|
Author of 8 Stories |
Hey Minna! Como vão vocês? Aqui é a Milk! Sei que estou atrasada com minha fic de Rurouni Kenshin, mas antes de posta-la queria apresentar a vocês esta nova fic minha de Haruka e Michiru. Ela terá dois capítulos ENORMES, se vocês gostarem talvez eu faça mais um capítulo como um epílogo, só para mostrar um pouco de como as coisas ficaram depois dos acontecimentos, mas para isso eu preciso que vocês COMENTEM POR FAVOR! Quem tem algum preconceito contra Yuri não leia! Ela não é hentai, mas nem por isso é muito inocente. Está bem no estilo de minhas fics, espero que gostem... gostaria de enumerar somente algumas observações para melhor entendimento da história :
1 – As falas de Haruka estão no masculino, pois o modo de falar dela no original japonês é masculino. Isso não quer dizer que ela queira ser homem, ou coisa parecida. Por sinal eu também prefiro falar “Boku” ao invés de “Watashi”, é só um outro jeito de falar.
2 – Optei por usar os nomes originais e o modo de escrita mais correto como “Tenou” ao invés de “Tenoh” (pronuncia-se Ten’ou). Um pequeno dicionário para facilitar as coisas, já que nossa dublagem não foi muito generosa com os nomes :
Usagi – Serena
Makoto – Lita
Minako – Mina
Mamoru – Darien
Chibiusa – Rini
Kun – Modo carinhoso de se tratar no masculino (utilizado para crianças)
Chan – Modo carinhoso de se tratar no feminino (utilizado para crianças)
3 – A personalidade dos personagens está baseada na obra original de Bishoujo Senshi Sailor Moon, ou seja, o manga. Você pode achar que eu mudei os personagens, mas acredite, eles estão exatamente da maneira como devem ser.
Agradecimentos especiais a minha amiga Carola que sempre teve paciência para ler, dar suas idéias e opiniões à fic, Muito obrigada! E a Ne que participou desde quando esta história não passava de um rascunho em uma solitária folha de fichário na aula de física.
Esta é uma fic livre de preconceitos, se você não se sente a vontade com isso não leia, não me responsabilizo por suas atitudes, não sou sua mãe, sou somente uma simples autora de fics sem muito tempo ou dinheiro... Obrigada e volte sempre .
Vamos à Fic :
Que noite bela esta. Realmente bela, pois o som do violino de minha Michiru preenchia todo o silêncio. E todos aqueles ricaços desgraçados babavam aos seus pés. Essa era a parte ruim. Sentia-me na obrigação de estar sempre presente para garantir que nenhum deles chegue a menos de 3 metros de distância dela. É claro que também me apreciava sua música mais do que qualquer coisa. Ao ouvir seu violino, sentia vontade de completar cada nota com meu piano, como sempre fazíamos nos momentos vagos.
Tomei mais um gole da taça de vinho que o garçom cretino havia feito o favor de encher pela qüinquagésima oitava vez ignorando meus gestos insistentes para que parasse. Juro que se o vir pelos arredores com a mínima intenção no olhar de me “servir” quebrarei a garrafa em seu nariz. Olhei em volta por um instante. Os sussurros pouco discretos e pouco puros dos representantes do sexo masculino que assistiam ao concerto chegaram à meus ouvidos. Tive vontade de socar cada um deles por cobiçarem minha sereia, mas Michiru com certeza me reprovaria pelo resto da vida por ter espancado garotos com a puberdade atrasada.
E lá vem o garçom cretino de novo. Escondi rapidamente a taça em baixo da mesa para que ele não ousasse enche-la, mas é claro que o estúpido tinha outra e acabei ficando com duas taças na mesa e com cara de retardada... Ok, da próxima vez eu lhe quebro a cara...
Percebi que o concerto chegava ao fim, afinal eu mesma já havia decorado todas as notas de todas as músicas que ela tocaria, durante o tempo em que a observava ensaiar. Me levantei levando uma das taças comigo e me dirigi à parte de trás do palco. Um dos seguranças idiotas me parou rapidamente dizendo algo como “Desculpe, o acesso é restrito e blá, blá, blá...”. Não fiz mais do que esfregar na cara dele meu “passe”. Foi o suficiente para que viesse com aqueles pedidos irritantes de desculpas que eu fiz o favor de ignorar. Ouvi o som dos aplausos e me encostei na parede próxima a escada escondida que dava acesso ao palco, Michiru não demorou a descer, sorriu ao me ver e eu retribui o gesto.
-Estava linda...
Ela sorriu mais ainda.
-É o que sempre me diz depois dos concertos.
Estendi a taça à ela que pegou-a delicadamente levando-a aos lábios. Céus, não faça isso que a carne é fraca... Não sabe como tenho ciúme até do vinho que toca sua boca. Tenho realmente que me tratar depois de chegar à esta conclusão... Uma terapia iria bem...
-Pararei de dizer quando deixar de ser linda.
Ela se ruborizou por um instante. Mesmo depois de tanto tempo Michiru continua se envergonhando com minhas insinuações. Não posso evitar, ela fica encantadora corada. Mas que feitiço forte tem a minha sereia, já sinto-me embriagada ao lado dela.
-Vamos então?
Passei a ponta dos dedos por seus lábios úmidos de vinho enquanto retirava a taça da mão dela e a colocava em algum lugar qualquer. Não fazia diferença, afinal com certeza o garçom cretino estará me esperando com outra na saída, não me impressionaria se ele estivesse escondido no porta-malas do carro.
-Vou para qualquer lugar, desde que seja com você...
Michiru riu.
-Que tal para casa?
-Claro...
Coloquei meu braço por sobre seus ombros e começamos a caminhar para a saída lateral.
-Desde que me deixe escolher o cômodo... - murmurei
-Pensarei no seu caso...
Rimos juntas. Realmente uma bela noite. A segunda coisa que mais amo depois de Michiru é a velocidade, dirigir é muito prazeroso para alguém como eu que ama a liberdade. Por sinal o momento em que estou mais feliz na vida é quando estou dirigindo com Michiru ao meu lado. Tudo bem que já quase bati o carro muitas vezes por ela se encostar em meu ombro repentinamente, ou fazer alguma insinuação maliciosa enquanto não estava preparada. É... na minha carteira de motorista deveria haver uma observação do tipo “Perigosa na presença de Kaiou Michiru” ou alguma coisa parecida.
Chegamos em casa já tarde da noite. Com certeza Hotaru e Setsuna já estariam dormindo. Quando eu disse “bela noite”, não estava brincando... E foi realmente bela até o fim. Basta dizer que minha sereia me deixou escolher o cômodo.
Abri os olhos sonolenta, ainda sentia meu corpo quente e úmido. Vi-me rodeada pelos fortes braços de minha loura amante ainda adormecida, comprimi meu corpo mais para perto dela e suspirei entorpecida pelas lembranças da noite anterior que me fizeram ruborizar por alguns instantes.
Cheguei à conclusão de que não é tão má idéia deixar Haruka escolher o cômodo (não que em algum momento eu tenha achado uma má idéia). Não que houvessem muitas opções, afinal dividimos o mesmo quarto e é muito pouco provável que eu um dia alegue dor de cabeça e a mande dormir no sofá, pelo menos enquanto ela tiver estas “habilidades”.
Não tenho palavras para descrever o prazer (literalmente falando) de ser amante de uma pianista, sua destreza em dedilhar Bethoven em meu corpo e o ressoar Mozart dentro de mim, me faz ter certeza de que homem nenhum poderia me fazer sentir igual.
Estava quase adormecendo novamente quando o rádio relógio piscando me chamou atenção... seis e meia... seis e meia? Haruka!
-Haruka! Acorde! Você tem que levar Hotaru à escola!
Ela gemeu me apertando mais contra seu corpo. Eu realmente desejei que a escola de Hotaru explodisse naquele momento.
-Setsuna foi trabalhar! Logo Hotaru estará batendo na porta.
-Que horas são?
Ela murmurou sonolenta e eu realmente achei aquilo muito fofo.
-Seis e meia...
-Seis e meia é? Seis e meia... Seis...
Tapei os ouvidos... 3...2...1...
-O QUE?
Mal o grito ecoou pela casa as batidas insistentes de Hotaru na porta começaram.
Hotaru : Haruka-papa!
Haruka saltou da cama e me dirigiu um olhar de “Diga-me que você trancou a porta!” Eu sorri acalmando-a. É claro que havia trancado, não importa o quanto minha Haruka seja centrada, ela nunca lembraria de girar a fechadura enquanto estivesse mais preocupada com o fecho de meu sutiã.
Enquanto ela escovava os dentes, vestia as calças, amarrava a gravata, e saltitava ao mesmo tempo, eu caminhei até o armário e vesti o pijama (que fora misteriosamente esquecido na noite anterior) para ao menos distrair Hotaru enquanto Haruka fazia malabarismo entre o banheiro e o tapete.
Sai e fechei a porta atrás de mim exatamente no momento em que ouvi um grito e o barulho de algo caindo no chão. Fechei os olhos em aflição torcendo para que não haja ossos quebrados (afinal, se for o caso eu também sairei prejudicada de certa forma).
Sorri à Hotaru que já esperava com a mochila nas costas.
-Vou fazer um chocolate quente para você, sua Haruka-papa está com alguns problemas para...
Um novo grito encheu a casa e tenho a impressão de que o assoalho está perdido.
-‘Se matar?’ Se trocar.
A menina juntou as mãos feliz e correu até a cozinha.
Depois de ter uma ótima noite (como já repeti milhares de vezes). Acordar com um enfarte, tentar me suicidar com o tapete, quebrar o assoalho (e talvez alguns ossos) e levar Hotaru para a escola, estava agora, finalmente, voltando para casa e esperava do fundo da minha alma que Michiru não tenha reparado na cratera que eu abri no chão do quarto com a cabeça... Melhor ainda, espero que ela não tenha caído na cratera...
Dirigia minha Ferrari amarela enquanto assoviava pelas ruas de Tóquio. Devo ter atravessado dois sinais vermelhos e arrancado algumas placa de sinalização, mas estava feliz demais para me importar. Infelizmente os policiais não pareciam tão felizes quanto eu.
Depois de despista-los fazendo a viatura bater no hidrante, cheguei em casa. Taquei as chaves em qualquer lugar (sabia que as acharia mais tarde) e fui até a cozinha ajudar Michiru com o almoço. Ou atrapalhar que seja...quem se importa se quase puis fogo na casa enchendo as formas de gelo? Agora estou proibida até de chegar perto de tomadas...
-Andou dirigindo desgovernadamente perseguida por policiais de novo?
Perseguida? Talvez... Desgovernadamente? Nem tanto (Sou uma corredora profissional afinal... pena que os policiais não eram).
-O que a faz pensar assim?
Ela levou a mão ao queixo, ponderando enquanto verificava o arroz.
-Talvez o fato de seu cabelo estar parecendo uma miniatura do monte Rushmore?
Olhei-me no espelho e deparei-me com Jorge Washington.
-Deveria gostar de meu cabelo! É artístico! E você é uma artista afinal!
Eu ri com gosto do elogio, é ótimo quando o humor de Haruka está nas alturas, e melhor ainda quando eu contribuí para que ele chegasse até lá.
-Mas eu gosto do seu cabelo Ruka. É algo como observar nuvens, nunca se sabe a forma que vão tomar.
Fui até ela e beijei-a nos lábios quentes de adrenalina. Sorri ao pensar que outrora os mesmos lábios percorriam meu corpo. Talvez ainda restasse um pouco de meu próprio calor neles.
-Michiru...
É linda a forma como ela sempre sussurra meu nome em êxtase antes de abrir os olhos. Eu poderia jurar que havia um “eu te amo” ali. Sorri.
-Agora vá arrumar o cabelo e me ajudar a cortar os legumes que Setsuna trouxe ontem.
Isso que é confiança! Se consigo causar um incêndio com algumas formas e um pouco de água, com uma faca causaria um apocalipse em pequena escala de dar inveja a Sailor Saturno!
-Aliás, eu acho melhor te dar uma tesoura sem ponta para isso... ou melhor, apenas sente e me faça companhia... Não mexa em nada!
Ok, Ok, foi por pouco tempo, mas eu fiquei realmente feliz... Será que este “não mexa em nada” inclui ela mesma? Encostei-me na cadeira observando enquanto Michiru preparava o jantar e mexia insistentemente no cabelo. Isso significa que ela quer me dizer alguma coisa, mas não sabe exatamente como. Isso está me cheirando mal...
-Então... alguma novidade?
Que péssimo... não devia ter perguntado algo tão idiota assim. Haruka você é um completo PANACA! Ela estalou e abriu uma das panelas por um momento.
-N-Não exatamente... Né Haruka... Eu fui convidada para um concerto na França...
-Verdade? Quando é?
-Semana que vem...
Surpreendi-me por um momento... Semana que vem? Ela sempre me avisava meses antes para que pudéssemos aproveitar o tempo restante antes de uma viagem para longe. Por que está falando só agora?
-Semana que vem?
Ela virou-se com a colher de pau entre as mãos na frente do peito. Como uma criança que vai pedir algo ao pai. E eu tenho total certeza de que ela vai fazer exatamente isto (ignorando a parte do “pai”)! Michiru... o que você pretende?
-B-bem, eu não avisei porque... eu fui convidada para um dueto e esperava que você fosse comigo Ruka...
Quase caí da cadeira. O QUE?
-O QUE? EU?
Ela sorriu, colocando a colher sobre a bancada.
-Haviam arranjado um pianista famoso, mas eu disse que já tinha uma parceira em mente.
-Por um acaso você está louca?
Michiru se fez de inocente...
-Por que?
-Você sabe muito bem que prefiro manter meu hobby de pianista apenas para minha vida privada. Há muito tempo deixei de fazer apresentações!
Minha sereia sorriu novamente com um brilho diferente no olhar.
-Esteve excepcional noite passada...
Fiquei vermelha e cruzei os braços olhando para o chão.
-Como eu disse, para minha vida privada...
Murmurei.
-Então prefere que eu toque com outro pianista? Não sei se vou conseguir me sincronizar bem com ele. Talvez deva ensinar-lhe um ou dois truques seus...
Cerrei os dentes.
-V-Você não...
Olhou-me por sobre os ombros com aquela expressão terrivelmente sedutora de “eu venci”.
-O que acha?
Bufei olhando para o chão.
-Eu não acredito que vou fazer de novo a sua vontade...
-Será bem recompensada, eu prometo!
E voltou a cozinhar assoviando... podia parecer Bethoven para alguns, mas para mim era a terrível canção da “Vitória da Sereia”...
Eu sabia que Haruka aceitaria de alguma maneira. Conheço-a o suficiente para saber seu maior ponto fraco : O ciúme (que é o meu também). Eu consigo tudo através dele. Passamos a última semana ensaiando, na verdade é quase uma rotina que toquemos juntas ao menos duas ou três vezes por dia. Não há ninguém no mundo que consiga se harmonizar tão bem comigo... Claro, isto é óbvio... Mas algumas pessoas ainda se surpreendem com a facilidade com que dois instrumentos tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes se tornam um. Essa observação vale para outras coisas também...
Tínhamos acabado de embarcar no avião e Claro, Obviamente, Como sempre, a primeira coisa que Haruka fez foi flertar com a primeira aeromoça que não fosse desmembrada, e tivesse menos de 80 anos. Não que eu fique irritada com isso... ok, talvez eu fique irritada com isso. Sei que ela nunca me trairia, mas mesmo assim, essa mania de “Casanova” me deixa -a pela orelha até nosso acento sorrindo alegremente. Ela, é claro, quase fez um escândalo. Nem Van Gogh deve ter reclamado tanto.
-Ei Michi! Isso doeu!
-Ah é?
Que coisa não... Vai levar um 4 vezes mais forte se piscar para aquela senhora loira de 53 anos. Se escolher a morena de mini-saia a penalidade sobe para morte súbita...
-Eu estava só perguntando o tempo de vôo...
Não sei se você percebeu Tenou Haruka-san, mas os seios dela com certeza não sabem o tempo de vôo... e mesmo que soubessem, não responderiam.
-14 horas...
Respondi fria como uma rocha. Não que estivesse furiosa, só queria brincar um pouco. Virei o rosto para a janela do avião.
-Pare com isso Michiru! Não vai conseguir ficar brigada comigo por 14 horas!
-Quer apostar?
Ela bufou, e isso já fez eu me sentir vitoriosa novamente. Foi aí que eu senti aquela aura... aquela energia que a mente de Haruka emana quando está formulando uma maneira de me fazer perder o controle da situação. Isso realmente me deixou com medo. Muito medo.
-Se não vai me dar atenção, vou ter que me distrair com outras pessoas... O banheiro de um avião é realmente muito apertado?
Não brinque com a Ira de Neptune, você pode acabar se afogando!
-Você não ousaria!
Foi aí que cometi meu erro! Deixei ela me desconcertar! Virei-me pronta para causar um segundo dilúvio, e acabei perdendo o ar quando senti seus lábios sobre os meus. Eu não vou corresponder... não vou corresponder... eu sou forte, eu sou decidida! Eu não sou tão carente a ponto de ceder tão facilmente e... Droga! Tenou eu te odeio! É claro que correspondi! E bem correspondido por sinal! Podia ouvir os suspiros desolados das pobres aeromoças desiludidas. Bah, o raio que o parta! Elas merecem! Imagino a reação que teriam ao descobrir que Haruka é mulher... ok, eu bem sei que acabaria não fazendo diferença. Esse maldito olhar sedutor dela é capaz de converter três mulheres por minuto. Se o Homossexualismo fosse uma religião, Haruka seria o profeta-mor. Separamo-nos depois de vários minutos. Ficariam impressionados com o bem que a natação e o automobilismo fazem para o fôlego.
-Então... o que acha de uma excursão ao banheiro?
Fiquei levemente corada, mas não perdi a compostura desta vez. Perco uma batalha, mas não a guerra. Sorri entrelaçando nossos dedos e deitando-me em seu ombro.
-Quem sabe mais tarde...
Digamos que em uma viagem de 14 horas nós visitamos o banheiro... 5 vezes... ele é realmente muito interessante. Depois que a gente se acostuma o lugar até fica espaçoso. Chegamos em Paris por volta das nove da noite. A sensação de jantar comida de avião não é exatamente uma das melhores, mas digamos que a viagem não foi de toda ruim...
Um táxi já estava a nossa espera para nos levar até o hotel. A mesma rotina de sempre, a diferença é que estava lá para tocar piano e não para correr. Estranho não? Imagino o que os Europeus devem ter pensado ao ler meu nome nos panfletos... “Tenou Haruka? Mas ela não é velocista? O que diabos fará com um piano?” Com certeza não engatarei nenhuma marcha nele meu caro... Os bilhetes devem ter esgotado na mesma hora... Isso deveria me deixar feliz não deveria? Não... ainda não acredito que aceitei fazer isso de novo! Gosto de manter certos hobbys em segredo, como colecionar calotas de carros (isso é muito bom) e catalogar potes de geléia! Eu gosto de geléia! Mas estou decidida a fazer deste concerto o melhor! Eles nunca se esquecerão das músicas! Estou convencida a fazer todos se emocionarem enquanto entro em harmonia com minha Michiru! Irei tirar qualquer dúvida sobre meus sentimentos! E este será o último e maior concerto de Tenou Haruka! (risada mental maléfica) A quem estou querendo enganar... é óbvio que Michi ainda me arrastará para outros...
Depois de toda aquela enrolação de hotel, finalmente estávamos no quarto, 303 se não me engano... muito espaçoso, em tons pastéis com um frigobar ladrão (não pode faltar) e uma grande televisão de plasma com “Tv paga” (graças a Deus), os europeus gostam de impressionar. Michiru foi tomar banho enquanto eu percorria sem interesse os canais de TV. Já havia mudado de posição na cama umas 7 vezes, e ainda não me sentia confortável. Minha sereia saiu do banho exatamente no momento em que estava de ponta cabeça. Ainda secava os cabelos com a toalha e trajava um pijama curto sem mangas. Sorri. Continuava me sentindo um Coala preguiçoso tentando chegar ao nirvana de ponta cabeça. Seria muito difícil sair daquela posição sem causar seqüelas.
-Pode ir tomar banho Haruka.
-Me dê 5 minutos.
Estava realmente difícil. Girei o corpo e senti todo o sangue sair da cabeça. Ai que aflição desgraçada. E a TV continuava desinteressante... Michiru por sua vez...
Escorreguei para o chão com um ânimo notável. Michi sentou-se na cama ainda com a toalha em mãos.
-Vamos lá, você não deve estar tão esgotada assim.
-Estou entediada...
Ela sorriu com malícia. Estava com certeza pensando em algo malévolo.
-Insinuas que minha companhia não é o suficiente para agradá-la? Devia ter me avisado antes que passasse a morar contigo...
-Não é isso!
Cruzou os braços e me deu as costas. Fingindo estar realmente ofendida.
-Então seria minha aparência? E eu achando que gostava de mim pela minha beleza!
-É por muito mais que a sua beleza.
-Então é pelo meu dinheiro? Está tudo acabado Tenou!
De maneira teatral ela quase me convenceu de estar realmente brava. Levantei-me do chão rindo de nervosismo.
-Você é impossível...
Olhou-me com o canto dos olhos, agora com um sorriso sedutor na face.
-Não te agrada?
Debrucei-me em sua frente.
-Sabe que sim...
Inclinei-me sobre ela beijando-a no rosto para depois deslizar entre seus cabelos água marinhos ainda úmidos. O cheiro e o calor que o corpo recém-banhado exalava me anestesiaram por um momento. Suspirei levantando-me (com muito custo) e indo até o banheiro. Precisava realmente de um banho.
Esta viagem está se revelando mais divertida do que eu esperava. Deitei-me exausta na cama do hotel, não importa o quanto sua cama seja boa, a do Hotel sempre é melhor. Imagino que, sem Haruka, a viagem de avião teria acabado comigo. Posso até estar mais cansada, mas com certeza mais feliz.
Virei-me na cama de casal abraçando o travesseiro. O sono veio devagar e sorrateiro, fechei os olhos relaxando por vários minutos, sabia que não conseguiria dormir enquanto Haruka não voltasse. Se ela soubesse a falta que me faz quando venho a concertos no exterior... Simplesmente demoro mais de 2 horas para pegar no sono, e preciso de 5 travesseiros e dois edredons! Bem... uns 20 minutos depois ela saiu do banheiro, apagou as luzes, me cobriu, bateu o pé na cama, xingou algumas entidades divinas e deitou-se ao meu lado.
Comprimi meu corpo contra o dela e imediatamente seus braços me rodearam, cálidos e possessivos como sempre. Quase que instantaneamente adormeci, sabendo que Neptune na casa de Uranus com certeza significava uma boa noite de sono.
Aqueles malditos raios solares me despertaram de meu sono! Eu me virei umas três vezes na cama, inutilmente é claro pois sabia que não conseguiria dormir de novo. Michiru já havia levantado e eu me tornei um tanto “dependente” do calor dela para pegar no sono. Por isso que odeio quando ela viaja, eu fico parecendo um zumbi andando pela casa, tenho de me deitar às sete com todos os travesseiros da casa para dormir antes da meia noite. Hotaru e Setsuna não gostam nem um pouco... sem contar que a porcentagem de acidentes na pista aumenta absurdamente a ponto de eu ser dispensada de todos os treinos.
Abri os olhos aos poucos me acostumando com a luminosidade. AH! Meus lindos olhos verdes! (Cof... cof...) Michiru estava sentada na beirada da cama penteando os cabelos de frente para o espelho. Inutilmente, pois não havia um mísero nó nas ondas de água-marinha (Já devidamente vestida com aquela saia branca acima dos joelhos de prega que ela sabe que eu adoro). Rolei no colchão como o coala preguiçoso que sou até chegar à borda. Sentei e esfreguei os olhos, já sentindo aquele maldito gosto de guarda-chuva velho na boca me avisando que precisava escovar os dentes.
- Bom dia! – Michiru me disse sorrindo.
- Dia...
Estava sonolenta ainda, não tive as 12 horas de sono necessárias a um coala. Na verdade, devem ser 10 da manhã, ou seja, eu tive as 12 horas... acho que sou um híbrido de coala com tigre... um tigre precisa de 18 horas. Fui em silêncio até o banheiro. Depois de escovar os dentes fui procurar algo confortável para vestir. Algo que incluísse calças pois não gosto daquele vento cretino entre as pernas. Eu amo o vento, o vento me ama, mas sem maiores intimidades...
Por isso apelei para o auge de minha criatividade e vesti uma calça Jeans, tênis branco, uma camiseta preta e uma camisa branca por cima (Impressionados não?). Arrumei novamente o cabelo com uma das mãos enquanto Michiru já estava há mais de 40 minutos penteando os seus (sim, eu suponho que faça ao menos este tempo). Achar um nó entre os fios azuis é tão difícil quanto encontrar algum juízo em minha pessoa. Mas era impressionante como Michi podia passar horas a fio alisando as mechas onduladas em frente ao espelho... ainda vou quebrar esta joça... Não que eu seja ciumenta, eu só... não gosto de espelhos. Eles são do mau e roubam sereias. Estou pensando somente no bem estar de minha namorada...
Deviam ser 10 ou 11 horas mais ou menos... Ainda tínhamos algum tempo antes do almoço e muito tempo antes do concerto. Tenho muitas idéias do que fazer neste grande intervalo, mas duvido que Michiru concordaria com a maioria delas...
Deixei a escova sobre o móvel do quarto. Haruka havia entrado em transe. Eu imagino os milhares de pensamentos que devem estar passando por sua cabeça neste minuto. Muitos deles com certeza deveriam vir com censura... Lá estava ela olhando fixamente para frente com cara de Coala em nirvana. Coala... Eu realmente acho que ela parece um coala. Nada a ver, eu sei, mas não sei como explicar... Haruka possui energia de Coala (Sempre gostei da Austrália).
Ela ficava tão bonita assim. Tão Haruka. Tão sedutora imersa em pensamentos que me fazia sentir uma leve cócegas na virilha. Fui até ela devagar sabendo que, mesmo que um helicóptero saísse do ralo da pia nada a faria despertar.
Circundei seu pescoço com meus braços fazendo-a voltar ao planeta terra. Beijei-a de leve, mas eu bem sei o quanto minha Haruka é rápida. Incapaz de me decepcionar, seus braços rodearam minha cintura, e seus lábios me afogaram em sedução. Não continha o gemido a cada investida mais ousada de sua língua em minha boca. Após minutos que passaram feito segundos, tivemos de nos separar pela maldita falta de ar. Talvez precise me empenhar mais na natação.
Haruka... – Enterrei meu rosto no vão de seu pescoço, tentando dissipar a solidão que ela deixou em meus lábios com seu cheiro. Deus, um diabético morreria com tanto açúcar! É patético, mas o amor sempre vem acompanhado de uma alta dose de Glicose, é incrível que Julieta não fosse gorda... não que eu seja...
Seus fortes braços me prensaram contra seu corpo, eu me esforcei ao máximo para continuar decidida a sair do quarto hoje, mas ela começou a beijar meu pescoço e eu implorei com sussurros que ela parasse. Em vão é claro...Nenhuma de nós afinal tem o costume de negar fogo, e no final das contas fui eu quem joguei faísca na gasolina.
Estava tão feliz com Michiru em meus braços. Enterrei meu rosto em seus cabelos e permaneci em silêncio sentindo sua respiração calma e reconfortante. A prova de que estava viva ao meu lado. E isto (para quem já perdeu a amada duas vezes nas batalhas das Sailors) era a coisa mais importante do mundo para mim. Mas é claro que a cretina da campainha tinha de tocar neste cretino instante.
-A campainha – Ela sussurrou se afastando um pouco.
-Eu ouvi –Voltei a abraça-la ainda mais forte. Mas o cretino do outro lado da porta cretina tocou novamente a cretina da campainha.
-Tem alguém desesperado para entrar!
-Que morra lá fora...
-Haruka!
-Ok ok... –Suspirei
Soltei-a a muito contra gosto, passei a mão pelos cabelos no gesto de nervosismo que me é característico. Abri a porta e um rapazinho sorridente de um metro e meio de altura com um chapéu engraçado na cabeça me deu “olá”. Ele começou a falar com uma voz de Rato com Tireóide um japonês muito mal improvisado.
-Bom dia Senhor! Eu ter Mensagem a entregar à Kaiou-san, e Tenou-san!
E eu ter vontade de esganar você.
-Ahm, Ok Ok, Obrigada.
Peguei o envelope da mão do pequeno e fechei a porta sem dar gorjeta (como sou má) o que deve ter tirado aquele sorriso de político da cara dele. Abri-o e li o telegrama.
-Do que se trata? – Michiru perguntou colocando a gargantilha de cruz de prata.
-O diretor do teatro nos convidou para um café agora no saguão...- respondi com desdém. Esses empresários adoram ganhar crédito com os artistas para que a mídia acredite que eles conhecem outras notas além das monetárias.
-Não podemos recusar tão saudoso convite – ela disse rindo ironicamente.
-Poder, podemos. Mas é claro que não vamos querida – Abri a porta e curvei-me oferecendo minha mão como o perfeito gentleman que sou – Afinal somos representantes da alta-sociedade, o mínimo que podemos fazer é agraciar um pobre coitado com nossa ilustre presença.
Michiru riu e aceitou o gesto com uma igualmente requintada reverencia.
-E quem sabe aproveitar para o confundirmos e rirmos de sua limitação mental – Rimos juntos enquanto caminhávamos até o elevador.
-Espero contar com minha adorável cúmplice nesta tarefa.
-Pode sempre contar com isto Ruka...
Qualquer um que olhasse a cena rolaria de rir. Estávamos eu e Haruka sentadas em uma mesa ricamente decorada, com os queixos no chão e os olhos esbugalhados por termos encontrado um Ser Humano! Mais que isso! Um Ser Humano dirigindo um teatro! E eu achei que esta espécie havia desistido de faze-lo! Mas lá estava ele! Ulrich Febeu, era... um homem (ainda não me acostumei) de aparência forte mas madura. Era alto, tão alto quando Haruka, talvez um pouco mais. Tinha um grande bigode cinza e uma vasta cabeleira penteada que o tempo desbotara. Era dono de traços quadrados e de uma voz grossa e viril que podia abrir mares. Felizmente o meu mar não se abre para mais ninguém (muito menos para um homem de meia-idade).
Olhei discretamente com um sorriso para Uranus que continuava boquiaberta, ela notou meu olhar e me sorriu com satisfação desistindo de nosso plano de confundir nosso anfitrião. Afinal ela não parecia assim tão patético.
-Fico feliz que puderam vir Kaiou-san, Tenou-san...
O japonês dele tinha um forte sotaque francês, mas mal pudemos esconder nossa satisfação em encontrar alguém que falasse nossa língua. Nos duas dominávamos a maioria das línguas Européias, mesmo porque nossas profissões exigiam que fossemos muitas vezes para o exterior, mas encontrar um fluente em japonês na França é como achar Panettone na Páscoa!
-Não podíamos recusar seu convite Ulrich-san
Respondi sorrindo para o vovô simpático.
-É um grande prazer conhecê-lo.
Ruka bebericou o vinho com cuidado. Ela realmente sabia me provocar, talvez nem se desse conta disso, mas ficava inexplicavelmente sedutora levando a taça aos lábios. Ulrich-san inclinou-se por sobre a mesa entrelaçando os dedos em frente ao rosto sorridente..
-Devo confessar que sou um grande fã de ambas. Os concertos de Kaiou-san têm atraído cada dia mais devotos à música clássica, há algo mágico em suas melodias senhorita. Sou um curioso nato, mas neste caso penso que sua inspiração é mais bela quando misteriosa...
Está sentado de frente para minha inspiração Ulrich-san...
-Obrigada pelas palavras Ulrich-san... Me esforçarei para merecê-las.
Ele sorriu ainda mais virando-se para Haruka que havia entrelaçado nossas mãos por debaixo da mesa como se dissesse que estava orgulhosa de mim. Minha companheira dominava as palavras com perfeição, mas era divina em seus gestos.
-A Carreira de Tenou-san também é algo impossível de ignorar. Só este ano bateu duas vezes o próprio recorde de tempo. Como diria... é como o vento. Ninguém pára o vento...
Confesso que até eu fiquei chocada com esta comparação. Esse homem não emanava energia alguma, mas era dotado de um sexto sentido gritante.
-Confesso que seu talento para a música foi uma surpresa para mim. Mas confio plenamente na decisão de Kaiou-san...
Claro, para a maioria dos diretores de teatro bastaria um bom marketing como “O Piloto de Fórmula 1 nº 1 do mundo tocando Piano” para que não contestassem a idéia. Mas era claro que aquele senhor era diferente. Ele tinha certa curiosidade clara em comprovar os talentos de Haruka. E como bem sei ; o vento odeia perder.
-Se for de seu gosto Ulrich-san...
Ela levantou-se e olhou para o piano de cola preto em cima do pequeno palco destinado ao grupo de jazz que tocaria dali dois dias.
-Eu posso mostrar-lhe que sua confiança em Michiru não foi em vão.
Ulrich-san sorriu e gesticulou em direção ao piano.
-Fique a vontade.
Levantei-me também, entrelaçando novamente nossos dedos. Quer descobrir meu segredo Ulrich-san? Estou te dando uma grande colher de chá...
-Que tal tocarmos juntas Ruka? Estou certa que Ulrich-san ficaria feliz.
Ele sorriu e Haruka apertou gentilmente minha mão.
-Então vá buscar seu violino no quarto. Eu espero aqui com Ulrich-san.
-Posso tocar com outro...
-Não Michi... O seu violino é importante para você. Nós te esperamos.
Ok, eu confesso, tenho realmente um instinto possessivo por meu violino, qual o problema com isso? Num ato completamente impensado beijei-a no rosto e corri para os elevadores.
Ruborizei-me ao sentir os lábios de Michiru em meu rosto. Assim, em público, na frente do diretor do teatro. Algo realmente raro e por isso tão importante. Ulrich-san ficou um tanto surpreso.
-Com todo o respeito Tenou-san, seu par é uma mulher surpreendente.
Sorri por dentro. Você não imagina o quanto meu caro. E é bom que não imagine mesmo...
-Digamos que sempre me considerei uma pessoa de sorte.
Ele suspirou como se estivesse cansado e me olhou como um pai olha para um filho. Há anos não recebia um olhar tão cálido como aquele.
-Por que todos complicam tanto? Um sentimento não é algo que possa ser limitado por meras barreiras biológicas ou sociais.
Fiquei em silêncio. Como um cara que conheci há tão pouco tempo sabia tanto sobre mim? Sobre nós? Eu deveria me sentir incomodada. Mas estava feliz. As palavras dele eram cálidas. E naquele momento Ulrich-san ganhou meu respeito, e talvez até minha admiração.
-Desculpe-me, talvez você não se sinta a vontade falando sobre isso comigo. Perdoe minha grosseria.
Sorri de lado.
-Não Ulrich-san, eu agradeço suas palavras. Elas têm muita importância para mim... Mas a partir de Agora, me chame de Haruka...
Ele sorriu e se levantou me estendendo a mão.
-Ulrich...
Apertei-lhe a mão com gosto. Senti-me ganhando um avô ou algo parecido. Segundos depois Michiru retornou com seu violino em mãos. Cansada pela pressa com que foi até o quarto.
-Desculpe pela demora.
-De Maneira alguma Kaiou-san, eu e Haruka nos demos muito bem.
-Michiru... – ela disse sorrindo radiante.
-Como?
-Agora chame-me de Michiru. – ela sorriu ainda mais e eu entendi exatamente o que ela quis dizer. Ulrich demorou um pouco para associar, mas após alguns segundos captou a idéia.
-Entendo... então por favor... fiquem a vontade.
Arrumei o violino no ombro, Haruka se sentou no piano analisando as teclas, me sorriu levemente como se dissesse estar pronta. Olhei para Ulrich-san por um momento e imaginei que ele deve ter batido o recorde de tempo que gastou para ganhar a confiança de Uranus... e se ganhou a de Uranus, ganhou a de Neptune também.
Haruka começou a tocar. Seus dedos deslizaram precisos por sobre as teclas em uma melodia rápida e complexa. No tempo certo me juntei a ela sentindo as notas fluírem por extinto. Com os olhos semi-cerrados, não tinha idéia da reação de Ulrich-san. Mas estava concentrada demais em me fundir com o som do piano para me preocupar.
Abri os olhos para olhar minha companheira que fez o mesmo. Era hora de mudar o tom. Segundos depois as notas se tornaram graves, os movimentos ganharam certa adrenalina, e eu não pude evitar me mover suavemente de um lado para o outro enquanto Haruka quase lutava contra o piano. Ainda não entendo como o de casa não se quebrou ainda.
Novamente o som se tornou agudo, mais calmo e equilibrado enquanto a música chegava ao final. As últimas notas ecoaram em perfeito sincronismo. Com certeza deveria estar vermelha, as notas dela me atingiram em cheio, quase como uma mensagem decodificada. Mas também não deixei barato.
O que acontece quando eu e Haruka tocamos juntas, é que nos comunicamos através do som, não só isso, podemos até nos tocar através dele. Nós já brigamos, nos declaramos, e fizemos amor assim. É engraçado que passemos horas tocando quando estamos bravas, é uma forma de nos reconciliarmos, talvez por isso a casa ainda não tenha sido destruída por maremotos e tufões. Em compensação gastei centenas com novas cordas para violino.
Pelo nosso estado exausto e ruborizado já dá para ter uma idéia de o que decidimos fazer enquanto tocávamos. Um silêncio prevaleceu por um momento até que um estrondoso som de palmas preencheu o ambiente. Eu não me lembrava de ter chamado a China para o Hotel. O fato é que muitas pessoas se amontoaram à frente do palco para ouvir e isso realmente me pegou de surpresa. Sorri timidamente quando Haruka passou seu braço por cima de meus ombros me guiando até a mesa de Ulrich-san que estava de olhos esbugalhados. As pessoas passavam nos congratulando e pedindo para que continuemos a tocar. Eu me limitava a sorrir e dizer que o concerto seria aquela noite. Já Haruka que é ligeiramente mais impaciente voltou a tomar o vinho apenas agradecendo os elogios. Nosso anfitrião ainda não havia dito uma palavra se quer, finalmente quando a multidão se dispersou ele pegou um lenço para enxugar o rosto e nos parabenizou.
-Eu... nunca ouvi nada igual... Estou realmente emocionado e entusiasmado com o concerto. Paris com certeza precisa conhecer esta melodia. Qual seu nome?
Eu continuei sorrindo um tanto envergonhada. Haruka olhou para o lado, e para cima tentando ser discreta enquanto pensava em como sair daquela situação.
-Ahm...
-A Verdade é que não sabemos Ulrich, acabamos de... bem...- Não encontrei a palavra certa...
-Inventar. – Genial Uranus!
Os olhos dele viraram pratos, eu fiquei assustada vendo um senhor tão fino e controlado como ele agindo como uma criança que acabou de encontrar um ovo da Páscoa escondido (é a maior emoção que já experimentei sozinha).
-Já vi alguns improvisos em minha vida, mas improvisar em um dueto é algo... impensável. Como sabem qual será o próximo tom, a próxima nota, o ritmo?
Olha, você esta começando a complicar as coisas...
-Er... bem...-Socorro Uranus!
-Sei lá...- Genial! E ainda perguntam o que vejo nela... (Ok, na verdade não perguntam...)– Fazemos isso desde que começamos a tocar juntas.
Agora sim o rosto dele parecia com o de um cavaleiro encontrando o Santo Graal.
-Estou impressionado, muito impressionado. Diria até um tanto assustado.
Eu não duvido da ultima parte... estou com medo dele resolver me atacar e morder meu pescoço.
-Já era um fã da senhorita Michiru, mas não imaginei que pudesse tocar ainda melhor em dueto e Haruka... não tenho palavras para dizer o quanto fiquei chocado com seu talento. Pianistas profissionais não chegariam a seus pés!
Ruka suspirou. Ela realmente não tinha a mínima vontade de fazer concertos. E não se pode forçar o vento a fazer o que não quer... A não ser que você tenha certa experiência no assunto como está que vos fala.
Conversamos por mais alguns minutos quando Ulrich-san teve de ir embora para uma reunião. Acabamos almoçando no Hotel mesmo. Comemos algo que tinha um nome impronunciável, mas estava bom. É o que interessa no final das contas. Haruka queria pegar um dos escargot e lança-lo na cabeleira alta de três metros de uma dama gorda e rica. Mas eu disse para ela não correr riscos, pois a mulher poderia descobrir sua identidade e atirar-se como uma Orca em cima dela, e disso ela não conseguiria escapar, muito menos sobreviver.
Depois saímos a esmo pelas ruas de Paris, com suas calçadas ladrilhadas e lojas por todos os lados. Haruka ainda estava com aquela cara de “eu preferia ter ficado no quarto”. Isso me incomodava muito.
-Vamos lá Haruka! Não é excitante estar em uma das cidades mais famosas do mundo?
-Não... – Genial mais uma vez. Torci o nariz descontente com a resposta. Agarrei seu braço sorrindo.
-Ok, mudemos a pergunta : não é excitante estar em uma das cidades mais famosas do mundo, COMIGO?
Finalmente uma manifestação de alegria pela parte dela. Na verdade aquele sorriso estava mais para diabólico, mas já é alguma coisa...
-Depende de que sentido você atribui à palavra excitante...
Ri batendo de leve em seu braço.
-Maa, você não consegue pensar em mais nada além “disso”?
Ela levantou a cabeça.
-Claro que sim!
Esperei em silêncio por algum mísero exemplo, que é claro : Não veio...
-Ok, não consigo...
-Há!
-É deliciosamente patético não conseguir te tirar de minha cabeça.
Suspirei imaginando que este jeito galanteador de Haruka era sua maior arma. Infelizmente para ela, eu havia me tornado imune à ele (na maioria das vezes... quem eu quero enganar?). Apertei mais seu braço liberando uma “pequena” aura negativa.
-Você parece fazê-lo muito bem diante de outras mulheres...
Ela começou a rir de nervosismo e eu fiz questão de continuar com a cara amarrada.
-Ora vamos Michiru... você sabe que eu não te trocaria por ninguém.
-Não ando tão certa disso...
-Eu só olho para outras mulheres para comprovar que escolhi a melhor delas!
Me poupe de suas justificativas Tenou... aliás, esta última foi realmente péssima... péssimamente fofa e eu confesso estar lutando com todas as minhas forças para não abraçá-la. Que patético...
-Não precisa flertar com elas para comprovar...
-Er... É a força do hábito...
-Haruka... ás vezes eu fico insegura... você nunca me diz o que sente por mim...
Ela ficou vermelha é claro. E eu me senti um tanto mal por expor dessa maneira meus pensamentos, mas aquilo estava me sufocando ultimamente. A verdade é que Haruka raramente diz que me ama.
-Mas não está um tanto óbvio?
-Mesmo assim, é importante para mim ouvir.
Ela passou a mão pelo cabelo, como sempre fazia quando ficava nervosa, eu me senti um tanto culpada por está-la pressionando. Mas, não sei exatamente porque, ela começou a rir da minha cara. Ótimo... agora não estou mais com a mínima culpa! Morra sua infeliz!
-Você é realmente impressionante Michiru... a maioria das mulheres costuma reclamar quando o namorado fala que ama mas não demonstra. Você faz justamente o contrário.
Ótimo, agora a louca sou eu...
-Vamos entrar naquele Café, vou comprar um sorvete para te compensar!
-Acha que vou me render em troca de um sorvete?
Ela deu de ombros.
-Se for de Flocos... acho.
Suspirei.
-Está completamente certa...
Que ato extremamente KamiKaze eu fiz dando sorvete para Michiru. Tenou, se você não tirar os olhos da boca dela vai se meter em uma grande encrenca com seu consciente! Os lábios dela devem estar geladinhos agora... e a saliva ainda mais doce... Gah! Comecei a apertar o cabo da colher. Nossa! Como é interessante a disposição dos ladrilhos na parede! Vou me concentrar neles, são impressionantes! E totalmente broxantes! Maravilhosos!
Michiru está certa... eu não consigo pensar em mais nada além dela. Mesmo nas corridas onde era só eu e o vento ela anda se envolvendo. Vocês acham que eu venço para quem afinal? Meu velho companheiro deve estar um tanto enciumado.
Capucchino! Vamos tomar o capucchino! O Capucchino é quente e gostoso, e enquanto eu o tomo não consigo ver a sereia à minha frente. Simplesmente perfeito! Gah! Não! O biju não! Tudo menos o biju! Deus, o que uma dezena de horas de celibato faz com alguém. Seus pervertidos! Eu não estou me referindo a “aquilo”, mas sim a atos de carinho em geral! É muito difícil para nós fazer este tipo de coisa em público.
-Eu... vou ao banheiro!
Levantei com pressa. Precisava lavar o rosto. Olhei para meu reflexo no espelho acima da pia de mármore. Os pingos de água escorrendo do cabelo. Cérebro mau! Por que me faz pensar este tipo de coisa nessas horas.
Então a porta se abriu. Eu sequei o rosto e olhei para o lado.
-Michiru?
Ela estava de pé ao lado da porta sorrindo como sempre. Fechou-a lentamente e girou a chave. Eu me assustei no começo, mas sorri ao senti-la me abraçar.
-O que está fazendo aqui?
Seus braços enlaçaram meu pescoço fazendo os pelos da nuca arrepiarem.
-Absolutamente nada de errado...
Me beijou de leve nos lábios e eu estava certa! Estavam deliciosamente gelados! E percorreram meu pescoço lenta e sedutoramente antes de Michiru apoiar a cabeça em meu ombro. Abracei-a afagando seus cabelos, sentindo sua respiração, sua vida junto da minha.
-O banheiro não é exatamente a escolha mais romântica, não que eu me importe.-Disse beijando-a novamente, desta vez aprofundando o ato, invadindo com certa necessidade sua boca que deixou-se dominar.
-Esperava que você se encarregasse dessa parte.
-Decepcionada?
Ela riu.
-Nunca.
Nos aproximamos novamente para continuar desfrutando de nosso momento “privado” quando a maçaneta girou. Alguém havia forçado a porta. Bateu algumas vezes e perguntou em francês se havia alguém lá. Michiru ia responder mais eu tapei-lhe a boca sussurrando.
-Silêncio, imagine o que vão pensar ao nos encontrar aqui.
-Mulheres costumam ir juntas ao banheiro. Somo duas mulheres afinal.
Cruzei os braços olhando-a incrédula...
-E todos vão acreditar em você...
Olhou-me de cima a baixo.
-Er... você poderia tirar a roupa...
Tive vontade de tacar a cabeça na parede.
-Você realmente pensou antes de dizer isso?
Ela riu beijando-me no rosto.
-Não, mas foi engraçado.
O lazarento do outro lado da porta fez questão de perguntar novamente.
-Temos de responder alguma coisa!
-Ah sim, imagine as manchetes : “Flagra sanitário, diversão antes do Concerto” Como se já não fôssemos perseguidos o bastante... – Respondi passando a mão pelos cabelos. Infelizmente não havia sequer uma janela grande o bastante.
-Eu tive uma idéia.
-Ah não, esse sorriso não. Quem você está pensando em matar desta vez?
-Com sorte, sairemos todos vivos... só corra quando eu disser.
Ótimo, agora estou tranqüila... Michiru foi até a porta, destrancou-a com muito cuidado. Olhou para mim e pediu por silêncio. Depois abriu com toda a força acertando a testa do pobre coitado que estava somente esperando sua vez. Ui, isso vai deixar marca...
-Oh meu Deus! Me desculpe! A porta estava emperrada, você se machucou?
Ela se agachou em frente ao rapaz mostrando de propósito parte da coxa. E eu me vi realmente em um dilema entre correr ou matar o desgraçado que gaguejava não sabendo exatamente o que fazer. Eu sabia! Sabia que não ia gostar desse plano! Sabia! Michiru olhou para mim por um instante mandando que eu corresse. Ainda não havia decidido se correria ou cometeria um homicídio, mas seu olhar foi intimidador o suficiente para me fazer fugir e espera-la na mesa. Que seria quebrada por mim se sua volta demorasse mais que um minuto. Felizmente não demorou...
-Se salvar a galáxia fosse fácil assim... – Ela disse se sentando à minha frente. Eu simplesmente fechei a cara e continuei tomando meu capucchino.
-Eu preferia mil vezes pular de cabeça na espada do Caos a executar este “plano”.
-Maa... Estaria com ciúmes?
-Talvez...
-Pobre Haruka... quer sorvete?
Ela enterrou a colher na minha boca quando fiz menção de responder alguma mal-criação. Quase morri engasgada.
-Michiru!
-Ara... Viu como se sente melhor agora?
Resmunguei palavras que eu nem sequer sabia o significado antes de me acalmar.
-Sabe... agora fiquei com vontade de comparar aquele banheiro com o do avião...
Alfinetei fingindo estar extremamente concentrada em uma interessante nuvem que passava lentamente enquanto acariciava sua mão. Acho que poderia escrever um livro sobre esta viagem... com certeza os leitores iriam pedir uma versão ilustrada.
Aquela cafajeste fez o favor de me desmontar com um comentário deliciosamente indecente desses e ainda olhou para o céu com uma cara absurdamente serena de quem está fingindo observar uma nuvem passar. Haruka eu te odeio! Você fica ridiculamente atraente quando olha para o céu com essa expressão.
-Haruka... não faça esta cara...
É claro que não entendeu nada. Como entenderia? São devaneios românticos de minha pouca conhecida mente perva. Sem contar os olhares indiscretos daquelas jovens francesas nojentinhas sentadas na mesa ao lado que não param de sorrir feito excepcionais para minha namorada! (enquanto penso em tudo isto, mantenho uma expressão nula completamente concentrada em terminar meu sorvete, ninguém imaginaria as coisas diabólicas que circulam em minha mente...)
-Que cara?
Nossa, ainda por cima faz de propósito. Apoiei o rosto em uma das mãos e o cotovelo na mesa olhando calidamente para os olhos verdes que me consumiam a cada minuto enquanto entrelaçava nossos dedos com a outra mão. Tentei falar o mais calmamente possível.
-Haruka... não me provoque...
Ela sorriu e carinhosamente mexeu em algumas mechas que tampavam meu rosto.
-Me ama tanto assim sereia?
Não, eu te odeio! Eu odeio você! Você me faz perder a razão sua infeliz! Com essas frases manjadas e essa maldita voz rouca que me arrepia os cabelos. Eu ainda vou me vingar por isso Tenou, você vai ver! No momento eu só consigo ficar em silêncio enquanto fecho os olhos e seguro em sua mão. Mas um dia eu vou conseguir resistir a tudo isso! (Talvez eu não queira resistir, mas deixe que eu me iluda!)
-Obrigado...
-Tem lá suas vantagens... e desvantagens...
Corrigi vendo-a dirigir o olhar a uma estudante francesa com muita pouca saia. Apertei-lhe a mão com força fazendo-a voltar à realidade. Haruka começou a procurar desesperadamente por uma desculpa.
-Você viu que absurdo a roupa daquela moça? Ridículo! As japonesas são mais descentes...
Mesmo depois de anos de experiência você ainda não consegue pensar em uma desculpa melhor que esta? E não... as japoneses não são mais decentes e você sabe disso... Suspirei apoiando o rosto em meus braços que estavam cruzados sobre a mesa.
-Ruka...
Ela tocou em meu rosto e eu jurei que não iria cair nessa de novo (não é a primeira vez que juro algo assim... Sabe aquela história de não ir para a cama no primeiro encontro?)
-Não fique chateada comigo Michiru...
-Maa...
Ela sorriu.
-Quer mais um sorvete?
-Não...
Você realmente acha que eu sou patética o suficiente para me vender por sorvetes? Você acha que eu sou tão baixa a ponto de te explorar financeiramente? Haruka... assim você me ofende...
-Mas eu adorei a vitrine daquela loja! Vamos lá ver!
Saí arrastando ela pelo braço até a loja... se é para ser vingativa... vou fazer direito...
Acho que deveria começar a me comportar... se não for por Michiru, que seja pela minha conta bancária. Poderia comprar a África com o preço desse vestido. Pelo menos ela está feliz agora e esqueceu completamente qualquer intenção de me matar. Eu acho...
Estávamos voltando para o Hotel, eram quatro da tarde mais ou menos, nós deveríamos estar ensaiando, mas é claro que não precisamos (modéstia a parte), por isso decidimos descansar o resto do dia... Já viemos para Paris muitas vezes, não há muita coisa que não conhecemos. Da última vez viemos com Hotaru e Setsuna, achamos que seria bom para Hotaru-chan conhecer a Europa. Por sinal algo muito desagradável para minha pessoa aconteceu naquela viagem, é por isso que não tenho boas lembranças da França...
Foi quando o comunicador das Sailors Tocou... fiquei um tempo olhando para a pulseira pensando se deveria atender...
-Será que é um novo inimigo?
Perguntei sentando-me na cama.
-Haruka, não me venha com mau agouro... Você não escapará do concerto...
Suspirei...
-Ao menos tentei...
Atendi não muito animada. O rosto raivoso de Minako surgiu na pequena tela, e eu imaginei que o que estava por vir era pior que qualquer inimigo.
-Haruka-san! Como se atreve a fugir com Michiru-san e não nos avisar?
Eu já ia responder quando Makoto a empurrou e eu pude perceber que estavam em nossa casa... o que fazem em nossa casa afinal?
-Minako não seja inconveniente!
Meu Deus, ela nasceu assim... Sorri tentando parecer tranqüila enquanto Michiru guardava aquela arma com a qual furou meu orçamento (mais conhecida como vestido). Mas o que faziam em nossa casa afinal? Isso sim é ser inconveniente!
-Nós não estamos fugindo...
Rei resolveu dar o ar da graça também. Deus, nossa casa virou um point de Sailors!
-É claro que não estão! O concerto está na mídia Minako!
-Uma ótima desculpa para uma segunda Lua de Mel...
Ouvi o barulho do Chuveiro. Michiru costuma tomar mais de dois banhos por dia. Não me importei com isso e continuei tentando limpar meu nome que com certeza está sendo rotulado de “pervertido descarado sem remédio”.
-Eu não queria vir! Michiru me obrigou!
Todas olharam incrédulas para a tela.
-Vocês não acreditam em mim não é?
Um “não” soou em uníssono e eu comprovei minha teoria a respeito da imagem pervertida, mas não totalmente errônea que elas tinham quanto a minha pessoa... Então Hotaru-chan surgiu na tela. Graças a Deus, alguém normal... er... bem... ok, talvez ela não seja exatamente “normal”, mas...
-Haruka-papa! Como está sendo a viagem?
Sorri verdadeiramente dessa vez. Finalmente alguém resolveu falar algo que preste. E adivinhe quem? A suposta Sailor da Destruição.
-Estamos nos divertindo muito Hotaru-chan, amanhã vou procurar algo para te dar de presente.
Minako novamente invadiu a tela com aquela cara maliciosa de quem quer descobrir alguma coisa.
-É claro que estão se divertindo, me impressiona que esteja vestida...
GAH! Te garanto que preferia milhões de vezes a outra opção!
-MINAKO! SÃO POUCO MAIS DE QUATRO HORAS!
-E?
Brilhante Vênus... Tenho que me calar perante sua sabedoria. Fiquei vermelha e decidi mudar de assunto antes que se aprofundassem mais em minha vida privada (com certeza esta era a real intenção)
-Isto não importa! O que fazem em nossa casa?
Não dormirei a noite se não souber... não que eu pretenda dormir afinal...
-Setsuna-san nos convidou para um chá com biscoitos... – Odango respondeu sorrindo (provavelmente por estar de barriga cheia). Agora já sei quem eu vou matar quando voltar para casa.
-Só que os biscoitos misteriosamente sumiram – Rei alfinetou olhando SIGNIFICATIVAMENTE para Odango.
-Er... bem...
-Olá Garotas!
Michiru surgiu ao meu lado de TOALHA! Deus porque?
-M-Michiru-san...
Gaguejou Makoto, e com razão. Mas que hora para Michiru resolver tomar banho! Tenho certeza de que estou parecendo o símbolo da Ferrari de tão vermelha!
-AHÁ! EU SABIA QUE VOCÊS ESTAVAM EM LUA DE MEL! –Minako fez um escândalo tão grande que eu ouvi o aparelho chiar. Michiru piorou ainda mais a situação. Sorriu daquela maneira inocente de sempre e respondeu :
-Ara? Como descobriram?
Brilhante Neptune, o que pensa que está fazendo afinal? Ela piscou para mim e eu percebi que estava realmente lidando de maneira errada com aquelas garotas. Afinal já éramos amigas há bastante tempo para podermos nos dar ao luxo de brincar com elas. Sorri. Minako parecia a ponto de ter um ataque do coração quando trouxe Michiru para meu colo e a beijei demoradamente nos lábios. Quando olhei novamente para o comunicador todas estavam assistindo com os queixos no chão enquanto Ami tapava os olhos de Hotaru e Chibiusa.
-Se quiser comprovar sua teoria Minako, é só continuar assistindo...- Beijei-lhe o pescoço começando a abaixar a toalha. Eu realmente estava com medo que Minako resolvesse realmente assistir, mas Odango (que já é casada e agora tem mais noção de etiqueta que Minako) se intrometeu.
-Er, deixaremos vocês a sós. Tenham um bom concerto! Divirtam-se!– e desligou o comunicador. Suspirei aliviada. Não teria coragem de continuar de qualquer maneira, não com todos os planetas olhando. Ia me levantar quando Michiru se jogou contra mim me fazendo cair na cama com ela por cima. GAH! A TOALHA ABRIU! Controle-se Haruka! Agora não é hora para isso! São quatro da tarde! Concentre-se nos olhos! Não abaixe o olhar! Não! Pare! Tarde demais...
-M-Michiru, você não ia descansar?
-Você ouviu a princesa... “divirtam-se”... aquilo pareceu uma ordem para mim...
Sorri ajudando-a a tirar minha camisa.
-Não podemos ir contra a princesa afinal...
Estava em meu terceiro banho daquele dia. Desta vez o preparatório para o concerto. É claro que não estava feliz em lavar o doce cheiro de Haruka de meu corpo, e não o faria se não fossemos mais sair do quarto, mas não é porque estamos na França que devo agir como os franceses tomando um banho a cada eclipse lunar...
Coloquei o roupão e saí enxugando os cabelos que estavam cheios de nós... eu não estou vendo nenhum, mas SEI que estão lá (não sou paranóica...). Minha loura companheira já estava elegantemente vestida com o terno preto que havia comprado junto com Mamoru-san há algumas semanas. Nada como ir as compras com Tuxedo Mask, pelo menos nesta peça de roupa ele é o mais confiável... Comecei a me vestir enquanto Haruka lutava contra o relógio de pulso e os botões da camisa. Decidi usar o vestido branco que havia ganhado dela em meu último aniversário. Eu adoro esse vestido. É Lindo e incrivelmente simples, deixava as costas nuas e suas alças prendiam-se em volta do pescoço. Adornava perfeitamente todo meu corpo em estilo oriental com uma fenda até pouco mais da metade da coxa. Fico imaginando se Haruka pensou em mim ou nela ao comprá-lo... Digamos que todas as vezes que coloquei este vestido, não fui eu quem tirou. E afirmo com total e absoluta certeza de que em nenhum momento em minha vida sequer pensei em ser infiel.
-Ei Michiru, me ajude a abotoar essa manga. Sinto que ela está rindo da minha cara...
Sorri ajudando-a. E senti aquele olhar incessante sobre mim, praticamente me despindo. Ela realmente não consegue me deixar entediada. Olhei-a nos olhos retribuindo aquele sorriso cálido que é só meu e de mais ninguém. Ninguém MESMO.
-O que foi?
-Não é nada, eu só... ainda não me acostumei com a sua perfeição...
Deus, um dia ela terá de me contar com quem aprendeu essas coisas.
-Não sou perfeita Ruka – disse a abraçando. Ela me acolheu como sempre fazia, cálida e possessiva. Sempre que estou em seus braços, sinto como se estivesse exatamente no lugar onde nasci para estar. Poético? Claro que sim...
-Para mim é... não precisa ser para mais ninguém...
Alguém deveria prendê-la! Isso é covardia! Nem o verdadeiro Casanova deveria ter este poder todo! Devo perdoar as garotas que se aproximam de Haruka. Elas não tem culpa. Mas isso não significa que minha amada amante não sofrerá as conseqüências...
-Não quero ser... que perfume é este Ruka?
-Não faço idéia, um dos que estavam na mala... te agrada?
-E gostoso... vai atrair todas as mulheres do teatro...
-Mas não serão elas que acordarão com o mesmo cheiro amanhã...
-Haruka!
Essa me pegou de surpresa e me fez ruborizar de leve. Eu disse que acabei me envolvendo com uma terrorista!
-Estou brincando – disse juntando nossas testas com um sorriso. Eu vou me vingar disso... Juro por Neptune! Mas no momento só consigo sorrir... que patético...
-Se me der licença Tenou-san, eu preciso terminar de secar meu cabelo e colocar os sapatos...
Ela me soltou.
-Fique a vontade Kaiou-san, se precisar de minha ajuda estarei à disposição.
-Prefiro que me ajude depois do concerto, se ainda tiver disposição...
A vingança é doce... mas deveria ser doce para mim! Por que ela está sorrindo desta maneira?
-Prometo manter um reserva para não decepciona-la...
Tenou eu te odeio...
Pessoas, muitas pessoas, pessoas demais para meu gosto. Câmeras e microfones por todos os lados. Eu até tentei subornar o motorista para que nos deixasse na entrada dos faxineiros, mas eu imagino que ele foi devidamente preparado para coisas assim... Ou não tem amor à vida mesmo... Já que é assim vou mostrar ao Todo Poderoso que resolveu me meter no meio desse palco que Tenou Haruka não é pouca bosta! Se Ele está tão afim de um show, eu vou Lhe dar um espetáculo.
Desci primeiro sorrindo para as mulheres histéricas que tentavam burlar a segurança (e estavam conseguindo). Quem disse que o fato de ser mulher atrapalharia minha popularidade com a porção feminina? Devo dizer que sou a maior responsável por tirar pessoas do armário. Estendi a mão a Michiru e quis matar os cretinos que começaram a assoviar e jogar gracinhas. Controle-se Haruka. Como você mesmo disse : “Não são eles que acordarão com o mesmo cheiro amanhã”. As vezes eu tenho ataques de genialidade. Entramos e fomos logo guiadas até a parte traseira do palco, onde nos encontramos com Ulrich e sua esposa, uma mulher elegante, morena de olhos cor de mel. Magra, com um nariz fino e muito sorridente. Ao lado dos dois havia uma jovem moça que eu calculo ter 15 anos mais ou menos. Imagino ser a filha deles, pois seus olhos eram pequenos e castanhos como os de Ulrich e seus cabelos negros e lisos como os de sua esposa.
-É um prazer recebe-las Haruka-san, Michiru-san... espero que não se importem com a presença de minha esposa e filha aqui. Fiz questão que elas viessem para ouvi-las.
Ele sorria como sempre. Aquele sorriso cheio de bondade das pessoas mais velhas. Sorrimos também. Michiru cumprimentou a mulher que se chamava Elise ou algo assim... este sotaque francês me incomoda... cumprimentei-a também virando-me para a jovem.
-Muito Prazer, sou Haruka Tenou. Qual o seu nome pequena princesa?- Tomei o cuidado de falar em francês, pois duvido que uma jovem de 15 anos tenha interesse em aprender Japonês... Ela ficou vermelha... muito vermelha... Eu imagino que Michiru deve estar querendo me matar agora.
-E-Elizabeth...
-É um lindo nome- apesar de eu não conseguir pronunciá-lo, mas a força do hábito faz com que eu seja eternamente um Casanova.
-Elizabeth é uma grande fã sua Haruka-san. Quando soube do concerto fez a mãe comprar-lhe um vestido novo e contou os dias no calendário.
A pobre garota agora parecia a ponto de explodir. Eu entendo... há certas coisas que os pais não devem nunca contar desta maneira deliberada. Quando apresentei Michiru à meu pai (minha mãe morreu há muito tempo) ele fez questão de contar à ela histórias constrangedoras de minha infância e mostrar as cartas que lhe escrevia com verdadeiras declarações de amor à minha companheira. Sem contar as malditas fotos com papinha na cara... Todos têm uma foto assim... Então, para confortar a menina, passei-lhe a mão pelos cabelos sorrindo.
-Soube escolher muito bem o vestido princesa...- Por incrível que pareça Michiru não estava brava. Eu diria até que estava orgulhosa ou coisa assim. Provavelmente duvidava que uma garota de 15 anos pudesse competir com ela... aliás, nenhuma mulher conseguiria algo assim, mas até eu admito que exagero nos flertes as vezes...
-O-Obrigada...
-Haruka... – Virei-me para Michiru que ainda falava em francês. Obviamente para que a menina entendesse... – amanhã ainda estaremos na França, certo?
-Sim, iremos embora só daqui dois dias...
-Ótimo – Voltou-se para Ulrich-san e para Elizabeth que ouvia tudo com plena atenção – Não gostariam de passar o dia conosco Ulrich ?
-Nós?
-Se não tiverem compromissos - Curvei-me elegantemente – seria uma honra.
A garota virou-se com olhos suplicantes para o pai que sorriu.
-Seria um prazer acompanha-las, se não for incomodar...
-Não incomodaria de maneira alguma – Michiru respondeu – é ótimo ter a companhia dos amigos. Encontramos-nos no saguão do hotel ao meio dia, está bom assim?
-Está perfeito. Aguardaremos ansiosos.
A menina pulou abraçando-a e dizendo “obrigado” abraçou-me também logo em seguida. Fico feliz em fazer a felicidade da garota. Ulrich chamou-a avisando que o concerto começaria em pouco tempo. Ela obedeceu. Pouco antes de irem para seus lugares Ulrich sussurrou para mim em japonês com tom de brincadeira.
-Não tente flertar com minha filha Haruka, ouvi falar sobre seus “poderes”.
Ri ao imaginar que meus flertes eram mais famosos que minhas vitórias no automobilismo.
-Sou comprometido Ulrich-san, além disso, tenho amor à minha vida.
-Estarei de olho em você amigo.
Agradeci internamente por ele ter me tratado no masculino. Não que eu quisesse ser homem, de maneira alguma, gosto de ser mulher (mesmo com as cólicas da vida...). Só me sentia mais a vontade daquela maneira. Para quem vive em pecado com a sociedade, ser tratado como inocente é como receber uma benção. Se bem que se estar com Michiru é pecado, então que me crucifiquem, eu realmente não me importaria. Bando de invejosos, eu rio na cara deles.
Michiru me tirou de meu transe avisando que já estavam anunciando o início do concerto. Subimos para a lateral escondida do palco enquanto o pequeno homenzinho loiro anunciava em voz alta e empolgada (como todos o fazem).
-Está noite, o Teatro Municipal de Paris trás para os senhores um concerto muito especial. Do Japão, a mundialmente famosa violinista Michiru Kaiou e a velocista número um do mundo e também pianista Haruka Tenou. Que Paris guarde para sempre as notas e sons deste que será um dos maiores concertos do século!
Eu imagino quantos concertos já foram tachados de concertos do século por este cara. As palmas preencheram o ambiente quando nos curvamos saudando os espectadores. Aproveitei para sorrir significativamente para Michiru. Era hora de fazer as palavras do pequeno anunciante serem verdadeiras. Sentei-me em frente ao piano. As teclas pareciam me chamar baixinho, como um sussurro. O vento entrou pelas grandes janelas daquele Imenso Teatro dourado circular com milhares de poltronas vermelhas. A brisa sussurrou em meu ouvido tudo o que eu precisava saber, depois contou à minha companheira. Se aqueles velhotes esperavam um espetáculo monótono irão se decepcionar... Michiru começou antes de mim com notas rápidas e melódicas, o piano entrou logo em seguida, no momento certo, só poderia ser aquele e nenhum mais. Meus dedos fluíam pelas teclas com precisão e rapidez, ninguém imaginaria que era um total improviso. Os primeiros minutos da música foram constituídos de um dueto perfeito, que não deixaria ninguém entediado. Depois tirei as mãos do piano deixando que Michiru me dirigisse a palavra em forma de escala, logo depois voltei a tocar igualmente solo. Era como uma batalha, ou mais apropriadamente falando uma troca de carícias. As notas às vezes se mesclavam e eu tive a impressão de que aquele piano não resistiria muito tempo. Nos últimos instantes voltamos a tocar juntas em um verdadeiro turbilhão de sons. Já sentia o suor molhando levemente a minha face quando toquei a última nota. Um verdadeiro furacão de palmas e assovios parecia querer derrubar o teatro. A música havia durado pouco mais de 10 minutos, e eles ainda não haviam visto nada.
Quase que por obrigação para com a arte, a próxima música foi For Elise. Como era um solo para piano, imagino que muitos tenham pensado que eu tocaria sozinha. Tolos mortais que não conhecem a genialidade das sereias. É difícil explicar com palavras o quão impressionados ficaram os críticos com a forma com que eu e Michiru conseguimos harmonizar o violino e o Piano neste clássico, algo que provavelmente nem seu criador (Beethoven, grande amigo meu) sequer havia imaginado. Modéstia a parte é claro...
A seguir tocamos “Kaze ni Naritai”. Michiru ficou assustada quando eu disse que queria tocar esta música no concerto. Eu a havia feito há muito tempo, em nossa primeira viagem juntas para... adivinhe? A praia. Era noite, eu me lembro bem, o mar acariciava nossos pés, estávamos sentadas bem de frente para ele há horas tocando e cantando. Já era de madrugada, o vento começava a me confiar segredos, minha amante me perguntou o que ele estava me dizendo, “Disse que temos pouco tempo...”. Tinha certeza de que o mar dizia algo parecido à Michiru, referindo-se é claro às batalhas nas quais iríamos morrer... e morremos! Mas esta brisa brincalhona decidiu nos privar do detalhe da ressurreição... Sem ter esperança de um final feliz, comecei a dedilhar o violão e a música veio como um sussurro de minha alma, tranqüilizando Michiru e fazendo com que ela dormisse em meu ombro. Mais tarde fizemos um dueto dela, que foi cada vez mais lapidado, até atingir a perfeição. É foi justamente esta perfeição que mostramos aos parisienses que como eternos românticos já secavam suas lágrimas.
Três músicas e eu tenho certeza de que se parássemos por ai todos já estariam satisfeitos. O fato é que tocamos mais 12, alternando entre improvisos, clássicos e músicas prontas. Já estava ofegante, mas não era a única, Michiru também me olhava como se dissesse “você está falando demais!”, mas eu disse que este seria meu melhor concerto e não vou voltar atrás. A maioria das pessoas que assistiam já estavam ou aos prantos ou com sorrisos bobos na cara. Ulrich, na primeira fileira, tinha os olhos brilhantes e marejados. Era hora de encerrar o show. Mais que isso, era hora de realmente impressionar os franceses. Eu disse para Deus que não sou pouca bosta e vou provar agora. Peguei o microfone que estava acima do piano e me levantei. Nem Michiru estava entendendo o que eu estava fazendo, afinal eu nem queria vir! O fato é que dentre todos os dias do ano, eu escolhi aquele para provar que sou louca.
-A próxima melodia será a última desta noite. Ela não tem nome, e para ser sincero nem sei como vai ser. –Ulrich sorriu sabendo exatamente do que eu estava falando – Mas prometo que será inesquecível. Michi...
Ela se aproximou um pouco e eu a puxei a meu encontro a beijando nos lábios. O susto foi inevitável, Michiru mesmo demorou alguns segundos para corresponder, mas apertou o tecido do meu terno deixando que eu explorasse sua boca o mais fundo e explícito possível. Uma salva de palmas, assovios e gritos realmente pareceu querer desmoronar o teatro, e eu tive a impressão de que estava prestes a conseguir. Quando finalmente nos separamos eu sussurrei “eu te amo” em japonês em seu ouvido e depois fiz questão de dizer o mesmo em francês no Microfone. Eu disse que hoje conseguiria atestado de loucura! Michiru sorriu como nunca havia sorrido antes e com lágrimas nos olhos pulou em meu pescoço me abraçando (ou tentando me matar, não tenho certeza...).
Demorou para cair a ficha, mas a verdade é que Haruka havia dito que me amava para toda Paris e provavelmente para o mundo considerando que os fotógrafos estavam sempre à procura de algo assim. Nunca fiquei tão feliz na vida, chorava de alegria quando a abracei e sussurrei :
-Eu também Ruka... eu amo você... mais do que minha vida.
Nem percebi que havia deixado cair a haste do violino. Haruka se abaixou e pegou para mim. Me entregou sorrindo enquanto dizia “Vamos?”. Afirmei que sim com a cabeça e me preparei para tocar melhor do que nunca. Começamos exatamente ao mesmo tempo, com calma, deixando as notas fluírem de maneira rápida, mas sem brutalidade. Eu sentia o violino vibrar com os acordes. “Eu te amo Haruka...” era exatamente isso que eu queria dizer. Memórias começaram a invadir minha mente, as notas do piano pareciam trazê-las. Como se nossa mente houvesse se tornado “uma”, nossos pensamentos estavam sincronizados.
A praia... a melodia tornou-se suave como o movimento das ondas daquele dia. Lembra-se? Eu dormi em seu ombro e você ficou acordada a noite toda zelando pelo meu sono. Você nunca admitiria algo assim, mas não pode evitar dormir sobre o prato de cereais com leite no dia seguinte.
Estava exausta, o suor escorria de minha testa, mas mesmo assim acelerei as notas sentindo a adrenalina dos sons baterem direto em minha alma. O silêncio no teatro era absoluto. Todos ouviam atentos. Haruka novamente parecia lutar contra o piano. Rezei para que as cordas do violino agüentassem mais alguns minutos. As notas cintilavam, brilhavam e depois explodiam como feixes de luz. A melodia acabou com um acorde forte e seco, um último suspiro. Um silêncio mortal abateu-se quebrado apenas pelos sons de nossas respirações ofegantes. Instantes depois as palmas vieram como um rugido de alguma criatura sobrenatural. Gritos, assovios, choros misturados com risadas, dava até medo. Estava realmente exausta. Haruka levantou-se e se curvou junto comigo. Logo depois as cortinas se fecharam e eu a abracei apoiando meu corpo cansado no seu igualmente exausto.
-Obrigada Haruka...
-Acho que desta vez fui suficientemente claro, certo?
Sorri tentando me manter de pé.
-Idiota...
Já parcialmente recuperada soltei-a arrumando o cabelo. E descendo do palco.
-Melhor se preparar meu anjo, pois é agora que vem a parte mais difícil...
Nem precisava dizer...
-Repórteres... já devem estar nos esperando no camarim...
-Parte do Caos é culpa deles. Bem...
Ela passou à minha frente me dando as costas.
-Faz parte do jogo... né?
E se virou me estendendo a mão com aquele sorriso “Casanova” irritantemente fofo.
-Mi-chan?
Eu ainda a matarei por esse apelido... Aliás, matarei minha mãe que o ensinou a ela... Sem me dar por vencida, recusei sua mão passando a minha própria por seu rosto.
-O que você disser Ruka-chan...
Ok, eu admito que o “chan” foi cruel demais, deveria ter usado o “kun”, mas agora já foi... Começamos a ouvir conversas através da porta que daria para o camarim, deveriam haver uns 3 ou 4 jornalistas lá dentro. Ainda podíamos fugir, mas é claro que cercariam o hotel. Respirei fundo. Haruka tocou em meu ombro me encorajando, tomei impulso e abri a porta.
Depois de Praticamente nos jogarem em um sofá, estavam todos nos olhando como lobos famintos. Pela primeira vez na vida não tenho vergonha de admitir que estou com muito, mas muito medo. Esta família de humanóides pertencente ao gênero “mídia” costuma se dividir em três classes básicas, e por incrível coincidência (ou crueldade divina) as três encontravam-se diante de nós.
Havia um ser alto e muito claro com cabelo amarelo, quase gema de ovo, e olhos castanhos cintilantes que portava uma câmera tão moderna que devia lavar privadas e passar roupas. Este ser pertencia à classe dos fotógrafos. Esta classe tem uma particularidade: Podem gastar rolos de filmes mas não desistem enquanto não te cegarem ou conseguirem captar sua pior face (como o momento exato do espirro... acreditem, é medonho...).
O segundo era mais baixo, tinha cabelo bem ralo e escuro, grandes óculos e olhos negros. Tinha um gravador em mãos, com o qual imortalizaria qualquer frase, palavra, pensamento, grunhido, enfim, qualquer mísero som que saia de sua boca e que possa te comprometer de alguma maneira.
O terceiro e último era o ajudante do fotógrafo. Aquele que ajustava as luzes de tal forma que : Se você tivesse piolhos, ele saberia. E era exatamente neste ambiente hostil que nos encontrávamos. Nenhum deles parecia saber japonês, nem mesmo trouxeram um interprete. Talvez soubessem que dominávamos a língua e resolveram relaxar. Bando de vagais! Arrumei-me o mais confortavelmente possível no sofá ao lado de Michiru que já estava completamente controlada.
Ao que me parece, Deus ainda não ficou satisfeito. Bem, eu confesso que ainda tenho cartas na manga.
E lá vieram as perguntas banais : “Como se prepararam para o concerto?”, “Desde quando tocam juntas?”, “Já estiveram em Paris?”, “Você realmente toca piano?”, não meu caro, eu não toco ele, eu como ele... com pauzinhos ainda!
Então vieram as verdadeiras perguntas. Aquelas que eles realmente queriam fazer. Aquelas que me deixariam irritada...
-Sempre houve uma desconfiança sobre o relacionamento de vocês, alguns ainda sustentavam a idéia de que seriam apenas boas amigas, outros eram crentes em uma relação amorosa. Acho que o concerto de hoje tirou todas as dúvidas, certo?
Suas tentativas de tentar ser gentil fracassaram meu caro. O que quer que façamos para provar? Não quero que se sinta mal com sua escassa vida sexual contando-lhe da nossa... Michiru olhou para mim como se dissesse “deixe esta comigo”, portanto decidi me calar.
-Pergunte àqueles que duvidavam - Minha sábia sereia me surpreende à cada dia.
-Nunca tiveram problemas com a sociedade?
-Nunca... –Respondi começando a me estressar com aquele olhar ofensivo de quem quer me arranjar problemas – nunca com a sociedade que nos importa...
-Nem com a família?
-Nossa família são as pessoas que nos aceitam como somos... – Michiru respondeu em meu lugar. Claramente percebendo que a conversa começava a rumar para um lado preconceituoso. Não pela pergunta em si, mas pelo olhar insultuoso de seu locutor.
-Creio que a grande questão é o que levou duas mulheres excepcionalmente belas como vocês a optarem pelo homossexualismo...
-Sei qual é a sua questão. O senhor acredita que só mulheres incapacitadas de atraírem homens se voltam para outras mulheres – Em cheio. O rapazinho engoliu seco. Eu sorri em vitória. Estava brava o suficiente para atacar sem dó aquele machista homofóbico. – Pois eu lhe digo que nunca trocaria Michiru por homem algum, ou mesmo mulher. Porque o que me atraiu foi sua alma, não seu sexo.
-São palavras corajosas, mas já que tocou no assunto “sexo”, nunca quiseram estar com um homem?
Cerrei os dentes, estava prestes a cometer um ato violento, mas Michi pegou em minha mão me impedindo de fazer o que mais queria. Olhou para o repórter fuzilando-o com o olhar.
-Se sua intenção era provar que somos dependentes de Homens para sermos felizes, sugiro que não perca seu tempo. Pois tenho certeza absoluta de que nenhuma mulher com a qual o Senhor se deitou foi mais feliz em uma vida do que eu sou todas as noites.
Até eu fiquei assustada agora. Assustada e levemente envergonhada por ter minha privacidade exposta desta maneira. Mas agora sim havíamos tirado qualquer possibilidade de resposta daquele francesinho nojento. Levantei-me agarrando-o pela gola, Michiru ia protestar, mas eu gesticulei que não iria mata-lo. Ao invés disso encarei-o com raiva no olhar. Por um momento achei que ele iria molhar as calças.
-Acho que esta entrevista terminou...
E saímos deixando todos espantados. Já dentro da Limusine, Michiru parecia preocupada com alguma coisa. Peguei em sua mão sorrindo.
-Se arrepende de algo Michiru?
Ela me sorriu de volta.
-De maneira alguma, devo confessar que apesar de tudo, foi divertido dar lição de moral naquele pobre retardado mental, mas fico pensando nas mentiras que ele escreverá. Podem acabar te prejudicando, afinal você quase bateu nele...
Comecei a rir. Minha pobre sereia não entendia o motivo da graça. Por isso meti a mão no bolso do terno e tirei de lá uma pequena fita.
-Achou mesmo que eu me descontrolaria tão facilmente sereia?
Como? Aliás... quando ela pegou a fita? Não pode ser...
-Você... roubou a fita quando agarrou-o pela gola...
-Não diga “roubou” Michiru... roubar é uma palavra muito forte. Eu somente cobrei direitos autorais pela minha linda voz que está gravada bem aqui.
Eu comecei a rir. Era óbvio que aquela havia sido nossa melhor noite.
-Imagino que frustramos qualquer plano de vingança do pobre repórter.
-Ele não poderá provar nada sem isto, muito menos terá permissão para escrever qualquer matéria sem fundamento.
Sorri perante a genialidade de minha companheira que bateu de leve a fita e minha cabeça, piscando.
-Acho que ganhamos a noite princesa.
Engoli seco. Aquele olhar de quem tem total controle da situação me deixava sem razão. Haruka era tão irresistível... Deus, no que estou pensando? Estamos em uma limusine! Deveria esperar até chegarmos ao Hotel para começar a ter pensamentos impróprios.
-Um tanto descarada não acha?
Congelei.
-O... o que?
-Aquela mulher sentada na segunda fileira... Tinha tão pouco vestido que eu poderia ver seu útero...
Fiquei completamente pasma com o que ouvi.
-Haruka... como você... Tem coragem de dizer algo assim com tanta NATURALIDADE?
Sua infeliz! Você não tem mais o que fazer da vida! Sua imprestável! Insensível! Haruka se encolheu no acento. Eu estava realmente furiosa. Fechei completamente a cara me virando para a janela. A aura maligna no interior do carro era evidente, pois mesmo o motorista começou a ir mais devagar.
-M-Mas eu não pude deixar de reparar! Foi logo no começo!
-Eu não acredito que você conseguiu reparar em alguém pouco antes de tocar COMIGO! E ainda tem a cara de pau de me contar! Sua Insensível!
-Não é o que você está pensando Michiru, eu não olhei com este tipo de pensamento! Ela estava extremamente vulgar com aquele vestido laranja!
-Você sabe até a cor do vestido! Sua...
Estalei por um momento. Virei-me por um segundo percebendo que ela já estava suando frio do outro lado do banco.
-Vestido Laranja?
Ela se arrepiou.
-N-Não tenho certeza se era laranja, eu não costumo reparar nessas coisas. Podia ser azul, ou turquesa, mas quem se importa não é?
-De cabelos pretos cortados naquele estilo secretária?
-Er... Sim?
Comecei a gargalhar. A energia maligna se esvaiu como que por milagre. Obviamente Ruka não entendia nada.
-Michiru?
-Parecia uma porca bailarina! Era algo impossível de se ignorar!
Realmente, por um momento pensei em jogar a haste de meu violino em sua grande barriga e ver se estourava. Haruka olhou-me com um sorriso malicioso.
-Eu não acredito que você teve coragem de reparar em alguém pouco antes de tocar COMIGO!
Tentei conter a risada imaginando que realmente aquele é o tipo de mulher que nem Haruka teria coragem de encarar... nem de frente, nem de trás...
-Desculpe Ruka, é o hábito...
-Deve concordar comigo que não é todo dia que o Jurassic Park visita um teatro...
-Você é cruel...
-Sou um anjo, um lindo anjo de luz, puro e casto...
Tive vontade de me tacar pela janela, tamanho o absurdo que ouvi.
-Então eu creio que passará esta noite rezando sobre o milho meu lindo anjo de luz...
-Ok, eu retiro o que disse...
-Isto me tranqüiliza...
Haruka deveria agradecer todos os dias pelo tribunal da Inquisição não existir mais, pois com certeza ela seria a primeira a ser enforcada em praça pública. Chegamos ao hotel com o ânimo renovado. Humilhar machistas deveria ser considerado uma medicina alternativa. Sentei-me na cama olhando significativamente para Haruka.
-Então... doeu muito tocar comigo no concerto?
Ela deu de ombros enquanto tirava o paletó.
-Não foi de todo ruim, mas ainda não sou fã do hábito. Estou feliz por ao menos termos feito boas amizades...
Fuzilei-a com o olhar.
-Não tente flertar com a filha de Ulrich-san Haruka. Ela é somente uma criança.
Inexplicavelmente ela começou a rir, ou melhor, gargalhar. Percebendo o ponto de interrogação que se formou em minha testa minha loura amante tentou se explicar.
-É que... eu tenho a impressão de já ter ouvido algo parecido hoje.
-Ara Sou?
Ela se sentou ao meu lado encostando nossas testas. Eu ruborizei de leve Haruka era realmente muito bonita para se ignorar... mesmo depois de anos...
-Não se preocupe sereia, não vou flertar com uma menina de quinze anos, ainda mais quando tenho você ao meu lado.
-Se bem me lembro era exatamente esta a idade de Usagi-chan quando você começou a flertar com ela. E eu JÁ estava ao seu lado...
Ela piscou parecendo um tanto confusa.
-Acha mesmo que já pensei em me envolver com Odango?
-Ao menos enganava muito bem...
Ela riu novamente enquanto tirava a gravata.
-Eu só brincava com ela. Aquele jeito atrapalhado e meigo era muito engraçado. Mas pode ter certeza de que nunca senti nada além de carinho por nossa princesa.
Suspirei sentindo pena de todas as garotas que já foram iludidas por Haruka. Desamarrei as sandálias deixando-as ao lado da mala, ela também tomou o cuidado de guardar o paletó. Isto me lembra de um fato engraçado que ocorreu há um tempo atrás, mais especificamente há um ano. Um dia antes do casamento de Usagi, Rei decidiu fazer uma pequena festa no templo, algo como uma “Despedida de Solteira”. As garotas insistiram que Haruka fosse, mas ela recusou dizendo que se sentiria um tanto deslocada, por isso acabou saindo com Mamoru e alguns colegas da faculdade para fazer “Deus sabe o que” (supostamente passaram horas bebendo e conversando, mas eu prefiro não saber o assunto). Depois de algumas horas comendo e conversando, Minako (sempre muito curiosa sobre a vida privada dos outros) perguntou-me se o quarto de Haruka era bagunçado. Não sei de onde vem a teoria de que sempre em uma relação um deve ser asseado e o outro desleixado. Aparentemente elas duvidavam que eu fosse desleixada.
Acabei revelando que Haruka era tão preocupada com a limpeza quanto eu, tanto que costumamos alternar o dia de cada uma arrumar a cama. Ami corrigiu:
-“As camas” você quer dizer...
Eu sorri e respondi antes de tomar o chá :
-Não... “A cama”...
Os olhos de todas esbugalharam. Era de conhecimento de todas que morávamos juntas, tanto que cheguei a achar engraçado elas terem se espantado com o fato de dividirmos a mesma cama. O que esperavam afinal? Todas conhecem minha parceira! Duvido que se contentariam em dormir em quartos diferentes se estivessem em meu lugar! Achei tão engraçado as caras de espanto delas que resolvi brincar um pouco com aquele assunto.
-Ara? Acharam que dormíamos separadas a noite toda?
-Er... bem... não exatamente...- Disse Makoto um tanto envergonhada. Estava me divertindo tanto com o rumo da conversa que coloquei a mão no queixo com uma expressão de quem tenta se lembrar de algo e disse mais para mim que para as outras.
-Se bem que já faz algum tempo que não dormimos a noite toda...
Os rostos estavam ainda mais engraçados, as expressões extremamente curiosas. Minako levantou-se com brilho nos olhos, Se dirigiu a mim como se tivesse a resposta para os enigmas da bíblia.
-Michiru-san... Quero todos os detalhes!
Eu comecei a rir descontroladamente e acabei revelando mais do que deveria naquela noite. Infelizmente isto só serviu para deixar Minako ainda mais impressionada com Haruka. E todas passaram a olhar diferente para ela desde aquele dia.
Quando conheci aquelas garotas, não imaginava que um dia teria uma conversa tão descontraída como aquela com elas. Nunca esperei que meu destino de Sailor (Que sempre me pareceu tão divertido quanto dar a luz...) fosse me reservar pessoas tão especiais com as quais faria amizades verdadeiras...
-No que está pensando Michiru?
Assustei-me por um momento. Haruka havia ajoelhado à minha frente e me olhava como uma criança curiosa.
-Ahm?- Respondi ainda tentando me situar.
-Boas memórias?
Sorri.
-Pode-se dizer que sim... Por sinal...
Mudei para uma expressão maliciosa enquanto tocava de leve em seu rosto e unia nossos lábios. Haruka não perdeu tempo, parecia querer me devorar por dentro. Estava mais animada do que de costume. Levantou-se sem abandonar minha boca e me deitou na cama beijando meu pescoço e meus ombros. Eu ia terminar a frase, mas não conseguia achar tempo entre os suspiros e gemidos de prazer enquanto sentia suas mãos ágeis deslizarem por minhas pernas, acariciando-me por debaixo do vestido sem deixar de dar atenção à minha boca. Deus, eu sabia que aquela seria uma longa noite, mais que isso, se conheço bem Haruka ela irá me enlouquecer com preliminares a ponto de eu sentir que orgasmo nenhum me faria sentir mais prazer, e depois provaria que eu estava errada. Arrepia-me só de pensar. E mais uma vez... não fui eu quem tirei aquele vestido... Não que eu esteja reclamando...minha Uranus tem bem mais prática nisso que eu...
Este foi o primeiro capítulo da fic. Espero que tenham gostado! Muitas surpresas estão reservadas no segundo capítulo. Gostaria muito de saber a opinião de vocês, ela é muito importante para que eu melhore cada vez mais. Obrigada por lerem até aqui! Vejo vocês no próximo capítulo!
Milk