas não sabia se era por ver mais uma vez Duo acordado ou pelas palavras que o mesmo lhe confessara.
- Duo… - Wufei chamou, vendo os olhos ametistas se voltarem brevemente para si.
Duo pensou que nunca mais abriria os olhos para poder ver aqueles dois novamente e estava parcialmente contente por poder ter a chance de se desculpar e explicar tudo.
- Eu sinto muito ter feito vocês passarem por isso tudo. – começou, mas foi logo interrompido pelo chinês.
- Duo, não é momento pra isso. – Wufei fez um critica amena e se aproximou, se colocando ao lado de Heero. - Você tem que descansar.
Duo olhou para Wufei e sentiu seu coração bater mais forte por estar encarando os olhos ônix do oriental.
- Eu quero falar. Eu preciso, Fei. Aquele disco… Vocês precisam recuperá-lo.
Foi a vez de Heero cortá-lo. Não precisavam daquela ladainha naquele momento.
- Nós vamos e conseguiremos um antivírus pra você.
- Esqueçam! – Duo disse com determinação e a voz mais forte. - Não tem nada desenvolvido naquele disco. Quem poderia me ajudar está morto.
Wufei franziu o cenho considerando as palavras do americano e num misto de verdadeira preocupação e curiosidade, questionou:
- Como você se envolveu nisso tudo, Duo?
Duo respirou fundo. Tinha chegado o momento de contar sobre tudo o que estava carregando junto com a doença e aquele disco que agora se encontrava nas mãos de Pietro.
- Eu comecei a trabalhar na parte tecnológica da Suply, na Espanha, há algum tempo. Foi lá que conheci Pietro. Fiquei sabendo da pesquisa que eles faziam nos laboratórios e quis ajudar. – fez uma breve pausa, desviando o olhar para o teto como se quisesse fugir do peso que era contar a verdade para Heero e Wufei. - A princípio era para auxiliar no desenvolvimento de uma cura definitiva contra o vírus que quase acabou com L2, mas depois… – as lembranças pareciam vívidas em sua memória; isso o atingia mais do que gostaria. - Depois que o Dr. Marshall me entregou o disco eu fiquei sabendo que não era para isso. Que eu estava sendo usado para a criação de um vírus ainda mais perigoso do que aquele. Eu tinha esperança de chegar até o parceiro de Marshall em Kioto. Pelo que eu sabia, eles tinham um antivírus em teste que poderia talvez deter esse que sofreu mutação em mim. – respirou fundo mais uma vez e voltou a encarar os dois homens que faziam com que sentisse coisas que jamais sentira por outra pessoa. Com uma expressão penalizada e os olhos violetas numa súplica para que fosse entendido, tentou finalizar: - Eu não queria ter trazido problemas pra vocês. Pensei que com a morte de Marshall, eles não suspeitariam de mim, mas Pietro se encarregou de matar o outro cientista responsável pelo projeto e que poderia me ajudar. Eu… só que queria ver vocês se por acaso não conseguisse…
Foi surpreendido pelo corpo de Wufei sobre o seu, num abraço que o fez se sentir a ponto de chorar. Não queria ter que se afastar do chinês justamente quando descobrira que tinha uma chance com ele. Não queria que tudo terminasse daquela forma. Retribuiu o ato, envolvendo-o com um dos braços e apertou a mão de Heero que ainda matinha na sua, num gesto de carinho.
- Você vai sair disso, Duo. – sussurrou Wufei, entre os fios de cabelo castanhos que haviam escapado da trança e agora descansavam sobre a orelha do americano. - Nós não vamos deixar que nada aconteça.
- O disco é prioridade. – Duo não quis discutir. Tinha certeza de que não sairia vivo daquilo.
- Quanto tempo, Duo? – Heero inquiriu, deixando um pouco de sua tensão se esvair quando viu o chinês desfazer o abraço e se afastar do corpo de Duo.
- Eu não sei. Nos objetos de teste normais, poucos dias depois do primeiro sintoma, mas eu carrego uma mutação; não tenho certeza se o processo seria o mesmo ou até mais rápido. – contou e, ao notar a dúvida no olhar de ambos, não se negou a responder. – O vírus que eu carrego não é transmissível. A própria equipe médica daqui teria me colocado em quarentena se tivessem essa desconfiança… Marshall explicou que não sabia como o vírus consegue se isolar dentro do corpo humano, mas que age apenas em seu hospedeiro… talvez por aos poucos ir atacando o sistema nervoso.
- Nós vamos encontrar um meio de reverter isso. – Wufei quis garantir.
Duo entendia que o chinês estivesse preocupado, mas queria que ele entendesse que sua vida era um preço mínimo a pagar em consideração ao que perderiam se aquele vírus fosse usado de maneira errada.
- Já disse que o disco tem que ser tirado das mãos de Pietro.
- Não se preocupe, Duo. – Heero assegurou. - Nós recuperaremos o disco.
Duo sorriu agradecido. O japonês, apesar de toda a preocupação e sentimentos conflitantes que guardava, sempre lhe acreditava e dava apoio em suas decisões. Apesar de tudo pelo que tinham passado, Heero mostrava-se mais sensato e companheiro do que nunca fora.
Viu Wufei fazer um meneio com a cabeça para que saíssem do quarto e Heero se despediu com um leve sorriso, soltando penosamente a mão de Duo da sua.
- Nós voltaremos para te ver. – garantiu Wufei, antes de fechar a porta e deixar Duo completamente sozinho.
- Adeus, Hee-chan… Fei…- se despediu, permitindo que algumas lágrimas lhe corressem a face.
Do lado de fora do hospital, Heero e Wufei se juntaram a Quatre e Trowa, para contarem como havia sido a conversa com Duo e tentar esquematizar algo para agirem contra o tempo.
- Como vamos fazer agora? – Quatre indagou, ajudando Trowa a se apoiar, enquanto os táxis que tinha chamado não chegavam.
Heero tinha o olhar determinado, mas que mirava o nada a sua frente, onde estavam parados em pé naquela calçada.
- Já avisei Une sobre a situação. – o japonês disse como se fosse algo rotineiro. – Ela enviou alguns agentes para ir atrás do tal Pietro e ele não vai conseguir deixar o país sem ser pego.
- Mas ele pode mandar um portador levar o disco para fora. Ou ate mesmo transferir os dados pela internet. – Trowa apontou.
Wufei concordou com a cabeça, vendo que Trowa tinha completa razão no que falava. Quanto aos dados que aquele disco continha, poderia já ser tarde demais. Só não poderiam permitir que fosse assim para Duo.
- Você tem razão, Barton. O grande problema foi deixar esse homem escapar com o disco.
Heero não deixou que aquilo lhe abalasse. Nada o impediria de salvar Duo.
- Nós faremos o que estiver ao nosso alcance. – desta vez virou o rosto para encarar cada um de seus amigos e mostrar o quão determinado estava. - Mesmo que tenhamos como prioridade apenas encontrar esse Pietro para conseguirmos um antivírus pro Duo. – o barulho dos dois carros chegando fez com que os quatro olhassem para os táxis que estacionavam rente à calçada. - Agiremos melhor amanhã.
Quatre olhou para o amigo chinês e sabendo de sua situação, inclusive com Heero, resolveu oferecer:
- Wufei, seu apartamento está interditado, então se quiser pode ficar conosco...
O chinês olhou para Quatre demonstrando agradecimento, mas mantendo a seriedade em sua expressão.
- Obrigado, Winner, mas Heero já tinha me oferecido para ficar no apartamento dele.
Heero franziu o cenho, mas manteve-se calado enquanto Quatre, apesar de ter estranhado que o japonês tivesse oferecido guarida justamente para o chinês, apenas aceitou pensando que Heero poderia estar agindo focado em, primeiramente resolver o problema de Duo, deixando assim suas diferenças com Wufei de lado.
- Ótimo então. – o loiro disse, mostrando um pouco do cansaço em sua voz e ajudando Trowa a entrar no veículo. – Amanhã bem cedo pela manhã entraremos em contato.
Heero e Wufei ficaram parados ali em pé na calçada, vendo os amigos se ajeitarem e em seguida darem a direção para que o motorista seguisse. Assim que Quatre e Trowa se foram, Heero olhou atravessado para o chinês.
- Eu não te convidei para ficar comigo.
Wufei apenas lhe lançou um olhar de soslaio e replicou:
- E você pensou que eu deixaria você sozinho? Sei exatamente o que se passa por essa sua cabeça psicótica.
Heero contrafeito estreitou os olhos, mas começou a andar em direção ao outro carro que esperava.
- Não me atrapalhe.
Wufei elevou uma das sobrancelhas.
- Como se você precisasse da minha ajuda para isso. – rebateu desgostoso, seguindo o japonês para o carro.
Relena não havia acreditado quando Heero lhe telefonara àquela hora da noite pedindo-lhe que fosse imediatamente ao hospital dos Preventers para ficar de vigilância em ninguém menos que Duo Maxwell. E o pior, seu tom não era suplicante como quem pedia um favor à ex-mulher, e sim do Soldado Perfeito que estava lhe dando uma ordem a ser cumprida sem questionamentos. Estava ali não por uma ordem, disso tinha certeza, mas por estar preocupada com Duo, e principalmente porque sabia que se Heero estava lhe confiando ficar com o americano, era porque deveria estar muito apreensivo.
Ele não havia lhe explicado com detalhes o que acontecera com Duo, mas deixara passar o fato deste estar com um vírus mortal, precisando ser mantido no hospital até que conseguissem resolver algumas coisas. Esse era o real motivo de estar ali, depois de ter falado brevemente com Sally para pegar uma autorização e seguir para o quarto onde sua "missão" estaria, ou deveria estar convalescendo.
Mas para sua surpresa, ao abrir a porta deu-se diretamente com Duo, que terminava de amarrar as botas e já estava devidamente vestido com suas roupas normais.
- O que pensa que está fazendo? – ela indagou, surpreendendo o homem de trança que não tinha percebido sua entrada no quarto.
Duo não esperava que àquela hora, logo depois de uma enfermeira ter ido checá-lo, mais alguém pudesse pegá-lo quando estava se preparando para deixar o lugar sem ser percebido. E justamente Relena Peacecraft Yui. Deveria ter imaginado que Heero não confiaria nele sozinho deitado naquela cama de hospital, esperando o dia seguinte.
- Humm… - fez uma feição falsamente inocente. – Deixando o hospital?
Ainda perplexa, Relena encostou a porta atrás de si.
- Eu não acredito.
- Acredite, princesa, porque eu estou dando o fora. – confirmou terminando de calçar a outra bota, sentado numa das cadeiras que eram destinadas aos acompanhantes do quarto.
Relena balançou a cabeça negativamente. Heero estava certo em tê-la mandado para o hospital. Duo ostentava o rosto pálido e tremia um pouco ao buscar coordenação para amarrar os sapatos.
- Eu vou chamar a Sally agora mesmo. – garantiu, já dando meia volta para a porta. - Você não está em condições de deixar esse hospital.
Duo se adiantou e segurou Relena pelo braço, olhando-a diretamente nos olhos.
- Princesa, você é mais realista do que esses lunáticos dos meus amigos. Ficar parado aqui não vai adiantar nada. Eu estou condenado.
Heero não havia lhe dado certeza sobre o tal vírus que disse ter Duo contraído, mas via plenamente a verdade nas palavras do americano quando este afirmava que estava condenado. Via nos olhos ametistas um misto de tristeza, dor e determinação que a comoveu interiormente. Não poderia impedir Duo, mas também não queria deixá-lo sozinho.
- Então eu vou com você. – ela decidiu, vendo os olhos violetas se arregalarem em descrença.
- O quê?
- Isso mesmo. – afirmou, se desvencilhando da pegada de Duo e cruzando os braços como uma criança de pirraça. - Heero cumpriria a promessa de me matar se eu deixasse que você sumisse das minhas vistas.
Duo não tinha dúvidas de que Heero poderia bem ter ameaçado a mulher, sempre fora assim, mas ele nunca cumpria mesmo com aquele tipo de promessa, então não temia pela integridade física de Relena.
- Ora, o que é isso, princesa. Eu sou adulto, livre arbítrio, se lembra? Heero deveria estar mais preocupado em reestruturar o casamento de vocês.
Relena sentiu um pouco de mágoa na voz de Duo em relação ao casamento com Heero. Nunca poderia imaginar que um dia teria uma conversa daquelas com o americano, mesmo porque sempre morrera de ciúmes dele e da amizade e devoção exacerbada que tinha por Heero, mas agora… Agora queria muito que os dois pudessem se entender.
- Não há o que reestruturar, Duo. Somos adultos o suficiente para entender quando é hora de parar de se iludir.
Duo olhou com incerteza para a loira e deixou-se levar pelo assunto. O ressentimento em seu coração parecia buscar por aquilo.
- Mas ele te amava. – sua voz saiu um pouco tímida, completamente fora do seu usual.
- Não… - Relena contradisse com um sorriso de comiseração e afirmou: - Ele amava você.
Duo riu sardonicamente, enquanto se virava dando uns passos de distância da mulher, tentando assim não demonstrar que estava evitando olhá-la diretamente nos olhos. Sabia que se continuasse a encará-la, seria levado a ver quanta verdade eles transmitiam, e naquele momento… Ele apenas não queria ver.
- Isso sim é delirar, princesa.
Relena sorriu, notando o medo de Duo em encarar a realidade que ela lhe expunha e apenas se aproximou alguns passos, enquanto lhe dizia:
- Acredite, Duo. Heero e eu estávamos iludidos por um sentimento que pensávamos que era real, que nos completaria. Mas não foi assim.
Duo não conseguiu rir dessa vez, mas quando se pronunciou, não conteve o sarcasmo embutido em suas palavras.
- E agora vai querer me fazer acreditar que todos esses anos ele sempre me amou?
- Ele te ama. – ela afirmou, vendo o americano se retesar.
Duo ficou abalado por um sentimento que guardara em seu peito durante anos. Heero tinha lhe confessado naquela noite que o amava, mas queria manter a ilusão de que ainda era apenas mais um dos caprichos do japonês para não ter que sentir mais aquele apego.
- Eu gostaria de saber em que momento ele demonstrou isso, porque me dar o fora como ele fez, casar com você e em todos esses anos nunca ter se importado comigo, não é bem a visão que eu tenho de uma pessoa apaixonada. – virou-se para encarar novamente a mulher que lhe tirara a sua única fortaleza quando ainda eram adolescentes e não conseguiu sentir qualquer raiva ou rancor por ela.
- E o que você esperava de Heero? – Relena rebateu, achando-se idiota por estar explicando coisas que Duo já deveria ter entendido. - Ele só tinha 16 anos, estava confuso e tinha ideais que eram difíceis de serem quebrados. As prioridades dele nunca foram as mesmas que as suas ou as dos outros pilotos.
Duo ficou preso ao que Relena havia implicado, se perdendo um pouco nas lembranças de seu passado: em como procurara saciar sua necessidade do afeto que sentia por Wufei com Heero; de como se vira dependente e totalmente apaixonado pelo japonês que ao final lhe dispensara como se fosse algo com o qual se enjoa e não se quer mais brincar.
- Você ama Wufei, Duo? – a pergunta de Relena lhe trouxe a realidade. Uma realidade que fez um leve sorriso formar-se em seus lábios e não ter dúvidas em sua resposta.
- Sempre amei. – confirmou, expressando em seus olhos a paixão que tinha pelo chinês. - Reencontrá-lo e saber que talvez eu pudesse ter uma chance só trouxe tudo de volta e ainda mais forte.
Relena ficou pesarosa pela intensidade que via nos sentimentos de Duo em relação a Wufei, mas isso era triste porque Heero sofreria se o americano o rejeitasse para ficar com o chinês.
- E Heero? O que você sente por ele? – arriscou-se a questionar.
Pensar em Heero e naquela pergunta lhe trazia aquele calor insano ao coração. Era como se tivesse algo a resgatar com o japonês, algo que nunca fora capaz de abrir mão por mais que tivesse tentado arrancar de si. Tinha certeza de seus sentimentos por Wufei, então por que sentia aquilo quando pensava sobre seus sentimentos por Heero?
A voz de Relena o trouxe de volta daquele debate mental.
- Você não tem como dizer que não o ama, não é mesmo? – ela concluiu com uma ponta de alívio.
Duo não queria mais aquela conversa. Não estava se sentindo bem para prossegui-la, tanto mentalmente quanto fisicamente. O passado agora já não era importante. Seus sentimentos não eram importantes, principalmente pela confusão em que eles se apresentavam.
- Eu acho que esse não é o momento para ficarmos discutindo o que eu sinto ou deixo de sentir, não é?
- E eu acho que já é momento de você parar de fugir, Duo. Você foge desde a época em que se apaixonou por Wufei. E agora está fazendo o mesmo.
- Você não entende. – bufou, deixando-se recostar na beira da cama ao ver que Relena não o deixaria abandonar aquela conversa. - Se eu ficar, só vou fazê-los sofrer mais. Eu não quero que eles me vejam morrer.
Ela se aproximou mais, colocando a mão em seu ombro e ganhando um olhar desolado que chegou a lhe afligir momentaneamente.
- Você que não entende que pode confiar neles. Eles vão resolver essa situação. –garantiu confiante. – E sofrerão muito mais se você partir de novo.
Duo desviou o olhar.
- Eu não posso. Desculpe, Relena.
Ela respirou fundo e pegou em sua mão.
- Então vamos logo, Duo. Você até pode fugir, mas eu não vou deixá-lo sozinho.
Heero entrou em seu apartamento sentindo um peso muito grande sobre si. Tanto por tudo o que tinham passado aquela noite, como por já ter claro em sua mente que estava perdendo Duo para Wufei. Era um grande lamento que carregava em seu coração por ter noção de sua estupidez na época em que mandara Duo embora de sua vida, quando hoje poderia estar bem e feliz tendo-o só para si. Ele era única e exclusivamente seu, era devotado, mesmo já tendo antes amado o chinês.
Porém, agora tudo havia mudado drasticamente. Havia a grande mágoa que causara no americano e um Wufei finalmente disposto a assumir sentimentos que antes mascarara apenas por uma suposição. Como ele poderia competir com isso? Não teria seu Duo de volta mesmo que quisesse e admitir isso doía mais do que gostaria.
Olhou para Wufei e perguntou-se o que afinal fazia Duo sentir tanto por ele. Ele e Chang eram parceiros nos Preventers desde que tinham assumido como agentes de operações especiais e muitas foram as vezes em que parara para se perguntar o que poderia ter feito Duo se apaixonar por ele no passado. Wufei era o tipo de pessoa fechada e séria, mas que tinha um ego enorme e mania de tudo muito certo. O chinês tinha também seu senso de responsabilidade e gostava de ser auto-suficiente. Heero achava que tinha certos aspectos em comum com Chang, mas em outros eram completamente diferentes.
- No que está pensando, Yui?
Heero voltou de seus pensamentos e mentiu:
- Em ir pegar uma roupa limpa para lhe emprestar. – tirou a tipóia que sustentava seu braço, jogando-a em cima de uma das cadeiras vazias da sala. - Como aqui não tenho quarto de hóspedes, vai ter que se virar na sala mesmo.
- Eu te ajudo a pegar a roupa de cama. – Wufei se ofereceu, acompanhado o japonês até seu quarto. - Mas pode começar a me dizer o que realmente estava pensando, pois nessa eu não caio.
Heero franziu o cenho e parou antes de abrir a porta do armário de madeira de seu quarto, voltando-se para o chinês com uma expressão de questionamento.
- Desde quando começou a distinguir quando estou mentindo ou não?
- Anos de convivência, Yui. – Wufei respondeu dando levemente de ombros. - Não se esqueça disso.
- Então com seus "anos de convivência", já deve saber muito bem o que me incomoda. – Heero parecia enfrentá-lo com o olhar, querendo que Wufei entendesse muito bem seu desagrado.
- Eu suponho que sim e o aconselharia a esperar para conversar com Duo. – expôs com certeza em suas palavras. Seus desentendimentos agora se resumiam ao belo americano de olhos violetas.
- Conversar? – Heero indagou, estreitando desconfiado os olhos. - Por que está sendo tão complacente, Chang? Qual é o seu jogo que eu ainda não consegui entender?
Foi a vez de Wufei franzir o cenho querendo entender o porquê daquela acusação do japonês.
- Não há jogo nenhum. – respondeu, mantendo sua calma como podia. - Eu só acho que não estamos respeitando os sentimentos de quem mais deveria ser ouvido antes de tirarmos nossas conclusões possessivas.
- Ele já tirou as conclusões dele, não viu? Ele confessou que te ama! O que mais você quer como prova de que ele escolheu você?
Wufei ficou em silêncio absorvendo o impacto das palavras de Heero, para logo em seguida ser mais uma vez condenado pelo mesmo de maneira ácida.
- Você faz essa pose toda de centrado, mas no fundo deve estar se sentindo vitorioso por estar conseguindo tirá-lo de mim.
Wufei não gostou do tom com que Heero estava falando, tratando Duo como uma posse sua, como se quem estivesse por decidir a vida afetiva dele fossem apenas eles ali. Era uma afronta enorme Heero achar que tinha exclusividade naquele sentido.
- Ele nunca foi seu, Yui. – replicou entre dentes.
- E isso te satisfaz, não é mesmo? – indagou, sentindo-se pronto para acabar com Wufei ali mesmo dependendo da resposta que lhe fosse dada.
Wufei entendia que Heero estava magoado. Via pela primeira vez, sem qualquer sombra de dúvidas, os verdadeiros sentimentos do japonês. Antes pensava que o que Heero tinha por Duo era um capricho, já que o tinha dispensado no passado, e que, agora que estava se separando de Relena poderia lhe ser muito cômodo o retorno de seu antigo amante. Mas percebia que existia muito mais do que puro desejo. Heero Yui amava Duo Maxwell e estava sendo agressivo daquele jeito porque tinha medo de perdê-lo definitivamente, ou melhor, ele tinha a certeza de que suas chances haviam acabado.
As palavras de Duo naquela confissão tinham deixado mais do que claro seu amor e Wufei sentia-se extremamente feliz por isso, mas não era do tipo que pisoteava nos sentimentos dos outros, mesmo que este se tratasse de seu maior rival pelas afeições do americano. Estavam, ainda por cima, no meio de uma situação difícil, onde a vida de Duo estava em jogo; não havia muito o que se levar em consideração, já que ninguém tivera tempo de ter uma conversa séria sobre o que se definiria em relação aos sentimentos dele.
- Quer saber a verdade sobre o que eu penso? Pois bem, saiba que eu nunca aprovei como o relacionamento de vocês terminou, muito menos pela forma como você o tratava. Eu o amava e só me mantive distante porque pensei que ele amava você. Saber que os meus sentimentos eram recíprocos e eu não fui capaz de ver isso me deixou imensamente frustrado. Eu estaria mentindo se dissesse que não fiquei feliz quando escutei ele dizer que me amava, e se ele conseguir sair dessa maldita situação e me aceitar, vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para não decepcioná-lo como você fez.
Wufei ficou assustado consigo mesmo ao perceber que falara tudo de uma única vez durante aquele impulso de fazer Heero enxergar que apesar de suas palavras agressivas, não recuaria. Ele não tinha direito de julgá-lo só por amar Duo. Mas num instante seguinte se arrependeu, pois viu que era isso mesmo que o japonês estava buscando ao instigá-lo a confessar o que sentia. Heero queria que ele colocasse clara a sua posição em relação a Duo.
Mesmo passando aquela compreensão no olhar, uma tristeza contida pelo fator de uma certeza, Heero ainda mantinha a expressão firme numa máscara de irritação. Era um contraste de sentimentos que o abatiam de uma só vez: a vontade de arrancar a cabeça de Wufei por este estar lhe dizendo tudo aquilo, e ainda assim um pouco de consciência de que Duo poderia ser realmente feliz com o chinês, como nunca fora com ele. Só que com toda aquela certeza, não conseguia deixar de lado o egoísmo, aquele sentimento de que Duo era seu e de mais ninguém… mesmo que já estivesse mais do que claro que não era mais.
Ele estava fazendo força para se livrar e verdadeiramente desistir, mas seu ímpeto não lhe deixava abrir mão do que sentia em favor de outra pessoa, por mais possessivo que pudesse parecer… E ser egoísta era de sua natureza, não tinha como mudar.
- Eu ainda posso tirá-lo de você, Chang.
Wufei não queria acreditar no que tinha acabado de escutar e aquilo o tirou do sério, fazendo com que prensasse Heero de contra a porta do armário, segurando-o pelo colarinho da blusa.
- Seu idiota! Estamos à beira de perdê-lo para sempre e a única coisa que consegue pensar é no seu umbigo? – falou, perdendo toda amenidade e controle que sempre existiram em sua voz. - Será que isso é tudo com que Heero Yui se preocupa? Você é um maldito insensível!
Heero sentiu uma fisgada de dor pelo súbito contato com a superfície de madeira, mas não deixou transparecer em sua expressão. Aquele ferimento em seu braço era nada comparado com o que já suportara no passado.
- E você também não é, Wufei Chang? – estreitou os olhos azuis, mostrando que não tinha medo algum do descontrole que começava a tomar o chinês de forma ameaçadora. – Nosso passado não é tão diferente assim.
Era algo que poderia facilmente racionalizar se estivesse calmo, mas não estava e Heero não facilitava para isso.
- Você foi um covarde usando o Duo e depois o tratando da maneira que o tratou! – contradisse, buscando pelos erros do outro para encobrir os seus.
Heero arrancou as mãos de Wufei que o mantinham preso, impulsionando-o uns passos para trás.
- E você foi o quê, virando as costas e o repelindo? – rebateu, saindo de seu costumeiro estado de frieza. – Com suas atitudes você o deu para mim. Covarde e cego!
Heero apenas sentiu o baque de suas costas, mais uma vez, contra a madeira do armário, gerando um barulho oco que ressoou pelo apartamento. Os olhos negros de Wufei estavam bem perto dos seus e seu antebraço pressionava sua garganta, enquanto o corpo tenso pela fúria prensava-se contra o seu.
- Nunca mais repita isso, ou eu te mato. – Wufei ameaçou e seu olhar assassino dava verdadeiro respaldo às suas palavras.
O chinês não era de tomar atitudes violentas, a não ser quando estas eram necessárias ou, como naquele momento, lhe tiravam do sério. Heero havia feito de propósito. Queria atingir Wufei como se sentia atingido, e nada melhor do que mexer com o ego dele. Chang era orgulhoso e não tolerava ser chamado de covarde. Heero poderia ter facilmente revertido a situação e o enfrentado como deveria - mesmo estando com o braço afetado pelo ferimento em seu ombro -, mas simplesmente travou qualquer reação, ficando preso pelo olhar de Wufei, que ainda lhe jurava de morte, mas que o encantava pela força e intensidade.
Wufei queria separar a cabeça de Heero do corpo, mas um resquício de sua sensatez o impedia de cometer tal ato. Não queria entender o porquê do japonês estar sendo tão idiota, mas no fundo tinha noção de que era pelo medo que ele assim reagia. O japonês tinha dificuldade em lidar com os próprios sentimentos e agora Wufei percebia que com a perda também. Por um segundo tentou pensar em como seria a reação de Heero se por acaso não conseguissem salvar Duo. Wufei sentiu seu coração se comprimir ante a sensação de vazio e angústia que tomou conta de si apenas por pensar na possibilidade.
Talvez Heero tivesse razão em afirmar que não eram tão diferentes no final das contas.
Eram iguais. Seus sentimentos por Duo os faziam assim. Wufei teve certeza disso ao ver a determinação com que os olhos azuis do japonês enfrentavam os seus. Heero poderia ter revidado, poderia ter criado uma luta feia ali com ele, mas estava inerte, apenas medindo forças com o olhar e sua expressão séria.
Nenhum dos dois soube o porquê daquela súbita reação, mas logo seus lábios se juntaram bruscamente.
Heero agiu quase que instintivamente, segurando possessivamente a cintura de Wufei e firmando-a contra a sua, sentindo a excitação lhe possuir de maneira descontrolada e fazer com que buscasse corresponder ao beijo com a mesma urgência que o chinês.
Wufei retirou o braço que prensava Heero, levando a mão até sua nuca e agarrando-se aos cabelos castanhos. Estava fora de seu juízo perfeito, mas não se importou, pois seu corpo queimava em meio ao beijo, que nada tinha de delicado ou suave.
Seus lábios se atracavam em busca de dominância, enquanto suas línguas invadiam a boca um do outro, em movimentos desordenados e insaciáveis. Seus corações batiam acelerados, em um descompasso causado pela adrenalina que os tomava naquele instante. Não existia mais nada além do ímpeto de saciar aquela vontade e até mesmo os pensamentos, discussões e preocupações anteriores, foram esquecidas.
Heero já não dava atenção para as fisgadas de dor em seu ombro, se tornara apenas um aditivo a mais ao seu excitamento. Ele acompanhava os movimentos da pélvis de Wufei contra a sua, sentindo a agonia de sua ereção confinada pelo jeans de sua calça na do chinês. Não se deteve em buscar aliviar aquelas barreiras, levando as mãos ao fecho de sua calça e abrindo-a junto com o zíper. Fez o mesmo processo rapidamente com Wufei, enquanto o mesmo se encarregava de puxar suas calças e boxers para baixo.
Heero repetiu o gesto, descartando, junto com Wufei, os sapatos e as calças, ambos ficando da cintura para baixo completamente nus. O corpo do chinês se comprimiu mais uma vez contra o seu, fazendo a mesma fricção, mas desta vez mais prazerosa e eloqüente por sentirem o calor de seus corpos, pele contra pele.
Heero grunhiu, frustrado e excitado. Precisava de mais.
Wufei conteve um gemido quando a mão de Heero segurou sua ereção junto com a dele, apertando-as e em seguida começando a masturbá-las unidas de forma frenética.
Heero abandonou o beijo para assim olhar brevemente para o rosto de Wufei, percebendo que o chinês estava corado e ofegante. Fitou os olhos negros que estavam nublados, mas presos aos seus, e notou que as mechas escuras do cabelo liso já se desprendiam, caindo para a frente do rosto.
- Yui…- Wufei buscava conter um gemido, enquanto deslizava uma de suas mãos pela lateral do corpo do japonês. - O que estamos fazendo?
- Eu não sei. – Heero confessou, olhando ainda nos olhos do chinês. – Eu só sei que preciso de mais. – finalizou voltando atacar sedentamente a boca de Wufei.
O chinês sabia que sim, pois ele próprio tinha a mesma ânsia crescente e avassaladora. Sua mão foi levada até uma das nádegas do japonês, apertando-a e sentindo a breve tensão de Heero. Com certeza Yui não estava acostumado com aquilo; era dominante por natureza, mas infelizmente, ou felizmente, Wufei também era.
Heero foi surpreendido pela forma repentina como foi virado e pressionado de contra o armário. No momento em que pensou em reagir e retomar a dominância para si, se contraiu trincando os dentes ao sentir Wufei lhe invadindo.
- Desgraçado. – praguejou num grunhido, mas isso não deteve Wufei de lhe penetrar por completo.
Wufei se movia apertando a cintura do japonês e ignorando a tensão do mesmo, enquanto se arremetia para dentro e para fora.
Heero ficou mais ofegante e já não mais importava se Wufei o estava violando. Nunca havia sido tomado por ninguém, pois quando estivera com Duo, era sempre o americano quem se submetia às suas vontades. A dor daquele ato lhe era prazerosa e fazia com que sua excitação aumentasse, devido ao vigor das estocadas que lhe atingiam com violência por dentro e tocavam algo em si que acabava com qualquer coerência que lhe restasse. Heero pegou seu próprio membro, masturbando-se no ritmo dos movimentos rápidos e fortes de Wufei.
Wufei grunhiu em abandono, sentindo-se atingir o gozo dentro do japonês, ao mesmo tempo em que Heero alcançava o ápice cegamente, entorpecido pela intensidade do que havia acontecido. Sentia o líquido morno lhe escorrer das nádegas, pelas pernas, enquanto Wufei levou seu corpo para recostar-se no dele, envolvendo seu tórax com um dos braços. Heero pendeu a cabeça para trás, descansando-a num dos ombros do chinês e fitando o teto branco. Ainda sentia seus corpos conectados.
A loucura passava aos poucos e o que ficava era estranho. Um tipo de conforto que ambos compartilhavam, e que no fundo não abrigava qualquer remorso. Havia sido apenas puro e simples tesão momentâneo, ou talvez algo mais que ainda reprimissem. Era a certeza de que compartilhavam dos mesmos medos, das mesmas dores… do mesmo amor.
- Não podemos perdê-lo, Heero. – Wufei murmurou com a voz rouca, entre a junção do pescoço do japonês.
Heero suspirou silenciosamente e fechou os olhos, deixando-se ficar no abraço de Wufei.
- Nós não vamos.
Se você escutar alguma batida em sua janela essa noite
Você pode apostar que provavelmente sou eu
E deixe que saibam que somos apenas um par de dados oscilantes
E o resultado dessa péssima jogada
É difícil de se ver.
Nota da Beta: Pois é, sem palavras... Esse final de capítulo eu realmente não esperava. E pensar que quase atrapalhei essa limonada final... Hum, confusos esses nossos meninos, não? Pobre Duo... Eu espero que pelo menos ele sobreviva para que esse triângulo amoroso tenha um final feliz... Oh, pena que sou apenas beta substituta... Droga. Hehe o/
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