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Título: Em tuas mãos
Sinopse: Draco Malfoy não saberia dizer qual foi a primeira vez que reparou nas mãos de Harry Potter. (SLASH).(HarryxDraco).(Oneshot)
Autora: Calíope Amphora
Beta: Dana Norram, the one and only
Classificação: SLASH — ou seja, se a idéia de dois homens se agarrando não te agrada, é só clicar naquele "x" no canto superior direito da tela.
Aviso: Os nomes dos personagens foram mantidos de acordo com o original em inglês. E essa fic não contém spoilers de HalfBlood Prince. A história se passa em um sexto ano não-cannon (sem relação com os acontecimentos do livro). É a primeira fic de Harry Potter que eu publico, após milhões de quilômetros rodados lendo (e alguns traduzindo). Por favor, sejam gentis!
Disclaimer: Os personagens e o universo de Harry Potter são propriedade de J.K. Rowling, Scholastic & Editoras Associadas e Warner fanfic não possui fins lucrativos. E eu quero um Draco Malfoy para mim!
Dedicada à Lili Psiquê. Feliz aniversário mon ange!
Em tuas mãos
Por Calíope Amphora
Draco Malfoy não saberia dizer qual foi a primeira vez que reparou nas mãos de Harry Potter. Muito menos o motivo que o levou a fazê-lo. Tampouco se recordava da sua impressão inicial sobre um tema tão irrelevante.
Não que Draco pensasse no assunto, de modo algum. Mas tinha certeza de que, se um dia, por ventura, ele perdeu algum precioso segundo da sua preciosa vida olhando para as mãos de Potter, foi para concluir que elas eram tão desajeitadas quanto seu dono. Mais do que isso, até. Para concluir que, se existisse um concurso para eleger as-mãos-mais-feias-e-repulsivas-do-mundo-em-todos-os-tempos-desde-o-começo-do-universo, provavelmente ele levaria o nome de Potter, em homenagem ao maior representante da categoria.
Mas é óbvio que Draco não saberia dizer essas coisas, porque, pensando bem, ele nunca havia sequer olhado para as mãos de Potter. Francamente, tinha mais coisas com o que se preocupar. O próximo jogo de Quadribol, mil maneiras de se matar um Weasley, seu pai, que tinha acabado de sair de Azkaban e recebera indulgência do Ministério sob a condição de colaborar com informações contra o Lorde das Trevas, os deveres de Transfiguração, arranjar argumentos para tirar pontos da Grifinória com seu distintivo de Monitor. Não havia espaço na sua ocupada agenda para divagações sobre as mãos de Harry Idiota Potter.
Sério. O grifinório podia ter oito dedos em cada pata e pintar o símbolo da Sonserina nas unhas que Draco nunca teria reparado. A não ser que fosse com o propósito de humilhá-lo e fazê-lo sofrer na frente de todo mundo, até que Potter, aos prantos, se ajoelhasse perante ele no Grande Salão e reconhecesse sua inegável superioridade, concordando em ser o elfo doméstico dos Malfoys pelo resto de sua patética vida e em trocar de nome para Mary Sue
Certo.
Bem, digamos que algumas das informações acima não são muito precisas.
Ou melhor, digamos que tudo isso é mentira.
Exceto pela parte do Grande Salão, claro.
Na verdade, Draco lembrava-se perfeitamente das mãos de Potter. Bem mais do que gostaria. Só que não era apropriado para um Malfoy admitir esse tipo de coisa. Não antes de uma boa dose de negação, pelo menos.
A primeira vez que Draco reparou nas mãos de Potter foi após uma briga na aula de Herbologia, logo na segunda semana de aula. Os sonserinos geralmente tinham essa aula junto com a Corvinal. Mas o "brilhante" (insira muitas aspas aqui) diretor de Hogwarts achou uma excelente idéia promover uma semana de interação entre as casas, bagunçando o horário da escola inteira. Draco só não se irritou mais porque foi recompensado pela expressão de Granger, que ficou à beira de um ataque de nervos ao ouvir a notícia.
O fato era que ele e Potter haviam sido levados para o escritório de Dumbledore depois da briga e aguardavam do lado de fora enquanto a professora Sprout relatava os acontecimentos ao diretor. Distorcendo todos os fatos, é óbvio. Quer dizer, a mulher tinha pedido para que eles lidassem com plantas cujas raízes davam socos e pontapés. Como é que poderia ser culpa de Draco se justamente a sua planta havia resolvido agredir Potter quando a professora não estava olhando? Era evidente que o sonserino não tinha motivos para estar ali. Independente do fato de ele ter arremessado a planta contra Potter ou não.
E é lógico que, sendo um ignorante imbecil criado por trouxas, Potter não teve a decência nem de puxar a varinha: partira para cima de Draco com os punhos fechados e a planta ainda agarrada à cabeça, como um maldito Neandertal. O loiro não se fez de rogado e retribuiu a gentileza. Malfoys não costumam fazer uso de agressão física, simplesmente porque é possível causar muito mais dor por meio de magia. Sem falar que um duelo com varinhas é bem mais higiênico — não tem nada de contato físico e essas coisas. O trabalho braçal era sempre deixado para Crabbe e Goyle, mas, para Potter, Draco podia abrir uma exceção.
Ele e Potter se engalfinharam pela estufa, mal ouvindo os gritos dos colegas ao fundo. Levar socos e joelhadas no estômago não foi nada agradável, mas Draco se sentiu profundamente satisfeito quando acertou o rosto de Potter e aqueles óculos ridículos voaram longe. E, quando o grifinório tentou estrangulá-lo, ele conseguiu se desviar e ainda deu uma bela mordida no braço do infeliz, fazendo-o gritar de dor. Mordidas podiam ser deselegantes, especialmente para um Malfoy, mas não dava para negar sua eficiência.
Então Sprout lançou um feitiço que paralisou a ambos e os levitou para longe um do outro. Uma rápida analisada no estado da estufa mostrava que parecia que ela tinha sido atacada por um bando de trasgos ensandecidos.
Draco olhou para Potter, que estava ofegante e com o rosto vermelho, um filete de sangue escorrendo pela boca, os olhos brilhando de raiva, parecendo mais verdes do que nunca. A planta continuava agarrada à sua cabeça, golpeando-o com socos e pontapés, e o sonserino não pôde deixar de rir, mesmo que esse ato tenha feito seus pulmões e costelas reclamarem de dor. A professora olhou feio para ele, desgrudou a planta da cabeça do Cicatriz e devolveu-lhe os óculos depois de consertá-los. Por fim, mandou que os dois a seguissem. Antes de sair da estufa, Draco ouviu Weasley resmungar que ele lutava como uma garota, e ainda teve tempo de levantar um dedo para o idiota sem que Sprout visse.
Lá estavam eles, do lado de fora da sala de Dumbledore, quando Draco olhou de esguelha para Potter. Sua testa estava franzida de preocupação, provavelmente imaginando que iria decepcionar o amado diretor. Claro. Como se Dumbledore fosse algum dia fazer alguma coisa contra o Santo Potter.
O Garoto-Que-Socava-Forte passou nervosamente os dedos pelos cabelos — ainda mais infames do que o normal depois do ataque da planta — e levou a mão até a boca, mordiscando o canto da unha do indicador. Mas se reprimiu imediatamente quando percebeu que era observado.
Foi aí que Draco notou. As mãos de Potter.
A primeira coisa que ele percebeu foram as unhas, comidas até as pontas dos dedos, irregulares e tortas, com alguns fiapos de pele saltados nos cantos. O sonserino não pôde deixar de ficar surpreso. Harry Potter, o pseudo-salvador do mundo bruxo, o amiguinho dos trouxas, o eleito da garotada… roia as unhas.
Em uma situação normal, o sonserino teria feito um milhão de comentários venenosos sobre a descoberta, mas ele simplesmente não conseguiu desgrudar os olhos das mãos de Potter. Percebeu que havia calos em alguns dedos — com certeza devido ao Quadribol. Voar em uma vassoura era delicioso, mas acabava com as mãos de qualquer um. Não com as de Draco, é claro, porque ele usava poções hidratantes após cada treino. Mas, considerando que Potter não sabia sequer pentear o cabelo, era esperar muito que ele já tivesse ouvido falar em hidratante para as mãos.
As mãos de Potter não eram bonitas. Eram maltratadas, grosseiras, os dedos magros e ossudos. Aquelas mãos eram uma prova cabal de que Potter, o venerado Potter, era tão falível e humano quanto qualquer outra pessoa.
E foi assim que Draco se viu fascinado por aquele sinal gritante de imperfeição no sempre tão perfeito Garoto de Ouro.
No final das contas, Dumbledore só havia sorrido ridiculamente para eles e feito um discurso besta sobre responsabilidades. Potter, é claro, ficou envergonhado e arrependido até o fundo da sua alma grifinória e pediu desculpas pelo comportamento.
Draco tentou fazer alguma observação sarcástica e irônica para o diretor, mas estava distraído demais pela imagem de Potter retorcendo as mãos debaixo da mesa. Ele esfregava uma palma contra a outra, as duas suadas de nervoso, e aquilo provocava calafrios no sonserino. Era absolutamente irracional e inadmissível que um Malfoy se abalasse por tão pouco, ele disse a si mesmo, tentando elaborar algum comentário cortante que salvasse sua tarde.
Mas, quando o grifinório começou a apertar os dedos um por um, estalando vagarosamente os ossos, Draco percebeu, horrorizado, uma certa parte da sua anatomia responder àquela visão. O barulho de cada estalo ecoou no fundo do seu cérebro e fez aumentar o volume nas suas calças. Tudo o que o sonserino pôde fazer foi balbuciar algumas ofensas desarticuladas, que, por algum motivo, Dumbledore interpretou como desculpas e disse que liberaria os dois. Com uma detenção a cumprir. Eles teriam que replantar manualmente o canteiro da professora Sprout no dia seguinte.
Juntos.
O loiro pulou da cadeira ao ouvir a sentença, a mente se enchendo de imagens nada bem-vindas das mãos de Potter mexendo na terra, e a sala ficou incomodamente quente. O velho idiota fingiu não ouvir seus protestos e o empurrou junto com o grifinório para fora, rindo feito um retardado.
Draco ainda conseguiu dar um último empurrão em Potter no final das escadas antes de correr desembalado até o banheiro dos monitores para tomar o banho mais gelado de sua vida.
—x—
Ele entrou no Grande Salão na manhã seguinte absolutamente determinado a nunca mais ter momentos de fraqueza como aquele. Culpou a mudança da rotina causada pela alteração no programa de aulas e o fato de estar passando por um período delicado em sua vida particular.
No dia anterior à briga com Potter, Draco havia encontrado Blaise Zabini e Seamus Finnigan em um momento um tanto quanto íntimo no depósito de vassouras. Convenceu a si mesmo que só ficou assistindo àquele disparate por pura perplexidade e pelo choque de ver Zabini com um grifinório, entre todas as pessoas do mundo (a movimentação no seu baixo ventre definitivamente não vinha ao caso e não teve nada a ver com o assunto).
Blaise notou sua presença após algumas dezenas de minutos e, sem interromper o que estava fazendo, apenas perguntou com um sorriso sacana se Draco não queria se juntar aos dois. Desnecessário dizer que ele obteve como resposta uma azaração que encolheu uma parte do seu corpo que deve ter deixado Finnigan literalmente na mão.
Draco havia procurado algum conforto heterossexual com Pansy, mas ela, que começara a sair com Nott durante o verão, recusou, dizendo que cansou de esperar que ele tomasse alguma atitude. O loiro teve que resolver o problema por si mesmo, evitando ao máximo pensar na cena que presenciara antes. Quase conseguiu.
A ocorrência deixou o sonserino um pouco confuso sobre sua sexualidade. Quer dizer, desde o quarto ano ele reparava nos outros meninos nos chuveiros comunais, mas isso era normal, certo? Afinal, apenas o fazia por propósitos comparativos. E acabava sempre concluindo que era muito mais bonito do que os outros, mesmo levando em consideração o tórax de Derrick ou as coxas de Adrian Pucey.
Nunca tinha se interessado por alguma garota em particular, mas sempre pensara que isso se devia ao fato de que nenhuma menina de Hogwarts estava à sua altura. Nenhuma delas tinha o mínimo de classe e fineza que um Malfoy exige. Nem se comparavam à sua mãe.
Pegue Pansy, por exemplo. Como é que ele poderia namorar alguém com aquelas bochechas? Ou Daphne Greengrass, que tinha os peitos tão deselegantemente grandes que deveriam causar problemas de coluna. Ou as gêmeas Patil, cujas sobrancelhas eram ligeiramente assimétricas.
Draco estava começando a considerar a hipótese de que havia uma pequena chance de que ele fosse gay.
Ele tomou seu café sem pressa, se tranqüilizando mentalmente e ignorando os olhares cortantes que Blaise e Finnigan lhe lançavam. A azaração havia passado depois de algumas horas, mas parecia que os dois não queriam arriscar baixar a guarda perto dele. Ótimo. Quem sabe assim aprendessem a respeitar e temer (ainda mais) o nome Malfoy.
Viu com o canto dos olhos quando Potter entrou no Grande Salão, devidamente escoltado pelo Weasley e pela Sangue-Ruim. Não que Draco estivesse ansioso ou aguardando por aquele momento a manhã inteira, de jeito nenhum. Ele e Potter se olharam por alguns momentos antes de o grifinório sentar. Era um jogo entre eles. Todas as manhãs, os dois se encaravam, desafiando o outro a baixar o olhar primeiro. E sempre acabavam desviando o rosto ao mesmo tempo.
Draco se congratulou por conseguir passar as próximas horas sem pensar em Potter ou em suas mãos de ogro. O fato de que ele estava pensando em não pensar em Potter obviamente não significava nada.
Mas o sonserino não conseguiu ignorar o assunto quando, depois do almoço, caminhou para a estufa, onde deveria cumprir a detenção no período livre da tarde. Potter já estava lá, assim como Sprout, que o recriminou por estar atrasado e passou as instruções. Havia mais de cem vasos para serem replantados, e os dois não poderiam usar qualquer tipo de magia para completar o serviço. Ela voltaria para conferir pessoalmente se a detenção tinha sido cumprida direito. Lindo.
Ele e Potter conseguiram passar surpreendentes dez minutos trabalhando em silêncio. Quer dizer, Potter trabalhando, e Draco pensando em um jeito de não se sujar. Desde que alguma entidade do além com a cabeça flutuante igual à de Potter tinha arremessado lama nele no terceiro ano, o sonserino não apreciava o contato com a terra. Como se não bastasse, aquela estufa era absurdamente quente. Draco desejou poder mandar Crabbe e Goyle cumprirem a detenção por si.
"Vai ficar só olhando mesmo, Malfoy?", Potter perguntou, irritado.
"Sabe que não é uma má idéia, Potter?", Draco respondeu e se virou para encarar o outro. A estufa ficou ainda mais quente com a visão que ele teve. Potter estava de joelhos no chão, os óculos escorregando pelo nariz suado e o rosto todo sujo. Nada de mais até aí. O problema eram as malditas mãos. De novo. As mãos de Potter afofavam e amontoavam a terra com vigor, esbanjando força e energia. Mas, ao mesmo tempo, não deixavam de ter uma certa delicadeza, um cuidado no toque, quase como uma carícia.
Draco sentiu um calor subir pelo seu pescoço e grunhiu de raiva. Jogou-se de joelhos no chão e começou a mexer na terra freneticamente, tentando esquecer aquela imagem e o incômodo que ela causava na sua virilha.
O sonserino trabalhou com uma energia que não sabia que possuía para se livrar logo daquilo. Potter não aceitou bem ser ignorado daquele jeito, e os dois acabaram cumprindo a detenção entre ofensas, Draco sempre de costas para o grifinório. Ao terminar sua parte, o sonserino parabenizou-se mentalmente por quase não ter se virado para espiar o moreno (o que eram quinze vezes, afinal das contas?).
Mas, quando Potter bateu as mãos uma na outra para limpá-las, passando-as em seguida pelas próprias coxas, Draco achou que já era provocação demais. Não teve alternativa que não mergulhar o rosto do moreno na terra. E sair correndo para mais um banho gelado.
— x —
Draco se jogou na cama aquela noite com um suspiro. Entre a detenção, as aulas e o esforço mental de ignorar a existência de Potter e suas mãos, havia ficado exausto. Usou a varinha para fechar as cortinas da cama e se virou de bruços, escorregando um braço por debaixo do travesseiro. Apertou os olhos com força.
Recusava-se terminantemente a pensar em Potter antes de dormir. Mesmo. Não pensaria em Potter, nem nas suas mãos ou no que ele poderia fazer com elas. Não pensaria em como ele apertava os lábios quando estava nervoso e nem na maneira como passava vagarosamente a língua por eles, deixando-os úmidos e avermelhados. E muito menos concluiria que aquele cabelo bagunçado até que tinha seu charme.
Draco passou muito tempo não pensando em Potter antes de conseguir dormir.
— x —
O sonserino entrou atrasado no Grande Salão na manhã seguinte, e a culpa era toda de Potter, que o atormentava agora até em seu inconsciente, aparecendo em seus sonhos com aquelas mãos e aqueles lábios e… Pensando bem, era melhor se Draco não pensasse no que Potter andara fazendo em seu inconsciente, porque o Grande Salão não era o local apropriado. Quer dizer, o melhor mesmo era que ele lançasse um Obliviate em si próprio mais tarde, para apagar todas aquelas imagens perturbadoras da mente. Errr… bem… talvez deixasse algumas de recordação. Sabe, por curiosidade acadêmica. Porque duvidava que o corpo humano fosse tão flexível daquele jeito. Ainda mais em cima de uma vassoura e a alguns metros do chão.
Ele sentiu os olhos de Potter recaírem sobre si assim que atravessou a porta, mas obrigou-se a não olhar. Caminhou até a mesa da Sonserina com toda a dignidade que alguém pode ter quando havia passado a noite inteira sonhando com o inimigo e fez Goyle expulsar alguns pirralhos do primeiro ano para que pudesse ter espaço para desfrutar sua refeição. Potter ainda não havia desviado o olhar.
Draco engoliu a seco, respirou fundo, contou mentalmente até cem e repetiu baixinho o mantra "não olhe para as mãos, não olhe para as mãos" antes de levantar a cabeça na direção da mesa da Grifinória. E lá estavam aqueles olhos verdes, tão irritantemente verdes, mesmo por trás dos óculos ridículos e com toda aquela distância. O sonserino sentiu o estômago revirar e o coração disparar quando os dois olhares se focaram um no outro, quase produzindo faíscas pelo Grande Salão. E ele não desviou o rosto. Não por orgulho, não em desafio, mas simplesmente porque não conseguiria mesmo se quisesse.
Não saberia dizer por quanto tempo ficaram daquele jeito, só notou vagamente quando Weasley deu uma cotovelada em Potter, o rosto com uma expressão confusa, e o grifinório desviou o olhar, as bochechas corando intensamente. Uma parte do cérebro de Draco fez uma anotação mental para matar Weasley assim que possível.
Limpou a garganta, só então percebendo que toda a mesa da Sonserina o encarava com curiosidade. Distribuiu alguns olhares cortantes, só para lembrar quem é que mandava ali, e saiu apressado, deixando instruções para que Crabbe e Goyle levassem suas coisas para a sala de aula. Precisava de outro banho gelado.
Aquilo estava perdendo a graça.
A Sonserina não teve aulas com a Grifinória durante o dia inteiro, graças a Salazar, e Draco também mal viu Potter durante as refeições, porque o heroizinho do mundo bruxo aparentemente estava ocupado demais para se sentar à mesa e comer como um simples mortal. Ele e Weasley apenas separaram alguns sanduíches e saíram afobados, em meio a uma discussão animada sobre o jogo de Quadribol contra a Corvinal no final de semana.
Draco pôs a culpa na umidade relativa do ar quando Pansy lhe perguntou, pouco antes de ir deitar, o motivo de tanto mau humor.
— x —
'Maldito Binns', o loiro pensou dois dias depois, durante a aula de História da Magia que a Sonserina estava dividindo com a Grifinória. Draco quase não vira Potter no dia anterior — o Cicatriz não aparecera nem para o café da manhã. Parecia que os grifinórios estavam trabalhando em uma nova tática de jogo, e o time inteiro passava todo o tempo livre treinando e fazendo planos. Humpf. Idiotas.
Não que Draco tivesse sentido falta do outro. É claro que não. Não que ele tivesse pensado em Potter em todos os seus momentos conscientes e sonhado com aquelas mãos quando fora dormir. E ele só havia chegado meia hora mais cedo na aula para garantir um lugar do qual fosse possível observar a sala inteira sem ser notado por puro instinto sonserino. Sabe, ficar de olho no inimigo e essas coisas. Afinal, Longbottom poderia tentar fazer algum feitiço durante a aula e acabar cegando alguém com a varinha. Precaução nunca é demais.
Por isso, se Draco estava distraído, a culpa era toda de Binns e da sua completa falta de didática. E, claro, indiretamente de Dumbledore, por deixar um professor daquele nível lecionar em Hogwarts. Porque apenas a aula de alguém muito, muito incompetente poderia fazer Draco achar a imagem de Potter dormindo algo interessante de se assistir.
Potter estava sentado sozinho na fileira ao lado da sua, uma cadeira para frente, atrás de Weasley, que dividia o lugar com Granger. A Sangue-Ruim não perdia uma palavra do que o professor falava, mas Weasley estava dormindo praticamente desde o instante em que pisara na classe. E, é claro, deselegante como era, o trasgo ruivo babava em cima dos próprios livros. Argh. Não era uma boa imagem.
'Maldito Binns', o sonserino murmurou de novo por entre os dentes quando Potter suspirou em seu sono. Ele pelo menos havia sido mais discreto que o Weasel. Havia passado os primeiros quinze minutos da aula desenhando estratégias de Quadribol em um pergaminho e depois rabiscara alguns desenhos bobos. Conseguiu sujar o dedo de tinta sem perceber e, idiota que só ele, acabou passando a mão no rosto, deixando uma marca azul em uma bochecha. Mas antes que Draco pudesse pensar em algum comentário maldoso a respeito, o moreno tirou e guardou os óculos e então se debruçou sobre a mesa, com o rosto virado para o lado do sonserino. Ele fechou os olhos devagar e, em poucos minutos, estava adormecido.
Draco ficou completamente preso à imagem de Potter dormindo, tão sereno e despreocupado. A franja cobria a testa quase por inteiro, escondendo a famosa cicatriz. Sem os óculos, era possível analisar o perfil do seu rosto em detalhes, das sobrancelhas bem desenhadas aos lábios ligeiramente entreabertos. Era curioso como o rosto de Potter mesclava características. Havia um quê de infantil naqueles traços, como se o grifinório ainda conservasse uma áurea de inocência, de uma infância perdida em algum momento do tempo. Mas também eram claros os sinais de uma determinação absolutamente madura e convicta, que evidenciava por que tanta gente apostava em Potter contra o Lorde das Trevas.
Draco acompanhou o subir e descer do tórax do outro, decorando em silêncio cada centímetro daquele rosto e ignorando solenemente a voz na sua cabeça que o mandava correr para a ala de Danos Mentais Permanentes do St. Mungus. Nunca tinha visto Potter tão de perto sem os óculos e com certeza jamais encontrara no rosto dele aquela expressão de tranqüilidade. Era estranho. Fazia com que ele parecesse… vulnerável. 'E adorável', a mesma voz na sua cabeça acrescentou antes de retomar os apelos para que ele procurasse ajuda médica profissional.
E ainda havia as mãos. Aquelas mãos, que Draco fazia tanto esforço para ignorar, mas que pareciam atrair seus olhos como ímãs. Potter estava deitado sobre os braços, e uma de suas mãos pendia para fora da mesa. Ótimo. Draco precisava de mais um banho gelado agora, e tudo que tinha feito era olhar para a mão de Potter. " St. Mungus, St. Mungus, St. Mungus", sua mente não cansava de repetir. O sonserino sentiu o rosto aquecer ao pensar que, se estendesse um pouquinho o braço, poderia tocar nos dedos do outro. Aqueles dedos alongados e feios, cheios de calos e com as unhas roídas. Aqueles dedos que nos sonhos do loiro o provocavam, correndo pela sua pele, apertando os pontos mais sensíveis, deixando marcas vermelhas por onde passavam...
Draco mordeu os lábios com força. Aquela podia ser sua única chance. Tomando cuidado para não atrair a atenção de ninguém (uma preocupação desnecessária pois a sala inteira, com exceção dele, de Granger e de Binns, estava dormindo), o sonserino se esticou na cadeira até ficar na ponta do pé.
Tão perto, tão perto, tão perto. Estendeu o braço devagar, fingindo não perceber que sua mão tremia. Virou a palma para cima quando se aproximou da mesa de Potter e prendeu a respiração conforme sentiu o calor irradiado pela mão dele. As pontas dos seus dedos encostaram nas pontas dos dedos de Potter, e o loiro não conseguiu conter um gemido, sentindo sua calça ficar incomodamente apertada. Potter suspirou mais uma vez enquanto dormia e moveu os dedos de leve, raspando-os nas mãos do sonserino. Aquilo foi quase demais para Draco, que recolheu o braço com rapidez, afundando a cabeça entre os cotovelos, a respiração ofegante. Demorou alguns minutos para que ele retomasse o controle e pudesse voltar a assistir Potter dormir.
Ficou um pouco decepcionado quando a aula acabou, e Granger virou-se para acordar o grifinório. Draco começou a enfiar o material de volta na mochila, espiando enquanto a Sangue-Ruim discursava sobre a importância dos dois amigos prestarem atenção na aula. Quando notou a mancha de tinta na bochecha de Potter, Granger revirou os olhos numa atitude extremamente maternal. Ela apontou com a varinha para o Cicatriz e murmurou um feitiço, livrando-se da mancha. Draco sentiu uma pontada de indignação (recusava-se a pensar na palavra "ciúme") quando viu Granger segurar o rosto de Potter pelo queixo para examinar o resultado.
Apertando os olhos de raiva e com o peito queimando de modo estranho, Draco se apressou em sair da sala. Quando passou pelo Trio de Ouro, fez questão de dar um empurrão em Potter com o ombro. Cheio de sono como o outro estava, perdeu o equilíbrio e acabou batendo de cara contra a parede. Ha. Isso deveria ensinar Potter a não deixar que a Sangue-Ruim encostasse nele.
— x —
O dia seguinte era o do jogo da Corvinal contra a Grifinória, e Draco acordou mais cedo do que o costume, sentindo uma inexplicável ansiedade, que nem remotamente estava relacionada à perspectiva de ver Potter voando.
Sério. Ele não ficou acordado até tarde lembrando da felicidade no rosto de Potter cada vez que ele montava em uma vassoura ou em como flexionava o corpo quando voava, se tornando quase um com sua preciosa Firebolt. Muito menos tinha imaginado a nada “estimulante”cena de Potter… hmmmm… polindo o cabo da sua vassoura com aquelas mãos. Aquelas malditas mãos tão rudes e ao mesmo tempo tão gentis que deixariam o loiro enlouquecido se o tocassem e… grunf! Melhor não pensar nisso.
No entanto, por mais que doesse em Draco admitir (e, acredite, doía muito), o grifinório realmente era bom voando. Mais do que bom, se o sonserino fosse sincero. Potter voava como se não existisse mais nada que valesse a pena no mundo. Como se cada segundo fosse o último, e ele tivesse que desfrutar ao máximo. Potter voava como se voar fizesse parte da sua própria natureza.
Draco enrolou na cama o máximo que conseguiu antes de ir tomar banho e passou mais tempo do que o normal arrumando o cabelo. Foi para o Grande Salão junto com os outros sonserinos, notando a ausência de todos os jogadores do time da Grifinória. Os idiotas deviam ter levantado de madrugada para repassar a estratégia do jogo.
Com a desculpa de conseguir bons lugares, ele foi antes que todo mundo para o campo de Quadribol, onióculo em mãos. Certificou-se que ninguém o observava e, bem localizado na arquibancada, procurou por Potter em meio aos jogadores da Grifinória, que já tinham saído do vestiário e se aqueciam no campo.
E lá estava ele. De pé, afastado dos outros, olhando para sua vassoura em profunda concentração. Draco percebeu pelo vinco na sua testa e pela maneira como ele empurrava os óculos contra o nariz a cada minuto que Potter estava nervoso. Ha. Como se os nerds da Corvinal fossem motivo para se preocupar...
Mas então Potter fez uma coisa que deixou Draco preocupado. Ele levou o polegar até a boca e começou a roer a unha. Isso mesmo, senhoras e senhores, roer a unha, em plena luz do dia, na frente de todo mundo. Draco apertou com mais força o onióculo contra os olhos, mordendo os lábios. Por Merlin, como Potter podia ser tão pervertido a ponto de ficar roendo as unhas assim, a céu aberto, para qualquer um ver? Havia crianças no local! Os primeiro-anistas iriam ficar traumatizados se vissem aquilo.
Bem, eles também ficariam traumatizados se vissem o volume na frente da calça de Draco naquele exato momento…
As arquibancadas já estavam cheias, e, o jogo, prestes a começar. Madame Hooch acenou para que os capitães se colocassem em posição. Só então Potter tirou a mão da boca, limpando-a nas vestes antes de estendê-la para o capitão da Corvinal. Draco se remexeu no lugar quando o garoto apertou a mão de Potter por muito mais tempo e com muito mais entusiasmo do que o necessário. O nerd entrou para a lista de pessoas que Draco precisava matar, logo após Weasley e a Sangue-Ruim.
O jogo começou, e a Corvinal não teve chances. O novo esquema tático da Grifinória, com duas artilheiras avançadas trabalhando em paralelo e enquanto a terceira se revezava nas balizas, surpreendeu os adversários, e Weasley não deu nenhum vexame (nenhum maior do que a sua mera existência, quer dizer). Mas o destaque do jogo foi Potter, que fez todos lembrarem por que ele era o apanhador mais novo do século. Ninguém poderia dizer que o grifinório estava apreensivo minutos antes do início da partida, porque ele voava com uma segurança de dar inveja. Tão desenvolto e tão livre que não foi surpresa nenhuma quando, depois de quarenta minutos de jogo, Potter agarrou o pomo de ouro e encerrou a partida.
Draco passou alguns minutos boquiaberto antes de se obrigar a deixar as arquibancadas junto com os outros sonserinos, concordando com a cabeça com as reclamações sobre a Corvinal ter sido roubada.
Realmente, que absurdo…
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A semana de interação entre as casas chegou ao fim, e as aulas foram retomadas na semana seguinte no esquema normal, para alívio de todos (especialmente de Sprout, que jurou que nunca mais aceitaria trabalhar com Sonserinos e Grifinórios juntos. Draco sentiu uma ponta de orgulho por saber que ele era um dos principais motivos dessa resolução).
Isso significava menos aulas compartilhadas com a Grifinória — só Poções e Defesa Contra as Artes das Trevas — o que, por sua vez, queria dizer que Draco veria Potter com menos freqüência. Não que ele se importasse, é claro. Não que ele tivesse passado a semana inteira escaneando o Grande Salão compulsivamente pelo grifinório a cada chance que tinha, ou se sentisse satisfeito quando encontrava aqueles olhos verdes o encarando de volta. Não que ele tivesse revisto as imagens de Potter no onióculo tantas vezes que elas já estavam começando a desgastar. Não, ele não sentia falta alguma de Potter ou de suas mãos e nem deixava que isso o afetasse.
Pansy estava começando a achar estranho o fato de a umidade relativa do ar influenciar tanto o humor de Draco.
— x —
Abençoada aula de poções, Draco pensou alguns dias depois. Snape discursava em um tom monótono sobre as propriedades das poções que eles estudariam naquela aula, e Draco se deixou divagar, o olhar automaticamente atraído para Potter, cujo caldeirão estava direcionado bem na sua frente. O grifinório se esforçava para prestar atenção na explicação e não se deixar levar pelas provocações do professor. Draco tinha certeza que o pequeno Potty só tinha conseguido um lugar naquela aula por influência de Dumbledore, o que explicava o aumento da indisposição de Snape.
O sonserino não entendia como alguém podia ir mal em poções. Era uma matéria tão fácil e tão lógica e ao mesmo tempo tão fascinante. Mas, é, claro, era de Potter que ele estava falando, e o idiota possuía uma lógica que só fazia sentido no seu mundinho vermelho e dourado.
Snape parou de falar, e era hora de começar a preparar a poção. Draco separou os ingredientes com cuidado e os dispôs sobre a bancada na ordem em que deveriam ser colocados no caldeirão. Sentiu os olhos verdes do outro lado da sala grudados nele em todos os momentos, mas, quando olhava de volta, o grifinório apenas desviava o olhar. O sonserino quase cortou o dedo por causa disso. Era difícil se concentrar em picar raízes ou destilar sangue de salamandra com Potter (e suas mãos) a apenas um olhar de distância.
O professor tinha voltado a falar agora, algo sobre a temperatura adequada para o cozimento de algo que Draco não fazia idéia, porque não havia parado de olhar para Potter. Era incrível como os olhos dele ficavam ainda mais verdes com o reflexo da chama do caldeirão. E então o grifinório passou a mão pela testa para enxugar o suor, afastando a franja dos olhos, e a palma desceu pela bochecha e, oh, por Merlin, ele estava estalando os dedos agora, e Draco nunca tinha reparado em como as masmorras eram tão quentes e…
Não, não, não, aquela não era hora para pensar naquilo, e não, não, não, não estava escrito "me lamba, Malfoy" no pescoço de Potter e não, definitivamente não, a mesa de Snape não estava lá para ser usada com a finalidade que ele tinha em mente.
Draco conseguiu desviar sua atenção para o próprio caldeirão por exatos trinta segundos antes de voltar a olhar para Potter. O grifinório o encarou também e, por algum motivo, corou quando os olhares se encontraram. Potter o mirou por alguns segundos antes de desviar o rosto, parecendo constrangido e nervoso. Era incrível o efeito que aquela aula tinha nele. O moreno começou a folhear o livro de poções a esmo, provavelmente procurando alguma dica para salvar o seu trabalho. Draco continuou a observá-lo em silêncio, sentindo o calor nas masmorras aumentar e aumentar, assim como a pressão no seu baixo-ventre. O grifinório empurrou de novo os óculos contra o nariz e franziu a testa em confusão para o livro. E então, devagar, ele levou o indicador à boca e começou a morder o canto da unha.
Nessa hora, o caldeirão de Draco explodiu.
O de Potter explodiu logo depois.
O sonserino levou alguns segundos para se recuperar do susto, sentindo o rosto corar ao perceber que, se ele tivesse continuado a olhar para Potter roer a unha, a situação de dentro da sua calça também acabaria explodindo. Ele abriu a boca, tentando pensar numa desculpa coerente para o desastre, mas Snape já estava atravessando furiosamente a sala, deduzindo pontos da Grifinória e ameaçando Potter com uma detenção por ter "sabotado o trabalho do sr. Malfoy". Bem, não deixava de ser verdade...
No final, Draco se safou sem dano algum, e ainda teve a alegria de ver cinqüenta pontos serem tirados da Grifinória — vinte pela "sabotagem" de Potter, vinte por ele ter explodido o próprio caldeirão e dez pela insistência dos seus amiguinhos em argumentar que o Cicatriz não havia feito nada de errado. Potter mesmo não havia falado nada, só olhara para Draco com uma expressão de raiva e... seria mágoa?... que fez com que ele quase se sentisse culpado por um milésimo de segundo.
Antes de sair da sala, o sonserino fez questão de derrubar sangue de salamandra na bancada que Potter tinha acabado de limpar e avisou Snape que o grifinório não tinha cumprido o trabalho direito — ao que o professor, com um sorriso sarcástico, deduziu mais cinco pontos da Grifinória e avisou que Potter não iria embora enquanto o local não estivesse brilhando. Draco saiu da sala muito satisfeito consigo mesmo.
Certos hábitos nunca morrem.
— x —
Potter passou a evitá-lo depois do episódio. Os olhares desafiadores de Draco não eram mais retribuídos e seus comentários encontravam apenas o silêncio do grifinório, que se esquivava pelos corredores quando o avistava. Já fazia 9 dias, 5 horas, 23 minutos e 47 segundos que o moreno se recusava a olhar para ele. Não que Draco estivesse contando.
E lá estava Potter, sentado na mesa da Grifinória, almoçando tranqüilamente como se Draco não existisse. O imbecil ainda tinha coragem de rir enquanto falava com Weasley e Finnigan, passando as mãos pelos cabelos. As mãos. Argh. As mãos. Draco achava que conhecia as mãos de Potter melhor do que as suas agora, de tanto tempo que passava as admirando. Quer dizer, desprezando.
O sonserino cortou mais um pedaço da sua carne, torcendo o nariz pela animação na mesa dos grifos. Esse povo não tinha o menor respeito pelos momentos de refeição alheia? Desse jeito, Hogwarts acabaria registrando o primeiro caso da história da medicina de indigestão coletiva provocada por alegria grifinória.
Ele levantou o rosto para encarar Potter mais uma vez, dizendo a si mesmo que toda aquela pose alegre era só fingimento. Claro. É óbvio. Por dentro, Potter só podia estar miserável, se perguntando o que poderia fazer para Draco perdoá-lo. Porque ninguém poderia ser feliz ignorando Draco Malfoy.
Finnigan aproveitou que Potter e Weasley tinham se virado para falar com a Sangue-Ruim para lançar um olhar para a mesa da Sonserina. Ou melhor, para Blaise. Draco viu quando o grifinório levantou a sobrancelha e, tão discreto e gracioso quanto um hipogrifo bêbado, apontou com a cabeça para a porta antes de levantar e sair com uma piscadinha. Blaise levantou no mesmo segundo, deixando metade do almoço intocado, e correu atrás do loiro. Draco achou que fosse vomitar.
O lugar ao lado de Potter estava vago agora, e Draco estreitou os olhos ao ver quem o ocupou. A Weasley-fêmea. Ela suspirou quando Potter se virou para cumprimentá-la e começou a falar sem parar, rindo exageradamente de todo e qualquer comentário que o grifinório fizesse e jogando os cabelos de um lado para o outro como se tivesse uma mola no lugar do pescoço.
Patético. Simplesmente patético.
Mas Potter, idiota como era, não percebia que a menina estava quase se jogando no colo dele, e continuava a dar-lhe atenção. E então a Weasley-fêmea cometeu um pecado mortal. Ela ousou tocar em Potter, um tapinha fraco no seu braço enquanto ria e balançava o cabelo, a linguagem corporal universal de "me-joga-na-parede-e-me-chama-de-lagartixa". Draco estreitou ainda mais os olhos, desejando que a cabeça da idiota explodisse só pela força do seu pensamento. E lá estava ela, tocando em Potter de novo, e, oh, por Merlin, que oferecida, dessa vez ela acariciou o braço dele, quem ela pensa que era para poder-
"Draco. Draco, querido…", a voz de Pansy soou meio hesitante do seu lado. "… eu não sei qual é o problema da umidade relativa do ar no Grande Salão, mas, por favor, largue a faca. E não faça essa cara de maníaco. Você está assustando os primeiro-anistas. Os Lufas já estão quase chorando".
Só então o sonserino percebeu que segurava a faca ameaçadoramente suspensa no ar e abaixou o braço. Ele olhou para o lado e notou que os alunos do primeiro ano estavam todos amontoados na ponta da mesa, uma expressão de terror no rosto. Do outro lado, alguns Lufas-Lufas o encaravam horrorizados, os olhos lacrimejantes de medo.
"Humpf", ele exclamou, se ajeitando melhor no lugar. Deu um gole no suco de abóbora e se certificou que Pansy não o observava mais antes de voltar a olhar para a mesa da Grifinória.
A Weasley-fêmea ainda não tinha desistido, e Potter continuava tão obtuso quanto sempre em relação às suas investidas. Oh, francamente. Por que ele não mandava a menina embora logo? Onde estava a tão falada nobreza grifinória nessas horas? E então Ginny Weasley fez uma coisa imperdoável, que colocou seu nome no topo da lista de pessoas que Draco tinha que matar. Ela segurou a mão de Potter. Aquilo já era demais.
"Chega!", o sonserino gritou, ficando de pé num pulo. O Grande Salão inteirou voltou-se para ele, mas seus olhos não desgrudaram da mão da ruiva, que ainda não deixara a de Potter. Draco sacou a varinha do bolso e murmurou o primeiro feitiço que lhe veio à mente: a azaração para rebater bicho-papão, que fez com que o rosto da garota ficasse coberto de asas e seu cabelo virasse um ninho vermelho. Draco não esperou para colher os frutos do seu ataque, disparou em retirada enquanto todo mundo tentava entender o que tinha acontecido. Dessa vez, sentiu os olhos verdes acompanharem seus passos.
Draco caminhou furioso pelo corredor, resmungando contra Potter, suas malditas mãos e amaldiçoando todas as gerações de Weasleys. Entrou na primeira sala com a porta destrancada que encontrou, já imaginando que algum professor deveria segui-lo exigindo explicações. Ele grunhiu quando encontrou Blaise e Finnigan dentro da sala, engajados em atividades que Draco não queria presenciar.
"Pelo amor dos puros-sangues, Blaise, vê se aprende um feitiço para trancar a porta!", ele esbravejou, fechando os olhos com força, e lançou no amigo a mesma azaração da vez anterior. Antes que Blaise e Finnigan pudessem protestar, Draco deu as costas, e dessa vez trancou a porta por fora. O lindo casal que passasse as horas seguintes refletindo sobre noções de privacidade.
Quando acabou de lançar o feitiço na porta, se virou de volta ao corredor, apenas para encontrar dois olhos verdes o encarando.
"Você é um idiota, Malfoy!", Potter gritou, enraivecido.
"Oh, Potty, assim você magoa meus sentimentos!", Draco desdenhou, centrando o olhar na moldura de um quadro atrás do grifinório. Não precisava olhar para ele.
"Por que você fez aquilo com a Ginny?", o grifinório perguntou.
"Oh… que bonitinho. Defendendo a namoradinha… Por favor, me poupe! Eu acabei de comer!", o loiro respondeu amargamente e continuou a andar, desejando que não fosse ciúmes aquele sentimento estranho refletido na sua voz. Felizmente, achou outra sala destrancada, e dessa vez vazia.
Potter bufou e o seguiu para dentro da sala antes que o loiro pudesse fechar a porta. Ele segurou o sonserino pelo ombro, obrigando-o a virar para encará-lo. Draco sustentou o olhar com toda a força de vontade que ainda tinha. E então Potter o empurrou contra a parede, o pressionando pelo tórax com uma mão, os dois corpos perigosamente próximos.
O cérebro de Draco travou.
"Uh", foi tudo o que pôde articular, porque não conseguia passar o recado para o resto do corpo que ele não deveria ficar excitado por aquela situação. Potter estava prestes a socá-lo, e ele sabia por experiência própria que o grifinório tinha a mão pesada. Oh, Merlin, não, aquela também não era hora de pensar nas mãos de Potter.
"Você é um idiota, Malfoy", Potter repetiu num quase sussurro, os rostos tão perto que Draco sentiu a respiração do outro em suas bochechas. Ele engoliu a seco. Tinha que dar alguma resposta para salvar o que restava de sua dignidade.
"Vo… você já disse isso", ele gaguejou. Certo. Não tinha sido o melhor comentário da sua carreira, mas pelo menos tinha conseguido dizer alguma coisa. O que, considerando as condições atuais, era uma vitória.
"Mas você é…", Potter sussurrou na sua orelha agora, e o sonserino se recusou a acreditar que fosse essa a causa do seu tremor. "Um perfeito idiota".
E Draco estava quase pronto para admitir que era mesmo o maior idiota do mundo se isso fizesse Potter continuar a murmurar em seu ouvido.
"Sabe por que eu acho isso, Malfoy?", o grifinório perguntou, raspando os lábios de leve no lóbulo da sua orelha. Draco não confiou na própria voz para responder e apenas balançou a cabeça em negação.
Potter deu um passo para trás e o encarou nos olhos por alguns momentos. Draco prendeu a respiração quando o grifinório voltou a se aproximar, os dois rostos tão perto, tão perto… Suas pálpebras fecharam por vontade própria, e então Potter juntou os lábios nos dele, e Draco achou que fosse morrer. Não havia nada de hesitante no beijo de Potter, ele era exigente e provocante e ao mesmo tempo delicado, e, quando o moreno inclinou a cabeça para o lado, Draco entreabriu os lábios num convite mudo. Uma corrente elétrica percorreu seu corpo quando as línguas se tocaram pela primeira vez e, oh, sim, agora Draco tinha certeza de que iria morrer.
Potter deslizou a mão do seu tórax para o pescoço, acariciando levemente sua nuca com os dedos, e o loiro sentiu os joelhos fraquejarem. O grifinório respondeu chegando mais perto, prendendo o corpo de Draco inteiramente com o seu. Oh, por Salazar, aquele era o melhor beijo da história de todos beijos desde o início da humanidade. Deveria existir algum tipo de registro para isso, e nunca ninguém seria páreo para Draco e Potter.
O beijo continuou por inúmeros e felizes minutos, e em algum momento os braços de Draco haviam enlaçado Potter pela cintura e as mãos de Potter haviam enveredado pelos cabelos do sonserino. Quando as bocas se separaram, o grifinório mergulhou o rosto nos fios loiros, aspirando seu perfume, e Draco começou a distribuir beijos pelo pescoço do outro, seguidos por lambidas e pequenas mordidas.
".deus", uma voz feminina fez os dois pularem de susto. Draco arregalou os olhos e se virou para encontrar Granger parada diante da porta aberta, uma mão cobrindo a boca, e Weasley ao seu lado, ligeiramente verde.
"Eu não acredito! Não acredito!", Weasley berrou, parecendo meio nauseado. "Isso não pode estar acontecendo, é uma ilusão, eu sei que vou fechar os olhos e essa imagem vai desaparecer".
Weasley cobriu o rosto com as mãos e em seguida entreabriu os dedos devagar, espiando pelas frestas. Grunhiu quando percebeu que Draco e Potter ainda estavam lá.
"Ah.. Harry! Harry! O que o Malfoy fez com você? Vem, eu vou te levar para a enfermaria, tenho certeza que a Madame Pomfrey pode dar um jeito!"
Potter franziu a testa.
"Olha, Ron, depois eu explico, mas estou aqui de vontade própria, o Malfoy não fez nada comigo, quer dizer, nada que eu não quisesse e-", ele se interrompeu, corando.
Weasley grunhiu de novo e tapou as orelhas com as mãos.
"A gente acabou de encontrar o Seamus e o Zabini na sala ao lado, e, olha, isso já era suficiente para me dar pesadelos pelo resto da vida, principalmente porque o… errr… do Zabini… bem…", ele choramingou, desesperado como uma criança que é proibida de comer sobremesa. "...e, agora… Oh, Merlin! Não você, Harry! E não com o Malfoy!"
Draco não teve tempo para se sentir indignado, porque em menos de um segundo Granger, que havia se recuperado do susto, estava empurrando Weasley para fora e fechando a porta. "A gente conversa depois", Potter disse para o ruivo, que aparentemente se negava a deixar o melhor amigo sozinho com "aquela doninha idiota". Humpf.
"Err… me desculpe por isso", Potter disse, meio constrangido, passando os dedos pelo cabelo.
Draco se inclinou contra a parede, tentando desviar o olhar dos lábios inchados do grifinório.
"Então… o Seamus e o Zabini… eu não sabia dessa…", Potter falou enquanto alisava as vestes, o olhar centrado no chão.
"Ah, eu sabia mais do que gostaria", o sonserino respondeu . "Aliás… não chegue muito perto do Blaise, sim? Ele não anda muito… bem humorado… ultimamente", Draco advertiu. Do jeito que Zabini era, provavelmente tentaria se vingar dele em Potter.
Os dois voltaram a ficar em silêncio.
"Eu acho que a gente deveria conversar…", Potter falou um tempo depois, meio hesitante, se aproximando dele. Draco concordou devagar com a cabeça, em pânico. Conversar? Sobre o quê? Como assim?
"Olha, eu gosto de você, Malfoy", Potter assumiu depois de respirar fundo. "Estou tentando te falar desde o começo das aulas, mas sempre que eu achava que você poderia ter algum interesse por mim você fazia alguma coisa idiota, como jogar uma planta na minha cabeça, me empurrar da escada, afundar meu rosto na terra, me fazer dar de cara na parede, arranjar problemas com o Snape. Você é um idiota, Malfoy. Mas eu gosto de você mesmo assim".
Potter abriu um sorriso tímido, o rosto corado,e segurou as mãos de Draco. O loiro se sentiu derreter por dentro. Então… Potter também gostava dele. É claro. Ele já sabia. Ninguém resiste aos encantos de um Malfoy.
Os olhos verdes o encararam em expectativa, e Draco percebeu que era sua hora de dizer alguma coisa. Mas de jeito nenhum ele iria admitir sua pequena obsessão por Potter. Isso seria indigno demais.
"Eu também gosto… de… vo… err… hmmm… é… das suas mãos", ele gaguejou, sentindo o rosto aquecer.
O sorriso de Potter aumentou, e ele encarou as próprias mãos.
"Mas minhas mãos são feias! Tão feias! As suas mãos são tão lindas, você não rói unhas e não tem calos por causa do Quadribol, e sua pele é tão branquinha…", ele disse, corando de novo. "Suas mãos são muito mais bonitas do que as minhas".
"Mas isso é óbvio…", Draco sussurrou e se inclinou para mais um beijo. E era como se o mundo de repente fizesse sentido. Agora que tinha conseguido colocar as mãos em Potter (e em suas mãos), jamais iria largá-lo. Não que ele estivesse apaixonado, é claro.
FIM
Lili, minha querida, aqui está o seu presente, com alguns dias de atraso. Pode não ter ficado grande coisa, mas saiba que foi de coração. Desejo toda a felicidade do mundo para você e vida longa à nossa amizade, que só fica melhor com o tempo.
Ps.: Agradecimentos especiais à Dana Norram. Coisinha silvestre do meu coração, muito obrigada pela betagem e por lutar bravamente contra o mau humor deste site para postar a fic para mim. You rulez!