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Anime/Manga » Gundam Wing/AC » Open Road
Blanxe
Author of 41 Stories
Rated: M - Portuguese - Romance/Angst - Heero Y. & Duo M. - Reviews: 98 - Updated: 07-02-08 - Published: 03-11-06 - id:2839935
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Autora: Blanxe

Beta: Sem Betagem

Disclaimer: Os personagens de Gundam Wing não são meus, apenas o original Pietro Richelier.

Casais: 1+2+1 5+2

Gênero: Pós Endless Waltz,Yaoi,Romance, Ação e Angst.


Capítulo 1

Os segundos que os dois ali passaram, apenas olhando um para o outro, pareciam ter sido longos minutos. Vivenciavam o choque de se reencontrarem depois de tantos anos e encararem o quanto haviam mudado durante esse tempo. Existia mais do que a questão da aparência correndo nas mentes dos dois homens parados em plena plataforma de embarque e desembarque. Questões distintas que nem de perto se assemelhavam.

Duo amaldiçoava seu azar. Depois de tanto tempo, bem no momento que estava em transição, tinha justo que encontrar com um de seus companheiros de guerra? Agradecia ao menos não ser o Soldado Perfeito. Quem diria que ele, Duo Maxwell, que tanto evitara e se distanciara, viria a cruzar justamente com Wufei Chang? Sempre pensara que aquele tipo de coincidência só acontecesse em filmes antigos. Ainda assim, precisava arrumar um jeito de fugir daquela situação.

Wufei só conseguia reparar no quanto o americano havia se tornado mais bonito e atraente do que na época em que batalhavam juntos. Sua trança de longos fios castanhos estava mais bela do que nunca. O rosto infantil tinha ganhado maturidade, mas mantinha os traços delicados. O corpo perfeitamente delgado ganhara estatura, mas mesmo assim, continuava um pouco mais baixo, provavelmente estaria com a mesma altura de Winner. Os olhos preservavam o mesmo brilho ametista. Wufei se viu preso na mesma onda de sentimentos que o assolava durante as guerras quando se via perto do americano.

A voz sintetizada vinda dos alto-falantes da estação anunciava a última chamada para a saída do transporte.

- Eu tenho que ir.

Duo se virou para partir, mas Wufei, sem entender aquele silêncio e indiferença - já que no mínimo esperava um daqueles famosos escândalos de reencontro, seguido de um abraço caloroso - não poderia permitir que ele fosse embora daquele modo.

- Maxwell, espere! – ele se apressou até o americano que, mais uma vez, virou-se para fitá-lo.

Duo sabia o que viria a seguir e tentou evitar que tudo se prolongasse ainda mais.

- Escuta, Fei… Eu preciso mesmo ir.

Intrigado, o chinês agora bem mais próximo, indagou:

- Por que está fugindo?

A palavra "fugindo" o irritou um pouco. Ele não estava fugindo. Só queria reservar o direito de se manter longe do passado e seguir seu caminho. Uma vida sem as lembranças dolorosas do passado.

- Eu não tenho tempo para isso. – avisou rispidamente. – Preciso ir agora, ou vou perder o transporte.

Wufei percebeu então que, além de ter mudado fisicamente, Duo também parecia ter mudado em sua personalidade. Onde estava o americano alegre e sempre tão receptivo a tudo que um dia desaparecera sem deixar qualquer explicação? Aonde ele havia se perdido?

- Então deixe uma forma de entrar em contato com você novamente. – pediu antes que o americano se voltasse para seguir para o transporte. – Eu gostaria de conversar.

Duo ficou surpreso. Wufei querendo conversar com ele? Justo com ele? O tempo realmente mudava as pessoas. Pelo que se recordava, Chang nunca fora muito de socializar, principalmente com ele, e sempre fizera questão de deixar claro que o achava chato, inconveniente e idiota. Ficou tentado a dar uma chance ao chinês e ver o que ele tinha para dizer depois de tanto tempo, mas isso implicaria abrir seu mundo mais uma vez, e não estava disposto a isso.

- Eu sinto muito, mas acho que esses anos foram o suficiente para que notasse que não quero ter contato e espero que continue assim. – disse firme. – Bye, Fei.

Wufei ficou sem falas, arrebatado pela grosseria nas palavras de Duo. O sempre divertido e piadista americano acabara de agir de uma forma que jamais pensara ver. Mudanças. O que em doze anos havia feito Duo Maxwell mudar? Viu o ex-companheiro de guerra entrar no transporte sem em momento algum lhe lançar qualquer outro olhar.

Doze anos sem noticias, sem saber seu paradeiro… nada. O americano estava enganado se pensava que o deixaria escapar sem uma boa explicação. Olhou para o relógio de pulso e depois para o quadro eletrônico de embarque e desembarque, conferindo para onde aquele transporte seguia. Calculou rapidamente o tempo que teria e, sem pensar duas vezes, entrou com intuito de ir atrás de Duo. Se tudo corresse bem, poderia conversar com o americano no percurso e ainda voltar para o congresso a tempo. Perderia a chance de descansar, mas não seria problema para ele. O importante era que não aceitaria aquela atitude do ex-companheiro.

Wufei teve que mostrar sua credencial de agente dos Preventers para a mulher que tentou barrá-lo pela falta da passagem e dessa forma conseguiu ser liberado para entrar. Andando pelo corredor do transporte que começava a se movimentar, ele procurou por Duo. Assim que o localizou, apressou-se a chegar ao assento que ele ocupava.

O chinês ficou parado encarando-o, até que Duo notou sua presença e o olhou com surpresa. Só então Wufei sentou-se no lugar vago ao lado do americano, ajeitando a bolsa que trazia no colo.

Duo piscou algumas vezes, incrédulo com a atitude do chinês e, apesar de tentar manter a calma, sua voz soou ríspida quando finalmente falou:

- O que você quer, Fei? Será que não falei com todas as letras necessárias que não quero conversar.

Wufei olhou sério para Duo, tendo em seu primeiro pensamento que poderia ficar horas e horas só admirando o rosto do americano, mas logo conteve seus devaneios e respondeu.

- Maxwell, você some por doze anos, não dá uma notícia sequer e agora quer evitar essa conversa. – deu um riso debochado que fez o americano levantar uma sobrancelha de forma irônica - Você só pode estar mais pancado do que antigamente.

- Sim, eu quero evitar essa conversa. – afirmou de forma taxativa e olhar determinado.

- Pois não vai. – contrariou firmemente, mas em seguida deixou sua voz suavizar. – Ficamos todos preocupados com você.

Duo riu de modo irônico, voltando seu olhar para a janela e deixando se perder pela paisagem da cidade que ficava para trás.

- Sei… todos preocupados.

Wufei não pode rebater como queria aquele comentário, afinal, Heero naqueles anos todos jamais perguntara, nem fizera questão de ajudar a procurar por Duo quando eles se comoveram para o casamento de Quatre e Trowa.

- Ta… quase todos. – disse concordando em certo ponto com o americano. – mas Quatre ainda tem esperança de que você vá voltar. Trowa e eu te caçamos como loucos por todos os lugares possíveis e inimagináveis… Você nos preocupou sumindo daquele jeito.

Duo tinha noção que sua repentina partida teria magoado seus amigos, mesmo assim, na época não se importou, naquele momento mesmo ainda não se importava. Mas não podia negar que havia saudade. Via como Wufei mudara e tentava imaginar como estariam Quatre, Trowa e, infelizmente, até mesmo Heero. Ele sorriu irônico ainda olhando para além da janela do transporte. Sabia que voltar a ter contato com o passado lhe causaria aquilo, aquela sensação de curiosidade e angustia, de querer mais uma vez se inteirar da vida deles e principalmente, daquele japonês que, às vezes, ainda vagava por sua mente e seu coração em momentos de nostalgia.

- Eu não queria ter contato com vocês. – revelou com a voz baixa e triste, mas audível o suficiente para o chinês escutar – Será que é difícil entender isso?

Wufei não entendia, mas queria.

- Por quê? – perguntou, mas a resposta não veio. Duo continuava a olhar pela janela e soube que o próprio americano não queria encarar a realidade. Tinha a sua resposta. – Yui…

- Vocês só me fariam lembrar dele e eu já tive a minha cota de sofrimento quando ele me descartou.

Finalmente Wufei entendia o que poderia ter acontecido para Duo ter abandonado tudo e desaparecido no mundo. Heero era mesmo um bastardo insensível que não conseguia enxergar um amor verdadeiro, mesmo estando embaixo de seu nariz. Não poderia falar por ele, mas tentaria mudar a decisão de Duo por ele, Quatre e Trowa, pois tinha certeza que pelo menos o casal de amigos ia querer que o americano voltasse, ou que pelo menos mantivesse algum contato.

- Nós sentimos sua falta, Maxwell. – tentou quebrar o americano, puxando pela sua antiga curiosidade. – Quatre e Trowa estão casados.

Duo franziu o cenho e, com a expressão de incredulidade e surpresa, se voltou para Wufei.

- Casados? – indagou já com um sorriso se formando em seus lábios, quando o chinês confirmou assentindo com a cabeça. – O loirinho conseguiu mesmo encoleirar o franjinha?

Wufei riu ante ao comentário de Duo, que naquele momento fez com que ele parecesse o mesmo garoto que conhecera durante as guerras.

- É… tem seis anos. – confirmou mais uma vez. – Eles moveram mundos para tentar te encontrar a tempo para a cerimônia, mas nem depois disso nos conseguimos te localizar. Quatre ficou triste por sua ausência no casamento.

- Eu fico contente por eles. – falou de forma verdadeira, mas voltando a desviar o olhar para a janela e evitar entrar no assunto sobre seu afastamento.

Wufei parou por um segundo, temendo contar sobre Heero. Pelo que percebera, Duo ressentia coisas sobre o japonês, mas não sabia se o forte sentimento que sempre demonstrara ainda existia.

- Yui… ele também se casou. – arriscou, mas ao contrario do que pensava, não viu qualquer reação de surpresa, dor ou negatividade. Duo simplesmente não expressou nada.

- Eu fico feliz por ele também. – disse com um sorriso, mas logo desviou o assunto. – E você, Fei? Já tem alguma senhora Chang?

O chinês riu e Duo teve que se voltar para o amigo para admirar isso. Pelo visto não era só ele quem mudara durante os anos, ver Wufei rindo daquela maneira era mesmo uma novidade.

- Não, não existe Sra. Chang. – respondeu contendo o riso.

Duo ficou confuso.

- Eu pensei que você e a Sally fossem engajar. – confessou se lembrando do namoro dos dois. – Vocês pareciam tão perfeitos.

- Funcionou por um tempo, mas agora nós somos apenas amigos. – contou o relacionamento que não tinha dado certo, pelo simples motivo de ser perfeito demais. – E você, Maxwell? O que fez durante todos esses anos?

- Nada de mais. – respondeu dando de ombros. – Apenas vivendo como uma pessoa normal.

Wufei durante o percurso não conseguiu arrancar muito mais sobre Duo. O americano ainda estava na defensiva e não queria expor o que passara em sua vida durante aqueles anos, demonstrava não confiar bastante ou apenas não querer mais ter contato com o passado. Realmente Heero tinha feito um belo estrago, já que agora acreditava piamente ser do japonês toda a culpa pela partida de Duo.

Duo estava mais reservado, mais comedido em suas conversas, não era mais aquele tagarela. Podia ser só uma forma de defesa, um método para não ter que se abrir naquele momento, mas mesmo assim era estranho.

Quando a parada do transporte finalmente chegou, Duo se levantou para ir embora, mas antes de seguir, ele se voltou para o chinês ainda no corredor do transporte.

- Foi bom te reencontrar, Fei. – disse sincero com um sorriso. – Você realmente mudou… nem quis cortar a minha trança por eu te chamar pelo apelido.

Wufei riu e tentou arriscar mais uma vez fazer o americano mudar de idéia.

- Então vai me dar uma forma de entrar em contato? – indagou com esperança. – Você poderia voltar, mesmo que por pouco tempo, pelo menos pra visitar. Quatre ficaria feliz em ter o melhor amigo de volta.

Duo sorriu e ofereceu uma piscadela para o chinês.

- Pode deixar que quando eu quiser entrar em contato com você, sei como fazer. – disse virando de costas e acenando - Bye, Fei.

Wufei ficou um pouco abatido pelo comentário do americano. De nada adiantara ter usado o tempo que tinha sobrando antes do congresso, não conseguira fazer com que ele mudasse de idéia em relação a retomar a amizade com ele e os outros, mas pelo menos passara um tempo, mesmo que pouco, conversando com Duo. Viu os passageiros descerem no terminal e outros subirem e quando o transporte voltou a se movimentar fazendo o caminho de volta, deixou a cabeça reclinar de contra o encosto de seu assento e um sorriso leve surgir em seus lábios.

oOo

Heero estava na sala que dividia com Wufei, passando para outro agente alguns documentos que deveriam ser entregues para Une. Aquela tarde teria mais um encontro com seu advogado e sua esposa para acertarem mais alguns detalhes sobre o divórcio e esperava que o parceiro pudesse retornar a tempo para que o setor não ficasse sem o comando de um dos dois.

Ele sentiu um certo alívio ao ver Chang entrar na sala. Realmente não queria ter que deixar o setor sobre a supervisão de algum subalterno. Ele logo despachou o rapaz a quem entregou o restante dos documentos e este se retirou da sala, cumprimentando Wufei no processo.

Heero sabia que nem precisava perguntar, mas por educação assim o fez.

- Como foi no congresso?

- Como sempre. – respondeu, colocando a pasta por sobre a mesa e sentado-se em sua cadeira.

Wufei não podia deixar de pensar e repensar se deveria ou não contar ao parceiro sobre o encontro que tivera com Duo no caminho para o congresso. O japonês aqueles anos todos, poucas vezes tinha se preocupado em puxar assunto sobre o antigo amante, mas por algum motivo desconfiava que no fundo Heero ressentia ter escolhido seguir por um caminho sem ter tentado algo com o americano, afinal, o casamento não tinha dado certo. Ele era o único que por enquanto sabia que o japonês estava se separando, mas somente porque Heero precisara explicar suas ausências nos Preventers para ele, já que teria que lhe dar cobertura. De qualquer forma, resolveu por contar, afinal, não tinha motivos para esconder nem de Heero, nem dos outros, que tinha encontrado Duo. O próprio americano não lhe pedira descrição.

Ele deixou o computador carregando e voltou seu olhar para o parceiro, querendo observar a reação dele quando contasse. Viu o japonês digitando em constante ritmo no computador e decidiu que era o momento certo para falar.

- Eu encontrei o Maxwell durante a viagem.

Viu nitidamente Heero perder o rumo da digitação, parando imediatamente e deixando seu olhar ficar fixo na tela do monitor.

- Você o quê? – indagou parecendo não ter escutado direito o que o parceiro havia dito.

- Você escutou. Quando eu estava indo para o congresso encontrei o Maxwell por acaso na estação.

Heero não sabia como reagir, ou até mesmo se deveria perguntar algo mais. Tantos anos sem ter contato, ou saber noticias sobre o americano, e agora Wufei vinha lhe dizendo que o havia encontrado casualmente durante sua ida ao congresso. Sua mente por algum motivo era um grande branco e sentia-se afetado por aquela súbita notícia.

- Ele mudou bastante. – comentou, vendo que o japonês se resguardava em não perguntar mais alguma coisa. – Mas está muito bem. Infelizmente parece que ele não quer ter contato conosco.

Finalmente Heero conseguiu sair do estado de silêncio e participar da conversa.

- Como assim? Ele está fugindo de nós?

Wufei deixou escapar uma risada irônica, mas antes que pudesse responder o telefone começou a tocar.

oOo

Duo estava em seu apartamento, tentando encontrar ainda uma justificativa para o que estava fazendo. Lá estava ele, no meio da sua sala, andando de um lado para o outro com aquele telefone sem fio na orelha, prestes a estragar tudo pelo que lutara contra durante aqueles doze anos. Por algum impulso louco, decidira pegar o telefone e discar para os Preventers, onde sabia agora que Wufei e Heero trabalhavam. O chinês deixara claro que queria que ele voltasse a ter contato com os outros, que havia feito falta aos amigos e tudo mais. Na verdade Duo queria ter feito falta para apenas uma pessoa, e se essa pessoa realmente tivesse aquele sentimento, para ele já seria mais do que felicidade, apesar de toda mágoa que lhe fizera passar.

Mas era realista agora. Do sonhador Duo Maxwell havia restado pouco e tinha que se agarrar a realidade que o próprio Wufei confirmara ao dizer que nem todos expressavam sentir sua falta e essa única exclusão era o bastante. Mesmo assim ele sentira aquele impulso de ligar, de se aproximar mais uma vez. Era inevitável, por isso naqueles anos todos, não tinha procurado por eles. Sabia que qualquer contato o faria querer voltar e era mais ou menos com o que duelava em seu interior naquele momento.

O telefone chamou por alguns longos instantes e ele pensou seriamente em desistir e desligar de uma vez, até que ouviu o barulho do outro lado da linha. Uma atendente, com a voz suave, veio lhe perguntar para qual ramal deveria transferir a sua ligação. Ele realmente não sabia qual ramal, mas disse que queria falar com urgência com o agente Wufei Chang. Sorriu ao escutar o reconhecimento na voz da moça, que imediatamente pediu para que aguardasse na linha, pois iria transferir sua chamada diretamente para a sala do agente.

Ele escutou o barulho das chamadas de transferência feita pela moça e logo a linha voltou a tocar normalmente. Respirou fundo, tentando espantar o nervosismo que sentia por pensar que talvez devesse desligar aquela ligação e esquecer tudo aquilo, voltando para sua calma e pacata vida, mas logo sua chamada foi atendida. Não havia mais como voltar atrás.

A voz que lhe atendeu não era a que esperava. O tom sério e indiferente havia ficado mais grave, mas era impossível para ele não reconhecer aquela voz.

- Setor três, Yui falando.

Duo sentiu o ar faltar e seu chão sumir. Praguejava sua sorte pela peça que lhe passava naquele momento. Deixou-se cair sentado no sofá, não confiando muito ficar em pé, e rapidamente buscou controlar aquela adrenalina que lhe corria o corpo com tanta ansiedade, deixando sua voz sair firme.

- Por favor, eu gostaria de falar com o agente Chang. – falou, pedindo mentalmente para que Heero não reconhecesse a sua voz, mas ao mesmo tempo rezando para que isso acontecesse e indicasse que pelo menos não tinha sido esquecido por completo.

Não existiu qualquer momento de hesitação na voz do japonês.

- E a quem devo anunciar?

Duo internamente riu consigo mesmo. Afinal, que esperança tola era aquela que ele guardava, querendo que Heero reconhecesse sua voz depois de doze anos. Não era mais um adolescente de dezesseis anos, havia se tornado um homem, sua voz ficara ainda mais rouca do que era na época.

Ele resolveu não revelar quem era realmente. Não valia a pena mesmo criar expectativas.

- Diga que é um amigo.

Heero estranhou, principalmente pelo fato da pessoa não querer dizer o nome, mas sabia existirem pessoas que não gostavam mesmo de se identificar para estranhos, só que algo naquela voz era familiar. Não querendo se ater a muitos detalhes e demorar a passar a ligação, ele resolveu ignorar a pequena curiosidade que surgira em querer saber a quem pertencia àquela voz.

Ele apertou o botão no aparelho transferindo a ligação para a mesa de Wufei, que imediatamente lhe lançou um olhar inquisidor.

- Pra você. Disse que é um amigo. – disse respondendo parcialmente a curiosidade do chinês.

Wufei franziu o cenho e, de repente, uma certa esperança lhe cruzou a mente. Poderia ser quem ele pensava que era? Ele apressou-se a pegar o fone do aparelho em sua mesa e atender a ligação.

Não precisou nem dizer uma palavra, pois a voz veio logo lhe falar.

- Ele continua impessoal como sempre. – falou Duo ao perceber que Wufei tinha atendido ao telefone e disfarçando o baque que fora escutar a voz de Heero em seu ouvido mais uma vez.

Wufei inconscientemente deixou um sorriso surgir; sorriso esse que não passou despercebido por Heero, que estranhou a reação.

- Maxwell? – perguntou como se não acreditasse que Duo realmente estava fazendo contato, como disse que faria se acaso quisesse.

Heero imediatamente arregalou os olhos, surpreso pelo que acabara de escutar de Wufei. Se não tivesse ouvido errado, ele acabara de atender um telefonema de Duo e sequer fora capaz de reconhecer sua voz. Como ele poderia reconhecê-la depois de tanto anos? Mesmo assim, naquele momento, aquela voz que lhe ficou ressoando em sua mente. Era a voz de Duo… um Duo que agora teria vinte e oito anos.

- Eu mesmo, Fei! – confirmou Duo do outro lado da linha.

- Pensei que não ligaria. – confessou com a voz amena e sequer percebeu que o companheiro agora prestava atenção a sua conversa.

- Nem eu, mas acho que, apesar dos pesares, continuo o mesmo incorrigível de sempre. – sua voz e sua própria mente estavam refeitas do impacto de ter escutado a voz de Heero e agora falava com total firmeza. – Eu pensei na sua proposta e acho que vou tentar.

Wufei não conseguiu esconder o contentamento em sua expressão ao escutar aquilo. Enquanto Duo se estapeava mentalmente por estar cedendo aos impulsos que há muito tempo pensara ter controlado.

- Isso é ótimo, Maxwell!

Duo sorriu pelo entusiasmo que notava na voz do chinês e era certo que fugir, dali para frente, não parecia mais certo.

- Então você pode me buscar no aeroporto?

- Claro. Quando e a que horas?

Heero observou Wufei anotar algo em seu bloco de notas e tinha que admitir que estava muito curioso para saber sobre o que fora toda aquela conversa que havia sido desenvolvida com o ex-amante. Quando viu o chinês finalmente se despedir e recolocar o fone no gancho, não precisou botar sua curiosidade em exposição, pois o próprio companheiro fez questão de comentar.

- Parece que o Shinigami está decidido a rever os amigos. – comentou olhando de forma a analisar mais uma vez as reações do japonês. – Ele mudou de idéia e quer passar alguns dias por aqui para rever a todos.

Heero tentava manter-se indiferente, mas se saber que Wufei havia encontrado com o americano já o tinha balançado, agora ter a confirmação de que veria Duo de novo só aumentara aquele sentimento em dimensões imensas. Por que tinha que se sentir assim depois de tanto tempo? Era fato que vinha pensando, recordando a época que passara com Duo a seu lado, das noites em que se amavam e que dividia a alegria e os sorrisos do americano, mas por que justo agora? Pensava se tudo não seria uma distorcida frustração por causa do casamento que não dera certo. Sabia que só teria certeza quando visse Duo de novo. Tiraria todas as suas dúvidas e se certificaria daquilo que vinha pressionando seu coração e sua mente quando pudesse estar cara a cara com ele.

- E quando ele vem? – perguntou se mantendo neutro em sua voz e atitude.

- Provavelmente amanhã. – respondeu satisfeito apenas por ter visto o interesse do japonês.

- Aposto que Quatre ficará eufórico quando souber. – comentou voltando sua atenção para o monitor e reiniciando digitação que parara antes da ligação de Duo.

Wufei sorriu irônico e baixinho murmurou para que somente ele escutasse.

- Acho que não é só o Quatre quem vai ficar eufórico com a volta do americano.

Wufei percebera como Heero ficara prestando atenção na conversa. De certo acharia muito interessante o reencontro daqueles dois. Muito interessante realmente.

oOo

Aquela tarde Heero deixou os Preventers para ir direto até o escritório de seu advogado onde já encontrou o homem e sua quase ex-mulher, já o esperando. Eles se reuniram na ampla sala do escritório e o próprio começou a falar sobre a documentação e os procedimentos que seriam levados a juízo. Mas Heero deixou de escutar aquela conversa burocrática por muito tempo. Não conseguia focar sua mente na reunião que estava tendo, seus pensamentos teimavam em querer se manter no fato de que Duo estava voltando, nas lembranças que tinha guardado e enterrado no fundo de sua alma e que pensou que jamais o afetariam de um modo como aquele. Pegava-se imaginando como Duo estaria agora; seus traços e o quanto teriam amadurecido… ou se continuava com aquela feição travessa e petulante.

Quando deixou a sala comercial, tendo assinado todos os documentos para o prosseguimento do processo, foi tirado de seus pensamentos pela voz suave da mulher que estava ao seu lado dentro do elevador que descia com destino ao estacionamento.

- Você está bem, Heero? – ela perguntou, tendo no olhar uma preocupação sincera.

Ele se voltou para encarar os belos olhos azuis da esposa e deixou um pequeno sorriso aparecer em seus lábios. Mesmo com a separação, a mulher continuava com todo aquele apego e preocupação. Eram amigos apesar de tudo.

- Estou sim. – disse ao mesmo em tempo que o elevador cessou o movimento e abriu a porta dando direto acesso para o estacionamento.

Depois de anos casados era difícil querer enganá-la. Enquanto caminhavam para seus carros, ela insistiu.

- Você esteve distraindo a reunião inteira. – comentou justificando sua preocupação. – O advogado teve que te chamar a atenção mais de duas vezes para que visse que tinha que assinar o documento. O que está acontecendo?

Ele suspirou desistindo logo de tentar evitar aquela conversa, senão ela o pestearia e o aborreceria até que finalmente cedesse.

- Não é nada com que deva se preocupar. – avisou logo, parando quando chegaram até o carro dela. Ele hesitou um momento, mas outra vez sendo pressionado pelo olhar inquisidor, contou: – Duo apareceu.

Ela arregalou os olhos, totalmente surpresa e riu.

- Duo? Duo Maxwell? – indagou ainda tentando certificar-se de que Heero não estava brincando e viu o marido confirmar assentindo com a cabeça. – Depois de doze anos ele resolveu aparecer? Já não era sem tempo!

Heero sabia que a notícia provavelmente a empolgaria. A mente de sua mulher há algum tempo vinha trabalhando em sandices que o assustavam. Amaldiçoava a hora em que fora contar todo seu passado para ela e isso fez com que ela encasquetasse na cabeça que pelo seu modo saudoso de falar sobre o americano, ele ainda guardaria algum sentimento por ele. Mas que sentimento? Atração? Tesão pelo corpo que sempre o saciara com tamanha volúpia? Ela dizia que nenhuma dessas respondia corretamente aquela pergunta e ele ainda queria entender o porquê dela achar que sentia algo por alguém que largara há doze anos e sequer tinha mais intimidade nenhuma. Por Duo Maxwell a única coisa que um dia sentira fora tesão, atração carnal, mais nada.

- Não comece com suas idéias loucas. – recriminou de imediato. – Duo e eu não temos nada a ver, nunca tivemos e nunca teremos. Você sabe muito bem disso.

Ela propositalmente fez uma feição displicente e implicou:

- Você está certo. Alguém do porte do Duo, bonito, atraente e cativante, provavelmente já deve ter arrumado alguém a essa altura. – ela deixou um leve sorriso delinear seus lábios tingidos pelo batom rosa, ao ver a expressão constringida no rosto do marido. – De certo ele deve estar casado… deve ter filhos lindos, não acha? Ou senão, deve ter como marido um homem maravilhoso que…

- Relena! – se alterou chamando alto o nome da esposa.

Ela riu com vontade. Tinha conseguido chegar onde queria.

- Você só engana a si mesmo, querido. – avisou abrindo a porta do carro. – Não agüenta nem que se coloque a idéia do seu ex-amante tendo uma vida com outra pessoa, e ainda quer me dizer que não sente nem um tico de nada por ele?

Heero a olhou com irritação e tentou trazer um pouco de juízo aquela cabecinha loira.

- Pare e pense, Relena. Se eu sentisse alguma coisa por aquele idiota eu teria ficado com ele e não com você.

Ela deu de ombros e entrou no carro ainda com aquele sorriso nos lábios, mas antes de bater a porta, deixou sua última justificativa no ar:

- Errar é humano, Heero. – ela girou a chave na ignição e olhando irônica para ele, finalizou: - Persistir no erro, é burrice. E isso, eu sei que você não é.

Ela bateu a porta e saiu deixando para trás um Heero irritado e inconformado. Ele detestava quando ela tinha a última palavra naquelas pequenas desavenças sobre qualquer assunto, principalmente quando era aquele assunto em particular.

Caminhou até seu carro, com as palavras e insinuações da esposa ainda em sua mente. Combatia aquela certeza que Relena tinha e queria embutir em sua cabeça. Mas estava certo de que pelo americano nunca existira sentimento algum que fosse além da cama. A volta de Duo mexia sim um pouco consigo, afinal, haviam sido doze anos e não era pouco tempo, desde que o vira pela última vez. Estava ansioso sim, mas como Quatre e Trowa provavelmente também ficariam. Tinham consideração e amizade por Duo e era mais do que normal aquele tipo de sentimento invadi-lo.

Ele entrou em seu carro e antes de dar partida e ir embora para seu apartamento ainda ficou por mais alguns momentos pensando sobre o assunto. Seria muita estupidez sua se apaixonar por aquele americano idiota.

oOo

Trowa estava recostado ao batente da porta do quarto de casal, onde ele e o marido dividiam suas noites. Admirava o belo loiro revirar o armário de roupas procurando por algo que lhe agradasse, mas o fato era que estava tão ansioso e nervoso que mal conseguia diferenciar o que seria apropriado ou não para aquele encontro. Wufei tinha telefonado na noite anterior e contara sobre Duo e seu retorno. Ele ficara feliz, mas nada comparado ao que o árabe demonstrara. Compreendia que para o marido saber que o americano estava bem, vivo e que se encontraria com o amigo de longa data, era por demais emocionante. Não o criticava por isso, pelo contrário, ver a felicidade de Quatre, tão aliviado e contente era algo que realmente lhe fazia bem. E era até divertido ver aquela confusão que ele fazia com as roupas, olhando-as com desgosto e jogando-as para cima da cama já fazendo uma pequena pilha de camisas e calças que lhe desagradavam.

Trowa riu, chamando atenção do marido, que o olhou intrigado com mais um cabide de camisa nas mãos.

- O que foi? – indagou com os belos olhos verdes. – Essa camisa também não está boa, não é?

Trowa riu mais uma vez, balançando a cabeça e caminhando até o loiro.

- A camisa é ótima, Quatre. – afirmou chegando bem perto e puxando-o para um abraço. – Só que até agora não entendi o porquê de tanto nervosismo para encontrar com o Duo.

Quatre suspirou e, com a mão que estava desocupada, retribuiu o abraço do marido.

- Eu não sei… - confessou com a voz calma. – Eu apenas estou ansioso, eu acho. Queria estar bem para reencontrá-lo… já faz tanto tempo.

Trowa fez um leve carinho nos cabelos loiros de Quatre, o afastando um pouco em seguida para poder olhar em seus olhos.

- Duo provavelmente não vai estar interessado na roupa que você estará vestindo, anjo. Aposto que ele vai estar feliz em ver o melhor amigo de novo e vai querer usar aquela tagarelice incessante dele. Vocês vão passar horas e mais horas colocando esses doze anos de conversa em dia.

- Eu… quando o Wufei ligou ontem e contou sobre o Duo, fiquei realmente aliviado por saber que ele estava bem. – confessou como se tirasse um peso do coração.

- Eu sei. Te conheço muito bem pra saber o quanto essa notícia trouxe paz ao seu coração e isso me deixou feliz também. Todos nós gostamos e sentimos muita falta daquele americano tagarela.

Quatre riu dessa vez. Trowa tinha razão. Havia muito de Duo que fazia falta aquele grupo de amigos. A conversa interminável, a alegria, o companheirismo sem limites… Parecia mesmo um sonho saber que teria de novo seu "irmãozinho" de volta.

- Agora vai, antes que se atrase e perca a chegada dele no aeroporto. – alertou Trowa deixando que Quatre voltasse para o armário. – Eu vou me encontrar com o Heero e nos reunimos depois.

Eles haviam combinado de se reunirem para passarem aquela primeira noite da chegada de Duo juntos. Seria apenas Wufei a buscar o americano, mas Quatre não se conteve em esperar no bar com os outros, queria ver o quanto antes o amigo. Por isso Trowa decidira que deixaria o marido se reencontrar em paz com Duo e ficaria esperando com Heero como havia sido combinado, mesmo porque ele próprio queria conversar com o japonês antes.

Quatre, seguindo o conselho do marido, não ficou mais perdendo tempo em escolher roupas adequadas. Optou por uma camisa esporte azul claro e calça de linho marfim. Não demorou a sair em seu carro na direção do aeroporto.

oOo

No aeroporto, Wufei já estava achando que o amigo árabe não viria como havia insistido e prometido que faria. O vôo que traria Duo estava para aterrissar e nada de Quatre chegar. Estava recostado numa parede próxima da área de desembarque e, pela quinta vez, olhava em seu relógio de pulso.

- Wufei!

Ele imediatamente levantou a cabeça procurando pela voz que chamara por seu nome e caminhando apressadamente em sua direção, vinha Quatre, que sorria e desviava das pessoas que estavam paradas em seu caminho.

Ele desencostou da parede e caminhou na direção do loiro, o encontrado no meio do saguão.

- Me atrasei demais? – perguntou tentando recuperar o fôlego que perdera na pressa de chegar a tempo.

- Não, mas foi por pouco. Veja! – respondeu sorrindo e meneando a cabeça indicando o portão de desembarque.

Quatre se voltou para a direção em que Wufei tinha indicado e viu as pessoas que chegavam e logo mais adiante vinha Duo, trazendo a mochila pendurada em um dos ombros e vestindo botas, um jeans, camiseta preta que era parcialmente coberta pela jaqueta também jeans.

Quatre ficou observando com olhos curiosos e emocionados aquela figura se aproximar deles. A longa trança pendia ainda maior do que se lembrava, balançado pelas costas do belo homem que, de um jeito tímido e surpreso, sorria para ele. Mal podia acreditar o que doze anos podiam modificar numa pessoa quando não se convivia diretamente com ela. Esse pensamento fez com que ficasse sério assim que o americano parou a sua frente.

Duo podia dizer que ficara surpreso em ver que o garoto com rostinho de anjo havia se transformado um homem amadurecido, com a expressão ainda suave em sua face, mas com postura firme e um olhar passava mais decisão e seriedade do que jamais vira na época em que estavam juntos. Seu "irmão" tinha crescido também, assim como ele e, naquele momento, ficou feliz por ter decidido voltar e rever os amigos, principalmente Quatre, que era o melhor entre eles… o amigo que nunca lhe faltara e sempre estivera ao seu lado para qualquer coisa que precisasse.

Um pouco sem jeito e sem saber ao certo como agir, ele sorriu para o loiro.

- Ei, Quat.

O cumprimento tímido foi interrompido por um soco certeiro na face direita, que fez Duo vacilar alguns passos para trás e quase perder o equilíbrio.

Wufei se assustou com a reação do árabe e pode ver a raiva incontida nos olhos antes calmos, que agora fitavam Duo de uma maneira estranha. Ele se prontificou em auxiliar o americano, que segurava a face e tentava ainda se recuperar do golpe, mas Quatre o impediu, levantado uma mão de contra seu peito. Resolveu parar e ver o que daquilo se daria.

O olhar de Quatre, de alguma forma, já não continha mais raiva. O semblante sério ainda persistia ao observar o melhor amigo corrigir a postura e ainda protegendo a face atingida olhá-lo com a expressão confusa.

Quatre ficou apenas alguns segundos encarando os olhos violetas do amigo, que oscilavam entre magoa e confusão. Até que avançou de contra ele, lhe puxando para um abraço forte.

- Desgraçado! Como você some durante esses anos todos e tem a coragem de voltar com essa cara mais deslavada e inocente? – as lágrimas já embargavam suas palavras e apertou ainda mais o americano contra si. – Eu me preocupei tanto com você…

Duo sorriu e finalmente retribuiu o abraço com carinho.

- Eu também senti sua falta, loirinho.

Vendo o abraço dos dois grandes amigos, novamente reunidos e emocionados, Wufei sorriu deixando-os por um momento que ele sabia que precisavam.

oOo

Continua...

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