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Amanda Catarina
Author of 5 Stories

Rated: M - Portuguese - Spiritual/Romance - Reviews: 43 - Updated: 11-06-09 - Published: 02-24-08 - id:4094349

Olhos Espirituais

Por Amanda Catarina

Capítulo 12: Conselhos

Jonas olhou de soslaio para o sobrinho, a inquietação que sentia nele estava começando a deixá-lo inquieto também. De minuto em minuto, o rapaz olhava ou pela janela do avião, ou para o relógio de pulso. Música, programação ou petiscos não tinham poder para distraí-lo. Ao menos seria uma viagem bem rápida.

– Tudo isso é saudade da mulher? - ele provocou.

Ainda que tenha virado o rosto na direção do tio, Caíque não lhe deu resposta. E depois que voltou a olhar pela janela, Jonas riu dele.

– Ainda está bravo comigo? - perguntou o mais velho, uns instantes depois.

– Você sabe a resposta. - devolveu, ríspido.

– Gouveia me disse que era só o filho dele, eu não sabia que o garoto tinha outros amigos.

– Ah, chega! Não me faça lembrar daqueles fedelhos.

Jonas voltou a rir, e mais alto.

– Vai se acostumando, a Jussara tem cara de quem vai querer uma penca de filhos.

A menção do nome da namorada suavizou, momentaneamente, a carranca impaciente dele, Jonas reparou.

– Seja uma penca ou um só, nunca que vou estragar meu filho daquele jeito!

Caíque realmente pensava em ter filhos? Ele não esperava aquela resposta.

– Estragar? Por quê? Eles eram tão mimados assim?

– Mimados? “Insuportáveis” expressa bem melhor.

– Bah... deixa disso, você era igualzinho nessa idade, que moral tem pra falar deles?

O ruivo lançou um olhar indignado ao tio, que, sem se intimidar, tornou a rir.

– Calma, em uma hora estará junto da sua queridinha.

– Uma hora - repetiu com ironia. – Hoje é dia de semana, ela só sai às cinco, e tem aula no instituto também. Mas não quero nem saber, hoje ela vai ter que faltar.

Jonas silenciou e endireitou o corpo, com um leve riso ainda curvando os lábios.

Pensou consigo que Caíque parecia outra pessoa, e aquilo, de certa forma, lhe trouxe uma sensação de perda, semelhante à dos pais que se veem diante do momento em que os filhos irão sair de casa.

Ainda não lhe era de todo tragável a ideia de vê-lo partir para montar uma família com Jussara, mas até que se sentia satisfeito em vê-lo correr atrás do próprio patrimônio; ele já tinha comprado um automóvel e vinha pesquisando preços de apartamento, enfim, mostrava-se realmente empenhado. Não que houvesse cobrado dele algo nesse sentido, pelo contrário, era mais por causa de seu irmão Luciano, pois sabia que este iria gostar de saber o quanto o filho estava mudado.

Ao pensar em Luciano, não pôde deixar de reparar que, por incrível que fosse, Caíque estava ficando parecido com ele. Não na questão do materialismo exagerado, e sim na perspectiva de ele vir a se tornar um típico pai de família, que trabalha duro para satisfazer os caprichos da mulher e as necessidades dos filhos.

A mudança que uma única pessoa pode causar na vida de alguém era algo que realmente o deixava impressionado. Nunca teria imaginado um futuro daquele para Caíque.

ooo ooo ooo ooo

Ele gostou da cara de espanto que ela fez quando o viu ali. Sabia que iria surpreendê-la.

– Desculpa, estava com o celular desligado - explicou ela –, só vi sua mensagem quando me avisaram que estava aqui.

Sem nada dizer, ele abriu os braços, chamando-a para si.

Jussara, até então meio impassível, foi totalmente desarmada diante daquele gesto e, quando deu por si, estava se abraçando com força ao noivo.

– Que saudade... - Caíque murmurou. – Parece até que fui pra China.

– Pensei que fosse chegar bem mais tarde - disse, e escorando a cabeça no peito dele, buscava afastar os receios da mente.

– Nada, cheguei antes das quatro. Ia dar certinho, eu ia te pegar saindo do serviço, mas cadê que o trânsito deixou? - ele reparou que ela estava com a bolsa. – com tudo aí?

– Sim, por quê?

– Porque não vamos ficar aqui, !

– E vamos pra onde? - perguntou, incerta.

– Pra qualquer lugar. Deixo você escolher - retrucou, bem humorado.

Ela apenas o encarou, sem conseguir pensar em nada, parte de si inclusive até lamentando não poder assistir a aula.

– Que tal comida chinesa?

Depois de ponderar um pouco, ela concordou, resignada.

– Pode ser...

Saíram abraçados e, dentro de alguns minutos, chegavam a um restaurante bem movimentado, ali nas redondezas.

ooo ooo ooo ooo

Ainda que seu pensamento estivesse longe, Jussara buscava se manter atenta ao relato de Caíque, que lhe contava tudo o que acontecera com ele na viagem. Mas as reflexões da noite passada não saíam de sua cabeça, deixando-a extremamente angustiada, e estar frente a frente com ele só agravava aquilo. Compreendia que não poderia se casar com alguém que não fosse cristão, mas não conseguia se imaginar vivendo sem Caíque.

– Ju? - ele a chamou dando um tapinha na mão dela. – Ju?!

– Oi?

ouvindo?

– Claro - respondeu sem graça, e abaixou o rosto, remexendo o macarrão caudaloso no prato.

– Ih... o que é, hein? Você anda tão estranha... e não é de hoje.

– Hã? É que essa semana foi bem puxada no trabalho - justificou-se meio aborrecida.

O ruivo a encarou no fundo dos olhos. Era raro ela falar daquele jeito com ele. Definitivamente precisava descobrir o que estava acontecendo.

– Casos complicados, é? - rebateu, calmo, referindo-se ao emprego dela.

– Bota complicado nisso. Estressante mesmo.

– Foi mal então. Se eu imaginasse, teria sugerido irmos pra sua casa.

– Não, tudo bem. Preciso mesmo me distrair um pouco, senão vou pirar.

Ele assentiu com a cabeça.

– Mas você aproveitou a viagem ou não?

– Claro que não! Não disse que aqueles cinco quase me deixaram doido?

Diante da naturalidade com que ele falava da desventura, Jussara acabou rindo e, aos poucos, foi deixando as preocupações de lado. Assim, o encontro tornou-se mais agradável.

Caíque contou até sobre o assédio que sofrera na casa noturna, mas quanto ao livreto sobre Jesus ele nem cogitou comentar.

ooo ooo ooo ooo

Naquela mesma noite, Caíque buscou seu conjunto de cartas de tarô. Não era muito afeito a ler a própria sorte, mas estava realmente incomodado com o comportamento da noiva.

Ultimamente, não vinha exercitando muito suas habilidades divinatórias. Estava cuidando mais da parte administrativa do centro, uma vez que os preparativos para o casamento o deixavam impaciente demais para lidar com outras pessoas.

Inspirou fundo, deitou as vistas nas cartas, mas então desistiu e voltou a guardá-las.

– Depois eu peço pra Solange.

Ele poderia pedir ao tio, mas era cruciante aturar as provocações dele, e também guardava um certo receio por Jonas ter tentado separá-lo de Jussara, no início.

– Por que ela tem que ser tão complicada?

Mas, com exceção daquela preocupação, as coisas iam bem, por isso, ele acabou dormindo tranquilo.

ooo ooo ooo ooo

Infiéis - ela estremeceu ante aquela palavra. –, não sabeis que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. É isso que Tiago nos afirma em sua carta! Não dá pra ter um pé dentro e outro fora! - bradou alto o pastor.

Foi como se um arranha-céu caísse sobre os ombros de Jussara. Era sexta-feira, ela participava do culto de oração em sua igreja.

Depois da pregação, curta mas extremamente impactante, achava-se mais desnorteada ainda com a questão de seu noivado, sentindo como se o céu e a terra estivessem contra ela.

No momento de oração em pequenos grupos, ela sequer conseguiu proferir com clareza seu pedido, pois chorava inconsolável. Estavam em três pessoas, e após uma delas ter feito a intercessão pelas demais, a outra se sentou ao seu lado.

Tratava-se de uma mulher casada, de quase quarenta anos. Só com o olhar, ela disse à outra que a deixasse cuidar daquilo. Então, apertou firme a mão da mais jovem e esperou até que essa se acalmasse um pouco.

Recobrando o fôlego, Jussara assoou o nariz num lenço de papel e, nos minutos subsequentes, foi inteirando melhor a irmã de fé do assunto que a afligia.

– ...e você já chamou ele pra vir aqui? - indagou a mulher.

– Milhares de vezes...

– Mas se você tem orado por ele, precisa acreditar que Deus tem agido.

– Eu sei, mas…

– Não... - advertiu a mulher, porém num tom bem ameno. – Esse seu “mas” já mostra que você está olhando as circunstâncias. Não é assim, Jussara. O Espírito trabalha nas pessoas de diferentes maneiras. A gente não tem nem como imaginar.

A jovem ponderou uns instantes.

– O que me dá medo, Edna, é: e se ele não quiser saber mesmo? Vou ter que terminar com ele, é isso? Ele vai me odiar pra sempre. Foi exatamente isso que a ex dele fez! – esganiçou ela.

Inclinando a cabeça para frente em assentimento, a mulher demonstrava sua compaixão.

– Acho que não compensa pensar nisso agora.

– Mas quando então?! A gente já tem uma data mais ou menos planejada pro casamento, e que a cada dia se aproxima. Vou esperar ele correr atrás de tudo pra daí dizer: então, né, não posso me casar com você!

A mais velha olhou-a com pesar e lhe apertou as mãos. Naquele instante, uma adolescente se aproximou das duas.

– Jussara... desculpa, mas é que estão perguntando onde está o folheto das “quatro leis espirituais”.

Enxugando as lágrimas, respondeu:

– Tem uma caixa de papelão em cima do arquivo, está tudo lá.

– Ah, ... eu vou lá ver - disse a menina e deu meia volta.

– Se não achar, avisa que eu pego.

bom.

Edna passou um braço pelos ombros da moça.

– Relacionamentos são complicados, mesmo entre crentes. Vou continuar orando por você e por ele também, é claro.

Ainda esfregando os olhos, Jussara apertou a mão da mulher, grata pelo apoio. Normalmente não era tão emotiva, mas a situação com Caíque mexia demais com ela. Não bastasse isso, era difícil lidar com a cobrança dos irmãos que, menos inteirados do assunto, perguntavam por que seu noivo não comparecia aos cultos. Nem todos compreendiam sua situação; e a idéia de se ver afastada de sua família espiritual em função do relacionamento, também lhe causava náuseas de desespero.

– Jussara, por que vocês não fazem um culto na sua casa, e daí você convida ele?

A jovem se voltou à mais velha com os olhos vidrados. Pensava ser uma ótima idéia, e se perguntava como nunca havia pensado nisso; principalmente, porque Caíque não achava ruim ir à sua casa.

– Pode dar certo... - falou animada.

– Então, onde dois ou três estiverem reunidos em nome de Cristo... - encorajou Edna.

– É sim!

ooo ooo ooo ooo

Um cheiro suave de incenso já exalava pela sala aconchegante, quando ele a adentrou.

– Caíque! Pensei que nem viria mais. - Solange falou, sorridente.

– É, volta de viagem é aquela bagunça - disse, e a cumprimentou com um beijo no rosto. – Mas preciso de alguma orientação, e meu tio não é a melhor pessoa pra eu consultar quando o assunto é meu noivado.

A mulher lhe apontou uma das cadeiras de uma mesa com seis.

– Aqui mesmo? - o ruivo indagou com certa surpresa.

– É. Faço isso mais informalmente, sabe... Não é exatamente algo com que eu lucro.

– E por que não? Você é uma vidente tão boa. Meu tio já não te convidou pra trabalhar com ele?

Ela sorriu antes de responder, num tom ameno:

– Já sim. Eu ainda... estou pensando a respeito. Espera só um minutinho que vou pegar as cartas.

Instantes depois a mulher voltava com uma caixa de madeira entalhada e, sobre essa, uma toalha dobrada.

Aproximando-se, ela abriu a toalha, que exibia uma estampa florida, e a estendeu de atravessado numa das extremidades da ampla mesa. Caíque ajudou a esticar o tecido. Depois, Solange tomou o assento à frente ao que ele ocupara.

– Eu uso o baralho de Marselha - comentou, tirando da caixa o conjunto de cartas.

– Hum... bem clássico.

– Sim, gosto muito de antiguidades. Este é uma versão mais fiel dos baralhos feitos a mão. Você costuma usar o dos Anjos, não é?

– É sim - confirmou, e sustentou o olhar sereno dela por alguns instantes.

– Pois bem - Solange botou a pilha de cartas no centro da estampa –, pense naquilo que precisa saber.

Caíque fechou momentaneamente os olhos e depois assentiu com um gesto de cabeça.

– Agora pode cortar - instruiu ela.

O ruivo levou uma das mãos às cartas, separando-as em duas pilhas. Solange tirou nove cartas e as dispôs em três linhas com três cartas, após o que mirou rapidamente os olhos claros do rapaz, e inspirou fundo o incenso aromático. Então, passou a desvirar as cartas da linha mais distante de si.

Ambos fitaram as figuras - A Imperatriz, A Força e O Pendurado.

– Existem elementos que precisam ser dominados - disse ela, e tocava nas bordas das duas cartas nas pontas –, mas, com essa no centro, entende-se que você possui a força pra isso.

A surpresa na expressão do ruivo foi nítida, mas ele pareceu concordar com a suposição.

– É, já passamos por alguns altos e baixos por causa dos costumes dela. Tive que aprender a ser mais paciente. Está tudo bem, mas não sei por que estou com essa sensação ruim de que tem alguma coisa esquisita acontecendo com ela.

Atenta às palavras dele, prosseguiu.

– Compreendo... - e virou as três cartas da linha central.

Diante da nova combinação - O mundo, A Lua e A Justiça - Solange demorou-se mais em sua interpretação, assim, depois de um leve expirar, falou:

– A causa disso está relacionada com aspectos fisiológicos, certamente hormonais.

O moço ficou a contemplar as respectivas imagens, aparentemente incerto, e, exatamente por isso, permaneceu quieto.

– Já basta? - ela perguntou.

Caíque balançou a cabeça numa negativa. Em resposta, ela virou as três últimas cartas. Ao vê-las, os olhos dela sorriram com o que viram.

– Percebe? Esta trinca mostra que não há com o que se preocupar. A temperança entre os enamorados e o sol. Não existem trevas no caminho de vocês.

Ele esboçou um sorriso.

– Que bom ouvir isso.

Ela recolheu as cartas, e o ficou encarando, satisfeita com a expressão de alívio que percebia nele.

– Mas é só essa questão da religiosidade que leva vocês a terem atritos, não é?

– É sim. Pra falar a verdade, eu nem acho ela tão bitolada assim; só que, às vezes, ela tem tantos compromissos naquela igreja que nem sobra tempo pra gente se ver. E ela até me falou, esses dias, qualquer coisa sobre ter assumido um cargo lá, entende?

– Então ela deve ser bem participativa na igreja?

– E como. É do tipo que para gente na rua e tudo o mais... inclusive, foi assim que a conheci.

– Eu sei, seu tio me contou.

– Que ironia, quando eu paro pra pensar que vou mesmo me casar com uma evangélica, não consigo evitar de me achar um louco. Ainda bem que não saiu essa carta - ironizou, fazendo a mulher rir alto com isso.

Guardando o baralho, ela o encarou longamente.

– Minha intuição já me dizia que ela é a mulher da sua vida, Caíque.

Os olhos dele se iluminaram.

– Eu também sinto isso. Porque, se não fosse, nem eu teria chegado a pedi-la em namoro, e muito menos ela teria aceitado. Eu passei por cima do meu tio, ela da família e estamos aí: noivos.

– É tudo tão bonito - disse, verdadeiramente comovida. – Sempre torci por vocês.

Apesar do leve rubor que cobria sua face, circundando a mesa, o rapaz veio dar um abraço na amiga.

– Muito obrigado. Você não faz ideia do peso que tirou das minhas costas.

Minutos depois, Solange o acompanhava até a porta, com seu sorriso amigável nos lábios. Assim como Jonas, ela gostava muito daquele rapaz.

ooo ooo ooo ooo

No domingo, Caíque foi até a casa de Jussara. Sentado no sofá, esperando enquanto ela se arrumava para irem ao cinema, ouvia dona Estela dizer, da cozinha, que estava passando um café. Ocheiro já se espalhava pela casa.

De repente, virou distraidamente a cabeça para o lado e percebeu uma Bíblia ali. Pegou-a sem qualquer motivo e a abriu ao acaso. Sem ler nada, passou algumas folhas; nisso, acabou encontrando um marcador de páginas mais para o fim.

Tudo o que conseguiu ler, antes de ouvir os passos de alguém se aproximando, foi um verso, por estar sublinhado:

Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia.

Soltou rapidamente o livro, e o deixou onde estava antes.

– Desculpa a demora, já estava pronta quando lembrei que o sapato que ia usar estourou a fivela.

– Não demorou tanto assim... - disse, meio desconcertado.

Tanto o tio como ele não simpatizavam com o cristianismo, mas como estudiosos de religiões, eles tinham algumas versões do livro sagrado cristão em seu acervo. Jussara inclusive o presenteara com uma Bíblia, na época em que ainda não eram namorados.

Mas, naquele momento, ele teve receio de ser mal interpretado, caso ela o pegasse com o livro na mão, pois sempre reparava que os evangélicos falavam tão apaixonadamente da Bíblia, que mais pareciam cavaleiros da renascença exaltando a beleza de uma dama. Jussara vivia dizendo que era totalmente apaixonada pela “Palavra de Deus”.

Depois, é claro, da esperada xícara de café, eles saíram.

Caíque demonstrava normalidade, apesar de aquela informação “o mundo vos odeia” o ter deixado um tanto intrigado.

Ele jamais lera além de alguns trechos da Bíblia; lia até os Salmos com certa frequência, mas as narrativas principais nunca lhe despertaram interesse.

– Caíque, você tem algum compromisso para o próximo sábado?

– Não. Por quê? - retrucou afastando todo o resto da mente, e voltou toda sua atenção a ela.

ooo ooo ooo ooo

Assim que chegou em casa, Caíque se trancou em seu quarto e rumou à gaveta onde guardava a Bíblia que Jussara lhe dera. Pegando-a, sentou-se na cama. Queria achar aquela passagem. Ficou folheando, folheando, e nada... Enfim, era como procurar uma agulha no palheiro.

Bufou, afastando o livro de lado, e pensando que podia simplesmente perguntar para a Jussara por que ela tinha sublinhado aquele trecho, mas, ao erguer o rosto e avistar o computador, demorou meio segundo para lembrar da Internet.

Momentos depois, ele fazia uma busca simples com as palavras que lembrava e, literalmente num segundo, estava diante da mesma informação.

– Evangelho de João, capítulo 15... - ele falou à tela.

Não quis ler no site, voltou ao livro que estava em sua cama e buscou a referência.

Leu aquele capítulo, o próximo e também o anterior. Inspirou fundo então, tentando compreender qualquer coisa, quando levou um tremendo susto ao ouvir uma batida repentina na porta.

Levantou-se e, instintivamente, deixou a Bíblia embaixo do travesseiro.

– Que é? - indagou, meio desconcertado, diante de um Jonas de semblante risonho.

– Não quer vir conosco à premiação?

– Puxa, era hoje! Me esqueci completamente. Eu vou me arrumar. Encontro vocês lá.

– Não, esperamos você. Assim, vamos num carro só.

– Tudo bem.

No trajeto, Caíque pensava consigo que os tais textos bíblicos lhe traziam uma interessante sensação de descobrimento, e aquilo era algo que não sentia há muito tempo. Não gostava de admitir, mas acontecera o mesmo com o livreto dos Testemunhas de Jeová.

ooo ooo ooo ooo

Jussara escancarou a janela de seu quarto, defrontando-se com um sol radiante e um céu límpido. Sentiu o peito se encher de alegria.

– “Lindo dia, esse é o dia que o Senhor nos fez...” - cantou ao céu esse trecho de um hino cristão.

Estava muito entusiasmada. Caíque concordara em participar do culto em sua casa.

Algumas famílias viriam, a de Edna inclusive, seu pai conduziria o encontro e traria a meditação embasada na Bíblia.

Ela já tinha combinado com sua mãe que iria logo cedo ao mercado e compraria todo o necessário para um maravilhoso jantar. Depois iria para o salão de beleza: faria as unhas, o cabelo, limpeza de pele. Então, vestida com seu melhor traje, ficaria deslumbrante para seu amado. Mal podia esperar.

ooo ooo ooo ooo

Caíque dirigia sorridente ao som de músicas celtas. Um começo de noite lindo, e a promessa de um jantar delicioso.

Ao chegar à casa de Jussara, ela veio recebê-lo no portão. Estava estonteantemente linda.

– Boa noite, princesa. Isso que é produção, hein! - e gracejou com um assobio. – Mudou o cabelo também.

– Gostou? - ela perguntou, contente por ele ter reparado.

– Gostei sim, te deixou com um ar mais jovem.

– Bom saber!

Entraram de mãos dadas, sorrindo feito dois artistas.

Na sala, o ruivo se deparou com vários rostos desconhecidos, que lhes foram apresentados um a um por Jussara.

Dona Estela vinha e voltava da cozinha, naquela correria típica das donas de casa, buscando algum utensílio, respondendo alto onde estava o que, enquanto ajeitava a mesa da sala. Enquanto isso, o casal se sentou num sofá pequeno, trocando sorrisos e discretas carícias, em meio às quais, Caíque reparou que João vestia um elegante conjunto social, porém sem a gravata.

Dentro de vinte minutos, o culto começou.

ooo ooo ooo ooo

Jussara e seus pais não se aguentavam de satisfação: o comportamento de Caíque, no culto, foi surpreendente. Para o total deleite dos três, até um trecho da Bíblia ele chegou a citar. A emoção que envolveu o coração da jovem naquele momento a fez derramar umas lágrimas. Ele percebeu o tratamento mais amistoso por parte da família, ainda que não estivesse compreendendo o porquê daquilo, pois não achava que houvesse dito nada demais.

Na sequência, veio o jantar, e, conforme o esperado, foi um primor. Elogios transbordavam a cada garfada. Conversas amistosas, recheadas de trocas de experiência e testemunhos. Como criança, durante todo o jantar, Jussara não parou de abraçar o braço de Caíque.

Mais de onze da noite, quando o último convidado foi embora, Caíque e Jussara estavam na cozinha, terminando de lavar a louça. Só então puderam desfrutar de alguns minutos a sós.

– Gostou mesmo? - Jussara perguntou, sem disfarçar a euforia.

– Claro, foi muito legal - respondeu com naturalidade.

– E então, quando posso te esperar lá na igreja?

Caíque a olhou com estranheza, e demorou alguns instantes para voltar a falar.

– Olha, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

– Como assim?

– Como “como assim”? Eu não tenho a menor vontade de ir naquela sua igreja.

A jovem sentiu como se um vento polar varresse o ambiente.

– Mas por quê? - disse inconformada, já se rendendo ao desespero.

– Porque não, ué! O que isso tem a ver?

– Mas Caíque... você... você disse que gostou do culto; até recitou um Salmo!

– E daí?

– Como e daí? - retrucou, cada vez mais angustiada.

Ele envergou uma sobrancelha.

– Mas será possível...? Qual é hein, Jussara? querendo me forçar a viver nas suas tradições, é? Eu tenho minha fé, e é bem diferente da sua, você sempre soube.

Ela sentiu o chão faltar sob os chinelos, e balançou a cabeça numa negativa nervosa.

– Amor, não é isso... é que eu achei…

– Achou errado! - ele a cortou naquele velho tom, do qual ela já andava até esquecida. Contudo, talvez por causa do desespero que a invadiu, não conseguiu se conter.

– Mas se é assim não vai dar, Caíque! - vociferou, e, com isso, o fez dar um sobressalto.

– Que história é essa?

Jussara tentou sair de lado, mas Caíque a puxou pelo braço com certa rispidez.

– Vai... desembucha de uma vez!

– Me larga...

– Não vou largar. Não até que você explique isso direito!

A jovem permaneceu calada, enquanto seus olhos marejaram. Incapaz de vê-la acuada daquele jeito, o ruivo acabou cedendo. Não conseguia acreditar como, de uma hora para outra, as coisas foram se complicar daquele jeito.

Ela já escapava rumo à porta quando, colocando um braço à sua frente, Caíque impediu sua passagem.

– Jussara... - chamou-a num tom de reprovação.

– É sua palavra final? - perguntou, de repente.

– Se a questão ainda for igreja, já devia saber que sim. Não boto meus pés naquele lugar nem sob decreto!

Num gesto lento, Jussara pousou uma mão no braço estendido dele, ao mesmo tempo em que o encarava fixo nos olhos. Então, entreabriu os lábios para falar.

Naquele instante, Caíque temeu pelo que iria ouvir, e chegou a pensar, naquela fração de segundo, que a predição que ouvira de Solange só podia estar equivocada.

CONTINUA...

ooo ooo ooo ooo

Tenho um punhado de gente para agradecer nesse: agradeço a Aline Mariana pelos conselhos; a Paola e a Sandra Pimenta por me inteirarem melhor sobre esoterismo, a Josiane Veiga por ter lido a prévia; e a Paola e a minha mana Alessandra por me ajudarem muito com a parte gramatical.

Gostaria também de deixar um obrigado para minha ex-professora, Inês Brosso, que sempre comenta via e-mail.

Querem ver um desenho que eu fiz da Jussara e o Caíque? Aqui está:

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Se tiver problemas para acessar o endereço acima, use o link no meu perfil, em destaque: Capa da “Olhos Espirituais”.

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