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Anime/Manga » Gundam Wing/AC » Open Road
Blanxe
Author of 41 Stories
Rated: M - Portuguese - Romance/Angst - Heero Y. & Duo M. - Reviews: 98 - Updated: 07-02-08 - Published: 03-11-06 - id:2839935
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Autora: Blanxe

Beta: Sem Betagem

Disclaimer: Os personagens de Gundam Wing não são meus, apenas o original Pietro Richelier.

Casais: 1+2 5x2

Gênero: Pós Endless Waltz,Yaoi,Romance, Ação e Angst.


Capítulo 2

Wufei dirigia o carro, enquanto escutava a conversa de Quatre e Duo, que mais parecia ser um interrogatório sem fim exigido pelo loiro sobre as andanças do americano. Em meio a sua atenção entre o trânsito e a conversa, escutava interessado Duo contar do dia em que Heero lhe descartara; de sua vontade de se afastar e perder todo o contato com tudo que o fizesse recordar-se do amante. Ele infelizmente já desconfiava do motivo do desaparecimento do americano. Internamente não poderia criticar Duo por querer se distanciar e esquecer, pois ele tinha lá seus momentos, mas era muito sensível a rejeição. Queria poder dar uma lição em Heero por magoar aquela pessoa tanto assim, mas também não poderia culpá-lo, pois ele apenas tinha agido como sempre o fizera e, mais do que ninguém, Duo sabia o jeito do Soldado Perfeito.

Quatre, que estava sentado ao lado do chinês, parecia sensibilizado com os motivos de Duo e a vida que o próprio contara – resumidamente - ter vivido até ali. O descontrole que fizera com que extravasasse no soco no rosto de Duo, havia lhe dado maior estabilidade emocional para lidar com o momento. Ainda sentia como se o amigo tivesse desprezado a amizade que tinham, não confiando nem mesmo nele para ajudá-lo. Mas escutar os motivos lhe trazia certa compreensão do sofrimento interno que seu "irmãozinho" havia passado e o importante mesmo é que ele estava bem.

Duo estava achando estranho estar com os velhos amigos, principalmente porque logo sabia que reencontraria Heero. Não deixava transparecer, mas estava agoniado, quase que sufocando, com aquela noção. Era um idiota mesmo. Depois de doze anos ainda alimentava sentimentos pelo japonês que o fizera sofrer tanto. Era mais idiota por ter se deixado influenciar e aceitar o convite de Wufei para rever os amigos. Se estivesse distante, se tivesse continuado vivendo sua vida como estava fazendo aquele tempo todo, não precisaria estar de novo com aqueles sentimentos pulsando desenfreados em seu peito. Esperava se convencer, de uma vez por todas, a Heero que tinha sua própria vida e que ele não faria parte dela.

oOo

No bar do restaurante, Trowa e Heero bebiam. Já esperavam ali há quinze minutos e o japonês se via incomodado. Várias vezes, se pegara dirigindo o olhar para a entrada do estabelecimento na vã esperança de ver os outros amigos chegarem trazendo Duo. Como era estranho pensar que o reencontraria. Naquele momento remoia o que Relena havia lhe dito. Será que o americano estaria casado, que tinha filhos, ou apenas alguém especial na vida dele? Era óbvio que não pensava em nada sério com o americano, mas eram questões que realmente sempre vagavam por sua mente, mesmo sem precisar a mulher ter que levantar esse tipo de coisa. De qualquer forma, descobriria tudo isso àquela noite, naquele jantar.

Trowa observava o amigo que conseguia disfarçar totalmente qualquer ansiedade, ou outro sentimento, que existisse pelo reencontro com o antigo amante. Ele próprio não sabia dizer o que se passava na mente de Heero, apesar dos anos de convivência. Os sentimentos do japonês continuavam uma incógnita. Até mesmo quando se casara com Relena, fora uma surpresa para todos saber que ele a amava. Havia tanta esperança entre eles de que Heero e Duo terminassem juntos; que algum dia o americano voltasse e o soldado perfeito o assumisse de vez… mas não foi o que aconteceu. Tão logo que completou sua maioridade, a primeira coisa que Heero fez foi se casar com a vice-ministra e todas as esperanças se acabaram ali. Com o retorno de Duo, não sabia como as coisas ficariam, na verdade, tinha quase plena certeza que não ficariam, dependendo do que tivesse se passado na vida do americano naqueles doze anos afastado deles.

- Relena não vai vir? – perguntou ao japonês, estranhando a falta da mulher do companheiro.

Heero gostaria de responder negativamente, mas não podia.

- Ela tinha uma reunião importante, mas prometeu que viria assim que terminasse. – eles estavam se separando, mas ainda saiam juntos e a volta de Duo não poderia ser diferente.

Trowa deu um último gole no copo de tônica e meneou com a cabeça na direção da entrada. Ele próprio estava admirado com o que via, mas conseguiu avisar ao companheiro.

- Eles chegaram.

Heero sentiu seu coração falhar uma batida com o que Trowa lhe alertava e instintivamente voltou seu olhar para a direção da entrada, onde pode reconhecer rapidamente seu parceiro e o árabe, mas quem os acompanhava podia dizer que era um estranho, se não fossem os longos cabelos castanhos presos na tão lembrada trança e o belo par de olhos violetas - que imediatamente fixaram-se nos dele. Era como receber o impacto de uma bala, tamanha intensidade do que sentiu em seu peito vendo aquele homem. Sim, agora Duo Maxwell era um homem e um belíssimo e atraente homem por sinal; e não mais o garoto de dezesseis anos que dispensara no final das guerras. Mesmo assim, havia algo no olhar dele, algo que oscilou rapidamente e pode perceber. Havia a princípio certa ternura; uma ternura que se lembrava do tempo em que eram amantes, mas num segundo seguinte não estava mais lá. O que restou depois disso foi apenas nada, não havia qualquer sentimento naqueles olhos que sempre expressaram tanto, que sempre mostraram a alma do americano como a mais cristalina água. Não havia mais nada para se ler ali.

Voltou a si quando os olhos de Duo se desviaram dos seus para Trowa e assim, junto com o amigo se levantou para poder ir ao encontro dos outros.

oOo

Duo conseguiu se controlar; pensou que não conseguiria, mas foi fato que quando seus olhos encontraram Heero Yui, seu mundo pareceu que ruía mais uma vez. Aquele sentimento arrebatador que tinha por ele do tempo das guerras, arruinava por inteiro toda a confiança em si que tentara construir durante aqueles anos. Ele estava lindo, muito mais do que quando jovem. O olhar frio, de um azul tão profundo, era o mesmo; mas as feições do rosto estavam mais maduras, distintas e davam a ele mais imposição e presença. Estava perfeito. Mas aquele era ao mesmo Heero que lhe desprezara, o mesmo que dissera com todas as letras que jamais poderia amar alguém como ele. Jamais se esqueceria disso e dos anos que sofrera por causa dele… Ainda sofria e, por isso mesmo, não o deixaria perceber que ainda tinha algum efeito sobre ele e sua vida. Colocou a velha máscara que construíra no dia em que deixara o Japão para trás e fora buscar o seu destino sozinho. Um destino que ele ainda não conseguira encontrar, mas ali, ele seria o Duo Maxwell que vinha fingindo ser durante doze anos, a pessoa impessoal e egoísta que criara para não se magoar mais.

Quando Trowa e Heero se aproximaram, nos lábios deixou delinear um sorriso cordial, mas nada comparado ou igual aos que costumava exibir quando era o Shinigami do Soldado Perfeito. Trowa, como pensava, não havia mudado muito, continuava sendo o mais alto entre eles, apesar de ter encorpado mais.

- Trowa, Heero, há quanto tempo, não é mesmo? – disse sem qualquer intenção de sarcasmo.

- Poderia ter sido menos, se você não tivesse se escondido da gente. – Trowa implicou, mas com tom brincalhão. – Você está muito bem, Duo.

- Não tão bem quanto eu gostaria, mas mesmo assim, obrigado pelo comentário. – disse de forma a espetar o soldado perfeito. – Você também está muito bem, Trowa, devo dizer, ambos… os anos te fizeram bem, Heero.

Heero não sabia dizer se aquilo era sincero, ou se Duo estava de sarcasmo. Definitivamente aquele não era o Duo que conhecera anos atrás.

- Igualmente, Duo. – agiu educadamente. – Por onde andou esse tempo todo?

A pergunta de um milhão que vinha lhe sendo feita desde que encontrara com Wufei, mas, desta vez, vindo diretamente do Sr. Cubo de Gelo Yui. Estaria ele mesmo interessado em saber sobre suas andanças, ou aquilo era apenas para se certificar de seu poder ao exigir uma reposta?

- Por que não pegamos uma mesa e depois o Duo pode contar tudo o que já me contou a vocês dois. – sugeriu Quatre com um sorriso.

Todos concordaram. Wufei observava bem as reações de Heero e, principalmente, as de Duo. O americano até então estava se comportando muito diferente do que poderia esperar. Uma conversa formal, sem qualquer tom de sofrimento, tristeza ou felicidade ao ver o ex-amante. Duo agia como se estivesse encontrando um colega qualquer que não via há algum tempo. A máscara que ele usava era perfeita e quase poderia enganá-lo, se não tivesse notado que em seu primeiro encontro, ainda havia mágoa ao falar de Heero. Poderia ser que Duo não o amasse mais, mas o ressentimento, ele vira estampado em sua face no transporte naquele dia. Talvez ele próprio não quisesse ter conhecimento de que Duo ainda amava Heero e que, talvez, tivesse alguma chance de se aproximar do belo Shinigami, como não tivera na época em que este estava com Heero. Se naquela época Duo não tivesse fugido, hoje as coisas poderiam ter sido diferentes para ambos.

Pouco depois que se ajeitaram à uma mesa e pediram algumas bebidas. Duo contou resumidamente sobre suas constantes viagens e transições, omitindo a parte de que tudo o que fizera fora por culpa de Heero. Não era necessário, Heero sabia e não precisavam criar um clima diferente daquele que pairava entre eles.

Heero tinha seus olhos indiferentes, mas buscava em Duo cada gesto, cada mover de lábios enquanto falava; como se aquilo fosse a coisa mais fascinante do mundo. E para ele era. Para si mesmo, naquele momento, podia admitir que o ex-amante ainda causava efeito, tão ou mais arrebatador do que antes no que dizia a aspecto sexual. Duo estava mais do que atraente e a única coisa que conseguia pensar, era como gostaria de estar sozinho com ele. Mas não demorou muito para sua esposa chegar e, de certa forma, ver uma pincelada de ironia no olhar do americano.

Relena, antes de cumprimentar a todos, teve que parar para respirar. Aquele ali era mesmo Duo Maxwell? Estava mesmo surpresa, porém, em sua mente já imaginava o efeito que o próprio não teria causado em seu ainda marido. Não podendo ser de outra forma, cumprimentou o americano com extrema gentileza.

- Duo, como vai? – seu sorriso era tão sincero que Duo se viu retribuindo, sem qualquer malícia. – Você está maravilhoso. – no último comentário fez questão de dar uma olhadela para Heero, que preferiu ignorar a insinuação.

- Digo o mesmo de você, princesa. – e era um comentário verdadeiro. Naquela mulher não tinha sequer um resquício daquela menina mimada e pedante que conhecera.

Ela cumprimentou a todos e, como o de costume, deu um pequeno selinho nos lábios de Heero, que não se importou com o ato, para ele era inocente, mas Relena se recriminou mentalmente em seguida, pois ao se sentar, deparou-se com o olhar de Duo. Era menos um ponto para Heero, se ele quisesse mesmo tentar reconquistar o americano, isso é, se ele pudesse ser reconquistado. Sabia que nenhum deles ali se atreveria aquele tipo de pergunta tão pessoal, mas ela, sendo mulher e também Relena Peacecraft Yui, não perdeu a oportunidade, já que tinha a atenção de Duo apara si.

- E então, Duo, esse tempo todo se passou… já está amarrado a alguém?

Relena sentiu os olhares dos outros pilotos lhe lançando farpas, mas ao mesmo tempo surpresos com a indiscrição. Duo não deu muita importância a pergunta e a encarou normalmente. Não tinha o que esconder.

- Não, ainda não. Duo Maxwell continua solteiro e pretende continuar assim por muito tempo ainda.

O comentário não passou despercebido nem por Heero, nem por Wufei.

- Quer dizer que está guardando o coração para alguém realmente especial? – soou até como se fosse uma insinuação.

Duo olhou de Relena para Heero, depois retornando o olhar para a loira e finalmente responder:

- Não, não estou. Gosto da minha vida do jeito que está, além do mais, aprendi a não esperar demais das pessoas.

Relena foi pega de surpresa com a tirada, mas resolveu não insistir mais no assunto. O que ela queria saber e deixar que Heero soubesse também, já havia conseguido: Duo Maxwell continuava livre e desimpedido. Apostava que Heero sentia alguma coisa pelo americano, mesmo que este negasse.

- E o que tem feito esses anos todos? – continuou puxando assunto, até mesmo por sua própria curiosidade.

- Vivendo. Viajando. – deu de ombros. Não havia muito que contar sobre seus anos amargurando a falta de Heero. - Me formei em computação e trabalho com isso desde então.

- E onde está morando agora? Provavelmente não é no Japão.

- Não, claro que não. – disse com um pequeno tom de sarcasmo. – Por enquanto moro na Inglaterra. O país tem me servido de casa durante alguns meses, mas logo estou de partida de novo.

Aquilo a deixou curiosa, mas já tinha então uma noção do porque de ninguém conseguir achar seu rastro.

- E por que de tanta mudança?

Ele deu de ombros:

- Não consigo me firmar num único lugar há muito tempo. Acho que necessito dessa constante mudança. É como um vício; comecei e agora não consigo mais parar. - ele sorriu irônico. – E até então evitava do passado me incomodar.

Quatre levou logo o assunto para outro território; um que não fosse perigoso.

- Estava pensando… já que o Duo vai passar alguns dias aqui, poderia ficar lá em casa e a gente poderia fazer alguma coisa lá.

- Sinto muito, Q-ball, mas eu vou ficar com o Fei. – disse com um sorriso.

Heero estranhou. Duo ficar no apartamento de Wufei? Por quê? Ele e o chinês nunca haviam se entrosado muito bem. Chang, em relação ao americano, era o mais distante dos quatro. Por que agora essa preferência, invés de querer ficar com Quatre que sempre fora seu melhor amigo?

- Ah, esse tempo todo longe e você prefere ficar com o Wufei? – o loiro reclamou brincando.

- É porque ele sabe que se for ficar na sua casa, você não vai lhe dar paz com esses seus acessos de mãe de todos. – explicou o chinês, sendo que na verdade, nem ele próprio sabia ao certo o motivo de Duo ter preferido ficar com ele.

Duo poderia dizer a verdade e confessar que, por incrível que pudesse parecer, estava se sentindo mais a vontade em ficar perto de Wufei, do que dos demais, mas não quis magoar Quatre. Além do que, fora Wufei quem o encontrara e o fizera voltar e estava sendo gentil com toda aquela atenção que dispensava a ele e porque não aproveitar um pouco daquela mudança inesperada do seu companheiro chinês, para poder assim criar um laço de amizade maior do que tinham antigamente.

Logo eles fizeram o pedido e jantaram. Heero ainda estava intrigado com a aproximação de Wufei com Duo. Porém, isso até que não o incomodava tanto; o que realmente o incomodava era aquele calor no peito que sentia toda vez que olhava o americano. Era terrível constatar a existência disso. Era o mesmo que dar o braço a torcer para Relena, mas ainda tinha esperanças de que fosse apenas o instinto, aquele magnetismo de possuir Duo como fazia antes. Poderia tentar se aproximar dele e conseguir isso; assim acabaria com todas as suas dúvidas de uma vez. E era o que faria, tendo a oportunidade certa.

Quando terminou o jantar, a única coisa que Duo queria era cair em algum canto e descansar. Estava exausto da viagem e da tensão que fora até aquele encontro. Agora que estava mais relaxado, podia sentir o estrago que toda a situação lhe causara.

Quatre pode perceber isso em Duo e, agindo com bom senso, resolveu finalizar a noite ali.

- Acho melhor deixarmos o Wufei levar o Duo para casa e deixarmos o resto da conversa para outro encontro.

- Ah, mas já? – foi o próprio Duo quem reclamou.

Quatre sorriu irônico.

- A viagem deve ter sido cansativa, não, Duo? Temos muito tempo para conversar ainda.

- Disse tudo, loirinho. Afinal amanhã vou conhecer a casa dos pombinhos. – brincou se referindo ao encontro na casa de Quatre e Trowa.

Eles finalizaram a conta e saindo do restaurante, depois de uma breve despedida, cada um seguiu seu caminho.

Relena deixou que Heero a levasse até em casa. Queria conversar com o marido a sois e saber sobre o que se passava naquela cabecinha de pensamentos não tão perfeitos.

Ainda no carro, enquanto Heero dirigia, ela o abordou.

- E aí… qual foi a sensação de vê-lo novamente? – perguntou olhando para expressão impassível do marido.

- Que sensação? – tentou inutilmente se fazer de desentendido.

- Ora vamos, Heero! O homem já era lindo quando garoto, agora volta parecendo um deus grego. Quero saber o que você está escondendo, afinal, como foi rever o ex-amante depois de tantos anos? – indagou ansiosa por uma resposta. – E nem me venha com outra tentativa de fuga.

Heero não tinha como fugir dos interrogatórios de Relena. Ela acabaria o infernizando até que batesse o carro em algum poste.

- Foi… estranho. – confessou ainda não sabendo se aquela era a palavra certa.

- Estranho? – indagou incrédula. – É só isso? Estranho? Ora Heero, nós já passamos dessa fase de respostas curtas.

Heero já estava começando a ficar sem paciência pela insistência da mulher.

- Ora você. O que quer que eu diga mais? – indagou quase saindo de seu tom indiferente.

Ela virou-se, sentando um pouco de lado no banco, ficando a encará-lo mais diretamente.

- Seria bom que fosse mais descritivo. Esse seu "estranho" parece até coisa que você saiu de uma convenção de ufologia e está ainda sob o efeito daqueles contos sem pé nem cabeça.

Pronto. Ela conseguira. Heero apertou as mãos no volante e acabou cedendo.

- Quer me fazer confessar que vê-lo novamente mexeu comigo? É isso? Quer que eu diga que se eu pudesse teria avançado sobre ele e o tomado ali mesmo se estivéssemos sozinhos? É isso? - indagou num tom irritadiço. – Pois foi exatamente isso que aconteceu! Satisfeita?

Relena o olhava com olhos arregalados, mas com a expressão de ironia e um sorriso vitorioso nos lábios.

- Que foi? – Heero perguntou um pouco mais controlado, dando uma olhadela para ela, sem perder totalmente a atenção no trânsito. – Que cara é essa?

Ela o olhava como se nada tivesse acontecido e, ao mesmo tempo, com uma expressão divertida.

- Eu sabia. – ela se vangloriou. – Eu sabia que você ainda ia confessar.

- Confessar o quê? Sentir vontade de levar alguém pra cama não é necessariamente chamado de amor.

- Mas você confessou que ele mexeu com você. – relembrou as palavras ditas a apenas instantes atrás. – Estamos juntos há anos, Heero querido, e eu sei muito bem que você não se abala por nada, nem ninguém, então eu ainda estou apostando alto que isso que você sentiu hoje, e que eu repito, sempre sentiu, é amor.

- Está querendo dizer que eu nunca te amei? – indagou querendo implicar com a loira.

Ela riu. Não cairia no jogo dele.

- Nos amamos sim, mas eu nunca vi seus olhos brilharem tanto, quanto vi na época em que vocês lutavam juntos, ou hoje enquanto você o secava durante o jantar.

Constrangido ele negou.

- Eu não sequei ninguém.

- Ah, secou sim. – afirmou rindo. – Não se acanhe Heero, mas eu acho realmente que você deveria pensar com seriedade nisso que você está sentindo.

Um breve silêncio se fez dentro do veículo, até que ele resolveu confessar.

- Eu não sei bem o que estou sentindo.

- Então é melhor você tratar de descobrir logo, antes que o perca de novo. Esse Duo Maxwell não é, nem em sombra, o mesmo garoto que andava atrás de você pra cima e pra baixo. Ele está independente e muito mudado.

Heero parou para pensar nas palavras de Relena. Era verdade, ele também percebera que Duo não era mais o mesmo. O menino brincalhão e aberto a todos não havia voltado; apenas um homem mais sério e com um sarcasmo que não condizia a sua bela imagem. Ele ainda não conseguira afastar a figura de Duo do pensamento, aqueles olhos violetas lhe traziam a dúvida, a desconfiança de que talvez Relena pudesse ter razão em algumas coisas.

oOo

Quatre e Trowa acabavam de entrar no quarto, mas o loiro parecia um pouco tenso, incomodado até; mesmo depois de ter acabado de reencontrar o melhor amigo. Trowa estranhou, pensou que Quatre ficaria mais feliz e provavelmente chegaria em casa falando pelos cotovelos, mas não. Estava quieto e concentrado demais em seus pensamentos - o que não era de seu feitio - isso fez com que ligasse imediatamente o fato ao encontro com Duo.

- O que houve, anjo? – perguntou, sentando-se na cama e olhando para o marido que parou perto da janela para admirar o jardim. – Não ficou feliz em ver o Duo? Pensei que estaria eufórico com a volta dele.

Quatre suspirou e virou apoiando-se no parapeito.

- Não é isso. – sua voz tinha um tom angustiado. – É claro que eu fiquei contente e estou contente que finalmente Duo tenha aparecido, mas é que… você não o achou um pouco estranho?

Trowa o olhou de forma divertida e lembrou:

- Quatre, foram doze anos. Não esperava reencontrar o mesmo menino que conheceu naquela época, não é mesmo?

O loiro suspirou e caminhou, sentando-se ao lado do marido na cama.

- Não, eu não esperava, mas… ele me contou que foi embora por causa do Heero.

- Disso todos nós já desconfiávamos, não é mesmo? – era fato que não haveria outro motivo para Duo ter partido da forma que partira.

Quatre não sabia explicar direito o porquê de estar tão agoniado com todo aquele encontro. Ele apenas sentia que algo ainda parecia estar fora de lugar. Gemeu frustrado e deixou-se cair de costas na cama, fitando o teto, querendo buscar as palavras certas para explicar para o marido, o porquê de ainda não estar totalmente satisfeito com os eventos.

- Ele não é mais o mesmo, mas ao mesmo tempo é. – podia até ver Trowa levantando uma das sobrancelhas de forma inquiridora, mas sem desviar o olhar do teto, Quatre continuou a explicar: – É como se ele estivesse forçando para ser uma coisa que não é.

- Tipo, querendo tapar o sol com a peneira? – indagou tentando compreender o que Quatre tentava lhe passar.

- Acho que seria mais certo dizer que ele está tapando o sol com uma placa de gundanium, mas não percebe que mesmo assim o sol não vai deixar de brilhar por causa disso.

Trowa ficou sério ante a comparação feita pelo marido e questionou, deitando-se de lado na cama, ao lado do corpo do loiro, com uma das mãos apoiando a cabeça.

- Acha que ele ainda sente alguma coisa por Heero?

- Eu arrisco dizer que sim. – Quatre opinou sentindo a mão de Trowa, com carinho, afastar a franja loira de sua testa. – Senão, por qual motivo ele continuaria se mantendo afastado e negando contato?

Trowa tinha que concordar naquele ponto, mas ainda tinha uma dúvida.

- Se for isso, então por que ele voltou agora?

Quatre não tinha a resposta dessa vez.

- Eu não sei… e isso que me aflige. – confessou, voltando-se para fitar os olhos verdes de Trowa. – Eu estou muito feliz e aliviado por tê-lo de volta, mas se esse retorno significar mais sofrimento para ele, eu preferiria que ele não tivesse voltado.

- Ele vai ficar bem. – disse Trowa confiante. – Afinal, parece que já arrumou alguém pra defendê-lo e esse alguém não é você.

- Wufei? – perguntou franzindo o cenho.

Trowa sorriu e assentiu com a cabeça.

- Eu pensei que a princípio você estaria magoado pelo fato do Duo ter preferido ficar com Wufei.

Quatre fez uma expressão pensativa e não contrariou.

- Nisso você pode ter certeza que eu fiquei um pouco. Depois de todo esse tempo, pensei que ele preferiria ficar comigo, mas o que me surpreendeu mais foi ele ter escolhido ficar com Wufei… justo ele.

- Quem sabe essas suas preocupações quanto ao Duo se magoar por causa do Heero, sejam sanadas muito antes de acontecerem.

Quatre lançou um olhar intrigado para o marido e sorriu duvidoso.

- O que você quer dizer com isso? – Trowa riu e deitou-se completamente na cama, ignorando sua pergunta. Ele próprio sorriu e colocou-se de bruços para poder melhor encará-lo. – Você está sabendo de alguma coisa que eu não sei.

- Pode ser. – disse dando de ombros. – Veremos se estou certo ou errado mais tarde.

oOo

Entrando em seu apartamento com Duo, Wufei acendeu as luzes da sala e assim fechou a porta. Observou o americano caminhar até o meio da sala e olhar ao redor e logo se voltar para ele.

- Tem um belo lugar aqui, Fei. – cumprimentou pelo apartamento bem aconchegante e arrumado.

Realmente era um apartamento bem espaçoso para uma única pessoa, mas era do jeito que Wufei gostava. Porém, não estava com vontade de comentar sobre as suas opções por moradia ou coisas do tipo. Por incrível que pudesse parecer, ele ainda estava preocupado com aquele encontro com Heero. Não vira Duo demonstrar muita coisa em relação ao japonês, mas mesmo assim sentira que o americano havia se abalado um pouco quando Relena chegara ao restaurante, ainda que durante o jantar fossem os dois que mais conversassem à mesa, juntamente com Quatre.

- Foi tão difícil assim voltar? – perguntou querendo saber dos sentimentos de Duo.

Duo o olhou confuso por um instante, sem saber ao certo ao que se referia a pergunta, mas logo se orientou e deixou um leve sorriso aparecer nos lábios.

- Nem tanto. Pensei que seria pior. – confessou sem saber por que, mas sentia-se a vontade em conversar com o chinês, talvez porque ele se mostrava tão interessado e presente. – Quatre e Trowa realmente são almas gêmeas; e Heero e Relena fazem um belo casal… sempre fizeram.

Wufei se debateu internamente se deveria ou não revelar a Duo sobre o divórcio dos dois. Não sabia se Heero concordaria que falasse, mas também pensava pelo lado de estar criando uma esperança para o americano poder voltar a conquistar o japonês.

Duo viu a insegurança de Wufei em lhe dizer alguma coisa e tentou tranqüilizá-lo quanto a sua posição.

- Não precisa se preocupar, Fei. – disse sentando-se no sofá. – Eu não voltei com a intenção de correr atrás do Heero.

Sabia que não havia intenção, mas se existisse sentimento, sempre existiria esperança.

- Heero e Relena estão se separando. – revelou não querendo esconder o fato do americano. – Pensei que se você ainda quisesse tentar alguma coisa, não precisaria ficar se prendendo por causa da Relena.

Duo ficou olhando para Wufei, ainda absorvendo a informação. Era isso que Wufei pensava dele, provavelmente Quatre, Trowa e até mesmo Heero pensassem o mesmo… que ele só estava voltando porque ainda tinha alguma esperança de conseguir o que perdera anos atrás. Era tolo o bastante para dizer o contrário, sim era, porém, seria mentira confessar que esse fora seu único motivo para voltar e, de qualquer forma, não seria idiota o bastante para cair nos braços de Heero, mesmo que ele quisesse alguma coisa consigo. Caíra uma vez e não pretendia cair de novo. Eles desconheciam quem ele realmente se tornara, entretanto, mostraria que Duo Maxwell não era quem eles estavam esperando que fosse.

- Fei, não me importa se o Heero continua casado com a Relena ou não. – disse com a voz soando firme, mas indiferente. – Eu não voltei com a intenção de reatar qualquer relacionamento. Eu vim rever meus amigos, como você mesmo insistiu para que viesse e eu acho que só voltei porque você insistiu mesmo. Mas dentro de dois dias eu volto para minha casa e para minha vida e tudo vai voltar a ser como antes.

A possibilidade de Duo voltar a sumir mais uma vez, afligiu um pouco ao chinês, mas não deixou que transparecesse. Havia uma decisão nos olhos violetas que fez com que acreditasse que o americano dizia a verdade.

- Venha, vou te mostrar o quarto. – disse cortando aquele assunto e pegando a bolsa de viagem que Duo havia trazido, levando para dentro.

Duo se levantou num pulo e seguiu Wufei, que o levou até um dos quarto do apartamento, o qual já parecia ter sido previamente arrumado para recebê-lo. O amigo chinês era mesmo muito organizado, mas saber que ele havia se preocupado em arrumar tudo para sua chegada, o deixava com um sentimento de que sua volta era mesmo muito querida.

- Sinta-se em casa, Maxwell. – disse colocando a bolsa de viagem aos pés da cama do quarto. - Se precisar de qualquer coisa é só me chamar, meu quarto fica ao lado do seu e se precisar, o banheiro fica no final do corredor.

De repente Wufei pegou Duo o olhando de forma esquisita e ficou intrigado.

- O que foi?

Duo conseguiu quebrar o súbito transe em que se encontrava. Por algum motivo ficara preso aos belos e fortes traços do rosto do chinês, mas tentou disfarçar.

- Outra coisa que percebi. – respondeu sorrindo e isso acalentou o coração do chinês. – Você pode ter mudado em muitas coisas, mas ainda continua me chamando Maxwell.

- É uma forma de expressar respeito. – defendeu-se de forma séria.

- Somos amigos não somos, Fei? – perguntou caminhando até o chinês, um pouco atraído pela presença dele.

Sem entender direito o motivo da pergunta, ele respondeu.

- Acredito que sim. – apesar de querer no momento que fossem muito mais que isso. – Eu o considero uma pessoa especial.

Duo parou a respiração por um momento. O fato de Wufei ter revelado aquilo de uma forma tão séria e, ao mesmo tempo, tão amena, fez com que algo em si lhe pregasse uma peça. Só poderia ser uma peça, pois ele sentiu que seus batimentos se aceleraram pelo que havia sido dito e algo quente lhe percorria no sangue.

- Então já que me considera tanto, poderia me chamar pelo nome. – tentou continuar e fazer com que aquele sentimento se dissipasse. - Não é tão difícil é, Fei?

Wufei não conseguiria negar aquilo ao americano, ou qualquer que fosse o pedido vindo dele. Durante as guerras o chamava pelo sobrenome para se lembrar da proximidade que deveria manter dele, de que não poderia ultrapassar a linha do companheirismo, tanto por causa de Yui quanto pelo próprio respeito que mantinha pelo garoto, mas agora não via porque continuar daquela forma.

- Não… não é tão difícil, Duo.

De novo aquele aquecimento repentino em seu coração. Duo se viu ruborizando devido a intensidade e ternura que o chinês lhe dirigia o olhar e por seu primeiro nome ter sido pronunciado por aquela voz tão suavemente. Ficou confuso e a única coisa que quis foi sair daquela situação.

- Acho que vou tomar um banho antes de dormir. – adiantou-se em pegar algumas coisas dentro de sua bolsa. – Obrigado, Fei.

Com isso saiu rapidamente do quarto, indo na direção do banheiro como havia lhe sido indicado, deixando para trás os olhos negros, ainda com a mesma expressão, sem perceber o efeito que estava tendo no grande objeto de suas afeiçoes.

Wufei só esperava conseguir pelo menos sobreviver àqueles dois dias sem sucumbir aos sentimentos antigos. Estava sentindo tudo de novo e, desta vez, ainda mais intenso. Suspirou vencido e deixou o quarto de hospedes. Entrando no seu próprio, deixou-se cair na cama de casal de bruços, trazendo um travesseiro para seu abraço. Seria um tormento… um delicioso tormento ter aquele americano debaixo do seu teto durante aqueles dias, mas depois que esse período passasse, seu coração aceitaria viver sem ele novamente? Queria ter as respostas, mas, acima de tudo, queria Duo Maxwell para ele. Se pudesse ao menos conquistá-lo…

oOo

Duo arrancara as roupas do corpo e entrara rapidamente dentro do box, abrindo a água fria do chuveiro e se enfiando embaixo dela. Os longos cabelos já se desfazendo da trança solta, conforme o jato de água lhe corria pela cabeça; o corpo nu sofrendo o choque com o frio que escorria sem piedade, mas nem mesmo aquele gelo conseguia esfriar o calor que estava dentro de si. Em sua mente a imagem daquele olhar terno e o som daqueles lábios pronunciando seu nome. Estaria ficando louco, ou apenas confundindo as coisas? A carência e aquela vulnerabilidade por estar de volta, por ter estado de novo frente a frente com o grande amor da sua vida, estariam lhe fazendo ver e sentir coisas que não existiam? Wufei jamais se interessaria por ele, não poderia, afinal, ele sempre lhe repudiara. Mas era fato que o chinês havia mudado muito em sua personalidade, mas não poderia ter esse interesse repentino nele, isso seria improvável; não uma pessoa séria e centrada como Wufei Chang. Mas então por que de repente naquele quarto sentiu-se desejado e por que infernos sentiu vontade de retribuir aquele desejo? Será que aquele poderia ser o princípio para conseguir se livrar de uma vez de toda influência de Heero em seu coração? Se fosse, então por que ainda doía tanto se lembrar daquele par de olhos azuis tão lindos?

oOo

Continua...

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