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JBubbles
Author of 3 Stories

Rated: T - Portuguese - General - Raven & Malchior - Reviews: 18 - Updated: 01-16-09 - Published: 12-17-07 - id:3951383

Jubbles falando:

Depois de 396 dias (um ano + um mês + um dia) posso finalmente dizer que terminei Um Livro. Algo que começou com uma simples tentativa de fazer Malchior aparecer em fics escritas em português, passou a ser uma fic que tomou meu tempo e me acompanhou durante mais de um ano. Fico muito feliz por tê-la escrito, agradeço de coração todas as reviews que recebi – talvez sem elas eu não tivesse continuado – e espero que gostem desse final.

Na verdade essa é a continuação do capítulo 9, eu só não tinha certeza se seria bom colocá-lo, eu acabaria com minha idéia inicial e tudo mais, mas eu escrevi as últimas 2050 palavras em uma só noite XD; deveria estar estudando, mas simplesmente as palavras começaram a vir e não paravam de jeito nenhum. (Meus pais me matam se souberem disso ¬¬)

Eu acho que minhas Musas se divertem comigo, só vêm quando querem não me abandonando por quanto tempo quiserem me deixando acordada toda a noite se for preciso e me deixando sozinha durante meses a fio.

Dedico este capítulo especialmente a AninhaBR e Eris (), à primeira por ter me acompanhado desde o começo, comentando sempre, me apoiando e me dando significativa ajuda com as reviews; à segunda por ter feito um dos melhores comentários que recebi, por ter me ajudado concluir os detalhes desse capítulo e por ter me dado 5 páginas extras fora as que estão aqui com uma idéia.

Para todos que leram, dedico um presente especial não programado. Apertem a setinha do canto inferior direito da página para descobrirem o que é. Não é muito, mas está lá de qualquer maneira.

ÚLTIMO CAPÍTULO!!

_.*._.*._.*._

Um Livro

Enclausuramento sem cláusula:

Malchior me olhava como se entendesse o que eu tinha feito, mas nada fazia para impedir ou reclamar sobre o que tinha percebido. Vi suas pupilas dilatarem-se, diminuindo as íris de cor brilhante. Seus olhos dançavam na pista que era meu rosto. Senti minhas bochechas arderem, contrariando a idéia de já ter me acostumado ao escrutínio do olhar de Malchior.

Ele não parecia preocupado na movimentação de meus amigos ou no meu fortalecimento gradativo. Lendo ou não minha mente ele já deve ter percebido que eu já era capaz de conjurar alguns feitiços. Foi sempre assim tão desatento com aqueles que não julga ser ameaça? O que pensava? O que faria?

- Quantas vezes Scath tentou retornar para cá?

- Ahn? – não tinha mais dúvidas que ele conseguiria traduzir o monossílabo como “não sei do que você está falando”, ele conseguiria entender até mesmo o meu silêncio.

- Você não sabe muito sobre Trigon não é, ma belle? Mas por que eu tenho essa idéia que não sai da minha cabeça, de que você é importante, e não é pouco, para aquele velho demônio. É muito estranha essa sensação e eu não gosto nem um pouco dela... Quer me fazer o favor de explicar?

- Você não deveria estar se preocupando com outras coisas agora?

Malchior era de fato um ser diferente, de que outra maneira poderia se explicar o fato de me sorrir como se nada tivesse acontecido? A maior prova era ver seus olhos brilharem e se aprofundassem em minha alma, simplesmente porque ele podia.

- Agradeço sua preocupação. O mundo pode esperar, seus amigos podem guerrear comigo num outro momento e Scath pode ferver no Inferno por alguns minutos mais, porque agora, minha maior preocupação é com você... O que farei com você minha querida ave? Com essa asa quebrada, não conseguirá sobreviver por muito tempo, mas mantê-la não seria sensato, já que não pode cantar...

Estranhamente pôs um dedo no queixo anguloso, olhando-me e divagando sobre o que parecia uma coisa um tanto simples, determinar a morte de uma pessoa, ou determinar sua vida. Brincando com seus ideais, pois sabia, era ele quem mandava de agora em diante. Ele, o sol, forte e brilhante, os outros meros corpos celestes que precisavam de sua energia.

-... E a barganha que poderia acontecer com seu pai não adiantaria muito se não sei seu real valor, mas matá-la também seria um desperdício. Que diria para aquele demônio irascível quando soubesse que destruí um de seus offsprings¹? Minha nossa querida, quanto trabalho você me dá...

Pela primeira vez, em muitos anos, me senti um estorvo, me senti como a criancinha que eu era quando aprendia em Azarath. Uma criança sem talento, que não fazia nada direito e só trazia problemas com as emoções. A vontade de chutar, arranhar e machucar Malchior voltou de novo, mas desapareceu tão rápido quanto chegou, ele já bloqueava meu poder, a mesma esfera branca nos envolveu por um instante ou dois, o suficiente para a vontade passar.

- Por quê?... Por que você não me mata logo e acaba com isso?!

- Realmente então, o que farei com você?... Nem me dá tempo para pensar! Não importa quantas chances te dê para fugir, você está muito debilitada para correr... Se lutar com você, serei um covarde, não porque estou lutando contra uma mulher, mas porque estaria lutando contra uma mulher muito mais fraca do que eu... Se te deixar viva você irá repudiar a maioria das minhas ações, talvez se mate sozinha dessa maneira, mas me daria muita dor de cabeça até o momento chegar... Alas!² Que faremos minha querida?

Uma mão negra, longa e de unhas pontudas apareceu no pescoço descoberto do rapaz mais alto que eu. Eu sentia sua carne cedendo sem resistência ao objeto cortante, eu poderia matá-lo, sei que poderia, só precisava afundar um pouco mais minha garra, rápido, bem rapidamente, poderei não conseguir caso seja de outra maneira. Mas Malchior continuava com os olhos fixos em mim, desafiando-me, embora sua cabeça estivesse alta e seu pescoço à minha disposição, ele se recusava a tirar os olhos de mim, se aproximando, infelizmente, para mais perto da minha lâmina assassina.

- Você não consegue mesmo não é minha querida?

Foi dito em um tom tão baixo, tão simples que não pensei em nada para rebater. Tremi quando vi aquele corpo vindo mais para perto, diminuindo minha lâmina por conta própria, mesmo que no campo mágico ele nada estivesse fazendo. Não queria me encolher, mas já não agüentava mais, não agüentava fingir ser aquela pessoa forte, preparada para tudo e todos, principalmente quando tinha alguém que o era em meu lugar. Malchior conseguia tirar tudo que me era caro.

Ainda com uma das minhas garras em seu pescoço Malchior fez com que seu corpo ficasse rente ao meu, tão perto que eu sentia seu braço no meu, seu cabelo em meu rosto. Conseguia ver uma linha vermelha escorrendo pelo pescoço branco dele, vi o traço que o sangue fazia até chegar à leve armadura que o rapaz usava. O ‘M’ negro no peito metálico junto ao meu... Nenhum inimigo chegara tão próximo, nem meus amigos invadiam tanto meu espaço pessoal. Minhas mãos voltaram ao normal e fechei meus olhos entendendo que não importava mais o que eu fizesse.

Pensei que seria um golpe frio de espada em minha barriga, tão profundo seria o corte que o pedaço de metal poderia ser visto em minhas costas, mas foi uma mão de dedos longos e toque ardente que segurou confiante minha cintura. O sangue quente jorrado da hemorragia que eu pensava que iria sentir onde ele me tocara tornou-se um calafrio diferente de todos que eu já tinha sentido. Malchior deixou então que os dedos, que tão levemente inspecionaram se meu braço estava inerte, roçassem meu pescoço.

Um soluço quase escapou dos meus lábios, fechei meus olhos com mais força, com medo de ver o que estava acontecendo, a morte que sofreria. Por isso quando senti uma respiração em meu pescoço, tremi. Uma sensação esquisita que fez com que minha cabeça se levantasse para ver o rosto de Malchior no meu.

Com seu nariz afilado encostado em minha bochecha ele me falou alguma coisa. Não conseguia entender, só conseguia ouvir meu coração disparado em minhas orelhas, vi os lábios dele se curvarem num sorriso; Malchior colou sua boca em meu ouvido, repetindo a mesma fala novamente.

- Você perde a ação perto de mim, sabia?

Todo toque tem sua característica, seu feitio, sua índole. E cada pessoa tem seu jeito próprio na hora de tocar o próximo. Toques amigáveis, temerosos, chamativos... Todos estes já senti, já fiz. Toques raivosos, rancorosos, também, assim como violentos e assassinos. Para um empata a pior coisa do mundo é o toque, algo tido como tão simples sendo tão revelador.

Numa luta isso não tem tanto problema ódio emitido por um soco, ira emitida num chute, são facilmente bloqueados, anulados se lhes pago na mesma moeda. Por isso que achava tão fácil mostrar a Raiva, por isso que é ela a que mais aparece e é a que mais tenho cuidado.

Mas a mão que segurava minha cintura e pressionava gentilmente minha barriga não tinha um toque que lembra um ataque numa batalha; dificilmente poderia dizer que era cólera aquilo que movia a mão. Também não era tímida, tinha completa noção do que estava fazendo, de onde se encontrava; acreditava em sua posição, mas o modo como seus dedos se apoiavam em meu corpo alternando em apertos ou não sugeria um pedido, uma permissão pela qual estava disposto a conseguir.

Nem Jinx, nem Adonis, nem Estelar ou Ciborgue, nem ninguém fizera esse tipo de pressão, esse toque tão estranho.

Fogo combate fogo, gelo o próprio gelo, é possível fazer com que o fogo elimine o gelo e o gelo, o fogo. Mas como competir com algo desconhecido, nunca antes visto?

Maomé negou tudo quanto o Anjo mensageiro lhe disse, num momento de desespero e dúvida. Alguns dizem que Musashi ainda lutou, enfurecido, ensandecido, contra aqueles que o traiu. Não que meus feitos sejam tão grandiosos quanto o deles – Deuses, isso é por demais ridículo para ser comparado – mas que adiantava negar a morte, que parecia não vir irritantemente logo depôs que tomei minha decisão? Ou lutar, como Malchior já disse e eu sou forçada a admitir, quando já não podia mais?

Adoraria ser como Sophie Germain ou Theano ou Hipácia, para me esconder sob uma identidade falsa ou ser protegida por alguém influente, o marido, o pai; mas não poderia nesse exato momento.

A intenção também do próprio toque o modifica totalmente, assim como as emoções atreladas a eles. Não conseguia ler a mente de Malchior, temia do que veria se pudesse. Mesmo assim afastei minha cabeça da dele para olhar para seu rosto, inquirindo o que seu olhar indescritível poderia oferecer, tentando ignorar que ele não tinha movido os dedos do meu pescoço quando percebeu meu movimento, e que o roçar deles me fazia tremer.

- Por quê?

Voz baixa, talvez de medo, talvez porque se lhe falasse ele pudesse se afastar, e eu não queria que se fosse. Era uma das poucas pessoas que podia me confundir tanto; incomodava-me, claro, sempre acostumada a saber de tudo. Mas não era uma sensação de toda desconfortável, não era desagradável a ponto de não a querer mais.

- Sabe por que tu não consegues te mexer? Por que não atacas, defendes ou foges? Ou o porquê de tudo isso só acontecer comigo?

Imperceptível foi o meu balançar de cabeça, desnecessário também o foi; ele me conhecia melhor do que ninguém agora, podendo entender-me apenas por um simples olhar.

- Você é minha Lua, minha querida, e eu sou o teu Sol, não lembras? E tal como a mulher e suas diferentes facetas – passando os dedos delicadamente pelo meu rosto, com cuidado pelas bochechas até o espaço debaixo de meus olhos –, a rainha da noite repousa hoje na escuridão.

- Dois dias atrás, a lua tornou-se negra, nova se assim a quiser chamar; e você a copiou meu bem... Disposta a desaparecer do mundo comum onde é observada sem pena, disposta a abandonar, por momentos, aqueles que iluminava, para recolher-se em si procurando sua própria iluminação, sua força para voltar depois Crescente. – e como um mágico faria, tirara os dedos de minha face, deixando-me surpresa pela falta de contato – É o teu momento de solitude, de submissão, de andar nas trevas seguindo a luz, sempre tão e tão distante de si...

- Disposta a se sacrificar por outros que julga serem melhores do que si, recebendo marcas abomináveis, cicatrizes de seu heroísmo. – soprou em meu pescoço, como fogo de um dragão mítico, um suspiro, um gemido, deixei escapar quando o senti – Marcas horrendas enfim, que se tornam belas se vistas do jeito certo. Marcas demoníacas que te machucam mesmo já tendo te acostumado a elas...

Ser posta na berlinda era o que mais me perturbava. Ser criticada, analisada, medida, acabando muitas vezes machucada no final. Não é como a timidez aquilo que me toma nessas horas, é quase como um sexto sentido natural, de sobrevivência. Descobrir que você era fraca, que não sabe das coisas, ser menosprezada com provas irrefutáveis ainda mais...

Ciborgue sabia o quanto eu odiava a bateria de exames e treinos mensais que éramos obrigados a cumprir. Por esse motivo ele estava lá, amigo, muito mais do que um irmão, colocando uma mão reconfortante dizendo ‘tudo bem’, um carinho impossível em seu olho biônico, o único vermelho que me agradava, que sempre queria ver quando saía o mais rápido possível do circuito.

Robin também sabia. Garoto maravilha nunca suportando ser posto em segundo lugar, colocava um punho ameaçador na parede próxima a mim comentando coisas simples, coisas que seriam melhores serem deixadas quietas, mas que irritavam, pelo fato de existirem. Menino prodígio piorava a situação verbalizando-as, fazendo o que seu mestre fazia consigo. Batman criou um grande líder, mas o deixou com sua herança e o maior defeito no mais jovem, essa arrogância sem justificativa muitas vezes.

Mas essa era a primeira vez que eu era, literalmente, pressionada contra a parede e a impressão que Malchior deixava em meu corpo e mente seria tão ou mais profunda quanto o sinal que fazia em meu pescoço.

Durante alguns angustiantes fiquei calada, não porque não queria atrapalhar sua fala, não porque queria ouvi-la, mas simplesmente porque não podia! Não conseguia com a garganta comprimida e com o nariz irritado por algo inexistente. Virei meu rosto para um lado onde olhos azuis não se encontravam quando percebi que estava à beira do choro, algo tão diferente de meu personagem. Malchior conseguia fazer como ninguém aparecer minhas diversas facetas, meus múltiplos ‘eu’ com facilidade.

Tentei falar, por mais que minha voz estivesse embargada, para pedir que parasse. De quando em quando é bom receber ordens, ser apenas mandada não tendo que ser forçada a tomar decisões difíceis, complicadas, mas sentia mais que via os fios brancos em meus membros, os fios de marionete que Malchior usava. Pedi para parar de novo, mas ele me ignorou.

Ele soprou outra vez e o primeiro soluço de agonia veio abafado, aqui pensando que ele apertava ainda mais minha traquéia, fechando minhas veias respiratórias, acabando com minha vida. Mas aquele soluço foi sufocado não por uma mão forte no pescoço ou na boca. Fui silenciada por um par de lábios, finos como o corpo do dono, mas que cobriam com perfeição a minha boca, tal qual aquele corpo abraçava o meu.

Mal percebi seus dedos trazendo meu rosto para perto do seu, mas meus olhos aumentaram em choque, violeta contra azul, e vi Malchior fechando os olhos lentamente enquanto seus dedos se abrigavam entre meus fios de cabelo.

Parei de respirar quando senti a respiração dele na minha, quando ele fez mais pressão sob meus lábios. Fechei meus olhos deixando que as lágrimas finalmente libertassem-se depois de anos presas, numa indicação mais clara do que palavras do que a presença de Malchior junto a mim produzia.

Um dedo despreocupado impediu o caminho da água salgada que cobria meu rosto depois que se afastou.

- Está na hora querida. Diga a Trigon que ele terá que esperar se quiser dominar o mundo. Eu o farei primeiro e já é hora de começar a conquista.

Ele tirava a outra mão de meu corpo, juntamente com a mão do rosto, me deixando desamparada. Perdida. Acabou. Ele iria destruir tudo o que eu conhecia, contudo a sensação de inércia mantinha-se quando ele foi me dar o beijo de adeus, o beijo da morte.

Não era ele o meu príncipe encantado, meu cavaleiro na armadura brilhante – embora, segundo ele dizia, tivesse sangue nobre nas veias quentes de seu corpo, embora fosse uma proteção prateada polida que vestia – mas inclinei-me nele mesmo assim. Urgente era a necessidade de parar com o Mal, urgente deveria ser detido, mas meus lábios não paravam de pedir pelos deles.

Tendo fechado os olhos logo que circulei seu pescoço, não pude evitar, só pude completar meu egoísmo. Meus lábios formigando reencontraram os dele, atraídos, como todo o meu corpo, pelo calor tão característico de um ser mítico que cospe fogo. Por um instante senti o corpo tenso de Malchior, e pensei que ele ia me recusar, desmanchando de vez a farsa de seu amor por mim.

Mas no outro instante, não sei, a dor que começava antes a apertar meu coração passou, porque Malchior sorrira de leve, pressionado a boca na minha depois.

O mestre ensinando sua aluna, como tantas vezes fez, envolveu-me e me deixei ser envolvida, pelos braços, pela língua, pela mente e espírito, aproveitando os segundos lentos e calmos antes da tempestade iminente representada por batidas na porta.

Pela energia e impaciência só podia ser o Robin. Porém apenas uma parte de meu cérebro pensando nisso, a maior parte focada nas sensações de estar entregue a Malchior e os vestígios do ritual ainda passando em mim.

- Ravena? Mutano disse que você pediu ‘socorro’. Ravena? Você está bem? Precisa de ajuda?

A cada frase nova, batida feitas pelo líder, sabia que ele também recebera a mensagem, o laço que tínhamos o permitia, mas ainda assim ele disse ‘Mutano’.

- Ravena?!

Eu sabia que esse tempo chegaria, eu que o pedi, e Malchior esperava pacientemente por ele, mas agora seria melhor que esse momento nunca tivesse que chegar.

- Mon chérrie... – a doçura de sua voz contrastava tristemente com a força com a qual sua mão segurava meu rosto depois da interrupção – seus amigos são extremamente irritantes neste momento... Por que você os chamou?

- E - eu...

- Shhusshh. Você me deu a maior prova de devoção a mim, e por isso lhe sou grato; sei que você não ousaria levantar um dedo contra minha pessoa agora, mas... – os dedos comprimiram minhas faces machucando-as – Acredito que passei tempo demais aqui, já passou da ocasião, não, amor? Tenho que ir agora, veja bem, estou atrasado.

Sua mão direita aumentou. Tornou-se negra, escamosa, como todo o resto de seu corpo. Convencido, sorriu com dentes afiados e olhos cor de rubi, segurando meu corpo entre a mão agora gigante, enquanto quebrava o teto de meu quarto e subia ao telhado.

Ouvindo o barulho do outro lado da porta, Robin finalmente pôde chutá-la e descobrir o que estava acontecendo. O que viu fez com que a máscara do seu rosto virasse duas grandes bolas brancas de perplexidade. Correu ao telhado, ao menos o que restava dele.

- Fazia tempo que não me sentia tão bem. Senti falta desse cheiro.

Era uma voz gutural, rouca e difícil de ser compreendida, mas parecida com a voz do homem que durante tanto tempo ouvi. Tentei me soltar daquela garra gigantesca e minhas tentativas o lembraram de minha existência.

- Ah querida, aí está você. Não vai chorar agora, vai? Eu não preciso mais de você.

O fio da marionete se partiu quando Malchior me soltou daquela altura. Não era surpreendentemente alto, mas com minha surpresa ante as palavras cruas, eu estava impedida de qualquer movimento. Senti-me caindo e não conseguia levitar.

Duas mãos verdes me seguraram antes que eu chegasse ao chão, Robin nunca falhando no seu tempo perfeito. O canhão de plasma de Ciborgue acertou Malchior, Estelar e Mutano aparecendo pela porta do telhado logo atrás.

- Ei! Ninguém machuca minha irmãzinha, nem mesmo um dragão como você!

Ele riu, algo que mais parecia trovões, com o comentário. Robin tentou ao máximo ignorá-lo para me perguntar se eu estava bem.

- Então você é o Ciborgue? Pelo que Ravena contou esperava muito mais. Sou forçado a admitir, no entanto, essa sua arma é bastante intrigante.

Ele coçou com uma das enormes unhas pretas o lugar em que foi atacado, se ele tinha tanta ousadia é porque sabia que era mais forte que nós.

- Cumé que é rapaz? Tu tá zoando da minha cara?!

- Ninguém tem o direito de caçoar de um amigo meu, e se é você que o faz sou obrigada a tomá-lo como inimigo. Arrependa-se antes que eu lhe traga dor!

Trovadas ressoavam no céu quando o dragão riu novamente, porém surgiram nuvens escuras dessa vez. A natureza seguindo meu estado de desilusão.

- Vocês são engraçados!

- Essa voz... – Mutano reconheceu-a, olhando incrédulo para a figura em sua frente – você é o dragão do livro que Rae estava lendo!

- E você não é tão burro quanto eu pensava que seria... Mas continua em meu caminho, assim como todos vocês.

Deixando de ser lenda, Malchior lançou fogo em nós. A única coisa que poderia me acordar. Um escudo negro protegeu todos enquanto me levantava.

- Você não vai machucar meus amigos.

- Tem certeza querida? E quem os irá proteger? Tu?

- Do melhor jeito possível!

Palavras de poder antigo eu dizia, feitiços que li e aprendi, magia negra que estava disposta a usar. Lançava feitiço após feitiços, o mais rápido possível, para acabar com sua defesa e quem sabe sua vida. Mas Malchior levantou a pata e anulou todas as mágicas.

- Isso é inútil Ravena, bem sabes que não pode me machucar.

- Azarath Metrion Zynthos!

Uma bola de fogo bloqueou outro ataque meu, esse com ainda mais facilidade que o primeiro.

- Minha nossa querida! Assim parece que você não aprende. Eu te ensinei tudo que sabes, não há maneira alguma de que me derrotes.

Um feitiço que misturava fogo e ar foi lançado em minha direção e não pude detê-lo. Fui jogada para o interior do meu quarto, mas meus amigos iniciaram um ataque sincronizado, comandados pelo grito de Robin, determinados a vencer a qualquer custo.

- Mas isso não dará certo. – murmurei olhando a luta acima; podiam cansar Malchior, mas não derrotá-lo, e o dragão tinha a possibilidade de matá-los se o quisesse. A luta por demais injusta para nosso lado.

- Não, não vai dar certo...

Virei o rosto rápido, preparada para qualquer inimigo que tivesse conseguido entrar aqui, mas não vi nada.

- Será que estou imaginando coisas?

- Não... – a voz riu baixa – pelo menos ainda não.

Virei novamente, agora certa de que havia algo estranho no meu quarto, quando reparei onde estava pisando. As runas. Devem ter me passado alguma mensagem e eu só estava bastante agitada.

Acompanhei o desenho no chão do meu quarto, esperando por uma resposta, uma iluminação, algo que me ajudasse. Cheguei ao meio dele, um livro branco ali.

- O livro!

O barulho de armas explodindo, de gritos enérgicos, de animais perigosos era a trilha sonora da luta quando reapareci.

- Malchior.

- Quando vai perceber que não adianta usar o que te ensinei, não vai me derrotar?

- Eu não quero te derrotar. Você não me ensinou só feitiços – mostrando o livro iluminado pela primeira vez desde que voltei – você também me ensinou uma maldição!

Mesmo inexperiente consegui falar as palavras, estranhando a facilidade que estava tendo num ritual ainda mais poderoso do que qualquer outro que fiz, mas consegui traze-lo de volta para o livro. Fiquei exausta ainda assim, caindo logo em seguida, o livro fechado estatelando no chão perto de mim.

- Rae!!!

O primeiro que chegou foi Mutano, ajoelhando-se e me perguntando se estava bem. Não me contive, abracei-o com força, feliz, porque eu consegui. Consegui salvar meus amigos que sempre me salvaram, muito mais do que imaginam. Robin talvez tenha sido o único que tinha visto os vestígios de choro no meu rosto, mas todos puderam ver meu sorriso agora que o céu ficava claro novamente.

Eles sorriam comigo, coagidos por um algo quase nunca visto, pela vitória e pela união que ela representava. Quis soltar Mutano, tão nervoso com a surpresa que o corpo estava estático, mas olhei para o céu quando iria me afastar, e ele estava azul, tão azul no céu sem nuvens, no oceano profundo...

Apertei um pouco mais Mutano nos braços, antes de ser levada para dentro da Torre, cansada e não mais sorrindo. Ele tinha me dito que libertá-lo seria perigoso, mas ninguém nunca me disse que aprisioná-lo seria doloroso.

_.*._.*._.*._

Jubbles traduzindo:

¹Não consegui encontrar uma tradução exata para essa palavra. Offspring seria a criança nascida, recém nascida, o rebento, a cria, o descendente.

² Uma das expressões inglesas mais bonitas em minha opinião. ‘Alas’ é uma exclamação que poderia ser traduzida como ‘infelizmente’, ‘com meus profundos arrependimentos’, ou ‘meu deus!’, para se proteger de algum mal ou perigo. Exprime sofrimento, pesar, pena ou preocupação; mas a palavra vinda do interior da Inglaterra, sendo uma mistura entre o francês e o inglês medieval, na maioria das vezes indica apreensão, má sorte ou azar. Não é mais usada atualmente, mas é muito comum no conto dos Irmãos Grimm ou em contos de Hans Christian Andersen. Ex.: “It rained all day, Alas I can’t go outside”.



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