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O Perfume
Chiisana Hana
- Ah, hoje está um ótimo dia para uma caminhada, não é, Shiryu? - diz Shunrei, enquanto caminha conduzindo Shiryu pelas margens do rio. Está tão feliz! Ainda que Shiryu esteja um pouco deprimido por causa da cegueira, aquela é a primeira vez em que ela pode passar todo o tempo com ele e isso a deixa bastante satisfeita.
- Você está cansado?
- Ehr... não... e você?
- Ah, não. Mas eu estou com bastante calor.
- Ah, não se preocupe comigo. Por que não vai dar um mergulho? Eu vou descansar aqui um pouco enquanto se refresca.
- Tá bom! Mas não olha pra cá, hein, Shiryu? - diz a menina alegremente, sem perceber que o magoava.
- Não precisa se preocupar comigo, infelizmente.
- Ah, me desculpe.
- Não se preocupe. Vá se refrescar.
- Tá bom!
A expressão tranqüila e feliz de Shiryu ganha contornos de mágoa. Ele sabe que ela não falou aquilo por maldade, é pura demais para fazer qualquer coisa má. No entanto, aquilo o magoa. De qualquer forma, ele não pode reclamar. Está sendo tratado com tanto carinho e dedicação que uma coisa boba como essa não é capaz de estragar tudo.
A menina se despe e mergulha na água límpida do rio. Feliz, ela sorri e faz brincadeiras.
- Shiryuuuuuu! - grita a menina, sempre sorrindo.
Shiryu percebe o quanto ela está contente e também sorri.
- Estou muito grato por estar aqui comigo, Shunrei. Você me transmite muita paz. - pensa o rapaz.
A correnteza fica mais forte e Shunrei já não consegue mais nadar contra ela. Shiryu não consegue ouvir a voz da menina. Levanta-se aflito e sai à sua procura.
- Shunrei! Onde você está?
- Shiryu!
- Não sei onde ela está por causa do barulho da cachoeira!
- Shiryu! Shiryu!
- Shunrei!
A correnteza torna-se ainda mais forte e joga a menina de um lado por outro. Desesperado, Shiryu continua a procurá-la infrutiferamente.
Ali perto, um rapaz moreno caminha tranqüilamente.
- Chegou a hora, Shiryu - diz ele. Seu olhar parece ferver de ódio. - É hora de ver quem realmente merece a armadura do Dragão. Vamos ver se você ficou forte o bastante para me vencer ou se ainda continua um bobão que só faz o que o mestre manda.
O rapaz ouve gritos de mulher ao longe. Os gritos não cessam.
- Diabos. Parece que alguém está se afogando. Ah, dane-se. Não vou salvar ninguém.
Os gritos continuam por um tempo. Param em seguida.
- Mas que droga! Não vou conseguir seguir se não salvar essa infeliz!
Ele observa a correnteza com cuidado e vê o braço da menina erguendo-se já exausto de lutar contra a força da água. Desce a montanha correndo e mergulha na água. Nada em direção a ela. É um homem tão forte que atravessa a correnteza sem grandes dificuldades. Agarra a menina com firmeza e a carrega para fora da água. Depois, olha o rosto dela com curiosidade.
- Eu não esqueceria esse rosto jamais. Shunrei... Parece que não está respirando. Tenho que fazer respiração boca a boca. Mas como é que eu vou fazer isso numa menina nua?? Droga! Não posso perder tempo. Ela vai morrer se eu não fizer nada.
Assim, ele encosta os lábios nos dela e sopra com força. Com ambas as mãos, pressiona o peito dela. Repete várias vezes até ela começar a tossir e cuspir toda a água que engoliu. Ela abre os olhos ligeiramente, olha seu salvador com curiosidade e desmaia em seguida. Com a menina no colo, Ohko olha-a longamente.
- Como você cresceu. Que traços delicados, que rosto lindo. A pele tão alva... e os seios... acho que nunca vi seios tão bonitos... Se você fosse qualquer outra menina, eu morderia esta carne, eu usaria este corpo para o meu prazer. Mas não posso fazer nada disso. Você é pura demais. E eu não estou falando só do corpo. É a sua alma. Você tem a alma pura. É uma flor muito rara. Não deve ser maculada. Não devia ser maculada nunca. Ah, pequena flor, se eu pudesse ter seu amor, talvez me tornasse um bom rapaz. Mas eu sei que seu coraçãozinho já tem dono. O que você viu naquele Shiryu babaca? Hein? Desde que ele chegou aqui você o olha com olhos de amor. E eu posso apostar que ele nunca percebeu. É um idiota. Não merece seu amor. Pensando bem, acho que ele seria um bom marido para você. Talvez ele um dia o seja, pequena flor. Agora já chega de apreciar sua beleza. Vou, infelizmente, devolvê-la para ele. Antes vou vesti-la com meu casaco. Se ele ainda não apreciou sua beleza, e eu aposto que ele ainda não o fez, não vai ser agora que ele vai apreciar.
E, tomando-a em seus braços, Ohko levanta-se e segue na direção do som da voz de Shiryu, que ainda chama por Shunrei.
Shiryu ouve passos firmes se aproximando. Não são os passos dela. São passos de homem. E esse homem está com Shunrei! “Alguém conseguiu salvá-la!”, ele pensa.
- Não precisa se preocupar com Shunrei. - diz o homem. - Ela está apenas inconsciente. - ele continuou, enquanto deitava a menina sobre uma pedra.
- Ohko?
- Sim. Eu sou o mesmo Ohko que treinou com você sob a orientação do Mestre Ancião aqui nos Cinco Picos Antigos.
- Quando você voltou? - Shiryu pergunta ansiosamente. - Desculpe, devo agradecê-lo primeiro.
- Não precisa agradecer. - diz o rapaz antes de saltar e começar a exibir seus golpes. - Eu só não queria nenhum problema antes de acertarmos nossas contas. Você não esqueceu da sua promessa, não é? Temos um velho assunto pra resolver e acho que... chegou a hora. Lembra de quando éramos pequenos, Shiryu? Nós competíamos pela armadura de dragão sob a orientação do Mestre Ancião. É claro, você sabe muito bem que ao contrário de você eu nunca fui um bom discípulo.
Ohko relembra seu treinamento, a indisciplina e a pouca disposição para o que ele chamava de “papo zen”, bem como relembra que Shiryu sempre foi exatamente seu oposto. Também retornam à sua mente o dia em que o Mestre o recusou como discípulo e a promessa de acertar as contas com Shiryu.
- Depois de deixar os Cinco Picos Antigos eu odiei o Mestre Ancião por ter me expulsado e comecei um treinamento bastante difícil com a finalidade de tirar a armadura do dragão de você. Mas depois de ter andado por toda parte com a finalidade de aperfeiçoar minhas técnicas, ficar com a armadura sagrada deixou de ter importância para mim. Eu só não podia aceitar a idéia de que havia alguém mais forte do que eu. É por isso, Shiryu, que vou acabar com você.
- Sua cosmo-energia está cheia de ódio... – pensa Shiryu, enquanto é tomado por um sentimento que jamais tivera. Estava com medo...
- Se não tomar a iniciativa, então eu tomarei por você. O GRANDE FURACÃO DO TIGRE!!
- Eu nunca tinha sentido medo antes. – pensou Shiryu ao ser atingido violentamente e jogado contra as pedras pelo golpe de seu rival.
Shunrei acorda e vê Shiryu ser jogado contra as pedras.
-Shiryu!? Não! Pare, Shiryu! Você não está enxergando! – grita a menina, desesperada.
- Não diga nada, Shunrei!
- O quê? – pergunta Ohko.
- Shiryu! – diz Shunrei, correndo para perto de Shiryu quando ele cai das pedras e bate com força contra o chão.
- Shiryu, é verdade que você não pode ver?
- Ainda não acertamos as contas! Não sinta pena de mim! - grita o aflito cavaleiro cego.
-Não é isso... é que você não é o Shiryu que eu conheci um dia.
- O que disse?
- Sua cosmo-energia perdeu o brilho. Não há mais sentido em continuar nossa luta. O resultado já está bastante claro.
- Espere, Ohko! Não tem por que sentir pena de mim!
- Não, Shiryu! Por favor! – grita Shunrei, abraçando-o e temendo que ele vá atrás de Ohko.
- Ohko!! - grita, Shiryu.
Shunrei e Shiryu permanecem abraçados um tempo e vão para casa em seguida. Ele deixa-se guiar pela mão dela, mas ambos estão em silêncio. Em casa, ele se recusa a entrar e fica sentado na soleira da porta, enquanto ela vai se vestir e buscar gaze para fazer um curativo no ferimento que Ohko causara a Shiryu. Faz o curativo em silêncio e depois senta-se ao lado dele.
- Você está com raiva de mim? - pergunta a menina , em tom doloroso.
- Não. Por que estaria? - ele responde seco.
- Você não queria que eu contasse a Ohko que você...
- Que estou cego. - interrompe, agora com tristeza. - É, eu não queria. Mas não estou com raiva de você... sei que você não fez por mal.
- É... não fiz... eu não queria que ele machucasse você...
- Estou bem.
- Mas acabou se machucando de qualquer forma.
- Desculpe, eu estou só pensando em mim quando você quase morreu afogada. Se ele não tivesse aparecido, certamente você não estaria aqui. Como se sente?
- Sinto-me um pouco cansada, meu braços e pernas doem, mas felizmente foi só um susto.
- Você se lembra como foi que ele te salvou?
- Não. A única coisa que eu me lembro é de ter aberto os olhos rapidamente e ter visto ele olhando nos meus olhos. Depois disso, só acordei quando vocês dois já estavam brigando.
- É... parece que o Ohko apareceu no lugar certo, na hora certa.
- Posso te pedir uma coisa?
- Claro.
- Me abraça. - ele a abraça meio sem jeito. - Por um momento, achei que não ia mais te ver. Pensei em você sozinho, desse jeito. Sei que você é forte, que ia aprender a se virar, mas não queria deixar você sozinho.
- Eu também não queria ficar sem você. Também senti medo de perdê-la. - o rapaz diz. Não pode ver, mas sente que Shunrei enrubescera ao ouvir essas palavras.
Nesta noite nenhum dos dois consegue dormir. Shunrei pensa no que Shiryu havia dito mais cedo. “Eu também não quero ficar sem você...”. Seriam essas palavras um sinal de que ele também a ama? Mas se ele a ama por que insiste em lutar já que essas batalhas também a machucam tanto? Ela não consegue compreender.
Shiryu, por sua vez, pensa no quase afogamento de Shunrei. Ele não conseguira salvá-la e se seu rival não tivesse aparecido, ela teria morrido. Como pode estar tão inútil? Não se sente digno de ser mais nada. Nem cavaleiro, nem homem para Shunrei. Quer sumir... quer deixar o caminho livre para ela. Tem certeza de que ela encontrará um bom rapaz, e que esse rapaz a amará. Não quer ser um peso na vida dela. Sabe que ela o ama, mas como prendê-la ao amor por um homem cego? Ele se sente extremamente mal e decide que tem de fazer alguma coisa para mudar essa situação.
--P--E--R--F--U--M--E--
Dia seguinte.
Shiryu insiste em sair de casa para, de alguma forma, tentar se adaptar a sua nova condição de cavaleiro cego, mesmo sob os protestos de Shunrei.
- Você ainda não pode treinar. Seus ferimentos só estão começando a cicatrizar. - ela diz, preocupada.
- Eu já disse pra você não se preocupar comigo – responde o rapaz, sem tentar esconder sua mágoa. - Não importa o que você faça por mim, eu nunca vou poder retribuir, Shunrei. Eu não consegui sequer salvar sua vida...
- Você não tem que se preocupar com isso!
- Não é só isso. (1)
- Shiryu, esqueça disso. Vamos aproveitar uma vida tranqüila. Eu tenho certeza de que Seiya e os outros vão entender. Mesmo se sua vista não sarar eu vou ficar do seu lado pelo resto da minha vida. Eu serei os seus olhos!
Shiryu pressiona o punho contra a parede com força.
- Eu já disse. Não se preocupe comigo. – disse o rapaz amtes de sair tateando pelo caminho em direção à cachoeira. Ele retira a camisa e entra na água com cuidado. Coloca-se debaixo da queda d’água e sente a violência da força da natureza sobre seu corpo. O machucado na testa começa a sangrar.
Shunrei segue Shiryu e o vê na cachoeira. Não consegue conter as lágrimas. Está tão deprimido que ela teme que ele faça alguma besteira. Volta para casa decidida a procurar Ohko, para lhe devolver o casaco e pedir que não brigue com Shiryu, mesmo que ele insista. Ohko aparece de repente.
- Shunrei.
- Ohko! Ah, estava procurando por você. Muito obrigada por me salvar. Não consegui agradecer ontem.
- Não precisa agradecer. Eu não conseguiria deixar você morrer.
- Você vai deixar para lá essa coisa de se vingar do Shiryu, não é? Por favor!
- Hum... Talvez. Não tem mais sentido. Ele está inválido. Já está derrotado. Mas se ele vier me procurar, não vou recuar.
- Ele está sofrendo muito.
- Porque é um idiota. Ele tem você. Não devia estar sofrendo. Ter seu amor é a maior sorte do mundo. Ele devia estar feliz.
- Como você sabe que eu...?
- Que você ama o Shiryu? Isso está na cara desde a infância! A questão é: ele ama você?
- Eu não sei... - respondeu a menina, com pesar.
- Se ele não amar você é porque não merece.
- Eu não me importo. Mesmo que ele não me ame, eu cuidarei dele. Cuidarei dele de qualquer jeito até o dia em que um de nós morrer. – diz a menina, sem conseguir conter uma lágrima.
- Ou até o dia em que ele se apaixone por outra... – Ohko retruca sarcástico.
- É... ou até esse dia... - responde a menina, enquanto uma dor profunda lacera seu peito.
- Você é especial, Shunrei. Muito especial.
- Eu quero devolver seu casaco. Obrigada... - ela diz, encerrando o assunto.
- Por nada. - responde Ohko, pegando o casaco. Imagina se o cheiro dela teria ficado no tecido. Cheira-o. Pensa: “É o cheiro dela... É sim... Nunca mais lavo esse casaco...”
- Ohko, não conta pra ninguém que você me viu nua? - pergunta a menina antes de ir embora, sem entender direito a expressão de felicidade que tomou o rosto do rapaz.
- Relaxa. É um segredo nosso.
- Obrigada mais uma vez.
- Já disse que não tem por que agradecer.
- Que Deus te proteja. - ela diz e retoma o caminha de volta para casa.
- Se Ele não sabe que eu existo, como vai me proteger? - ele sai andando com o casaco entre as mãos, aspirando o cheiro do corpo da menina ainda impregnado no pano.
FIM
--P--E--R--F--U--M--E--
Os trechos em itálico foram extraídos dos diálogos do anime, segunda dublagem.
(1) Shiryu fala mais alguma coisa nessa parte, mas eu não lembro e estou com preguiça de ver o episódio.