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Neve Vermelha
Disclaimer: Remete aos, hmm, dez capítulos anteriores.
File #11
A Promessa
No princípio, não sentiu a dor.
Deixou os olhos criarem raízes no lugar onde a figura – surpresa, assombrada, intensa – de Naru estivera segundos antes. Ou seriam horas? Não saberia dizer. Assim como não podia sentir o frio, o medo, e a dor, todos os estados de corpo e de espírito que forçam o ser humano a reconhecer a passagem do tempo. Naquele instante, para Mai, o tempo não importava. Sua vida não importava. Só conseguia reviver repetidamente o momento em que aquele olhar de cobalto iluminara com o entendimento, com a realidade.
Podia até imaginar o que ele havia pensado na hora da decisão. Certamente teria ratificado sua opinião a respeito da burrice de sua "noiva", sem sombra de dúvidas. Mas não importava. Qualquer seja a classificação que Oliver Davis reserva para Taniyama Mai em sua mente super desenvolvida, a verdade era que agora ele tinha certeza de que ela o amava, pura e simplesmente.
Mai teria rido da reação dele, se não tivesse plena consciência de que estava jogando para o alto todas as chances que tinha de... Bem, de viver, "feliz para sempre" ou não. Quase pôde escutar uma voz macia e familiar chamando-a de "idiota".
Tornou a dar conta de si mesma quando sua visão, antes embaçada pelo frio e pela tristeza, ficou dolorida e enregelada. O vento, que antes estivera domado, agora açoitava a garota suspensa em fitas de seda vermelha, congelando as lágrimas que não tinham sequer a chance de escorrer pelas bochechas. Junto ao ardor da ventania, Mai conseguiu situar uma lentidão estranha tomando conta de seus sentidos.
Seu pescoço não parecia mais capaz de sustentar a cabeça. Não conseguia se mover, mas ainda assim notou o corpo pesado e um cansaço irrefreável assomando-se a cada minuto. Lutou contra a sensação durante um momento antes de se ver desistindo sem nem mesmo saber por quê. A cabeça castanha pendeu em direção ao chão, e os olhos ressequidos foram saudados pela mancha vermelha na neve do altar.
Sangue. Meu sangue.
Foi só então que seus sentidos resolveram reclamar do desconforto daquelas amarras de seda que prendiam sua circulação. Sem mencionar os cortes transversais abertos em seus punhos suspensos. A mente desorientada de Mai ponderou se teria ou não ferido os tendões antes da garota gemer quietamente.
O carmim que pintava o branco estava aumentando gradualmente, despertando a menina de seu torpor. Lutando contra o corpo que não respondia, Mai ergueu a cabeça e encarou a miko pairando, etérea, em meio à nevasca que se formava.
- Logo não haverá dor. Não haverá nada. – a voz de Sayuri soou suave e cansada, mesmo o espírito da sacerdotisa estando com uma flauta nos lábios, tocando sem parar.
Os ouvidos de Mai, que até aquele momento estiveram zumbindo e deixando a dona alheia a todos os ruídos do templo, voltaram a escutar: os sinos nas pontas das fitas vermelhas, a ventania que os fazia dançar. E a música, é claro. A música para a neve.
- A música... Que você tocou para Yuki. – Mai soou rouca, como se houvesse descoberto de repente que podia falar.
Os olhos negros da flautista abriram e focaram no rosto do sacrifício. Pareceram muito antigos e sem nenhuma esperança.
- É por isso que você a toca. Porque foi o dia em que se conheceram.
Mai ficou subitamente ciente de que soava fraca, como se estivesse sumindo. Também notou que sua língua estava pastosa, e seu raciocínio seguia cada vez mais lento. Demorou a perceber que todas as outras noivas – todos os outros sacrifícios – agora cercavam o altar, flutuando como espíritos de neve ao redor de sua futura companheira.
No entanto, conseguiu reagir quando dedos frios abriram sua mão direita e começaram a puxar o anel. O anel de noivado, que estava preso antes.
- Não! – grasnou, aguda e desesperadamente, fechando os dedos para manter o aro de ouro velho no lugar onde Naru colocara, dias antes.
Os olhos, todos os olhos fixaram nela, sóbrios e sentenciosos. Mai ergueu seus próprios orbes castanhos, suplicando.
- Não. Esperem. Deixem que eu fique com ele. – as lágrimas já nasciam frias e rapidamente formavam trilhas de gelo no rosto cada vez mais pálido da garota. – Até o fim.
As noivas aprisionadas não se moveram. Não pareciam menos tristes e sem esperança do que antes, mas não tentaram retirar o anel novamente. Elas sabiam que não iria demorar muito. Também sabiam ter todo o tempo do mundo.
Além do mais, o conceito de "até que a morte nos separe" parecia bem plausível para todas elas.
Mai fechou os olhos com força quando notou que eles estavam falhando. Talvez fosse pior esperar pela morte no escuro, mas se sentia mais reconfortada com o anel de noivado entre seus dedos apertados. Como Sayuri dissera, já não tinha mais noção de dor ou das fitas impiedosas, e a nevasca agora parecia uma brisa de primavera.
Embalada pela flauta que tocava para o Inverno, a garota se deixou perder a consciência. Afinal, sonhar era o que sempre fazia quando estava em maus lençóis. Mesmo se não acordasse novamente.
Até o fim.
Como pesquisador de fenômenos paranormais, Oliver Davis já enfrentara situações de todos os graus de periculosidade em seus dez anos de experiência. Maldições diretas, fantasmas vingativos, espíritos da natureza com tendências megalomaníacas - podia listar muitos casos onde estivera atolado até o pescoço em posição decididamente fatal. Sobrevivera a todos eles, mas não sem antes resolver os casos e geralmente salvar a vida de quase todos os envolvidos.
Desde o início, sabia que a investigação de Yukihime também se enquadraria como uma situação possivelmente mortal para o SPR. Mas estivera confiante, até aquele momento, de que poderia contornar o problema antes dele evoluir para um caminho sem volta. Já tinha feito isso inúmeras vezes, e sempre desvendava o mistério, cedo ou tarde. Sempre podia fazer alguma coisa a respeito, qualquer que fosse.
Mas agora sentia um punho gelado fechar sobre sua garganta, porque sua mente direta e pragmática não tinha nenhum plano, nenhuma resposta. Estava vazia como um grito silencioso.
Era a segunda vez que aquilo acontecia.
Você estará lá.
Na primeira vez, estivera em casa, remexendo no armário de Gene, quando vira o irmão mais velho ser atropelado uma, duas vezes, e depois ser arrastado para afundar em um lago, morto.
Você estará lá.
E agora, aquela garota, aquela completa idiota, escolhera morrer por um motivo ainda mais idiota do que ela, e ele não pudera fazer nada. Ela estivera ali, à sua frente, frágil e desesperada, e ele não pudera fazer nada. De novo.
Todos vão morrer um dia, ele sabia. Mas não daquele jeito. Não desse jeito. E não alguém que ele conhecia e podia...
A sensação de impotência era ainda pior do que fora quando Gene morrera, porque ele havia remoído aquilo por anos. Decidira nunca mais ficar tão incapacitado diante de algum problema que fosse de seu interesse. Especialmente quando o problema em questão estava intimamente ligado a uma decisão sua.
Você estará lá.
Sim, eu estarei lá.
Especialmente quando se tratava de uma promessa.
- Naru!
Oliver piscou, finalmente vendo os portões de madeira à sua frente. Não tentou abri-los ou empurrá-los. Sabia que estavam hermeticamente fechados.
- Naru, o que aconteceu? – Houshou exclamou, chocado, ao seu lado. – Logo após você encostar no altar tudo... Por Buda, eu pisquei um segundo e já estava aqui fora!
Se britadeiras nem mesmo arranhavam aquelas portas durante o ritual, a barreira da miko era de área e cobria todo o perímetro do templo. Ninguém havia tentado invadir pela parte do lago, mas ele não teria tempo para experimentar. Apesar dos braços de Mai estarem um pouco inclinados para cima naquele emaranhado de fitas, a pulsação arterial seria suficiente para fazê-la perder sangue demais em apenas alguns minutos.
Se ela ficasse sem dois terços do plasma sanguíneo, teria muito pouco sangue circulando pelo corpo. O frio e as fitas amarradas fariam o resto do trabalho.
- Então a música começou a tocar – Yasuhara completou, sério. – Assim que o shoushou apareceu aí.
O primeiro passo seria, obviamente, abrir um rasgo na barreira.
- Oi, Naru, você está ouvindo? – o monge chacoalhou os ombros do rapaz, frenético.
Naru abriu a boca para cortar o comportamento desesperado de Takigawa quando um grito estridente veio de trás. Os três viraram para ver Ayako subir as escadas de pedra que ligavam o templo à casa principal da família Morinozuka. A julgar pelas roupas leves e os olhos arregalados, a miko viera do quarto onde estivera trancada com Mai e correra até o templo para dar a notícia que Shibuya Kazuya descobrira da pior forma possível.
A ruiva começou a falar antes mesmo de chegar ao último degrau. Masako, John e Lin seguiam-na de perto.
- Mai desapareceu! – ela praticamente vomitou as palavras. – Pouco depois de dizer que não estava conseguindo tirar o anel. Ela... Foi... Dentro de um espelho, nunca tinha visto nada assim...!
O resto do grupo explodiu logo em seguida.
- O QUÊ?
- Matsusaki-san, você tem certeza?
- Dentro do espelho? Mai desapareceu dentro de um espelho?
Naru interrompeu sua linha de raciocínio para virar e encarar o grupo.
- Calem-se. Ficar discutindo na porta do templo não vai fazer diferença alguma. Estaríamos apenas repetindo o que outros provavelmente já fizeram antes, nesse mesmo lugar. – ele comentou, friamente.
- Não é possível que você vá ignorar Mai—
- Bou-san, Mai está dentro do templo, prestes a ser sacrificada. Cada segundo que você perde se descontrolando desse jeito é um segundo a menos na expectativa de vida dela.
Houshou e todos os outros que estavam prestes a tecer algum comentário deixaram um silêncio ansioso tomar conta do grupo. A quietude só durou os instantes suficientes para que Noll decidisse o que fazer.
- Bou-san, Matsusaki-san, Brown-san e Lin. A barreira da miko já está erguida, a porta é o único ponto que nós vamos poder explorar. Os quatro vão ter que enfraquecer a kekkai por tempo o suficiente para que a porta seja aberta.
Dessa vez foi Lin quem interferiu, furioso.
- O que você está pensando em fazer, Noll? Explodir a porta com PK? Ter você se suicidando agora não vai adiantar em nada!
A resposta de Oliver foi menos exaltada, mas tão cheia de fúria quanto a do chinês.
- Mai já está lá, Lin. O ritual começou. Não existe nenhuma outra forma de invadir esse lugar além dessa, porque nós não temos tempo para planejar nada.
- Então você pretende destruir as portas, entrar e enfrentar centenas de espíritos.
- Se você tiver outra solução, sinta-se livre para compartilhá-la conosco. – sem esperar a resposta, Naru se virou para os outros membros do SPR. – Formação quadrangular. Brown-san e Lin nas margens do lago, perto da traseira do templo; Matsusaki-san e Takigawa-san aqui na frente, esquerda e direita da entrada. Comecem a atacar a barreira em exatamente quatro minutos.
John acenou com a cabeça uma vez e correu pela esquerda para alcançar a margem do lago que ficava na traseira do templo. Lin observou Noll por um momento antes de seguir na direção oposta.
Ayako tirou a fita branca que usava nos cabelos e correu para apanhar um dos galhos que enfiara próximo ao templo na primeira tentativa de exorcismo. Amarrou o pedaço de pano na rama e se posicionou à direita da entrada, fechando os olhos para se concentrar.
- Naru, mesmo que você abra a porta, não sabemos se todos nós vamos conseguir entrar! E você sabe que o PK acaba com o seu corpo tão rápido que—
- Bou-san, eu conheço os meus limites. Mai não pode esperar.
Houshou parecia prestes a retrucar, mas com um muxoxo e uma maldição que monges não deveriam ter permissão para pensar – e muito menos dizer – o homem correu para ficar no último vértice que restava no quadrado formado pelos principais exorcistas da SPR.
Naru se voltou para a porta, movendo os braços para que Yasuhara e Hara-san se afastassem dele. Antes mesmo de começar a concentrar a energia, já sentia o poder cru circulando com ferocidade.
Lin tinha toda razão: estava prestes a concretizar uma idéia suicida. Logo ele, Oliver Davis, cientista idiota para os íntimos, agindo como um kamikaze. Imaginou que Gene deveria estar achando a situação bastante irônica, estivesse onde estivesse. Noll com certeza achava.
Um baque surdo à sua esquerda fez com que Naru olhasse de relance para o lado. Takigawa praguejava, tendo escorregado a alguns metros de distância do templo e se chocado diretamente com a parede pintada de vermelho.
- Maldito córrego congelado, de todos os lugares onde poderia estar...
O córrego que corria para dentro do templo. Por alguma razão, aquela informação persistiu entre as sinapses desenfreadas de Noll, interferindo em sua concentração. Córrego. Água. Gelo. Reflexo.
Reflexo.
- Yasuhara. – o rapaz chamou, dirigindo-se ao local onde Takigawa permanecia estatelado, resmungando. – Me ajude a tirar a neve de cima disso.
Houshou ainda reclamava quando Oliver e Yasuhara começaram a tirar a neve prístina acumulada sobre a superfície congelada do pequeno riacho. Tão pouca água passava por ali que toda ela estava congelada sob a superfície, mas não era água que Naru procurava, exatamente.
- Naru, o que você está fazendo?
A neve afastada revelou o gelo escorregadio. A mão desluvada de Noll estava insensível depois que ele finalmente terminou de polir a superfície congelada do riacho. Os olhos azul-cobalto exibiram um brilho duro de triunfo quando se depararam com seu próprio reflexo na água solidificada.
O reflexo, por sua vez, sorriu parcialmente e olhou de volta com muito mais paciência do que Oliver Davis jamais poderia ter. Noll ignorou as perguntas indignadas de Houshou e murmurou.
- Aí está você, Gene.
Ninguém além de Oliver pôde escutar a resposta, assim como ninguém além dele podia notar que o reflexo não era exatamente um reflexo.
"Você vai precisar acumular bastante, dessa vez, Noll", a voz de Eugene parecia distante, muito diferente das conversas telepáticas que os dois mantinham quando o irmão mais velho ainda era vivo. "Então é melhor começar logo".
- Não preciso que você me diga isso, idiota.
Foram as últimas palavras ditas antes que o Noll concentrasse todo o fogo líquido que sentia sob a pele e o canalizasse nas mãos espalmadas sobre o gelo. Do outro lado, Gene esperou.
Quando Mai reabriu os olhos, estava observando o templo sob outra perspectiva. Momentos antes – momentos esses que pareceram eras – tivera a distinta noção de estar presa sobre o altar do templo Morinozuka. Quando desistira de lutar contra a letargia que se assomava em seu corpo lacerado, a última imagem que guardara na mente fora da neve vermelha alguns centímetros abaixo de seus pés suspensos e descalços. Nesse momento, tinha uma visão ampla e privilegiada de quase todo o templo.
No entanto, isso não significava que estava livre da situação pavorosa em que se metera, obviamente.
- Mai.
Ótimo, agora estava até mesmo escutando vozes, já que acabara de ter a impressão de ouvir alguém a chamando.
- Mai.
A menos, é claro, que alguém realmente estivesse chamando seu nome. A voz parecia muito com a de Naru, mas possuía uma qualidade morna que ela aprendera a identificar depois de dois anos de experiências aleatórias com sonhos que nunca eram exatamente sonhos.
- Gene?
O templo coberto de branco moveu-se como uma pintura estragada quando ela tentou virar para encontrá-lo. Foi assim que Mai percebeu exatamente onde estava: o torii vermelho que guardava a entrada do templo. Olhou para baixo e viu seus pés descalços, bem como as linhas vermelhas do sangue que escorrera de seus pulsos para pingar por entre seus dedos. Achou estranho.
Geralmente, quando sonhava assim, participava ativamente das memórias. Se não estava representando uma personagem, deveria estar usando roupas confortáveis. Uma yukata ensopada de sangue não poderia ser classificada como confortável, não é?
Olhou para as próprias mãos e viu que as fitas vermelhas, as mesmas que vira suspendendo seu corpo entre as quatro árvores do altar, ainda estavam enroladas em seus membros – tornozelos, cintura, tronco, braços e mãos. Não estavam apertando, mas estavam lá, contrastando vivamente contra o tecido branco e a pele anormalmente pálida. As mãos trêmulas abriram a fecharam à sua frente, chamando sua atenção para os rasgos verticais nos dois pulsos.
Foi nesse momento que Mai percebeu que estava brilhando como os espíritos que visitavam seus sonhos.
- Você não está morta. – a voz de Gene respondeu à pergunta que se formara instantaneamente na mente da garota. – Ainda.
Forçando-se a erguer os olhos dos rasgos que borbulhavam sangue mesmo dentro do sonho, Mai encarou Gene, exasperada.
- Então, por que eu estou parecendo tão morta quanto, perdoe a comparação, você?
Talvez por já estar morto há muito tempo, Gene conseguiu dar uma risada rouca.
- Você está no Meio.
Rolando os olhos diante da resposta bastante esclarecedora – muito obrigada, Gene, por escolher esse momento para parecer o seu irmão – Mai virou o rosto na direção onde deveria ficar a cidade de Yukihime. Arregalou os olhos quando não viu a cidade, e sim o vilarejo que conhecia das memórias da sacerdotisa Sayuri. O pôr-do-sol brilhava no horizonte, manchando a neve de vermelho, e a vila parecia anormalmente quieta.
- Os seus sonhos, todos eles, estão no Meio. Você sempre veio aqui, sem qualquer impedimento, mesmo não pertencendo a esse lugar.
Voltando-se para encarar Gene, Mai franziu o cenho, lentamente. E se perguntou se não estava passando muito tempo com Naru e Masako já que, tecnicamente, não deveria ficar tanto tempo com aquele tipo de expressão.
Ah, que se dane. Se o que estava acontecendo agora era o que ela achava que era, não teria de se preocupar com rugas de expressão.
- Então, dessa vez, eu não estou sonhando.
Gene sorriu. Não foi o sorriso zombeteiro de sempre, mas sim o sorriso triste de Naru. Mai relembrou sua própria tristeza e sentiu vontade de dar um tapa na própria testa.
- Você já deve ter ouvido falar do Sonho de Morte.
- Na verdade, não. – a garota respondeu, com uma careta. – Mas o nome me parece bem óbvio.
Dessa vez, o rapaz riu e balançou a cabeça.
- Algumas pessoas sonham antes de morrer. Deliram, para ser mais exato. Às vezes, vêem algo a respeito de suas vidas, ou mortes. Mas, como você é você, o seu sonho é uma memória.
Ao terminar de falar, Gene apontou para dentro do templo. Mai virou a cabeça e olhou para onde ele estava apontando. O altar do templo. Mas não era o corpo de Mai que estava suspenso e sangrando.
- Sayuri.
A cabeça da miko estava pendendo para frente, os longos cabelos negros escondendo sua expressão. A veste branca e vermelha que ela usava estava cheia de manchas quase negras que Mai demorou a classificar como sangue. A pele pálida da moça era azulada, quase roxa, contrastando com o sangue coagulado.
- O sol já está se pondo. Ela já está morta há algum tempo. – a voz de Gene acrescentou, distante.
Mai notou que o grupo de pessoas, as mesmas que estiveram recitando mantras enquanto a mulher se debatia, naquele outro sonho – não, na lembrança que vira pelos olhos de Naru, momentos antes - estava desamarrando o corpo dela. Outros homens com roupas cerimoniais estavam erguendo a pedra do altar.
Mai apertou os olhos, observando enquanto eles empurravam a rocha coberta de neve e do sangue de Sayuri. Imaginou se era assim que ela estaria quando Mai morresse, também.
- O que eles estão fazendo?
- Selando.
A garota estava prestes a se virar para seu guia e perguntar o que, exatamente, estavam selando, quando, viu o sacerdote, o monstro que havia matado a própria filha com um sorriso no rosto, murmurando apressadamente. Nas mãos grandes e enrugadas, o velho segurava a pequena bolsa onde Mai sabia estar a pulseira de coral vermelho despedaçada. A bolsa estava pendurada em um colar de contas negras.
O corpo de Sayuri estava solto das árvores, agora, mas não livre. As cordas que ainda prendiam seus membros estavam dando voltas em seu corpo. Os membros da cerimônia continuavam recitando mantras enquanto posicionavam o corpo rígido dela e enrolavam, enrolavam... Mai desviou o olhar.
E viu porque os sacerdotes haviam movido o altar.
No lugar onde a pedra estivera, havia um leito de madeira enterrado, como uma tumba infantil. O corpo da miko provavelmente caberia ali dentro depois que terminassem de amarrá-los. No centro da urna, Mai notou que havia um ofuda amarelado, com alguns kanjis que ela teve dificuldade em decifrar.
- Yuki... Yuki... Hime. Yukihime. Princesa da Neve.
Então, tudo fez sentido. Enquanto os asseclas do sacerdote depositavam o cadáver dobrado no leito de madeira – que, Mai notava agora, tinha manchas escuras do sangue que escorrera pela pedra antes de congelar – o sacerdote se aproximou e pendurou o colar de contas negras no pescoço da filha. O pacote com a pulseira de coral escorreu pelo tronco dela, até descansar no estômago. E tudo fazia sentido.
Aquela não era uma maldição contra a cidade. Não era nem mesmo direcionada às noivas apaixonadas. Não, aquele feitiço havia sido feito para Sayuri, e apenas para ela. Uma punição, transformando a miko altruísta em uma colecionadora de almas, fadada a repetir a história de sua morte, várias e várias vezes, enquanto a neve caísse sobre a cidade.
- Conhece a lenda da Yuki-onna, Mai?
A garota acenou, lentamente. O grupo agora estava cruzando por cima da urna algo semelhante às shide usadas por Ayako durante os rituais. Ao que parecia, estavam querendo selar ainda mais a única saída do espírito que estavam aprisionando.
- O espírito da neve...?
- Sim. As histórias às vezes falam de uma mulher muito bonita, de cabelos longos. Às vezes ela mata os humanos perdidos nas nevascas, e às vezes ela os guia para a segurança, se forem boas pessoas.
Mai arregalou os olhos.
- Por acaso ele estava tentando transformá-la em um espírito da neve?
O sorriso enigmático de Gene retornou, fazendo Mai se questionar, novamente, como havia sido capaz de confundi-lo com Naru. O chefe do SPR nunca sorria daquele jeito. Para falar a verdade, ele quase nunca ria de forma alguma.
O que tornava os raros sorrisos de Naru ainda mais preciosos, mas, não era hora para pensar nisso. Ou talvez seja a única hora em que vou poder pensar isso, do jeito que as coisas vão indo.
- Mas... Ela não está agindo como uma Yuki-onna...
- Toda maldição é influenciada pela pessoa que a executa e por aqueles que são atingidos. Esse homem tentou prender a alma da miko nesse lugar, transformando-a em um espírito guardião. Mas ela era poderosa demais para se dobrar diante desse tipo de ritual, então, ele precisou de uma maldição.
Mai estreitou os olhos, encontrando o pequeno pacote com a pulseira, que agora estava escondido entre as roupas amarrotadas da sacerdotisa.
- O ofuda para transformá-la em um espírito guardião e um feitiço...
-... Usando a pulseira como intermediário. Exatamente.
As sobrancelhas castanhas da garota formaram um ângulo infeliz em sua testa.
- Essa não é uma combinação muito boa.
Os sacerdotes logo terminaram de remexer na caixa de madeira e começaram a empurrar a pedra. Mai remoeu o que havia descoberto, um tanto angustiada. Se Sayuri fora transformada em um tipo de Yuki-onna, fazia sentido seu espírito só se manifestar durante o inverno, quando nevava. Isso provavelmente influenciava em sua força, se as histórias que escutara de Ayako tivessem algum fundo de verdade.
Conflitando com isso, a maldição do sacerdote estava intimamente ligada à natureza humana na miko. Se havia entendido direito, o que quer que ele tivesse feito com os restos da pulseira exigia que ela ficasse presa ao templo, sem nunca poder seguir adiante. Uma guardiã com poderes assustadores, e a escolha que ela havia feito...
Ou seja, todo o ritual havia se misturado de uma forma bem complexa e acabou se tornando algo muito maior do que o velho queria.
- Mas ele foi esperto. – Gene comentou, novamente. – Também deixou bem claro, durante o ritual, que ela não poderia jamais machucar o clã Morinozuka. Ele deve ter achado que ela se tornaria o espírito guardião da família, mas não levou em conta o que o tempo faz a um espírito rancoroso.
Quando o altar finalmente retornou ao lugar original, Mai quase pôde escutar os gritos desesperados da alma acorrentada por baixo da pedra. Encarou a rocha coberta de neve maculada por muito tempo, até sentir seu acompanhante puxá-la pelo cotovelo.
- Hora de sair daqui, Mai. Ou você não vai conseguir voltar.
A cena ao redor dos dois foi escurecendo cada vez mais, até se tornar novamente aquele lugar nenhum que sempre intercalava seus sonhos e memórias. No escuro nebuloso, a figura de Gene brilhava ainda mais.
Infelizmente, Mai notou que seu corpo parecia brilhar quase tanto quanto o dele, agora.
- Acho que não adianta mais, ne? - a garota respondeu, embaraçada. De todas as coisas que eu podia sentir antes de morrer...
Gene piscou. Depois riu.
- Do que você está falando? – a imagem dele foi se tornando cada vez mais brilhante, enquanto ele ria satisfeito. – A cavalaria chegou.
Enquanto Gene sumia, o escuro deu lugar ao clarão que Mai passara a associar com o despertar de sua consciência. A primeira coisa que conseguiu discernir, depois disso, foi um estrondo, tão forte quanto uma trovoada.
Mai tinha um pouco mais de um metro e meio e, apesar de alguns comentários maldosos que Hara-san fizera a respeito do peso dela, Naru sabia que sua assistente não era muito pesada. Dada a posição dos braços dela da última vez que a vira, sabia que o sangramento dependeria muito da pressão arterial, já que o corte estava inclinado para cima. Estava nevando, e a garota só estava vestindo roupas leves, então, a temperatura diminuiria bastante o ritmo dos batimentos cardíacos.
Talvez demorasse um pouco mais de meia hora para que ela perdesse mais de 40% de seu volume sanguíneo, nessas condições, e entrasse em uma hemorragia de classe quatro. No entanto, o frio também estava fazendo parte desse jogo – as chances de Mai entrar em choque hemorrágico eram tão altas quanto a possibilidade de hipotermia.
Noll se permitiu apenas dez minutos de preparação antes de correr para a porta do templo e apontar as mãos para a entrada selada.
- A barreira enfraqueceu. – Hara-san comentou, em algum lugar à sua direita. A voz geralmente apática dela parecia ter uma ponta de ansiedade. – Mas não o bastante.
Suas mãos agora queimavam com o poder concentrado, mas Noll sabia que estava no controle. Gene havia refinado todo o PK cru que o irmão mais novo lhe passara pela superfície refletora do gelo, e aquele fogo incontrolável que provavelmente teria queimado os neurônios de Oliver agora estava fluido e manuseável.
As chances de aquilo dar certo subiram consideravelmente. Ainda assim, eram muito baixas.
- Não importa. – Noll retrucou, mais para si mesmo do que para Masako.
Primeiro, concentrar. Depois, dar forma. A porta de madeira do templo, antes do torii vermelho, era dupla, então, Noll precisava cortá-la no meio.
Erguendo as mãos pálidas para o alto, o rapaz sentiu a força pulsando por todo o corpo antes de imaginá-la estreita e afiada como uma espada. Quando desceu os braços em um movimento cortante, sentiu a resistência por um átimo antes da kekkai ruir como um castelo de areia. O impacto reverberou pelo céu da manhã como um relâmpago.
Sem esperar nem um segundo a mais, Naru correu pela entrada do templo.
A pressão de todos aqueles espíritos unidos era inacreditável. Elas estavam formando um círculo ao redor do altar, silenciosas, enquanto o fantasma quase sólido da miko tocava uma flauta diante do sacrifício.
Mai estava no mesmo lugar onde a vira pela última vez, mas o corpo pequeno dela se tornara mais pálido do que a neve que se acumulava em seus cabelos castanhos. E os rasgos – os dois cortes que desciam verticalmente pelos pulsos amarrados – estavam abertos, vermelhos. A yukata branca da garota tinha enormes manchas escuras nas laterais, e a neve...
A neve estava vermelha.
Noll imaginou uma onda gigante atingindo aquele círculo sinistro e sentiu o poder saltando de sua pele para fazer a mesma coisa. Sem parar para se certificar de que o caminho estava realmente livre, o rapaz correu até o altar e visualizou uma chuva de fogo rompendo as fitas carmim que mantinham Mai suspensa sobre a pedra.
As amarras estalaram e romperam; Naru se apressou em evitar que o corpo inerte da menina batesse com muita força no chão, segurando-a pelos ombros e cintura. Tentou não pensar muito em como estava gélida, e em como parecia uma boneca quebrada. Para seu azar, nem mesmo teve tempo para isso.
Os espíritos silenciosos estavam de volta às suas posições originais, e o poder absurdo da sacerdotisa estava expulsando o ar dos pulmões do invasor.
- Ela já tomou a decisão. Você não pode fazer nada.
Noll não pôde deixar de concordar com aquela voz sentenciosa. Sua mente estava raciocinando loucamente em busca de uma solução pragmática para aquele impasse – sair dessa cidade antes que Mai sangre até a morte e evitando uma horda de espíritos vingativos amaldiçoados no processo – mas não estava tento muito sucesso. A única coisa que estava impedindo que a miko continuasse o sacrifício era o poder que ainda circulava pelo corpo do cientista.
No entanto, ele já estava arfando. Não demoraria muito para ficar esgotado. O que era muito incomum para Oliver Davis, a pessoa que sempre tinha um plano para tudo.
Um gemido quase imperceptível vibrou na base de seu pescoço, e Naru esqueceu completamente do que estava pensando.
- Mai—
Ela estava viva. Ela estava viva.
A cabeça castanha da garota moveu com letargia. Ao que parecia, ela não era capaz de mover os outros membros do corpo para se apoiar. Noll ignorou a miko e todos os outros malditos espíritos para tentar erguê-la pelos ombros e visualizar o rosto descorado.
Os olhos castanhos estavam opacos, mas entreabertos. A boca branca e ressecada abriu e sussurrou palavras tão fracas que Noll quase não conseguiu entendê-las.
- A... Cavalaria... – Mai disse, obviamente desnorteada.
- O que você está dizendo, idiota? – Noll sibilou, aliviado demais para agir de qualquer outra forma.
Mai piscou devagar e fez um esforço descomunal para firmar a cabeça e encarar os olhos escuros do chefe da SPR. Naru percebeu que ela queria dizer alguma coisa, mas não estava conseguindo. A qualquer momento, iria perder a consciência de novo e, do jeito que as coisas estavam, era provável que voltasse para sua posição de vítima imolada acima do altar.
Foi então que a garota inclinou a cabeça para frente e roçou os lábios rachados nos de Naru.
Se estivesse com tempo para pensar mais claramente, o doutor Oliver Davis teria armazenado a informação de que, por alguma razão, sua assistente de meio-período havia acabado de usar uma mistura de psicometria e telepatia por contato para passar uma mensagem. Como a situação exigia um pouco mais de objetividade, Naru apenas absorveu as cenas que começaram a surgir em sua mente como um filme pausado. Um ritual. A pulseira de coral em um saco fechado. A urna selada sob o altar.
E agora, Noll tinha um plano.
A cabeça de Mai pendeu para o lado, escorregou até a junção do ombro esquerdo de Naru e não se moveu mais. Sem sair de sua posição ajoelhada na neve, o garoto encostou contra a pedra do altar a mão que não estava segurando o corpo dela.
Empurre.
A rocha manchada de sangue voou contra a parede. Noll se sentiu estranhamente satisfeito com o barulho de pedras se chocando e desmoronando.
O céu parou de nevar. O vento morreu. E os espíritos do templo pararam de pressionar Naru, em expectativa. O rapaz se moveu um pouco para alcançar a urna com cheiro de morte antiga, um pouco surpreso diante do que podia ver lá dentro.
Um emaranhado de ossos, enrolados no que deveria ter sido uma posição fetal, estava depositado no meio da caixa de madeira. O frio conservara parcialmente as roupas vermelhas e brancas da sacerdotisa, e as cordas ainda pareciam fortes, prendendo um corpo a muito tornado pó. Mas o que o surpreendeu não foram os restos mortais de Morinozuka Sayuri, e sim inúmeros objetos acumulados ao redor da ossada.
Alianças de ouro, leques de seda ou papel, pentes polidos, enfeites de cabelo, colares e pulseiras... Inúmeros itens forrando o leito fúnebre da miko. Reconheceu alguns deles pelas descrições contidas nos artigos que lera a respeito das vítimas. Todos os objetos que representavam o compromisso das noivas, todos eles, estavam ali.
Mas Noll estava procurando um deles em particular.
Com cuidado, aproximou a mão livre do emaranhado de cordas e ossos que um dia fora Sayuri, e afundou a mão entre os farrapos de tecido até retirar o colar negro que segurava o amuleto da pulseira de coral vermelho.
Destrua.
As contas negras estouraram e se espalharam pelo chão coberto de neve. A música da flauta finalmente parou de tocar, deixando um silêncio anormal descer sobre o templo.
As mulheres translúcidas e melancólicas que circundavam o altar pareceram surpresas antes de desaparecerem como fumaça. Noll sentiu a kekkai do templo desaparecer por completo, mas não baixou a guarda e deixou o PK pulsando em suas veias quando se virou para encarar a sacerdotisa.
Ela parecia incrédula, seu espírito quase sólido flutuando sob a luz difusa da manhã de inverno.
- Estou... Livre?
Uma sobrancelha escura ergueu-se elegantemente no rosto inescrutável de Noll, mas ele não respondeu. A miko olhou para Mai, confusa, antes de tornar a encarar o chefe da SPR com uma expressão que refletia a dele.
- Parece que eu me enganei em relação a você. – ela comentou, suave. Seu corpo já não parecia mais tão nítido. – Ela vai ter uma grande surpresa.
A imagem etérea de Sayuri desvaneceu enquanto flocos de neve tornavam a descer do céu. Oliver teve a impressão de ouvir uma última nota de flauta antes de direcionar toda sua atenção à figura morbidamente pálida de Mai.
Gritos – Bou-san, Matsuzaki-san e talvez uma ambulância – cortaram o silêncio sepulcral enquanto Naru tentava sentir o pulso cada vez mais lento da garota e pensava nos piores palavrões que conseguia lembrar.
- Você está bem? – Takigawa perguntou, sem esconder sua preocupação.
Ayako ergueu o lenço que estava usando para esconder os olhos da iluminação excessiva naquele hospital – por que aquelas paredes tinham que ser tão brancas e brilhantes? – para olhar a expressão ansiosa do monge. Suspirou, impaciente, e tornou a vendá-los.
- Eu sou uma mulher adulta, peso mais de cinqüenta quilos e tenho uma alimentação bastante saudável. Claro que vou ficar bem. – ela sibilou em resposta, mas suas palavras não tinham o veneno habitual. – Não é a primeira vez que eu dôo sangue. Minha família é dona de um hospital.
- Mas você cedeu bastante sangue, agora.
A ruiva soltou um muxoxo, se remexendo na cadeira reclinável onde as enfermeiras haviam acomodado-a antes de forçá-la a engolir dois copos de suco de... Alguma mistura insípida e horrenda.
Se não estivesse tão zonza, teria perguntado a receita daquela gororoba para se certificar de que jamais tornaria a tomá-la.
- Claro que sim. O que você esperava, que eles furassem o meu polegar e espremessem as gotinhas?
Houshou ignorou a resposta e continuou a falar, no mesmo tom exasperado.
- Por que diabos o hospital dessa cidade não tem um Banco de Sangue decente? Quero dizer, se as pessoas costumam morrer por hemorragia no Inverno, o mínimo que poderiam fazer seria reabastecer o estoque.
- Maa, bou-san. Andei pesquisando sobre e, ao que parece, aquela vítima que morreu quando chegamos à cidade ainda tinha alguns sinais vitais quando foi levada até a ambulância. Eles usaram boa parte dos sacos de sangue Tipo B com ela. – Yasuhara informou, empurrando os óculos pela base do nariz. – A propósito, não estou nada surpreso com o tipo sanguíneo de Mai-san. Na verdade, seria possível defini-lo sem qualquer tipo de exame químico, porque estava bem óbvio.
O monge latiu uma risada.
- Oi, Yasuhara, para um estudante de medicina, você está confiando demais em uma coisa abstrata como essa. – Houshou exclamou, balançando a cabeça.
John encarou os colegas, confuso, de sua posição no sofá da Sala de Recuperação. Masako estava quieta como uma estátua, ao seu lado, e não parecia atenta à conversa. O padre decidiu perguntar diretamente.
- O que vocês querem dizer com isso? – questionou, os lábios franzidos.
Yasuhara assumiu seu ar de "contador de histórias" antes que Takigawa pudesse responder.
- Brown-san conhece o Horóscopo do Zodíaco que é popular no ocidente, ou mesmo o Horóscopo Chinês do oriente, certo? Como algumas pessoas definem personalidade e comportamento através deles? – o padre balançou a cabeça afirmativamente, e o rapaz continuou sua explicação. – Por aqui há o costume de fazer a mesma coisa com o tipo sanguíneo da pessoa.
- Por exemplo, - bou-san assumiu, com um sorriso torto no rosto. - a Mai é sangue Tipo B: otimista, independente, amorosa, sensível, criativa, cuidadosa e compreensiva. Valoriza a liberdade acima de tudo, é pragmática e não sabe separar a diversão do trabalho.
Para cada item, o monge ergueu um dedo das mãos, como se estivesse contando.
- E acima de tudo, emocionalmente instável. – Yasuhara finalizou, erguendo as sobrancelhas em apreciação.
Nos instantes seguintes, todos mergulharem em um silêncio contemplativo. E em seguida:
- Nossa. – John exclamou, balançando a cabeça de novo como se estivesse concordando com o que fora dito.
- Ei, vocês se esqueceram que há alguém aqui na mesma classificação. – Ayako exclamou, um tanto indignada.
- A descrição se enquadra perfeitamente em você também, Ayako! – Houshou riu, recostando na poltrona reclinável.
Masako soltou um ruído que pareceu uma risada de escárnio.
- Pare de me chamar pelo meu primeiro nome! Eu não dei essa liberdade! – a miko retrucou, irritada. – E o que você achou tão engraçado, Hara-san?
- Amorosa...? – a médium respondeu, ocultando parte do rosto por trás da manga do kimono estampado. – Esqueceram de mencionar individualista, curiosa demais e distraída.
John enrugou a testa, concentrado, enquanto a sacerdotisa e Masako prosseguiam a discussão, agora levando o assunto para as características do tipo sanguíneo da garota. Encarando o monge e o universitário com a curiosidade de um cientista diante de uma nova hipótese, o padre relaxou no sofá pela primeira vez desde que entrara naquela sala.
- Há alguma comprovação científica dessas classificações? – perguntou, os olhos azuis brilhando com interesse.
- Nah. – Takigawa balançou a mão direita diante do rosto, desacreditando a teoria. – O ketsueki gata, que é como nós chamamos o "Horóscopo de Sangue", não tem nenhum embasamento em pesquisas genéticas.
- Tão confiável quanto astrologia, amuletos da sorte e kokuri-san. – a voz grave de Osamu rebateu, enquanto o rapaz sorria largamente.
O silêncio tornou a pairar entre o grupo.
- O que me leva a questionar qual deve ser o tipo sanguíneo de Shibuya-san?
A boca larga de Houshou entortou em um riso irônico.
- Vejamos, - o monge tornou a erguer as mãos para contar nos dedos. – meticuloso, reservado, cauteloso, sutil, não gosta de ser surpreendido...
- ... Desconfiado, fechado, com poucos amigos, - Yasuhara continuou, sorrindo ainda mais. – disciplinado-
- E perfeccionista. – Ayako finalizou, presunçosa.
E então, os três falaram ao mesmo tempo:
- Tipo A.
- A.
- Tipo A, sem dúvidas.
Os olhos de do sacerdote católico estavam arregalados.
- Vocês têm certeza de que esse horóscopo não tem nenhum apoio da comunidade científica?
- Do que vocês estão falando?
O grupo todo se virou para olhar o recém chegado. Ayako desistiu de cobrir a visão e deixou-se vencer por sua curiosidade. O ar brincalhão que descontraíra o grupo por alguns momentos fora instantaneamente substituído pela ansiedade que os assolara nas últimas duas horas.
Lin estava parado na porta da pequena sala, parecendo cansado e soturno. Estava desacompanhado, mas trazia um papel nas mãos.
- O que aconteceu, Lin-san? Onde está Naru-bou?
- Como está Mai? – Ayako e Houshou perguntaram, simultaneamente.
O chinês suspirou e caminhou alguns passos para ficar dentro do aposento.
- Conseguiram estancar o sangramento; não que tivesse sido muito difícil, considerando o frio e a falta de plasma sanguíneo. – Ayako se encolheu diante das palavras dele, e o monge apertou as mãos, ansioso. – Naru já foi liberado da enfermaria, depois de receber soro por via intravenosa.
Ele passou o papel para que Yasuhara lesse, e completou:
- Algumas queimaduras de primeiro grau nas mãos e nos braços só precisaram de alguns curativos. Não vão atrapalhar muito tempo.
- E Taniyama-san?
Para a surpresa de todos – inclusive dela própria – fora Masako quem fizera a pergunta. O grupo tornou a direcionar todo o nervosismo para o recém-chegado.
- Mai está... Estável. Conseguiram recuperar os membros congelados, pelo menos. – o onmyoji apertou os lábios em uma linha muito fina. – Naru está com ela, agora.
Esse negócio de acordar da morte está começando perder a graça. Se Mai estivera se sentindo mal nos breves momentos em que voltara a si para mostrar a Naru o mecanismo da maldição, aquilo não fora nada comparado a como estava agora. A pergunta totalmente clichê que dizia "alguém anotou a placa do caminhão" cairia bem no momento.
Sentia uma queimação doída em todas as extremidades do corpo – pés, mãos, as pontas dos dedos e do nariz. Era uma mistura de dor e insensibilidade, como quando se segurava cubos de gelo sobre a pele nua. Aliás, ainda estava sentindo muito frio e temia ainda estar no meio da neve.
A perspectiva de voltar à consciência apenas para morrer de novo era muito, muito decepcionante. E cruel. Isso se desconsiderasse a possibilidade de já estar morta. O que seria o mais lógico, já que da última vez que abrira os olhos não conseguira nem mesmo ver.
Engraçado. Sempre que pensara em como seria... Morrer, imaginara que ficaria naquele lugar mencionado por Gene no último sonho, ou o que quer que fosse aquela última visão. O Meio, ele dissera. Não seria tão ruim ter Gene como guia, pensando bem. Mas, já que não tinha parentes e certamente não se arrependia de muitas coisas na vida, talvez não precisasse de guia. Talvez seguisse em frente, para onde quer que seja. Ou talvez...
Talvez ficasse assombrando a cafeteira de Naru, para não deixá-lo em paz. Seria particularmente interessante assistir Masako tentando exorcizá-la.
Entretanto, aquela dor não parecia ser de alguém que já estava morto. Mai não tinha lembrança de nenhum morto reclamando de dor. Ou tinha? Bom, eles certamente deveriam sentir algum tipo de desconforto, já que ficavam gritando, pedindo socorro ou descontando toda a sua raiva no alvo mais próximo.
E como doía. Até as pálpebras doíam. A garota passou uma quantidade imensurável de tempo lutando para que elas abrissem, e pensando que, se pudesse ver, talvez conseguisse definir onde estava, na vida ou na morte.
Quando finalmente abriu os olhos, foi como se derramassem ácido dentro deles. Piscou diversas vezes, o mais veloz possível, tentando se adaptar à ardência. Depois de um tempo, percebeu que aquela luz branca não era fruto do desconforto ocular, e sim o que estava em sua linha de visão.
Ah, maravilha. Um lugar branco. Tão esclarecedor. Tentou manter a calma, e a paciência. Talvez ali não fosse nenhuma localidade espiritual do tipo venha-para-a-luz, mas sim, quem sabe, um hospital.
Foi então que seus ouvidos resolveram acordar e, ao invés de escutar o zumbido que embalara seu retorno à consciência até aquele momento, Mai foi invadida por inúmeros ruídos que ribombaram em sua mente atribulada.
O mais alto deles era um bip, bip em algum lugar à sua esquerda.
Virou os orbes castanhos para aquela direção o mais rápido que conseguiu. Não ousava pensar em mover o pescoço para isso. Estava sentindo uma tensão bastante irritante na nuca e nem queria saber a razão.
Uma máquina quadrada estava piscando em seu campo de visão. Havia um gráfico verde e preto que subia e descia no ritmo de sua respiração entrecortada. Reconheceu aquilo das reprises de Plantão Médico que seu professor gravava toda semana. Certo, então é um hospital. O que significa que eu não morri.
O que significa também que eu vou ter que encarar Naru depois de tudo. Há. Há.
Mai de repente se deu conta de uma dor aguda na curva interna de seu cotovelo esquerdo e, mas que droga, como pudera não ter sentido isso antes! Parecia que alguém havia enfiado alguma coisa fina e comprida por dentro de seu braço, praticamente empalando o membro.
Movendo os olhos para baixo o máximo que pôde, Mai viu que realmente haviam enfiado alguma coisa ali. Não conseguiu ver direito, mas, se o tubo recheado de líquido vermelho fosse alguma indicação, estava recebendo uma transfusão de sangue.
- Se você não se acalmar, as enfermeiras vão precisar sedar você, de novo.
E ao que parecia, o reencontro com Naru – a pessoa para quem Mai havia declarado seu amor suicida há algum, err, em algum momento impreciso do passado – aconteceria mais cedo do que o previsto.
A garota ignorou todas as dores que estava sentindo (e, por Buda ou quem estivesse ouvindo, começara a sentir as mãos, as mãos logo abaixo dos cortes que ela podia quase ouvir pulsando em sofrimento) e tentou mover o corpo para o lado. A resistência que sentira antes no pescoço parecia ser um tipo de travesseiro ortopédico, que cedeu enquanto Mai se reposicionava.
Ele estava sentado, ereto, em uma cadeira branca ao lado da cama. Estava usando um roupão de hospital, o que deixou Mai em estado de alerta.
- Você—
Sua voz saiu rouca, quase inaudível. Ela engoliu em seco e tentou de novo.
- Você está bem? – a última palavra soou como um sussurro, mas Naru não teve problemas em entender.
Fechando os olhos da maneira (im)paciente que costumava fazer quando precisava explicar alguma teoria particularmente complicada para sua secretária atarantada, Kazuya suspirou. Depois os abriu novamente.
Continuavam aquele azul-cobalto, quase negro, que Mai passara a associar ao céu de uma noite clara.
- Mai. – a voz tinha o mesmo tom condescendente de sempre, mas, havia algo diferente. – Você tem dois cortes de treze centímetros da base da mão até metade do braço, e vem me perguntar se eu estou bem?
A voz dele era calma e civilizada, mas a garota sentiu vontade de se esconder debaixo das cobertas. Teria feito isso, se tivesse conseguido mover os braços.
Naru estava furioso. Devia ter imaginado.
- Por alguma razão, seus tendões estão intactos. Você vai conseguir mover as mãos normalmente, depois que as feridas cicatrizarem. – o rapaz ergueu uma sobrancelha. Mai se perguntou se amava ou desprezava aquele gesto tão arrogante e inteiramente Naru. – Seus pés e dedos ficaram congelados, mas também foi possível conter danos mais sérios ou mutilações. Também não ficou em choque hemorrágico por tempo suficiente para ficar mentalmente debilitada, aparentemente.
Mai estremeceu.
- Obrigada – a palavra saiu mais ríspida do que deveria, graças à garganta rouca. – pela informação, Naru. Estou... Muito mais... Tranqüila agora.
Respirando profundamente para repor o fôlego, a garota se perguntou como estava conseguindo ter uma conversa quase normal depois de tudo. Imaginara que ele iria gritar ou, pior, ignorá-la. Mas ali estava Naru: calmo e composto, se ignorasse as bandagens nas mãos pálidas.
- Hara-san confirmou que não há mais nenhuma presença no templo. Nós destruímos o restante da urna abaixo do altar, mas a família Morinozuka disse que vai manter o templo, em homenagem às vítimas anteriores. – ele continuou. Mai achou que seu chefe estava parecendo um robô de verdade, dessa vez, falando daquele jeito mecânico. – Tsukiko-san se encarregou de devolver os pertences das noivas, mas vai deixar no altar as alianças e afins que não puderem voltar para as famílias.
Não que Mai se incomodasse em saber daquilo, mas, aquele momento de relatório estava muito esquisito. Especialmente porque ele continuava encarando a menina com aqueles olhos.
Como se a desafiasse a falar alguma coisa a respeito de um assunto em particular.
- Ela mandou a aliança de Sakurazuka Yae para o ex-noivo. Sano-san apareceu no hospital, ontem à noite, dizendo que seu neto encarara o anel com bastante lucidez, e talvez tenha voltado ao normal.
Como sentia os globos oculares em chamas, Mai fechou os olhos. Tentou não chorar, mesmo tendo alguma noção de que, no fim das contas, não conseguiria derramar uma lágrima – a neve havia secado seus olhos.
- Que bom. – murmurou.
Apenas o bip ritmado da máquina que seguia os batimentos cardíacos ecoou pelo quarto durante os minutos seguintes.
Oliver foi o primeiro a falar.
- Os paramédicos não tentaram tirar a aliança do seu dedo porque estavam com medo de arrancá-lo.
Okay, ela não estava mesmo pensando que ouviria algo assim, naquelas circunstâncias. Não era nem um pouco animador saber da perspectiva de ter os dedos arrancados. Não mesmo. Naru estava precisando urgentemente de uma aula de sutileza.
Pensando bem, ele era sutil, quando queria. Só que escolhia ser cru e direto quando se tratava de Mai.
- E quando tentaram tirar depois, durante a cirurgia, ele não moveu nenhum centímetro. Lin desconfia que foi um presente de despedida da miko.
Mai corou furiosamente.
- Você... Hmm, quer o anel de volta, não é? Eu posso pesquisar alguma forma de, err, exorcizar – a garota teve uma crise de tosse e teve que parar de falar por um momento. Faliou fracamente, quando finalmente conseguiu forçar a garganta de novo. – o meu... Dedo.
Mai abriu os olhos, novamente, e ficou presa no olhar inescrutável de Noll. Lembrou daquele rosto com uma expressão surpresa, depois que ela dissera as palavras fatídicas.
Agora, onde antes não via nada, podia ver uma intensidade atormentada. Ele estava tomando cuidado com o que dizia, como se ela fosse quebrar, como se... Como se acreditasse que aquela menina idiota e sem instinto de auto-preservação realmente, verdadeiramente, o amava.
Sendo Naru, parecia estar analisando a situação como a um espírito desconhecido e perigoso.
Depois do que pareceu uma eternidade, o rapaz levantou da cadeira, devagar, e começou a se virar.
- É seu. – disse, simplesmente.
Mai pensou rápido, muito rápido, enquanto ele caminhava para a porta. Por mais que parecesse tolice, lembrou de uma história boba que lera quando ainda era uma adolescente normal. Falava da linha vermelha do destino, que unia as almas por um único fio. Quase podia sentir a sua fita carmim esticando enquanto a outra ponta dela caminhava sem pressa para a saída.
Queria ver aquela ligação. Queria saber se não havia feito uma grande burrada quando decidira provar que ela existia.
- Ne, Naru.
Feliz por sua voz não ter falhado, Mai observou o doutor Oliver Davis parar diante da porta. Naquela roupa de hospital, ele parecia mais frágil do que realmente era.
Não esperou ele pedir para continuar.
- Você me ama?
Alguma coisa pesada e gelada se instalou no fundo do estômago de Mai. Parecia estranhamente familiar, como a sensação de vida e morte que sentira no momento em que Sayuri pedira que ela escolhesse.
Talvez nunca ficasse mais vulnerável do que estava agora, deitada naquela cama de hospital, a pele descorada confundindo com os lençóis e os cabelos castanhos espalhados pelo travesseiro.
Aos olhos de Naru, Mai parecia alguém que sumiria a qualquer momento. Da última vez, ela quase sumira de verdade.
Foi por isso que ele escolheu ser sincero em sua resposta, desta vez.
- Você me irrita. Mas não a ponto de fazer com que eu me sinta desconfortável. – o tom do discurso parecia incerto, quase surpreso. - Estou sempre propenso a dizer o que você não quer ouvir, para testar suas reações e... Para provar que eu sou muito diferente do meu irmão.
Ele virou de repente, a expressão pensativa, os olhos treinados no rosto pálido da moça.
- E desenvolvi essa necessidade ilógica de querer proteger você até mesmo daquilo que eu sei que você é capaz de lidar. – ele segurou a boca, e depois passou as mãos pelos cabelos.
Mai piscou, sentindo alguma coisa acumular em sua garganta, um sentimento tão vasto que não parecia ser capaz de ficar contido dentro dela. As lágrimas secas ressurgiram tão rápido que ela nem mesmo percebeu.
- Você faz com que eu seja irracional, Mai. Não sei que nome dar a isso.
Bipbipbip-
Bip-bipbipbipbip-
Bipbip-bip-bipbip-
Mai deu uma risada fraca, e deixou as lágrimas escorrerem pelo rosto ressequido.
- Engraçado, Naru. Você acabou de descrever o meu estado de espírito.
Fechando os olhos e sorrindo, Mai deixou sair o ar que estivera prendendo inconscientemente.
- Acho que é isso que chamam de amor.
Ela não viu a expressão gentil que dominou as duras linhas de expressão de Noll quando o rapaz a observou um último momento, antes de sair. Escutou a porta fechar sem ruído, e ficou sozinha, com as batidas aceleradas do próprio coração reboando pelas paredes brancas.
Rezou para que as enfermeiras não viessem sedá-la, ainda; estava se sentindo mais viva do que jamais estivera.
File #11 – Closed
N/A: Perdoem-me pela demora indesculpável. E também por não ter respondido todas as reviews; pretendo me redimir nesse quesito. Enquanto isso, gostaria de agradecer a todos os leitores que tiveram paciência, que mandaram e-mails de incentivo – ou cobrança, hahaha – àqueles que apontaram os erros que deixei escapar... Enfim, muito obrigada pelo apoio durante todos esses meses.
E agora só falta o Epílogo, que eu posto no Sábado! Abaixo estão algumas notas de autoria, a respeito dos termos usados nesse capítulo:
*Yuki-onna é um espírito/demônio do folclore japonês, representada por uma mulher fantasmagórica, de cabelos longos e kimono branco, extremamente bonita. Ela aparece durante as nevascas e, diz a lenda, congela os homens perdidos na neve. Existem diversas versões dessa história; em algumas, ela pode ser bondosa, e em outras, é deliberadamente cruel.
*Ketsueki Gata é o Horóscopo de Sangue. Já perceberam que todo profile de personagem de anime ou mangá sempre inclui "Tipo Sanguíneo"? Isso acontece porque, na cultura popular japonesa, o Ketsueki Gata é o equivalente ao nosso Zodíaco quando se trata de definir personalidades e convivência. É bem legal, vou colocar uns dois links interessantes lá no meu livejournal para quem quiser dar uma lida no seu sangue. (Tentem adivinhar o da Yume).
Ah, Mai é mesmo Tipo B; Naru é Tipo A; Masako é Tipo AB; Lin é Tipo A; Houshou é Tipo O; Ayako é Tipo B (ela doou o sangue aqui, haha); John é Tipo A e Yasuhara é Tipo AB. Se vocês lerem as descrições do horóscopo de sangue, terão uma idéia exata de como essa autora escolheu a dedo esses tipos.
Reviews serão respondidas e consideradas com carinho. Se você não for membro do FF, por favor, deixe o seu e-mail para que eu possa responder.
Yume
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