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Walburga
Walburga se olhou no espelho da bela penteadeira que ficava em seu quarto na mansão Black. Seu rosto já não era tão jovem, havia algumas rugas em torno de seus olhos e algumas linhas marcando sua testa. Seu reflexo mostrava uma pessoa com a expressão fechada, quase cruel, mas essa talvez fosse a única coisa que a fizesse reconhecer a mulher refletida naquele espelho.
Traçou uma linha imaginária com as pontas dos dedos, percorrendo a bochecha e chegando aos lábios. Curvou-os em um sorriso estranho enquanto percorria a pele vermelha e macia do local.
Sirius odiava quando ela sorria daquele jeito...
Quando ainda era criança ele não gostava porque tinha medo, porém, quando começou a achar que já poderia entender as coisas sozinho, ele odiava o seu sorriso porque para ele aquele gesto refletia toda a sua maldade.
Walburga se permitiu rir para a bela mulher morena do outro lado do espelho. Continuou encarando a si mesma, tentando ignorar a imagem que repetia incessantemente no Profeta Diário depositado em cima do mogno da penteadeira.
Sirius não havia hesitado em dizer o quanto era ela desprezível, o quanto ele a odiava, o quanto ela era má e o quanto ele desejava nunca ter saído de seu ventre... O quanto ele odiava se parecer com ela...
A bruxa riu mais uma vez. Era engraçado Sirius dizer isso enquanto proferia palavras tão horríveis quanto aquelas. Era engraçado o menino a achar tão cruel só por pensar diferente dela e de todos da família. E era mais engraçado ainda saber que sempre que se olhava no espelho, Sirius poderia vê-la refletida no outro lado da superfície de vidro.
Disso ele nunca poderia se desfazer, os dois eram tão parecidos fisicamente: os mesmo cabelos negros e olhos cinzentos, a mesma beleza e o mesmo ar aristocrático que marcariam para sempre o rosto do filho com a pior de suas maldições: ser um Black.
Por mais que quisesse, isso Sirius nunca poderia mudar.
O sorriso de Walburga permaneceu inabalável enquanto a bruxa contemplava o rosto bem feito, no entanto, a frieza de seus olhos cinzentos há muito havia ido embora; desde que recebera o jornal na manhã anterior, desde que seu primogênito fora capaz de acabar com a única coisa da qual ainda tinha algum controle, desde que os seus olhos e seus lábios só conseguiam compor uma expressão sinistra e vergonhosa, digna de uma pessoa desequilibrada.
Riu novamente e o barulho ecoou pela casa vazia, acabando com o resto de autocontrole da mulher.
A casa estava vazia... Sempre vazia...
Walburga havia perdido o marido e o filho mais novo no mesmo ano e a verdade é que o seu comportamento tinha sido o esperado de uma pessoa como ela. Walburga agiu de acordo com o que havia aprendido. A tristeza que a despedaçava por dentro, até então não fora repassada aos outros, pois morria na inexpressão de seus olhos e na delicadeza de sua voz.
Ergueu uma das mãos e tocou o espelho. Fechou os olhos para tentar se concentrar, mas quando os fechava, as imagens que vinham a sua mente eram ainda mais perturbadoras e ela tinha medo de não conseguir abri-los novamente.
Quando fechava os olhos ela via Regulus se afogando enquanto tentava chamá-la, pedindo ajuda. Ela podia ver seu filho mais novo sofrendo e no fim tudo o que restava eram suas mãos... As mãos do menino sempre a assombravam em seus pesadelos, as mãos de Regulus sempre se multiplicavam em mil, mas ela nunca conseguia alcançá-las, ela nunca estava lá para segurá-las.
Orion também estava lá. Em seus sonhos o homem sempre a observava falhar, e quando ela tentava pedir ajuda ao marido, esse sumia, deixando-a sozinha, silenciosamente a culpando por todos seus erros.
A mulher voltou a encarar-se. Seu sorriso foi se desmanchando aos poucos, e o brilho de seus olhos foi se apagando.
Walburga olhou para a foto que se movia no jornal, e riu insanamente, da mesma maneira que Sirius ria na imagem do Profeta Diário. Por um momento a mulher não conseguiu parar de gargalhar. Era patético e triste, mas, sobretudo, engraçado. Sirius havia a abandonado para ser feliz, como havia dito antes de partir, havia partido para lutar por algo que acreditava, havia partido para ter uma família. No entanto agora ele gargalhava do mesmo jeito que ela, ele sorria como um lunático, uma risada sem vida e cruel.
Sirius havia ido embora para se libertar, e tudo o que conseguira com isso fora perder àqueles que mais amava. Tudo o que conseguira fora destruir a própria vida, e acabar tendo o mesmo fim trágico que todos os Blacks pareciam estar destinados a ter.
Olhou mais uma vez para o filho e acariciou seu rosto na foto. O mais engraçado era saber que ele era inocente. Walburga não tinha dúvidas em quanto a isso, ela tinha certeza que o rapaz nunca trairia seus amigos e muito menos os ideais estúpidos pelo qual lutava.
Contudo ela não sentia pena, era tudo culpa dele.
Ele desgraçara sua vida. Ele havia dado o primeiro passo errado. Ele tinha a desnorteado, a tirado do caminho certo. Antes dele, ela nunca tinha errado.
Walburga até então se sustentava na única coisa sólida que conseguia segurar com todas as forças. E essa era Sirius. Culpá-lo sempre aliviara um pouco de sua dor. Culpá-lo a havia feito suportar a morte de Orion e de Regulus. Culpá-lo sempre a manteve lúcida, certa de que algo ainda estava no lugar.
Mas agora Sirius era apenas uma foto em preto e branco. Sirius era apenas mais uma alma miserável que definharia até a morte, num lugar sujo e maldito.
Walburga olhou-se no espelho e um rompante de ódio a possuiu. Aquilo não era justo. Sirius deveria permanecer forte, Sirius deveria ser livre, só assim ela poderia culpá-lo, só assim ela poderia morrer em paz. Só assim ela poderia dizer que nunca falhara, e que a única razão de sua derrota fora a felicidade de um filho ingrato e odiado.
A mulher negou com a cabeça para o reflexo do espelho. Não, não deveria te sido assim. Eles deveriam estar todos juntos, todos eles, vivos, e ao seu lado.
Mas a culpa não era sua, não poderia ser... Ela fizera tudo certo...
A culpa era de Sirius, sempre seria.
O rosto de Walburga se contorceu em uma expressão de dor.
Por que até mesmo isso Sirius havia conseguido destruir?! Por que ele não a deixava em paz mesmo quando ela já havia perdido tudo o que tinha?! Por que ele sempre tinha que ser o seu ponto fraco?!
A bruxa apoiou as duas mãos no espelho e respirou pesadamente, seus olhos se encheram d’água e ela começou a esmurrar o vidro. Não conseguia mais agüentar.
As lágrimas se misturaram ao sangue de suas mãos quando o espelho se despedaçou e o silêncio foi quebrado por seus gritos, enquanto continuava a socar o que havia sobrado.
A porta do quarto se abriu e a bruxa não chegou a ouvir os berros de Kreacher, pois seus gritos eram mais altos, únicos capazes de expressar toda a dor que sentia. E eles eram horríveis, mas ela não conseguia parar, era insuportável.
Kreacher a puxou para longe da penteadeira enquanto ela se debatia tentando impedi-lo. Com muito esforço o elfo conseguiu colocá-la na cama, ela, porém, continuava berrando e se debatendo desesperadamente. Queria destruir tudo aquilo que acreditara um dia ser o mais importante a se fazer. Queria se destruir, mas dentro dela não havia mais nada para se quebrar, dentro dela só havia pó.
Aos poucos os gritos foram diminuindo e Walburga foi sentindo o corpo leve. A bruxa deixou o corpo pender sobre o colchão, seu estava rosto inexpressivo e os olhos sem vida. Ergueu as mãos e ficou a observar o sangue escorrendo por seus braços, pingando em rosto.
De repente as coisas se tornaram menos dolorosas. O sangue continuou a escorrer, deixando um rastro vermelho por seu rosto e sua roupa, levando todos os pensamentos ruins.
Ao seu lado Kreacher observava atônito, a dona olhar para o próprio braço machucado, perdendo o pouco que restava de sua sanidade.
A mulher sorriu fracamente antes de fechar os olhos. Seu corpo continuava vivo, porém sua alma permaneceria para sempre adormecida, por muito tempo, dando ordens sem sentido ao elfo, fazendo-o arrumar a mesa do jantar para quando Orion, Regulus e Sirius chegassem. Até o dia em que Walburga não acordou mais, passando a habitar um quadro, tornando-se irreconhecível, assim como o garoto que ainda ria incessantemente na foto do jornal.
Fim
x-x-x-x-x-x-x
Oi gente o/
Bom, é com esse capítulo que acaba Black’s Tale T.T
Foi o capítulo mais difícil pra mim, mas a verdade é que eu gostei dele :), mesmo tendo ficado meio trágico demais Ç.Ç
Eu sei que o título da fic leva a crer que seria a família toda, e eu mesma disse isso #morre#, (incluindo Cissy, Andy e Bella), porém, eu não tenho o mesmo envolvimento com elas como tenho com esses quatro. Até tentei escrever com as mesmas, mas não consegui nada decente, por isso estou encerrando por aqui, do contrário vocês - e eu – esperariam por algo que provavelmente nunca sairia. Espero que não fiquem chateados u.u
Não tenho nem palavras para agradecer os comentários e os elogios, significaram muito mesmo! Essa foi a minha primeira experiência com algo mais dramático – só o do Orion que ficou mais pra cima – e fiquei muito feliz que vocês tenham gostado /o/
Então (Noah Black, Ann, Felpa, Lady Achernar, iaiah moony, Retty-Chan, Lhu, Ms M Malfoy, Yuufu), muitíssimo obrigado! E para os que acompanharam sem se identificar também!
Acho que esse lado mais dark nas fics despertou depois que comecei a escrever fics para Morgana... Comofas hein Morgana, a culpa é em parte (leia-se toda) sua! E do seu aniversário xD Huhuhu obrigado pelos comentários!
E - PORRA – desculpem o palavrão -, finalmente eu acabei uma fic em capítulos! Deus é pai! It’s a miracle! #Moony se ajoelha e levanta as mãos pro céu# \o/
É isso, gente! Thanks again!
Inté outra fic o/
Kissus
PS: escrito também para a comu 30cookies. Set: Outono - Tema:27 . Sanidade. – ngm notou que eu fugi do tema (/sei).
Não notem os erros, mas eu tô sem pc em casa e nem revisei direito...