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Bela Patty
Author of 14 Stories

Rated: M - Portuguese - Adventure/Drama - Reviews: 244 - Updated: 05-06-08 - Published: 07-21-06 - id:3058169

O ESCORPIÃO ESCARLATE – 2ª TEMPORADA

Capítulo Anterior – Kamus sai com Gabrielle e sugere irem ao seu apartamento. A advogada nega, mas impressiona-se com o francês. Milo irrita-se consigo mesmo por seu comportamento com Alberich e relembra como começou a história de ser um ator na prisão. Kamus e Milo sentem-se farsantes, cada qual em sua razão. O policial decide namorar Gabrielle seriamente por precisar se tornar Superintendente.

-oOo-

...pensou sobre o que acabara de dizer. Precisava tornar-se Superintendente. Custasse o que custasse.

- Ótimo, Kamye. Você precisa do cargo e sabe que não pode ficar com o Milo. Eu não preciso repetir todos os defeitos dele. Basta dizer que seu querido “Ange”, o larapiozinho grego, vai mofar por pelo menos um ano e meio na Clairvaux. Lembra-se?

Seus pensamentos se perderam na tela do computador.

- Você concorda que tudo isso é verdade, não é, Kamus ? – martirizou-se.

Ficou um longo tempo olhando para o vazio.

-oOo-

O Escorpião Escarlate – Cap VIII – Prenúncio de um fim

-oOo-

Sábado à noite. Ruas parisienses...

Kamus respirava rapidamente. Seus batimentos cardíacos estavam acelerados. O policial olhou para o relógio do automóvel e acelerou, ultrapassando velozmente outros veículos. Marcara com a advogada às oito da noite, porém já passava das oito e dez.

Chegou à entrada do prédio de Gabrielle cinco minutos depois.

- Boa noite, investigador. – a jovem disse ao entrar no carro – Atrasou-se um pouco?

- Acabei me demorando a sair.

- Hummm. Perdeu tanto tempo assim para se produzir para mim? Que bom. – sorriu e deu-lhe um beijo na boca.

O aquariano retribuiu o beijo, mas com os pensamentos em outro lugar. O atraso fora causado por seu conflito interior e não para produzir-se, entretanto quaisquer comentários sobre este assunto eram absolutamente desnecessários.

- Será que ainda dá tempo de pegar o filme? – o francês perguntou parando o beijo.

- Claro. – respondeu com suavidade – A sessão só começa às oito e quarenta. – respondeu e ficou observando o namorado por alguns instantes. – Você me parece tenso, amorzinho. – tocou-lhe o rosto carinhosamente – O que houve?

- Nada de mais. Apenas desliguei o computador muito tarde. – mentiu.

- Você ficou trabalhando até agora?

- Já comecei tarde. Só peguei depois do almoço.

- Kamus, agora que estamos namorando, você precisa racionalizar seu tempo do trabalho. É melhor, inclusive para sua qualidade de vida, fazer isso apenas durante o expediente, não acha?

O policial acabara de descobrir a diferença entre homens e mulheres de 12 de janeiro. Shura cobrava-lhe atenção, mas sempre de forma sutil. Gabrielle, ao contrário, deixava bem claro que as coisas mudariam. E logo na primeira semana de encontros.

Cresceu em seu interior uma enorme vontade de virar-se para aquela advogadazinha petulante e dizer-lhe que, se alguém tinha o direito de interferir em sua vida, esse alguém não era ela. No entanto, limitou-se a ficar quieto.

“E o Dohko ainda diz que ela é perfeita.” – disse a si mesmo, lembrando a conversa que tivera durante a tarde de sexta, com o chinês, sobre a namorada.

Então vocês vão ao cinema. – o chefe deu uma pequena pausa, olhando para o funcionário com satisfação – Sabe Kamus, este relacionamento me deixa muito feliz. Com a responsabilidade que você tem, e tende a aumentar aqui na IPF, – frisou bem esta parte – você precisa de alguém para partilhar os bons momentos. A Gabrielle não apenas pertence a uma família muito respeitada, como também é advogada. Isso significa que não haverá conflitos profissionais em casa. Você perceberá como é bom unir-se a uma pessoa que compreende o meio no qual você vive.

O investigador não se manifestara, mas mesmo assim o Superintendente continuou.

Veja meu casamento: minha esposa não pode me dar filhos, mas é sensata e se comporta muito bem nos eventos sociais. É um casamento muito sólido. Faço votos que o mesmo ocorra com você. Talvez você seja jovem demais para perceber, mas uma boa esposa conta muito pontos com a sociedade. Gabrielle é perfeita. Tenho certeza que será uma ótima companheira.”

Companheira? A esposa de Dohko estava mais para uma serviçal. Passava a maior parte do tempo olhando para baixo, sem pronunciar uma palavra sequer, deslocando-se para cá e para lá conforme as determinações do marido. O Superintendente costumava desculpar-se por seu silêncio dizendo que a mulher não falava bem o francês, mas na verdade a pobre criatura não passava de sua sombra.

Era fato que teciam comentários positivos sobre o chefe, associando sua perseverança na IPF à sua fidelidade ao casamento, porém, nunca, em momento algum, o ítem “felicidade no relacionamento” era mencionado. Todos falavam apenas da constância do chinês.

- Puras marionetes sociais. – o aquariano murmurou, parando em um semáforo.

- O que disse você disse? – a namorada perguntou-lhe.

- Nada. – olhou para a jovem – Mania de repensar os casos em voz alta.

- Trabalhar tanto assim não faz bem, amorzinho. Você deveria descansar mais.

- É. Vou me esforçar para isso.

- Perfeito. – sorriu – E eu estou aqui para te ajudar. Não vou te deixar trabalhar demais sem um mínimo de diversão. Você dança?

- Dançar? Não. Não danço nada.

- Ótimo. Isso significa que posso te ensinar do zero. – deu uma pequena pausa – Podemos pegar uma balada depois do cinema.

- Uma balada? Acho muito agitado, Gabrielle. Eu pensava em um lugar mais tranqüilo.

- Kamus, – acariciou os cabelos do policial – ainda é muito cedo para namorar no seu apartamento. Desde que recomeçamos esta é apenas a segunda vez que saímos.

- Não. Não estou falando disso. Podemos conversar em um café ou algo do gênero.

- Amorzinho, não se preocupe. Podemos ir ao café e depois seguir para a balada. Uma coisa não impede a outra.

O francês permaneceu calado.

- Tudo bem, você está em dúvida. – a advogada constatou – Então vamos começar indo ao cinema, depois ao café e o resto você decide. Está bem assim?

O investigador assentiu percebendo que a noite seria mais longa do que imaginava.

-oOo-

Clairvaux. Salão comunitário...

Milo sentou-se no longo banco de pedra e encostou-se na parede. Suas costas e pernas doíam. Passara praticamente o dia todo abaixado, montando novos móveis.

- Essa vida de peão está me matando. – disse a si mesmo esticando as costas o máximo possível. Seu corpo estava completamente dolorido.

Ainda movimentava-se vagarosamente, colado à parede, quando algo chamou sua atenção.

Cerca de dez metros à sua direita estava Alberich. O criminoso ruivo estava sozinho até que um dos guardas aproximou-se, parou ao seu lado e entregou-lhe um maço de cigarros. O grego cerrou discretamente os olhos. Nenhum dos agentes entregava cigarros aos presos. Apenas os advogados ou visitas faziam isso. O que motivava um guarda a dar um maço de cigarros a um presidiário, ainda mais um tão perigoso?

Desviou o olhar para frente a fim de Alberich não perceber que era observado e imediatamente sentiu um arrepio pelo corpo. O General o encarava com os olhos gélidos. O ladrão rapidamente baixou o olhar. Sabia não ser uma boa atitude encarar o outro bandido.

Depois de algum tempo olhou mais uma vez para frente e viu o General sair da posição onde estava e caminhar em sua direção. O escorpiano voltou a olhar para baixo e depois para o lado esquerdo, percebendo nervosamente em sua visão periférica que o outro preso se aproximava.

- Ei, olhe por onde anda. – alguém retrucou fazendo Milo desviar seu olhar para frente. Era o guarda que falava há pouco com Alberich. O General esbarrara nele durante seu trajeto.

- Minhas sinceras desculpas, guarda... Shido. – o criminoso disse ao ler a identificação do agente – Este meu amigo me chamou para conversar e vim até aqui saber o que ele deseja. – apontou o grego – Não percebi que atrapalhava seu caminho.

O ladrão parou momentaneamente de respirar com o comentário.

- Pois não fiquem de muito papo. – o agente advertiu com pouca gentileza – Daqui a pouco haverá o toque de recolher.

- Claro, guarda Shido. Não se preocupe. Sou um preso consciente das minhas obrigações.

- Ótimo para você. – disse e saiu.

O General esperou o agente afastar-se para questionar o outro.

- Por que estava olhando para mim? – perguntou secamente.

- Eu ? Não. Não estava olhando. – os olhos azuis do escorpiano desviaram-se rapidamente para seu interlocutor e em seguida para baixo.

- Você estava me encarando, garoto.

- Não. Não estava não.

- Está dizendo que eu estou mentindo? – aproximou-se um pouco mais do grego.

- Não. – disse fitando os olhos gélidos e sentindo-se totalmente desconfortável. – Eu não estava encarando. – baixou o olhar – Apenas olhei para onde você estava. Só isso. Não tinha a intenção de te encarar ou te aborrecer.

- Que ótimo. – o General disse lentamente – Você sabe o que acontece com quem costuma me irritar, não?

Milo apenas assentiu, positivamente, sem olhar para o alto.

- Seja um bom garoto... – bateu de leve no rosto do ladrão – ...e você não vai se machucar.

O escorpiano assentiu novamente sem pronunciar palavra alguma.

O presidiário deu meia-volta e retornou para onde estava. O grego deu um suspiro de alívio. Ser massacrado pelo General não estava em seus planos para sair da Clairvaux.

Assim que o outro preso afastou-se a uma distância segura, Milo levantou-se e saiu do salão. Seguiu até sua cela, entrou, deitou-se e permaneceu por lá, não saindo para mais nada naquela noite.

-oOo-

Na saída do cinema...

- Que tal o filme? – Gabrielle perguntou ao francês assim que chegaram à rua.

- Péssimo. Sem conteúdo algum.

- Como perdemos o horário do nosso filme, eu falei para assistirmos algo mais intelectual, mas você disse que não estava com vontade de pensar.

- Estou me sentindo com neurônios a menos. Esse filme foi uma afronta à minha inteligência.

- Também não foi tão ruim assim.

- Se não for ruim assistir a um filme cujo personagem mais inteligente tem um nível de QI inferior a um verme de laboratório, o que é?

- Acho que você está exigindo demais para uma comédia.

- Era essa a classificação do filme? – indagou surpreso.

- Era.

- Pois deveriam classificar como terror. Ainda me causa arrepios pensar que gastei mais de dez euros com aquele lixo.

A advogada riu.

- Kamus, você é uma graça. Adoro sua companhia. Eu me divirto demais.

- Se te diverte meu aborrecimento, você deveria conhecer minha tia. – falou sem pensar.

- Hummm... está me convidando para conhecer a família?

O investigador ficou sério.

- Desculpe. Não quero parecer oferecida.

- Não. Tudo bem. Eu fui indelicado. Eu e minha tia não somos o que todos poderiam chamar de “exemplo de família”.

- Família é um assunto delicado.

- Muito.

A jovem ficou apenas alguns segundos quieta, insistindo no tema em seguida.

- São apenas você e ela na “família”?

- Sim.

- Você costuma falar com ela, visitá-la?

- Muito pouco.

- E você não se sente sozinho?

Aquele assunto já havia estragado seu humor. A francesa percebeu que o namorado ficou mais sério.

- Por favor me desculpe, Kamus. Não quero me meter em assuntos que te chateiam.

- Tudo bem. – forçou um sorriso – Não tem... – fingiu que o celular vibrara e parou para atendê-lo – ...só um minuto. – fingiu ler uma nova mensagem, mas na verdade entrou em uma antiga.

- O que houve?

- Infelizmente não tenho boas notícias. Preciso voltar para casa.

- Ah, não! Sério?

- Sério. Estou no meio de um caso muito importante.

- Tudo bem. – disse desapontada – Se você tem um compromisso com o trabalho não serei eu a atrapalhar. Pode ir.

- Não sou assim tão rude. Eu te deixo em casa primeiro.

A advogada assentiu pouco animada.

-o-

- Boa noite, Gabrielle. – disse depois de parar o carro.

- Nem deu tempo de jantarmos ou ir para a balada.

- Se você está com vontade de dançar, por que não chama uma amiga?

- Sem você? Não. Não teria graça. – deu uma pausa – Você não teria ciúme?

- Não faço o tipo ciumento.

- Tudo bem. Já vi que você está de poucas palavras. Vou embora e te deixar voltar para as obrigações. – deu-lhe um beijo – Prometa-me que vai jantar direitinho e nada de ficar a madrugada trabalhando.

- Promessa difícil.

- Só prometa que não vai se cansar demais. Isso não faz bem a você.

- Gabrielle, você realmente se preocupa comigo?

- Claro que sim. – beijou-lhe suavemente os lábios – A gente sempre se preocupa com quem a gente gosta.

O aquariano ficou pensativo.

- Boa noite, meu amorzinho. Bom trabalho. – beijou-o novamente – Eu te ligo amanhã, tudo bem?

- Tudo bem.

- Então até amanhã. – deu-lhe mais um selinho e saiu do carro.

O policial esperou a jovem entrar no prédio para seguir até sua casa.

-o-

O francês ficou pensativo durante todo o caminho. Não estava sendo justo. A namorada não era má pessoa. Só porque ela não era a pessoa de seus sonhos, não significava que era ruim. Além disso, advogada dissera algo que o perturbara: ela se importava com ele.

A gente sempre se preocupa com quem a gente gosta” – lembrou suas palavras.

- Será que ela gosta de mim de verdade? – perguntou-se.

Repassou momentaneamente os encontros e percebeu que Gabrielle realmente esforçava-se em agradar.

- Kamus, você é um crápula. A menina gosta de você e você simplesmente a enxotou, como um cachorro sarnento. Mentiu sobre a mensagem no celular e ainda sugeriu que ela fosse à balada sem você. Que espécie de namorado você pretende ser?

Sentiu-se levemente culpado.

- Mxxxx. E se ela realmente gostar de mim? O que eu faço?

Ligou o rádio e colocou em uma estação qualquer. Tocava uma música romântica. Até tentou, mas não sentiu remorso algum pelo que fez.

- Kamus, definitivamente, você não presta.

-o-

O investigador entrou em casa e foi direto para o local onde guardava o whisky. Deixou seu celular ao lado da garrafa e pegou um copo para colocar a bebida, mas ao destampá-la desistiu, deixando-a novamente em seu lugar.

Foi até a geladeira e tirou um prato congelado. Sorriu ao ver a etiqueta com a inscrição “N.N. Melhor consumir até” a data indicava três meses para frente.

N.N. Natalie Nicolle. A empregada era quase uma mãe: ligava de vez em quando, questionava sobre sua saúde e dava-lhe presentes no natal e em seu aniversário. E era engraçado como Nicolle eventualmente perguntava-lhe sobre o presidiário e mal tocava no nome de Gabrielle. Seria um indício?

Sem conseguir responder à própria pergunta, colocou o pote no micro-ondas. Comeu ali mesmo na copa.

Depois do jantar passou alguns minutos em silêncio, refletindo. Então, determinado, seguiu até seu escritório e ligou o notebook. Acessou uma determinada pasta, colocou a senha e clicou em um arquivo de imagem. Sorriu ao ver a foto do belo ladrão grego. Ergueu a mão na direção da tela e contornou suavemente o rosto do criminoso. Recolheu a mão, ficando sério e pensativo.

Como o escorpiano estaria se sentindo? O que estaria fazendo? O que estaria pensando? Será que ainda pensava em si? Teria, de fato, aceito o pedido de desculpas embutido nas folhas levadas por Marin? (1)

Respirou fundo e fechou o arquivo. Levantou-se e foi em direção ao seu quarto. No caminho passou pelo quarto de hóspedes e parou na porta. Lentamente adentrou o recinto e acendeu a luz. Dirigiu-se vagarosamente até a suíte. Girou o botão de iluminação e sorriu.

Com saudosismo aproximou-se da banheira e se abaixou. Tocou o ferro lateral e seus dedos correram gentilmente por ele. Aquele fora o lugar onde prendera Milo a primeira vez em que ele esteve em sua casa. (2)

Levantou-se de imediato. Apressou os passos até as dependências da empregada.

Abriu a porta da suíte, acendeu a luz e fechou os olhos. Lembrou-se do exato momento em que entrara naquele lugar para deixar a roupas limpas ao ladrão. Parecia poder ouvir a água caindo pelo corpo do presidiário enquanto ele se banhava.

Perdeu alguns segundos neste pensamento e então se virou, voltando para o quarto. Aproximou-se lentamente da cama da empregada e sorriu ao lembrar-se como suas roupas ficaram agarradas no grego.

- Milo. – disse ternamente, passando a mão pelo travesseiro onde, meses atrás, longos cachos repousaram. (3)

Respirou fundo e suspirou antes de deixar o cômodo. Saindo do quarto da empregada foi até o seu. Pegando a ponta do edredom que decorava o leito puxou-o com força, arrancando-o da cama.

No dia em que o escorpiano passara mal, fora ali que dormira. Aproximando-se o policial passeou a mão pela fronha e pelo lençol. Recordou-se do que pensara ao ver o ladrão: parecia um anjo adormecido. Seu “Ange” adormecido.

O aquariano sorriu, perdendo-se em seus devaneios, relembrando como era agradável admirar o grego. Repentinamente ficou sério. Fragmentos de lembranças do dia que o preso tentara matá-lo povoaram sua mente. (4)

Para dissipar as más recordações saiu onde estava e dirigiu-se ao quarto de hóspedes. Parou junto ao batente da porta.

Depois de o escorpiano dormir na penitenciária, fora aquele lugar onde passara a noite. Kamus permitira a Milo dormir sem as algemas e encontrara-o na manhã seguinte no terraço, comendo bolo de chocolate.

Deixando velozmente o quarto foi até a sala, abriu a persiana e a janela de vidro e passou para o terraço. Ventava. Olhou com pesar para a cadeira vazia onde o criminoso sentara e sorrira-lhe, dizendo não querer tomar sopa. (5)

O ar frio arrepiava seu corpo, mas o investigador não se importava. Continuava a fitar a cadeira, como se forçasse a materialização do outro. Sem lograr sucesso deixou tudo aberto e seus passos o guiaram de volta ao escritório.

Olhou demoradamente para o sofá onde se deixara seduzir e para a parede onde o ladrão o prensara. Fechou os olhos e viu-se levado para a cama. Seu corpo esquentou e ficou excitado. Como o grego beijava bem. E suas mãos, firmes, fortes, tentadoras...

Abriu os olhos de imediato. Sentiu-se frágil. Encostou-se na parede. As pernas ficaram trêmulas e escorregou para o chão. O momento em que o escorpiano o traiu passou novamente por sua mente. (6)

Quase podia sentir, mais uma vez, ódio pelo criminoso. Fechou os olhos, lembrando que arrastara Milo de volta à sua casa, o levara até o banheiro e o jogara no chão, sem cuidado algum.

Estremeceu de leve e sentiu um gosto amargo na boca. Colocando a mão no peito, para aplacar o aperto, levantou-se e foi sentar na cadeira de frente para o computador. A mesma dor que sentira naquele dia, suficiente para assassinar o ladrão, repetiu-se naquele momento, estraçalhando sua alma. Respirou fundo. O grego pedira desculpas, mas sentira-se tão mal por ter sido usado que não poderia aceitá-las. (7)

Fixou o olhar no computador por alguns instantes e novamente abriu a foto do escorpiano.

- Milo. Por que você fez aquilo comigo? Por que me machucou tanto?

A imagem não respondeu nada.

- Eu poderia ter atirado. Eu poderia... – calou-se.

A foto permanecia em silêncio.

- Diga. Por que fez aquilo? Por que me obrigou a te odiar?

Suspirou e baixou o olhar. Os fatos que se seguiram passaram em flashes por sua mente. Balançou a cabeça em negativa. Quando conseguiu retomar o controle da situação e deixar o ladrão na cadeia, odiava-o mais que tudo.

- Eu te detestava. Não podia deixar que você me dominasse. – falou para a foto – Mas eu estava confuso. Confuso e com raiva. Quando te peguei na delegacia, depois de você quase ficar pelado em público, eu tive medo de te trazer aqui. Não por você, mas por mim. Tive medo de não conseguir me segurar e ceder. – deu uma pausa – Como eu fiz. – olhou para o grego – Se o Shaka não tivesse chegado, tenho certeza que não responderia por meus atos depois daquele beijo. (8)

Fechou os olhos, tocando os lábios e lembrando-se do beijo instantes antes do indiano invadir seu apartamento: gostoso, quente, intenso. Intenso como o escorpiano.

Abriu os olhos, fixando-os no ladrão.

- Você não me deixou escolha. Eu deveria te ferir. Como você fez comigo. Pode chamar de vingança ou idiotice. Eu não sei. Eu não sei o que deu em mim. Eu sempre fui tão controlado e previsível. Aí você apareceu, entrou na minha vida de um jeito maluco e mexeu comigo. Mon Ange, você me transformou. Eu fiquei sem saber o que fazer. Agora até entendo porque você voltou depois de fugir pelas ruas. Talvez tenha acontecido o mesmo. Talvez eu também tenha transformado você.

Ficou algum tempo calado.

- Então eu te machuquei.

Passou alguns instantes reflexivo.

- VOCÊ NÃO ENTENDE? – levantou-se e gritou para a foto – Eu precisava afastá-lo. Nem que fosse para humilhá-lo. Como eu fiz. – sentou-se novamente – Quando eu te trouxe para a minha casa, para pegar a sua roupa, eu sabia que você me seduziria. E eu sabia que não teria forças. – levantou-se mais uma vez – É claro que eu queria ser seu. – falou irritado – Queria sentir seu beijo, seu corpo, seu gosto. – respirou fundo – Mas eu não podia. Ah, Mon Ange, eu não deveria. Aceitar seu beijo foi um grande erro e a única forma de consertar aquilo era te atacando. Eu não conseguiria viver se eu me apaixonasse por você. – sentou-se na cadeira – Por isso eu te magoei. Por isso eu te feri. Por isso eu...

O francês ficou algum tempo quieto, apenas fitando a foto.

- Quando eu comprei o bolo de chocolate no golfe eu queria unicamente o seu perdão. – deu uma pausa – Eu menti. Eu te disse que fui até a Clairvaux apenas para tomar seu depoimento, mas era mentira. Eu precisava te ver. Desesperadamente, eu precisava.

Sorriu.

- Eu já sei. – sorriu mais ainda – Estou ficando louco. Estou falando com uma foto. Estou aqui, sozinho, fazendo drama, vivendo uma fantasia, passeando pela casa, fingindo estar em um conto de fadas. Fingindo fazer parte de um belo filme. O nosso filme.

Respirou fundo e passou suavemente a mão nos cachos do criminoso.

- E agora? O que eu faço? Eu estou aqui fora e você aí, preso na Clairvaux. E eu continuo como na última vez na qual nos vimos: vazio. (9) – deu uma grande pausa – Mais uma vez eu menti, dizendo que era o nosso fim, mas não era. Eu pensei que poderia evitar me apaixonar, mas não contei que já estivesse apaixonado.

Ficou um longo tempo calado.

- MXXXX! – gritou, dando um soco no móvel onde o computador ficava. – Por que eu não posso fazer a minha realidade? – indagou irritado.

Passou a mão pelos cabelos, acalmando-se um pouco.

- Diga. Diga por que eu não posso fazer o meu conto de fadas? Diga, Mon Ange. O que eu faço? Eu tento, mas não consigo te esquecer. Você não sai da minha mente. Você está em meus pensamentos o tempo todo.

- Você também. – o policial viu a foto mexer a boca e falar.

O aquariano afastou-se um pouco e piscou os olhos repetidamente. Era só o que faltava: ficar maluco. Levantou-se em um rompante e foi até a garrafa de whisky. Passou alguns instantes observando-a, entretanto não a abriu. Voltou para o escritório.

- VOCÊ NÃO ENTENDE? – gritou agressivo – Simplesmente não dá para ficarmos juntos. Vivemos mundos diferentes, períodos diferentes, vidas diferentes. – sua voz foi minguando – Dois anos, Milo. Faltam quase dois anos. E se fosse só o tempo que nos separasse, se fosse só isso, eu esperaria. – andou pelo escritório – Mas tenho uma maldita promessa a cumprir. Eu preciso me tornar Superintendente. Eu preciso ser lembrado no futuro como alguém importante. Eu devo isso ao meu pai, pelo que eu fiz. Essa foi minha promessa e não posso quebrar.

Colocou as mãos no rosto.

- Droga, Milo. Por que você apareceu assim na minha vida? Você não poderia estar em dia com a justiça? Você não poderia ter um emprego normal? Você não poderia... ser a Gabrielle?

Ao falar da advogada pensou na farsa vivida com a namorada. Isso também não era justo. Olhou novamente para a foto.

- Mon Ange, me diz: o que é justo? – perguntou ao grego.

Sentou-se, cruzou os braços sobre a mesa e deitou a cabeça sobre eles, olhando fixamente para a foto.

- Diga, o que é justo? – insistiu, porém desta vez a bela figura não respondeu.

Passou muito tempo fitando a foto até que seus olhos ficaram pesados e se fecharam. Continuou pensando no escorpiano. No meio de seus devaneios o sono chegou. Adormeceu.

-oOo-

Apartamento do investigador. Manhã seguinte.

O policial abriu os olhos e sentiu uma enorme dor nas costas. Ainda estava sentado na cadeira. Levantou-se, trocou de roupa, escovou os dentes e deitou-se na cama. Adormeceu em instantes. Acordou três horas depois. Espreguiçou-se e correu a mão pelo lençol. Em pensar que Milo já dormira naquele colchão...

Criando coragem ergueu-se e foi até a suíte. Depois de sair do quarto seguiu até o escritório e admirou mais uma vez a bela foto. Fechou-a e desligou o computador.

Foi até a sala, fechou o vidro e a persiana. Pegou seu celular e percebeu uma nova mensagem. Era da francesa. Fora mandada na noite anterior.

Estou com saudades. Não trabalhe demais. Bjos. Boa noite. Bielle” Seguindo a mensagem vinham dois corações.

- Mxxxx. Acho que ela está apaixonada por mim. E agora? O que eu faço?

-o-

Ainda não era meio-dia quando seu celular tocou.

- IPF, Kamus. – falou propositadamente ao ver quem estava ligando.

- Nossa, logo se vê que você está trabalhando. Atendendo assim ao celular? – a advogada falou com bom humor.

- É.

- Hummm... já vi que você está um homem de poucas palavras. Estou te atrapalhando?

- Ainda estou avaliando aquele caso. – mentiu.

- Mas você pretende comer, certo? Que tal sairmos para almoçar?

- Acho melhor comer em casa. É mais rápido.

- Tudo bem. Chego aí em meia hora. O que você quer que eu compre para comermos?

- Gabrielle, não quero parecer mal-educado, mas hoje não seria um bom dia.

- Claro, Kamus, eu entendo. – sua voz ficou amuada.

- Mas eu também não quero que você se chateie.

- Mas eu me chateio. – disse com seriedade – Ontem não conseguimos aproveitar a noite. Fiquei com insônia e fui dormir super tarde.

- Desculpe. Sei que foi minha culpa.

- E o que você vai fazer para se redimir?

- Para me redimir?

- Claro. Tem que ser algo muito bom para valer uma noite de sábado perdida.

- Bem... – o francês ficou pensativo – Eu não sei.

- Enquanto você não falar, eu não desligo.

- Mas eu não sei, Gabrielle.

- Amorzinho, você é um investigador. Pense.

- Investigar é uma coisa, adivinhar é outra. Não sou médium. – replicou com simplicidade.

A jovem riu gostosamente.

- Kamus, você é espetacular. Ok. Pode falar. O que você quer fazer? Mesmo se for só para ficar em casa, curtindo um friozinho, eu aceito.

- Frio? Bem, se é para curtir o inverno que tal um fondue?

- De queijo ou de chocolate?

- Qual você quiser.

- Os dois.

- Mas eu só tenho um aparelho.

- Eu tenho outro. Eu levo.

- Tudo bem.

- Hoje?

- Não. Hoje eu estou trabalhando, lembra-se?

- Claro. Você não me deixa esquecer. – disse irritada.

- Gabrielle, não fique brava comigo. Se eu pudesse escolher, não estaria trabalhando.

- É. Eu sei. Desculpe.

- Pode ser no final de semana que vem?

- Na sexta?

- Combinado. Na sexta.

- Pois bem, senhor Kamus Cartelié. Vou aguardar até sexta. E espero que seja realmente “compensador”.

- Será. Eu vou te deixar fazer o que quiser comigo.

- Hummm... qualquer coisa que eu quiser?

- Qualquer coisa.

- Até te levar para uma balada?

- Bem... – o policial demorou a responder.

A advogada deu uma sonora gargalhada.

- Pode ficar tranqüilo, amorzinho. – riu – Não vou te levar para uma balada. Vou alugar um filme para assistirmos. Que tal uma comédia?

- Desde que não seja como o filme de ontem.

- Prometo escolher bem.

- Ótimo. Então nos vemos na sexta.

- Eu te ligo durante a semana para combinarmos os detalhes.

- Tudo bem.

- Não trabalhe demais. Estou morrendo de saudades. Beijo, na boca.

- Beijo. – disse e desligou.

O aquariano olhou para o telefone e ficou pensativo. Marcar um fondue teria mesmo sido uma boa idéia? E se a namorada insistisse na balada?

O francês não gostava de dançar, pois se dizia sem flexibilidade para isso. Shura fizera strip-tease uma vez e chamara o namorado para dançar consigo, mas não conseguiu mantê-lo no embalo por muito tempo. O espanhol bem que insistiu, mas o outro se recusou a fazer um strip em troca.

Kamus deu um sorriso malicioso. E se fosse Milo a lhe pedir isso? Também recusaria? Provavelmente não. Por ser um contraventor da lei o criminoso despertava em si seu lado mais selvagem.

Libidinosamente, sentado no sofá da sala, fechou os olhos e imaginou o ladrão vestindo um smoking. O grego começaria dançando sensualmente até retirar o paletó. Depois seria a vez da gravata. Ao despí-la o escorpiano morderia o lábio inferior, cheio de sensualidade. Só então passaria a desabotoar a camisa vagarosamente...

O investigador abriu os olhos. Apesar de sua mão acariciar vigorosamente seu sexo, sabia que masturbar-se não resolveria seu problema. Precisava de ação.

Levantou-se, foi para o escritório e ligou o computador. Fez uma pesquisa na internet e achou o que queria. Ligou para o número de telefone indicado e esperou.

- Alô. – uma voz atendeu.

- Alô? De onde fala?

- Com quem deseja falar, senhor?

- Serviço de acompanhantes?

- Às suas ordens.

- Vi uma foto na internet. Número 2367. Renan. Cabelos longos e cacheados. Confere?

- Este é um dos nossos exclusivos, senhor.

- E o que isso significa?

- Que seus serviços ficam em quinhentos euros a hora, mas o senhor pode pagar pelo site, em cartão de crédito.

- Tudo bem. Vou me encontrar com ele aí na casa.

- A que horas o senhor deseja vir?

- Agora.

- Vou ligar para o rapaz e retorno em instantes. Ligo para este mesmo número?

- Sim.

- Um minuto, senhor. – disse e desligou.

Pediria ao garoto de programas para fazer um strip. Sorriu. Seria bom.

-oOo-

IPF. Segunda-feira.

- Bom dia. – Kamus chegou mais tarde do que de costume e cumprimentou sua equipe com um belo sorriso.

- Nossa, o chefinho está muito bem humorado. – o leonino falou, mexendo com o aquariano – Aposto que o final de semana foi ótimo.

- Foi sim, Aioria. Muito bom.

- E a Gabrielle, como está? – Shaka perguntou, olhando profundamente nos olhos do francês.

- Está bem. Aliás, está muitíssimo bem.

- Huhu! A gata estava perigosa neste findi. – o grego comentou.

- É. Estava. E a análise da perícia, já saiu? – perguntou a Shaka, mudando de assunto.

- Sai agora, às dez.

- Ótimo. Fale comigo quando tudo estiver pronto.

- Claro, Kamus. Mais alguma coisa? - falou, percebendo que o outro não olhava em seus olhos.

- Não.

“Escondendo alguma coisa, chefinho?” – o loiro questionou-o em pensamento.

O policial entrou em sua sala e fechou a porta.

- Que posições do Kama Sutra você acha que ela fez? – Aioria perguntou, sem pudores, aproveitando que Marin tinha ido ao banheiro.

- Eu não apostaria todas as minhas fichas na Gabrielle. – Shaka falou ainda com os olhos fixos na porta do chefe.

- Como assim? Eles não estão namorando? – o grego insistiu.

A japonesa entrou na sala e o assunto esfriou.

O virginiano desviou o olhar da porta e deu um sorriso de lado. A faculdade de psicologia tinha ensinado as teorias, mas era bom profissional o suficiente para perceber ações estranhas. O aquariano era discreto e aquele tipo de atitude não combinava com ele. Por que insistir em dizer que a advogada estava tão bem e ainda perigosa? O virginiano não era cego. O chefe estava desviando a atenção. Alguma coisa acontecera no final de semana. E podia apostar seus longos cabelos loiros que o motivo da felicidade do francês não era sua namorada.

-oOo-

Ruas francesas. Noite de quarta.

O celular tocou e o investigador colocou em viva-voz.

- Alô.

- Alô, Kamus?

- Boa noite, Gabrielle. – disse ao reconhecer-lhe a voz.

- Boa noite, amorzinho. Onde você está?

- Indo para casa.

- Estou com saudades.

O policial calou-se para não mentir. Felizmente a jovem não percebeu.

- Liguei para sugerir que você fizesse as compras do fondue de queijo e eu o de chocolate. O que acha? – perguntou animada.

- Tudo bem. Já estou mesmo no caminho do supermercado.

- E o trabalho?

- Cansativo. Tenho que trabalhar ao chegar em casa.

- Pensei em te visitar.

- Nos veremos depois de amanhã.

- Mas parece tão longe.

- Passa logo.

- Mas... – começou a falar e ficou quieta.

O aquariano também permaneceu calado.

- Tudo bem, amorzinho. Eu não vou te aborrecer mais. Nos vemos na sexta, então?

- Na sexta.

- Beijos. Saudades.

- Beijos. – disse e desligou.

O francês permaneceu algum tempo calado.

- Kamus, meu amigo. Você tem um problema em mãos. Ela está apaixonada.

-oOo-

Clairvaux. Madrugada de quinta.

Milo estava em um sono agitado.

Sonhava que o investigador fora até a Clairvaux fazer-lhe uma visita. O policial contara uma mentira aos guardas e, dizendo ser um interrogatório, ficaram na sala com as janelas de vidro. Era possível aos agentes verem o que ocorria lá dentro, mas melhor assim a ficarem no parlatório e falarem-se ao telefone sem poderem se tocar.

Justamente este foi o problema.

Sem conseguir resistir aos encantos do aquariano, o grego saíra de sua cadeira, aproximara-se e o beijara ardorosamente. Não se importaram em serem vistos. A vontade cresceu e seus corpos colados pediram por mais. O francês sorriu ao colocar a mão dentro da calça do escorpiano e acariciar o membro pulsante.

O ladrão beijou-o e deixou que ele se ajoelhasse à sua frente. Então Milo olhou para o vidro e viu uma infinidade de presidiários armados de facas e paus se aproximando. Levantando o amante, sob protestos, correu para a porta, trancando-a. Os detentos batiam com força nos vidros e porta para forçar a entrada.

Então o dispositivo de segurança contra incêndio foi disparado e começou a cair água na sala. Os criminosos gargalhavam enquanto pressionavam suas camisas contra a porta, impedindo a saída da água. Desesperado, o grego percebeu que o nível subia muito rápido. Em segundos alcançou seu pescoço.

Ele e Kamus nadaram para cima, buscando o ar que restava e, quando a sala foi tomada, voltaram para baixo. O investigador sacou sua arma e mirou no vidro, mas o revolver não disparava de forma alguma. O escorpiano começava a sentir falta de ar quando viu um detento em especial do lado de fora. Era o General. Ele afastava os outros presos com ignorância e tinha uma arma na mão.

O ladrão ficou bem mais tranqüilo. O criminoso atiraria no vidro e toda a água sairia da sala.

Mas quando o General fez a mira, o grego passou de aliviado a consternado: era para o policial que ele apontava. A bala foi disparada e Milo puxou o aquariano afastá-lo do tiro. O projétil passou pelo vidro, que curiosamente não se estilhaçou permanecendo apenas com um furo de onde vazava a água, e a bala atingiu o coração do francês.

De repente tudo ficou em câmera lenta. O escorpiano se viu fora da sala, observando a trajetória do projétil. Inicialmente Kamus seria atingido no braço, mas ao puxá-lo para o lado deixara seu coração na mira. Virou o pescoço lentamente a tempo de ver o General gargalhando com os demais presos. O ladrão gritou, mas som algum saiu de sua boca, apenas bolhas de ar: já estava novamente dentro da sala.

Rapidamente a água ficou vermelha e o investigador, morto, começou a cair em direção ao solo.

Milo acordou sem conseguir respirar.

- Grego, o que foi? – Jack perguntou assustado, ao ouvir os sons que o companheiro de cela fazia.

O escorpiano não conseguia falar.

- Respira, respira. – o preso mais velho colocou a cabeça do ladrão para cima.

Milo tossiu muito e depois de algum tempo conseguiu se controlar.

- O que aconteceu, garoto? – Jack perguntou, preocupado.

- Sonhei que estava me afogando. – disse com a voz sumida.

- Cuidado. Você poderia morrer.

- Vou tomar cuidado.

- Ótimo, Grego. Vá dormir. – disse e voltou para seu leito.

O escorpiano ficou muito tempo sentado em seu colchão, refletindo. Era a segunda vez que tinha um sonho fatal com o policial (10). Na primeira vez atirara no aquariano, também em seu coração, matando-o em sua casa e agora, por sua culpa, o francês também morrera. E por outra arma de fogo.

O que estes sonhos significavam? Que era para esquecer o outro, matando-o em sua mente? Que por sua causa Kamus se machucaria de forma letal?

Permaneceu sentado até amanhecer, evitando o sono de todas as formas, com medo do que poderia sonhar.

-oOo-

Sexta-feira à noite. Apartamento do investigador.

O aquariano separava, maquinalmente, os queijos e utensílios necessários para o fondue.

A campainha tocou, mas já sabia quem era. O porteiro avisara há pouco que a francesa chegara e estava subindo.

- Oi.

- Oi. – deu um selinho no namorado assim que este abriu a porta – Trouxe o chocolate, as frutas e o filme.

- Ótimo. Também separei o vinho, os pães e o aparelho de fondue.

- Nossa, – disse ao entrar – como a sua casa é bonita.

- Venha conhecê-la. – pegou o casaco e as sacolas da mão da advogada.

-o-

A jovem ria com a comédia. O filme era sobre um ladrão de jóias atrapalhado que se fingia de segurança de uma madame. O policial estava longe. A história fizera seus pensamentos vagarem até certo presídio de segurança máxima. Por que será que os ladrões o perseguiam? Até em um filme escolhido ao acaso por outra pessoa?

Gabrielle colocou um pão próximo à boca do francês.

- Terra chamando Kamus. Terra chamando Kamus. Responda. Câmbio.

- Desculpe.

- Onde você estava ?

- No trabalho. – mentiu.

- Por que você não desliga ?

- Estou no meio de um caso complicado.

- Humm... – fez biquinho – Você fica tão bonitinho quando faz essa carinha de preocupado, Kâ.

O investigador arregalou um pouco os olhos e ficou mudo.

“Kâ”. Só o seu Ange o chamava assim.

- Oh, meu futuro Superintendente. Será que eu consigo tirar esta preocupação da sua cabeça ? – perguntou aproximando-se e beijando suavemente a boca do aquariano.

O policial fechou os olhos. Como seria bom se fosse o grego a beijá-lo. Respirou fundo e entregou-se. Quanto mais pensava no ladrão, mais intenso o beijo ficava. As mãos começaram a escorregar pelo corpo da advogada e deitá-la no sofá.

- O que você pretende, hein ? – a jovem perguntou mordendo os lábios e lançando um olhar malicioso ao francês.

Kamus travou. Deu-se conta de não estar com o escorpiano.

- Desculpe. – endireitou-se no sofá e pegou um fondue.

- Ei, – virou-o para si – eu não estava reclamando. – fitou os lábios do namorado – Na verdade, estava achando ótimo.

O investigador gelou por dentro. Gabrielle o intimidava. Obviamente esperava que o aquariano agisse como um homem. E foi isso que ele fez.

-o-

Deitado na cama e abraçando a garota por trás, pensava no que acabara de fazer. Seria sempre assim ? Sempre que estivesse na cama com a namorada fantasiaria estar com Milo? Portar-se-ia artificialmente como todas as vezes que a beijava? Disfarçaria quando sua libido clamasse por mãos fortes apertando-lhe o corpo? Fingiria estar satisfeito quando na verdade gostaria de satisfazer-se de outra forma?

Não. O que dificultava não era o fato da advogada ser uma mulher. Ainda que fosse um homem, não o satisfaria. Passara uma hora prazerosa ao lado do garoto de programas no final de semana passado, mas ao término do sexo, nada restava. Poderia parecer absurdo, mas não queria dividir a cama com um homem qualquer. Gostaria de dividí-la com certo grego de corpo quente e sorriso malicioso.

Mais uma vez recordou-se do dia em que o presidiário o beijara no sofá e depois o levara para a cama. Estava tão cheio de tesão que nem precisara ser preparado. Quando o ladrão o despiu e o tocou...

- Hummm... – a jovem virou-se de frente para o policial – ...tenho um homem insaciável ao meu lado.

Kamus corou. Ficara excitado ao pensar no escorpiano.

-oOo-

Dia seguinte. Sábado. Uma cafeteria em Paris.

No dia anterior a advogada saíra da casa do namorado antes da meia-noite, para evitar problemas com seu pai.

A jovem ligara-lhe pela manhã querendo vê-lo no final do dia e o investigador sugerira um café. A francesa perguntara-lhe se a noite anterior não tinha sido boa para irem a uma cafeteria e não ao apartamento do aquariano. O policial explicara que tinha sido muito bom, porém era melhor irem devagar, pois a respeitava como mulher. Convencida pela resposta aceitou ir ao café apenas para conversar.

Na cafeteria, Gabrielle falava sem parar e o francês sorria-lhe, fingindo prestar atenção.

- ...então ela retirou a pasta da frente do vestido e exibiu um rasgo enorme, mais ou menos deste tamanho. – riu.

- Isso não é para rir, Gabrielle. Deve ter sido uma situação muito constrangedora.

- Claro que foi. O fórum estava lotado.

- Já imaginou se acontecesse com você?

- Comigo? Kamus, amorzinho, se tivesse acontecido comigo...

E lá se foi a advogada falando o que faria se estive naquela situação. O namorado continuou a sorrir-lhe, sem prestar atenção em uma palavra sequer.

-o-

O investigador chegou em sua casa cerca de uma hora e meia depois. Disse à namorada que estava muito cansado depois da semana estafante e precisava dormir um pouco. Felizmente a jovem aceitou sua desculpa e não cobrou nada em troca.

O policial estava preocupado. Gabrielle estava realmente apaixonada. O problema é que, além de não estar apaixonado, sob sua ótica aquele namoro não estava indo bem.

Sentiu seu celular vibrar e atendeu. Era uma mensagem.

Já estou com saudades. Bom domingo. Bjos. Bielle.”

- Este romance chegou ao limite. – disse a si mesmo – Aliás, já passou da hora de acabar.

-oOo-

Domingo pela manhã. Clairvaux.

Milo acordou febril. Sentia-se enjoado e com o corpo amolecido. Sua cabeça doía tanto que parecia se partir em dois. Não tomou o café da manhã. Ao invés disso foi ao banheiro e colocou para fora até o que não havia em seu estômago.

- Está doente, Escorpião? – Isaac perguntou-lhe, ao entrar no banheiro.

O ladrão não respondeu.

- Isso pode ser um castigo dos infernos, por me dedurar.

- Já falei que não te dedurei. O que você quer de mim?

- A verdade.

- Que verdade?

- Que você tem ligação com a polícia. – replicou.

O grego ficou algum tempo quieto, apenas olhando para Isaac. Não. O outro preso não sabia de nada. Era apenas uma jogada.

- Caolho, hoje eu não estou bem para uma conversa. Por que você não pega outro para Cristo?

Isaac empurrou o escorpiano contra a parede.

- É muito bom eu estar errado sobre você, “bate pau”. (11)

- Não sou nenhum dedo-duro. – disse, empurrando o outro e saindo da parede.

- É bom que não seja. – falou e saiu do banheiro.

- Parece que você tem muitos amigos aqui dentro. – Alberich, que estava por perto, comentou sarcástico.

Milo lançou-lhe um olhar irritado e também saiu do banheiro.

-o-

O ladrão sentou-se no banco de pedra e encostou na parede. Fechou os olhos. O barulho dos presidiários o incomodava. Levantou-se. Ia pedir permissão para voltar para sua cela e ficar deitado. A cabeça parecia a ponto de explodir.

Quando se aproximava do guarda, seu peito doeu. Uma dor insuportável. Instantaneamente a imagem de Kamus veio à sua mente. O grego ficou extremamente apreensivo. Havia alguma coisa errada. O policial não estava bem. Podia sentir. Algo estava acontecendo. Desta vez o enjôo veio muito mais forte. Pediu para ir ao banheiro e vomitou.

Francesinho, o que está acontecendo? Como você está? Está tudo bem?” – perguntou-se nervosamente.

Saindo do banheiro foi para sua cela, mas passou o dia agitado. Tinha alguma coisa errada. Alguma coisa envolvendo o investigador. E era ruim. Algo ruim ia acontecer. Lembrou-se de seus sonhos. Algo ruim ia acontecer e o escorpiano sabia muito bem quem era o culpado.

- Sou eu. – disse com pesar.

-oOo-

Clairvaux. Segunda-feira. Hora do almoço.

- O que você tem, Grego? – Jack perguntou ao ladrão – Ontem estava doente e hoje parece sentado em formigueiro.

- Estou um pouco tenso. Minha advogada vem me visitar depois de amanhã e estou com medo dela não conseguir uma nova audiência.

Realmente Marin viria visitá-lo, mas o motivo de sua apreensão era outro. Queria saber como o aquariano estava. Precisava saber urgentemente.

- Fique calmo. Ela consegue.

Alberich, que estava relativamente próximo, ouviu o assunto e fez um comentário a Black Devil.

- A vadia não vem este mês.

- Que vadia?

- Minha advogada.

- Como não? Ela não aparece sempre no final do mês?

- É. Sempre. Mas por causa da minha briga com o Krishna eles não deixaram ela entrar. A vaca só volta no dia sete.

- Mas hoje é vinte e nove. Falta pouco.

- É muito tempo sem notícias lá de fora. A última vez que ela esteve aqui foi no dia vinte e oito de dezembro.

- Será pouco mais de um mês depois.

- Tempo demais para esperar notícias. Tempo demais. – disse irritado.

-oOo-

Clairvaux. Quarta-feira à tarde.

O ladrão andava resoluto sobre o corredor que o separava da sala envidraçada. Tivera quase quinze dias, desde que a japonesa viera, para investigar e levantar hipóteses. Porém sua maior decisão, também embasada em uma hipótese, em nada tinha a ver com o que acontecia no presídio.

O guarda abriu a porta e ele entrou.

- Boa tarde, advogada Marin.

- Boa tarde, senhor Nekalaous. Desculpe. – sorriu – Esqueci que prefere ser chamado de Milo.

- Às suas ordens. – pegou a mão da policial e beijou – Linda, como sempre.

- E você, eternamente adorável. – deu uma pequena pausa – Trouxe-lhe os cigarros, como me pediu. – exibiu uma caixa fechada de maços de cigarros, dinheiro na prisão.

- Obrigado. – o preso respondeu.

- Advogada, você deseja mais alguma coisa? – o agente perguntou à jovem.

- Não senhor. Muito obrigada pela atenção. Não pretendo me demorar com meu cliente.

- Claro. Fique à vontade. – disse e saiu, deixando-os sozinhos.

- E então, Milo, como vai?

- Marin, como está o Kamus? Ele está bem?

O tom da pergunta pegou-a de surpresa.

- Como está o Kamus? Como assim? O que você quer dizer com isso? – indagou ao escorpiano.

- De saúde. Ele está bem?

- Sim, Milo. Está. Por quê?

- Quero que você dê um recado a ele. – disse com seriedade – Peça para ele não aparecer aqui na Clairvaux. Eu não quero que ele venha me visitar, me interrogar ou ainda servir de acompanhante para você.

- Nossa, Milo. Você está tão sério. O que houve?

“Será que estou fazendo muito drama?” – o grego pensou – “Pareço um daqueles atores novos, que não sabem como fingir os sentimentos dos seus personagens. E tudo por causa de dois sonhos bestas.”

- Apenas diga isso. Diga que eu não quero ver ele aqui. Se ele precisar muito falar comigo que mande outra pessoa porque se ele vier eu não vou falar com ele.

- E isso tem algum motivo? – perguntou preocupada.

“Definitivamente. Estou exagerando.” – refletiu – “Mas já que comecei o teatro, vou até o fim. Mesmo se eu estiver errado, mesmo se for excesso de zelo ou superstição. É melhor prevenir.”

- Se ele insistir diga que não vamos falar um com o outro. Diga que... – parou um pouco para pensar e voltou os belos olhos azuis para a jovem – ...diga que ele morreu para mim.

Marin ficou séria, observando o ladrão. Ele não parecia estar brincando.

E não estava.

-oOo-

Nota da autora – Explicações

( 1 ) Mensagem contida nos documentos apresentados por Marin ao grego no EE2 – Capítulo III – O novo agente

( 2 ) História contada em EE1 – Capítulo IV – Uma grande chance

( 3 ) História contada em EE1 – Capítulo IV – Uma grande chance

( 4 ) História contada em EE1 – Capítulo VI – Verdadeiras intenções

( 5 ) História contada em EE1 – Capítulo VIII – Irresistível

( 6 ) História contada em EE1 – Capítulo X – Dúvida cruel

( 7 ) História contada em EE1 – Capítulo XI – O terceiro crime

( 8 ) História contada em EE1 – Capítulo XIII – Milo versus Kamus

( 9 ) História contada em EE1 – Capítulo XV – A revelação

( 10 ) História contada em EE2 – Capítulo II – Corações feridos

( 11 ) Gíria de presídio para “dedo-duro”

-oOo-

Nota da autora – Agradecimentos

Oiê! Voltei. Não pensem que vão se livrar de mim assim tão facilmente rsrs.

Bem, sei que este capítulo ficou um tanto grandinho, mas não dava para dividir e depois de tanto tempo, era merecido. A boa notícia é que já comecei a escrever o próximo. (enfim!)

Agradeço imensamente aos que comentaram, cobraram e incentivaram. É a leitura dos capítulos que me incentiva a continuar. Bjos especiais: Nana Pizani, Anjo Setsuna, Narcisa Le Fay, Kagura, Vcious, Bruninha, Saga de Pijama, Haina Aquarius-sama,Polaris Sama, Lunna Fianna, Fernanda Poynter, Carol-sana (não tenho seu e-mail, mas agradeco a review. Bjos !), Dea, Flor de Gelo, Harue Emma-chan, Virgo-chan, Princess Andromeda, Mitsuye, Kalli Cyr Charlott, Loli-chan yuy, Karol Uchiha, Graziele, Karol Uchiha, Nanda, Lhu Chan, Seto Scorpyos, Sere, Leo no Nina.

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Nota da autora - contato

Não tenham medo de escrever ou receio de cobrar. Rsrs. Podem me contatar no erika(ponto)patty(arroba)gmail(ponto)com (não tem o BR) ou via review neste site.

Bjos !

Bela Patty .

- Maio/2008 -


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