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Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas
(Saint-Exupèry)
CAMINHOS NEFASTOSNo capítulo anterior
- E para quê quer mostrar isso ? É indigno hoje ? – questionou em tom de brincadeira.
O Aquariano cerrou os olhos. Ficou imediatamente sério. Colocou sua água na bolsa e recomeçou a andar.
- Francesinho, Kamus, espera. – pediu apressando o passo para alcançá-lo – Desculpe. Eu o ofendi ?
- Chega de tanto papo. Vamos continuar. – respondeu rispidamente.
Milo ia retrucar, mas como o outro manteve o ar agressivo, achou melhor não insistir. Calou-se, porém ficou realmente intrigado com a atitude do ruivo. Havia alguma coisa muito estranha com o Cavaleiro de Aquário, ou não teria ficado tão aborrecido com o comentário.
"Ele é indigno." – refletiu – "Mas por quê ? Por quê ele é indigno ?" – observando o francês de rabo de olho, retomou a caminhada.
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Caminhos Nefastos – Capítulo V – Companheiros
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Ainda na mata...
Imerso em seus pensamentos, o francês continuava a caminhada. Estava aborrecido consigo mesmo pela discussão com o Escorpiano. O fato de ser digno ou não, importava unicamente a si. Era desnecessário dividir com mais alguém, principalmente um desconhecido.
Caminhando ao seu lado, Milo esforçava-se em reprimir sua curiosidade. Era óbvia a vontade de questionar, mas, depois do comentário inoportuno, o melhor era desfazer o clima pesado. Pensara em várias alternativas para tal, contudo todas pareciam impróprias ou tolas demais.
Após mais algum tempo refletindo, o grego sorriu discretamente. Descobrira como acertar as coisas. Bastava puxar assunto sobre algo corriqueiro, sem relação alguma com a dignidade do Aquariano. Entretanto, ao olhar para o ruivo, titubeou. Kamus estava sisudo e calado, demonstrando com clareza que o contato com qualquer outro ser humano era totalmente dispensável.
– Está anoitecendo. – o loiro observou, tomando coragem para quebrar o silêncio.
O outro cavaleiro não manifestou.
– Acho que é hora de pensar no pernoite. Que tal lá em cima, na copa de alguma árvore ?
O francês continuou sem responder. Apenas olhou para o alto.
– Só precisamos escolher bem ou acordaremos cobertos de insetos. – o Escorpiano insistiu.
– Então é melhor escolher logo. – falou o Aquariano, um tanto seco.
– Tem alguma preferência ?
– Você fala demais. – replicou subindo em uma que parecia razoável.
Milo cerrou os olhos. Gastou um bom tempo pensando em como melhorar o clima, fez uma sugestão inteligente e segura, foi educado, deixou o outro escolher a árvore e, como prêmio, recebia uma resposta ríspida ? Engolindo a vontade de falar uns bons impropérios segurou-se no galho e também subiu na árvore.
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A refeição foi feita em completo silêncio. O grego observava o outro discretamente enquanto comiam, tentando travar um novo diálogo, mas o outro cavaleiro não o encarava de forma alguma.
Terminado o jantar, enquanto guardavam suas coisas, a noite caiu sobre a floresta.
– Proponho um acordo de cavaleiros. – o ruivo finalmente manifestou-se – Um: nenhum dos dois tentará matar o outro durante a noite. Dois: nenhum dos dois abandonará o companheiro durante a noite. Três: nenhum dos dois roubará o outro durante a noite.
– Aceito. – o loiro estendeu a mão para Kamus, porém este não se moveu. Apenas olhou para a mão do outro cavaleiro e depois para seus olhos azuis. Ainda mantinha uma expressão de poucos amigos. O Escorpiano respirou fundo e guardou a mão - Está com raiva de mim ? – não deixou de perguntar.
– Quer tirar a sorte para saber quem dorme primeiro ? – questionou, ignorando a pergunta.
– Não. – disse baixinho – Durma você. Parece cansado.
– Talvez. – disse tirando a pele da sacola e arrumando-a o melhor possível para se deitar sobre ela.
Vendo a dificuldade do outro para cobrir toda a base da copa com a pequena pele, Milo adiantou-se.
– Pegue. – ofereceu sua própria pele.
– Não é necessário. – o francês replicou teimosamente.
– Não são grandes. É melhor estarem juntas para quem estiver dormindo.
Antes de aceitar, encarou o outro. Se recusasse, ouviria alguma ladainha qualquer sobre peles, noites frias demais e um monte de coisas importunamente desnecessárias. Não estava com paciência no momento. Melhor evitar a discussão. Pegou a pele, juntou-a com a outra, deitou-se sobre as mesmas e usou sua capa azulada para cobrir-se.
O jeito pedante do outro irritou o grego. O loiro não esperava ouvir um breve "obrigado", mas ser ignorado pelo cavaleiro de Aquário, enquanto esforçava-se tanto para ser agradável ? Quem aquele francesinho enjoado pensava que era ?
– Milo ? – perguntou baixinho.
– Sim ? – indagou secamente.
– Vai tentar me matar durante a noite ?
– Sou um cavaleiro e não um mercenário. E mesmo que não fosse, temos um acordo, lembra-se ?
"Acordo que você sequer me deu a mão para firmarmos." – o Escorpiano pensou de imediato - "Bem que eu adoraria cortar este seu lindo pescocinho fora."
– Humm... – deu uma pausa – Fique atento. – disse e fechou os olhos.
"Sim, senhor." – pensou em tom de falsete, fazendo uma careta. Aborrecido, passou a olhar em volta. - deu um leve suspiro de desabafo - Era melhor vigiar.
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De fato, a denominação Floresta Negra cabia muito bem ao lugar. Mesmo sob a fraca iluminação da lua, as sombras predominavam, invadindo todos os lugares.
Com os olhos acostumando-se ao escuro, o grego estava reflexivo. Contemplou a figura deitada. Apesar do outro apresentar comportamento arrogante, sabia ser o culpado. Afinal, chamara-o de indigno, não ? Como se portaria se alguém o chamasse de indigno ? Ignoraria o comentário ? Não. Provavelmente faria o outro engolir suas palavras. Torceu a boca. Pensando bem, tinha sido bem grosseiro.
– Boa noite. – sussurrou menos irritado.
O Aquariano estava cansado. As lutas durante o dia e a caminhada o fatigaram bastante. Pensou no que o loiro falara. Não. Não era mesmo um cavaleiro digno. Fora expulso de seu vilarejo. E apesar de sua família ter um nome a zelar, saiu da França sob o título de traidor. Precisava, mais do que nunca, provar que não era.
Pensando em seu passado obscuro, acabou adormecendo.
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Milo estava atento. Espantou um pequeno animal e alguns insetos que teimavam em se aproximar. Puxou um pouco mais as peles para que o ruivo ficasse no meio da árvore. Isso evitaria o risco dele virar-se e cair lá embaixo.
– Algum problema ? – levantou-se ainda sonolento ao sentir-se puxado para perto do Escorpiano.
– Apenas besouros. Volte a dormir. – tranqüilizou-o.
O francês deitou-se novamente e adormeceu em instantes.
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Com o frio da noite o grego enrolou-se em sua capa e chegou mais perto do Aquariano, aproveitando o calor da proximidade dos corpos. Depois de algumas horas de vigília, seus olhos começaram a pesar. Antes que dormisse, chamou o ruivo.
– Kamus ? – deu-lhe uma leve sacudida no ombro - Kâ ? – sacudiu com mais força.
– O quê foi ? – perguntou totalmente desperto.
– Estou com sono. Vamos trocar.
O Aquariano levantou-se e foi para a beirada da árvore. O loiro passou para o meio da copa e deitou-se em seu lugar, cobrindo-se. Com a pele ainda quente pelo calor do corpo francês, adormeceu em instantes.
Apoiando as costas em um dos troncos, o outro cavaleiro permaneceu atento.
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Era noite avançada quando o ruivo ouviu um barulho. Apurou o ouvido. Alguém pedia ajuda. Uma mulher.
– Por favor me ajude ! – pedia em tom não muito alto.
Na fraca iluminação da lua viu uma jovem de cabelos longos. Pensou em ajudá-la, mas imediatamente lembrou-se do Escorpiano. Não era correto deixá-lo sozinho.
– Por favor, alguém me ajude ! – choramingou.
Kamus decidira-se: deixaria o loiro e ajudaria a garota. Milo era um cavaleiro. Se houvesse perigo, saberia se defender. Contudo, era melhor descer da árvore. Não poderia colocar em risco a posição do grego.
Esgueirava-se para deixar a copa quando ouviu um novo barulho. Repentinamente um cavaleiro de cabelos escuros apareceu por entre as árvores e aproximou-se da jovem.
– O que houve ? – o recém-chegado perguntou-lhe.
– Por favor, me ajude ! – ela suplicou - Tem alguém me seguindo. – e apontou uma direção.
– Não se preocupe. Vou te defender. – disse ele, olhando para a direção apontada – O que faz aqui no meio da floresta ? Está perdida ?
O francês permaneceu onde estava. Agora não havia necessidade de descer. Alguém já estava com a moça.
– Não. Eu não estou perdida. – replicou docemente – Mas você está.
Rapidamente pegou a espada do cavaleiro distraído e cortou sua cabeça, matando-o. O Aquariano estacou. O barulho de um guincho muito próximo foi ouvido. Alguém se aproximava. Diante dos olhos incrédulos do ruivo, a jovem transformou-se em um animal de porte médio.
Um Orc apareceu do meio da floresta. A garota, agora um animal, transformara-se em um outro Orc e os dois trocaram algumas palavras. Kamus ouviu as risadas quando os dois chutaram o corpo do cavaleiro morto. Felizmente não fizeram buscas pela área. Simplesmente tomaram um caminho à esquerda e desapareceram.
O coração do francês estava acelerando. Engoliu seco. Depois do que viu, era bom ter cuidado. Muito cuidado.
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Enquanto isso...
Outras criaturas amorfas de Hades estavam atentas vasculhando a floresta, à procura de mais vítimas. Em uma destas procuras, uma delas avistou um belo guerreiro adormecido e se aproximou com cautela. Apesar de todo o cuidado acabou pisando em alguns gravetos secos, fazendo um pequeno barulho.
Alerta, o guerreiro se levantou rapidamente e apontou, prestes a atirar, uma adaga ao animal à sua frente.
– Mas o que um cavalo está fazendo por aqui ? – questionou de imediato.
Mesmo com a fraca iluminação, percebia tratar-se de um belo animal.
– Com tantas árvores e terreno irregular, como você conseguiu chegar deste lado ? – perguntou com docilidade ao eqüino.
O cavalo refugou e balançou graciosamente a cabeça.
– Calminha, criança. – aproximou-se devagar, até tocá-lo – Que interessante. – acariciou-o - Muito belo, muito branco... e muito falso. – com a mão livre segurou-lhe a crina com força e com a adaga abriu o pescoço do cavalo de uma ponta a outra.
O animal estrebuchou e transformou-se no que de fato era: uma horrenda criatura amorfa.
– Posso ser um mercenário, Hades, mas não sou burro. Apenas os loucos acreditam que há beleza dentro deste antro que você chama de floresta.
Deu uma olhada em volta e encontrou o que procurava: sua lança.
– A única beleza que vejo neste momento... – impiedosamente fincou a ponta na pele, enrugada e gosmenta e empurrou para baixo – ... é a minha.
O monstro deu um último suspiro.
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Pela manhã.
Assim que a completa escuridão deixou a floresta e uma tênue iluminação se fez, o Aquariano observou melhor seu parceiro. Sentiu uma leve dor em seu peito. Sua companhia trazia todo o vigor da mocidade; os fios dourados começavam em ondas e terminavam em belos cachos; os lábios eram rosados e convidativos; o corpo bronzeado movia-se lentamente por causa da respiração. Era a imagem de um anjo. Um anjo caído do céu, bem ao seu lado.
"Un ange" (1) – pensou – "Un ange".
O passado caiu violentamente sobre si. Uma enxurrada de pensamentos varreu sua mente. Reviveu toda angústia, medo e culpa. De imediato pensou em Hades. O olhar perdeu-se entre as más lembranças. Respirou fundo. Sabia muito bem o que deveria enfrentar. Voltou-se para o Escorpiano. Não era correto envolvê-lo em seu plano de vingança. Deveria seguir sozinho.
Certamente firmara um acordo de não abandonar o outro cavaleiro, porém seu motivo para fazê-lo era muito maior que um mero acordo. O ruivo não suportaria ser o causador de mais mortes. Sua batalha pessoal contra Hades deveria ser travada individualmente, sem a intromissão de terceiros.
Olhou mais uma vez para o grego. Como qualquer movimento poderia acordar o loiro, decidiu deixar sua pele com ele. Começava a arrumar suas coisas quando a bela figura deitada despertou e um par de olhos azuis piscou algumas vezes.
– Bon jour. – disse baixinho, enquanto se espreguiçava.
– Bon jour. – respondeu um tanto admirado – Você sabe francês ?
– Estive nas terras francesas por algum tempo. – disse levantando-se.
– Gostou ? – questionou, enquanto colocava a mochila de lado.
– Muito.
– E dos franceses ? – perguntou sem olhar para o outro, disfarçando sua malograda fuga.
– Gostei mais ainda. – a frase saiu em tom levemente malicioso.
A entonação fez Kamus encarar o cavaleiro de Escorpião. Estaria mesmo o grego falando que gostara dos franceses ? Imediatamente tomou uma feição de espanto. Ao ver a cara do outro, Milo engasgou-se com o ar. Esta situação, de completo embaraço, fez o Aquariano ficar com as maçãs do rosto quase tão vermelhas quanto a cor de seus cabelos.
– Os franceses são ótimos guerreiros. – o Escorpiano corrigiu-se, enquanto pensava maliciosamente "Muito bons mesmo." – e o lugar é muito bonito.
O ruivo refletiu um pouco melhor. Estava sendo infantil. O loiro falava apenas da capacidade militar dos franceses. Nada mais. Sem encarar o outro, concordou com a cabeça. Sentiu-se levemente envergonhado por seus pensamentos maldosos.
– Fui com meu pai e outros quarenta cavaleiros gregos, ajudar vocês a afugentar os bárbaros. – Milo continuou a conversa, mudando o assunto.
– E por que os gregos nos seriam favoráveis ? – questionou, ainda sem olhar para o outro.
– Porque os franceses nos apoiaram na expulsão dos turcos. (2)
– Troca de favores ?
– De certa forma.
O Aquariano ficou calado.
– Mas foi muito bom. – o Escorpiano complementou – Aprendi muitas coisas interessantes.
– Obviamente, técnicas de luta. – afirmou ao loiro, sem deixar muita margem para comentários ou pensamentos escusos.
– Entre elas. – replicou, lembrando-se de sua iniciação homossexual.
– Chega de papo. Temos um longo caminho pela frente. – abriu sua bolsa e tirou o desjejum.
– Você não é de falar muito.
– Nos distraímos quando conversamos.
– É verdade. – sorriu sarcástico e colocou um pedaço de pão na boca – Eu lembro o episódio do Orc que você não viu.
A colocação fez o francês franzir o cenho. O grego percebeu na hora a besteira. Acabara de ofender, mais uma vez, a honra do outro cavaleiro. Apesar do cavaleiro em questão às vezes merecer alguns daqueles comentários, não era nada nobre de sua parte fazer afirmações tão baixas.
– Só falei por impulso.
– Milo, – olhou-o friamente – termine de comer e vamos. Não temos tempo para perder. – replicou guardando o alimento praticamente intocado.
– Ei, não fique ressentido. Às vezes minha língua é um tanto ferina, mas...
– Não se preocupe. – disse arrumando suas coisas e pronto para descer da árvore – Vou te devolver o favor do Orc.
– Você não me deve nada. Já me ajudou por duas vezes. O favor está pago. (3)
– Mas nem por isso fico repetindo o que fiz. – desceu a árvore.
– Kamus, não há necessidade desse tipo de atitude.
– Vou te devolver o favor e, então, seguirei sozinho. – disse, sem olhar para trás.
O Escorpiano desceu e foi ao encalço do outro.
– Não me interprete mal. – segurou-o pelo braço.
– Já disse para não tentar ser meu amigo. – soltou-se bruscamente – Sigo sozinho. Assunto encerrado.
– Sinto muito, mas não posso permitir que vá. Fomos predestinados a ficar juntos. Entre quase duas centenas de cavaleiros, os céus te escolheram como meu parceiro.
– Predestinados ? Humpf ! – balançou a cabeça em negativa – Certamente, não. Os céus não me escolheram coisa alguma. Foi apenas sorte. Uma má sorte.
– Não blasfeme contra o destino ! Coisas terríveis podem acontecer quando nos indispomos contra ele.
– Não me importa sua superstição. Não o quero como companhia.
– Eu também não o queria, - aproximou-se do ruivo - mas os céus conspiraram contra nós. Fomos colocados lado a lado; unidos pelo mesmo propósito; chamados a partilhar o mesmo caminho; proteger um ao outro.
– Que poético. – disse com sarcasmo – Esqueceu nosso combate ?
– Claro que não, francesinho. Penso nisso o tempo todo. Terminada esta missão, duelaremos.
– Milo, você tem idéia do que é um duelo ?
– Claro. Dois guerreiros lutam entre si até que reste apenas um.
– Como pode falar em "proteger um ao outro", se vamos nos matar em alguns dias ?
– Eu vou matá-lo em alguns dias. E uma coisa não tem nada a ver com a outra. Somos cavaleiros e temos um acordo.
– Magnifique. Acordo de "proteger um ao outro". – disse em tom debochado.
– Kamus, o destino nos chamou a partilhar as habilidades. Não nos queríamos como parceiros, mas esta decisão não acabe a nós. – deu uma pausa – E como vamos duelar, quero o prazer de atravessar-lhe o coração com uma espada. Mas para isso, nada mais justo que eu o proteja, garantindo que estará vivo até o duelo.
- Você está brincando ? – sorriu.
- Não se preocupe. – olhou bem para o outro - Dispenso-o da obrigação de me proteger.
– Tudo bem. – ficou sério - Você não está brincando. – deu uma pequena pausa – Sabe, agradeço toda a sua preocupação, - tentou mudar de tática - porém garanto-lhe que permanecerei vivo até nosso combate. Agora podemos nos separ...
– Tenho certeza que permanecerá vivo. Eu estarei ao seu lado, lutando por isso. – replicou, retomando a caminhada.
– Milo, você não está entendendo...
– Estou sim, Kamus. – disse virando-se para trás – Nossos caminhos foram unidos por uma força maior e eu não o abandonarei. Esta é minha última palavra. – falou decidido.
O francês calou-se. Não adiantava discutir com aquele cabeça-dura. Em um momento propício, durante a noite, faria o que deveria ter sido feito há tempos: deixaria o loiro. Seria melhor para si. Seria melhor para o outro.
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Caminharam várias horas pela floresta. Algumas vezes as árvores se fechavam e a mata parecia ainda mais densa. Em outros momentos as árvores se afastavam, dando a impressão de forçarem um caminho a seguir. Durante o trajeto não houve conversa. Cada qual continuava pensativo, imersos em suas próprias preocupações.
Passaram por várias trilhas suspeitas, mas nenhum soldado de Hades apareceu. Contudo, depois de atravessarem uma pequena clareira, estacaram. Uma grande depressão apresentou-se à frente. O Aquariano adiantou-se e se aproximou da beira do precipício. Primeiro olhou para baixo, fez um cara de dúvida e em seguida olhou em volta. O abismo era fundo e contorná-lo levaria um bom tempo.
– Teremos que dar a volta. Não há como descer e continuar.
– Sugiro a direita. – o grego observou - O caminho parece mais curto.
– De acord... – silenciou ao ouvir um barulho estranho.
– O que é isso ? – Milo perguntou baixinho.
– Parece... um Troll ! (4). - mal terminou de falar e um gigante surgiu por entre as árvores. Com quase quatro vezes o tamanho de um homem, pele grossa e enrugada, aspecto pouco agradável e uma imensa clava na mão, o Troll rosnou sons incompreensíveis antes de atacar o francês. O ruivo jogou-se para o lado a tempo. O chão foi afundado pelo pesado golpe.
– CUIDADO COM O ABISMO ! – o Escorpiano gritou ao ver quão perto o outro ficara da beira do precipício.
Com o grito, o monstro cerrou os olhos e desviou a atenção para o loiro, avançando. O grego tentou defender-se com a espada, mas a pele grossa era quase impenetrável. A única coisa que conseguiu foi deixar a criatura ainda mais furiosa.
O Troll urrou e balançou a clava, projetando-a rapidamente contra o cavaleiro, atingindo-o em cheio. O golpe foi tão violento que Milo foi levantado do chão e atirado ao longe, caindo dentro do abismo.
Um pouco afastado, Kamus foi tomado pelo espanto. Obviamente queria separar-se do Escorpiano, entretanto não precisava ser de uma forma tão drástica. Infelizmente não teve muito tempo para refletir. Logo a criatura olhou para si, levantou a clava e veio ao seu encontro.
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Enquanto isso, na fortaleza...
Hades olhava, com seriedade, para a imagem exibida na bacia de prata.
– Radamanthys. – chamou-o.
– Sim, Mestre.
– Vê este guerreiro ? – apontou para a água.
– Sim.
– É um mercenário. Quero-o vivo. Vá. Comande os exércitos e transmita a ordem para que seja capturado. Caso cumpra a missão com sucesso, dar-te-ei maiores responsabilidades.
Radamanthys sorriu. Era só capturar o guerreiro com vida e começaria sua escalada até o poder.
– Mestre, - voltou-se ao feiticeiro antes de sair - apenas para confirmar, não foi ele quem matou um dos amorfos ?
– Sim, mas isso não importa. Tomará o lugar do que morreu.
– Tomará o lugar do que morreu ? – indagou em dúvida – Perdoe minha intromissão, Senhor, mas como irá convencê-lo a fazer isso ?
– Não irei convencê-lo. Irei escravizá-lo. – cerrou os olhos.
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Nota da Autora - Explicações
( 1 ) Um anjo, em francês.
( 2 ) Pela proximidade geografia, Grécia e Turquia participaram de várias batalhas entre si.
( 3 ) Kamus evitou que um chacal atacasse o grego e deu a dica de como eliminar o Cavaleiro Negro.
( 4 ) Um Troll é uma figura mitologia do mundo dos RPGs.
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Nota da autora – Agradecimentos
Agradeço aos que acompanham a fic, e em especial aos que escreveram: Ilía Verseau, Flor de Gelo, Anjo Setsuna, Princess Andromeda, Guilherme, Nana Pizani, Anushka, Ophiuchus no Shaina, 666-Niia-Chan-666, Aline-chan , Shakinha, Washu M, Nanda, Sara, Kagura
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Nota da autora - Contato
Podem me contatar no erika(ponto)patty(arroba)gmail(ponto)com (não tem BR); ou via review neste site.
Bela Patty .
- Agosto / 2006 -