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Daphne Pessanha
Author of 52 Stories

Rated: M - Portuguese - Romance/Drama - Treize K. & Zechs M. - Reviews: 31 - Updated: 05-17-08 - Published: 03-15-08 - id:4132226

QUARTO ACORDE

Se isto é uma piada, não estou rindo.

O jovem parou em frente à entrada da livraria, olhando por um breve momento para o nome da mesma ilustrado no letreiro colorido acima das portas de vidro e vitrine, e certificou-se mais uma vez no papel em suas mãos se era aquele lugar mesmo. Confiante, ele entrou no local, rodando seus olhos verdes ao longo do espaço onde vendedores atendiam clientes afoitos por ajuda, pessoas olhavam curiosas de estante para estante de livros a procura do título desejado e alguns relaxavam nas mesinhas do pequeno café que tinha aos fundos da loja, lendo concentrados volumes os quais ainda estavam decidindo se levavam ou não.

Um pouco perdido diante de tantas pessoas, ele mais uma vez permitiu seus olhos vagarem pela livraria a procura de uma figura em particular e não ficou desapontado em facilmente reconhecê-la entre a multidão. Afinal, era difícil ignorar um rapaz alto, de longos cabelos loiros e que parecia falar animadamente com um cliente que no presente momento estava de costas para ele.

Mais calmo agora que encontrara o seu alvo, ele caminhou a passos largos e decididos até o homem, parando a alguns metros de distância da dupla que conversava e esperou pacientemente. Em questão de segundos os olhos azuis de Zechs reconheceram a forma sempre firme e tensa de Trowa Barton e ele deu um aceno positivo de cabeça para o rapaz, indicando que falaria com ele em poucos minutos, e voltou a sua atenção para o jovem com quem conversava.

- Tem certeza que quer levar? - continuou o loiro com um tom de voz incerto enquanto segurava um volume nas mãos e o cliente o qual ele atendia soltou uma longa e divertida risada.

- Sr. Marquise, para um vendedor, o senhor não está fazendo um bom trabalho. - uma voz suave e melodiosa ecoou vinda do rapaz de costas e Trowa arqueou as sobrancelhas diante do leve tom de intimidade entre cliente e comerciante. Distraído, ele se pôs a avaliar a pessoa que conversava com Zechs, mas a única coisa que conseguiu distinguir foi uma figura de estatura mediana que usava roupas formais que consistiam em um blazer vinho e calças negras e mais uma bolsa com a alça atravessada pelas costas. Pelo timbre leve da voz da pessoa, Barton presumiu que ainda fosse um adolescente e daria no máximo quatorze anos para o desconhecido cujos cabelos loiros eram tão claros quanto os de Zechs, só que mais curtos.

- Zechs, Quatre. - o rapaz mais velho corrigiu. Nos últimos dias Marquise tornara-se ainda mais familiar com o grupo de Duo e achava graça que dentro daquela grande cidade ele costumasse cruzar com freqüência com um ou outro G-Boy pelas ruas, como se o destino estivesse determinado a fazê-lo integrar-se a aquela sociedade e criar raízes, como se soubesse dos planos do loiro para quando finalmente o inevitável acontecesse.

Enquanto Marie precisasse de tratamento, Zechs permaneceria naquele país e agüentaria aquele frio dos infernos e aquela população estranha até quando não fosse mais preciso e já tinha planos para quando, infelizmente, sua mãe falecesse de voltar para a sua adorava Itália e lá viver até o dia de sua morte. Sentia saudades de sua terra natal, do vilarejo onde foi criado, das pessoas com quem conviveu e da vida simples, mas feliz que levara. O fato de não conhecer ninguém em Frankfurt o tornava ainda mais solitário do que já era e fazia a grande tarefa que era encarar a doença de sua mãe ainda mais penosa.

A entrada dos G-Boys em sua vida, em sua rotina, parecia ter sido algo planejado por alguma força superior que não quisesse que ele enfrentasse todo este martírio sozinho e, a noite, ele confessava que às vezes entregava-se aos velhos hábitos religiosos de sua mãe e rezava agradecendo pela ajuda, mesmo que não fosse uma pessoa de muita fé. E tinha que admitir que o fato de ter aceitado tão bem o acolhimento de um grupo de adolescentes era porque realmente estava precisando de algo mais na sua vida do que as paredes geladas de seu apartamento e a indiferença dos livros daquela loja.

- Mesmo assim eu vou levar, preciso deste livro para fazer minha tese de literatura. - continuou Quatre em tom divertido, arqueando as sobrancelhas finas em direção a Zechs e estendendo a mão pálida para o livro que o rapaz colocou fora de seu alcance.

- "A Arte da Guerra" não é bem o que eu chamo de literatura leve para um rapaz de... - o homem pausou, olhando o menino na sua frente de cima a baixo. - Quantos anos você tem mesmo? - Winner riu abertamente diante da confusão do outro loiro e depois seu rosto adquiriu um meio sorriso maroto parecidíssimo com o de Duo e Zechs ponderou se o pouco tempo de convivência estava afetando a mente daquele que os G-Boys costumavam chamar de "O Príncipe do Deserto".

- Contrário a crença popular, eu tenho dezessete anos, sou o mais velho dos G-Boys, embora não pareça. - explicou-se, esticando a mão mais ainda e conseguindo tirar o exemplar de entre os dedos longos de Marquise.

Poucos conseguiam acreditar que o menino já estivesse quase se aproximando da maioridade, pois a sua pouca estatura os fazia crer que o mesmo ainda estava entrando na adolescência. Quatre não se importava com tamanho engano, sabia que ainda tinha tempo para crescer e ficava aliviado de que não seria pequeno para sempre pelo simples fato de seus pais serem pessoas altas. Logo, um dia, ele também chegaria lá. Sua mãe sempre dizia que tudo era questão de paciência e tal virtude era o que sobrava no herdeiro dos Winner.

- Mas ainda sim é jovem, sem falar na polêmica que você vai causar quando apresentar este trabalho para o seu professor. - retrucou Zechs já imaginando um padre tendo um ataque do coração no meio da sala de aula ao ver que a criatura na sua frente, que mais parecia um anjo, tinha usado logo Sun Tzu como exemplo de grande pensador dos últimos tempos.

- As pessoas deixam o nome julgar demais o caráter. - interrompeu o menino com um suspiro e Marquise deu um meio sorriso, cruzando os braços sobre o peito e esperando a grande teoria que sairia da boca do jovem.

De todos os G-Boys que conhecera, Quatre era o que tinha pensamentos mais semelhantes aos seus. Ficara surpreso quando descobrira que o garoto era herdeiro primário de uma grande corporação de nível mundial e que, surpreendentemente, era o caçula de vinte e nove mulheres. Fora criado para ser um homem de negócios e era a primeira pessoa que conheceu que fugia do clichê de "garoto sendo pressionado para assumir a fortuna da família".

Ao contrário do que qualquer um pudesse pensar, Quatre estava mais do que ansioso de ficar a frente das Empresas Winner, tinha planos mirabolantes para as mesmas e um dom para administração empresarial que chocava muitos que já estavam nesse ramo há anos. Era um líder nato, era carismático, inteligente e compreensivo e, logo, não era difícil de imaginar vê-lo lendo "A Arte da Guerra", mas mesmo assim achava que ele deveria ir devagar nesse empenho todo de ser o melhor empresário da história.

O menino ainda era jovem, com certeza o pai dele só o deixaria assumir a posição a frente das empresas da família quando sentisse que o garoto estivesse preparado. Achava que, enquanto isto, Quatre deveria aproveitar ao máximo a sua infância antes de embarcar na vida adulta. Ele tinha a oportunidade e não merecia amadurecer tão rapidamente como Zechs fez. Não quando ele não precisava fazer isto, não é mesmo?

- Sun Tzu era apenas um estrategista e os pensamentos e conclusões dele aplicados no mundo atual vão além de trincheiras de batalha e guerras físicas e armadas. E é isso que eu pretendo abordar na minha tese, a capacidade de adaptação de uma literatura do século IV para os tempos atuais onde o que reina é o capitalismo e não as armas propriamente ditas. - Marquise descruzou os braços, arqueando as sobrancelhas e lançando um breve olhar sobre a cabeça de Winner para um Trowa ainda parado atrás do garoto e escutando com interesse a discussão. - Você como futuro sociólogo deveria compreender isto. - finalizou o garoto e o loiro soltou um suspiro dramático, retirando um bloco do bolso de seu avental e começando a escrever nele.

- Você tem jeito com as palavras jovem Winner, tem muito jeito. Leve o livro, leia e depois me diga o que achou e aí teremos uma discussão mais aprofundada sobre o assunto. - riu ao ver a expressão extasiada no rosto do menino.

- Já leu o livro sr. Marquise? - perguntou mais para confirmar as suas suspeitas que qualquer outra coisa. Conhecia Zechs há pouco tempo, mas descobrira que ele era um ávido leitor como ele e que nos encontros que tinham no Zero Wing costumava sempre sentar-se à mesa do homem mais velho para debater sobre assuntos que iam desde política a sociologia e confessava que ficava surpreendido em como uma pessoa vinda de uma classe tão baixa pudesse ser tão astuta, o que derrubava todos os seus pré-conceitos sobre o que era "ser pobre". Marquise poderia não ter um tostão furado no bolso, mas tinha uma riqueza de conhecimento que encantava Winner e o fazia admirá-lo cada dia mais.

- O que você acha? - Zechs respondeu com um sorriso divertido, entregando a notinha para o garoto e apontando a direção do caixa. Animado, Quatre girou sobre os pés, pronto para seguir na direção apontada pelo rapaz mais velho, mas parou abruptamente quando viu seu caminho ser bloqueado por uma figura alta, de ombros largos e postura ameaçadora. Hesitante, o menino ergueu os olhos azuis claríssimos para ver o rosto do empecilho e corou ao ver-se mirado por curiosos olhos verdes.

Trowa segurou-se para não dar um sorriso ao finalmente ter o prazer de ver o rosto do garoto que parecia vibrar de antecipação só diante da perspectiva de futuramente ter uma discussão acalorada sobre estratégias militares com Zechs. Não era todo o dia que alguém cruzava com um adolescente que fazia de seu livro de cabeceira um volume escrito há milhares de anos, não é mesmo? E ainda ficava feliz com isso. Divertiu-se ao mirar o rosto angelical do menino e o modo como realmente, mesmo tendo um ano a menos que ele, o jovem parecia ser mais novo do que realmente era. Talvez fossem os cabelos loiros levemente ondulados, ou os largos olhos claros que o miravam assustados, mas Barton tinha que admitir que o estudante era adorável.

- Er... com licença? - pediu Quatre sem jeito e ainda tentando segurar um sorriso. Trowa deu um passo para o lado, cedendo passagem ao jovem cujas bochechas pálidas tinham um leve tom de rosado e assim que viu seu caminho livre, Winner praticamente correu em direção ao caixa abraçando o livro contra o peito e lançando rápidos e discretos olhares sobre o ombro para o homem alto e de intensos olhos esmeraldas.

Barton ainda ficou observando o rapaz durante todo o percurso até o caixa, viu quando ele pagou pelo livro, pegou o mesmo sendo entregue devidamente ensacado pelo funcionário da loja e antes de sair da livraria lançou um último olhar na direção do moreno, com as bochechas ficando ainda mais vermelhas, e saiu correndo do estabelecimento, sumindo entre a multidão que transitava pela galeria.

- Trowa?! - Zechs estalou os dedos em frente ao rosto do rapaz mais novo, chamando a atenção dele prontamente para o loiro que esperava alguma reação do jovem. Barton piscou os olhos verdes por um momento antes de sua expressão voltar a usual impassividade e ele virar-se para encarar o vendedor. - Bem vindo de volta. - debochou o homem enquanto descansava as mãos dentro dos bolsos da calça e franzia as sobrancelhas. - Como me encontrou aqui? - continuou e Trowa apenas o encarou por longos e enervantes segundos antes de responder em seu sempre presente tom sem vida.

- Tenho os meus meios. - concluiu, virando-se completamente para encarar o loiro que ainda o mirava com uma expressão curiosa e ao mesmo tempo confusa. - Deve estar se perguntando o motivo da minha visita, estou certo? - continuou e a Zechs apenas restou assentir com a cabeça.

Mil questões passavam pela sua mente para justificar a razão da presença do rapaz na loja onde trabalhava e a única resposta que conseguia encontrar é que estava devidamente e honrosamente demitido. E tinha que se congratular, porque aquele fora o emprego que ele conseguiu manter por menor prazo de tempo e isso era um recorde no presente momento. Entretanto, ao mesmo tempo, a figura de Trowa na livraria o intrigava, pois geralmente quando o assunto eram negócios, Une era a primeira pessoa com quem entrava em contato e que tratava com ele sobre isso, não o segurança da tão irritante princesinha.

- Vim dizer que o esperamos na próxima quarta no horário de sempre. - continuou Barton e viu as sobrancelhas loiras arquearem diante do que ouviu. Refreou um pequeno sorriso que ameaçava brotar em seu rosto diante da surpresa do outro rapaz e simplesmente não podia lhe tirar a razão. Depois do show que ele deu na última sexta-feira e do seu não aparecimento na segunda na mansão Khushrenada, não podia deixar de compreendê-lo quando ele presumiu que estava no olho da rua, o que quase aconteceu se o moreno não tivesse intercedido junto ao cunhado.

E embora ele às vezes sinta pena do jovem italiano quando o vê dia após dia agüentar calado os chiliques de Mariméia, coisas que muitos outros não suportaram em duas horas na presença dela, confessa que era divertido assistir o embate dos dois. Era como testemunhar duas crianças brigando para ver quem estava com a razão e isso era cômico. Zechs era um homem aparentemente maduro e que parecia regredir a infância quando se encontrava com a sua sobrinha.

E, às vezes, ele tinha a sensação que o loiro somente arrumava briga com a menina porque se divertia, também, em assistir e garotinha perder a compostura assim como as palavras. Sem contar que o que Mariméia precisava era de alguém que não somente impusesse limites à atitude dela, mas que também a desafiasse. Não basta apenas um adulto a colocar em seu lugar, mas também tem que respeitá-la e de alguma maneira ou de outra, Marquise fazia isso.

O jovem via a ruivinha não apenas como uma garota arrogante, mas também como uma igual. Reconhecia que ela tinha potencial, que era uma menina inteligente com um sério problema de personalidade e quando não perdia a paciência com ela e resolvia tratá-la como a herdeira mimada que às vezes ela gostava de encarnar, o homem realmente a tratava com respeito e isso era de se surpreender. Inconscientemente Zechs fazia o que tutores, babás, orientadores não conseguiram fazer: ele aos poucos conquistava a confiança de Mariméia. E isso, era um marco histórico.

- A princesinha de fogo resolveu voltar atrás quanto às aulas de piano? - debochou o rapaz e Trowa apenas deu um leve sacolejar de ombros. Quando Marquise não apareceu na segunda-feira como esperado, o moreno teve o prazer de presenciar, pela primeira vez, uma expressão de desapontamento surgir no rosto da sobrinha. A mesma expressão que ela às vezes adquiria quando Treize cancelava algum compromisso com a menina.

Zechs havia se tornado uma constante na vida da garota nesse último mês, além de Trowa. Fora eles dois, mais ninguém ficava na presença da menina por muito tempo. Adultos a dispensavam por ela ser uma criança, os empregados a tratavam com reserva não apenas por causa de seu temperamento difícil, mas também por causa da muralha imposta desde tempos antigos sobre a relação patrão e empregado. Une tentava ser presente, tentava suprir a falta de Catherine a quem conheceu e da qual fora muito amiga, mas a mulher não era do tipo extremamente paciente com crianças e apesar de gostar de Mariméia ela era, primeira e exclusivamente, assistente de Treize, não da garota.

Professores na escola tratavam a menina com respeito e indiferença por causa de sua origem "nobre", colegas de classe não passavam disso: colegas. Nunca subindo ao status de amigos. Muitos eram tão enjoados quanto à ruiva e a mesma já não gostava de competição, então interagia menos ainda com eles e então lhe aparece um professor de piano que foge de todo o tradicionalismo dos grande tutores da alta roda da sociedade, mas que tem um grande talento e é do tipo de jamais levar desaforo para casa, ainda mais de uma ninfeta, e isso muda toda a rotina da menina. E com isto, Marquise conseguiu outro feito:

Prender a atenção de Mariméia por tempo prolongado.

Geralmente os novos projetos da garota não duravam nem duas semanas e logo ela ficava entediada. As aulas de piano já estavam entrando em seu segundo mês e ela ainda persistia. Não sabia dizer se era por causa da teimosia de provar ao tal "operário" que ela tinha algum talento, discordando das acusações que Zechs jogou outro dia na cara dela, ou se ela realmente estava gostando da nova empreitada.

- O que passa pela cabeça de Mariméia eu realmente não sei dizer, mas no momento sei dizer que ela está disposta a te dar mais uma chance. - comentou e o loiro notou um certo tom de sarcasmo na voz de Barton. Não era a garota que tinha que oferecer chances a ele, mas sim o inverso e parecia que Trowa também tinha captado a ironia da colocação.

- Hunf! - Zechs bufou, desviando o olhar azulado para uma estante ao seu lado, extremamente pensativo. Voltar significaria uma crescente em seu orçamento com o retorno de mais um contracheque em suas despesas, mas também resultaria em um aneurisma precoce diante da perspectiva de ter que aturar por nove horas semanais aquela pirralha. Será que valeria a pena?

- Não desista dela, Marquise. - Trowa interrompeu os pensamentos dele, o mirando com uma expressão séria. - Nem tudo está perdido e eu aprendi com pouca idade que as pessoas tendem a nos... surpreender. - aconselhou e com um suspiro o loiro assentiu com a cabeça, não apenas concordando com o que ele havia dito, mas concordando em retornar para a mansão e voltar a lecionar para a menina. Barton deu um meio sorriso diante desta vitória e com um leve menear de cabeça despediu-se do rapaz, deixando rapidamente a loja.

A primeira parte do seu trabalho estava feita, conseguira trazer de volta para a vida dos Khushrenada o loiro que parecia ter balançado todos os alicerces daquela família. Agora, apenas deixaria o destino tomar o seu rumo e se acomodaria confortavelmente no camarote para assistir o desenrolar daquela história.

- - - - - - -

Duo parou em frente à entrada do Zero Wing e deu uma leve espiada pela vitrine da lanchonete para o movimento dentro da mesma. Viu que alguns clientes degustavam um café da manhã tardio e, curioso, deixou seu olhar percorrer mais afundo o estabelecimento em direção a cozinha, com os seus orbes violetas prontamente encontrando quem procurava. Com o rubor usual subindo-lhe as bochechas, ele rapidamente começou a verificar a aparência na vitrine da loja de perfumes ao lado da lanchonete, ajeitando rapidamente qualquer fio solto de sua trança e alisando qualquer amassado em seu uniforme escolar.

Normalmente, há esta hora, ele estaria dentro de uma sala de aula ouvindo o sermão enfadonho de algum dos seus professores sobre algum assunto que sinceramente não lhe interessava. Os educadores, padres e coordenadores de sua escola não conseguiam compreender como um aluno tão arteiro, tão irresponsável como Maxwell conseguia, apesar de todo o seu desleixo, passar com louvor nas matérias. Por algum tempo a administração do colégio considerou a hipótese de que o rapaz estivesse trapaceando nos exames até que um dia eles resolveram isolar o garoto durante a época de provas para poder fazer os testes e os resultados permaneceram os mesmos.

No fim eles chegaram à conclusão que sim: Duo Maxwell era extremamente inteligente e o problema era que ele tinha a mania de desperdiçar toda essa esperteza em coisas inúteis. Bem… inúteis na opinião deles. Na opinião de Duo eram coisas bem produtivas. Afinal, uma pessoa ganhava o dia quando tinha o prazer de ver Irmã Agnes gritar de terror ao encontrar uma tarântula entre os panos de seu hábito. E embora as outras irmãs e padres dissessem que ele iria queimar no fogo do inferno por causa de seus pecados, o americano não pôde deixar de perceber o sorriso que eles custavam a conter ao lembrar-se da cena.

Irmã Agnes era o diabo, sem trocadilhos, e não era a pessoa favorita de muitos dentro do colégio.

Duo apenas colocou em prática algo que muitos estavam almejando há tempos fazer. Claro que isto lhe rendeu uma bela suspensão, um longo e irritante sermão de seu pai, um rolar de olhos de sua mãe e um belo castigo, mas ao menos seu irmão caçula de cinco anos Solo riu ao ouvir a história.

Mas voltando ao presente momento onde ele se encontrava matando aula para visitar a lanchonete. Maxwell tinha que admitir que normalmente ele nunca daria um segundo olhar ao Zero Wing se passasse pelo lugar em uma manhã qualquer de sua vida, pois estranhamente o estabelecimento tinha uma decoração e atmosfera que lembrava os dinners americanos, aqueles que a pessoa via em velhos filmes dos anos setenta ou que Duo recordava de ter conhecido em sua infância quando ainda morava nos EUA antes de seu pai militar ser mais uma vez transferido.

E a clientela obviamente constituía-se mais de pessoas que já freqüentavam o local há anos, talvez desde a sua inauguração, do que dos executivos, estudantes e transeuntes que costumavam passar pelas calçadas abarrotadas daquela avenida que a cada dia parecia expandir mais com novos e modernos comércios.

Em outros tempos Maxwell nem se daria ao trabalho de visitar com tanto ardor um lugar, pois não gostava de criar raízes, visto que sempre que isto acontecia ele tinha que se mudar de novo por causa de mais uma transferência de seu pai. Mas, desta vez, foi diferente, era diferente. Pela primeira vez ele ficava mais de um ano em um local só e pela primeira vez ele conseguia fazer amigos. Não que isto fosse difícil, pois a sua personalidade alegre e expansiva sempre parecia ser um chamariz para os desavisados. E ele jamais esqueceria o dia em que mirou com outros olhos o Zero Wing.

Fazia poucos meses que ele tinha se mudado para Frankfurt, fazia poucos meses que ele tinha se acostumado com o frio da cidade e sua balbúrdia, visto que o último lugar em que morou foi em uma pequena base instalada nas profundezas quente e úmida da Índia. Há meses ele percorria aquele trajeto para a sua nova escola e a cada dia que se passava mais pessoas o acompanhavam no percurso.

Primeiro começou com Gary Stuart, o primeiro G-Boy da trupe, um rapaz negro de cabelos trançados e sorriso aberto, filho de militar como ele e que como Duo era um transferido. Depois veio um rapaz local, típico alemão alto, loiro e de olhos azuis, chamado Owen Müller. Outro que se tornou seu melhor amigo. Alguns colegas de escola também começaram a acompanhar o popular trio, mas não se integrando o suficiente para se tornar um G-Boy. Isto até que Quatre Winner chegou.

A carinha de anjo do loiro não escondia o arteiro que havia por debaixo daquela máscara e isto foi o suficiente para fazer o jovem árabe ser oficialmente aceito no clube deles, fechando em um quarteto que fazia questão de azucrinar Duo em sua nova obsessão. Afinal, o dia em que ele finalmente resolveu reconhecer a presença da lanchonete em seu caminho foi o dia em que ele viu pela primeira vez Heero Yuy.

Era uma manhã de início de outono, o ainda trio de G-Boys havia ganhado uma aula vaga e por causa disso, do tempo folgado e das barrigas roncando por causa do desjejum perdido por acharem que estavam atrasados e descobrirem que na verdade tinham um tempo livre, os três garotos resolveram visitar a lanchonete no final da rua. A primeira coisa que Maxwell percebeu quando entrou no estabelecimento foi que o mesmo estava estranhamente vazio para o horário que era, pois geralmente estes locais durante a manhã e aproximando-se do almoço costumavam encher. O que não era o caso.

A segunda coisa que reparou foi nos penetrantes olhos azuis que pareciam analisar cada movimento do pequeno grupo. Instantaneamente Duo sentiu um arrepio descer-lhe a espinha. O rapaz atrás do balcão que arrumava os copos de vidro em pilhas tinha as feições mais exóticas que havia visto em um homem. Os olhos eram escuros, em um tom quase azul-marinho. Eram estreitos, puxados, indicando a sua descendência oriental. A pele era morena, como se fosse efeito do sol, mas dava para perceber que ela não tinha a opacidade que uma pele queimada de sol normalmente possuía, logo esta era a cor natural do rapaz. E os cabelos eram castanhos escuros, curtos e pareciam apontar para todos os lados, dando ao jovem um ar de "acabei de acordar".

Ele era perfeito, pelo que viu quando o mesmo saiu detrás do balcão e foi terminar de desvirar as cadeiras e arrumar as mesas. Era como um modelo que você via em outdoors espalhados pela cidade e pelo uniforme escolar que ele usava dava para precisar a idade dele rapidamente e Maxwell apostava que o jovem deveria ter no máximo quinze anos, como ele tinha. Não era tão mais alto que o rapaz de trança, mas o físico o fazia parecer mais velho do que o rosto novo indicava. Quando andava lembrava um felino diante da postura firme e elegante além da aura de perigo que o rodeava e cada vez que aqueles olhos azuis o encaravam fazia todos os membros do corpo de Duo amolecerem rapidamente.

Fora amor à primeira vista. Gostava de acreditar nisto, precisava acreditar nisto, pois senão não teria outra explicação para o coração que vinha a boca cada vez que o via ou o calor que percorria o seu corpo, queimando a sua pele, quando as íris azuladas cravavam em seu rosto mesmo que por um breve momento. Sensações que nunca sentira agora o dominavam por completo cada vez que entrava no Zero Wing e o encontrava lá e por meses, quase um ano, eles dois viviam nessa valsa eterna. Duo nunca investira nesta paixão, pois acreditava que não era retribuído, isto até que semanas atrás Hilde lhe disse que estava enganado. Redondamente enganado. O que o trazia a este dia, a exatamente esta hora e o motivo dele estar se olhando na vitrine e checando a aparência.

Hoje ele pediria a Heero Yuy que lhe concedesse a honra de levá-lo em um encontro.

Meio fresco colocando desse jeito, não? O fazia parecer que estava convidando uma garota em vez de um garoto, mas não conseguia encontrar palavras melhores para descrever o que estava prestes a fazer.

- Eu acho que melhor não pode ficar. - uma voz interrompeu as suas divagações e pelo reflexo da vitrine ele viu um rapaz alto e loiro parado atrás de si e com uma expressão divertida no rosto. Automaticamente retribuiu o sorriso e virou-se num pulo sobre os pés para encarar o outro jovem.

- Zechs meu caro amigo, quanto tempo não te vejo! O que conta de novo? - sua voz saiu em um tom animado, mas para um homem observador como Marquise, o mesmo pôde captar nas entrelinhas o nervosismo que o menino estava sentindo e isto fez as sobrancelhas claras franzirem levemente.

- Por que de tamanha produção? - continuou inquirindo, ignorando o fato de que o sorriso no rosto de Duo sumiu e ele soltou uma gargalhada forçada para depois lançar um breve e relutante olhar para dentro do Zero Wing. Zechs acompanhou o olhar o garoto, vendo Heero mexer com maestria na caixa registradora e anotar uma coisa ou outra no caderno aberto ao seu lado sobre o balcão. Rapidamente seu olhar voltou-se para o americano na sua frente e ele deu um discreto sorriso. - Entendo. - completou e Maxwell soltou um suspiro de pesar. Metade da cidade sabia o que ele sentia pelo sisudo japonês, menos o próprio oriental que parecia ser mais cego que morcego em quarto escuro.

- Bem... eu decidi depois de três dias debatendo comigo mesmo... e Quatre, de convidar o Heero para sair. - finalmente confessou, deixando transparecer todo o nervosismo que sentia no momento e o sorriso de Zechs se alargou.

- Isso é bom... mas ao menos que você entre na lanchonete, não conseguirá muita coisa parado aqui fora esperando que a montanha venha a Maomé, não é mesmo? - Duo soltou outra leve gargalhada nervosa e coçou a cabeça em um gesto sem graça. Ainda achando divertimento daquela situação, Marquise fechou a mão no punho do garoto e sem pedir licença tomou o caminho do Zero Wing, arrastando o menino para dentro da lanchonete e chamando a atenção de Yuy quando o sino sobre a porta da mesma badalou.

Os olhos azuis escuros do japonês observaram a dupla com interesse e as sobrancelhas castanhas franziram quando o olhar do rapaz desceu do rosto absurdamente vermelho de Duo para a mão de Zechs que segurava o pulso do garoto e o italiano quis rir abertamente diante do ciúme que estava estampado com todas as letras no rosto aparentemente impassível do oriental. Ainda com uma expressão de gato que pegou o canário, Marquise empurrou Maxwell em direção ao caixa e este tropeçou sobre os próprios pés, usando o balcão para se apoiar e ficar cara a cara com o objeto de suas afeições.

- Heero... Acredito que Duo tem algo a lhe dizer. - o loiro falou em um tom sério e sem demoras encaminhou-se para a sua mesa de costume e acomodou-se nas cadeiras acolchoadas para assim assistir o show de camarote.

Em seu lugar, Duo lançou um olhar azedo para Zechs por sobre o ombro e depois voltou a sua atenção para o outro adolescente na sua frente, engolindo em seco ao perceber que eles estavam bem próximos, com somente o balcão os separando. Nunca nesse um ano ele tinha ficado tão próximo de Heero e a sua respiração prendeu na garganta ao notar que ele era muito mais atraente ao ser visto mais de perto.

Dando mais uma de suas risadinhas sem graça, mostrando claramente o quanto ele estava sem jeito, o americano pigarreou alto e sentiu todos os músculos do seu corpo congelarem quando os belos olhos azuis do oriental pareceram cravar em seu rosto esperando alguma reação dele. Achou que se as suas bochechas ficassem ainda mais quentes começaria a soltar fumaça pelas orelhas como uma panela de pressão e aparentemente a sua língua resolveu enrolar-se no fundo de sua boca e não mais funcionar.

- E então? - a voz grave de Yuy chegou aos ouvidos de Duo e o garoto de trança sentiu que neste presente momento os ossos de seus joelhos tinham feito as malas e dado adeus a ele dizendo que iriam tirar férias, pois as suas pernas subitamente amoleceram. Lembrou-se que em todo este tempo nunca tinha ouvido Heero falar e sempre fantasiara, no escuro de seu quarto, quando era apenas ele e a mão dele para satisfazer as suas necessidades, como seria escutar o outro rapaz sussurrando coisas ao pé do ouvido, ou gemendo sobre si, e agora tinha praticamente obtido as suas respostas. - Estou esperando. - completou para absoluta tortura do americano que achou que tinha acabado de chegar ao clímax sem ao menos ter se tocado.

- Eu... er... eu... - Heero arqueou as sobrancelhas diante da inabilidade do rapaz na sua frente de dizer alguma coisa.

Confessava que tinha reparado em Maxwell no primeiro momento em que o garoto pôs os pés dentro da lanchonete. Afinal, como não notar alguém tão barulhento e expansivo como o americano? Na época o jovem discutia com os amigos e fazia gestos largos com a mão, tentando comunicar-se mais pela expressão corporal do que pelas palavras, pois Yuy pôde notar que o alemão do rapaz não era dos melhores. Com o passar dos meses o garoto pareceu começar a dominar mais a língua o que possibilitou Heero de compreender melhor a conversa deles e absorver pouco a pouco alguns detalhes sobre aquela criatura que estranhamente o fascinava.

Descobrira que Duo Maxwell era americano de nascença, originário da Califórnia onde morou por três anos quando ainda era bebê. Viajou por vários lugares do mundo por causa do pai, fuzileiro naval que vivia sendo transferido de base, e que a última estadia dele havia sido na Índia. Gostava de rock, sorvete e colecionava chaveiros dos países em que morou. Tinha a mesma idade que ele, estudava no colégio católico a dois quarteirões do Zero Wing e que toda noite sonhava com aquele corpo esguio e ágil contra o seu de maneira quase obsessiva.

Entretanto, como todo bom japonês, Heero possuía a timidez natural de seus conterrâneos e a personalidade reservada da cultura na qual foi criado, o que o impossibilitava de fazer qualquer progresso com o outro garoto. E, além do mais, sabia que o menino não gostava dele.

Afinal, o que teria para gostar nele? Não era social, não era divertido, não era de dar sorrisos, era um garoto órfão que tudo o que tinha como lembrança dos pais era a fortuna que herdou deles e as histórias que o seu tio excêntrico contava. O casal Yuy era atarefado demais para dar atenção ao filho e, portanto, não poderia se dizer que eles eram a família perfeita.

Além do mais, considerava-se uma espécie de aberração. Era um gaijin, com seus diferentes olhos azuis e cabelos castanhos. Sempre fora um excluído na cidade onde morou e admitia que por um breve momento sentiu-se feliz quando soube que teria que se mudar para a Alemanha. Seria mais normal em sua nova vida e talvez não fosse considerado mais um "estrangeiro" pelos outros. O que era um progresso em sua opinião.

E agora, quando ele se encontrava em mais uma manhã de trabalho na lanchonete, vinha o garoto de seus sonhos falar com ele e apesar de sua postura gélida e distante, Heero estava tremendo todo por dentro diante das possibilidades e cenários que se passavam em sua mente. O que, afinal, Duo Maxwell poderia querer com a sua humilde pessoa?

- Er... - o americano gaguejou mais uma vez, lançando um breve olhar para Zechs sobre o ombro como se pedindo ajuda ao loiro, mas este apenas sorriu, acenou um adeuszinho para ele e voltou a observar a cena com divertimento, o que fez o menino dar uma careta para o italiano diante da inutilidade dele. - Euqueriasabersevocêestálivrenasextaanoite. - soltou tudo em um fôlego só e estranhamente sentiu-se mais leve depois disso.

Heero arregalou levemente os olhos, tendo compreendido palavra por palavra do que o garoto tinha dito, mas não conseguindo assimilar tamanha improbabilidade ou mesmo cogitar a hipótese de que aquilo significava o que ele realmente estava pensando.

- Como? - perguntou aturdido e Duo fez uma expressão miserável no rosto.

- Por favor, não me peça para repetir. - disse num choramingo com as bochechas ainda cor de vinho.

- Você está me chamando para sair? Como em um... encontro? - Yuy completou apenas por via das dúvidas e franziu as sobrancelhas, encarando com mais firmeza o jovem na sua frente que começou a vacilar e ficar ainda mais nervoso do que estava antes.

- Er... você não é obrigado a aceitar nem nada, mas é que eu realmente estou interessado em você e eu achei que não doeria nada dar uma chance. Mas se esta não é a sua praia tudo bem, se eu te ofendi eu sinto muito, é só dizer não e eu saio daqui como um cachorro escorraçado de casa e vou lamber as minhas feridas e nunca mais ponho os pés neste lugar... - começou a explicar-se rapidamente e Heero soltou um suspiro.

- Maxwell! - o chamou em um tom grave e Duo sentiu um arrepio ao ouvir o seu nome sair da boca do japonês naquela voz grossa e sensual. - Cala a boca! - ordenou e o menino achou que o seu coração iria despedaçar. - Me encontre aqui na sexta as sete em ponto. Nem um minuto a mais. E eu escolho o programa. - finalizou, virando-se rapidamente e indo refugiar-se na cozinha para processar melhor o que tinha acontecido e talvez se beliscar para garantir que aquilo não era mais um de seus sonhos.

O americano ainda ficou alguns minutos parado no mesmo lugar assimilando tudo o que tinha acontecido e quando finalmente a informação foi registrada pelo seu cérebro ele deu meia volta com um sorriso enorme no rosto e praticamente saltitando foi a caminho da mesa de Zechs.

- Você ouviu? - cantarolou com o coração aos pulos e a cabeça leve e Marquise quis rir diante da inocência do primeiro amor estampado no rosto do adolescente.

- Parabéns. - desejou o loiro, ainda rindo ao recordar-se de toda a cena. Yuy e Maxwell eram extremamente opostos e como toda a lei do universo, opostos realmente se atraíam. Rapidamente o sorriso no rosto de Duo desfez-se e ele adquiriu uma expressão séria. - O que foi?

- O que eu vou usar na sexta à noite? - ponderou e Zechs piscou os olhos incrédulo. Aquela cara de enterro era por causa disso? - Eu não tenho nada para vestir...

- O quê? - balbuciou diante da reação do menino pela aparente falta de vestimenta para o encontro. - Duo, isso é ridículo, eu tenho certeza que o Heero nem vai se importar com o que...

- Você está com o tempo livre agora? - perguntou apressado, o interrompendo antes mesmo que o homem pudesse completar seus pensamentos e Zechs relutou muito em dar a resposta verdadeira ao garoto, temendo com o que ele poderia fazer com esta informação.

- Sim? - disse hesitante e não teve nem tempo de respirar e já estava sendo arrancado de seu assento pelo americano afoito que num piscar de olhos o tirou de dentro da lanchonete e começou a arrastá-lo rua abaixo em direção ao metrô. Por minutos o loiro ainda tentou perguntar ao menino mais novo o que ele estava fazendo, para onde o estava levando, e quando um tempo depois a dupla encontrou-se em frente à entrada de um movimentado shopping, Zechs começou a se arrepender amargamente de não ter dito "não" mais cedo.

- - - - - - -

Cuidadosamente ele ajeitou os travesseiros irritantemente verdes do hospital sob a cabeça da mulher, levando uma mão trêmula a têmpora dela e acariciando a pele marcada pela idade, para depois deslizar os dedos pálidos por entre os fios acinzentados e sedosos. Viu quando o rosto adormecido contorceu-se levemente por causa do toque e pausou por um momento, esperando qualquer reação dela. Quando a mulher continuou em seu sono profundo, relaxou, voltando a alisar os fios esbranquiçados e do que um dia foi uma farta massa de cabelos negros. Assim que terminou a sua carícia soltou um suspiro, voltando a sentar na cadeira ao lado da cama e continuando a fazer vigília ao lado da enferma.

Fazia duas semanas que Marie tinha sido internada em estado crítico no hospital e a cada dia que se passava ela aprofundava-se cada vez mais na fase terminal da doença. Cada vez mais os sintomas se agravavam, a memória se perdia, percebia que ela agora quase não tinha mais audição e a visão seguia pelo mesmo caminho, conseqüências do Alzheimer. O médico responsável pelo tratamento dela dizia apenas que, agora, tudo o que eles poderiam fazer era esperar a vontade de Deus e que este acabasse com o sofrimento dela e Dr. J muitas vezes recomendara que fosse bom Zechs começar os preparativos para quando o dia crucial finalmente chegasse.

O problema era que ele não tinha forças para isso. Sair daquele hospital para lidar com a burocracia que envolvia o transporte de um corpo de volta ao país de origem para ser velado era apenas admitir para si mesmo que o fim estava chegando. E no momento ele ainda gostava de viver na terra da negação. Gostava de mentir para si mesmo dizendo que amanhã seria um novo dia, que por algum milagre divino ele chegaria ao hospital e ouviria a notícia de que Marie estava se recuperando e todos os dias ele se decepcionava ao encontrar a dura realidade.

O monitor de batimentos cardíacos começou a emitir sons mais acelerados e o loiro voltou a sua atenção para a mulher na cama, vendo que ela estava lentamente despertando de seu sono induzido por remédios. Permaneceu com a expressão impassível, esperando para ver qual seria a reação dela, saber se este era mais um daqueles dias os quais ela não reconhecia nem ao menos o rosto do filho e viu apreensivo os orbes castanhos da italiana viraram-se em sua direção.

- O que faz aqui? - perguntou com uma voz rouca e fraca e Zechs não soube como responder a aquela pergunta tão abrangente até que ela a completou. - Rapazinho, quantas vezes eu já te falei para não largar as suas tarefas apenas para vir fazer companhia a esta velha? - o loiro deu um meio sorriso, reconhecendo rapidamente aquele discurso.

Nos bons dias, quando Marie lembrava-se de quem ele era, ela sempre o repreendia pelo fato de que ele largava toda a sua vida para trás para ficar com ela no hospital. A mulher não gostava do fato do filho colocá-la acima de suas responsabilidades e se o conhecia bem, o mesmo deveria estar cortando um dobrado para bancar todo o tratamento dela que, com certeza, não era nada barato.

- Sabe que é mais importante do que qualquer pirralha sem nenhum talento musical. - gracejou e a italiana deu um meio sorriso antes de franzir as sobrancelhas seriamente.

- Tsc, tsc, Zechs. Não fale este tipo de coisa daqueles que te alimentam. - o repreendeu mais uma vez, esticando um braço fraco e magro para o jovem que rapidamente entrelaçou seus dedos longos e calejados entre os dedos da mãe. Já conhecia este discurso também, pois não fora poucas as vezes que usara Marie como sua confidente em relação ao fato de que Mariméia simplesmente o enlouquecia. A italiana tentava procurar justificativas, como o fato da menina ter perdido a mãe ainda cedo, para as atitudes dela, mas Marquise não as engolia.

Também estava perdendo a mãe, aquela que fora o seu alicerce por anos, a pessoa mais importante de sua vida, e mesmo assim não saía por aí ofendendo as pessoas sem nenhum motivo aparente e andando pela rua com o nariz tão empinado no ar que corria o risco de tropeçar no primeiro obstáculo que aparecesse. Para o loiro, a personalidade deturpada da menininha ruiva com certeza era conseqüência de uma má criação. Tentou explicar isto para a mãe, mas a mulher parecia sempre ter um contra argumento para defender uma criança que nem ao menos conhecia.

No fim, cansado de discutir com alguém que se tornara mestra em saber como convencer Zechs a fazer algo que não queria, ele saiu do hospital com um bico enorme a caminho da mansão Khushrenada para mais um dia infernal de trabalho. Arrastando os pés por todo o caminho para assim retardar ainda mais a sua chegada, ele cruzou os portões da enorme propriedade e deu um "oi" muito pouco animado para o velho mordomo que já o esperava na porta.

Com um ar de enfado ele tomou o rumo do salão de música e não se surpreendeu de encontrar uma Mariméia já o esperando com uma cara emburrada e Trowa com a eterna expressão de "sou incapaz de mover um músculo facial" no rosto, parado como um poste ao lado da menina. Quando a ruiva foi abrir a boca para soltar qualquer comentário, Zechs prontamente a interrompeu ao bater a sua mochila com um estalo enorme sobre o piano e abrindo prontamente as partituras para o ensaio. Aprendera rapidamente que a melhor maneira de não bater de frente com um tubarão era não deixar que ele nadasse muito perto de você.

Neste caso, a melhor maneira de calar Mariméia era não deixar que ela falasse nada... a aula inteira. Claro que a menina saia da prática com uma tromba enorme e soltando fogo pelas ventas, mas com certeza esqueceria tudo no próximo segundo, como toda boa criatura fútil.

- Começaremos de onde paramos na aula passada. - ordenou sem muita paciência e agradeceu os céus quando tudo o que a garota fez foi virar-se no banco, ainda de bico e irritada, e começar a praticar sem dizer um "ai". Talvez a sorte estivesse do seu lado hoje.

Enquanto a observava tocar de maneira mais fluída do que das outras vezes, o que significava que ela estava treinando e tal pensamento quase lhe deu um infarto, Marquise encaminhou-se para onde estava Barton, parando ao seu lado e lhe dando um sorriso como cumprimento.

- Ela andou praticando? - perguntou baixo, o som do piano quase abafando as suas palavras.

- Parece que você conseguiu tocar em um ponto fraco. - respondeu Trowa em tom monocórdio. - Mariméia não gosta de fracassos, nisso ela puxou ao pai. - justificou e Zechs assentiu com a cabeça concordando. Poderia imaginar, já que com a mãe morta, que a única influência na vida da garota deveria ser o pai e se ela era assim com certeza a culpa toda era do homem. Torcia para jamais cruzar com o progenitor da menina, pois se ele fosse igual ou pior que a filha, com certeza descontaria todo o estresse que a cria dele estava lhe causando no desconhecido sr. Khushrenada.

Depois disso ambos continuaram a observar em silêncio a ruivinha tocar, com Zechs a corrigindo aqui e acolá, até que quando a menina estava começando a ensaiar uma ópera mais complicada, ela parou de súbito, atraindo a atenção dos dois adultos.

- O que foi? Por que parou? - perguntou o loiro. Ele não tinha soltando a ordem de intervalo o que, agora que ele percebera, acontecia com menos freqüência. Nas primeiras aulas ele ao menos pedia por uns três ou quatro intervalos para assim recuperar a compostura, mas, agora, no máximo ocorriam uma ou duas paradas.

- Barulho de carro. - respondeu a menina desatenta e Marquise surpreendeu-se ao não identificar o eterno tom arrogante que imperava na voz dela quando falava. Dessa maneira, a garota quase parecia uma criança normal. - Papai! - ela gritou excitada, saindo do banco em um pulo e começando a correr porta afora da sala de música.

- Como? O quê? - o loiro virou-se confuso para Trowa que começou a seguir de perto a sobrinha.

- Parece que Treize chegou mais cedo em casa. - esclareceu o moreno e Zechs sacudiu a cabeça, indo rapidamente atrás da aluna fugitiva, pois eles ainda tinham uma hora de aula para preencher.

- Mariméia! - chamou quando divisou a menina correr por entre os móveis do hall de entrada na direção de um homem alto que acabava de entregar seu casaco e pasta ao mordomo da casa. - Nossa aula ainda não terminou. - completou em um tom que julgava ser autoritário, mas que não teve muito efeito, pois agora Mariméia simplesmente pulava no colo do pai, que a recebeu de braços abertos, e o abraçava apertado.

Entrementes, Treize estava ocupado em cumprimentar a filha que o recebera com tanta empolgação, quando uma voz estrangeira em sua casa, mas completamente familiar, chegou aos seus ouvidos. Prontamente ele ergueu o olhar do rosto sorridente da menina em seus braços e o guiou em direção a voz apenas para ter uma surpresa nada agradável.

- Você? - sibilou raivoso, colocando relutante uma Mariméia no chão com medo que a derrubasse diante do choque que estava sentindo.

- Você! - Zechs gritou de volta, apontando um dedo em riste para o homem ruivo parado perto da porta. Não podia acreditar que o seu dia que havia começado tão bem tenha terminado neste desastre. - O que você faz aqui? - exigiu petulante e Treize franziu as sobrancelhas diante do tom arrogante daquele menino que tinha a ousadia de invadir a sua casa.

- O que você faz aqui? - rebateu de volta, já sentindo a irritação característica que aflorava em seu ser cada vez que encontrava aquele loiro dos infernos.

- Eu trabalho aqui!

- Eu moro aqui! - ambos os homens responderam ao mesmo tempo e arregalaram os olhos ao ouvirem tal declaração vinda do outro.

- Não me diga que você é o sr. Khushrenada? - acusou como se o fato de Treize ser quem era fosse um crime federal.

- Não me diga que você é o professor de piano? - retrucou, pois dentro do quadro de funcionários que trabalhavam na mansão, o professor de piano era o único funcionário novo não residente.

- Sim. - novamente eles responderam em unísso e rolaram os olhos diante de tal coincidência, para depois arregalá-los quando finalmente a implicação daquelas palavras foi registrada. - Mas que inferno! - falaram novamente juntos ao pensar que se desgraça pouca era bobagem, esse era o fim do mundo.

Afinal, o Destino deveria estar rindo da cara deles neste momento diante de tamanha piada sem graça. Por que com tanto lugar em Frankfurt para eles se desencontrarem, eles viviam se cruzando a cada esquina e rua da cidade? Com certeza, era o Destino com mais uma de suas piadas, ou simplesmente um grande azar.

Continua...


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