|
Author of 10 Stories |
Apenas um lembrete, porque aparentemente Amor Fati ganhou alguns novos leitores no último capítulo (sejam bem-vindos!):
O enredo desta fic foi completamente elaborado ANTES do lançamento de Deathly Hallows. Portanto, a história desconsidera todas as informações do sétimo livro, desde a identidade e a localização das horcruxes até as mortes e os novos personagens — o mesmo vale em termos de caracterização.
O canon aqui estacionou em "Half-Blood Prince" e seguiu pelo caminho pinhônico da força.
xxx
xxx
Amor Fati
por Calíope Amphora
XXI. Crianças não deveriam brincar com coisas mortas
"Potter, eu não me importo de ir para cemitérios trouxas escavar sepulturas, mas me trazer para cá já é demais", Malfoy reclamou assim que Harry acabou de aparatá-los e ele olhou ao redor. Seu rosto se fechou em uma máscara de desprezo.
"Mas que primor de menino! Também é um prazer te receber na nossa humilde morada, Malfoy", George Weasley cumprimentou os recém-chegados de pé no meio da sua sala, um brilho maldoso nos olhos enquanto analisava Malfoy. "Você aceita uma água, um chá, um chocolate…?"
"…uma azaração, uma Imperdoável, um pouco de veneno?", Fred completou a oferta do irmão, e os dois se reclinaram em poses idênticas contra o batente da cozinha.
Malfoy cruzou os braços e sustentou o olhar dos gêmeos, e Harry observou a tensão se formar entre os três de maneira quase palpável. Ele sabia que isso iria acontecer quando mandou um bilhete para os irmãos pedindo permissão para encontrar Ron e Hermione no apartamento deles com Malfoy, mas não era como se tivesse alternativas. O jeito era contornar a situação e se certificar que todos continuassem vivos até a hora da partida.
"Não precisam oferecer nada, nós já vamos sair", Harry disse, antes que os gêmeos ou Malfoy continuassem a provocação. "Ah, e obrigado por liberar o apartamento para mim", ele se apressou em dizer, esperando amenizar o clima.
O comentário surtiu efeito. Fred deixou de fazer caretas para Malfoy e se virou para ele, a expressão bem mais amigável. "Sem problemas, Harry. Você sabe que é sempre bem-vindo por aqui".
"Sim, nós até deixamos seu quarto intocado, para quando você quiser voltar", George acrescentou, também abandonando temporariamente a guerra de nervos com o sonserino. "Longe de nós querermos te privar da diversão que deve ser morar com Malfoy, mas é sacanagem da Ordem te deixar trancado em Grimmauld Place. Quando você precisar de uma equipe de resgate, sabe quem chamar", ele completou, levantando as sobrancelhas de maneira convidativa.
A referência fez surgir na mente de Harry lembranças do dia em que os gêmeos e Ron foram salvá-lo dos Dursley no carro voador do sr. Weasley. Parecia que aquilo tinha ocorrido há séculos. Ele abriu um sorriso, sentindo algo que beirava a nostalgia, e respondeu, "Valeu pela oferta, vou manter isso em mente. Mas acho que agora posso me virar sozinho".
A atmosfera ficou um pouco mais leve, embora Malfoy ainda se comportasse como um bicho acuado. Harry o encarou em um pedido mudo de calma e olhou ao redor, até localizar, no canto da sala, o sofá soterrado por produtos em testes. Usou um feitiço de levitação para liberar o espaço e puxou Malfoy pela manga da capa para acompanhá-lo, sabendo que seria mais seguro manter sonserino por perto. O loiro torceu o nariz para expressar seu descontentamento, mas acabou indo sentar ao seu lado.
Fred e George observaram a cena em silêncio e então se entreolharam, um par de sorrisos predatórios se formando ao mesmo tempo. Harry quase grunhiu. Ele conhecia os dois o suficiente para saber que aquilo não era bom sinal.
"Por Merlin, Harry!", Fred começou, os olhos exageradamente arregalados em falsa surpresa. "Eu não sabia que Malfoys eram uma raça domesticável! Como é que você conseguiu essa proeza?", ele perguntou, olhando para Malfoy como se ele fosse um animal exótico.
"Que gracinha! Ele te segue, senta, resmunga, fala 'Lorde das Trevas'… o que mais você conseguiu ensinar? Ele também rola e brinca de morto? Pede carinho? E já faz as necessidades no lugar certo ou continua fazendo merda por aí?", George continuou, acotovelando o irmão para ressaltar seu brilhantismo. Fred riu alto.
Harry sentiu Malfoy ficar tenso e balançou a cabeça para os gêmeos em um pedido silencioso para que eles parassem. Como era de se esperar, foi em vão.
"Olha, George, ele também muda de cor!", Fred notou, empolgado, e a vermelhidão raivosa que tinha se espalhado pelo rosto de Malfoy com o início da conversa apenas se agravou diante do comentário.
"Que adorável, ele muda do branco-zumbi para rosa-filhinho-de-mamãe! Você só deveria ter escolhido um exemplar mais bonito, Harry. Esse aqui parece ter sido derrubado de cara no chão quando era filhote", foi o comentário de George, que arrancou risadas altas do irmão.
Malfoy rangeu os dentes, e Harry sabia que ele deveria estar usando todo o seu autocontrole para se manter em silêncio, provavelmente raciocinando que atacar o inimigo em sua própria casa não era uma ação inteligente. Ele achou melhor interferir antes que o bom senso de Malfoy se esgotasse.
"Fred, George, por favor! Malfoy veio a meu pedido", ele lembrou, tentando em seguida apelar para a solidariedade dos gêmeos, "Além do que, sou eu que vou ter que agüentá-lo reclamando depois".
Ele percebeu que sua tática não tinha funcionado quando Fred se virou para encará-lo e seu rosto se iluminou tal qual o de um gato que avista uma presa distraída. "Oh, Harry!", ele disse, colocando as mãos no peito com um suspiro exagerado. "Você já se apegou a ele. Que bonitinho".
Harry apertou os olhos enquanto George ria alto, pelo visto aprovando a nova abordagem da conversa.
"Que amor, Harry!", George deu continuidade em tom doce. "Adotar um bichinho de estimação sempre é uma atitude nobre. A gente vivia insistindo com a mamãe, mas ela nunca deixou. Dizia que temia pela vida pela vida do pobre animal. Aí tivemos que nos contentar com o Ron mesmo. Mas lembre-se de que você tem que ser um dono responsável", ele se interrompeu e fez uma pausa dramática antes de acrescentar, "Você já levou ele para castrar? Sabe como é, não queremos Malfoys se reproduzindo por aí".
Fred sentou no chão, dobrando o corpo enquanto gargalhava do comentário, e Malfoy ficou tão vermelho que parecia preste a explodir.
"Potter!", ele grunhiu por entre os dentes, e Harry abriu a boca antes que ele pudesse continuar.
"Caras, a não ser que queiram que Malfoy acabe castrando vocês dois, dêem um tempo", ele pediu, esperando que sua voz soasse séria e não suplicante. "Porque, se vocês continuarem com isso, eu sou bem capaz de ajudá-lo".
Fred e George se entreolharam, soltando um "Uhhh, que medo d'O Eleito!". Eles continuaram a gargalhar, mas pelo menos a partir dali se contentaram em ficar fazendo piadinhas entre si, rindo sozinhos enquanto Malfoy os observava como se eles fossem a representação física de todo o mal que deveria ser expurgado do mundo.
Harry se manteve em silêncio, ignorando as risadas dos gêmeos e os olhares cortantes de Malfoy, que diziam claramente que ele teria que ouvir por causa daquilo depois. O riso dos irmãos continuou a ser o único som no apartamento, até o barulho de Ron e Hermione aparatando. Harry não precisou olhar duas vezes para os amigos para saber que eles tinham andado discutindo e que Hermione tinha passado um sermão no ruivo antes de os dois chegarem. Ele sentiu-se um pouco melhor por saber que o mundo naquele momento não era um lugar desagradável apenas para si.
"Vamos para o quarto, precisamos conversar antes de ir", ele falou assim que Fred e George soltaram Ron, já que tinham achado de boa medida receber o irmão tentando enfiar a cabeça dele na pia de louça suja. Harry soube que estava com graves problemas quando nem aquilo foi suficiente para Malfoy desfazer a carranca, se bem que ele notou o loiro entortando os cantos dos lábios para não sorrir.
"Tchau, Fred, tchau George, obrigado por deixarem a gente se reunir aqui", ele disse, levantando e indicando a direção do quarto para Malfoy ir na frente.
"Tchau, volte sempre, Harry. E pode trazer seu bichinho de estimação com você!", Fred gritou a título de despedida, e Harry suspirou em desânimo quando Malfoy estancou no meio do caminho.
"Sim, se você quiser a gente até ensina bons modos a ele", George prometeu, diante do que Harry fez pressão nas costas de Malfoy, incentivando-o a continuar em frente.
"E não se esqueça da castração, hein!", um dos dois gritou por último, ao que Harry perdeu a paciência e empurrou Malfoy quarto adentro antes que ele resolvesse dar meia volta.
Malfoy cruzou os braços e se encostou contra a parede, o rosto fechado e o olhar cerrado, encarando Harry como se ele fosse a pessoa mais abominável da face da Terra (depois de todos os Weasley, obviamente). Ron e Hermione os seguiram, acompanhando tudo com uma expressão confusa no rosto.
"Hm, sua mensagem mencionava alguma coisa sobre visitas a cemitérios atrás do túmulo de Merope Gaunt e a hipótese de encontrar mais uma horcrux, Harry?", Hermione perguntou depois de alguns segundos de silêncio, e Harry desviou o olhar de Malfoy para a direção dela.
"Er, sim", respondeu, ainda acompanhando de canto dos olhos as reações de Malfoy. "Achamos que Voldemort pode ter escondido uma das horcruxes no túmulo da mãe".
Harry então resumiu as conclusões dele e de Malfoy e mostrou o mapa de Londres onde o loiro tinha marcado os cemitérios próximos ao orfanato, repetindo os argumentos que o sonserino usou para convencê-lo.
"Uau", Hermione disse quando ele acabou, estudando o mapa. "É uma idéia muito boa, Harry. Não deve ter sido fácil para você relacionar tudo isso".
"Na verdade, quem pensou nisso foi Malfoy", Harry comentou, e viu Hermione levantar as sobrancelhas, Ron fazer cara de repulsa e o semblante fechado de Malfoy se tornar um pouquinho mais suave. "E eu acho que ele está no caminho certo".
O olhar de Hermione passou de Harry para Malfoy e em seguida seus olhos se estreitaram para Ron, em um recado claro para que ele engolisse sua opinião a respeito. "Bem, quando você falou em cemitério eu imaginei que seria algo perigoso e precipitado desse gênero e trouxe alguns livros de referência que podem nos ser úteis" ela comentou, apontando para a mochila que carregava nos ombros. "Qual é o plano?"
"Minha idéia inicial era pedir para que você verificasse os registros dos cemitérios trouxas e descobrisse em qual a senhora Marvolo Riddle está enterrada. Mas nós estamos sem tempo para isso. Suponho que vocês tenham ficado sabendo sobre a prisão de Hagrid?", ele perguntou e obteve um aceno de confirmação dos amigos. "Temos que agir logo, antes da Ordem se meter. Vamos de cemitério em cemitério procurando o túmulo de Merope, não deve ser difícil identificar traços de uma magia tão poderosa em um cemitério trouxa. Começamos pelos cinco mais próximos do orfanato e de lá vamos expandindo a área".
"Certo", Hermione disse, a voz determinada. Ela não deu tempo de ninguém falar antes de prosseguir. "Acho que as chances de encontrar o túmulo serão maiores se nos separarmos em duplas. Cada dupla fica com dois cemitérios desta lista e quem acabar por último pega com o que sobrou. Se Merope não estiver em nenhum desses, a gente divide os outros", sugeriu.
Harry deu de ombros e concordou com a cabeça. Em seguida, puxou a capa de invisibilidade da mochila, pensando em entregá-la para Ron e Hermione.
"Ótimo", Hermione continuou, agitada, e então caminhou para o lado de Malfoy. "Eu e Malfoy ficamos com os cemitérios de Brookwood e Pales,” ela disse, apontando os nomes no mapa. “Você e Ron procuram no Croydon e no Queens. Quem terminar primeiro vai para o Woking".
Malfoy e Ron abriram a boca para protestar ao mesmo tempo. Harry entendeu logo, considerando que Hermione provavelmente tinha planejado tudo aquilo para que ele e Ron pudessem conversar, e resolveu aproveitar a oportunidade.
"Combinado. Malfoy, leve minha capa de invisibilidade", ele disse, e jogou a capa para o loiro, que a pegou automaticamente no ar. "Hermione, você vai ter que levar Malfoy, ele não sabe aparatar".
"POTTER!", Malfoy esbravejou, o rosto vermelho, ao mesmo tempo em que Ron disse um desesperado "Mas… Hermione!".
"Sem problemas. Nos falamos por patrono, Harry. Boa sorte", Hermione concordou, e, antes que Malfoy dissesse mais alguma coisa, segurou no antebraço dele e os dois aparataram.
Harry se virou para Ron, que estava de braços cruzados no meio do quarto, e disse na voz mais suave que conseguiu, "O Croydon é menor que o Queens. Acho melhor começarmos por lá. Vamos?"
Ron soltou um muxoxo antes de espiar o endereço na lista que Harry segurava e aparatar sozinho. Harry esfregou o rosto. Por que nada na sua vida podia ser fácil?
0.0
Harry Potter é um homem morto, Draco pensou consigo mesmo quando acabou de ser aparatado por ninguém menos que Hermione Granger no meio de um cemitério trouxa. Morto, ele repetiu mentalmente, Não sem antes ser devidamente torturado.
Apenas a morte de Potter compensaria Draco por tudo que o grifinório tinha lhe feito passar nas últimas horas. Arrastado para a casa dos gêmeos Weasley; insultado de um jeito que faria todos os seus antepassados lançarem Crucio pelos olhos; obrigado a testemunhar as interações domésticas entre Weasley, Potter e Granger e, como se tudo isso não fosse humilhação suficiente, Potter revelando na frente dos dois que Draco não sabia aparatar e ele sendo arrastado por Granger como se fosse uma crianç, a morte seria lucro para Potter.
"Vamos, Malfoy. A gente vai caminhando pelo cemitério. Você ilumina o caminho, eu lanço os feitiços e quem sabe a gente dê sorte e encontre o túmulo dela logo", Granger disse, claramente tentando dar uma entonação amigável à voz, mas soando como se estivesse com algo preso na garganta.
Draco cruzou os braços. "Eu lanço os feitiços, você ilumina o caminho. E a gente começa nessa direção aqui", ele resmungou, tomando o sentido contrário ao de Granger. Ele não era o Weasley para ter que obedecer aos comandos da sangue-ruim…
Granger o encarou como se ele fosse uma criança teimosa — o que fez Draco se sentir profundamente ofendido, porque aquele era o olhar patenteado que ela lançava a Potter a cada duas frases do grifinório. Mas ela acabou fazendo sua vontade, e Draco finalmente contabilizou um ponto a seu favor no placar mental que estava mantendo daquela noite desastrosa.
Ele começou a caminhar devagar, observando o cemitério. O barulho do vento e dos insetos parecia ampliado pela escuridão e pelo silêncio, e a luz da lua desenhava a silhueta das lápides no chão por entre os galhos das árvores. Ele e Granger seguiram procurando qualquer sinal de magia, o som de seus passos esmagando as folhas secas a única perturbação no ambiente. Draco já estava entediado depois de quinze minutos daquilo, mas era claro que Granger tinha que piorar a situação abrindo a boca.
"Harry está realmente animado com o progresso que vocês fizeram nas últimas semanas. Fazia tempo que eu não o via assim", ela comentou, fazendo um esforço para parecer descontraída, mas Draco identificou os indícios de que cada palavra havia sido considerada antes de falar. Não deu mostras de ter escutado, esperando que Granger soubesse identificar os sinais nada sutis de que ele não estava a fim de conversar.
"É bom que você esteja nos ajudando com as horcruxes, mesmo depois de tudo que aconteceu. Eu… Er, eu sinto muito pelo seu pai", ela continuou. Draco apertou os olhos. Morto. Potter estava MUITO morto.
Ele se manteve mudo, na vã esperança de que sua atitude desestimulasse Granger. Não teve tanta sorte.
"Harry está sob muita pressão ultimamente. O Ministério, a Ordem, Voldemort ganhando cada vez mais poder. Ele se sente responsável por tudo isso", ela disse, pesarosa. Definitivamente morto, e torturado antes disso sendo obrigado a ouvir Granger tagarelar sobre seus sentimentos.
"É bom que ele tenha alguém por perto com quem conversar sobre as horcruxes. Eu não quero nem pensar no que seria se ele estivesse sozinho com Lupin em Grimmauld Place esse tempo todo", o monólogo continuou, e Draco notou que Granger o espiava pelos cantos dos olhos para se certificar que estava sendo ouvida, ainda soando como se estivesse medindo cuidadosamente cada palavra.
O loiro apertou os lábios, se obrigando a continuar quieto, pois precisava da garota para sair do cemitério. Para sobreviver ao suplício, ele se visualizou arrancando membro por membro de Potter e acrescentou na lista de torturas que esperavam o grifinório o item "passar uma semana de cobaia para os gêmeos Weasley polissucado como Draco Malfoy".
"Eu percebi nesses últimos dias que Harry-"
"Granger, o que te faz acreditar que eu me importo com isso?", ele interrompeu, perdendo a paciência, antes que resolvesse azará-la para ela calar a boca.
Ela parou de andar e o encarou. "Bem, você deveria", respondeu, dando de ombros.
Draco franziu as sobrancelhas. "Por que, de repente apareceu 'Lufa Lufa' escrito na minha testa? Oh, malditos gêmeos Weasley!", ele zombou, mas depois de ter falado aqui uma ponta de dúvida surgiu em sua mente, e Draco passou a mão na testa só para conferir. Respirou aliviado quando percebeu que não era o caso.
Granger soltou uma exclamação exasperada para ele diante do gesto.
"Harry comprou briga comigo e com Ron por sua causa! Ele e Ron ainda estão sem se falar. Pode ser chocante para você, Malfoy, mas foi por isso, e não pelo enorme prazer da sua companhia, que eu me prontifiquei a formar dupla contigo, para dar chance de os dois conversarem", ela revelou e voltou a caminhar, mais rapidamente dessa vez.
Draco sentiu a boca abrir e demorou alguns minutos para processar a informação, preferindo ignorar a parte ofensiva do comentário. Ele tinha notado nas semanas anteriores que Potter não estava às mil maravilhas com os dois lacaios, mas em momento algum imaginou que a briga fora por sua causa. Quando se convenceu de que tinha ouvido certo, correu para alcançar Granger.
"Como é que é? Potter brigou com vocês por minha causa?", ele comentou, meio incrédulo, e riscou mentalmente o item de cobaia dos gêmeos da sua lista. Pensando bem, aquela era uma tortura que apenas Voldemort merecia sofrer.
"Sim", ela confirmou. Draco gesticulou para que ela continuasse, tentando não demonstrar tanto interesse quanto sentia. Teve a impressão de ver Granger esconder um sorriso antes de voltar a falar.
"Eu e Ron ficamos possessos quando Harry nos disse que foi para Azkaban com você. Ele já tinha sugerido esse plano e nós recusamos por achar arriscado demais. Não conseguimos acreditar quando ele disse que tinha ido, e ainda por cima te levado junto".
"Hmmm", Draco comentou, tendo o cuidado de formar sua melhor cara de tédio.
"Ron ficou especialmente chateado. Ele se sentiu meio traído".
"Como?", Draco não pôde deixar de perguntar, se esquecendo por um instante de soar entediado. Francamente, aquele não era o tipo de informação que se jogava no ar assim.
"Eu achei que você não se importasse, Malfoy", ela disse com aquele jeito irritante de sabe-tudo.
"Eu não me importo", Draco respondeu, um pouco apressado demais, e pensou que talvez pudesse dar a Potter uma morte rápida, no fim das contas. "Mas não é como se este cemitério oferecesse muitas distrações".
Ele teve certeza de que Granger tinha rido daquela vez.
"Harry disse que vocês tinham trabalhado bem juntos. Que você não tinha perdido tempo questionando os planos dele e que foi realmente útil. Algo que, pelo visto, Ron e eu não temos sido ultimamente".
Draco entortou os lábios, lutando contra o sorriso que ameaçava se formar. Mais um ponto para ele no seu placar mental.
"Eu sempre soube que Weasley era um inútil, Potter não deveria se surpreender".
Granger chacoalhou a varinha ameaçadoramente na direção dele, e Draco limpou a garganta, resolvendo mudar o rumo da conversa. "De qualquer modo, faz semanas que isso aconteceu, o orgulho ferido de Weasley já teve tempo de cicatrizar".
"Antes Azkaban fosse o único problema", Granger disse simplesmente.
Draco rodou os olhos e abriu um sorriso cínico, deixando claro que sabia que Granger estava agindo daquela maneira, entregando meias informações, só para saber se ele estava interessado. "E não é?"
"Não. Harry também nos contou que te levou para o enterro do seu pai depois disso. E quando a gente argumentou sobre o risco a que ele tinha se exposto por sua causa, ele simplesmente disse que devia isso a você".
Draco ficou em silêncio, absorvendo as palavras, pensando no quanto Potter deveria ter ouvido de Granger e Weasley por sua causa. Bem, talvez Potter não precisasse morrer, no final das contas. Um pouco de dor seria castigo suficiente.
"E também tem os relatórios de Lupin", Granger acrescentou. Draco franziu a testa.
"Os o quê?"
"Quando Harry se mudou para Grimmauld Place, a sra. Weasley pediu para que Lupin a mantivesse informada sobre como ele estava. Lupin manda todas as semanas um relatório por patrono. Enquanto ele só falava das brigas estava tudo bem, mas não é fácil para Ron ouvir que Harry e você estão se dando bem", ela comentou e acrescentou, rindo. "Quando ele disse que você e Harry estavam se revezando na cozinha, Ron queria fazer um teste para Imperio, porque para ele só assim Harry aceitaria cozinhar para você. Ele só sossegou quando eu falei que deveria ser alguma competição idiota entre vocês dois".
Draco rodou os olhos, preferindo não comentar. Não era como se ele e Potter fossem previsíveis ou algo assim, afinal.
"Então Weasley está preocupado em perder o lugar de braço direito do salvador do mundo para mim? Merlin, estou emocionado…", ele zombou.
"Não, Malfoy", Granger rodou os olhos. "Ron sabe que o lugar de melhor amigo dele é garantido. Ele pode estar ressentido, mas conhece Harry bem demais para pensar esse tipo de coisa".
"Qual o problema, então?"
Granger olhou para Draco, pensativa, e ele mais uma vez teve a sensação de que ela estava estudando cuidadosamente cada palavra. Depois de alguns minutos, a garota apertou os lábios e disse, "Ron simplesmente não entende como você pode ter se tornado importante o suficiente para Harry a ponto de ele brigar conosco para te defender".
O estômago de Draco revirou de um jeito esquisito quando ele ouviu aquilo e sua boca secou por um instante. Ele sentiu o rosto ficar quente e sabia que estava corando, embora não soubesse por quê. Não fazia idéia de onde Granger queria chegar com aquilo tudo, mas agora estava interessado demais para não continuar. Notou que ela estava observando atentamente suas reações e por um instante lhe ocorreu o pensamento de que forçar Potter e Weasley a conversar talvez não fosse o único motivo de Granger ter escolhido formar dupla com ele.
"Potter e eu não somos amigos", Draco disse, surpreso por como sua voz soou amarga e não sarcástica. "Weasley está tendo crises de identidade à toa. Lupin provavelmente exagerou no tom dos relatórios para ser deixado em paz. Potter só me suporta porque precisa da minha ajuda para encontrar as horcruxes".
Granger esboçou um sorriso. "Se você acredita mesmo nisso, Malfoy, é porque obviamente não conhece o Harry".
Draco não respondeu, a sensação estranha em seu estômago subindo na direção do peito. Só então ele percebeu que enquanto caminhava tinha colocado a mão livre no bolso e estava acariciando o tecido da capa de invisibilidade de Potter inconscientemente. Recolheu a mão no mesmo instante, como se tivesse levado um choque, e tentou pensar em alguma resposta sarcástica para Granger, mas seu cérebro parecia ter entrado no modo Neville Longbottom de (não-) raciocínio.
"O eu estava dizendo antes de você me cortar", Granger retomou a palavra, interpretando (erroneamente) o silêncio dele como um incentivo, "Foi uma coisa que eu percebi nas últimas semanas, pelas cartas dele. Harry está feliz. Eu nem me lembro da última vez em que o vi desse jeito. Em nenhum momento dos últimos meses, com certeza. Ele está mais confiante, mais animado".
"Ah", foi tudo o que Draco conseguiu responder, começando a ficar incomodado e já pensando em soltar um "sangue-ruim" aqui ou ali só para lembrar Granger que eles estavam longe de ser amigos e encerrar o papo.
"No final das contas...", Granger prosseguiu, e fez uma pausa, como se considerasse a maneira correta de dizer o que estava pensando. "Bem, para mim você continua sendo um idiota, mas acho que Harry tem razão quando diz que você é mais útil do nosso lado do que contra nós".
Draco ficou um tempo sem saber como reagir. "E você espera que eu te agradeça por isso?", ele perguntou com desdém depois de alguns segundos, feliz por ter encontrado um jeito de desviar o assunto e ainda por cima ser rude com a garota.
"Não, Malfoy, jamais esperaria uma atitude decente da sua parte", ela rebateu. "Só queria que você soubesse".
"Recado anotado", Draco ironizou, a sensação estranha ainda forte em seu peito.
"Ótimo. Que bom tirar isso do caminho", ela acrescentou, parecendo muito satisfeita consigo mesma. "Só peço que você se lembre de uma coisa quando for decidir o que fazer com essa confiança que Harry está te dando, Malfoy. Você ainda detém o título de única pessoa que eu já estapeei na vida. Se você sair da linha com Harry… eu juro que não vai ser nem com Voldemort, nem com Ron que você terá que se preocupar. Eu ouvi os gêmeos comentarem algo sobre castração? Pois é, eu conheço feitiços que fazem coisas bem piores nessa mesma linha".
Draco arregalou os olhos e ignorou a fisgada de aflição que a ameaça causou na sua virilha, tentando buscar no seu vocabulário alguma resposta apropriada. Mas no segundo seguinte Granger abriu um sorriso e voltou a falar, como se apenas tivesse acabado de comentar o tempo, "Olha só, acabamos esse cemitério. Vamos aparatar para o outro". E, antes que Draco pudesse abrir a boca, o chão sumiu de seus pés.
Ele resmungou em pensamento. Precisava aprender a aparatar logo.
0.0
Harry se perguntou se Hermione já teria esquartejado Malfoy e estava naquele exato momento escondendo os pedacinhos do corpo do loiro em alguma cova. Ele espiou Ron e considerou que havia uma grande chance de o ruivo estar pensando em fazer o mesmo com ele. Ron mal tinha aberto a boca enquanto os dois vasculhavam o primeiro cemitério e agora, na metade do segundo, fazia questão de manter aquele silêncio incômodo.
Ele tentou adivinhar o que o amigo estaria pensando. Os dois não se falavam desde a briga depois do funeral de Lucius, e as cartas de Hermione deixavam claro que o ruivo ainda estava chateado. Harry balançou a cabeça para si mesmo. Não entendia o que tinha feito de errado daquela vez. Ele continuou a olhar para Ron pelo canto dos olhos, concentrando-se tanto em pensar em algo para dizer e quebrar o clima ruim que não notou a lápide na sua frente após uma curva. Harry tropeçou, cambaleou alguns passos para frente e acabou aterrissando de cara com um sonoro "Uoa!" em uma montanha de folhas secas amontoadas debaixo de uma árvore.
Ele demorou alguns segundos para entender o que tinha acontecido e, quando as informações se juntaram em seu cérebro, sua primeira reação foi agradecer aos céus por Malfoy não estar lá. Presenciar aquela cena seria um presente divino para o sonserino, que com certeza jamais deixaria com que Harry se esquecesse do momento, provavelmente com direito a imitações, desenhos ilustrativos e talvez até uma canção a respeito.
Depois de se certificar que não tinha quebrado nada, o grifinório levantou, praguejando alto enquanto sentia a ponta do dedo do pé latejar. Seus óculos por sorte tinham sobrevivido sem grandes danos à queda e, depois de limpá-los na barra da camiseta, Harry começou a tirar a terra e as folhas grudadas em sua roupa e cabelos. Só então notou a mão pousada no seu ombro.
"Er, tudo inteiro aí?", Ron perguntou quando ele virou o corpo, uma sobrancelha levantada, como se ele estivesse em dúvida entre rir e se preocupar.
"Sim, sim", Harry disse, dando de ombros, o que fez seus ossos estralar. "Está tudo bem", ele completou com o que lhe restava de dignidade.
Ron esperou enquanto ele se recompunha com o rosto abaixado, falhando em esconder a risada com as mãos. Harry pensou que humilhação pública não era bem o jeito que ele queria quebrar o gelo, mas quem sabe funcionasse.
"Que bom saber que você não desaprendeu a falar comigo", ele comentou, tomando o cuidado de soar amigável.
Ron levantou o olhar para encará-lo, parecendo meio envergonhado. "Hermione diz que eu estou sendo infantil", ele revelou.
"Hmm", Harry respondeu, mantendo o tom neutro para não denunciar que concordava com Hermione.
"Ela também diz que, em vez de ficar emburrado, eu deveria ficar contente por você ter Malfoy para te ajudar, porque não é como se estivéssemos em vantagem na guerra", Ron continuou, e Harry percebeu que a rabugice anterior do amigo não era por estar bravo com ele, mas por não saber como abordá-lo. "E que talvez nós devêssemos confiar em você e dar um crédito para Malfoy".
"Menina esperta, essa Hermione", Harry comentou com um sorriso, reconhecendo o pedido de desculpas por trás das palavras do amigo.
"É. Esperta até demais", Ron balançou a cabeça. Ele enfiou as mãos nos bolsos e voltou a encarar Harry. "Então… tudo bem?"
O sorriso de Harry se alargou. "Sim, Ron. Tudo bem".
Ron sorriu de volta, e Harry indicou a direção para eles retomarem a caminhada. Não tinham dado meia dúzia de passos quando o ruivo se voltou para ele, a voz carregada de seriedade.
"Isso não quer dizer que a partir de agora eu goste do Malfoy", ele declarou de modo quase solene.
"Claro, claro", Harry disse, tentando não rir do horror estampado no rosto do amigo pela idéia de alguém considerar que ele nutrisse qualquer tipo de simpatia por Draco Malfoy.
Ron olhou para ele como se esperasse fervorosamente que ele dissesse alguma coisa. Harry franziu a testa, e o ruivo levantou as sobrancelhas, sua expressão de horror aumentando. Harry finalmente entendeu.
"Er, nem eu, é óbvio", ele se apressou em completar, estranhando como a afirmação soou falsa aos seus ouvidos. Ron pareceu não perceber nada de errado e deu um suspiro de alívio, o que fez surgir uma ponta de indignação em Harry a favor de Malfoy. Mas o sentimento foi devidamente sufocado conforme a inspeção no cemitério continuou, agora acompanhada por conversas e risadas entre os dois amigos. Até que uma lontra prateada brilhou no céu trazendo o recado de Hermione: ela e Malfoy tinham encontrado o túmulo de Merope. Ron e Harry se entreolharam animados e aparataram em seguida.
— x —
Malfoy estava recostado em uma lápide segurando duas pás quando Harry e Ron se aproximaram, sustentando sua expressão de entediada arrogância de sempre. Hermione caminhava de um lado para o outro ao seu lado e pulou de excitação quando os dois se aproximaram. "Achamos! Achamos!", ela comemorou. "Vocês não fazem idéia da quantidade de magia concentrada aqui. Acho que o palpite de Malfoy pode estar certo, Harry!"
Hermione havia lançado um feitiço para iluminar o local, e Harry se inclinou para observar a lápide simples, cuja inscrição na pedra cinzenta dizia Marvolo Riddle (sra.), que passaria facilmente despercebida no meio de tantos outros nomes e datas de mortos anônimos. Ao contrário do que acontecia no restante do cemitério, não havia nenhum tipo de vegetação ao redor e nem por perto. Harry passou a língua pelo lábio inferior em ansiedade e ele levantou o rosto para encontrar Malfoy o encarando com os olhos estreitos e uma expressão confusa.
"O que-" ele começou a perguntar, mas foi calado quando o loiro se aproximou e, para enorme surpresa de Harry, passou a mão em seu cabelo. Harry se sentiu paralisar até o fundo da alma e sua respiração pareceu ficar suspensa. Ele se perguntou se o choque de ficar para trás com Hermione tinha sido demais para a sanidade do sonserino. E então Malfoy recolheu o braço e Harry viu que ele segurava uma folha na ponta dos dedos.
"Levou a pior brigando com o Salgueiro Lutador, Potter?", ele perguntou, com um sorriso sarcástico. "Ou o adubo que você tem dentro da cabeça começou a servir para alguma coisa?"
Harry se sentiu corar. "Eu, hm, eu tropecei e, er, eu achei que, tinha um monte de-", ele tentou explicar, do que felizmente foi salvo pela aproximação de Ron e Hermione.
"O que fazemos agora?", Ron perguntou, batendo com o pé na terra.
Malfoy aumentou o sorriso maldoso, jogou a folha que segurava de lado e pegou as duas pás que tinha deixado apoiadas contra as lápides.
"Granger acha que a terra sobre o caixão deve ser removida manualmente, sem o auxílio de magia, até a gente ter uma idéia melhor do estado em que ele se encontra. Eu, infelizmente, só consegui achar duas dessas pelo cemitério enquanto ela mandava a mensagem para vocês. Então acho que você e Potter vão ter que cavar", ele explicou, um tom de falso pesar na voz, e jogou uma pá na direção de Ron.
Com um suspirou conformado, Harry pegou a outra pá. Ron grunhiu algo em protesto, mas pareceu não se importar tanto de poder se exibir para Hermione quando tirou a capa e arregaçou as mangas da camiseta antes de iniciar o trabalho.
Os dois começaram a escavar e em poucos minutos já estavam cobertos de terra e suor. O barulho das pás batendo contra a terra parecia ecoar alto no silêncio do cemitério, e a excitação por encontrar o túmulo foi rapidamente substituída por tensão e ansiedade. A apreensão crescia em progressão geométrica a cada novo punhado de terra removido.
"Se vocês continuarem nesse ritmo de grifinórios indo para a aula do Snape, nós vamos amanhecer aqui", Malfoy comentou depois de alguns minutos, não conseguindo esconder o nervosismo no tom sarcástico.
"Você podia fazer algo para ir mais rápido em vez de reclamar", Ron resmungou.
"É verdade, Weasley, que insensível da minha parte. Olha só, te dou um galeão se você cavar mais rápido. Deve mais que dobrar a renda mensal da sua família", Malfoy respondeu.
Ron ficou vermelho e lançou um olhar fuzilante para o loiro.
"Malfoy", Harry disse em tom de advertência.
"E você, Potter, menos conversa e mais terra nessa pá", Malfoy não deu trégua. "Nós temos um caixão para violar".
"Eu juro que vou mais rápido se puder enfiar toda a terra na boca dele", Ron prometeu, seu rosto se animando por um momento diante da hipótese.
"Calem a boca, vocês três", Hermione estourou. "Estamos correndo um risco sério. Perturbar os mortos é um crime para os trouxas e tudo o que nós não precisamos é atrair atenção da polícia porque vocês não conseguem agir civilizadamente. Não me obriguem a tomar medidas drásticas", ela completou, sacudindo a varinha.
A ameaça foi suficiente para calá-los. Harry e Ron continuaram a cavar, e o silêncio só fez crescer a impressão de mal-estar. Em pouco tempo Harry já sentia os braços doerem pelo esforço físico e o suor no seu rosto fazia os óculos escorregarem pelo nariz, sem contar a tensão que parecia ter transformado os músculos de seus ombros em pedra.
"Nós vamos ser pegos", Malfoy voltou a falar do meio do nada. "Quer dizer, por mais idiotas que os trouxas sejam, alguém vai acabar notando alguma coisa".
"Quieto, Malfoy!", Hermione repreendeu por entre os dentes, claramente tentando manter o próprio controle.
"Eu sou a favor de a gente entregar o Weasley como cobaia para eles", Malfoy continuou em tom de conspiração, gesticulando. "Nada pessoal, Weasley. Quer dizer, é pessoal, sim, mas, entenda, a horcrux é mais importante que você. Como quase tudo no mundo".
Ninguém deu atenção ao sonserino, cada qual lidando com a própria ansiedade a seu modo. Infelizmente para eles, o modo de Malfoy parecia consistir em matraquear e insultar quem quer que estivesse por perto.
"Por Merlin, mas que diabos o Lorde das Trevas estava pensando ao escolher um lugar desses para esconder a horcrux?", ele prosseguiu. "Potter, só para você saber, eu vou te culpar inteiramente caso aconteça alguma coisa comigo. E se você ousar me deixar morrer num lugar desses, eu volto para te perturbar por toda a eternidade".
"Certo, porque isso seria uma grande mudança em relação a como você me trata agora", Harry rebateu, sem parar de cavar.
"Isso não é hora para brincadeiras, Potter! Eu posso não viver para ver o dia de amanhã", Malfoy disse, como se só agora tivesse se dado conta da gravidade da situação.
"Malfoy, todo mundo aqui está preocupado e com medo, só que esses seus comentários não estão ajudando", Hermione observou, sua voz em um tom perigosamente baixo.
"Eu não estou com medo, Granger", Malfoy resmungou, ofendido. "Eu só acho que um cérebro grifinório não tem capacidade de entender a quantidade de magia negra que esse caixão deve conter. Quer dizer, imagine o que o Lorde das Trevas pode ter preparado contra quem tivesse a ousadia de vir xeretar o túmulo da mãe dele".
"Você foi informado desde o início que isso seria arriscado. Até onde eu sei, ninguém te obrigou a vir", Hermione respondeu.
"Isso não quer dizer que eu preciso abraçar a idéia de estar correndo risco mortal como se fosse um filho perdido na guerra. Francamente, grifinórios".
"Malfoy, se você não calar a boca eu juro que-", Ron começou, mas qualquer que fosse o mal que ele iria jurar infligir em Malfoy foi esquecido quando o barulho da pá de Harry batendo em algo sólido se vez ouvir.
Todos se voltaram na direção dele, Hermione com a testa franzida em preocupação, Ron com o rosto animado e Malfoy consideravelmente mais pálido e parecendo em dúvida entre vomitar e desmaiar.
"Encontrei algo", Harry disse na falta de um comentário menos óbvio, o coração aos solavancos no peito. Ele e Ron continuaram a cavar até revelar um caixão simples de madeira, que começou a estalar com o peso dos dois.
"Céus, Harry. Como vamos fazer isso?", o ruivo perguntou.
Hermione espiou o buraco, analisando a situação. "Acho que agora que vocês tiraram toda a terra dá para encontrar um meio de trazer o caixão para cá sem perigo. Saiam daí", ela pediu.
Harry se ancorou para fora e deu uma mão para Ron fazer o mesmo. Com gestos firmes de varinha, Hermione fez o caixão levitar, envolvido em um feitiço para que a madeira antiga não se desfizesse. A inquietação podia ser sentida como um quinto elemento do grupo enquanto a peça se movia até ser cuidadosamente baixada no solo. Os quatro circundaram o caixão em silêncio por alguns instantes, todos mantendo certa distância, como se o cadáver lá dentro pudesse levantar a qualquer momento e atacá-los.
"É melhor garantir que não haja nenhum feitiço pronto para ser ativado quando a tampa abrir", Hermione sugeriu depois de um tempo, a voz meio trêmula.
"Eu não chego perto disso aí de jeito nenhum", Malfoy declarou, dessa vez sem se preocupar em esconder o nervosismo.
Hermione balançou a cabeça irritada antes de começar uma inspeção minuciosa na superfície do caixão, Harry e Ron com as varinhas em mãos para protegê-la caso algo acontecesse e Malfoy a alguns passos para trás do grupo, parecendo petrificado.
"Nada", Hermione concluiu depois da terceira inspeção completa, as sobrancelhas erguidas em surpresa. "Dá para sentir a magia aí dentro, mas nada específico. Isso não está me cheirando bem, Harry. Quer dizer, se Voldemort tivesse colocado uma horcrux aqui, ele com certeza iria protegê-la a qualquer custo. Pode ser uma armadilha".
"Nós precisamos tentar", Harry respondeu, decidido. "A magia dentro do caixão é forte demais para ser só remanescente do cadáver da Merope. Tem algo poderoso aí e eu aposto que é a horcrux".
"E você considera isso uma boa notícia, eu imagino", Malfoy, para a infelicidade do trio de amigos, aparentemente tinha recuperado a capacidade da fala e voltou a se aproximar. "Potter, esse negócio tem magia negra retida o suficiente para te fulminar mais rápido do que você pode dizer 'horcrux'".
"Eu não vou saber se não tentar, não é? Vamos fazer assim: eu abro, vocês ficam de prontidão para impedir qualquer coisa que pular para cima de mim".
Harry não esperou resposta: enfiou a ponta da pá na junção da tampa, empurrou com o pé e fez força para cima. A madeira cedeu sem resistência, e o tempo pareceu parar enquanto Harry assistia à tampa do caixão escorregar para o lado. Ele sentiu Malfoy prender a respiração atrás de si e se preparou para reagir contra o que quer que fosse a ameaça, todos os seus sentidos em alerta.
Nada aconteceu. Harry aguardou mais alguns segundos, percebendo que a abertura do caixão tinha ocasionado uma mudança brusca na atmosfera ao redor deles, que se tornou abafada, envolvida por uma névoa densa e gélida que causava arrepios como um giz arranhando uma lousa sem parar. Harry respirou fundo e se obrigou a olhar para dentro do invólucro de madeira, seus joelhos falhando diante da visão.
Merope Gaunt havia sido reduzida a ossos semi-envoltos por pedaços de trapos que um dia deveriam ter sido roupas, o cabelo longo e sem brilho cobrindo a base do crânio e se esparramando pelo fundo de madeira. As órbitas dos olhos estavam vazias, assim como o espaço do nariz, uma fenda triangular que apontava para a linha de dentes amarelados. Harry sentiu o estômago se revirar e um gosto amargo subiu até sua garganta, mas ele se forçou a não desviar o rosto. Seus olhos varreram rapidamente o caixão, não notando nada além de ossos.
"Ah, Salazar", Malfoy murmurou próximo ao ouvido de Harry, a voz trêmula. O loiro se abaixou ao lado dele, nitidamente procurando não se aproximar muito.
"Nada de duas cabeças, olhos vermelhos ou pele de cobra, Malfoy. O cadáver da mãe de Voldemort é tão ordinário quando o de qualquer mortal. Sinto muito", Harry comentou, tentando atenuar o clima macabro.
"Nada de horcrux também, Potter", Malfoy devolveu como um tapa.
"Está aqui. Eu sei que está", Harry disse simplesmente.
"Urgh, Harry… isso é…", Hermione comentou, o rosto contorcido em repulsa. A animação na expressão de Ron também tinha se esvaído, mas ele mantinha a postura determinada.
Harry empurrou os óculos contra o rosto, tentando conjurar ânimo. "Okay. Vamos acabar com isso logo. Eu vou chegar mais perto. Fiquem atentos".
Ele agachou ao lado do caixão, puxou a varinha das vestes e murmurou um "Lumus" para poder inspecionar melhor o interior. Diretamente contra a luz, o cadáver de Merope pareceu ainda mais ordinário, mas não por isso menos intimidante. Lutando contra a náusea, Harry examinou todo o esqueleto duas vezes e revirou o que tinha sobrado das roupas, todos os seus movimentos atentamente acompanhados pelos outros três, que pareciam ao mesmo tempo fascinados e aterrorizados pela visão.
"Nada", ele disse para si mesmo. "Não pode ser".
Ele se fixou no crânio de Merope, através do vazio das órbitas dos olhos, e, afastando a repulsa, tentou imaginar ali o rosto da garota amedrontada que tinha visto nas lembranças conseguidas por Dumbledore. Era cruel que aquele tivesse sido seu fim, enterrada em um cemitério trouxa sem sequer ter seu nome na lápide. Ninguém no mundo além de Harry para lembrar da sua existência. Ele interrompeu suas divagações e franziu a testa quando notou que havia um ponto brilhante o encarando de volta.
"Harry-", a voz de Hermione chegou até ele, que não deixou que ela continuasse.
"Acho… acho que encontrei algo", Harry disse. Ele levou a varinha até o buraco do nariz de Merope para ter uma visão mais clara, o que fez o crânio se iluminar como a cúpula de um abajur. De mais perto era possível visualizar o que parecia ser o contorno de um objeto dourado, oculto no espaço do que um dia tinha abrigado um cérebro e agora mais se assemelhava ao interior de um ovo vazio.
"Potter?", Malfoy soou hesitante acima da cabeça de Harry.
"Está aqui dentro", ele afirmou. "Voldemort escondeu a horcrux dentro do crânio da mãe".
"Oh, deus!", Hermione exclamou. "Isso é… isso é doente", ela continuou, meio histérica.
"Eu vou… tenho que dar um jeito de pegá-la", Harry comentou, tentando se manter objetivo.
Ele pensou por um segundo, notando que iria estraçalhar o crânio se tentasse puxar o objeto pelos buracos dos olhos, idéia que não lhe agradava e que, ele imaginou, poderia ativar possíveis feitiços protegendo o cadáver. Sem ver alternativa, Harry respirou fundo e movimentou com cuidado a mandíbula de Merope até deixá-la totalmente aberta. Apertando os lábios e tentando não pensar no que estava fazendo, ele encaixou a mão por entre os dentes do cadáver e começou a tatear o interior do crânio.
"Potter, o que você está fazendo é simplesmente nojento", Malfoy exclamou, horrorizado.
Hermione soltou um gemido de repugnância, e Harry levantou os olhos a tempo de vê-la esconder o rosto na curva do pescoço de Ron, que o incentivou a continuar com um aceno, mesmo parecendo meio verde. Harry se inclinou mais para frente e conseguiu fazer com que seus dedos avançassem alguns centímetros, até esbarrarem em algo pequeno de formato retangular.
"Peguei!", ele disse, fechando os dedos no objeto.
Harry puxou o braço rapidamente e nesse exato momento duas coisas aconteceram. A primeira foi que ele teve certeza de que a jóia dourada que brilhava na palma da sua mão era o mesmo broche de Rowena Ravenclaw que ele já tinha visto ilustrado em diversas biografias da fundadora da Corvinal. A segunda foi que a névoa ficou estática por alguns momentos, antes de se iniciar uma ventania que fez as folhas do cemitério esvoaçarem em redemoinhos que circundaram os quatro. O feitiço que Hermione tinha lançado para iluminar a área ao redor do túmulo foi extinto, e a temperatura ambiente pareceu despencar vários graus em poucos segundos.
A força da ventania tornava difícil se mexer, e Harry se esforçou para se afastar do caixão e ficar de pé, mantendo a horcrux presa no punho fechado. "Que diabos, Potter?", ele ouviu Malfoy gritar apavorado através do barulho do vento. Harry protegeu o rosto com o braço e apertou os olhos para tentar enxergá-lo por entre as folhas que voavam em todas direções, distinguindo apenas um borrão de cabelos loiros esvoaçantes. Ele ouviu os gritos de Ron e Hermione sem discernir o que os dois diziam, o barulho tão alto que suas vozes pareciam vir de quilômetros de distância.
Harry manteve o olhar fixo no ponto em que Malfoy estava, lutando contra a corrente de ar para se aproximar dele. O vento assobiava forte contra seus ouvidos e não era possível ouvir nada além do barulho das folhas batendo umas contra as outras. O temor cresceu dentro de Harry conforme a figura do sonserino se tornava mais indefinida por entre as folhas e ele não identificava nem sinal de Ron e Hermione. Cada movimento mínimo exigia um esforço tremendo, e Harry sentia como se sua pele estivesse batendo contra milhões de minúsculos cacos de vidro.
Uma lufada de ar mais forte arrancou-lhe a varinha da mão e fez seus óculos saírem voando. Ele tentou não se deixar dominar pelo pânico, o que se tornou impossível quando viu um dos redemoinhos se mover diretamente para a direção de Malfoy e engolir o pontinho em que a figura do sonserino tinha se tornado. Um grito morreu na sua garganta quando ele percebeu que outro redemoinho se aproximava de si, e tudo que Harry conseguiu fazer foi fechar os olhos e se concentrar em manter a horcrux presa contra a palma da mão quando o vento abraçou seu corpo.
A dor cruciante dos cortes causados pelas as folhas que batiam contra seu rosto e braços foi o que manteve Harry consciente, e ele não sabia mais dizer se seus pés tocavam o chão. Era como se flutuasse num vértice do infinito. "Não acredito que vou morrer desse jeito estúpido", Harry pensou quando nenhum plano para escapar daquela situação se formou na sua cabeça e ele se deu conta que estava sem varinha, sem óculos e sem sequer conseguir se mexer. Ele pensou em Ron, Hermione e Malfoy, todos provavelmente em condições iguais a ele e por sua culpa. Mas Harry não ia se entregar, mesmo que parecesse tão mais fácil simplesmente se deixar ir com a ventania. Ele continuou lutando contra o vento, torcendo intimamente para que algum Plano B repentino viesse em seu socorro.
Foi então que ele sentiu seu corpo ser embraçado por um calor estranho e o barulho em seus ouvidos se tornou menos violento. Harry abriu os olhos e se viu de pé no meio do redemoinho, as folhas e a ventania formando uma parede circular ao seu redor. Havia uma luz branca vindo de fora do redemoinho envolvendo Harry e era essa a fonte daquele calor. Ele se concentrou na luz e seu coração pulou uma batida quando notou um vulto banhado em claridade dourada se aproximando através das folhas. Harry apertou os olhos para ter certeza de que não estava delirando enquanto a figura etérea se tornava cada vez mais próxima. Mas Harry reconheceria aqueles olhos tão verdes quanto os seus de qualquer distância.
"M-mãe?", ele balbuciou, sem acreditar no que estava acontecendo.
Lily Potter atravessou o redemoinho e encarou o filho de modo terno, os cabelos acajus voando no sentido do vento, suas formas contornadas pela luz. Harry sentiu um nó de sentimentos entalar na garganta enquanto tentava dar um sentido racional para tudo aquilo. "Estou salvo", foi seu primeiro pensamento, concluindo que de alguma maneira tinha conseguido conjurar o espírito da mãe para ajudá-lo. O calor da presença de Lily continuou a rodeá-lo como um escudo protetor. A imagem de sua mãe olhou diretamente para dentro de seus olhos, como se estivesse lendo sua alma.
Harry não sentia mais a força do vento ao seu redor e, sem conseguir resistir, levantou o braço até o rosto de sua mãe, a vontade de tocá-la e ter certeza de que aquilo era real sobrepondo-se a qualquer outro pensamento. Com o coração disparado no peito, ele aproximou os dedos trêmulos do rosto de Lily, sem encontrar palavra suficiente para traduzir o que sentia. Quantas vezes desde que se entendia por gente Harry, num momento de aperto, não tinha desejado com todas as forças que sua mãe aparecesse e fizesse tudo ficar bem?
Os dedos de Harry ultrapassaram a barreira de luz ao redor de Lily sem resistência. Ele traçou os contornos do rosto dela no ar, imaginando como seria sentir a maciez da sua pele. Sua mãe sorriu.
"Harry… eu esperei tanto por isso, filho", ela disse de maneira carinhosa, e para Harry foi como se o mundo tivesse parado. Nada mais existia além da voz de Lily, que vinha distante e parecia soar diretamente dentro da sua cabeça.
Ele abriu a boca para falar, mas só conseguiu emitir uma exclamação meio soluçada. O sorriso de Lily se alargou.
"Oh, Harry, meu Harry", ela prosseguiu. "Há tantas coisas que eu não sei a seu respeito. Olhe para você… já é um homem feito".
Harry engoliu com dificuldade diante dos bondosos olhos verdes na sua frente.
"Eu queria tanto poder estar ao seu lado, filho", ela disse, as mãos se movimentando para o rosto de Harry e deixando uma sensação morna na pele dele.
"Eu também queria, mãe", ele respondeu, a voz fraca.
"Eu sei, querido. Eu sei", ela deu um sorriso triste. "Me arrependo tanto de não ter acompanhado meu menino crescer para ser tão bonito quanto o pai".
Harry tentou sorrir, sem perceber que seu corpo inteiro tremia e que seus olhos estavam marejados.
"Mas eu dei a vida para te salvar, não é mesmo? Eu morri para que você pudesse viver", Lily continuou, e para Harry não existia mais o frio, o vento, a falta da varinha ou dos óculos. Tudo o que ele registrava era a voz doce de sua mãe.
"Sim", Harry concordou. "Eu… Foi o seu amor que… que-", ele balbuciou, sem conseguir formar uma frase. Sua mente parecia se recusar a pensar em qualquer outra coisa além do fato de sua mãe estar diante de si.
"Como você está, Harry?", Lily perguntou.
Havia uma parte do cérebro de Harry que sabia que ele deveria estar preocupado com coisas mais importantes do que bater papo com a imagem da sua mãe, mas essa parte era facilmente deixada de lado pela presença arrebatadora de Lily.
"Eu estou… Ah, mãe. Você… eu queria tanto…"
"Shhhhh", Lily murmurou. "Concentre-se em mim, querido. Só em mim. Tudo vai ficar bem, Harry".
Harry quase desmoronou ao ouvir aquilo. "Sim", ele disse, com a mais convicta certeza de que nada poderia dar errado se estivesse com sua mãe. "Eu… eu sei".
Lily voltou a sorrir. "Você veio tão longe, Harry. Tão longe. Mais longe do que qualquer um imaginaria. O Garoto que Sobreviveu".
Foi a primeira fez em que Harry se sentiu feliz por ser chamado daquele jeito.
"Você é bom nisso, não é, Harry? Em sobreviver… Tem tantas coisas sobre você que eu queria saber… O que você tem feito para me deixar orgulhosa, querido?", Lily perguntou.
"Or- orgulhosa?", Harry repetiu, sem conseguir compreender. "Eu, eu… Er", ele balbuciou, mas nada mais saía de seus lábios.
"Hm, entendo", ela disse, sua voz assumindo um ar melancólico.
Harry sentiu o ar lhe faltar. "Não, mãe. Eu-".
"Olhe para você, Harry…"
"Eu…?", ele repetiu.
"Você é um fraco, não é? Você deixou Cedric morrer. Você deixou Sirius morrer. Você deixou Dumbledore morrer. Quantos inocentes mais terão que morrer em seu lugar, Harry?"
"Eu não… não foi minha culpa… Mãe, me escuta… eu-", Harry mal conseguia falar, a visão já obstruída pelas lágrimas represadas.
"E o que você tem feito para vingar as nossas mortes?"
"Eu vim-"
"Nada, Harry. Nada. Você se esconde atrás dos outros e só sabe se lamentar pelo seu destino", a voz de Lily ganhou um tom acusatório, e seus olhos brilhavam como se estivessem em chamas, fixos nos de Harry.
"Você sabe, não é, Harry? Você sabe que no fundo não está à altura dos seus pais. Você sabe que não há motivos por que eu me orgulhar de você. Então, Harry, como você tem aproveitado a vida que eu me sacrifiquei para que você pudesse ter?"
As lágrimas desciam soltas agora, e Harry não sabia como contornar a situação. "Eu- eu-"
"É uma ilusão!", ele ouviu uma voz ao longe, muito longe, enquanto sua mãe continuava a encará-lo acusatoriamente, e ele, o coração apertado no peito, tentava se justificar.
"Eu não… Desculpe, mãe, desculpe… eu estou tentando-", ele disse a esmo, mal registrando que as partes de sua pele que encostavam em Lily queimavam como se expostas a gelo seco e que se tornava cada vez mais difícil inalar o ar.
"Tentando? Olhe ao seu redor, Harry. Tem uma guerra acontecendo por sua causa. Você sabe que não pode salvá-los, não sabe? Ron, Hermione, os Weasleys, Lupin, Malfoy… todos eles vão morrer no seu lugar, como eu, como Cedric, Sirius e Dumbledore. E você vai continuar sobrevivendo, não vai?"
"Harry! Ron! Malfoy! É tudo uma ilusão. Ela se alimenta dos seus medos!", a voz, que dessa vez ele conseguiu identificar como de Hermione voltou a insistir, parecendo mais alta dessa vez. Harry tentou prestar atenção, mas sentia como se fosse sufocar, as palavras de Lily repercutindo alto dentro da sua cabeça.
"Eu não quero que eles morram", Harry soluçou, ofegante, brigando com as palavras devido à dificuldade em respirar. "Eu não queria que ninguém morresse… Eu não pude fazer nada… eu-".
"Você sabe como evitar isso, não sabe? Você sabe como acabar a guerra… Ele só quer você, Harry. Só você. Tom deixaria seus amigos viverem se você se entregasse…"
Harry deixou as palavras penetrarem seu cérebro e fechou os olhos, sentindo-se estranhamente mais leve. Ele podia sentir a presença de sua mãe dentro da sua cabeça e era como se tudo aquilo estivesse ocorrendo com outra pessoa, em outro lugar.
"Ela está fazendo isso para enganar vocês", a voz de Hermione o trouxe de volta, e ele abriu os olhos novamente, sentindo-se meio tonto, o rosto de Lily quase grudado no seu. De tão perto, ele pôde perceber que era falsa a impressão angelical que tinha dado à imagem. Ela era cinzenta e sem luz e mesmo os olhos verdes agora pareciam falsos. "Concentrem-se, quebrem o transe do feitiço. É UMA ILUSÃO!", Hermione tentava explicar em meio ao barulho.
Harry tentou prestar atenção em Hermione dessa vez e voltou a fechar os olhos, ignorando a pressão no peito e nos pulmões e a voz de Lily que ecoava na sua mente. "Isso é uma ilusão", ele repetiu para si mesmo, desesperado, parte de si não querendo que sua mãe fosse embora, mesmo que ela estivesse preste a matá-lo sufocado. Harry fechou os punhos com força e sentiu a ponta da horcrux contra a palma da sua mão, o que trouxe de volta os pensamentos de onde ele estava e por que, a necessidade de destruir a horcrux, o cadáver de Merope e o fato de que Ron, Hermione e Malfoy estavam em perigo. Ele sentiu de novo o vento, o frio e as folhas.
"VOCÊ É UMA ILUSÃO!", ele bradou para a voz que continuava a discursar em sua mente e abriu os olhos de novo, determinado dessa vez a não ceder. "Minha mãe nunca diria essas coisas para mim. Você é uma ilusão!"
Pos alguns instantes nada aconteceu, mas então a imagem de Lily se dissolveu no ar e o redemoinho de vento ao redor de Harry cessou. A cortina de folhas que o envolvia e cortava sua pele se desfez, esparramando-se pelo chão como se alguém tivesse acionado um interruptor. Harry começou a tossir, sentindo o peso de uma tonelada ser removido de cima dos seus pulmões.
"HARRY!", Hermione gritou, desesperada, vindo ao seu encontro. "Harry, nós temos que fazer os dois quebrarem o feitiço. Eles vão morrer, Harry!"
Harry guardou a horcrux no bolso com cuidado e limpou o rosto com as costas das mãos para secar as lágrimas antes de olhar ao redor. Ele localizou dois redemoinhos e estreitou os olhos até conseguir identificar as manchas ruiva e loira de Ron e Malfoy no interior deles. "Eu fico com Malfoy, você cuida do Ron", ele gritou para a amiga e começou a correr na direção onde o sonserino estava, não muito longe de si.
"Malfoy!", ele gritou em plenos pulmões ao alcançar o local. "Malfoy, é uma ilusão! Malfoy!".
O redemoinho estava forte ao redor de Malfoy e, sem óculos, Harry não conseguia distinguir as feições do sonserino. Ele tentou romper a barreira de vento e folhas para puxar Malfoy para fora, mas só conseguiu ganhar novos cortes e arranhões nos braços.
"Não foi minha culpa, mãe", ele ouviu o loiro dizer de lá de dentro, sua voz baixa e ofegante, numa clara indicação de que ele estava com dificuldades para respirar também. "Eu não queria que meu pai morresse, não foi minha culpa".
O coração de Harry se contraiu. "É uma ilusão! Não é sua mãe, Malfoy, você sabe que ela nunca falaria essas coisas para você!".
Nada aconteceu de novo, e Harry voltou a dizer, mais alto, com mais força. "É UMA ILUSÃO, MALFOY! Não se deixe enganar, não é sua mãe!"
Nenhuma resposta novamente. Harry se virou para ver se Hermione estava tendo mais sucesso e ficou aliviado ao perceber que o redemoinho ao redor de Ron tinha sumido e o amigo já estava fora de perigo. "Ele está bem, Harry!", Hermione gritou, e pela mancha de imagens à distância parecia que Ron acenava para ele com a mão. Só faltava Malfoy agora.
"Vamos lá, Malfoy!", ele pediu na direção do redemoinho diante de si. "Você pode fazer isso, Malfoy. É tudo uma ilusão!"
A cortina de folhas era impenetrável, e tudo que Harry pôde fazer foi continuar berrando a esmo, sua aflição crescendo conforme os minutos passavam e nada acontecia. Quanto tempo mais Malfoy agüentaria antes de sucumbir à ilusão, sem perceber que pouco a pouco ela o sufocava? O coração de Harry parou quando ele notou a imagem de Malfoy diminuir, e demorou alguns segundos para ele conseguir raciocinar que o outro tinha se ajoelhado no chão, provavelmente devido à falta de ar. O desespero tomou conta de Harry e ele começou a socar o redemoinho, tentando quebrar a barreira de qualquer jeito.
"Não... Não! NÃO! MALFOY! MALFOY!", ele continuou, mas o borrão que era a imagem do loiro estava cada vez mais instável, como se fosse difícil para ele se manter consciente. E Harry entrou em pânico ao pensar que Malfoy estava de fato morrendo diante de seus olhos. "É UMA ILUSÃO! Draco! DRACO! Me escuta. Você precisa se concentrar para quebrar o feitiço! OLHE BEM PARA ELA, ESSA NÃO É SUA MÃE, DRACO. SE CONCENTRE, QUEBRE O FEITIÇO!"
Harry continuou a socar o redemoinho, sem nem mais sentir os cortes finos das folhas que perfuravam sua pele, gritando em desespero na esperança de que sua voz ultrapassasse o barulho do vento. Ele sentiu um bolo se formar na sua garganta e suas pernas pesarem como chumbo quando os minutos continuaram a passar sem qualquer mudança, se recusando a acreditar que Malfoy podia estar morto. Suas mãos já estavam esfoladas e cobertas de sangue, mas Harry não desistia. A força que ele fazia contra a barreira era tamanha que, quando o redemoinho finalmente desapareceu, ele caiu para frente por meio da chuva de folhas. Mas o impacto da queda foi completamente ignorado quando Harry se viu diante de Malfoy, vivo e tossindo vigorosamente, caído de joelhos no chão.
"Malfoy?", ele chamou, uma onda de alívio se espalhando por seu peito.
Malfoy continuou a tossir, mas lhe acenou com cabeça para indicar que estava bem. Harry se aproximou e deitou uma mão no ombro dele, precisando tocá-lo para se certificar de que realmente estava ali. Malfoy demorou algum tempo para retomar o fôlego e levantar o rosto para encará-lo. Os dois se entreolharam, e Harry notou os cortes que marcavam o rosto do loiro e a maneira como o sempre impecável cabelo dele estava alvoroçado pelo vento, não conseguindo conter um sorriso.
Malfoy sorriu de volta e esticou o braço na direção da cabeça de Harry, que se sentiu corar quando os dedos magros e compridos correram pela segunda vez naquela noite por seus cabelos.
"Sério, Potter, esse seu fetiche estranho por folhas precisa parar. Não é como se seu cabelo não fosse ruim o suficiente por si só", Malfoy disse com a voz rouca e ainda fraca enquanto puxava a folha enroscada no meio dos fios negros de Harry.
Harry riu e apertou a pegada no ombro de Malfoy, finalmente podendo respirar sem nenhum peso no peito. Mas a sensação não durou muito.
"HARRY!", veio o aviso estridente de Hermione, e ele se virou para ver a agitação perto do túmulo vazio de Merope.
E por meio das folhas surgiu a imagem cinzenta de uma mulher de cabelos escorridos e opacos, o rosto comum e feioso; seus olhos, outrora vesgos e castanhos, agora pálidos e sem vida. Não havia brilho naquelas órbitas vazias e ainda assim ela parecia estar furiosa.
"Levanta, Malfoy. Vem, Anda!", ele disse, ficando de pé e puxando o loiro para cima pelo colarinho.
Harry foi empurrando um ainda cambaleante Malfoy na frente por entre o vento e correu até onde Ron e Hermione estavam.
"O que a gente faz? Estou sem varinha e sem meus óculos", ele disse assim que os alcançou, apontando com a cabeça na direção do espírito raivoso.
"Também perdi a minha", Malfoy completou.
"A minha saiu voando", Ron disse.
Hermione sorriu. "Que Moody me perdoe, mas a minha ficou bem firme no bolso de trás da calça", ela puxou a varinha e alguns "Accio" depois, Ron, Malfoy e Harry estavam novamente armados; os óculos de Harry consertados e de volta ao lugar.
"O que é aquilo?", Malfoy apontou para a imagem em meio às folhas.
"Aquilo, Malfoy, é Merope Gaunt", Harry respondeu. "E acho que ela não está feliz por a gente interromper seu sono eterno".
Como se tivesse ouvido o comentário, o espírito de Merope resolveu se manifestar.
"VOCÊS TOMARAM ALGO DE MIM", ela gritou, sua voz metálica ecoando zangada pelo cemitério e fazendo os pêlos dos braços de Harry arrepiarem. "EU QUERO DE VOLTA".
Ela ergueu os braços e as dezenas de redemoinhos de folhas secas que a rodeavam passaram a se mover na direção do grupo. Harry levantou a varinha e começou a murmurar encantamentos mirando a imagem, assim como Malfoy, Ron e Hermione, mas nada surtiu efeito: os feitiços passavam direto por Merope e também não conseguiam desfazer a nuvem cada vez mais próxima deles. Harry achou que um monte de folhas secas estava longe de ser uma arma de ataque intimidante, mas descobriu estar tremendamente enganado quando um dos turbilhões o alcançou.
Merope tinha diminuído tanto a temperatura ao seu redor que as folhas secas agora estavam cobertas por fina uma camada de gelo, tão resistente como se fosse diamante, e a força do vento que as impulsionava era tão grande que transformava cada pequena folha em uma afiada adaga. Para ajudar, a magia das trevas envolvida no processo garantia que cada corte aberto pelas folhas sangrasse abundantemente. E nem mesmo um feitiço escudo era suficiente para impedir todas as folhas; algumas ainda conseguiam rompê-lo e atingir sua pele.
"SE PROTEJAM. AS LÁPIDES", Harry gritou para os outros enquanto sentia diversos pontos do corpo serem atingidos. Ele se agachou atrás de uma grande lápide de mármore onde se lia "Em memória de Georgette, amada esposa", enquanto Malfoy usou a escultura de um cupido com arco e flecha ao seu lado como escudo. Ron e Hermione ficaram com as lápides enfileiradas à direita de Malfoy, onde estavam enterrados lado a lado um casal e seus dois filhos.
"Potter, me diz que você tem uma idéia. Qualquer idéia", Malfoy implorou. Harry se virou para encará-lo e viu o loiro se abaixar quando uma das folhas atingiu em cheio a ponta da flecha do cupido e passou zunindo por sua cabeça.
Pensar era algo quase impossível para Harry naquela situação, o barulho das folhas batendo contra o mármore ressonando como uma chuva de pedras. A lápide não iria agüentar muito mais. "Hermione? Ron?", ele gritou, torcendo para que o cérebro da amiga não o deixasse na mão. "Idéias?"
"Parece que Voldemort usou arte das trevas e convocou o espírito da mãe para proteger a horcrux", Hermione explicou por entre o vento "Ele provavelmente usou a culpa que ela sentia por tê-lo abandonado para deixá-la perturbada e lhe deu poderes com magia negra. Ela acha que está protegendo o filho, não vê que na verdade Voldemort está punindo-a".
"Obrigado por apontar o óbvio, Granger", Malfoy resmungou alto, o que lhe rendeu um "Cala a boca, doninha!" gritado por Ron.
"Como a gente reverte isso e manda ela para o além de novo?", Harry perguntou. O grupo tinha que berrar para que suas vozes ultrapassassem o barulho da ventania. "Nossos feitiços não funcionam contra ela. Nada funciona!"
"Nada funciona porque não se pode ferir o que já está morto. O mesmo vale para a magia dela. É pura arte das trevas convocada por Voldemort usando seu ódio e seu desprezo contra a mãe, muito mais poderosa do que qualquer feitiço comum".
"IDÉIAS, GRANGER, IDÉIAS!", Malfoy aparentemente se viu na obrigação de lembrar.
O que quer que Hermione ou Ron tenham respondido foi encoberto pela voz de Merope ressonando novamente pelo cemitério.
"ONDE ESTÁ? ONDE ESTÁ?", ela indagou, furiosa. "Onde está o presente do meu menino? Eu estive nas mentes de vocês. Eu conheço todos os seus medos. Vocês não vão conseguir escapar. ME DEVOLVAM O QUE É MEU!"
O ataque contra eles se tornou ainda mais intenso, e Malfoy soltou um grito quando um pé, um pedaço do arco, parte do rosto e o pênis do cupido de pedra foram levados pela nova enxurrada de folhas.
"Potter, abre espaço. Eu não vou ficar aqui para terminar como ele", Malfoy disse, apavorado. Harry mal teve tempo de entender as palavras enquanto o loiro engatinhou até onde ele estava e o empurrou para o lado.
"Malfoy, mal tem espaço para mim aqui!", Harry reclamou, o empurrando de volta.
"Os incomodados que se retirem", Malfoy devolveu, e os dois ficaram se empurrando e ao mesmo tempo usando um ao outro para manter o próprio equilíbrio atrás da lápide, até que Hermione atraiu a atenção de ambos.
"O CORPO!", ela berrou, e Harry e Malfoy se viraram para ouvi-la, Harry segurando Malfoy pelos ombros e o loiro agarrado em sua camiseta. Só então Harry percebeu que ela tinha tirado um livro grosso da mochila e estava lendo, ajudada por uma lanterna que Ron levitava acima de sua cabeça.
"Ãhn?", Harry pensou ter entendido errado.
"É por isso que Merope não se afasta do caixão. Ela sabe que nossa magia não faz nada contra ela, então seu único ponto vulnerável é o corpo. A melhor maneira de se livrar de um espírito vingativo é jogar sal grosso no seu cadáver e queimá-lo".
"Uh?", foi a vez de Ron soar confuso.
"Os trouxas estudam as propriedades dos espíritos há séculos", ela continuou, sua voz ganhando tanta empolgação que ela parecia ter se esquecido das folhas que cortavam o ar ao seu redor, metralhando uma palavra atrás da outra.
Harry e Malfoy tiveram que se inclinar para frente para conseguir acompanhar, um se apoiando no outro e ambos se contorcendo para escapar das folhas. Hermione continuou, "É claro que em muitos aspectos eles estão completamente enganados, mas desde povos antigos, como os gregos, romanos e hebreus, existe um consenso sobre a capacidade do sal de afastar maus-agouros. Os bruxos desconfiam que alguém nascido trouxa deixou essa informação escapar e ela se espalhou. Nós temos que jogar sal grosso no cadáver de Merope e queimá-lo!"
"Fácil!", ironizou Malfoy. "Eu nunca saio de casa sem sal grosso. Além do que, meu sonho sempre foi morrer mutilado por folhas secas. Muito digno".
"Tem um pacote de sal grosso como parte dos anexos desse livro", Hermione gritou de volta. "Cortesia da biblioteca de Grimmauld Place".
Malfoy pareceu esperançoso por um segundo, que passou assim que Merope se manifestou de novo.
"VOCÊS NÃO PODEM SE ESCONDER PARA SEMPRE!"
O efeito de suas palavras foi ampliado quando a escultura do cupido finalmente cedeu à força do vento e das folhas e desabou. Malfoy soltou um grito de susto e segurou com tanta força na camiseta de Harry que foi um milagre o tecido não ter rasgado.
"Não tem como fazer isso!", Malfoy vaticinou. "Nós morreríamos esquartejados antes de dar dois passos. E ela não vai se afastar do caixão".
"Ela se afastaria pela horcrux", Harry concluiu. "Ela acha que é um presente do filho!"
"O que você está pensando, Harry?", Ron gritou para ele.
"Eu e você distraímos Merope com a horcrux. Ela vai vir com tudo atrás da gente. E enquanto isso Hermione e Malfoy cuidam do cadáver".
"Potter, isso é loucura!", Malfoy arregalou os olhos para ele. "Você nem sabe se o plano de colocar fogo no cadáver vai dar certo".
"Vale a pena tentar. Eu também não quero acabar como aquele cupido, Malfoy", Harry respondeu, ele se virou para o ruivo. "PRONTO, RON?"
"Como sempre", veio a resposta.
Harry sorriu e lançou um feitiço escudo ao redor de si para minimizar os estragos causados pelas folhas.
"Potter", a voz de Malfoy saiu preocupada, e por um segundo parecia que ele iria se recusar a soltar sua camiseta. Mas ele o fez, e Harry respirou fundo e levantou.
"EI, MEROPE!", ele chamou, tentando não deixar sua voz refletir a dor dos inúmeros rasgos sendo feitos em corpo. "É isso que você quer?", ele perguntou, puxando a horcrux do bolso e fazendo-a brilhar contra a luz da lua. O espírito de Merope se agitou. "VEM PEGAR!"
Ele jogou a horcrux pelo ar para Ron, que tinha saído na frente, e se pôs a correr. O grito de ódio de Merope percorreu sua espinha e ele seguiu em frente com toda a força, ignorando a dor dos ferimentos. Ele e Ron se revezavam correndo distantes em paralelo e jogando a horcrux de um para o outro.
"Harry, SE ESCONDE!", veio o aviso de Ron, e Harry se jogou atrás de uma lápide bem a tempo de evitar um turbilhão de folhas prestes a engoli-lo. Ele olhou para trás e viu que Merope tinha começado a se afastar do cadáver e vinha pairando sobre o ar na sua direção. A lápide explodiu quando um segundo redemoinho se chocou contra ela, e Harry voltou a correr, tropeçando e se esquivando dos ataques.
"É SUA, RON!", ele gritou quando o espírito estava quase lhe alcançando e fez a horcrux voar pelo céu, escutando o grito de "Accio" do amigo para alcançá-la. Harry continuou a dar passadas largas e desencontradas, ofegante e quase sem forças, escutando o barulho dos pés batendo contra o chão e as folhas que passavam assobiando por seus ouvidos.
"De volta, harry. CUIDADO, ELA ESTÁ BEM EM CIMA!", Ron alertou, e Harry viu a horcrux cortar o céu com a imagem de Merope logo atrás. Não daria tempo para Harry puxar a varinha antes que o espírito alcançasse a jóia.
"NÃO!", ele gritou e subiu em cima de uma lápide para dar impulso antes de pular, fechando os dedos ao redor da horcrux como se ela fosse o pomo de ouro que definiria a partida mais importante da sua vida.
Harry caiu e rolou no chão segurando firme o broche contra o peito. Ele abriu os olhos e sentiu o sangue lhe fugir da face ao se deparar com Merope o encarando a poucos palmos do seu rosto. A atmosfera ao redor imediatamente esfriou, pequenos cristais de gelo se formando sobre o chão. Harry começou a se arrastar para trás.
"VOCÊ TEM ALGO QUE ME PERTENCE, GAROTINHO!", ela esbravejou e sua mão rodeou os pulsos de Harry, queimando sua pele. Harry engoliu o grito e sentiu o peito apertar, o ar em seus pulmões se tornando escasso outra vez e a consciência rapidamente esvaindo, como se ele estivesse sendo atacado por um exército de dementadores. Ele ouviu Ron gritando seu nome e tentou se concentrar na voz do amigo para continuar resistindo, seus pés raspando o chão e tomando impulso para trás.
Mas Merope não o soltava e continuava a obstruir rapidamente sua respiração. Harry sabia que estava prestes a perder a consciência e apertou a horcrux mais forte contra o peito, a falta de ar se tornando insuportável. Suas pálpebras fecharam contra sua vontade e sua cabeça pendeu para o lado.
Foi quando Merope soltou um urro e ele sentiu a presença dela se afastar. Harry abriu os olhos, puxando goladas de ar freneticamente ao mesmo tempo em que tentava ir para o mais longe possível. Não tinha percorrido nem um metro quando, gritando em fúria, o espírito de Merope pegou fogo e se desfez no vento. Os redemoinhos e as folhas voando ao redor do Harry cessaram no mesmo instante e, de um segundo para o outro, tudo voltou ao normal.
"Você está bem?", Ron o alcançou, sem fôlego de tanto correr. Harry concordou com a cabeça, ainda tentando recuperar o ritmo da respiração.
"Conseguimos, cara", foi o que ele disse assim que voltou a falar.
Ron abriu um sorriso de orelha a orelha. "Sim, nós conseguimos!", ele comemorou antes de estender a mão para ajudar Harry a ficar de pé.
Todas as partes do corpo de Harry doíam e pela maneira que Ron mancava o amigo não estava em melhor estado. Ainda assim, sentir a horcrux contra a palma da sua mão era tudo que Harry precisava para suportar a dor.
"Harry! Ron!", Hermione veio ao encontro deles e jogou os braços ao redor do pescoço de ambos para um abraço a três.
Harry conseguiu mascarar o gemido de dor diante do aperto e a abraçou de volta.
"Meu deus, olha o estado de vocês!", Hermione exclamou, como se ela também não estivesse repleta de cortes, queimaduras e hematomas, seu cabelo já normalmente armado parecendo ter o dobro do tamanho. "Aqui, me deixa dar um jeito nisso".
Ela apontou a varinha para Harry e Ron e murmurou um feitiço que fez os cortes no corpo de Harry pararem de sangrar. A sensação foi indescritível, mesmo que a dor não tivesse parado por completo.
"Cuido dos hematomas e das queimaduras depois, preciso consultar alguma coisa antes para saber o feitiço mais apropriado. Também não sei como curar esses cortes. Mas isso deve ajudar".
Harry e Ron agradeceram e, juntos, os três continuaram a caminhar na direção do túmulo da Merope, rindo de puro alívio. Harry viu Malfoy de pé diante do caixão. O loiro estava mais pálido do que o normal e tinha rosto com marcado por cortes, com algumas manchas pretas devido à fumaça, o que fez Harry sorrir sem motivos. Malfoy levantou o rosto quando ouviu a voz dos três e caminhou na direção deles, pisando duro.
"Vocês são loucos!", ele atestou, indignado. "Loucos! Como vocês podem- por Merlin, vocês estão rindo aí como se tudo isso tivesse sido uma grande aventura. Eu podia ter morrido de cinqüenta maneiras diferentes nessas últimas horas!"
A única reação de Harry ao escândalo foi rir, e Ron e Hermione se juntaram a ele, gargalhando alto, o que fez Malfoy ficar ainda mais irritado.
"Grifinórios!", ele exclamou com desprezo. "Não entendo como vocês ainda não entraram em extinção desse jeito. Isso… Isso não é vida".
Harry, Ron e Hermione ficaram rindo mais uns bons minutos enquanto Malfoy resmungava sobre a idiotice grifinória.
"Acabou, Malfoy. Nós conseguimos. Mais um passo para o fim da guerra. E dessa vez até seu pai ajudou", Harry disse quando conseguiu parar de rir, sabendo que o comentário sobre a colaboração de Lucius Malfoy ajudaria a melhorar o humor do sonserino. Foi dito e feito: Malfoy parou de reclamar na hora e se ajustou, inflando o peito de orgulho.
"Eu sempre soube que meu pai estava certo, Potter", ele disse em tom de superioridade e se aproximou para ver a horcrux que Harry exibia na palma da mão. Ron e Hermione também se juntaram ao redor de Harry, e os quatro analisaram a horcrux em silêncio por alguns segundos.
"Menos uma, Harry", Hermione disse, a voz feliz. "Menos uma".
Harry concordou com a cabeça, um sorriso no rosto, e fechou a mão, guardando a horcrux no bolso da calça.
"Vamos fechar o túmulo da Merope antes de ir, é melhor não ter os trouxas investigando por aqui", ele comentou.
"Agora que não há mais perigo dá para fazer tudo isso por magia", Hermione disse. Com um movimento de varinha, ela apagou o fogo, levitou o caixão chamuscado de volta para a cova, que foi novamente coberta de terra com outro feitiço. Os quatro já estavam se preparando para aparatar de volta para Grimmauld Place quando Hermione soltou um grito.
"As pás", ela disse. "É melhor não deixá-las jogadas por aí".
"Concordo. Eu voto para Malfoy ir devolvê-las onde encontrou", Ron disse com um sorriso maldoso e se abaixou para pegar as duas pás do chão e jogá-las na direção do sonserino. "Sabe como é, não dá para arriscar", ele completou.
"Weasley, eu achei essas pás do outro lado do cemitério. Sabe quanto tempo eu demoraria para ir até lá e voltar nessas condições?"
Harry concordou com a cabeça. "A gente espera. Nada mais justo, eu e Ron tivemos que cavar, Hermione que deu a idéia de queimar o cadáver… faça algo de útil, Malfoy", ele disse, rindo.
Malfoy resmungou algo pouco educado, mas pegou as duas pás e saiu manquitolando pela escuridão. Ron e Hermione continuaram rindo e conversando enquanto esperavam por ele, e Harry sonhava com um banho longo e um encontro duradouro com sua cama. Ele franziu a testa quando, alguns minutos depois, ouviu o barulho de alguém se aproximando por entre as lápides e então sorriu para si.
"Malfoy, não adianta querer pregar peças na gente, eu já te ouvi. Pára de ser chato e vai guardar essas pás logo".
Mas não foi Malfoy quem surgiu de detrás das lápides. Foi um homem de uniforme escuro empunhando uma lanterna e uma arma, acompanhado de vários outros homens uniformizados.
"Coloquem as mãos onde eu posso vê-las!", o primeiro homem gritou.
Harry sentiu a boca abrir. "Não é o que você está pensando, senhor policial", Hermione disse, colocando as mãos sobre a cabeça, ao mesmo tempo em que Harry pensou rápido e gritou o mais alto que pôde, "USE A CAPA, MALFOY!".
Na frente do grupo, um senhor magro de cabelos brancos e cara de poucos amigos surgiu, com o ar de quem estava conquistando seu direito de justiça divina.
"Ah, eu sabia. Sabia que tinha ouvido barulhos estranhos. Bando de pervertidos que vêm perturbar os mortos!", ele proclamou, se referindo ao trio como se eles fossem a escória da humanidade.
"Policial? Esses são os aurores dos trouxas? Que legal!", Ron disse, alegre. "Olá, prazer conhecê-los", ele completou acenando devagar e falando alto como se estivesse diante de uma raça de alienígenas.
O grupo de policiais se entreolhou, pelo visto tentando dar sentido às vestes e aos modos do trio.
"São só esses três, capitão", um outro policial apareceu ofegante. "Vasculhei o cemitério inteiro, se tinha mais alguém com eles se apavorou e fugiu".
"Bem capaz", Ron resmungou.
"Não agora, Ron", Hermione murmurou pelo canto dos lábios.
Um dos policias chegou por trás de Harry e o revistou, puxando sua varinha e a horcrux do bolso, enquanto outro homem e uma policial feminina faziam o mesmo com Ron e Hermione. Harry sentiu a garganta secar ao ver o broche na mão do homem.
"Parece que eles andaram violando túmulos", o policial que o tinha revistado comentou, olhando para a horcrux. "Achei essa jóia e um graveto no bolso desse aqui. Nada de documentos".
"Outro graveto aqui e também sem documentos", o policial que revistou Ron falou, puxando a varinha do ruivo.
"Mais um graveto aqui e uma carteira de identidade", a mulher ao lado de Hermione disse. "Além de uma mochila cheia de livros".
O tal capitão ergueu a mão para pegar as três varinhas, a carteira e o broche. "Nos sigam. E sem gracinhas", ele instruiu, e os três obedeceram, Hermione e Harry trocando olhares preocupados e Ron observando tudo como se fosse uma criança diante de um balcão de doces.
"Oh, espere até eu poder contar isso lá em casa!", o ruivo exclamou, "Papai vai morrer de inveja".
Os policiais se encararam de olhos arregalados diante do comentário, murmurando lamentações sobre uso de drogas e como a juventude estava perdida. Harry se perguntou se Malfoy tinha voltado a tempo de ver o que tinha acontecido. O trio passou pelo portão do cemitério e foi levado até uma das viaturas estacionada do lado de fora.
Os três foram acomodados no banco de trás enquanto o capitão e outro policial sentaram na frente. O policial abriu a carteira de Hermione, olhou sua identidade e começou a dizer algo em código pelo rádio envolvendo a localização dos pais de Hermione Granger.
"Seus nomes, garotos?", o policial perguntou.
Harry pensou por um segundo. "Dudley. Dudley Dursley".
"Roonil Wazlib", Ron comentou e, diante da fresta franzida do policial, esclareceu. "Meus pais são estranhos".
A explicação pareceu satisfazer o homem, que terminou a chamada pedindo a localização do sr. e da sra. Dudley e do sr. e da sra. Wazlib.
"Parece que vocês tiveram uma noite e tanto", o capitão comentou, olhando os três de cima a baixo. "Qual é a dessas roupas estranhas? E esses machucados? Que tipo de bizarrices vocês praticam?"
"Não é nada disso, senhor policial", Hermione limpou a garganta para dizer. "Nós só-"
"Vocês terão tempo de inventar desculpas na delegacia, garota", o capitão disse. "Vou chamar seus pais".
Mesmo diante da gravidade da situação, Harry por um minuto teve que conter a risada ao imaginar a reação dos Dursley ao serem acordados no meio da madrugada por um telefonema pedindo para irem buscar Dudley na delegacia. O impulso, porém, passou quando o barulho de diversas pessoas aparatando preencheu o silêncio lá fora.
"ABAIXEM-SE!", Harry gritou, mas os policiais apenas olharam para ele, descrentes, e não chegaram nem a ver o feitiço que quebrou o vidro do carro e atingiu os dois em cheio. Outro feitiço quebrou a janela gradeada que dividia os bancos da frente e o de trás e Harry se jogou sobre o corpo do policial desmaiado.
"Aqui, peguem!", ele disse, jogando a varinha de Ron e Hermione para os dois e pegando a sua própria, não sem antes guardar a horcrux no bolso.
Ele tinha acabado de se virar para abrir a porta quando uma mão o puxou pelo colarinho através do vidro da frente do carro.
"Ora, ora, o que temos aqui?", uma figura vestida de negro disse, e Harry reconheceu o enorme Comensal da Morte loiro do dia do ataque em Hogwarts. "Harry Potter, em carne e osso", ele completou, puxando a varinha da mão de Harry.
"Os outros dois estão aqui", Alecto Carrow disse, segurando Hermione, que se debatia contra ela, enquanto seu irmão Amycos tentava conter Ron.
"Quem poderia adivinhar que a sugestão de Rabicho de rastrear os nomes desses três nos meios de comunicação e entre os aurores trouxas daria resultado?", Amycos se admirou. Harry sentiu o estômago revirar de raiva ao ouvir a menção a Peter Pettigrew.
"Ótimo. Vamos levá-los. Isso vai nos ganhar muitos pontos com o Lorde das Trevas", o loiro ordenou.
E a última coisa que veio à mente de Harry antes de sentir a fisgada da aparatação forçada foi a certeza de que, não importava como, Malfoy daria um jeito de ir atrás dele.
xxxx
xxxx
Notas da autora: primeiro, os devidos créditos sobre o título deste capítulo, "Crianças não deveriam brincar com coisas mortas", que foi tirado e traduzido de um episódio da segunda temporada da série ‘Supernatural’. O episódio, por sua vez, é uma homenagem a um filme de terror do mesmo nome de 1972, dirigido por Bob Clark. O lance de queimar o cadáver com sal grosso para se livrar do espírito também foi baseado na série, e a explicação da Hermione dos motivos para tanto veio do livro "The Supernatural Book of Monsters, Spirits, Demons, and Ghouls", de Alex Irvine. E Dean e Sam, peguem eu!
Só tem uma coisa que faz a Calíope arrancar os cabelos tanto quanto escrever dramas e angsts: cenas de ação. Foi legal jogar o Draco no meio dos grifos e fazer o coitado ter que se virar, mas garanto que eu sofri mais do que ele para escrever tudo isso. E eu sei que a Merope ficou meio nada a ver em relação ao que a gente sabe dela nos livros, já que a mulher é mostrada como alguém covarde e quase um aborto, mas eu quis escrever uma psycho!Merope, imaginando que o Tom Riddle tenha enlouquecido o espírito da mãe até deixá-la nesse estado e injetado magia negra na coitada, o que explica a capacidade dela de mexer com a cabeça do pessoal criando ilusões e o lance das folhas assassinas. Não, eu não sei como minha mente produz essas coisas. Por fim, eu gostaria de pedir um minuto de silêncio pela Georgette e pelo cupido castrado, por favor. XD
Só um aviso: maio vai ser um mês corrido para mim em termos de fics. Assim, Amor Fati só deve voltar em junho, mas não estranhem as novas histórias que surgirem até lá. Não quer dizer que eu deixei AF de lado — podem pôr a culpa nas geminianas que me cercam. E meu muito obrigada a todo mundo que comentou minhas ficzinhas do "Projeto Sectumsempra de Amor Não Dói", esse primor de projeto.
Por fim, agradecimentos à Dana Norram, a superbeta, e a N. Shibboleth pelas dicas que me deram neste capítulo.
E vocês me amam por esse final que eu sei.
Beijos e até a próxima,
Calíope