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TV Shows » CSI » Summerhouse em Português font: B s : A A A . width: full 3/4 1/2
Author: Vplasgirl
Fiction Rated: M - Portuguese - Romance/Angst - Gil G. & Sara S. - Reviews: 1 - Published: 08-31-07 - Updated: 09-14-07 - id:3759897

A/N: Again, many thanks to the wonderful MI for all the work she puts into translating Summerhouse for Portuguese GSR fans. We hope you are enjoying the story


CAPÍTULO 3

Gil ficou atrás de Sara enquanto ela abria a porta da suite Ninho da Águia e passaram para o patamar ao fundo do longo lance de escadas.

“A escada parecia um túnel, de tão escura que era”, disse ela, chamando-lhe a atenção para uma clarabóia aberta no telhado, uma pequena cúpula de vidro a uns bons seis metros de altura. “Foi o arquitecto que sugeriu a clarabóia e o problema ficou resolvido”.

Agora as escadas estavam iluminadas por uma série de velas eléctricas que se sucediam a espaços, de um e outro lado, por aí acima. Gil seguiu-a, o olhar inevitavelmente atraído para as compridas e bonitas pernas e para o suave balançar das ancas. Perguntou-se o que ela faria se lhe dissesse que ainda a queria. Que nunca tinha deixado de a querer. Iria convidá-lo para a sua cama, sem perguntas, como fizera na última noite que passara em Vegas? Ou iria recusá-lo e dizer-lhe que estava envolvida com outra pessoa?

Com Dan.

Dan negara peremptoriamente ter qualquer relação romântica com ela, o que o tinha deixado aliviado até ter presenciado o comportamento tão abertamente afectuoso entre ambos. Mesmo que não estivessem envolvidos no verdadeiro sentido da palavra, não seria a primeira vez que bons amigos se tornavam amantes, especialmente quando eram atraentes e descomprometidos. Perguntou-se se Dan e Sara teriam atravessado a linha entre amizade e intimidade sexual.

Essa idéia pesava-lhe no peito. Não que ele próprio tivesse levado uma vida de monge durante os últimos seis anos – embora pelos padrões actuais a maioria dos homens pudesse considerar que sim. Tinham-lhe surgido algumas oportunidades. Mulheres suficientemente atraentes para levar para a cama, mas com quem pouco tinha em comum. Casos breves, que o tinham deixado insatisfeito e a ansiar por qualquer coisa mais.

Por uma outra pessoa.

E ela já estava no cimo da escada, com um orgulho indisfarçável a iluminar-lhe o rosto enquanto aguardava que ele galgasse os últimos degraus até ao quarto.

Gil ficou de pé ao lado dela, deitou um primeiro olhar e sorriu imediatamente em aprovação. Todo o piso tinha sido convertido num retiro privado, com um zona para dormir, uma para descansar e uma para trabalhar. Uma paleta contrastante de soalho e mobiliário de madeiras escuras e paredes e tecidos em tons claros criava um ambiente calmo, acolhedor e elegante. Entre duas das três janelas que se projectavam sobre o telhado havia uma enorme planta que quase chegava ao tecto e um canapé antigo que parecia convidar a uma agradável sesta, e estantes embutidas de ambos os lados de uma grande secretária de madeira davam ao quarto o aspecto de uma confortável sala-de-estar.

Gil aproximou-se da secretária, atraído por uma grande fotografia a preto e branco que estava montada na parede por cima. Era um miúdo a segurar uma borboleta. “Uma das suas?”

“Sim”.

“É muito boa”.

“Obrigada”. Ela veio para o pé dele. “Andava a passear por uma pequena aldeia da costa do Pacífico na Nicarágua quando o vi. Estava a brincar com um pau, no meio da sujidade, defronte de casa –“. Olhou de relance para Gil com um leve trejeito amargo nos lábios. “Se é que se lhe pode chamar isso. Não passava de uma barraca com um telhado de lata. Nessa altura eu já me tinha habituado à visão da pobreza, mas havia qualquer coisa nele, qualquer coisa nos olhos ... tristeza ou solidão, qualquer coisa que me tocou o coração. Foquei a máquina e, quando estava prestes a tirar a foto, apareceu esta borboleta e pousou-lhe na mão. E, de um momento para o outro, foi como se ele se tivesse transformado”.

“Capturou a transformação muito bem”, respondeu suavemente. Sara sorriu mas não disse mais nada. Provavelmente pensava que ele só estava a tentar ser delicado, mas não era o caso. Alguma coisa o tinha atraído igualmente no miúdo da foto e agora percebia o que era. O que ela conseguira capturar nas feições do miúdo, nos olhos dele, tinha sido aquele preciso momento entre o desespero e a felicidade absoluta. Se tinha sido só um feliz acaso, ou se ela era realmente tão boa fotógrafa, isso é que não sabia dizer. “Não vi mais nenhum dos seus trabalhos aí pela casa”, continuou, enquanto se dirigia da secretária para uma das janelas. Olhando para baixo, viu Dan e Billy à luz do terraço. Billy estava indolentemente sentado no rebordo do pátio e Dan limpava o grelhador.

“A maioria estão empacotadas. Vou fazer a minha primeira exposição em Truro no próximo fim-de-semana”.

Surpreendido e ougulhoso por ela, Gil virou-se e encostou-se à parede ao lado da janela. “Uma exposição. Está a ir muito bem”.

“Parece que sim”. Ela encolheu os ombros naquele gesto de humildade tão familiar. “Não é grande coisa. Só uma exposiçãozinha numa cidade pequena”. Olhou de novo para a foto do miúdo. “Esta fica”.

Como era evidente quanto se sentia apegada àquela foto, surpreendia-o que a pendurasse num quarto de hóspedes em vez de no seu próprio quarto, ou em qualquer outra parte da casa onde a pudesse ver a toda a hora.

“A casa de banho é por aqui”, indicou com um gesto enquanto atravessava o quarto. Gil afastou-se da parede e seguiu-a até à porta à esquerda da cama. “Desculpe a confusão”, disse ao abrir a porta. Tive uma fuga de água e um mau canalizador... Na Terça-Feira já vai estar tudo arranjado”.

A casa de banho era também ampla e arejada, em tons claros. As louças eram brancas, e os armários de madeira escura bem envernizada. A cabine de duche revestida a vidro contribuía para a sensação de espaço e claridade. Tal como no resto da casa, era óbvio que também não se tinha poupado a despesas neste quarto e ele interrogou-se de novo sobre quanto lhe iriam custar estes dois meses em Summerhouse. Não que precisasse de se preocupar com dinheiro. Pelos padrões normais estava mais que bem, economicamente, nunca tendo tido muito tempo ou oportunidade para gastar o que que tinha ganho ao longo da maior parte da sua vida. Só a venda da sua casa de Vegas tinha rendido o suficiente para se poder dar ao luxo de comprar a pronto o condomínio de Boston, mal tocando nas poupanças. Portanto, mesmo extravagante, dois meses em Summerhouse não eram nada que não pudesse suportar sem qualquer problema – em termos financeiros. O custo emocional de estar tão perto dela por um longo período de tempo – por mais tentador que lhe parecesse de momento – era uma história completamente diferente.

Fingiu mostrar interesse pelo quarto enquanto meditava sobre os motivos que a poderiam levar a oferecer-lhe um lugar debaixo do seu próprio tecto. Conhecia bem as várias facetas da personalidade de Sara, por mais contraditórias que pudessem ser, e, à excepção do facto de ter abandonado o emprego e desaparecido da vida dele sem um simples adeus, há muito que deixara de o surpreender.

Até esta noite.

Ela estava encostada à ombreira da porta, de braços cruzados, a observá-lo silenciosamente. Os olhos só exprimiam amabilidade e afável simpatia, o mesmo que mostrara ao longo de toda a noite. Após o choque inicial do encontro entre ambos, tinha parecido genuinamente contente por o ver de novo, e isso era o que mais o intrigava.

Durante anos tinha atribuído o silêncio dela a ira, zanga, raiva. Mas nada no comportamento dela esta noite revelava isso. Não que Sara fosse pessoa de guardar rancores por mais do que um dia, quanto mais por seis anos e, ele, não estava na melhor posição para se queixar... A calma gentileza dela, porém, punha-o nervoso.

Lutando contra uma inexplicável onda de fúria apontou subitamente para a banheira com um gesto brusco. “Bonita peça”.

Ela cerrou os lábios – divertida, pensou ele – e, de repente, sentiu-se completamente exposto. Ela teria sido sempre capaz de o ver por dentro, para além da barreira que erguera para ocultar os seus verdadeiros sentimentos, e que tudo fizera para tentar esconder dela?

Teve que se forçar para lhe aguentar o olhar.

“É uma banheira de imersão asiática. Muito elegante, segundo achei mas, de acordo com o que me disseram, também muito confortável”. Afastou-se da porta e regressou à suite. Ele seguiu-a, fechando a luz e a porta atrás de si. Abrindo os braços num movimento abrangente ela indagou, “Então?”

“Então?”

“Quer a suite?”

“Sara... quer realmente que eu fique aqui?”

A pergunta pareceu surpreendê-la. “Claro. Porque não havia de querer?”

E, de repente, ele compreendeu que os motivos dela não eram pessoais. Sara era uma mulher de negócios que tinha, obviamente, investido muito dinheiro nesta suite e que, portanto, queria que ela se começasse a pagar o mais depressa possível. Fosse ele ou outra pessoa não importava. Isso não lhe interessava.

Foi uma sensação profundamente dolorosa.

Respondeu-lhe secamente. “Pensei que talvez se pudesse sentir pouco-à-vontade”.

“Quer dizer por causa do nosso... passado?”

Ele concordou.

“Grissom –“. Ela suspirou levemente e abanou a cabeça a sorrir. “Ouça. Passaram seis anos. Já fomos amigos. Gostava de pensar que podemos voltar a sê-lo”. E, então, como se tivesse ela própria chegado subitamente a uma conclusão, abriu muitos os olhos e o sorriso desvaneceu-se. “Oh, você acha que se vai sentir desconfortável. Mas, ouça, eu já não vivo em função de si, se é isso que o preocupa –“

“Não é, acredite”.

Ela estremeceu visivelmente com o tom seco da voz dele, mas continuou como se não tivesse notado. “Se prefere manter-se à distância, compreendo perfeitamente”. E, rápida e despreocupadamente, acrescentou logo “Já estou habituada”.

Ele controlou-se para não lhe responder à letra e contou mentalmente até dez. Entendia que ela só pretendera aliviar o ambiente mas, dadas as circunstâncias, era a pior coisa que lhe podia ter dito. Tinha-a procurado exaustivamente por seis meses depois dela se ter ido embora. Tinha recorrido a todos os seus contactos, telefonado para todos os laboratórios do país, incluíndo o FBI, tinha-lhe enviado inúmeros emails – a que ela nunca se tinha dado ao trabalho de responder... Podia ter andado de mochila às costas num país do terceiro mundo, mas continuara com acesso ao email. Ela própria o confirmara ao jantar. Fora assim que tomara conhecimento da morte da mãe – através de um email do irmão. Ele tinha optado finalmente, há muito, por ficar longe dela, e por boas razões, mas, na realidade, fora ela que cortara todos os laços. “É melhor regressarmos antes que o Billy envie um pelotão à nossa procura”.

Ela riu-se. “Tem razão”. Apagou as luzes e ele seguiu-a pela escada abaixo. “Sobre o quarto, Gris, a sério, compreendo se preferir não ficar com ele. Mas posso esperar uns dias enquanto pensa no assunto. Nesta altura do ano, de qualquer maneira, o máximo que pode aparecer é um ou outro hóspede para uma única noite. As pessoas costumam reservar com meses de antecedência quando se trata de estadias prolongadas”. Segurou a porta ao fundo da escada para o deixar passar e depois virou-se para a fechar à chave. E, enquanto caminhavam pelo corredor, deu-lhe um leve encontrão, a brincar. “Se decidir ficar, prometo que não vou aparecer no seu quarto a meio da noite só para espreitar”.

Ele lancou-lhe um olhar de esguelha, esperando conseguir esconder o desconforto. “Muito engraçada”.

“Sou assim”.

Ela enfiou pelo último lance de escadas que levava ao ré-de-chão com um passo mais ligeiro e, por um instante, ele recordou-se da jovem que tinha conhecido em Berkeley. A jovem que ela era antes de chegar a Vegas – a pedido dele. A bonita, confiante e alegre jovem que fora antes dele, de forma egoísta, lhe ter esmagado o espírito, destruindo a pouco e pouco as mesmas coisas que mais o tinham atraído nela.

Sara era novamente feliz; até parecia gostar dele como tinha gostado ao princípio, e ele devia sentir-se grato por isso. No entanto, enquanto a seguia até ao terraço, ao encontro de Dan e Billy, deu por si a desejar que ela se sentisse um pouco menos feliz. E odiou-se a si próprio por isso.

“O Billy já está a dormir”, disse Dan saindo para o terraço e estendendo a Gil um balão de conhaque.

Ainda era cedo, cerca das dez da noite, mas Dan não quisera manter Sara acordada mais tempo, já que tinha que se levantar às cinco e meia da manhã para preparar o pequeno-almoço dos hóspedes. À excepção dos doces, que comprava na padaria local, tudo o resto era preparado por ela. Segundo Dan, bastante requintado, de acordo com a classificação de cinco estrelas que Summerhouse ostentava. Stephanie chegava às oito para ajudar a servir e limpar e regressava às duas da tarde para tratar dos quartos. Mas era Sara que tratava pessoalmente de tudo o mais, inclusive algumas trabalhos de jardinagem mais leves.

Gil apreciara que a noite tivesse terminado cedo. Tinha muitas coisas para processar. Teria preferido até retirar-se imediatamente para o seu quarto e só voltar a aparecer de manhã, mas Dan tinha insistido numa última bebida. E recusar estava fora de questão. Não só teria sido indelicado como só iria adiar a inevitável conversa sobre Sara.

Dan acendeu um charuto e deu umas fumaças antes de se recostar na confortável cadeira de repouso colocada em ângulo com a de Gil no amplo terraço. O intenso aroma do charuto chegou às narinas de Gil; não era desagradável. Recostando-se igualmente, respirou fundo e, por uns momentos, ambos ficaram calados, saboreando a excelente bebida, só com o som dos grilos de Provincetown Harbor a cortarem o silêncio – e Sara a encher-lhe os pensamentos.

“Então ela assistiu a um dos seus seminários”. Como se sentisse uma certa relutância em perturbar a paz da noite, Dan falou suavemente. Mesmo assim, Gil ficou imediatamente tenso.

“Sim”.

“Como tenho as minhas dúvidas de que você estivesse a ensinar técnicas para manter besouros quietos enquanto eram fotografados, diria que Sara tem mantido alguns segredos”.

“É mais que óbvio”.

“É tudo o que tem a dizer?”

“Esses segredos não são meus, não fui eu que os mantive. Tem que perguntar à Sara”.

Dan olhou para ele por um instante. “Sim... Tem razão”. Moveu-se e esticou as pernas. “E quanto aos seus segredos? Quer falar neles?”

“Porque é que acha que eu guardo segredos?”

Dan riu-se. “Os médicos têm que ser tão bons observadores como os CSIs, Gil. Há muito pouca coisa que me escape. Por exemplo, o tempo que se demorou naquele quarto esta noite”.

Gil retraíu-se. Gostava de poder saber se estava a falar com o amigo interessado ou com o amante ciumento. Uma parte dele sentia verdadeira necessidade de ouvir uma perspectiva diferente e de confiança acerca da sua relação com Sara, como acontecera frequentemente com Catherine, embora fingisse que não. Mas se estava a lidar com o amante ciumento tinha que ter muito cuidado com o que podia e devia revelar. Se fosse esse o caso, duvidava que Dan reagisse bem à verdade.

Decidiu-se por não responder. Afinal Dan não lhe tinha feito uma pergunta directa. Limitara-se a uma simples observação. Agitou o líquido dourado do balão e levou-o aos lábios, engolindo o resto do conhaque. Um longo suspiro refrescou o fogo que lhe queimou a garganta. “Tem mais disto?”, perguntou levantando-se.

“Na bancada da cozinha. Traga a garrafa”.

Gil regressou meio-minuto depois, tornou a encher os copos e tapou a garrafa. “Você tem bom gosto em conhaque e mulheres”, observou enquanto colocava a garrafa em forma de lágrima no chão, entre os dois. Não era um comentário inocente e, modo nenhum, provocado pelo belíssimo Courvoisier Vintage de Dan. Tinha até quinta-feira para resolver se ficava em Summerhouse pelo resto do Verão e precisava de mais informações antes de tomar uma decisão. E uma coisa era certa. Nada o convenceria a lá ficar se Dan e Sara estivessem romanticamente envolvidos. Só a simples idéia pesava-lhe no estômago como uma bola de chumbo.

Dan ergueu a cabeça. “No que diz respeito a ‘mulheres’, parto do princípio que se refere à Carol?”

“A quem havia de ser?”

Dan abanou a cabeça. “Então tenho que concordar nos dois aspectos”. Levantou o copo, observando o líquido dourado à luz difusa que vinha da cozinha. “Conhaque, Carol...”. Com mais uma fumaça, soprou na ponta brilhante do charuto. “E não esquecer um bom charuto”.

“É o charuto que vai acabar por matá-lo”, brincou Gil, consciente de que se estavam a afastar do assunto.

“Todos temos as nossas fraquezas”.Olhou de relance para Gil enquanto sacudia a ponta do charuto no cinzeiro de pé que tinha ao lado da cadeira. “Quais são as suas? Ou é mesmo preciso perguntar?”

Tentando ganhar tempo, Gil bebeu mais um pouco de conhaque e ergueu o balão ao nível dos olhos. Olhando para o líquido, respondeu “Andar de montanha-russa e... Sara”. Olhou directamente para o amigo. “Não necessariamente por essa ordem”.

“Ah... Finalmente lá estamos a chegar a qualquer lado. Não há nada como um bom Courvoisier para soltar a língua”.

“E um bom amigo”. Gil levantou-se e foi até à porta de tela. Enquanto olhava para fora, observando as luzes do porto ao longe, preparou-se para a pergunta que tinha que fazer. “Qual é a sua relação com ela?”

“Já lhe disse ontem à noite”.

Ele virou-se e encarou o amigo. “Sei o que me disse, mas ainda tenho algumas dúvidas”.

Dan deu mais uma fumaça no charuto, devagar, e soltou o fumo. “Quer saber se eu dormi com ela”.

“Sim”.

“Não lhe vou mentir e dizer que nunca pensei nisso ou que nunca houve momentos em que poderia ter acontecido, mas não, nunca dormi com ela”.

Gil soltou um longo e silencioso suspiro. Sentindo-se fraco de alívio, voltou para a cadeira e sentou-se inclinado para a frente, passando os dedos pelo cabelo. “Okay”.

Dan observou-o por um momento. Depois apagou o charuto no cinzeiro. “Há uma grande história entre vocês os dois. E isso não é segredo nenhum. Percebi isso no mesmo minuto em que você a viu. Mas – e vou usar linguagem que você, como escritor, deve apreciar – é como se eu tivesse chegado ao grande momento decisivo no final do capítulo, quero virar a página para descobrir o que acontece a seguir, mas a página não está lá”.

“É uma longa história”.

Dan deitou a mão à garrafa e serviu. “Temos a noite toda”.

Tendo já bebido bem mais do que a sua média num único dia, Gil olhou para o copo, hesitante. Lembrava-se bem da última vez em que se permitira confraternizar livremente com a garrafa. Tinha sido a 31 de Dezembro de 2005. Tinha celebrado a véspera de Ano Novo em casa, com uma garrafa de Bourbon e a ver filmes antigos na televisão. Cinco minutos antes da meia-noite, tinha mudado para um canal que estava a transmitir directamente de Times Square em Nova Yorque. Despejara o resto do Bourbon no copo, verificara o email uma última vez e, enquanto “Auld Lang Sine” lhe entrava pela sala dentro, brindara à sua resolução de Ano Novo e apagara o enderenço de Sara do seu computador. Um gesto simbólico – há muito tempo que o tinha memorizado – mas nunca quebrara essa resolução.

Por muito tentadora que a ajuda da bebida lhe parecesse esta noite, a lembrança da última ressaca fê-lo pousar o balão na mesa, ainda cheio. Apoiou a cabeça nas costas da cadeira e fechou os olhos. “Ela trabalhava comigo”.

“Como CSI?”

“Sim”.

“Então... o que é que aconteceu?”

“Ela demitiu-se e foi-se embora”.

“Porquê?”

Gil virou lentamente a cabeça para olhar para Dan. “Não sei bem, não tenho a certeza. Houve cortes no orçamento e eu ia ser obrigado a prescindir de um dos membros da minha equipa. A Sara nunca esteve sequer em questão, tinha antiguidade. O mais recente, o Greg, era a única escolha lógica e toda a gente sabia isso. Tinha sido o nosso técnico de DNA e queria tanto passar para CSI que aceitou o corte de salário para mudar de carreira. E era bom, aprendia depressa. Eu detestava a idéia de ter que prescindir dele e deixá-lo ir, mas acabei por não precisar de o fazer. A Sara ofereceu-se para ser ela a sair”.

“Abdicou da carreira por causa dele?”

“Ela gostava muito do Greg e não tenho dúvidas de que essa tenha sido uma das boas consequências da demissão, aos olhos dela, mas não creio que o que tenha feito por ele. Disse que já há uns tempos que se andava a questionar sobre a escolha de carreira que tinha feito e que o corte orçamental era uma boa oportunidade para se ir embora sem causar problemas à equipa”.

“Não tentou dissuadi-la?”

Ele suspirou. “Tentei. Apresentou-me várias outras razões para se ir embora”. Gil esboçou um sorriso amargo. “Que não posso mencionar sem divulgar os segredos dela”.

“Correcto. Mas você disse que não tem bem a certeza das verdadeiras razões porque ela decidiu ir-se embora. Julga que possa haver ainda outros motivos, além dos que lhe apresentou a si?”

“Cerca de uma semana antes de ela se ter demitido, um dos membros da nossa equipa foi raptado e enterrado vivo. Conseguimos encontrá-lo mesmo a tempo. Mais uns minutos –“ Gil passou a mão pela cara. “De qualquer modo, foi muito duro para todos e afectou cada um de nós de diversas maneiras. Foi um acto de vingança contra os CSIs, muito bem orquestrado. Aquele louco colocou pistas de um suposto crime e esperou que qualquer um de nós aparecesse. Calhou ao Nick”. Remeteu-se ao silêncio enquando recordava o medo, a raiva, a impotência mas, principalmente, a culpa. “Colocou uma câmara no caixão para nos obrigar a assistir enquanto ele sufocava até morrer. E, por mais preocupado, furioso e impotente que eu me sentisse, não conseguia deixar de pensar que podia ter sido ela”.

“Então já tinha mais do que uma relação profissional com ela”.

Gil soltou um leve sorriso triste e desanimado. “Não antes daquela noite”. De repente o terraço tornou-se demasiado pequeno e sufocante. “Preciso de apanhar ar”, disse enquanto se levantava e caminhava impaciente para a porta de tela. A praia, banhada pelo suave luar, atraía-o. “Vou dar uma volta”.

Dan levantou-se igualmente e espreguiçou-se. “Okay. Vou deixar a luz acesa para quando você regressar. Eu vou-me deitar. Podemos continuar esta conversa quando você achar melhor”.

“Certo. Boa noite, Dan”.

A praia estava deserta na ponta oeste de Provincetown e igualmente silenciosa, à excepção do suave rumor das ondas a bater na areia. A costa era protegida por um longo quebra-mar ao fundo do qual ficava Long Point Beach. Durante o Verão que aqui passara de visita à família de Melanie, Gil tinha caminhado muitas vezes ao longo do caminho de areia do paredão até ao farol de Long Point. Melanie tinha-o acompanhado uma ou outra vez, mas geralmente ia sózinho, ou com Dan. Já mesmo quando jovem estudante universitário preferira o isolamento de Long Point à agitação do Verão de Provincetown. Melanie não compartilhava o seu amor pela solidão. Ele gostava de olhar para as estrelas, calmos passeios e ficar de mãos dadas a apreciar o suave movimento das ondas. Ela gostava de estar no centro das atenções, das loucas festas na praia regadas a alcóol, de carícias à frente de todos e de quase públicas rapidinhas na cabine aberta do barco de qualquer um dos amigos ricos.

Ela chamava-lhe viver. Ele chamava-lhe uma perda de tempo. Ela tinha-lhe dito que ele não era normal. Ele limitara-se a encolher os ombros. No fim daquele Verão louco tinham acabado amigavelmente concordando que as diferenças eram irreconciliáveis. O único afectado pela ruptura tinha sido Dan.

Do outro lado do porto, a luz intermitente do farol de Long Point lembrou-o de que já se tinha afastado o suficiente. Voltando para trás, pensou na velha Mrs.Crawford, a avó de Sara. Não tinha uma imagem clara dela, só uma vaga memória. Lábios cerrados em desaprovação permanente, olhos escuros e desconfiados, voz de fumadora. Melanie chamava-lhe Mrs.Crabapple (Maçã Azeda).

Só tinha falado com ela uma vez. Ela estava cá fora, no jardim da frente, a tratar de uma roseira, a única planta que não deixava continuar a crescer sem cuidados. O solo à volta estava limpo e era escuro e rico, enquanto tudo o resto estava coberto de ervas daninhas que tinham tirado a força e beleza ao jardim. Ele tinha-se interrogado sobre o significado da roseira. Curioso, já nessa época, mas, acima de tudo, interessado no comportamento humano, tinha parado para a elogiar sobre a roseira. Ela tinha erguido a cabeça, dera-lhe uma rápida vista de olhos e apontara-lhe a tesoura de podar, com os punhos a agitarem-se na sua direcção enquanto falava.

Sei muito bem quem você é. É o que anda por aí de volta da miúda dos Colton. Conheço muito bem o seu tipo.

E que tipo é esse, minha senhora?

Ela voltou a tratar das rosas. “Cães. Todos vocês. Predadores.”

Ele tinha-se ido embora calmamente e, daí para a frente, tinha-se mantido longe dela.

Perguntava-se agora se Sara alguma vez teria visitado a avó quando era criança. Naquele Verão deveria andar pelos sete ou oito anos. Tentou recordar-se de imagens de uma miúda de cabelo escuro encaracolado na velha casa, mas não se lembrava. Gil nunca tinha acreditado no destino, num grande plano para além do controlo ou poder humano que pudesse determinar grande parte da vida de uma pessoa. Mas quais eram as hipóteses de, vinte anos mais tarde, ter vindo a conhecer a neta de Mrs.Crawford a dois mil e quinhentos quilómetros de distância, do outro lado do país? Que ela o fascinasse? Que se apaixonasse por ela, a perdesse, e a voltasse a encontrar a viver ao lado do seu melhor amigo? Seria pura coincidência, ou...

Intervenção divina?

Rindo-se de si próprio – a sua fé sempre tinha residido na ciência – apressou o passo e, sem intenção consciente, deu por si no portão das traseiras de Summerhouse. Havia uma luz no pátio que não tinha visto quando lá estivera anteriormente. Vinha duma zona à direita do terraço, quase oculta pelos arbustos atrás do pequeno lago de peixes. Esticou-se para ver melhor e, por entre a folhagem, lá estava ela – uma visão estendida numa espreguiçadeira. Vestida com um curto roupão branco, a longa e pálida coluna da garganta e as maravilhosas pernas brilhavam sob a suave luz do pátio.

Com uma mão no portão, Gil ficou bastante tempo a olhar – a lutar contra a vontade de ir ter com ela. Nada tinha mudado, pensou. Continuava dividido entre o seu desejo por ela e a necessidade compulsiva de se proteger. Praguejou baixinho. Que cruel ironia do destino decidira que ele tinha que passar novamente por esta agonia?

Rangendo os dentes, largou o portão.

“Tenciona ficar aí toda a noite?”

Ele estremeceu – e depois ficou muito quieto, sentindo-se meio aborrecido e meio aliviado por a decisão lhe ter sido tirada das mãos, mas também um pouco envergonhado por ter sido apanhado a espreitá-la. Respirando fundo, abriu o portão e percorreu o caminho de pedra até à casa, atravessando depois por cima de um pouco de relva viçosa e rodeando o pequeno lago para chegar ao pátiozinho que ficava por detrás.

“É tarde. Pensei que já estivesse a dormir”. Era só uma mentira inofensiva.

“Devia”, respondeu ela suavemente. “O que é que anda a fazer por aí a estas horas da noite?”

“Fui dar um longo passeio”.

“Hum, hum... Esta parte da praia é muito sossegada à noite. Foi até Fisherman’s Wharf?”

Ele abanou a cabeça. “Só até ao farol de Long Point”.

“Ah...Claro,você conhece bem a zona. Já cá tinha estado”. Moveu as pernas para um dos lados da cadeira, deixando espaço para ele. “Não se quer sentar?”

Ele olhou para o relógio. “Não tem que se levantar daqui a cinco horas?”

“Não preciso de muitas horas de sono”.

“Algumas coisas nunca mudam mesmo”.

Sara respondeu com uma sobrancelha erguida e um rápido sorriso. E, logo a seguir, “Traga uma cadeira ali do terraço, se prefere”.

“Está bem assim”. Gil sentou-se devagar na borda da cadeira, encarando-a. Inclinou-se para a frente e pôs as mãos entre os joelhos. “O Dan tinha perguntas a seu respeito”.

Sara suspirou. “Já calculava que tivesse”.

“Porque é que nunca lhe contou nada?”

“Acredita que nunca calhou?” Ele lançou-lhe um olhar de dúvida. “Não lhe menti. Ele partiu do princípio de que eu era fotógrafa e eu limitei-me a não o esclarecer”.

“Porquê?”

Os lábios dela curvaram-se de um modo encantandor. “Menos perguntas”.

“Huum”. Gil calou-se, divertido com a não muito subtil mensagem dela. Também ele tinha uma longa lista de perguntas que queria – precisava – de ver respondidas, mas que podiam esperar por agora. De qualquer modo, estava muito mais interessado no que ela tinha vestido para estragar o momento com perguntas desagradáveis. Agora de perto, via que o curto roupão era semi-transparente e bordado com rosas brancas de um brilho muito delicado. Estava casualmente atado na cintura e as lapelas ligeiramente abertas deixavam entrever a camisa de dormir de cetim branco que usava por baixo e o decote em V que descia até aos seios. O tecido devia ser muito macio e agradável de tocar, pensou, tão macio e suave como a pele dela...

Só quando ela cruzou os braços sobre o peito é que se apercebeu do que tinha estado a fazer. Ergueu os olhos e fitou-a directamente. Os dela continuavam suaves – gentis, mesmo quando o observava e ele interrogou-se se ela sentiria qualquer arrependimento ou mágoa.

Outra questão que nem se atrevia a perguntar-lhe.

Respirou fundo e pausadamente, tentando abrandar o ritmo cardíaco. Exigiu-lhe um grande esforço, com ela tão perto que lhe podia sentir o calor – cheirá-la, aquela fragrância especial que se misturava com o aroma das várias roseiras a florescer num dos lados do pátio. Pigarreando, concentrou-se nas rosas.

“Falei com a sua avó uma vez”.

“Eu sei. Ela não foi muito simpática”.

Espantado, voltou a olhar para ela. “Como é que sabe?”

“Estava a ver”. Ele ficou de boca aberta em silêncio. “E também me conheceu a mim – mais ou menos. Eu não sabia o seu nome e, até hoje à noite, nem sequer sabia que era você”.

Ele abanou a cabeça. “Tem a certeza? Quase podia jurar que não havia aqui mais ninguém”.

“Eu estava dentro de casa a espreitar pela janela da casa-de-jantar. Não podia ouvir o que ela estava a dizer, mas percebia que não era agradável. Lembro-me de como ela lhe apontou a tesoura de podar. Tinha a certeza de que o ia magoar. Estava tão zangada com ela. Eu tinha-lhe dito que você tinha sido muito simpático comigo e foi isso que a deixou furiosa. Não voltei a ter autorização para sair do pátio até os meus pais me virem buscar uns dias depois”.

Gil sentiu um arrepio a subir-lhe pela espinha. Afastando a estranha sensação, disse “Chamou-me umas quantas coisas, pouco simpáticas”.

Sara teve uma expressão um pouco envergonhada. “A minha avó era esquisita, meio-maluca. Nem sequer a conhecia até àquele Verão. Nunca a tinha visto. E então os meus pais deixaram-me aqui para irem a uma conferência da Associação de B&Bs em Boston. Não foi a melhor altura da minha vida”. Lançou-lhe um olhar indecifrável. “Olhando para trás, também não foi a pior”.

“Ah, Sara. Que pena, não – Como é que nós nos conhecemos?”

Ela sorriu enquanto ia recordando. “Você estava a jogar Frisbee na praia – provavelmente com o Dan”, pensou um pouco e depois encolheu os ombros. “Eu estava escondida atrás de uma duna, a chorar, porque uns miúdos da vizinhança me tinham chamado feia. A certa altura, o Frisbee veio cair aos meus pés e, quando você o veio buscar, quis saber o que é que se passava comigo. Não se foi embora até eu lhe contar. Nunca me esqueci do que você me disse”.

“O que é que eu disse?”, perguntou ele docemente.

Ela afastou os olhos por uns instantes, corando profundamente. “Disse que eu não devia ligar ao que aqueles miúdos diziam porque não faziam a mínima idéia do que era beleza nem que tropeçassem nela todos os dias. E depois disse que eu era a miúda mais bonita que você já tinha visto. Nunca mais me esqueci, porque foi a primeira vez que alguém me disse que eu era bonita”.

Sara olhou para outro lado e o coração de Gil quase parou. Sentiu a garganta dolorosamente seca e apertada. No passado, tinham surgido vários momentos em que quisera segurá-la e abraçá-la tão desesperadamente que até o corpo lhe tremia. Tal como agora, e teve que lutar contra isso – com a mesma força de sempre.

A expressão dela suavizou-se, de repente, e sorriu sonhadoramente, continuando. “Passava horas sentada no portão das traseiras à espera de o ver passar. E uma vez consegui. Estava com uma jovem da sua idade. A Melanie, provavelmente. Iam de nãos dadas e ela era tão linda que percebi que me tinha mentido. Mas fiz de conta que não e agarrei-me a essa fantasia durante muito tempo”.

“Não menti”.

Ela retorquiu com um sorriso divertido, “Nem sequer se lembra”.

“Pois não, e quem me dera lembrar-me, mas tenho a certeza de que fui sincero e disse a verdade porque você continua a ser a mulher mais bonita que alguma vez conheci”.

Sara pestanejou surpreendida e qualquer coisa estremeceu dentro de ambos. Mas, logo a seguir, ela largou uma gargalhada profunda. “Bom, Dr.Grissom, vê-se que ainda não perdeu o seu charme”, disse olhando para o relógio. “Está na altura de ir dormir um pouco. As cinco e meia da manhã já não estão longe”.

Ele sentiu uma onda de desapontamento. Podia passar o resto da noite a falar com ela. “Desculpe. Não devia tê-la incomodado até tão tarde”.

“Não teve culpa nenhuma”, respondeu Sara, levantando-se. “Gostei mesmo de o reencontrar, Grissom, e , olhando para trás, até é um pouco... assustador, não acha?”

“Hum”. Bem mais do que só um pouco assustador, pensou ele. Ainda se sentia profundamente confuso e perturbado com tudo o que tinha sucedido desde aquela tarde, e sobretudo com o que ela tinha acabado de lhe contar. Queria calar aquela voz na sua cabeça que repetia ‘destino’ e não conseguia. “Decidi ficar com o Quarto do Sotão. Se continua a querer-me por cá”.

“Claro”. Ela pareceu vagamente surpreendida. “Fica pronto na quarta-feira”.

“Vou ficar com o Dan mais uns dias. E depois tenho que ir a Boston buscar o resto das minhas coisas... portanto, não devo estar de volta antes do próximo fim de semana”.

“Está bem”.

“Boa noite, Sara. Durma bem”.

“Obrigada. Igualmente”.

Esperou que ela chegasse ao quarto dela antes de se ir embora. Bom, está feito, pensou enquanto se encaminhava para a sua própria cama. Quem sou eu para tentar fugir à mão do destino?

TBC



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