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Disclaimer: Magic Knight Rayearth é propriedade do grupo CLAMP. Faço este fic sem fins lucrativos, apenas por diversão.
Curtain of Feelings
Capítulo Três: Compras
Eles estavam sentados à mesa de jantar, Eagle apenas ouvia brevemente a conversa entre o seu pai e sua irmã. Desde que o pai dera a notícia repentina de que iriam a uma festa naquele mesmo fim de semana, Emeraude estava lhe perguntando os vários detalhes. Fazia tempo que eles não iam a uma festa social. Aliás… Eagle lembrava-se de pouquíssimas festas desde a morte de sua mãe… e em nenhuma delas o pai parecia tão animado quanto estava agora. Provavelmente devia ser algum sócio importante ou algum cliente importante que estava dando a festa, portanto, ele sairia lucrando com aquilo.
– Claro… sempre negócios… – comentou de uma maneira inconsciente, apenas deu-se conta de que tinha falado alto o suficiente quando os olhares pousaram sobre si e ouviu a voz do pai.
– Disse alguma coisa, Eagle? – Rhaels perguntou, fazendo o jovem encará-lo e olhar para a irmã brevemente.
– Ah… não, nada. – ele respondeu prontamente, sorrindo em seguida. – Eu estava apenas pensando alto. Nada demais. Então, sobre o que estavam falando?
– Papai estava comentando que um dos clientes importantes dele está dando essa festa. – Emeraude respondeu prontamente. – Então, quer que estejamos bem apresentados.
– Sim, conseguimos ganhar um processo em benefício à empresa de telecomunicações dele. – Rhaels explicou. – A filha dele também está fazendo aniversário, então, ele quer fazer uma comemoração apenas.
– Bem pensado. – Eagle sorriu, quando viram as empregadas trazendo as travessas com o jantar. Como pensara… nada além de negócios. Levou um copo de água à boca, atento às palavras dos outros dois.
– E… festas sociais são uma boa oportunidade para Emeraude encontrar um pretendente. – Rhaels completou, ao que Eagle praticamente cuspiu fora a água que tinha bebido. Conseguiu engolir antes de fazer alguma besteira.
O jovem ergueu os olhos imediatamente para a irmã. De onde é que o pai tinha tirado aquela idéia ridícula?! Mas Emeraude não pareceu tão surpresa quanto ele, a jovem continuava com o mesmo sorriso no rosto, embora tivesse parado o caminho da taça de suco até sua boca.
– Um pretendente, papai? – ela perguntou, recolocando a taça sobre a mesa sem tomar gole algum.
– Claro. – Rhaels enfatizou a afirmação. – Está no último ano de sua faculdade, já tem um futuro garantido, e já tem idade o suficiente para isso.
– Pai… isso não é um tanto quanto… antiquado? – Eagle intrometeu-se. – Emeraude tem idade o suficiente para escolher por si mesma com quem quer casar.
– Eu não disse que ela não escolheria, apenas estou vendo uma boa oportunidade para isto. – Rhaels continuou, sorrindo.
– Claro… está restringindo as opções. – Eagle comentou num sussurro quase inaudível.
Mas antes que Rhaels pudesse questionar o filho sobre o que ele falara, Emeraude se intrometeu.
– Tem razão, papai. – Emeraude concordou, atraindo mais uma vez a atenção de seu irmão. – Será uma ótima oportunidade.
– Eu sabia que pensaria assim, minha princesa. – Rhaels sorriu novamente para a jovem que lhe retribuiu prontamente.
Eagle voltou a prestar atenção em sua própria refeição, enquanto os outros dois voltavam a conversar ocasionalmente. Queria saber por que Emeraude aceitara aquilo de tão boa vontade. O que estava se perguntando, afinal? Eles eram praticamente irmãos gêmeos… tinham sempre as mesmas atitudes, desde que o pai estivesse satisfeito.
Mas não era para Emeraude precisar seguir aquelas mesmas regras. Ele era o primogênito, ele era o filho homem, ele deveria fazer todas as vontades do pai e ela deveria continuar a ser a princesinha que recebia tudo o que queria… ele devia pelo menos livrá-la do controle do pai… e bom, aquela idéia de pretendente para sua irmã não estava nos planos.
Durante todo o resto do jantar ele praticamente permaneceu calado. Trocava umas poucas palavras tanto com Emeraude quanto com Rhaels, ao menos prestava muita atenção ao que eles diziam.
Finalmente se viu livre quando terminou o jantar e os empregados vieram tirar os pratos da mesa para que eles pudessem sair de lá. Emeraude foi a primeira a voltar a falar.
– Eu acho que vou para o quarto agora, sim? – ela disse, educadamente, dirigindo-se mais ao próprio pai do que ao irmão.
– Claro. – Rhaels concordou imediatamente. – Durma bem, minha princesa.
Ela levantou-se da cadeira e beijou a face do pai, recebendo um beijo na testa logo em seguida. Depois, virou-se para o irmão, do outro lado da mesa.
– Boa noite, irmãozinho. – sorriu para ele.
– Boa noite. – Eagle sorriu de volta, mas ainda estava tentando encontrar uma falha naquele sorriso dela, que indicasse que não estava feliz pela notícia que acabara de receber. Infelizmente, ela saiu da sala antes que ele pudesse prestar mais atenção.
– Eu vou deitar também. – Eagle disse, já se levantando. – Estou cansado.
– Tudo bem. – Rhaels concordou, acenando levemente com a cabeça.
– Não demore muito para ir dormir também, meu pai. – Eagle disse, já seguindo para fora da sala. – Pode ser o dono daquela empresa, mas precisa descansar.
– Não demorarei. – Rhaels respondeu, sorrindo fracamente.
Eagle subiu as escadas daquela enorme casa silenciosa… começava a pensar que ela era grande demais pra ele, conseguia sufocá-lo com todo aquele espaço e aquele silêncio. Mas ficar independente era destruir os propósitos de seu pai, era abandonar Emeraude… e estava tudo bem do jeito como estava… não estava?
Sem que percebesse, já estava parado ao lado da porta do quarto, apenas não era o seu quarto. A porta estava aberta e a pessoa que estava lá dentro estava sentada na cama, com um pequeno livro de bolso em mãos e as luzes do quarto acesas.
– Você pode entrar, irmão. – ela desviou os olhos do livro, para fitar o jovem que estava parado, encostado à batente da porta, ainda tentando se convencer de que tinha mesmo parado ali.
– Você não tem cara de quem vai dormir tão cedo. – Eagle disse, colocando as mãos nos bolsos e adentrando os aposentos. – Esteve dormindo por um bom tempo antes de chegarmos.
– Pois é… vou ficar aqui por um tempo, pensando. – Emeraude deu de ombros, fechando o livro e deixando-o de lado na cama.
– Suponho que pensando na proposta que você nem sabia que existia. – Eagle acrescentou, sentando-se numa poltrona ao lado da cama.
– Nem tanto. – Emeraude riu do comentário dele. – Eu sabia que você não ia ser a pessoa mais feliz ao ouvir aquilo.
– Eu vou perder as esperanças de que ele vai mudar um dia. – ele suspirou.
– Deixe-o, irmão. – Emeraude aconselhou. – Deixe que faça do jeito que achar melhor. Sempre esteve bom desse jeito, não foi? Você que sempre diz isso…
– Comigo. – ele completou. – Contanto que seja comigo. Ele não tinha nada que inventar isso de pretendente. Parece que não está satisfeito o suficiente com o que já me controla.
– Irmão… você me diverte. – Emeraude riu, fazendo com que ele a olhasse de maneira confusa. – Deixe que ele faça o que quiser, vai acabar não influenciando nas minhas decisões de um modo ou de outro. Ele só comentou que seria um bom lugar para se achar um pretendente, não? Nunca disse que tinha um em mente.
– Pelo menos por enquanto. – Eagle avisou.
– Eu só preciso arrumar um antes que ele procure por si mesmo. – riu novamente.
– É… precisa mesmo. – Eagle acompanhou a risada da irmã.
– Quer dizer… não pode ser tão difícil assim. – Emeraude começou a falar como se fosse uma coisa realmente irrelevante. – Eu já consegui várias vezes antes… embora nenhuma delas tenha realmente durado.
– Você fala de uma maneira como se fosse tirar doce de criança. – Eagle sorriu, ainda encarando o rosto pensativo da irmã.
– Para o papai, é como tirar doce de criança. – Emeraude disse. – Então, temos que fingir que é do mesmo jeito… só fingir, irmão.
– Não é tão fácil quanto você diz. – Eagle advertiu. – Então, espero que consiga encontrar alguém antes que o papai encontre… ou não vai ser nada bom. E a brincadeira de criança vai deixar de ser brincadeira…
– Não se preocupe, irmão, eu vou dar um jeito. – Emeraude confirmou ainda mais convicta… afinal, o que ele estava falando sobre não ser fácil fingir? Devia estar falando com a pessoa errada, certamente.
– Bom… tudo bem então. – Eagle concordou, levantando-se da poltrona e se aproximando da irmã, ainda sentada na cama. – Eu preciso dormir. Boa noite, minha irmã. – beijou-lhe a testa, assim como o pai dela fazia.
– Boa noite. Durma bem. – Emeraude sorriu em resposta, vendo o irmão seguir até a porta e sair do quarto, fechando-a atrás de si.
Eagle andou até seu quarto, entrando e trancando a porta ao passar. Já tinha problemas demais para se preocupar até mesmo com os que caíam sobre a sua irmã, mas que aquela idéia era simplesmente absurda, tinha toda a razão.
Não demorou muito até que conseguisse dormir. A casa deles era sempre silenciosa demais. Nada de crianças, nada de pessoas demais, nada de festas… simplesmente tranqüila.
Apenas quando Eagle acordou no dia seguinte e estava sentado no escritório, olhando as janelas novamente, com um monte de papéis espalhados em cima da mesa e Geo sentado numa cadeira diante de seu gabinete, analisando alguns deles, foi que ele se deu conta de um detalhe que havia passado despercebido.
– Esse fim de semana… – Eagle comentou num sussurro.
– Eh? Disse alguma coisa? – Geo perguntou, levantando a cabeça para encarar a cadeira do amigo de costas.
Eagle virou a cadeira para encarar o outro, com uma expressão ainda confusa.
– Hoje é sexta? – ele perguntou, arqueando uma das sobrancelhas numa expressão até que engraçada.
– Creio que sim, por quê? – Geo respondeu mais como se estivesse tirando sarro da pergunta do outro, afinal, ele não podia ser tão desatento até mesmo aos dias.
– Então, amanhã é fim de semana. – Eagle comentou novamente, como se fosse alguma coisa muito interessante que todos devessem ter notado antes.
– Eu suponho que sim. – Geo continuou no mesmo tom de sarro. – Cê tá se sentindo bem?
– Ahn? – Eagle pareceu acordar do transe e fitou Geo por dois demorados minutos antes de completar a frase. – Ah, estou sim. Só estou pensando em algumas coisas, nada demais.
– Eu acho que cê tá precisando de férias. – Geo comentou, voltando os olhos para os processos que estava analisando mais uma vez.
– Tenho uma audiência marcada pra semana que vem, acha que meu pai me deixaria tirar férias antes de ganhar esse caso? – Eagle disse, afastando a cadeira de rodinhas do gabinete e se levantando.
– Então você deveria estar um pouco mais atento, precisamos trabalhar nisso aqui se quisermos ganhar, sabia? – Geo falou num tom de aviso, levantando os olhos para Eagle, curioso sobre o que ele iria fazer.
– Esqueça esses papéis. – Eagle fez um movimento de impaciência com a mão, seguindo até a porta.
– Ei! Aonde é que você vai?! – Geo perguntou, virando-se para o outro antes que ele saísse da sala.
– Eu vou dar uma volta. – Eagle disse acenando brevemente para Geo.
– Você não vai fazer isso! – Geo levantou-se da cadeira, parecendo alterado. – Nós precisamos ganhar esse caso!
– O caso já está ganho, Geo. Não se preocupe. – Eagle disse, saindo e fechando a porta sem ao menos se dar ao trabalho de olhar para o amigo novamente.
– Tsc! – Geo deixou-se cair sentado na cadeira. – Odeio quando ele faz isso! – jogou os papéis em cima da mesa.
Eagle era sempre irresponsável daquele jeito, mas o que mais deixava o outro com raiva era que ele sempre estava certo. Ele sempre ganhava os casos. Isso devia ser algum feitiço ou coisa do gênero, queria poder ser tão confiante assim, e olha que ele gostava de Direito, não o Eagle.
Voltou a ler os processos enquanto Eagle desaparecia pela empresa novamente.
O jovem de cabelos prateados andou lentamente pelos corredores, por um caminho já conhecido, e então, parou de andar apenas quando estava debruçado sobre o gradil da cobertura, fitando a rua lá embaixo, os carros e pessoas que se tornavam minúsculos naquela distância.
O vento lá em cima era bem mais frio e um pouco mais forte que em outros lugares, claro, considerando-se a altura em que estavam. Devia ser por ir tanto lá em cima que ficava doente com freqüência. Mas não importava, pelo menos se sentia bem sozinho, com uma leve impressão de que estava no topo de tudo.
Durante alguns minutos, ficou apenas observando tudo se mover lá embaixo. Não tinha certeza de quanto tempo exatamente se passara, mas não devia ter sido tanto assim. Afastou-se do gradil e seguiu até a porta que dava para as escadas, mas, ao contrário de abri-la, sentou-se e encostou-se à parede ao lado da porta.
Levantou a cabeça e ficou olhando pra cima por algum tempo, em seguida, fechou os olhos, apenas sentindo a brisa leve bater em seu rosto, respirando o ar aparentemente puro do local. Teria ficado assim por mais alguns minutos, não sentisse que havia alguma coisa errada por ali, alguma coisa diferente.
Surpreendeu-se quando abriu os olhos e fitou seu lado esquerdo. Lantisestava parado lá, encostado à parede e olhando para o céu, mas estava de pé, com os braços cruzados e parecendo tão despreocupado quanto ele.
Eagle ficou encarando-o por uns segundos, sem se importar – ou lembrar-se – em ser indiscreto. Dois segundos e Lantis desviou o olhar para ele.
– Pelo visto, gosta mesmo desse lugar. – Lantis comentou, voltando a olhar pra cima.
– Você também. – Eagle conseguiu responder, tentando desviar o olhar do outro, parecia que ele tinha o dom de lhe surpreender.
– É bem… quieto aqui. – Lantis respondeu, sem se incomodar com o olhar fixo do outro, apenas continuando a observar o céu.
– Hm. – Eagle concordou vagamente, desviando os olhos para cima novamente.
– Está fugindo do trabalho? – Lantis perguntou de repente, depois de alguns minutos de silêncio.
– Acho que não sou o único. – Eagle sorriu de lado.
– Eu não estou fugindo do trabalho. – Lantis desviou os olhos levemente para o outro. – Mas acabei de comprovar que você está.
– Eh? – Eagle voltou-se para ele, confuso.
– Está no horário do almoço. – Lantis respondeu simplesmente, colocando as mãos nos bolsos.
Eagle continuou a olhar para o outro, completamente confuso, até que finalmente entendeu o que ele estava dizendo. Não resistiu e riu.
– Okay, eu estou errado. – Eagle admitiu. – Mas eu não tinha o que fazer no horário de trabalho, de qualquer jeito.
– Eu achava que você e o Geo estavam tomando conta de um caso… – Lantis olhou de soslaio para o mais novo. – Não devia estar estudando-o?
– Não. – Eagle suspirou, apoiando as mãos ao lado do corpo. – Eu vou ganhar esse caso.
– Você parece bem confiante pra quem nem gosta do que faz. – Lantis arqueou levemente as sobrancelhas.
– Eu sei. – Eagle sorriu levemente. – Mas eu tenho mais coisas com que me preocupar do que estudar um caso que já sei que está ganho.
– Ah claro. – Lantis disse, pouco convincente.
Depois daquelas palavras, o silêncio pairou entre os dois. Eagle queria deixar a cabeça livre de pensamentos, mas era incrível como seu pai conseguia tomar lugar neles. Ir a uma festa! E naquele fim de semana! Ele só podia ter ficado mais louco do que o normal. Casar Emeraude! Pensando daquele jeito, parecia que ele estava agindo como um namorado ciumento. Não gostava de contrariar o pai, gostava de seguir suas ordens… mas imaginava como seria se não tivesse que conviver com ele.
– Você… tem uma família? – Eagle perguntou de súbito, quebrando o silêncio que se formara entre os dois.
– Hm… só um irmão mais velho. – Lantis respondeu, não parecia nada surpreso com a pergunta repentina do outro.
Mais uma vez o silêncio pairou entre os dois. Eagle não fazia idéia do que falar com ele, na verdade, nem fazia idéia do porque ter perguntado aquilo. Pensava tanto sobre sua própria família que podia dizer que a pergunta tinha saído automaticamente.
– Você parece se sentir incomodado tendo que seguir as ordens de seu pai até mesmo no trabalho. – Lantis falou, quebrando o silêncio desta vez.
– De certo modo. – Eagle concordou vagamente. – Às vezes, ele pensa em coisas um tanto quanto absurdas.
– São pais. – Lantis sorriu. – Não dizem que eles sempre pensam no melhor para os filhos?
– Suponho que seja esse o propósito. – Eagle sorriu de volta. – Não importa.
– Algo errado sobre seu pai? – Lantis perguntou, virando-se de vez para o outro.
– Não. – Eagle continuava olhando para cima. – Ele só está com uma idéia maluca de querer casar a minha irmã.
Lantis quase teve vontade de gargalhar com o modo preocupado como Eagle falava aquilo.
– Parece que está preocupado com o futuro da sua irmã. – o dono dos cabelos negros falou, divertido.
– Ele deve estar mesmo preocupado, ele sempre está. – Eagle retrucou, permanecendo calmo.
– Estava falando sobre você. – Lantis esclareceu sua afirmação anterior.
– Ah. É. Eu acho que estou mais preocupado do que ela. – Eagle sorriu, passando a mão pelos cabelos.
– Está na hora de voltar para o trabalho. – Lantis desencostou-se da parede e virou-se para entrar pela porta. – Ainda vai ficar aí?
– Acho que sim. – Eagle respondeu, dando de ombros e olhando reto.
– Até mais. Espero que seu pai não descubra. – Lantis disse, já abrindo a porta.
– Ah, ele vai acabar descobrindo. Logo logo. – Eagle comentou, lançando um breve olhar para Lantis e sorrindo, antes que o outro desaparecesse descendo as escadas.
Por mais uns dez minutos além do horário de almoço, Eagle permaneceu ali, sentado, apenas sentindo a leve brisa em seus cabelos, com o olhar perdido no nada. Nem sabia mais no que estava pensando… ou melhor, não estava pensando em mais nada.
– Você adora testar a paciência do seu pai, não é? – Geo apareceu, abrindo a porta com estrondo, como ele sempre fazia.
Eagle nem se assustou com o barulho, virou-se lentamente para o amigo.
– Você adora ser barulhento, não é, Geo? – Eagle sorriu. Bom, Geo conseguia ser bem diferente de Lantis, que sempre era bem mais sutil do que ele podia imaginar.
– Não fique fazendo gracinhas! – Geo reclamou, cruzando os braços diante do corpo. – O nosso cliente está aí, e eu acho que ele quer saber como você vai ganhar o caso dele.
– Ah… eu tinha esquecido esse detalhe. – Eagle disse, já se levantando para acompanhar Geo.
– É bom começar a lembrar mais das coisas! – Geo reclamou, já descendo as escadas na frente de Eagle.
– Claro, claro. – o outro concordou rapidamente, descendo as escadas também, apressado.
Eles seguiram lado a lado até a sala do pai de Eagle. Claro, ele tinha que estar monitorando o caso, e iria querer cada mínimo detalhe esclarecido, já que o filho nem fazia questão de explicar como ia ganhar o caso.
Enquanto Eagle precisava convencer o pai e o cliente de que estava certo – coisa que não demoraria muito, certamente, afinal, graças aos deuses, tinha uma ótima dicção –, Emeraude estava em um de seus períodos vagos, sentada no gramado da área diante do seu prédio de Direito, lendo um de seus grossos livros, na companhia de Persea que estava apenas brincando com umas pequenas pedras, fazendo malabarismo.
– Emeraude, você não vai parar mesmo de ler isso? – Persea perguntou, ainda concentrada nas próprias pedrinhas.
– Não. – Emeraude respondeu distraidamente, continuando a ler o livro. – Sabe que não tenho tempo de ler em casa.
– Sei, sei… – Persea continuou a fazer seu malabarismo. – Hoje você não tinha aula de alguma coisa?
– Ahn? – Emeraude virou-se para ela ligeiramente. – Nós temos aula, não?
– Você não tinha alguma outra aula hoje? – Persea perguntou novamente, parando de jogar as pedrinhas em círculo. – Alguma coisa de música, ou dança, ou sei lá o que.
– Eh? – Emeraude desviou os olhos do livro, pensativa. – Hoje é sexta-feira, não é?
– Parece. – Persea respondeu, arqueando uma sobrancelha. – Alguma coisa errada com você hoje?
– Ah… eu tenho aula de música. – Emeraude respondeu. – Depois da faculdade.
– O que aconteceu? Você não costuma ser tão desatenta desse jeito. – Persea disse, virando-se para ficar de frente para Emeraude.
– Nada demais. Estou só um pouco distraída. – Emeraude sorriu, fechando o livro que tinha em cima das pernas.
– E o que está deixando você distraída? – Persea perguntou, encostando-se na árvore e ficando de lado de Emeraude.
– Não é nada. – Emeraude disse, deixando o livro de lado e estirando as pernas folgadamente.
– Será que está pensando em um certo professor substituto? – Persea perguntou, deitando-se de bruços no gramado e apoiando os cotovelos no chão.
– Já disse que não é nada… – Emeraude respondeu como se nem tivesse prestado atenção à pergunta, olhando reto para algum lugar que devia ser bem interessante.
– Eh? – Persea virou-se lentamente para fitar um certo dono de lisos cabelos negros e olhos escuros que conversava com alguns outros professores perto da entrada do bloco de Direito. – É, acho que eu estava mesmo certa.
– Ahn? Certa em que? – Emeraude perguntou, finalmente desviando os olhos para a amiga.
– Nada, nada. – Persea disse, balançando a mão num sinal de impaciência.
– Ei, vamos passar no shopping amanhã? – Emeraude propôs, amarrando os cabelos desleixadamente num coque baixo com uma das canetas.
– No shopping? Por que quer ir ao shopping? – Persea perguntou, sentando-se com as pernas cruzadas e esquecendo momentaneamente do assunto anterior.
– Preciso comprar um vestido novo. – a loira respondeu. – Acabei de lembrar que não tenho nenhum para ocasiões sociais.
– Que história é essa de “vestido novo” e “ocasiões sociais”? – Persea perguntou, arqueando as sobrancelhas em confusão.
– Papai disse que vamos numa festa esse fim de semana, numa grande festa. Preciso estar bem apresentada pelo menos. – Emeraude disse, voltando a folhear o livro que deixara de lado.
– Alguma coisa nessa festa que está te deixando tão distraída? – Persea perguntou.
– De maneira alguma. – Emeraude sorriu para a amiga. – E então, vamos?
– Ok! Vou chamar a Caldina. – Persea disse, pegando o celular e começando a digitar uma mensagem.
– Não precisa ser tão rápido assim! – Emeraude riu da pressa com que a outra ia chamar Caldina. – Já pensou que ela pode sair da aula pra vir aqui buscar detalhes.
– Ih, tem razão. – Persea concordou, parando pensativa por alguns minutos. – Bom, então vou mandar logo.
Emeraude começou a rir do que ela dissera. Em seguida, desviou os olhos da amiga que ainda digitava a mensagem e ficou a fitar o nada na sua frente. Por mais que dissesse a Eagle que estava tudo bem sobre a proposta de seu pai, o que ele poderia fazer caso ela não encontrasse um tal de um pretendente? Não dava pra escolher um marido no meio de um monte de pessoas que ela nunca vira na vida. Estava tão distraída em pensamentos que só ouviu o chamado de Persea quando ela a chamou pela terceira vez.
– Emeraude! – Persea parecia irritada. – Você está mal hoje, hein?!
– Desculpe. O que dizia? – Emeraude perguntou, finalmente se virando para a amiga.
– Você tá mesmo gostando do nosso novo professor, né? – Persea insinuou, cruzando os braços diante do corpo.
– Ah?! Por que está dizendo isso?! – Emeraude espantou-se com a súbita pergunta, tentando não corar.
– Ué, você não pára de olhar pra ele. Eu entendo você, eu entendo. – Persea assumiu uma expressão compreensiva.
– Olhar? Mas eu… – ela virou os olhos para onde estavam anteriormente. Sequer percebera que o novo professor estava na mesma direção que ela fixara os olhos. – Eu nem o tinha visto ali.
– Tá, vou fingir que não. – Persea comentou, descrente. – Mas, não importa, vamos voltando para dentro, a aula já vai começar. Ah, a Caldina mandou uma resposta, disse que vai nos encontrar lá amanhã, é só marcarmos a hora. E como ela não veio correndo, suponho que já esteja longe da aula, ocupada com outra distração.
– Certo, vamos indo pra sala. – Emeraude recolheu os livros no chão e persea ajudou-a, seguindo ambas para dentro da sala.
Apenas naquele momento, Emeraude realmente parou os olhos sobre a imagem do professor, enquanto caminhava até a sala de aula. Ele desviou o olhar para ela por uns segundos e sorriu gentilmente. Ela teria sorrido de volta, isso se não tivesse virado o rosto repentinamente, imaginando se não estaria vermelha. Ele tinha um sorriso bonito.
As aulas prosseguiram normalmente até as cinco da tarde. Emeraude não podia perder muito tempo lá, ou acabaria se atrasando para sua aula de música, às seis.
– Eu preciso ir agora. – Emeraude disse, olhando o relógio de pulso enquanto saía do prédio, acompanhada por Persea. – Ou vou acabar chegando atrasada para a aula de música.
– Eu realmente queria saber por que você insiste em aprender a tocar aquela coisa. – Caldina apareceu do nada, sendo seguida de perto por um homem bem alto, cabelos loiros e olhos azulados.
– Piano, Caldina. – Emeraude corrigiu-a, virando-se para o homem que a acompanhava, sorrindo. – Olá, Lafarga.
– Como vai você, Emeraude? – o homem perguntou, sorrindo de volta.
– Muito bem, obrigada… – Emeraude teria perguntado o mesmo a ele, se Caldina não tivesse interrompido.
– Eii! Que horas vamos nos encontrar amanhã?! – Caldina perguntou, afoita como sempre.
– Não sei… que horas, Emeraude? – Persea virou-se para a outra amiga, enquanto Caldina trazia as mãos de Lafarga em volta de sua cintura.
– Ahn, que tal às 11h? – Emeraude propôs, olhando o relógio novamente.
– Por mim, tudo bem. – Caldina deu de ombros, Lafarga estava com o queixo apoiado no topo da cabeça dela.
– Okay, combinado então. – Persea disse. – Até amanhã Emeraude.
– Até, eu preciso me apressar agora. – Emeraude disse, já apressando o passo. – Tchau Caldina, Lafarga, Persea. Até amanhã.
Ela virou-se e andou rapidamente até o estacionamento do campus. O carro de sua família já estava esperando, o motorista abriu a porta para ela, como de costume, e então, seguiu para sua aula, numa escola de música no centro da cidade.
Já fazia alguns anos que aprendia piano, e mesmo que tivesse começado por ordens de seu pai, realmente não tinha do que reclamar. Era relaxante.
Quando ela chegou em casa, Eagle já tinha voltado do trabalho, e pelo que ela vira, já estava dormindo, mesmo que ainda fosse cedo… cedo demais. Já seu pai, obviamente devia estar na empresa até agora e chegaria muito tarde, como já era costume.
Ela jantou alguma coisa sozinha, e seguiu para o quarto, trancando a porta ao entrar e indo até o banheiro. Tomou uma ducha rápida, colocou os pijamas e então, sentou-se à escrivaninha, abrindo todos os livros que conseguia e começando a estudar. Ao menos naquelas horas, podia estudar tranqüila, sem ter risco de que alguém a descobrisse.
Não demorou muito e precisou ir dormir, ou estaria acabada na manhã seguinte, e ainda tinha inventado aquilo de ir comprar uma roupa para ir para a festa. Bom, mas era verdade que não tinha nenhum vestido social mesmo, praticamente não saíra para festas desde que sua mãe morrera e, bom, os vestidos daquela época ainda eram muito pequenos para os que ela precisava usar agora. E a tal festa ia ser na noite daquele mesmo sábado, então, precisava se apressar e arrumar logo uma roupa.
Na manhã seguinte, acordou por volta das oito e meia. Impressionou-se consigo mesma por ter acordado tão cedo. Depois de cuidar da higiene pessoal e colocar uma roupa um pouco mais apresentável, desceu as escadas para tomar o café da manhã. Não estranhou ao ver Eagle sentado à mesa, usando uma camisa regata e calça de algodão, os cabelos assanhados, lendo alguma coisa enquanto comia umas torradas.
– Bom dia, mano! – Emeraude cumprimentou-o, chamando-lhe a atenção.
– Ah… bom dia, Emeraude. – ele respondeu com o costumeiro sorriso. – Acordada tão cedo num dia de sábado? Achei que voltaria cansada da aula de dança.
– Música, irmão. – ela riu e sentou-se na cadeira de frente pra ele.
– Ah, isso mesmo! – ele concordou, fechando o livro que estivera observando minutos antes. – Mas você sempre acorda tão tarde no sábado.
– Eu fui dormir cedo ontem. – Emeraude respondeu, começando a se servir do que estava na mesa. – E você? Quando cheguei em casa, já estava até dormindo!
– É, eu estava cansado ontem. – Eagle respondeu, tomando um gole do suco.
– Bom, então… onde está nosso pai? – ela perguntou, servindo-se de um pãozinho.
– Ele foi pra empresa, você sabe que se ele pudesse, trabalharia sete dias por semana. – Eagle respondeu.
– Ah, mas ele tem que voltar logo hoje. – Emeraude parou a mão pouco antes de morder o pãozinho. – Temos a tal festa para ir.
– Ahn? Aquela festa é hoje? – ele perguntou, desconcertado.
– É isso mesmo. – Emeraude confirmou. – Às nove da noite. Você não prestou atenção ao que o papai dizia no jantar?
– Ah… não. – ele confessou, passando a mão pelos cabelos.
– Claro que não. – Emeraude riu. – Quer me acompanhar ao shopping hoje?
– Você vai ao shopping?
– Isso mesmo, preciso de um vestido pra essa festa, descobri que não tenho nada social que caiba em uma pessoa com mais de quinze anos. – Emeraude respondeu, rindo de si mesma.
– Você não deveria chamar as suas amigas para ir às compras? – ele indagou.
– Eu chamei. – Emeraude respondeu. – Vamos nos encontrar às 11h. Você quer ir também?
– Realmente está me chamando para ir fazer compras com mais três mulheres? – ele perguntou como se estivesse descrente.
– Estou, quer se fantasiar de mulher pra não parecer estranho? – Emeraude perguntou, rindo da imagem que surgira em sua cabeça.
– Você não pode ter imaginado isso. – Eagle comentou vagamente, sorrindo.
– Já imaginei. E então, responda logo! – a jovem de infantis olhos verdes insistiu.
– Não, acho que não. – Eagle meneou a cabeça negativamente.
– Ah, vamos lá, mano. Você não vai ficar fazendo nada aqui o dia inteiro mesmo. – Emeraude insistiu.
– Eu realmente não posso, preciso estudar um caso, tenho uma audiência semana que vem. – Eagle desculpou-se.
– Que caso? – ela perguntou, debruçando-se sobre a mesa e apoiando os cotovelos na mesma.
– Do dono de uma grande empresa de telecomunicação. – Eagle respondeu com uma voz entediada.
– Ah… nós dois sabemos que esse caso já está ganho, então, vamos para o shopping? – Emeraude pediu mais uma vez, mas só ao ver a expressão estranha do irmão, deu-se conta do que acabara de falar.
– Sabemos? – Eagle confundiu-se. Até então, achava que apenas ele sabia.
– Er… irmão, eu sei que quando fala desse jeito sobre um caso, é porque já o resolveu. – Emeraude tentou despistá-lo. – Quantos casos já não disse que precisava estudar, quando, na verdade, já sabia como ganhá-los?
Ele encarou-a de modo pensativo por alguns minutos.
– Ah, de qualquer jeito, você sempre tem razão. – Eagle deu-se por vencido.
– Isso significa que você vem hoje? – ela perguntou, sorrindo animada.
– E eu tenho escolha? – ele perguntou, coçando a nuca.
– Não. – ela respondeu, levando mais um bolinho à boca.
Eles não demoraram muito para terminar o café da manhã. Emeraude foi logo se arrumar, enquanto Eagle ficava apenas vagando por seu quarto, tentando descobrir se fizera a coisa certa em combinar de ir a um shopping com mais três mulheres. Definitivamente, não tinha nada de certo ou de sensato nisso.
Por volta de dez e meia, Emeraude bateu na porta do quarto dele, entrando em seguida. Ela já estava arrumada, os cabelos estavam amarrados de maneira desleixada, com vários fios soltos, usava um vestido simples que ia até os joelhos e uma faixa na cintura.
– E então, está pronto? – Emeraude perguntou, observando-o sentado numa poltrona um pouco longe da cama.
– Podemos ir. – ele confirmou, levantando-se.
Ele usava uma calça jeans escura, uma camisa de mangas três quartos e gola alta.
– Oras, bem melhor assim! Já disse que não combina em trajes sociais? – Emeraude perguntou, puxando-o pelo braço e já seguindo para fora do quarto, como se precisasse se certificar de que ele não escaparia.
– Não hoje. – ele sorriu.
Emeraude terminou de arrastá-lo até fora da casa. Claro que o motorista já estava de prontidão esperando pelos dois. Ele sempre precisava estar esperando caso um dos dois quisesse sair de casa. Eagle achava que seria tão mais fácil se eles dirigissem sozinhos, mas até que ter um motorista vinha a calhar.
– Você já escolheu sua roupa pra ir à festa hoje? – Emeraude perguntou, quando já estavam a caminho do shopping.
– Não tem muito o que escolher, não é mesmo? – Eagle respondeu rapidamente. – Aquelas mesmas belas roupas sociais e o cabelo bem arrumado.
– Que não combinam com você. – Emeraude completou. – Anime-se! Você não me parece bem esses dias.
– Depois da notícia que nosso pai deu, você que não deveria estar assim. – Eagle disse.
– Eu já disse para não se preocupar com isso! – Emeraude insistiu. – Vou dar um jeito, você vai ver só.
– Okay, vou esperar pra ver então. – Eagle concordou finalmente.
– E sobre o tal novo sócio? – Emeraude perguntou, tentando mudar logo o rumo da conversa.
– Ele gosta mais de trabalhar do que eu. – o dono dos cabelos esbranquiçados sorriu.
– Eu acho que qualquer um gosta mais do trabalho do que você. – Emeraude corrigiu.
– Releva-se. – ele fez um sinal de impaciência com a mão.
– Mas como ele é como advogado? – ela refez a pergunta.
– Eu ainda não sei. – Eagle respondeu. – Eu não vi os casos em que ele trabalha, também não o vi defendendo ninguém ainda. Mas, se o papai o escolheu como sócio, ou ele é muito bom, ou tem muito dinheiro, ou os dois.
– Bom, se ele for tão bom, pode ficar com o seu lugar na empresa, não? – Emeraude explicou, parecendo esperançosa.
– Não, na verdade, o papai quer que eu fique no lugar dele quando ele se aposentar, não que o sócio fique no meu lugar. – Eagle esclareceu a linha de pensamento dela.
– Logo vai aparecer alguém pra ficar no seu lugar. – Emeraude disse, convencida.
– Mesmo? Quando achar, por favor, me avise! – ele pediu parecendo implorar.
– Não se preocupe, assim que eu achar, você vai ser o primeiro a saber! – Emeraude sorriu largamente.
Eles continuaram conversando apenas algumas coisas a mais enquanto não chegavam ao shopping.
Logo Eagle caminhava lado a lado com Emeraude em meio àquele monte de pessoas que pareciam não ter muita coisa a fazer. E num dia de sábado, não era de se impressionar que o lugar estivesse mais movimentado que o normal. Andando juntos daquele jeito, pareciam mais um casal do que irmãos.
Emeraude já estava bem distraída olhando para as vitrines, buscando alguma coisa que servisse para aquela noite. Andando mais um pouco e finalmente encontraram as outras duas jovens que já estavam sentadas a uma das mesas da praça de alimentação.
– Eagle!!! Emeraude!!! Aqui!!! – Caldina acenou freneticamente.
Emeraude e Eagle seguiram até a mulher rapidamente, antes que ela resolvesse subir na mesa. Persea estava lá também, mas bem mais comportada e civilizada, bebendo um refrigerante distraidamente.
– Desculpe, eu me atrasei? – Emeraude perguntou, ao alcançar a mesa e sentar-se numa das cadeiras vagas, assim como Eagle.
– Não, nós que chegamos cedo demais. – Persea respondeu.
– E então, não imaginei que o Eagle gostasse de ir às compras! – Caldina bateu de leve no braço do homem.
– Eu não gosto. – Eagle respondeu.
– Imagino quem o tenha obrigado a vir. – Persea comentou, rindo para Emeraude.
– Bom, pelo menos agora teremos um juiz. – Caldina disse animada, apoiando os cotovelos na mesa. – É bom que tenha um bom gosto, Eagle.
– Claro. – ele concordou rapidamente.
A parte boa de sair com as amigas de Emeraude era que ele nunca precisava falar demais e a conversa delas era uma coisa tão surreal – pelo menos por parte de Caldina – que ele conseguia rir bastante. Não se via pessoas com aquele mesmo espírito no seu trabalho. Ficava feliz por Emeraude não precisar seguir os mesmos passos que seu pai.
– Que tal nós começarmos a procurar alguma coisa? – Emeraude propôs. – Sabe, eu preciso dele ainda pra hoje de noite.
– Ah! Claro! Eu já até sei aonde ir, vimos um monte de lojas com um monte de vestidos perfeitos pra você, Emeraude! – Caldina disse, do mesmo jeito animado, levantando-se de súbito.
Elas começaram a andar pelo lugar e Eagle teve a impressão de que mais cedo ou mais tarde precisaria correr pra acompanhá-las. Era incrível como ele conseguia esbarrar em todo mundo no caminho mesmo se desviando enquanto as garotas nem sequer chegavam perto de tocar nas outras pessoas. Será que aquilo já era habilidade adquirida com o tempo? Depois de andar praticamente por todo o piso do segundo andar, alcançaram a primeira loja, ali sim, Eagle podia dizer que estava se sentindo completamente deslocado. Apenas roupas para mulher, apenas atendentes mulheres, apenas clientes mulheres. Estava começando a achar que seria bem melhor se tivesse ficado em casa.
Claro que ele foi praticamente obrigado a se sentar numa das cadeiras diante dos provadores, enquanto Emeraude era jogada dentro de um deles e Persea e Caldina – principalmente esta segunda – buscavam os vestidos que se encaixariam melhor na loira.
Quando Emeraude tinha provado o quinto vestido e Caldina desaprovara completamente, Persea decidiu sentar-se ao lado de Eagle. Claro que ia demorar até que eles pudessem dar opiniões, afinal, Caldina e Emeraude eram as estudantes de moda ali, não? Até Persea cansara da correria, sendo estudante de advocacia, devia entediar daquilo mais rápido.
– Acho que daqui pra amanhã encontramos alguma coisa que seja de aprovação de Caldina. – Persea comentou rapidamente com Eagle, enquanto Caldina invadia o provador com mais um vestido em mãos.
– Tem razão. – Eagle concordou. – Como elas podem não cansar disso?
– Boa pergunta. – Persea disse, cruzando as mãos diante do corpo.
– Voilà! – Caldina saiu de repente do provador, parecendo contente finalmente. – Agora sim encontramos algo que cai bem nela.
– Finalmente… – Eagle e Persea falaram em uníssono, num som baixo o suficiente para que a outra não ouvisse.
Emeraude saiu do provador, usava um vestido longo de cintura alta e amarrado no pescoço, tinha um grande decote em “v”, era decorado em parte do lado esquerdo com pedrinhas brilhantes, vinha acompanhado de uma encharpe de um tecido transparente, e o verde do tecido combinava perfeitamente com os olhos dela.
– E então, guys? O que acham?! – Caldina perguntou, como se apresentasse alguma miss num concurso.
– Caldina, pare com isso. – Emeraude disse, colocando as mexas soltas de seu cabelo para trás.
– Está perfeita. – Eagle disse, sorrindo.
– Concordo! – Persea fez sinais positivos com as mãos.
– Então, podemos ir agora? – Eagle perguntou, tendo esperanças de que iria para casa.
– Claro que sim! – Caldina respondeu, empurrando Emeraude de volta para o provador. – Vamos pagar o vestido e ir pra próxima loja!
– Próxima? Ela não ia usar só um deles? – Eagle perguntou, desconcertado.
– Eu sei, mas eu descobri que a nossa princesa não tem muitos vestidos sociais. Na verdade, não tem nenhum. Não sei o que ela estava fazendo todo esse tempo, então, vamos buscar mais! – Caldina disse, empolgada e colocando uns três vestidos nos braços, incluindo o que Emeraude acabara de despir.
Ela estendeu os vestidos para a atendente.
– Aqui, vamos levar esses três. – Caldina disse e a mulher pegou os vestidos, saindo para preparar a compra.
– Os três? Mas não disse que não tinham ficado bons? – Persea perguntou, estranhando a atitude da morena.
– Não o suficiente para uma grande festa, mas ficaram bons mesmo assim. – Caldina explicou-se. – Bom, vamos nos apressar. Eagle, vai logo pagando a conta enquanto a princesa termina de se vestir. – ele empurrou-o de leve pelos ombros para que seguisse de uma vez.
– Tá, tá. – Eagle concordou, seguindo até o balcão.
Claro, como ele já imaginava, ficou encarregado das sacolas, já que era o único homem do grupo. Durante quase quatro horas inteiras, ficaram apenas mudando de loja para loja, subindo e descendo escadas rolantes, e as sacolas de Eagle apenas aumentando. Pararam por volta de três horas para finalmente almoçarem, e de lá, voltarem para casa.
Eagle e Emeraude voltaram a colocar os pés em casa apenas por volta das cinco da tarde. Pelo menos os empregados podiam levar as sacolas para o quarto da jovem.
– Bom, acho que você não vai ter problemas com vestidos por um longo tempo. – Eagle disse, enquanto subiam as escadas lado a lado.
– Tem razão. Agora estou prevenida. – ela disse, sorridente.
– Eu vou descansar um pouco, pode me chamar a tempo de me arrumar para a festa? – Eagle perguntou, quando chegaram ao primeiro andar.
– Claro, maninho. Durma bem. – Emeraude sorriu para ele novamente.
– Até mais. – ele beijou-lhe a testa, como já era de costume e então, seguiu até seu quarto, jogando-se na cama assim que fechou a porta.
Não demorou muito para que ele caísse no sono. Apenas acordou algumas horas depois, imaginando se tinham se passado apenas alguns minutos. Alguém batia levemente na porta de seu quarto, e da maneira persistente como continuava a bater até que ele respondesse, certamente devia ser um dos empregados, já que Emeraude já teria entrado no quarto.
Ele levantou-se e abriu a porta, passando a mão pelos cabelos.
– Sr. Eagle, a Srtª. Emeraude pediu para avisar-lhe que já são oito horas. – a empregada avisou, as mãos juntas diante do corpo.
– Ah, certo. Obrigado. – ele disse, e ao ver a empregada se afastar, fechou a porta mais uma vez.
Bom, a tal festa era de nove da noite, tinha de trinta a quarenta minutos pra se arrumar, poderia ter dormido um pouco mais. Andou preguiçosamente até o banheiro e demorou-se uns dez minutos embaixo do chuveiro.
Vestiu as mesmas roupas sociais, com acréscimo agora de um colete, um lenço no pescoço, por dentro do colete, o terno por cima, os cabelos comportadamente penteados para trás, com uns poucos fios rebeldes caindo-lhe sobre os olhos. Por mais que Emeraude insistisse em dizer que ele não combinava naquelas roupas – o que era uma verdade –, ele estava elegante.
Saiu do quarto, vendo no relógio digital na sua mesa de cabeceira que já era pouco mais de oito e meia.
Quando desceu as escadas, já encontrou seu pai ajeitando a manga da camisa sob a manga do terno. Ele virou-se ao escutar mais passos nas escadas.
– Boa noite, pai. – Eagle cumprimentou-o, o mesmo sorriso habitual em face.
– Boa noite. – Rhaels retribuiu o cumprimento. – E a sua irmã, ela ainda não terminou de se arrumar?
– O senhor sabe como são as mulheres. – Eagle comentou, quando escutaram uma voz e novos passos descendo as escadas.
– Não estariam falando de mim, estariam?
Os dois homens viraram o rosto para encarar Emeraude descendo as escadas. Por mais que Eagle tivesse visto como ela estava naquele vestido, agora, completamente arrumada, parecia uma pessoa completamente diferente. Para combinar com o vestido, ela amarrara os cabelos num bonito coque no alto da cabeça, onde vários cachos caíam por suas costas levemente. A maquiagem leve realçava os bonitos traços do rosto dela, para completar, um conjunto de colar e brincos prateados combinando com as sandálias de mesma cor. Ela estava simplesmente perfeita e quase irreconhecível.
– Caldina sabe mesmo escolher um bom vestido. – Eagle admitiu, quando a irmã terminou de descer as escadas.
– Sim, ela tem um ótimo gosto. – Emeraude concordou, aceitando a mão que seu pai lhe estendia.
– Você ficou maravilhosa, minha princesa. – Rhaels beijou a filha na testa. – Com certeza vai ser a mais bonita da festa.
– Claro que não, papai. – Emeraude desconversou. – Ainda tem a aniversariante.
– Não importa, continuará sendo a mais bonita. – ele respondeu. – Podemos ir agora?
– Claro. O senhor está bem descansado? Chegou tarde da empresa hoje. – Emeraude disse, já acompanhando o pai para fora da casa, sendo seguidos de perto por Eagle.
– Sim, não se preocupe, minha princesa. – Rhaels disse, já descendo as escadas da entrada até o carro, já estacionado ali na frente.
– Se o senhor se sentir cansado, é melhor voltarmos logo. – Emeraude disse, quando o homem mais velho abriu a porta para ela, Eagle entrou em seguida e ele entrou logo depois.
– Já disse que não precisa se preocupar. – Rhaels falou, sentando-se no banco de frente para os dois irmãos, sentados lado a lado. – A festa será ótima, e com certeza, você chamará a atenção de todos os homens.
– Ah, claro que sim, meu pai. – Emeraude concordou, sorridente.
O carro deu partida e Eagle aproveitou o barulho baixo do motor para sussurrar para Emeraude, discretamente.
– Parece que não vai conseguir fugir com esse vestido de Caldina.
– Não se preocupe, irmão. Você não vai me proteger?
– Eu tenho escolha?
– Do que estavam falando? – Rhaels pareceu perceber apenas naquele momento que os irmãos trocavam palavras.
– Nada demais. E então, o senhor disse que é comemoração do aniversário da filha do seu cliente, quantos anos ela completa? – Emeraude tratou de mudar logo de assunto.
– Eu achei que já tinha dito que era dezoito. – Rhaels falou, parecendo desconcertado.
– Ah sim, claro que disse, eu esqueci, desculpe. – Emeraude respondeu e prosseguiu a conversa, tendo êxito em desviá-lo do assunto que ela conversava com Eagle.
O homem mais novo apenas cruzou os braços e pernas e olhou através do vidro da janela, desligado da conversa dos outros dois. A noite estava bonita. Pelo visto a festa seria realmente muito boa, exceto por ele ter certeza de que o pai faria de tudo para apresentá-la a todos os tipos de magnatas que conhecia com filhos da mesma idade dela. Mas Emeraude já dizia que ia dar um jeito, não custava nada confiar na irmã.
Bom, aquela seria realmente uma longa, longa noite.
Final do Capítulo Três
Finalmente eu voltei!
Sim, decidi atualizar a única fic que eu tenho capítulos disponíveis, pois é.
Vou ver se consigo escrever mais dela.. eu gosto tanto dessa história, mas ainda não consegui continuar, fazer o que né.
Gradeço à Palas Lis e Gaia Syrdm por deixarem comentários! Mesmo achando que mais ninguém lê o fic, elas estão aí! XDD Obrigada mesmo, meninas!
E vou tentar escrever mais e quem sabe apareço logo com outra atualização!
Kissus a todos e até depois!