Help
Home Just In Communities Forums Beta Readers Dictionary Search
: B s . A A A    : full 3/4 1/2   : E E   : Light Dark Books » Bible » Olhos Espirituais

Amanda Catarina
Author of 8 Stories

Rated: M - Portuguese - Spiritual/Romance - Reviews: 43 - Updated: 11-06-09 - Published: 02-24-08 - id:4094349

Olhos Espirituais

Por Amanda Catarina

Classificação etária recomendada: 16 anos

Capítulo 1: Encontro

Década de 70, Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

Otávio Dutra, estudante do segundo ano de filosofia, assistia a um seminário apresentado por seu colega de sala, Jonas Figueiredo. Até então, Jonas vinha expondo bem suas idéias. Ele analisava atentamente sua desenvoltura e boa entonação, enquanto anotava algumas coisas num caderno. Desviando o olhar para o professor, deduziu que este parecia estar gostando da apresentação, mas até ali tudo estava muito fácil, com a sala toda quieta.

– Está afirmando que os grupos humanos que não tinham rituais religiosos não vingaram? - perguntou ele de súbito e num tom alto.

A turma se agitou como se uma pedra tivesse sido atirada num lago.

– Exatamente - respondeu Jonas calmo.

– Então estes rituais funcionavam como um fator de sobrevivência.

– Essa é uma conclusão plausível.

Com uma expressão de desdém, Otávio balançou a cabeça e disse:

– Senhor Figueiredo, apesar dos bons argumentos, não acha demais afirmar que a religião tivesse tanto peso assim? A habilidade de guerra é que sempre foi um fator determinante. Os povos que lutavam melhor dominavam os outros.

– Concordo, senhor Dutra, mas homem algum luta por nada. Os líderes motivavam seus guerreiros segundo a vontade de seus deuses - retrucou com firmeza, sem se intimidar, apesar do nervosismo que o tomou.

Os dois se encararam desafiadoramente e, depois de alguns instantes, prosseguiram com o debate pelo tempo que restava do seminário, deixando impressionados alunos e professor, e foi desse dia em diante que eles se tornaram eternos rivais. Numa universidade renomada como aquela, era comum a competição entre os estudantes pelas melhores notas. Ainda que o nível da turma fosse alto e homogêneo, Otávio e Jonas se destacavam entre os demais.

ooo ooo ooo ooo

Órfão de mãe, modestamente criado pelo pai, Otávio Dutra era afeito a debates desde o colegial e gostava de discussões acaloradas. Na época da faculdade e até os vinte e três anos, Otávio dizia-se cético, mas seu modo de encarar as coisas mudou quando ele e sua esposa, Isadora, passaram a participar de um grupo de casais de uma igreja cristã. Os dois se converteram ao cristianismo e, desde então, Otávio se tornou pesquisador dessa religião, que passou a ditar seu estilo de vida.

Dois anos depois de ter se formado, ele voltou à Universidade de São Paulo, agora num curso de pós-graduação em ciência da religião. Nesse ínterim, estudou novamente com Jonas Figueiredo. Considerava-o um amigo, contudo, se afrontado por ele discutia ferrenhamente, e quando Otávio soube que as pesquisas de Jonas tinham como foco religiões pagãs e misticismo, o convívio entre eles tornou-se cada vez mais tenso.

Graças a um intercâmbio propiciado pela universidade, Otávio passou uma temporada nos EUA, aprofundando ainda mais seus estudos. Depois, participou de várias campanhas missionárias em diversos países, sempre levando consigo a esposa e as duas filhas.

– Isadora, o Senhor tem colocado um projeto no meu coração diferente de tudo que a gente já fez.

A jovem mulher, com a filha mais nova no colo, sorriu graciosamente.

– É mesmo? E o que seria?

– Uma coisa grande... pra gente fazer no Brasil. Você disse que estava com saudades de lá não? Acho que poderemos unir o útil ao agradável.

– Se for propósito de Deus, amor, é claro que vai dar certo.

ooo ooo ooo ooo

Jonas Figueiredo era filho de um agricultor rico. Sem aptidão para agricultura, ele optou por uma carreira diferente, ingressando, aos dezoito anos, no curso de filosofia da Universidade de São Paulo. Tinha um irmão dois anos mais novo, Luciano, que passou a morar com ele e também entrou na mesma universidade, porém no curso de contabilidade.

Enquanto Luciano, mesmo tendo nascido em berço de ouro, se empenhava em vencer na vida pelos próprios esforços, Jonas não se importava tanto com isso. Aos vinte cinco anos, deslumbrado com o estudo de crenças religiosas, valeu-se da fortuna de sua família para viajar o mundo e conhecer outros povos e crenças. Acumulou uma boa carga de conhecimento, que o tornou uma autoridade no assunto, além de autor de alguns livros.

Luciano, por sua vez, abriu um escritório contábil, no qual sua esposa, Marisa, também passou a trabalhar. Enquanto o irmão rodava o mundo, ele se limitava a passeios turísticos nas férias com sua família. Embora não compreendesse o estilo de vida de Jonas, sempre viajando, sem família, o admirava muito. Inclusive lamentou que ele estivesse no estrangeiro na ocasião do batizado de seu filho, pois, mesmo que aquilo não passasse de uma formalidade de pouco significado para os dois, era inconcebível aos pais deles, católicos tradicionais, que não fosse realizada.

– Olha aí se não é o meu garoto! - exclamou Jonas, pegando seu sobrinho no colo.

– Por que aquele homi tava brigando com você, tio?

– Não, a gente não estava brigando não. Ele é meu amigo.

– Boa disputa - elogiou Luciano, estendendo a mão para cumprimentá-lo.

– É, a coisa não teria sido tão animada sem o Dutra aqui. Eu devia agradecer a ele. Mas... vamos de uma vez! Mal posso esperar pra comer a macarronada da sua mãe.

– Minha mãe fez macaonada? - perguntou surpreso o garotinho.

– Eu espero que sim!

ooo ooo ooo ooo

Dias atuais, cidade de São Paulo.

Num pavilhão do Centro Cultural Vergueiro, Otávio Dutra era o alvo das atenções de uma sessão de autógrafos, em comemoração à segunda edição de seu livro intitulado “A verdadeira adoração”. Havia muita gente na entrada e uma fila que se estendia por alguns metros. Otávio se tornara um autor conhecido na esfera cristã, porém havia apenas alguns anos que alcançara seu sonho de fundar um instituto de estudos bíblicos, o qual foi concretizado graças à ajuda de muitos amigos e diversas igrejas.

Um rapaz ruivo caminhava ao longo daquela fila, indiferente ao alvoroço todo, quando um grupo de jovens chamou sua atenção. Animados, eles aguardavam sua vez de entrar, cada qual com seu exemplar do livro no braço. Fechando as vistas mais atentamente numa moça de cabelos castanhos, que sorria a uma das colegas, ele se surpreendeu com a presença do grupo ali, pois não julgava que um livro de Otávio Dutra pudesse ser interessante para pessoas aparentemente tão jovens.

Ele passava pela entrada do stand, quando olhou na direção do autor e foi reconhecido por ele, que até lhe acenou. Correspondeu com um gesto de cabeça e, sem se deter ali, seguiu seu caminho.

ooo ooo ooo ooo

Dias depois aquele mesmo rapaz caminhava próximo ao instituto bíblico de Otávio, em frente ao qual estavam uma meia dúzia de pessoas. Assim que ele se aproximou, foi abordado por uma moça, que, para seu espanto, reconheceu ser aquela mesma do outro dia.

– Boa tarde! - ela o saudou com empolgação, o obrigando a parar. – Posso te entregar um folhetinho?

Ele fez uma carranca, contudo acabou aceitando.

– Posso conversar com você um minuto? - prosseguiu ela, enquanto ele corria as vistas pelo papel.

– “Jesus, caminho, verdade e vida...” sei... - disse ele e bufou, então tentou sair de lado.

– É só um minutinho - insistiu ela.

– Nem um minutinho filha.

– Pelo menos deixa seu nome na nossa lista de oração - ela tentou ainda.

Ele já tinha dado um passo à frente, mas se voltou e a encarou. Não era muito mais baixa que ele, pele clara, olhos e cabelos castanhos. O cabelo estava preso, com uma mecha curta de lado. Vestia um traje elegante, e ele notou, como um diferencial, que ela não estava de saia. Achou-a de boas feições, ainda que não reparasse mais em mulheres.

A jovem também o mediu da cabeça aos pés. Ele vestia um jeans surrado, camiseta regata e tênis. Tinha a pele muito branca e olhos azuis, mas de chamar atenção mesmo eram os cabelos ruivos. E antes, quando ele se virou, ela notou partes de uma grande tatuagem em suas costas.

Mas a inspeção visual, que já durava há alguns instantes, foi interrompida quando o rapaz retrucou com certo escárnio:

– Lista de oração? E eu lá preciso disso?!

– É? ...então podemos agradecer a Deus pelas bênçãos que tem derramado em sua vida - revidou ela de pronto.

A resposta dele foi uma risada debochada, mas mostrando-se indiferente a isso ela abriu um caderno pequeno e perguntou:

– O seu nome?

Uma certa curiosidade começou a rondá-lo e pensou consigo se ela estaria trabalhando para Otávio Dutra, mas baixando os olhos para o folheto, achou melhor ir embora.

– Me esquece filha... não tenho saco pra ouvir crente não.

Uma clara decepção assumiu a expressão dela, mas logo em seguida ela voltou a falar:

– Tudo bem... Mas mesmo assim Jesus ama sua vida, viu! - declarou sorridente.

– Conversa... - desdenhou ele.

– Ah, não é não. Isso eu te garanto! - rebateu e, de novo, abriu um grande sorriso.

Precisou reconhecer que ela sabia ser cativante, mas então a viu esticar o pescoço numa direção, para a qual também acabou olhando. Um dos colegas dela parecia estar tendo mais êxito. Deduziu com aquilo que o grupo já devia ter parado dezenas de pessoas. Ele era apenas mais um. Se ouvisse, bem, senão, bem também, e esse raciocínio o irritou terrivelmente.

– Bando de fanáticos - praguejou baixo.

– Que? - replicou ela, pois não tinha escutado.

– Vocês são um bando de fanáticos, isso sim! - acusou com certa raiva.

– Não - murmurou assustada.

– São sim! Você não tem nada melhor pra fazer da vida não?

A jovem não soube como reagir de imediato e ele vibrou diante da expressão desconcertada que ela fez, mas, de novo, ela não o deixou sem resposta:

– É um privilégio pra mim poder falar sobre o Filho de Deus, Jesus Cristo.

– Filho de Deus... que conversa fiada. Isso tudo não passa de um mito criado pela igreja - retrucou mal-humorado.

– Está enganado... me deixa te falar um pouco sobre Jesus e sua missão.

– Eu conheço muito bem tudo isso, filha. Nada do que tem a dizer sobre esse tal de Cristo é novidade pra mim. Sou vidente - anunciou altivo, e percebeu que a menção de seu talento a espantou ainda mais.

– Entendo - disse, tentando disfarçar a perplexidade. – Bom, ainda assim se quiser conversar...

– É surda ou o quê? - cortou ele, impetuoso. – Vê se pensa duas vezes antes de parar as pessoas na rua pra falar essas bobagens!

A expressão da moça tornou-se zangada.

– Bobagens não, meu senhor!

– Bobagens sim, mocinha - devolveu encarando-a desafiadoramente.

Acuada, ela deu um passo para trás, rogando mentalmente forças a Deus. O sol forte fritava sua cabeça, mas botou outro sorriso nos lábios e tentou ser o mais gentil possível.

– Olha, o meu nome é Jussara, não podemos sentar um pouco e conversar melhor? - havia uma mesa ali, com um guarda-sol hasteado e algumas cadeiras. – Você disse que é vidente?

O rapaz balançou a cabeça e bufou. Só não tinha ido embora ainda porque a tal se mostrava inabalável e não gostava nada de ficar para trás numa discussão. Ele se aproximou, mas não chegou a se sentar.

– Não quer mesmo me dizer seu nome? - insistiu ela e abriu o caderno na mesa.

– É Caíque - disse e olhou no relógio, seu horário de almoço já estava passado.

– Caíque - repetiu ela pausadamente. – Então assim... qual é a visão que você tem de Jesus? Quem é Jesus pra você?

Foram perguntas simples, feitas de um modo simples, mas que soaram tão decoradas aos ouvidos dele que por pouco não perdeu a compostura.

– Você achando que tem cacife pra falar de espiritualidade comigo? - exclamou furioso. – Se enxerga menina! Se você soubesse quem eu sou nem se dava ao trabalho!

Ao vê-la de olhos arregalados e muda, se sentiu vitorioso, contudo por apenas alguns instantes porque nem com aquilo ela deixou de responder.

– O senhor desculpe então a minha ignorância. Não há nada que eu possa fazer pelo senhor?

Irado, ele foi saindo, mas voltou-se e perguntou de súbito:

– Você é alguma coisa do Otávio Dutra?

– Conhece o senhor Dutra? - retrucou surpresa.

– É, conheço. Infelizmente - disse seco.

– Não, ele não é nada meu. Só estudo aqui neste instituto do qual ele é fundador.

Caíque encarou Jussara nos olhos por um tempo, deixando-a meio desconcertada com isso.

– Que infeliz escolha - disse então, meio etéreo. – Bom, já perdi muito do meu tempo aqui.

Porém antes de ir, ele puxou sua carteira e pegou um cartão de lá.

– A duas quadras daqui tem um lugar onde você poderá obter respostas genuínas sobre espiritualidade. Se quiser, venha nos procurar - disse e entregou o cartão a ela.

Quieta, Jussara leu no cartão: “Centro de Misticismo Estrela D’Alva”. Depois, não teve tempo de dizer mais nada, pois o rapaz saiu a passos largos. Em pé, ela o seguiu com os olhos. O tal era agressivo, mas muito bonito também. Com a lembrança do olhar penetrante dele gravada na mente, ela pronunciou baixo o nome impresso no cartão, Caíque Mendes Figueiredo.

ooo ooo ooo ooo

Caíque chegou em casa e se largou no sofá. O ocorrido o fez lembrar de uma outra mulher, uma cristã também, sua ex-namorada, Ana Luíza. Jogou a cabeça para trás e cerrou os punhos, se remoendo de raiva. Tinha os olhos fechados quando ouviu a voz de seu tio lhe falar:

– Você demorou.

– Foi mal... - respondeu endireitando-se. – Uma crente chata me parou na rua.

Curioso e com um certo riso, o outro esperou que ele continuasse, mas isso não aconteceu.

– Vai atender consulta hoje? - retrucou o homem então.

– Ah, não legal... Tem muita gente?

– Mais ou menos, mas deixa, eu dou um jeito. Adianta essas coisas pra mim que já ajuda - resolveu e passou uma pasta cheia de documentos ao rapaz.

– Certo - concordou grato.

Sobrinho de Jonas Figueiredo, Caíque tinha vinte e oito anos. Desde os dezesseis morava com o tio por ter se desentendido com seus pais. Ele alegava que os pais nunca tinham tempo pra ele, mesmo sendo o único filho. Em função disso, sua adolescência foi turbulenta; arrumava briga na escola, tirava notas baixas, afrontava os professores. Tudo para chamar a atenção dos pais.

No colegial, ele se interessou por uma menina chamada Ana Luíza e quando começaram a namorar, sossegou um pouco. Perto de se formarem, Ana e sua família passaram a frequentar uma igreja evangélica. Ela quis fazê-lo participar dos cultos também, mas, como ele não demonstrou interesse, ela deu fim ao namoro. Ainda mais que o descaso dos pais, essa rejeição marcou amargamente a vida de Caíque, tanto que depois de Ana Luíza, ele não se interessou mais por mulher alguma, chegando ao extremo de fazer um voto de castidade.

Andava desmotivado e revoltado com o mundo, quando seu tio, que acabava de voltar de uma temporada na Índia, o convidou para trabalhar com ele naquilo que ainda viria a ser o centro esotérico Estrela D’Alva. Assim, ele se tornou discípulo de Jonas nos caminhos do misticismo, acreditando ter achado sua vocação. Sua principal ocupação lá eram as predições e, tal qual o tio, ele era bem requisitado, mas além disso cuidava da parte administrativa também.

ooo ooo ooo ooo

Passados alguns minutos depois que o rapaz ruivo tinha ido embora, aquela moça que o tinha abordado continuava fitando, intrigada, o pequeno cartão em sua mão.

Jussara tinha vinte cinco anos, era formada em Direito e trabalhava num escritório próximo ao instituto bíblico de Otávio Dutra. Apesar de ter nascido numa família cristã, ela dizia que só começara a viver de fato sua fé depois de ter ingressado naquele instituto, pois, junto com os alunos de lá, passou a realizar diversos trabalhos de evangelismo, como o que faziam naquele dia.

O instituto oferecia cursos em diversos horários. A combinação de Jussara compreendia aulas à noite, terça e quinta-feira, e pela manhã aos sábados. Ela tinha concluído um módulo de seis meses e estava para iniciar mais um. Buscou o curso sobretudo para se aprofundar ainda mais em sua religião, e tinha a expectativa também de conhecer alguém com que se relacionar afetivamente, já que procurava uma pessoa que compartilhasse a mesma fé que ela. As coisas iam bem. Já tinha feito amizades e até conhecido alguém que despertou seu interesse. E era justamente essa pessoa que vinha em sua direção, com um sorriso cativante.

– E aí? - perguntou um moço alto e de pele bronzeada.

– Mateus, peguei um difícil, viu. Fiquei perdidinha.

– Isso acontece. Não quer ir tomar um suco? - convidou simpático.

– Ah, eu quero sim! Depois dessa, preciso mesmo de uma pausa.

Os dois seguiram então. Num primeiro momento, Jussara ficou contente demais com o convite, mas, conforme seguiam, não conseguiu parar de pensar no ocorrido com aquele outro rapaz.

ooo ooo ooo ooo

Passada uma semana.

Depois de ter feito, em companhia de uma amiga, uma breve vistoria no local indicado no cartão que o tal Caíque lhe havia deixado, Jussara voltou ao instituto bíblico intrigada demais para conseguir assistir a aula. Assim, seguiu direto para a secretaria, na intenção de conversar com seu professor e coordenador de projetos missionários.

– Oi, boa tarde, eu queria falar com o professor Rubens.

– Ele está em aula agora - informou a atendente.

– Ah, é mesmo...

Um senhor que estava próximo se manifestou:

– Será que eu posso ajudá-la?

– Senhor Dutra! - exclamou Jussara. – Pode sim... o senhor tem uns minutinhos?

– Tenho... pode vir aqui na minha sala.

Ela concordou e logo em seguida os dois adentravam o local.

– Eu sei que já vi a senhorita por aqui, mas me desculpe, não recordo seu nome.

– Que isso, não tem que se desculpar. Meu nome é Jussara.

– Muito bem, Jussara, do que se trata?

– Senhor Dutra, o senhor sabe alguma coisa sobre um centro esotérico que tem aqui perto?

Otávio franziu a testa.

– Do Jonas Figueiredo?

– Não sei... eu só tenho isso - ela mostrou o cartão a ele.

– Ah, sim... este mesmo. É, eu estudei com o dono, Jonas Figueiredo.

– Entendi - disse e ficou pensativa uns instantes. – Senhor Dutra, existe algum plano de evangelismo lá?

– Evangelismo? Não. Nosso foco aqui é discipulado, ainda que não deixemos de incentivar os projetos missionários. E além do que, realizar um trabalho assim lá seria como decretar uma guerra. Figueiredo não permitiria.

– É, pensando bem, seria complicado mesmo. O senhor poderia me falar um pouco sobre esse senhor Figueiredo?

– Bom, eu o conheço há anos. Somos rivais em debates desde a faculdade. Ele sempre tentou me convencer que o cristianismo não vale a pena. Mas, senhorita, se me permite perguntar, por que esse interesse?

– É que eu conheci um rapaz que trabalha lá. Ele se chama Caíque. Talvez o senhor o conheça, ele é ruivo.

– Conheço sim. Ele é sobrinho do Figueiredo, e não vai muito com a minha cara - contou e riu levemente.

– Puxa - replicou meio abismada e ficou pensativa por alguns instantes, processando todas aquelas informações. – Bom, acho que era só isso mesmo. Nunca imaginei conversar com o senhor em pessoa assim.

– Que isso... se houver mais alguma coisa que eu possa fazer, estou às ordens.

– É ótimo saber e muito obrigada. Fica com Deus.

– A senhorita também.

ooo ooo ooo ooo

Deixando o espaço da secretaria, Jussara caminhava com uma expressão pensativa quando Mateus veio a seu encontro. Cumprimentaram-se amistosamente e então, para a surpresa dela, ele a chamou para tomarem um café numa padaria ali perto.

Seguiram tranquilos conversando banalidades e em poucos minutos chegaram ao lugar que era muito movimentado. Ela estava meio desconfiada com o motivo de ele tê-la chamado ali, mas logo entendeu tudo quando ele lhe perguntou num tom brando:

– Você está namorando, Jussara?

Ela se surpreendeu tanto com a pergunta que até demorou para responder.

– Não - disse tímida, fazendo-o sorrir com isso.

– Então, eu estava pensando... como a gente se entende bem, você não estaria interessada em começar algo comigo?

A emoção que a invadiu foi imensa, mas, numa fração de segundo, lembrou-se daquele ruivo e a resposta mais impensada que pudesse dar deixou seus lábios:

– Não.

O jovem ficou atônito, pois estava certo de que o sentimento era recíproco.

– Desculpe, não tenho esse interesse no momento - explicou ela.

Pego de surpresa, Mateus apenas a encarou por alguns instantes.

– Ah, tudo bem... Me desculpe - ele falou então.

– Eu que peço desculpas, sei que te levei a pensar assim.

– Tudo bem... Puxa, não sei mesmo o que dizer.

– Ah, não fique assim... - e alcançando uma das mãos dele, apertou-a num gesto amigável – e não deixe de falar comigo. Gosto da sua amizade.

– Claro... tudo bem, nem sempre dá pra manter a amizade em situações assim, mas somos irmãos em Cristo. Temos outras coisas que podemos compartilhar.

– Fico feliz que veja as coisas desse jeito.

– Certo - disse ele visivelmente sem graça. – Então vou indo. A gente se vê - e se levantou.

– Fica na paz - despediu-se ela ainda à mesa.

– Você também.

Jussara demorou ainda alguns minutos para deixar o local. Angustiada, não conseguia acreditar que tinha dispensado o homem pelo qual ela mesma dizia estar apaixonada.

Depois de andar a esmo pela rua, chegou numa pracinha, onde se sentou num banco. Seus olhos estavam brilhantes, mas as lágrimas não chegaram a vir. Não era a incredulidade com seu ato que mais a preocupava, e sim a razão dele. Mesmo na confusão de pensamentos, ela sabia o porquê da recusa. Tudo se resumia num único nome: Caíque.

Era inexplicável, insensato, ilógico, mas um sentimento irreprimível surgiu daquela única e conturbada conversa que tiveram. E não era apenas uma questão de atração física - pois tinha de fato se admirado com a compleição dele –, mas determinou a si mesma que iria evangelizá-lo. Por isso, não podia se envolver com Mateus, ele dificilmente entenderia.

Fechando os olhos, Jussara orou rogando forças a Deus, pois estava decidida em se aproximar de Caíque a qualquer custo.

CONTINUA...

ooo ooo ooo ooo

Agradeço a Alessandra Fernandes Mota, por ter lido o primeiro esboço e me incentivado a divulgar esse romance, a Aline Mariana e a minha mãe, Nádia.


Return to Top