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SOBRADO AZUL
Chiisana Hana
Beta-reader: Nina Neviani
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Capítulo I
– Ikkiiiiiiiiii!! Acorda!! – Shun grita descontroladamente enquanto sacode o irmão mais velho, que ainda dormia. – Está quase na hora da minha aula!! Faltam só vinte minutos!!
– Hummm... você quer dizer que ainda faltam vinte minutos... – resmunga o irmão, sem abrir os olhos. – Está tudo sob controle...
– Sob controle?? Eu vou chegar atrasado ao meu primeiro dia de aula na universidade!
– Talvez chegue mesmo, mas é melhor se acostumar porque se quiser continuar indo comigo, todo dia vai ser assim.
Shun, aos dezoito anos de idade, acaba de ser aprovado no vestibular de Psicologia. Ikki, por sua vez, está no terceiro ano de Engenharia Civil e já não agüenta mais a universidade. Sempre vai, mas quase nunca assiste aula. Costuma ficar no barzinho, jogando conversa fora ou paquerando as meninas.
– Eu vou chegar atrasado e a culpa é sua!
– Larga mão de ser chato, Shun! Hoje é o primeiro dia de aula. Ninguém liga pra nada! O pessoal vai só pra se conhecer.
Depois de alguns minutos, Ikki finalmente sai da cama, lava o rosto, escova os dentes, veste uma roupa escolhida ao acaso e diz:
– Vamos lá, CDF?
Shun acompanha o irmão e sai de casa emburrado. Ao entrar no carro, ele resmunga:
– Eu vou chegar atrasado... humpf... estou profundamente arrependido de ter esperado pra ir com você. Devia ter ido com o Shiryu.
– Se reclamar mais um tantinho assim, eu faço você ir pra aula à pé!
– Ikkiiiiii! – retruca Shun, uma expressão de ira na face.
– O que é? Não tenho medo de cara feia, não. – ele responde, antes de ligar o carro e sair cantando pneu.
Ikki e Shun moram na casa que herdaram da mãe, morta quando eles ainda eram pequenos, desde que saíram do orfanato. Enquanto Ikki não atingia a maioridade, a casa ficou alugada, sob os cuidados de um administrador. Quando ele finalmente fez dezoito anos, mudou-se com o irmão para o confortável sobradinho azul, num bairro tranqüilo da cidade, em frente a uma agradável pracinha. Pouco depois, Hyoga e Shiryu, companheiros dos tempos de orfanato, também foram morar com eles. E mais tarde, foi a vez de Seiya juntar-se ao grupo. Agora, três anos depois, vivem os cinco no sobrado azul, dividindo as despesas, as alegrias e as tristezas.
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Ao chegar à universidade, Shun desce do carro correndo.
– Falta só um minuto! Só um! – ele diz, olhando incrédulo para o relógio. Na corrida desabalada até a sala, acaba por esbarrar numa moça e derrubá-la ao chão.
– Ah, me desculpe! Me desculpe! Eu não queria... – ele lamenta, ajudando-a a recolher os cadernos.
– Está tudo bem. – responde a mocinha, e pega os cadernos que Shun recolhera.
– Você se machucou? – ele pergunta, ajudando-a a se levantar.
– Não... estou bem. – ela disse com um olhar melancólico.
– Para onde está indo? – Shun pergunta, observando a expressão da moça. “Parece triste, mas com certeza não foi culpa do esbarrão.”, ele pensa.
– Vou para a aula do professor Mu. – ela diz.
– Eu também! Que coincidência! Também faz Psicologia?
– Sim.
– Então seremos colegas!
– Parece que sim. – diz a mocinha, sorrindo timidamente. Acabara de completar dezoito anos, mas era pequenina e delicada, o que faz com que pareça ser muito mais nova. Veste um conjunto de calça e blusa tipicamente chineses e tem os longos cabelos negros arrumados numa trança. Parece assustada, e Shun imagina que talvez seja por causa do nervosismo do primeiro dia na universidade. Ao contrário dos outros calouros, seu olhar denota tristeza.
Seguem juntos para a sala de aula e sentam-se na primeira fila, ela na frente, ele atrás. Entram na sala com dez minutos de atraso, mas o professor ainda não está lá.
– Esqueci de perguntar o seu nome. – Shun diz e ela se volta para trás.
– Shunrei... e o seu?
– Shun. – ele abre um enorme sorriso, que ela corresponde com uma risadinha tímida.
– Prazer em conhecê-lo, Shun.
– Igualmente!
Andando tranquilamente, o professor entra na sala e deposita alguns livros sobre a mesa.
– Bom dia, pessoal. Sejam bem-vindos à universidade! – ele diz e escreve o nome no quadro. – Meu nome é Mu. Vou fazer uma chamada rápida para conhecê-los, ok?
– Ele parece legal, não é? – Shun pergunta a Shunrei.
– Sim. Parece tranqüilo. Acho que gostei dele. – ela responde.
– Eu também!!
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Noutra parte do campus, Ikki entra na sala onde terá aula...
“Aula coisa nenhuma.”, ele pensa. “Vou responder à chamada e depois me mando para Hollywood (1).”
– Oi. Tudo bem? – ele diz, ao ver a aluna nova que acaba de entrar na sala. – Caloura, né? Nunca a vi por aqui.
– Não sou caloura. – ela responde seca e sem olhar para ele. – Fui transferida para essa universidade. Agora, dá licença. Vou procurar um lugar longe de você.
– Que é isso? Fica aqui. Vamos conversar.
– Não converso com estranhos. Muito menos com estranhos de cabelo azul.
– Hum... temperamental... gostei. Como é o seu nome?
– Não interessa.
– Ah, qual é? Só me diz seu nome.
– Não digo meu nome para chatos. – ela responde, afastando-se de Ikki.
– Todas me acham chato no começo. Depois é ‘meu amor’, ‘meu bem’, ‘meu lindo’, meu isso, meu aquilo... e eu nem sou delas!
– Cada vez que você abre a boca, eu o acho ainda mais imbecil.
– Ok. Não falo mais nada. Mas vamos ver até quando vai durar essa hostilidade. – Ikki responde, sorrindo. Sabe que impressionou a garota. É bonito, inteligente, sexy e sua fama de rebelde aumenta ainda mais seu charme. Tem uma cicatriz na testa oriunda de um acidente, mas todos imaginam que tenha sido em alguma briga, tamanha a sua fama, injusta, de arruaceiro. Costuma assistir poucas aulas, mas sempre tira as melhores notas. Além disso, gosta de ver como mexe com as mulheres e sempre consegue namorar aquela que deseja. A única que ele ama, entretanto, já está morta há muito tempo.
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Mais adiante, noutra sala, Shiryu e Hyoga conversam.
– Eu devia ter estudado pro concurso tanto quanto você. – Hyoga diz. – Vacilei legal.
– Devia mesmo! – Shiryu concorda. – Eu me matei de estudar, mas valeu à pena. O trabalho é bom, minha chefe gosta de mim. E além disso, eu não tinha escolha, né , Hyoga? Você tem a pensão de sua mãe, pode ficar só com o estágio. Mas eu não tenho nada, precisava me virar. O trabalho de office boy já não estava bancando as minhas despesas.
– É. Como boy você ganhava uma merreca.
– Espere. Meu celular. – ele diz ao sentir o aparelho vibrar. – Oi, Seiya. O que é? Não, não tem carona hoje. Eu vou almoçar no trabalho. Tchau, Seiya.
– Já vi que hoje vou ter que voltar com o Ikki... – lamenta-se Hyoga.
– Pois é. Minha chefe pediu pra eu chegar mais cedo hoje, então vou almoçar lá perto do fórum.
– Agora com o carro fica todo mundo atrás de você. Putz! Você teve uma sorte, hein?
– E como! Nem acredito que ganhei esse carro no sorteio do shopping! Quando falaram meu nome, eu fiquei sem reação! Um baita carrão assim, de graça!
– Sorte do caramba. Agora só falta você arrumar uma namorada. Quando vai desencalhar?
– Ora, não me venha com essas histórias. – Shiryu responde, corando. – Eu tenho outras prioridades na vida.
– Outra prioridades?? Shiryu! Você já está com vinte anos e nunca namorou. Vai acabar ficando com fama de gay.
– Pouco me importa o que falam de mim. Quem sabe da minha vida sou eu. – ele diz um tanto irritado. Sempre insistem no assunto namorada e ele se esquiva.
– Certo, certo. Mas está perdendo os melhores anos da sua vida nessa pilha de estudar e trabalhar que nem louco. Relaxa, cara!
– Eu relaxo do meu jeito, você bem sabe.
– Meditação, Shiryu!? Estou falando de sair de casa com a gente! Você nunca sai!
– Qualquer dia eu vou.
– É, você sempre promete, mas na hora arranja alguma desculpa pra não ir.
– O professor chegou, depois conversamos, Hyoga.
Shiryu está no segundo ano de Direito e trabalha no Tribunal de Justiça. Foi aprovado em primeiro lugar no concurso assim que fez dezoito anos. Também é o primeiro da turma, é o homem de frente nos trabalhos e, por isso mesmo, sempre sobra para ele, que faz tudo sem reclamar. Foi deixado no orfanato Filhos das Estrelas recém-nascido e nada se sabe sobre seus pais. Tem uma beleza exótica, traços delicados, olhos azuis levemente orientais, longos cabelos negros, quase tocando a cintura.
Hyoga também está no segundo ano de Direito e faz estágio num escritório. Chegou ao orfanato aos cinco anos, quando a mãe morreu num trágico naufrágio. Tem em Eiri, sua namorada, um grande apoio nas horas em que a morte da mãe o faz sofrer. Estão juntos há quase dois anos.
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Noutra parte do campus...
– Saori, meu amoooor! – Seiya diz, abraçando-a largamente. – Você pode me dar carona na saída??
– Só veio atrás de mim pra pedir carona??
– Nããããao! Eu vim porque te amo muito!
– Sei... Eu dou carona pra você, amor. Já foi para a aula?
– Não consigo achar a sala. Quer me ajudar?
– Querido, estou tão perdida quanto você. – ela diz, tirando um aparelho da bolsa e apertando alguns botões. – Mas resolvo isso rapidinho.
– O que é isso? – ele pergunta coçando a cabeça.
– Um GPS. – ela responde com ar de inteligente.
– Gê-pê-o-quê?
– GPS. Global Positioning System. Tem o mapa do campus, já vou saber para onde temos que ir.
– Ui. Gente chique é outra coisa.
– Pronto. Já sei. Me acompanhe!
– Claro, amor! Você que manda!
De mãos dadas, eles seguem até a sala de Seiya. Saori o deixa na frente. A aula já havia começado há tempos.
– Me dá um bejinho e entra logo! Já está atrasado. – ela diz.
– Tá. – ele concorda e a beija. – Te amo. Nos vemos no fim da aula?
– Sim. Também te amo. Tchauzinho. – ela diz e sai com o GPS na mão.
- Ehr... Bom dia! – Seiya diz ao entrar na sala, fazendo sinal de positivo para a professora.
– Bom dia, senhor atrasado.
– Pô, desculpa aí, prof. Eu não estava conseguindo achar a sala.
– Hoje passa. Nos próximos atrasos, vai levar falta.
– Ixi... – ele diz, sentando-se no fundo da sala. – E aí, gente boa? Tudo na paz? Meu nome é Seiya.
– Tudo massa. Me chamo Nachi.
– Como é o nome da profa esquentadinha?
– Marin. Esquentadinha, mas gostosa pra caramba, né? – o rapaz comenta.
– Ô! Só que eu não posso olhar muito. Minha namorada me mata se souber.
– Senhor atrasado, será que pode ficar em silêncio durante a aula? – berra a professora.
– Desculpa de novo, profa. É que estou empolgado com esse negócio de universidade.
– Agradeço a empolgação, mas deixe para demonstrá-la no intervalo.
– Sim, senhora. – ele diz batendo continência e se senta ao lado de Nachi.
Seiya era colega de orfanato de Shun e Ikki. Foi mandado para lá junto com a irmã, quando a mãe de ambos morreu. Entretanto, sua irmã desapareceu ainda criança e nunca mais foi vista. Namora a milionária Saori Kido, neta do dono do orfanato onde ele e os amigos cresceram. Acaba de ser aprovado no vestibular do curso de Ecoturismo, enquanto ela está começando o de Medicina.
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Meio-dia.
Hyoga, Ikki e Seiya se reencontram no restaurante universitário. Sempre almoçam lá antes de seguirem cada um para seu trabalho. Excepcionalmente, Shiryu não está no grupo hoje, pois tinha ido almoçar perto do trabalho.
– E então, como foi o primeiro dia de aula do calouro de Ecoturismo? – Hyoga pergunta a Seiya, rindo.
– Foi bom demais! Cheguei atrasado, mas a profa é uma gata. Você precisa ver.
– Aposto que chegou atrasado porque se perdeu procurando a sala. – Ikki comenta, certo de que a resposta será afirmativa.
– É. Só consegui achar porque a Saori tem uma paradinha que localiza os lugares.
– Paradinha que localiza? – Hyoga question. – Seria um GPS?
– É, isso mesmo, Hyoga. Poxa, muito legal esse troço! – empolga-se Seiya.
– Oi pessoal! Acabei me atrasando para o almoço. – Shun diz sorrindo ao chegar acompanhado da mocinha em quem esbarrara mais cedo. – Esta é a Shunrei, minha nova amiga. Shunrei, o de cabelo pintado de azul é meu irmão Ikki, o loiro é o Hyoga e o outro é o Seiya. Você não vai conhecer minha namorada essa semana. Ela está viajando e só volta na sexta.
– Certo. Olá. – a mocinha diz timidamente.
– Cadê o Shiryu? – Shun pergunta.
– Foi almoçar no trabalho. – Hyoga explica.
– Ah, que pena. Você não também não vai conhecer o Shiryu hoje. Fica para amanhã. Você vai gostar dele. É um cara muito gente boa.
Ela responde apenas com um menear de cabeça. Depois do almoço no restaurante universitário, ela se despede dos rapazes e sai.
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Sobrado.
Sexta-feira à noite. Os rapazes estão prontos para sair, exceto Shiryu.
– Tem certeza de que não quer ir? – Seiya indaga, sorrindo.
– Sim. – Shiryu diz sentado à mesa, com vários livros abertos. – Tenho muita coisa pra estudar. Divirtam-se.
– Ainda estamos na primeira semana de aula e você já vai estudar? – Seiya questiona, incrédulo.
– Claro!
– Vamos lá, Shiryu! Você tem que sair de casa! – dessa vez é Shun quem tenta convencer Shiryu.
– Não adianta insistir, gente.
– Vamos embora logo que esse daí não tem jeito e a noite hoje promete! – Ikki diz.
– Ikki, não se esqueça que você tem que me deixar na casa da June antes.
– Eita, que esse namoro tá ficando sério!
– Meu namoro é sério! Mas hoje eu vou só passar lá rapidinho. Ela acabou de chegar da viagem.
– Rapidinho... Sei... – Ikki diz com malícia. – O nome é rapidinha, Shun! E vê se usa camisinha!
– Só vou revê-la e volto pra casa cedo – Shun responde e cora violentamente. – Não precisa ir me buscar.
– Ótimo, porque eu não ia buscá-lo mesmo. Hoje eu vou me acabar na night! Quem vai comigo, que me siga!
– Todo mundo, né? Só você e Shiryu têm carro, e ele não vai sair. – Seiya diz.
– Ah, é verdade. Eu esqueço que vocês são uns ferrados. Hehehe!
Todas as sextas são assim no sobrado. Os rapazes saem e somente Shiryu fica em casa. Ele gosta do silêncio, de estar um pouco sozinho, coisa rara durante a semana, já que divide o quarto com Hyoga. Aproveita esta solidão desejada e prepara um lanche. Depois, senta-se no chão, espalha livros e anotações e volta a se dedicar aos estudos. A campainha toca. Ele atende.
– Pois não? – ele diz olhando intrigado para a mocinha parada na porta.
– Eu sou Shunrei, amiga do Shun. Ele está? – a menina diz, visivelmente abalada. Tem uma marca arroxeada bastante grande na face esquerda.
– Não. Mas ele disse que hoje voltará cedo. Entre. Pode esperar por ele. – Shiryu responde, tentando não olhar muito para a marca.
– Obrigada, Shiryu. – ela diz e entra na casa.
– Como sabe meu nome? – ele pergunta e indica o sofá, onde ela se senta. Ele, por sua vez, senta numa poltrona de frente para ela.
– Shun me falou que morava com três amigos e o irmão. Eu conheço os outros, então você só pode ser o Shiryu.
– Ah, sim... Você é da turma do Shun?
– Sou sim. Ficamos amigos desde o primeiro dia de aula.
– Hum... Shun é uma pessoa adorável. Desculpe a indiscrição, mas o que houve com seu rosto. Conheço esse tipo de machucado e parece uma marca muito recente.
– Ah, não foi nada... – ela diz hesitante e continua, tentando amenizar a hesitação. – Eu caí de cara no chão. Sou desajeitada mesmo.
– Acontece. – Shiryu responde. Sabe que ela está mentindo, mas acaba de conhecê-la, não pode esperar que ela lhe conte a verdade, o que quer que seja a verdade. Pode ser que ela tenha apanhado do pai ou do namorado e será constrangedor se ele mantiver esse assunto. Por isso, ele rapidamente pergunta outra coisa: – Então, você quer ser psicóloga?
– É... acho que levo jeito. Meu avô sempre dizia que eu tenho vocação para ouvir as pessoas. – o olhar dela parece ainda mais triste ao falar do avô.
– É uma profissão bonita, mas muito difícil. Exige dedicação.
– Eu sei... mas estou pronta. Bom, está meio tarde... e o Shun não chegou ainda... acho melhor ir embora. Estou incomodando. Você está com livros espalhados, provavelmente estava estudando.
– Não está incomodando, imagine! É um prazer conversar com você.
– Acho que devo mesmo ir embora... – ela diz já se levantando do sofá.
– Bom, se você deseja. De qualquer forma, quando o Shun chegar, avisarei que você esteve aqui, certo?
– Obrigada. – ela responde, tentando esboçar um sorriso.
Quando a menina se retira, Shiryu sente-se perturbado. Não consegue mais se concentrar no estudos porque a imagem dela se repete em sua cabeça. Pensa em seu jeito, em sua voz, seu rosto delicado e ao mesmo tempo tão triste. É isso que ele vê nos olhos dela: tristeza. Uma dor profunda e inexplicável.
Meia hora depois, ainda sem conseguir estudar e se sentindo um pouco sufocado, Shiryu fecha os livros e decide dar uma volta na praça em frente ao sobrado. Lá, ele reencontra a mocinha. Encolhida num dos bancos, ela dorme. Ele a pega no colo cuidadosamente para que não acorde e, ao fazê-lo, sente o perfume dos cabelos dela. Um cheiro que ele jamais sentira na vida, mas que ao mesmo tempo parecia-lhe vagamente familiar. Entra em casa com ela nos braços, sobe a escada e a deita em sua cama. Depois, puxa um banquinho, senta-se e fica a observá-la. Logo envergonha-se por estar ali olhando-a insistentemente e vai para a sala.
Algum tempo depois, Ikki chega em casa com estardalhaço. Shiryu está sentado no sofá, pensativo.
– Ei! Não tem ninguém nessa casa não? – Ikki brada.
– Ikki! Shhhh! Vai acordar a menina. – censura Shiryu.
– Menina? Você bebeu? Aqui moram cinco homens... a não ser... ah, safadinho, trouxe uma gata pra cá, hein? Finalmente! Pensei que você ia manter o celibato eternamente!
– Não é nada disso! É uma amiga do Shun.
– Do Shun? Ah, só pode ser a chinesa branquelinha... mas o que ela está fazendo aqui?
– É uma longa história. Mas vamos conversar em voz baixa, senão vamos acabar acordando-a.
– Hum... cheio de cuidados... ai, ai... E cadê o Shun? Ainda não voltou? Que rapidinha demorada! Mas conta aí o que é que tá pegando.
– Bom, a moça veio aqui atrás do Shun. Como ele demorou, ela ficou envergonhada e disse que ia embora. Então, depois eu me senti meio mal e fui lá fora. Foi aí que a encontrei dormindo lá na praça.
– Dormindo na praça? Deve ser maluca.
– Ela não é maluca! – Shiryu a defende, num tom mais incisivo do que o pretendia.
– Como você sabe? Não a conhece!
– Pára de falar assim dela, Ikki.
– Shiryu, parece que você se encantou pela amiguinha do Shun.
– Não é isso... eu só quero ajudá-la... ela parece tão sofrida.
– Oi, pessoal! Que caras são essas? – diz Shun, entrando em casa.
– Shun, a Shunrei está aqui. – Ikki diz, olhando para Shiryu com sarcasmo.
– A Shunzinha!? Cadê ela? – ele pergunta assustado com a presença da moça.
– Lá no meu quarto. – Shiryu responde.
– No seu quarto?? – pergunta Shun, um tanto perplexo.
– É... Ela chegou aqui atrás de você. Como você não estava, ela foi embora. Só que quando eu fui lá fora, encontrei-a dormindo na praça. – Shiryu diz, para logo depois sair correndo atrás de Shun que havia saído em disparada para o quarto. Ikki segue os dois. Assim que Shun entra no quarto, a menina acorda.
– Shu... querida... o que houve?
– Ah, Shun, eu não sei o que fazer...
– Quer me contar?
– Eu fui despejada, Shun. Não tenho para onde ir, não tenho nenhum amigo além de você. Então, resolvi vir pedir ajuda.
– Ô, lindinha, você fez muito bem. Pode ficar aqui conosco. Por que não contou nada pro Shiryu? Por que foi dormir na praça?
– Eu fiquei com vergonha... – ela diz abaixando o olhar.
– Está tudo bem agora. – ele diz, abraçando-a.
– Não. Você sabe, eu contei que estava procurando emprego para pagar o aluguel. Como não consegui, o dono me pôs para fora e...
– E o quê?
– Nada... deixa pra lá.
– Agora fala, Shu.
– Ele me bateu... porque eu não aceitei pagar o aluguel com alguns favores... favores sexuais. – a última frase sai num sussurro abafado.
– Não acredito! Que monstro! Fique calma.
– Ele também não me deixou pegar minhas coisas.
– Nós vamos dar um jeito nisso. Está com fome, Shunzinha?
– Não, só estou cansada.
– Então volte a dormir, querida.
– Mas... a cama... do seu amigo...
– Shunrei, você pode ficar aqui, não se preocupe. Shiryu não vai se incomodar.
– Não acho certo.
– Não se importe com isso. Volte a dormir. – Shun diz, saindo do quarto e levando consigo Ikki e Shiryu. – Tadinha da Shu. Ela está passando por tantos problemas...
– Eu achei o olhar dela muito triste. – Shiryu diz.
– E é mesmo. Bom, a Shu é órfã, foi criada por um velhinho lá na China, nas montanhas de Rozan. Foi esse homem que a encontrou abandonada na floresta ainda bebê. Quando ele ficou doente, venderam a casa e vieram para cá em busca de tratamento. Mas ele não resistiu à doença e morreu, deixando-a sozinha.
– Nossa! –exclama Shiryu, colocando-se lugar dela e entendendo o porquê daquela tristeza que ela traz no olhar.
– Ainda tem mais. Quando vieram para cá, ela arrumou um emprego e o dinheiro que ganhava é que supria as despesas. Só que nos últimos meses de doença do velhinho, ela acabou perdendo esse trabalho. Por conta disso, atrasou o aluguel e foi despejada hoje.
– Desgraça pouca é bobagem! – Ikki comenta rindo, o que deixa Shun e Shiryu ligeiramente irritados.
– Ainda não terminou. – Shun continua.
– Essa garota tem uma zica em cima dela! – Ikki torna a comentar. – Melhor mandar benzer!
– Ikki! – Shiryu e Shun censuram o comentário maldoso.
– Ela disse que o dono do quartinho queria que ela pagasse o aluguel com favores sexuais. Ela se recusou e acabou levando o soco que deixou aquela marca no rosto dela.
– Mas isso é um absurdo! Ele não pode fazer isso! – Shiryu diz indignado. – Estou chocado com o que esse homem fez com ela.
– Podia ser pior, né? Já pensou se ele ao invés de só bater, pega ela à força?? – Ikki diz.
– Onde ela morava? Você sabe, Shun? – Shiryu pergunta sério, sem dar atenção à pergunta de Ikki.
– Ah, era no subúrbio. Naquele conjunto habitacional que fica perto do estádio de futebol. Era no primeiro bloco, apartamento 02. O dono mora no apartamento vizinho.
– Sei... – diz Shiryu, antes de pegar a chave do carro e sair em disparada.
– O que deu nele? – Shun pergunta, perplexo.
– Ah, nada... só se apaixonou pela sua amiguinha branquelinha. – Ikki explica.
Continua...
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(1) Hollywood. A lanchonete da universidade. Escolhi esse nome porque uma das lanchonetes da Federal daqui se chama Bervely Hills!
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Oi pessoas!
Fic nova para comemorar meu primeiro ano de Ebaaaaaaaaaaaaaaa! Apenas um ano e já tanta coisa pra contar, tantas amizades feitas! Obrigada a todos que me acompaharam nesse primeiro ano! Agradecimentos especiais a Nina Neviani, Fiat Noctum, Kiah-Chan, Lady Diana, Lannyluck e Shunrei Suiyama!
Estava guardando essa fanfic para 2008, mas não resisti e resolvi postá-la logo!
Minha primeira UA, com os cavs universitários, embora o foco esteja nas relações entre os personagens que vivem no sobrado, principalmente Shiryu e Shunrei, meus amados e idolatrados.
Dessa vez não vou estabelecer periodicidade. Sairá capítulo novo quando der, ok?
Ainda esta semana postarei também a side story de Asgard!
Então, espero vocês nesse novo trabalho!
Beijos!
Chiisana Hana