Help
Home Just In Communities Forums Beta Readers Dictionary Search
: B s . A A A    : full 3/4 1/2   : E E   : Light Dark Misc » Misc. Books » A Rosa entre Espinhos

Josiane Veiga
Author of 43 Stories

Rated: M - Portuguese - Romance/Mystery - Reviews: 56 - Updated: 06-18-08 - Published: 12-02-07 - Complete - id:3924492

A Rosa entre Espinhos

Capítulo XXVIII

FINAL

Por Josiane Veiga

Nota da autora: Lembro que quando terminei o Pilar quase morri chorando. E olha que aquele antigo texto nem foi tão importante para mim quanto a REE! Mas isso é uma característica minha, sou emotiva ao extremo, e em “Últimos capítulos” sempre sinto como se meus personagens estivessem indo embora e eu precisasse me despedir. Enfim... Foi bom enquanto durou! Muito bom, diga-se de passagem! Valeu Mairi e Ian pelas noites acordadas em que vocês me diziam as próximas cenas que eu devia escrever. Obrigada Allan, por ser não só o melhor personagem que já criei como também o que mais amei. Você Hatton, começou autobiográfico, mas depois adquiriu vida própria e nada mais pude fazer a não ser vê-lo crescer e expandir.

Este texto foi talvez um dos precursores em lidar com o estupro de uma maneira séria e real. Nada de beleza, porque violência não é bonito! Só percebi o quanto a REE havia sido lida, quando entrava nos fóruns e via seu nome sendo citado. Foi impressionante! Nunca havia me sentido tão AUTORA quanto desta fez. E isso tudo eu devo aos meus leitores e leitoras que acreditaram na promessa de seriedade que eu daria ao assunto.

Obrigado por você que leu, comentou, criticou e elogiou.

Foram praticamente 7 meses de trabalho intenso em cima de um projeto que “dormia” no meu computador por quase dois anos. Mas assim que o postei na net no dia 02 de dezembro de 2007, eu notei que ele iria ter seus leitores fieis e não poderia mais dormir.

Hoje termino este texto. A expectativa de um “FIM” no final das páginas já me faz fraquejar. Mas REE não pode ser eterna para mim, pois não posso e não devo ficar limitada à Inglaterra quando outros personagens já apareceram na minha cabeça pedindo para que eu lhes dê vida. Mas acredito que será eterna para muitos leitores.

Valeu novamente! Obrigada por tudo! E até a próxima, se Deus quiser!

Josiane Veiga

Ijuí/RS

17/06/2008

A tempestade se intensificou. O uivo do vento mais lembrava um lamento sobrenatural que uma simples ação da natureza. A chuva caia forte, como se o céu estivesse com raiva, e punia a terra ainda úmida da neve que outrora cobria os vastos pátios de York.

E ali estava ela! Uma jovem mulher grávida, vivendo a plenitude do descobrimento da paixão, morando em um castelo que datava muitos séculos, duquesa... todas as características românticas dos sonhos de qualquer jovem.

Fechando os olhos ela relembrou como chegara até lá. Pobre, serva e sem nenhum grande atrativo físico, de alguma forma, foi notada pelo Lord de York. Da menina que limpava os ladrilhos, agora era Mairi McGreggor, a mulher mais rica de todo o condado.

Mas ela iria morrer...

Por quê? Qual fora o grande pecado de sua vida, para merecer tamanho castigo? Aquela noite era programada para ser um pernoitar feliz. Allan devia ter entrado no castelo, corrido até ela e a abraçado. Juntos, ele lhe contaria os dias terríveis que passou na prisão, e então ela lhe acariciaria a face e lhe afirmaria que tudo ficaria bem. Após levar o melhor amigo até o quarto e lhe vigiar o sono por algum tempo, ela iria até o marido e lhe abraçaria, contente por Ian enfim ter visto a verdade.

A dor aguda no ventre lhe trouxe novamente ao presente contrário dos seus desejos. A sua frente, um homem alto, moreno e belo a encarava, num misto de piedade e confusão.

-Achei que fossemos amigos... – ela gemeu.

A dor estava insuportável e Mairi não tinha mais forças para estar de pé. Tentando encontrar um apoio para as mãos, ela aproximou-se da cama. O rapaz a sua frente não fez nada para impedi-la.

-Fomos amigos... –ele confirmou com a voz baixa.

-Então por quê? Já que vai me matar, me dê o direito de saber o motivo...

Benjamin estava visivelmente nervoso. Devia falar?

-Não matei Eleanor por maldade... –ele quis se justificar – era necessário...

-Por quê?

Uma terceira pessoa entrou no quarto. Mairi olhou para a porta e viu Perpetua, séria e fria, vestida de negro e com os cabelos presos.

-O que ela ainda faz viva? – perguntou a mulher mais velha.

-A bolsa estourou... –ele murmurou ao ver a poça de sangue que estava no chão.

-Mate-a logo. Não deixe a criança nascer! –ela gritou.

Assustada Mairi tentou se levantar. Novamente uma contração tomou-lhe toda a parte frontal. Não conseguia se mexer e também não podia controlar os gemidos doloridos.

Benjamin parecia ter pena, mas Perpetua era impassível.

-Vamos logo com isso! – a governanta gritou para ele.

Ao ver o rapaz se aproximando, Mairi se assustou.

-Ben... – o chamando pelo apelido, a parturiente decidiu apelar para os momentos de amizade que tiveram há tanto tempo atrás – não faça isso! Lembra-se de como conversávamos na cozinha? Você me ajudou a ir a Londres e nunca me cobrou nada... Sempre foi meu amigo... não me mate sem ao menos me explicar o motivo.

Aquilo pareceu travar o homem. Ele parou na frente de Mairi, contrariado, como se estivesse obrigado a tomar aquelas decisões.

-Mairi... Mairi... – ouviu seu nome desferido por Perpetua – desde criança esses seus olhos de água encantam qualquer homem. Lembro-me bem do dia que a encontrei atirada na porta do castelo. Tão pequena e indefesa... eu a amei como se fosse minha filha... –ela confessou.

Tentando controlar a dor e o medo, Mairi apertou um travesseiro que estava sobre a cama.

-Se me amou, por que vai me matar? Por que tudo isso? Explique-me, por favor! O que eu fiz de errado?

Apesar da súplica, Perpetua não olhava Mairi. Seu olhar estava longe. Parecia perdido no horizonte.

-Já fui bela como você –ela falou pausadamente – Não! Fui mais bela que você! Era mais bela até que Eleanor – ela tocou o rosto coberto de rugas como se recordasse a pele que um dia, fora delicada como um pêssego - Mas não nasci num berço de ouro. Como você, desde pequena, trabalhei. E mesmo o sofrimento da vida não destruiu minha beleza. Até que eu o conheci.

-Conheceu? Quem? – Mairi perguntou.

-Ian McGreggor, meu finado patrão. Ele era igual na aparência a Ian, o filho, então você pode imaginar o quanto era bonito – Perpetua mordeu o lábio inferior - mas nunca me atraiu! – confirmou séria - Era recém casado com Lady Dorothea, que eu idolatrava como se fosse uma rainha. Eu jamais olharia para ele! – ela virou-se de costas a Mairi e caminhou até a janela aberta, observando a chuva – mas ele olhou para mim.

A última frase fora mitigada por uma dor interior que era quase palpável. A chuva umedeceu o vestido negro da mulher, mas ela parecia não notar.

-Ele me estreitava nos corredores, me fazia gracejos e eu ficava enojada, mas não tinha coragem de contar a minha senhora sobre o que acontecia. Então comecei a procurar outro emprego, mas estava difícil. Escrevi a inúmeros jornais da época, e um dia alguém respondeu. Ele recebeu a correspondência, e esperou a noite chegar, para ir me entregar...

Com uma mão na boca, ela pareceu conter um vômito. Mairi já sentira aquilo antes. Viu sua própria reação à lembrança do estupro, refletida no rosto de Perpetua.

-Senhora Perpetua... – ela gemeu.

Não podia ir até a governanta que a criara porque a dor no ventre era forte demais para que ela pudesse se levantar. Mas queria dizer a mulher sofrida que entendia sua raiva.

-Eu fiquei grávida! Um filho de mãe solteira... O que eu poderia ter feito? – seus olhos encararam Benjamin, que devolveu seu olhar, com amor – Sempre amei você, Benjamin...

Benjamin significava “O filho da felicidade”. Mairi pensou em como era estranho que Perpetua tivesse colocado aquele nome no rapaz. Mas ela compreendeu que a governanta não queria culpar o bebê por algo do qual ele era inocente.

-Amo você também, mãe...

Ela lhe deu um sorriso, mas voltou a olhar Mairi e continuou a relatar:

-Assim que soube da minha gravidez, o falecido Ian McGreggor veio até mim e me implorou perdão. Disse que jamais me tocaria novamente. E de fato, ele cumpriu. Mas o que ele me livrou, obrigou outra mulher a enfrentar. Ellen Hatton era apenas uma criança quando foi pega por ele. Eu tentei impedir, mas ele trancou a porta da cozinha e nada pude fazer... ainda tenho seus gritos ecoando em meus ouvidos...

A contração no ventre de Mairi vinha e ia seguidamente. Naquele momento, a dor cessou e ela pode respirar. Tentava entender a história de Perpetua com igual desespero ao que tentava amenizar a própria dor.

-Benjamin nasceu numa manhã de primavera. Como eu fiquei durante os nove meses trancada dentro de casa, ninguém sabia do meu estado. Lady Dorothea afirmou a todos que eu estava doente, e uma parteira já falecida me ajudou no parto. Assim que a criança veio ao mundo, entreguei-a ao dono da fruteira para que ele a criasse em troca de um dinheiro que eu lhe pagava todos os meses. Você não tem idéia de quantas vezes quis pegar meu filho no colo e não pude... Quantas vezes chorei quando ele vinha me trazer verduras cheio de machucados, pois era agredido pelos pais adotivos que sabendo que eu não podia reagir, descontavam qualquer problema no meu filho!

-Devia ter ido atrás dele! O que importa a opinião das pessoas? O importante era você ficar com seu filho!

-Você diz isso porque é casada! Não sabe a vergonha para uma mulher ter um filho sem pai! Benjamin seria chamado de bastardo... Além disso, não queria que ele vivesse ao lado do duque.

-Foi por sua causa que Allan teve que ir para aquele internato?

-Eu tentei convencer Ellen a tirar a criança, mas ela estava certa de ter o bebê. Já eu me apavorava com a idéia de um maldito sendo criado por McGreggor...- ela começou a falar alto, como se estivesse histérica.

-Maldito?

-Eu não mataria o bebê loiro, mas o duque disse que a criança morrera com a mãe. Como nenhuma criança apareceu no castelo, e nem em Yorkshire, acreditei nele. Não sabia que o bebê e Allan Hatton eram as mesmas pessoas. – as palavras descontroladas e ditas rapidamente demonstravam o tamanho da demência da governanta.

A contração voltara e Mairi caiu de costas na cama, segurando o ventre. As duas pessoas que a acompanhavam no quarto fizeram silêncio, a deixando gemer sem ajuda.

-Ainda não entendo... Por que tiveram que matar Eleanor? –a duquesa perguntou subitamente.

-Antes de Allan Hatton nascer, eu descobri algo...

-O quê?

-Conhece a história da Guerra da Escócia contra a Inglaterra?

-Sim, eu conheço –Mairi confirmou, confusa – o que isso tem a ver com o assassinato.

-Tristan McGreggor foi o nome do homem que traiu De Bruce, fazendo o rei da Escócia quase morrer numa emboscada.

-Eu sei disso... – Mairi disse, baixo – por que me fala todas essas coisas? O que me importa uma guerra que já acabou há tanto tempo?

-Tristan foi amaldiçoado pela traição. Os McGreggors pertencentes à York são descendentes desta praga. De Bruce chamou uma bruxa celta e ela largou um feitiço no guerreiro traidor. “A paz dentro de sua casa nunca mais existiria, mesmo quando a paz chegasse à Escócia”.-Perpetua citou - Lendo os livros das gerações McGreggors você vai descobrir que nenhuma das mulheres que desposaram os varões da família, casaram-se por amor. E muitas delas foram violentadas. Existem diários dentro da biblioteca que comprova o que digo. McGreggor inundou o sangue da Rosa Branca com sua maldição.

-O que quer dizer? Por isso matou Eleanor? Por que a criança seria descendente de uma maldição? Você é louca!

-Eleanor não quis tirar a criança – Benjamin não pode se conter – nos tentamos convence-la, mas ela se recusou. Disse que Ian criaria o filho, já que eu não queria assumir. Ela não entendia que não importava quem criasse, todo o sangue McGreggor deve se romper nesta geração.

-O quê? – Mairi parecia chocada.

-Fui escolhida por Deus para garantir que a geração dos McGreggors não se passe desta. Ian, Allan e Benjamin são os últimos descendentes do maldito Tristan McGreggor! – Perpetua exclamou.

Mairi tentou se colocar de pé, mas não conseguia. Seu bebê iria nascer...

-Você é louca! – ela gritou – Acha que Deus iria pedir para que você sacrifique crianças inocentes?

-Não eram crianças! – Perpetua rebateu– Ainda não haviam nascido!

-Você tenta desculpar sua consciência pesada pensando que não matou vidas, mas se engana! A partir do momento em que foram gerados, existe vida no ventre de uma mulher! Você matou seu neto! Você matou uma criança inocente que estava se formando no ventre de uma mãe!

-Cale a boca! Não me importa a sua opinião! Benjamin nunca mais irá cometer a bobagem de permitir uma mulher engravidar. Ian é um tolo apaixonado que irá se tornar um recluso quando souber que você e seu filho estão mortos e Allan Hatton nunca se encantou com a possibilidade de ter uma família. Você foi à única mulher que lhe fez pensar em mudar de idéia.

-Matando meu bebê e a mim, seus problemas acabam, não? – Mairi olhou Benjamin – como você foi capaz de matar a mulher que lhe amava?

-Eu também amava Eleanor, mas era preciso.

-Preciso? Foi um covarde que não se atreveu a ir contra sua mãe! Não posso acreditar que você não perceba que loucura é esta!

Benjamin começou a chorar. Parecia arrependido, mas tinha receio de magoar a própria mãe.

-Benjamin conhece seu destino desde criança – Perpetua a cortou, mordaz.

-E o colar? Por que roubaram o colar?

-A idéia inicial era de fazer todos acreditarem num latrocínio. Não tivemos a intenção de incriminar Ian. –disse Benjamin.

-Mas então percebemos que Steph Morris desconfiou – completou Perpetua- e escondi o colar no porão. Assim que você e seu filho morrerem, irei embora com Benjamin para o outro lado do mar. O colar vai pagar a dor de todos estes anos!

Naquele momento a porta se abriu. Ian entrou no quarto, lívido por tudo que ouvira atrás da porta. Uma pistola estava em sua mão, e ele a apontou a Benjamin, sabendo que era dele que devia temer um ataque. Perpetua não tinha forças para brigar.

-Minha mãe passou a vida toda a elogiando, Perpetua – ele falou baixo – e eu sempre acreditei que existia algo de bom dentro desta crosta de maldade. Mas não, você é imunda...

Assustado por ter sido pego em flagrante, Benjamin encostou-se na parede fria.

-Sempre amei você Ian... –o moreno disse baixo, ansioso para relatar o que se passava em seu coração –sempre quis lhe contar que éramos irmãos.

Aquilo chamou a atenção do outro. Ian encarou o jovem. O rosto era moreno e as sobrancelhas largas e grossas. Benjamin e Ian eram praticamente iguais, se não fosse a pequena diferença de idade, altura e tipo físico, poderia se dizer que eram gêmeos. Como ele não notara isso antes?

-Como você foi capaz de matar Eleanor?

-Eu não queria...

-Mas matou!

-Ela precisava morrer. Você precisa entender que nosso sangue é amaldiçoado. As crianças geradas por nós serão infelizes...

-Cale a boca.

Ian então olhou a esposa, sentada na cama, que tinha o rosto transfigurado pela dor.

-Mairi... –ele olhou o sangue e se assustou – você está bem? Vou amarar esses dois e chamar um médico – virando-se em direção a Benjamin disse – se você se mexer, sendo meu irmão ou não, juro por tudo que é mais sagrado que mato você!

-Ian, não dá tempo, esta nascendo... dói muito...

Cansada de ser forte, Mairi começou a chorar. Sentia-se uma menina desamparada e sua carne começava a dilatar. A dor era algo atemorizante.

Nesse momento Steph e Allan entram no quarto. Mairi quase chorou de felicidade ao ver o rosto do amigo, e Ian quase riu de alivio.

-Steph... –Ian começou a explicar.

-Já sei o que aconteceu. O mordomo contou tudo...

-James está vivo? –Mairi parecia não acreditar.

-Sim, machucado, mas vivo.

Allan estava boquiaberto ao ver o estado da amiga. Foi se aproximando devagar, e por fim, lhe deu a mão. Tudo que ouvira lhe trouxe muita dor. E pensar que Mairi podia morrer lhe fez tremer.

-Estou aqui Mairi... –ele disse baixo, beijando-lhe a testa suada.

-Estou vendo –ela sorriu – o bebê vai nascer.

-É o que parece – ele respondeu afoito.

Naquele momento, envolta pelos braços do melhor amigo e sob os olhos do marido, ela até esqueceu Benjamin e Perpetua, que olhavam a tudo, num misto de contrariedade e culpa. E foi exatamente assim, quando toda a cena parecia sob controle, que Perpetua mostrou que tinha uma pistola na mão. Rapidamente ela apontou a Mairi, mas Ian puxou o gatilho da sua antes.

O estrondo foi ouvido em todo o castelo. Mairi agarrou-se a Allan e os dois viram o corpo da governanta cair morto, sobre o chão.

Era a segunda morte dentro daquele quarto.

-Mãe... – a voz de Benjamin ecoou nos ouvidos de Ian.

Steph e o Lord observaram o jovem correr até o corpo da mulher. Pegando-a no colo, ele chorou alto.

-Mãe... Não me deixe sozinho...

Mairi também caiu no choro, e a dor que antecedia o parto misturou-se ao luto. Perpetua era uma louca, mas havia lhe cuidado a vida toda. Era o mais próximo que ela conhecia da palavra “mãe”.

-Mãe! – Benjamin repetiu, dando um pequeno beijo nos lábios. O último.

Ainda com o corpo endurecido da mulher no colo, ele sentiu as duas mãos de Steph Morris sobre os ombros.

-Você está preso.

O rapaz não tentou reagir. Levantou o rosto para o investigador e ergueu-se. Sentiu as algemas nos pulsos.

-Ele é uma vítima... – murmurou Mairi.

Apesar do tom baixo, as palavras da esposa de Ian foram ouvidas em todo o quarto. Steph encarou a Lady como se ela estivesse louca.

-Milord, por favor, ajude sua esposa – disse meditando que os últimos acontecimentos haviam tirado o juízo da grávida.

Steph não podia compreender Mairi, mas Allan e Ian sim. A dor da solidão e da falta de uma família fez o jovem Benjamin (o mais fraco psicologicamente dos três irmãos) cometer um desatino. O que é uma pessoa sem amor? Como culpar Benjamin se tudo que ele sempre quis foi ser aceito pela mãe doente?

Steph encaminhou Benjamin para a porta. Ao se aproximar de Ian, o Lord saiu do caminho para que os dois homens pudessem passar. Quando os olhos dos dois irmãos se encontraram, Benjamin não se conteve.

-Eu não mataria sua mulher...

-Eu sei...

De alguma forma, Ian compreendia que Benjamin nunca teria coragem de ferir alguém que Ian amasse. Benjamin matou Eleanor não somente pela suposta maldição, mas também para proteger o mais novo de uma mulher infiel. Uma estranha e incompreensível relação de amor entre um irmão para com o outro. Benjamin agora precisaria de auxilio, e Ian não lhe negaria isso.

Quando por fim, o mais velho saiu do quarto, Ian encostou-se à parede. Não conseguiu conter as lágrimas. Allan levantou-se e foi até ele. Os dois se abraçaram!

-Mais tarde vocês poderão ter um momento propício ao sentimentalismo, mas agora eu preciso de ajuda.

A voz enérgica de Mairi fez os dois homens se separarem na hora. Ian correu até a cama e pegou a mulher no colo.

-Vou tirá-la daqui!

Os três saíram do quarto e se encaminharam até a suíte principal. Ian queria que o filho viesse ao mundo dentro do quarto onde seus pais descobriram que o amor pode superar os maiores obstáculos.

-Preciso remover o corpo de Perpetua e dar-lhe um enterro cristão – ele falou a Allan, que acompanhava o casal – farei isso por Benjamin e por minha mãe.

Ian largou Mairi na cama e se aproximou do irmão que estava na porta. Allan começou a falar rápido.

-Sim, mas agora precisa ficar com sua mulher. Irei chamar Dr. Brian.

-Eu vou! Conheço melhor essas terras e chegarei mais rápido à casa do médico.

-Eu irei! – o loiro retrucou - Você é o marido e deve ficar!

-Você é o melhor amigo!

-Mas foi você que fez a criança!

-E você dizia que seguraria a mão dela no parto!

Allan abriu a boca para retrucar, mas diante do exposto, não pode nada dizer. Maldita a hora em que dissera a Mairi que lhe faria companhia no momento do nascimento do sobrinho! Estava quase desmaiando só em vê-la gemer.

-Calem a boca os dois! – Mairi gritou – Ian vá logo!

Ele nem esperou uma segunda ordem. Suspirando aliviado, saiu correndo porta afora. Ouvindo os últimos passos do irmão na casa, Hatton soltou mentalmente uma infinidade de palavrões.

Mas agora Mairi precisava dele!

Virou-se em direção à amiga e tentou não desfalecer! Devia saber que a promessa que fizera a ela iria ser difícil de cumprir, já que ele odiava sangue.

-Tudo bem, meu amor – ele falou aproximando-se da cama – tudo vai dar certo! Você só precisa manter o bebê aí dentro.

A mulher estava com os cabelos molhados de suor, e gemia alto, com as duas mãos no ventre.

-Allan... minha anágua esta ensopada de sangue. Tire ela de mim...-vendo que ele pestanejava, ela gritou – Agora, Allan Hatton!

Ele então foi rapidamente até ela e puxou o tecido para baixo, também a ajudou a retirar o vestido e vestiu-lhe uma camisola. Tentou não olhar os seios de Mairi nem o ventre. Não que ele não gostasse de lhe admirar as formas, mas estava completamente apavorado. Infelizmente, quando estava lhe retirando o calção que ela usava por baixo do vestido, viu-lhe a feminilidade.

-Seja homem! – Mairi gritou ao ver Allan apoiar as mãos na cama.

-Eu sou homem. É por isso que estou em pânico!

O estado trêmulo de Allan quase a fez gargalhar, mas não resistiu a solicitar fragilmente:

-Preciso de você.

Aquilo o fez acordar. Levantando-se rapidamente, o loiro sentou-se ao lado da amiga, que respirava rapidamente.

-Se Ian não chegar a tempo, você terá que fazer o parto –ela disse firme.

-Antes ou depois de eu desmaiar?

Mairi pegou-lhe a mão.

-É tão corajoso, Allan, sei que conseguirá!

-Minha coragem desapareceu no meio das suas pernas!

-Isso é algo que nunca pensei ouvi-lo dizer!

Ele riu, tentando controlar o nervoso.

-Tudo bem, milhões de crianças nascem no mundo todo. O parto é algo natural – o loiro dizia e Mairi concordava, mesmo sem ter certeza – e tudo que eu tenho que fazer é pegar a criança quando ela sair de você.

-Sim.. ai

-Ai.. –ele repetiu mordendo os lábios.

Mairi começou a rir.

-Pare de gemer. Quem está sentindo dor sou eu!

-Eu juro que está me doendo tudo aqui! Cadê Ian que não aparece?

Ela deixou-se cair sobre os travesseiros. Respirou aliviada num dos intervalos da dor.

-Ele morreria se precisasse ficar! Além disso, sei que se Ian me visse sofrer, não iria mais querer que eu passasse por isso.

-O que ele faria muito bem, levando-se em conta que sou eu que tenho que ficar aqui!

-Mas ele teria aquelas idéias bobas de não fazer amor comigo.

Louco para conversar com ela, Allan aproveitou o momento para tentar descontrair Mairi.

-Vocês já estão vivendo maritalmente?

-Sim. Eu queria ter lhe contado antes.

-Tudo bem, eu entendo que não foi possível. Mas e então, que história é essa de ele não querer fazer amor?

-Ah, é uma história bem longa. Deixamos para um momento em que meu centro feminino não esteja se cortando em dois!

Vendo o rosto dela se contrair por uma dor que chegou inesperadamente, Allan ainda tentou manter o assunto.

-Acho que toda essa história não tem razão de ser. Ian e eu não podemos ter o mesmo sangue, eu nunca recusaria uma mulher!

-Allan! – ela berrou.

-Na verdade, acho que eu recusaria sim...

-Não dá mais, você vai ter que me ajudar...

Engolindo em seco, Allan viu que o momento chegara. As mãos tremiam e ele duvidava que conseguisse realizar o feito, mas precisava!

“Coragem”, disse a si mesmo.

Ajudou Mairi a sentar-se e se postou aos pés dela. Ajoelhou-se na cama e lhe separou as pernas.

-Tudo bem, não pode ser tão difícil... – disse Hatton tentando dar força a si mesmo – Mairi!

A voz dele a assustou.

-O que? O que há de errado?

-Tudo, acho eu. Você está parecendo uma vaca!

-Muito obrigada! –ela gritou, com raiva – pedi que me ajudasse e não me ofendesse!

-Bom, algo esta faltando neste parto! –ele falou rápido – você não devia empurrar?

-Estou tentando!

-Então coloque mais força!

-Não é fácil! Por que não é os homens que ganham filhos?

Allan arregalou os olhos.

-Não discuta a sabedoria divina, mocinha! –ralhou como se fosse um padre disciplinando uma fiel.

Apesar dos esforços de Mairi, os próximos dez minutos passaram sem nenhum progresso. Foi com alivio que Allan ouviu passos se aproximando. Lá Tere e Ian entraram no quarto afobados.

-Por que demoraram tanto? – Allan gritou.

-Viemos o mais rápido possível – respondeu o médico – agora saiam os dois daqui. Não preciso de ajuda e acho que só irão me atrapalhar. Esquentem água e tragam panos limpos.

-Eu farei isso! – Allan disse antes de Ian poder dizer algo – você, meu irmão, vai ficar pelo menos meia hora com sua esposa! E não ouse reclamar, porque estará com o médico e não sozinho, como eu fiquei!

Saiu batendo a porta. Ian virou o rosto para a esposa e foi até ela.

-Por que Allan estava tão zangado? A idéia de ver o parto foi dele!

Os dois deram as mãos e Ian sentou-se na cama.

-Allan pensou que teria estômago. Está bravo consigo mesmo. –ela respondeu mais calma ao ver o rosto do marido.

Mas Allan teve estômago. Foi ele que trouxe água quente e panos para Brian. E ele também segurou a mão de Mairi, enquanto ela dava a luz. O parto durou duas longas horas e quando eles achavam que não teria mais fim, um choro forte invadiu o quarto.

-É um menino! – o médico falou, encantado.

-Olha só... –o tio se aproximou de Ian, que pegou o filho nos braços – um homem de saco roxo. Esse vai dar trabalho!

Os dois riram. O bebê era a cópia exata do pai, com os cabelos e olhos negros. Os dois aproximaram-se de Mairi para lhe mostrar o bebê, mas vendo o rosto dela, perceberam que ainda não tinha acabado.

-Esperem...tem mais alguém querendo vir ao mundo...

A voz de Brian tocou Ian tão forte que ele entregou o menino a Allan e foi ver o nascimento do segundo filho. Gêmeos!

-Uma menina... – a voz de Ian embargou nas lágrimas.

Tanto o bebê do sexo masculino, quando o do sexo feminino tinham as características paternas. Mas quando os olhos da filha abriram, Ian constatou a cor de água que ele tanto amava na esposa, brilhando no pequeno corpo.

-Traga ela até mim!

Olhando Mairi, viu que Allan havia colocado o filho no peito da esposa e começou a chorar ao ver os dois gêmeos, um sobre em cada seio, sendo acariciados pela mãe.

-São lindos. –ela disse

-São mesmos? – Allan perguntou divertido – pena que se pareçam com o pai. Mas o importante é que tenham saúde.

Os três riram. O trabalho de parto ainda não estava terminado, mas os dois homens saíram do quarto e deixaram o médico tomando as providências.

Foram até a biblioteca para beber a saúde dos novos McGreggors.

-Onde está James? – Ian perguntou subitamente entregando um cálice ao irmão.

-Ele havia tomado uma pancada na cabeça, mas por sorte o ferimento era superficial. Quando Morris e eu subimos ao quarto, James preferiu pegar a carroça e ir até a cidade procurar ajuda.

-Com a chuva, duvido que alguém venha!

Mas suas palavras foram desmentidas por Jane, que naquele momento entrou correndo no castelo.

-Milord! – a moça gritou ao vê-lo - como esta minha senhora?

Ian saiu da biblioteca assim que ouviu o barulho da porta se abrindo, mas não recriminou a serva por entrar pela porta frontal, usada apenas por nobres.

-São gêmeos! Um menino e uma menina! Mairi está bem, sob os cuidados do Doutor Lá Tere - Ian respondeu orgulhoso.

Jane suspirou aliviada.

-Graças a Deus. James chegou a cidade, mas estava muito fraco e não disse coisa com coisa. O que aconteceu?

-É uma longa história. Mas agora suba e fique com Mairi. Ela gosta muito de você e vai querer sua companhia.

Jane assentiu e saiu correndo até as escadas. Mas parou subitamente e virou-se em direção a Ian, que estava parado na porta da biblioteca.

-E como vão se chamar às crianças?

-Allan e Allana.

Naquele exato momento Allan, que estava tomando um xerez, engasgou. Levantou-se imediatamente e foi até o irmão.

-Sei o que esta querendo fazer, mas não acho correto. Dar meu nome aos seus filhos causara mexericos até no Japão! – Allan parecia não acreditar.

-O que isso me importa? Amo você, meu irmão.

Não houve mais justificativas nem reprimendas. Os dois apenas apertaram os ombros um do outro e sorriram.

Mais tarde, quando voltaram a quarto, encontraram Mairi limpa e o trabalho terminado. Cada filho mamava em um seio e pareciam muito unidos.

-Parecem cachorrinhos – Allan comentou ao observar o movimento das mãos dos bebês.

-Vaca, cachorra... Do que mais você vai me chamar hoje? –a amiga riu.

-Não reclame! Fui muito macho hoje! Não sentiu orgulho do seu cunhado?

Mairi gargalhou.

-Senti orgulho de mim mesma, sendo arrebentada, mas firme! – olhou as crianças e lágrimas vieram aos seus olhos – não são as coisinhas mais lindas que vocês já viram? E pensar que quase não puderam nascer...

Ian sentou-se na cama, ao lado da mulher.

-Nem me diga isso. Não quero nem lembrar do fato de que quase mataram você e meus filhos.

-Então não vamos pensar! –exclamou Allan – a polícia já levou o corpo de Perpetua e logo toda essa história será apenas uma lenda que seus filhos contaram aos netos.

-Deus te ouça – disse Mairi sorrindo.

ºººººººººº

Um mês depois...

A duquesa de York desceu as escadas com rapidez. A porta frontal do grande castelo se abriu e dois homens entraram por ela. Mairi se aproximou deles preocupada.

-E então? Como foi?

Ian retirou o casaco e o deu ao mordomo James, que se aproximou junto com a lady de York.

-Eu consegui comprar a liberdade de Benjamin. Mas ele terá que ir embora para o Novo Mundo.

-Muitos condenados aqui na Inglaterra precisam pagar seus crimes trabalhando nos Estados Unidos – explicou Allan que vinha junto com o irmão.

Tocando no braço do marido, ela perguntou:

-Mas como ele está se sentindo?

-Ainda triste pela morte de Perpetua, mas está melhor. Sempre foi trabalhador e lhe dei o colar para que vendesse e comprasse terras. Torço para que meu irmão tenha a chance de ser feliz.

-Vou rezar todas as noites para que ele encontre uma esposa e a paz, mesmo longe de vocês dois –ela sorriu.

Ian segurou o braço da esposa e a encaminhou até a biblioteca. Allan os acompanhou e os três sentaram-se nos belos sofás de veludo usados para ler com conforto.

-Tudo que aconteceu foi culpa de nosso pai – Ian disse ao irmão que se sentou a sua frente – Benjamin foi obrigado desde pequeno a viver como um escravo e sem família por causa da maldade dele.

Naquele instante, Jane entrou com os gêmeos. O menino foi entregue a mãe e Allana foi parar nos braços do tio.

-Olho para esta coisinha linda e não consigo acreditar que Perpetua acreditasse que eles eram perigosos. – disse o loiro aconchegando o bebê no colo.

-Perpetua era supersticiosa. Pessoas assim precisam de justificativas para cada coisa ruim que acontece no mundo. Ela não conseguia acreditar que o falecido duque tomou uma atitude baseada na sua própria decisão e não porque tem o sangue de Tristan McGreggor!

Após o discurso Mairi encarou o marido e percebeu que ele tinha o olhar divertido. Estranhou e fez um gesto de interrogação com as sobrancelhas. Notou então que Ian se divertia por causa de Allan. Virando o rosto para o amigo, notou que Allan não prestara a menor atenção em tudo que ela disse. Não se contendo, Mairi exclamou:

-Allan Hatton, tire esses olhos gulosos da minha governanta!

Jane, que estava de costas para Allan e que recolhia uma bandeja de chá trazida anteriormente por outra empregada, levou um susto e virou-se em direção ao advogado.

Allan enrubesceu.

-Mairi, se eu não estivesse com a minha princesa no colo, dava umas belas torcidas neste teu pescoço de girafa!

-Pode me ameaçar o quanto quiser, Hatton, que não tenho medo de você. Só não quero que fique olhando para o bumbum de Jane!

-E desde quando você é ciumenta?

-Não é ciúme! Jane é uma moça sensível e não merece ser seduzida por você.

-O quê?! Está me chamando de...

Ian suspirou.

-Vocês dois tem que parar de brigar. Qualquer um que olhe acha que é serio! – ele disse rindo.

Mairi e Allan então lhe acompanharam na risada. Jane conteve um riso e pegou a bandeja saindo da sala. Não demorou cinco minutos e Allan também saiu, ainda com a sobrinha nos braços, dizendo que queria caminhar um pouco.

-Sabe aonde ele esta indo? – Perguntou Ian assim que o irmão subiu das vistas.

-Foi atrás de Jane - Mairi respondeu tirando um dos seios para fora do vestido e dando o bico ao filho.

-Então também já percebeu?

-O quê? Que Jane anda dormindo no castelo e que eles andam muito amigos?

Ian se levantou e sentou-se no braço de encosto do sofá da mulher. Admirou a pequena boquinha do bebê sugando com avidez o seio e sentiu um calor no coração.

-Não se importa?

-De que?

-Allan e Jane...

-Oras Ian! O único lugar meu que não admito que uma mulher tome na vida de Allan é a de melhor amiga dele. No mais, mal posso esperar para ver bebês loirinhos fazendo companhia aos meus moreninhos.

Ian riu e baixou a fronte. A boca encostou-se a da esposa e um beijo foi trocado gentilmente entre eles.

-Dez dias...-ele murmurou com sensualidade.

-Verdade... faltam dez dias para eu sair da quarentena e nos voltarmos a brincar de papai e mamãe.

Ele mal conseguia segurar a gargalhada. Mairi tinha um senso de humor fantástico e ele adorava vê-la usa-lo.

-Obrigado... –ele balbuciou.

O agradecimento a surpreendeu. Então a duquesa levantou os olhos claros e observou o marido.

-Pelo que?

-Pelo perdão.

-Não devia me agradecer. O que seria de mim sem você?

-O mesmo que eu seria sem você.

-E o que seria?

-Nada.

O bebê então começou a chorar. A mãe percebeu que a fralda molhara e pelo grito de Allan do outro lado da casa, notou que os gêmeos se molhavam na mesma hora. Segurando um riso, levantou e foi até o cunhado.

Ian ainda ficou na biblioteca durante algum tempo. A janela estava aberta e o ar fresco da primavera se aproximando, inundou o ambiente. Sorrindo ele pensou que a vida apesar de ter seus espinhos, ainda poderia ser como as rosas: Belas, delicadas e alegres. A felicidade era tudo que ele esperava. E teria.

Fim.


Return to Top