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Nota: Naruto (c) Kishimoto.
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- Ponto Morto -
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Seus olhos estavam abertos, mas seu corpo não se movia. Estava acordada, mas ainda sonhava. Aquele seria mais um dia, apenas mais um dia e ela não desejava levantar.
Ouvia o som dos passos das empregadas pelos corredores da casa, o suave compasso de suas sandálias contra o assoalho e o silencioso farfalhar de tecido, mas, ainda assim, não conseguia reunir forças para se levantar por conta própria. Ela sabia que, quando as empregadas passassem por sua porta, elas não entrariam, sequer parariam. Elas, comodamente, esqueceram-se daquela outra menina, a outra filha, a outra herdeira.
Hinata, agora, era só isso. Era só a outra.
Devagar e em silêncio, ela afastou os lençóis e preparou-se para mais um dia de trabalho. Talvez aquele dia fosse diferente dos outros, desejava, mesmo sabendo que era uma esperança vã. Havia uma mínima chance de ocorrer qualquer mudança, quase inexistente, mas ela se prendia a ela com todas as suas forças.
Não se preocupou em ser discreta ao sair de casa, também não se preocupou em se despedir ou em avisar a que horas voltaria. Todos, família e empregados, sabiam que ela não saberia viver sem eles, que voltaria, cedo ou tarde.
Ainda era muito cedo, não havia ninguém nas ruas além de uns poucos civis que se preparavam para abrir seus comércios. Alguém um dia lhe dissera que, além de todas as pessoas que transitam normalmente nas ruas, havia também membros da Anbu que eram responsáveis pela segurança interna do vilarejo. Ela, particularmente, nunca vira nenhum. Duvidava que um dia chegasse a tanto.
O escritório estava exatamente do modo como ela o havia deixado na noite anterior, as mesmas pilhas de papel, as mesmas pastas cor de creme, as mesmas canetas, azuis e vermelhas, organizadas perfeitamente sobre a mesa. Ainda faltava algum tempo para o início do expediente, mas talvez fosse melhor começar logo.
Era melhor mergulhar em trabalho do que pensar no que faria quando o terminasse. Porque, quando terminasse, Hinata sabia que não haveria absolutamente nada para ela fazer. E a falta de atividade a levaria de volta para casa, para dentro de seu quarto fechado e imperturbado, onde ela dormiria sem ter sono e sonharia e acordaria no dia seguinte, desejando não tê-lo feito.
Sim, era melhor começar logo, havia um longo dia pela frente.
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“Bom dia, Hinata-sama.”
Ela sorriu, não para tentar ser agradável, não por causa de sua refinada educação, mas porque só havia uma pessoa que ainda a chamava daquele modo. E para ele valia a pena sorrir.
“Bom dia, Neji-nii-san.”
Sua resposta foi também um sorriso, e ela sabia que era pelo mesmo motivo.
Ver seu primo era tão raro quanto agradável. Como trabalhava no setor administrativo, fazendo o trabalho burocrático de escritório que parecia ser detestado por todos, tinha pouco tempo livre para passar com ele. Então, toda vez que Neji ia até lá para lhe entregar novos relatórios ou processos judiciais a serem arquivados ou concluídos, ela ficava feliz. Saber que havia vida de verdade fora daquelas paredes era sempre bom.
Algumas vezes, quando Neji não vinha visitá-la por muito tempo, Hinata ficava impaciente, ansiosa, irritadiça até. Queria vê-lo. Precisava. Ele era sua única ligação com o mundo que ela deixara. Se ele, como todos os outros, também a abandonasse, não haveria mais nada verdadeiramente seu naquele lugar.
Ela sabia, porém, que não poderia culpá-lo. Apesar dele não falar, ela sabia que trabalhava em algum cargo importante, possivelmente a Anbu ou algo diretamente relacionado à Hokage. Era natural que sua presença fosse requisitada o tempo todo e ela sabia que ele gostava daquilo, de ser reconhecido por seu talento e habilidade. Pensando assim, ela até chegava à conclusão de que era até muito estranho que ele ainda se dispusesse a visitá-la periodicamente.
Por isso ela reprimiria sua angústia, sorriria quando ele a chamasse daquele modo e ficaria feliz por ele. Era o mínimo que podia fazer para retribuir a gentileza.
“Como tem passado?” ele perguntou com educada curiosidade, e Hinata desejou, como sempre desejava, que aquela pergunta realmente significasse alguma coisa.
“Muito bem, e você?”
Como não poderia deixar de ser, enquanto Hinata folheava os novos documentos a serem arquivados, eles engajaram uma conversa despreocupada, em que os assuntos principais eram, basicamente, os pormenores da vida cotidiana. Até que Neji lhe disse algo, naquele seu tom tranqüilo, quase desinteressado, e a fez derrubar o carimbo que tinha em mãos. O que, por si só, já era um fato inédito.
“Eu soube que o conflito com o País da Onda terminou bem. Parece que Naruto conseguiu controlar a situação.”
Hinata teve que se controlar para não se engasgar com a própria saliva. Tentou esconder o melhor que pôde sua surpresa e o sangue que afluía para suas bochechas. Com o carimbo novamente em mãos ela iniciou uma investida rápida contra as folhas, pela primeira vez desejando que seu primo fosse embora o mais rápido possível.
Só era preciso ouvir o nome dele para que seus joelhos se tornassem geléia e seu coração começasse a bater mais rápido.
“Mesmo? Eu ouvi que a situação lá parecia bastante complicada, com o governo e a oposição estavam quase declarando guerra civil.” Ela comentou, tentando não parecer tão desinformada quanto realmente era. Havia dias desde a última vez em que pusera suas mãos em um jornal.
“E estava. Até Naruto chegar.” o carimbo hesitou milímetros antes de marcar a folha, absorvendo cada palavra. “Em menos de duas semanas já tinha convencido o governador a ceder.”
“Isso é... ótimo.” Foi tudo o que ela conseguiu murmurar, abaixando o carimbo sobre a folha e logo passando para a próxima. Em seu melhor tom desinteressado ela ousou uma pergunta: “Já sabem quando eles voltam?”
Eles, o grupo de pacificadores que fora enviado por Konoha para o País da Onda para tentar resolver o problema antes que a situação piorasse. O grupo do qual Naruto fazia parte e era líder. Era muito mais fácil usar o plural, muito mais fácil fingir não estar interessada quando morria de curiosidade.
“Se tudo ocorrer como o esperado, há uma previsão de que voltem em dois dias. Há um rumor de que a Hokage vai oferecer uma recepção para eles.”
Se Neji tivesse desviado os olhos da papelada – agora carimbada – que Hinata o estendia e tivesse olhando para os olhos de sua prima, veria que, depois de seis anos, seus olhos brilhavam novamente.
Dois dias. Em dois dias ela veria Naruto de novo. Apenas pensar naquilo já deixava sua respiração mais rápida e suas mãos mais trêmulas.
“Uma recepção é? Isso não seria um pouco, eu não sei, demais? Afinal, era apenas o trabalho deles.” Minimizar o evento era uma técnica que ela usava bastante. Fingir não estar interessada afastava aqueles que, presunçosamente, tentavam enfiar seus narizes intrometidos onde não eram convidados. E infelizmente, hoje, se Neji não estivesse tão absorto em qualquer outro assunto que habitava sua mente, ele se enquadraria naquela definição. E Hinata não era uma pessoa que gostava de dar chance ao azar.
Mesmo que sua mente estivesse muito longe daquela sala, Neji não deixou de lhe lançar um olhar diferente, quase cético, como se o que ela tivesse falado fosse algo completamente inadequado e vulgar, principalmente quando era sua voz sussurrada e fina que o fizesse.
“Tenho colegas que dizem exatamente o mesmo. Mas, particularmente, acho que eles merecem um pouco de reconhecimento.”
Talvez fossem as palavras, apesar de que, quando tentasse remontar a cena, Hinata insistisse veementemente que fora o tom, mas quando Neji pronunciou aquelas duas frases, ela sentiu como se tivesse recebido uma bofetada no rosto. Ele não precisava dizer com todas as letras, apenas aquilo já implicava explicitamente a sua mensagem.
Você não se importa, era o que ele queria dizer. Porque, enquanto eles estão lá arriscando suas vidas, você está aqui, carimbando documentos.
Um silêncio morno permitiu que as palavras, as implicações, dele morressem. Ela terminou seu trabalho, fez algumas rápidas anotações e logo devolveu suas folhas. Como sempre, ele lhe ofereceu uma despedida e um sorriso, dessa vez não porque queria dá-lo a ela, mas por simples educação. Prometeu que viria vê-la outra vez, qualquer dia desses, e foi embora.
Hinata não havia se dado ao trabalho de retribuir o gesto. Sua mão se ergueu para uma porta fechada, despedindo-se silenciosamente de alguém que já fora.
Naquele momento, e também nos que o seguiria, ela tentaria reviver aquela cena, desde seu início até seu fatídico final, e tentaria, insistentemente, já que não havia outra coisa com o que ocupar sua cabeça, descobrir o que dissera de errado. O que fizera para afastar a única pessoa que ainda era piedosa o suficiente para visitá-la, para olhá-la nos olhos e oferecer-lhe uma palavra.
Ela se lembraria e se lembraria, até que as palavras que Neji não dissera tomassem voz e tom, soando como acusações com fundamento. Afirmações retóricas.
E, naquele dia, ela iria dormir como em todos os outros dias, e em seus sonhos, as cenas se repetiriam de novo e de novo, como em um filme em preto e branco, e as palavras que Neji nunca dissera ecoariam em seus pensamentos, naquele tom tranqüilo, quase desinteressado, acusando, afirmando, e ela acordaria no dia seguinte, desejando, mais do que em todas as outras manhãs, que não o tivesse feito.
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Continua.
Felizmente, para mim, essa fic será muito mais rápida que Child, o que significa atualizações mais freqüentes (espero).
Comentários extras de produção e preview do próximo capítulo estarão no meu lj em breve (link em homepage, no meu profile).
Reviews são a felicidade dessa pobre coitada sem vida (eu), então mandem.
Obrigada e até o próximo capítulo.