Help
Home Just In Communities Forums Beta Readers Dictionary Search
: B s . A A A    : full 3/4 1/2   : E E   : Light Dark Anime/Manga » Bleach » Sem amor Só a loucura

Lyani
Author of 8 Stories

Rated: M - Portuguese - Romance/Drama - Matsumoto R. & Aizen S. - Reviews: 3 - Updated: 08-20-08 - Published: 04-19-08 - id:4207659

Personagens e lugares pertencem à Bleach™

Fanfic MATURE(acima de 16 anos)


SEM AMOR. SÓ A LOUCURA


Capítulo 1

Only an ocean away…¹

Por mais que se esforçasse, e por vezes se esforçava de verdade, Rangiku nunca conseguia concentrar-se o suficiente para redigir os imensos relatórios que seu tão amado Taichou lhe designava a cada dia. Seus pensamentos acabavam por se perder entre as novas coleções primavera-verão ou outono-inverno do Mundo Real e o sakê devidamente escondido sob o estofado à sua frente no escritório bem arrumado e mobiliado do Gotei X. Debruçou-se de forma desajeitada sobre os papéis, escondendo o rosto nos braços e suspirando profundamente. O que não daria para poder deitar-se preguiçosamente sobre o sofá naquele momento. Sentiu as pálpebras pesando e não fez esforço algum para lutar contra o sono repentino que a tomou, apenas acomodou-se melhor e adormeceu profundamente em segundos. Geralmente quando adormecia assim pesado, não sonhava. Seus sonhos, raros, eram sempre tumultuados e quando acordava, não se lembrava de quase nada, apenas algumas cenas perdidas e confusas. Perdera as contas de quantas vezes adormecera assim, em cima dos relatórios do Gotei X, para horror de seu Taichou, que muitas vezes a acordava berrando seu nome tão alto que imaginava se toda a Sereitei não ouvia. E hoje, não seria diferente. Seu sono era tão profundo que não ouviu os passos firmes e decididos que iam em direção a mesa onde estava, e tão pouco sentiu a pressão das mãos sobre o tampo, até que a voz alta e forte chegasse aos seus ouvidos de forma tão assustadora.

“MATSUMOTOOOOOOOOOOOOOOO!” Sua primeira reação foi sentar-se muito ereta, piscando várias vezes até conseguir focalizar o rosto irado de seu Taichou. Um arrepio subiu pelas suas costas, e seus volumosos seios arfavam agora devido ao susto. Começou a juntar os relatórios que se espalharam sobre a mesa um pouco corada e sorrindo sem graça. Quando se recuperou o suficiente para falar, sua voz era delicada, suave e muito gentil. Talvez até demais, beirando a bajulação.

“T-taichou, o Sr. me deu um susto. Eu...”

“Você estava dormindo em serviço de novo Matsumoto” Ele ia dizendo enquanto andava de um lado para ao outro agora, os braços cruzados em frente às suas vestes de capitão do Gotei X, a zanpakutou atada às costas como sempre. Seu semblante era pesado, mas não tão sério quanto antes, e as palavras saiam rápidas e repetitivas. Era o velho discurso de sempre, as palavras sobre ser uma tenente muito relapsa, que precisava se dedicar mais. Involuntariamente Rangiku bocejou e ele lhe lançou aquele olhar gelado que por diversas vezes a petrificara, mas não agora. Estava por demais sonolenta para prestar atenção a esse detalhe ou a qualquer coisa que ele estava lhe dizendo. Permanecia sentada o olhando, mas seus pensamentos dançavam como antes entre uma roupa e outra, entre uma garrafa de sakê e as fofocas da Sereitei. Alguns muitos minutos depois ele parou, percebendo que tudo aquilo era inútil, e falando num ar desanimado:

“Hoje é meu dia de ronda, Matsumoto. Estarei fora durante a noite toda, e quando voltar amanhã de manhã por volta das 10h quero essas pilhas inteiras preenchidas, me entendeu?”

Rangiku balançou a cabeça enquanto se esforçava para não bocejar novamente. Na verdade não tinha ouvido direito o que ele tinha dito, mas ao vê-lo sair de forma decidida, imaginou que só voltaria no dia seguinte, devido provavelmente à sua ronda rotineira. Levantou-se, espreguiçando lentamente e ao levantar os braços, uniu as mãos abaixo dos longos cabelos, levando-os juntos e deixando os fios ruivos e levemente ondulados caírem de volta às costas. Abriu e fechou os grandes olhos de um azul muito profundo e sentou-se no sofá confortavelmente com um sorriso dançando nos lábios. As vezes quando se sentava sozinha no Gotei X, lembrava da sua trajetória até ali. Esforçara-se demais para chegar onde estava hoje, trabalhando com pessoas respeitáveis e amigas. Mas o caminho até ali só tinha sido possível, porquê...

O nome dele adentrou sua mente como um espectro trazendo um sentimento que nunca conseguia definir. Lembrava-se dele sempre com um aperto quente que subia-lhe do estômago até o peito. Era doce e amargo. E sempre a deixava muito triste, como agora. Só chegara até ali porquê Gin a tinha ajudado, estendido sua mão, salvado sua vida. Não tivera uma vida fácil até conhecê-lo e por esse motivo, para Rangiku, sua vida começara apenas neste dia. Suspirou, passando as mãos no rosto tentando fazer o sentimento sumir, a lembrança se apagar, mas sabia que era inútil. Sabia que acontecesse o que acontecesse, ele estaria sempre lá dentro dela. De alguma forma, escondido entre os seus suspiros, nas noites solitárias, assombrando-lhe os sonhos com aquele sorriso cínico e as pálpebras sempre fechadas, fazendo seu rosto lembrar o de uma raposa maliciosa. Ela não tinha medo dele. Era algo sempre perdido entre a eterna gratidão por ele tê-la salvado, e a dor de sempre vê-lo partir, deixando-a para trás.


Passos.

Sorriu daquela forma sempre serena. Uma característica única. Os olhos cerrados compunham um ar ainda mais sutil ao seu semblante. Mantinha o cotovelo direito sobre o braço de seu trono e a mão tocando-lhe o rosto numa posição pensativa.

Os passos cessaram. Não houve nenhuma manifestação do recém chegado. Em respeito, ele aguardava o Rei permitir-lhe pronunciar-se.

Após alguns segundos, Aizen abriu os olhos castanhos por entre os quais caía displicente uma mecha de seus cabelos no mesmo tom, e fitou Ulquiorra a sua frente sem nada dizer. Ulquiorra sabia que era a sua permissão para dizer o que o trazia ali e o fez de forma rápida e objetiva. Sua voz era fria, grave e baixa. Qualquer Shinigami ou humano não preparado ouviria aquele som como o da própria morte. O tom de voz de Ulquiorra transmitia um sentimento de desespero tão grande, que era como sentir a alma estilhaçar-se.

Aizen, no entanto, jamais se afetara. Fechando novamente os olhos, manteve o sorriso leve nos lábios e quando se pronunciou, sua voz era macia, serena e extremamente cordial.

“Isso pode esperar. Hoje tenho outros planos...”

Ulquiorra não esperou sequer mais que um segundo para retirar-se. Respeitava seu Rei acima de qualquer coisa, assim como todos os demais. Aizen possuía uma liderança nata, uma imponência absoluta. De forma natural, qualquer palavra ou gesto seu era sempre uma ordem a ser obedecida, sob qualquer circunstância.

Assim que viu-se sozinho novamente na sala de seu trono, Aizen levantou-se majestoso e com um simples gesto no ar, abriu uma garganta para um lugar que há muito não visitava. Seu sorriso aumentou ao passar pelo portal.


No matter how hard I tried,
I die inside,
to let you go²

Nevava de leve, flocos brancos e transparentes caindo suavemente nas ruas, telhados, árvores. Estava sentada no chão empoeirado de um galpão, coberta apenas com uma manta. Os curtos cabelos bagunçados de minutos antes quando estivera dormindo. Seus olhos azuis fitavam com tristeza, através do vão da porta aberta, as costas do rapaz que caminhava para longe, para algum lugar. Sentiu uma lágrima dançar em seus olhos, mas não a deixou rolar pelo rosto. Não de novo...

Gin...

Abriu os olhos assustada, fitando o teto. Levantou o corpo, sentando-se no sofá, uma mão na cabeça e o olhar perdido. Sentia a boca amarga e o peito apertado. Suspirou, recostando-se no sofá. Aquele sonho que a acompanhava desde que... desde que ele se fora, mais uma vez, deixando apenas um sorriso cínico, umas palavras irônicas. Lembrava como se fosse ontem da confusão gerada na Sereitei pelo falso assassinato de Aizen. Todo aquele plano maligno que envolveu a morte dos membros da Central 46, a quase morte de Hinamori, uma luta quase mortal entre seu Taichou e... Gin. As ultimas palavras dele antes de partir para o Hueco Mundo ainda queimavam-lhe a alma.

Que pena. Teria sido ótimo se minha capitura tivesse durado um pouco mais. Adeus, Rangiku. Sinto muito”

E aquele sorriso cínico. Aquele semblante malicioso e sarcástico, uma união entre os cabelos lisos, finos e da cor do luar que lhe caiam no rosto, as pálpebras fechadas e os lábios curvados num sorriso brincalhão, irônico, amedrontador. Era sua marca registrada. Isso lhe causava uma certa tristeza, pois diferia tanto do sorriso carinhoso e do semblante amigo do garoto que tão gentilmente lhe salvara a vida, quando ainda era uma criança, sozinha, assustada e que não sabia lidar com a vastidão de seus poderes. Era triste cruzar com ele pelos corredores da Sereitei e senti-lo tão distante, tão frio, tão preocupado com seus planos ambiciosos que muitas vezes sequer dirigia-lhe o olhar. Perguntava-se interiormente como seria se algum dia estivessem frente a frente como oponentes. Será que ele teria algum problema em tirá-la de seu caminho? Já estivera quase nessa posição uma vez, quando se interpôs entre ele e Hinamori, na luta com seu Taichou. Ele iria matar Hinamori. Ela não quisera acreditar, mas ele iria. Lembrava-se claramente da força espiritual forte e densa que a arrastou por vários metros, até conseguir parar, bloqueando o golpe. Lembrava-se da dificuldade em respirar, da força descomunal que precisara desprender para continuar bloqueando a zanpakutou dele de perfurar Hinamori. A dificuldade em falar, em chamá-lo de Ichimaru Taichou, de encará-lo naquele momento, desacreditando ser aquele que um dia a salvara. Lembra-se do semblante sério dele, levemente espantado, e do sorriso que se seguiu. Cínico. Nem uma palavra sequer. Ele recolheu sua zanpakutou, sem abrir os olhos. Não se passou nem mesmo um minuto e ele já estava se afastando, indo embora, mais uma vez...

É isso que odeio em você. O péssimo hábito de desaparecer sem me dizer onde está indo… ainda não mudou…”

Os anos de sofrimento que a tinham tornado a mulher forte que era, foram os mesmos que o fizeram frio. Era uma pena... Para ela. Ele adorava ser como era. Adorava estar onde estava. Matsumoto balançou a cabeça e passou as mãos nos olhos, tentando refrear as lembranças. Instintivamente, levou a mão para baixo do estofado, sentindo os dedos tocar no vidro frio de sua garrafa de sakê. Seus lábios formaram um sorriso tristonho no canto dos lábios, mas o sorriso não durou mais que alguns segundos, se desfazendo muito rápido ao sentir uma pressão espiritual tão absurda que sentiu seus ombros pesarem, como se estivesse sendo empurrada para baixo. Antes que pudesse pensar em qualquer coisa, a porta do Gotei X foi empurrada com delicadeza, mas de forma apressada.

“Gomen, Matsumoto Fukutaicho” Era um shinigami do Gotei XII e Rangiku estranhou vê-lo ali, principalmente ao notar o semblante assustado e muito preocupado. – Venho a pedido... a pedido de Aiz... Aizen. Ele pediu para chamá-la. – o shinigami gaguejou parecendo muito amendrontado. A mão de Rangiku escorregou, ficando solta ao lado do sofá, esquecida do que ia fazer, o corpo ainda meio curvado, a garganta seca ao ouvir aquele nome. O Shinigami estava de joelhos e mantinha a cabeça baixa, quase tocando o chão, seu corpo tremia levemente. Ela notou que aquilo não era apenas respeito, mas indícios de que ele estava sofrendo a pressão espiritual poderosa que vinha de algum lugar na Sereitei. Estremeceu ao imaginar que vinha realmente de Aizen. Abriu e fechou a boca muitas vezes antes de conseguir encontrar as palavras, mas quando falou, as palavras jorraram rápidas, desconexas e repletas de assombro.

“Aizen? Mas... como? Onde ele... Aizen?? Como ele entrou na Sereitei?? Os Taichous foram avisados?”

“Não Matsumoto Fukutaicho... Ele... ele... surgiu de repente, sua pressão espiritual deixou todos paralisados. Ele quer vê-la, por favor...” Ele estava implorando para que ela fosse rápido, pois tinha a esperança que aquela sensação e pressão devastadora fossem parar. A voz dele tremia ao pronunciar fracamente as palavras.

Rangiku levantou-se do sofá de repente muito determinada. Passou pelo shinigami ajoelhado na porta do Gotei X com muita pressa, e usando shumpoo, acompanhou a crescente pressão espiritual até chegar ao local onde ele se encontrava. Se não fosse pelas vestes e o cabelo penteado de forma diferente, talvez ela não tivesse ficado tão chocada, pois ele agia de forma tão natural, parado diante do Gotei XII com as mãos no bolso, que Rangiku chegou a pensar que se estivesse vestido como antes, ela o teria cumprimentado normalmente esquecendo-se do acontecido. Mas não era o caso e estava tão aturdida que não conseguia mover-se ou dizer qualquer coisa. Havia mais ou menos uns 30 shinigamis curvados e ajoelhados perante Aizen, como se o venerassem, mas ela sabia que era a poderosa força espiritual dele. Observava a cena, sentindo as pernas tremerem e os ombros doerem ante a força que fazia para se manter em pé lutando contra a força espiritual descomunal que vinha dele. Em seu rosto, um semblante carismático e amigo, dançava um sorriso meigo. Algo naquele semblante lhe transmitia receio, apesar de toda aquela máscara de bondade. Era mais ou menos o mesmo sentimento que tinha ao observar uma borboleta. Tão bela, tão especialmente encantadora, uma flor com asas, suavemente flutuando entre as árvores num dia de sol. Uma cena tão bonita e no entanto, tão... tão assustadora. Sempre tivera medo de borboletas. Medo e atração. Toda vez que via uma, sentia-se irremediavelmente atraída para ela... tinha vontade de toca-la, segura-la entre as mãos para observa-la pra sempre, mas toda vez que chegava perto de mais, sentia um medo crescente. Toda aquela beleza, toda aquela aparente inocência e serenidade lhe causava arrepios. Havia algo de errado em tudo aquilo. Para Rangiku, borboletas tinham algo de assustador. E aquele sorriso também.

“Deseja algo?” Assustou-se ao ouvir a própria voz perguntar no meio de toda aquela cena estranha, confusa, inesperada.

“Sim... mas certamente se eu disser aqui, muitos a olhariam de uma forma estranha. Tem certeza de que quer que eu diga mesmo na frente de todos?”

Onde estava Hitsugaya Taichou quando mais precisava dele. Foi o que passou pela mente confusa de Rangiku, enquanto tentava encontrar palavras para respondê-lo. Por final, apenas balançou negativamente a cabeça. “Onde?”. Dissera baixo demais, mas tinha certeza que se ele não tinha ouvido, tinha lido seus lábios.

“Me ache” Ele sorria mais amplamente agora, e em segundos adentrou uma garganta desaparecendo. Era como se tivessem tirado um peso sem igual de cima de seus ombros. Viu com certa preocupação alguns shinigamis de patentes mais baixas, desmaiarem. Ficou ainda algum tempo parada no mesmo lugar, sem se importar com os olhares curiosos que lhe eram dirigidos. Seus pensamentos se perderam...


Estava frio. Era quase fim do ano.

Sentado em um restaurante de varanda, Aizen vestia um terno branco, sem gravata e um sobretudo na mesma cor, sapatos pretos, cabelos da época em que era um Taichou na Sereitei e óculos. Tomava um chocolate quente enquanto esperava ser abordado. Apesar de toda sua imponência e poder, tinha gostos simples, como este. Adorava vir àquele restaurante escondido em um bairro afastado de Karakura. Ficava próximo ao lago e tinha um ambiente confortável, além de oferecer o melhor chocolate quente que já provara. Levou a caneca aos lábios que estavam curvados em um sorriso apreciador. O sorriso se devia, além do sabor delicioso da bebida, ao recente sentimento de um vínculo formado em sua Reiatsu. Ela demorara mais de quarenta minutos, mas sabia que ela estava utilizando um encantamento conhecido para localizar shinigamis, e seu sorriso se acentuou ainda mais. Hum...não precisava de tanto. Mas... acho que ela foi sábia. Ela poderia simplesmente ter vindo ao mundo real e aqui, ter sentido minha presença.. simples, mas preferiu ser mais ágil... Esperta ela. Afinal, minha reiatsu não ficaria num nível elevado para ser facilmente localizada. Vamos esperar...

Ele se acomodou melhor na cadeira confortável do restaurante. Uma garçonete muito simpática aproximou-se, derretendo-se num sorriso para ele enquanto perguntava se precisava de mais alguma coisa. Ele sorriu para a moça, que provavelmente quando estivesse na cozinha com suas companheiras iria contar o fato aos risinhos e suspiros, e disse que estava bem, não precisava de mais nada por enquanto. A moça se afastou ainda com um sorriso bobo nos lábios. Mas ele já não olhava mais, seus olhos estavam fixos na caneca sobre a mesa, de onde subia uma fumaça densa e um aroma maravilhoso. Aguardava o momento em que ela chegaria, de forma tranqüila, aproveitando a brisa gelada em contraste com a bebida quente.

Foi quase no final de sua bebida que a avistou, parada a uma certa distância do restaurante. Não chegou a fitá-la abertamente, mas sabia que ela estava ali, travando uma luta interna antes de abordá-lo. Sabia a cor do vestido que ela usava, e que era impróprio para a noite fria, as sandálias de salto fino, exagerados, mas que a deixavam muito atraente, embora soubesse que ela deveria estar morrendo de frio. Sorriu consigo mesmo ao pensar nisso. Tinha notícias de o quanto ela era desligada.

Sentiu a aproximação e continuou observando a caneca, esperando-a se manifestar. Esperou pacientemente o tempo que ela precisava ficar em pé diante dele, sem falar. Sabia que ela estava esperando que ele falasse primeiro, mas não faria isso. Ela tivera coragem suficiente para vir até ele, encontraria um pouco mais para dirigir-lhe a palavra, mesmo que ele sequer tenha levantado os olhos.

“Olá Aizen. Desculpe a demora” A voz dela saiu firme e séria, ao contrário do que ele esperava. Seu sorriso aumentou um pouco, mas ainda olhava para sua caneca. Ela era tão transparente, que conseguia saber que ela estava lutando para não passar as mãos em seus braços para afastar o frio, apenas para não lhe demonstrar fraqueza.

“Para alguém de seu nível e sua posição, achei que viria imediatamente, mas considerando-se que seu Taichou é uma criança, eu me admiro por você ter vindo antes do esperado” Sem dar tempo para qualquer resposta, ele abre os olhos virando a cabeça para uma jovem que servia as mesas, chamando-a delicadamente. “Por favor... Minha convidada acaba de chegar, poderia trazer uma bebida para a dama?” Não precisava olhar pra ela para saber que ela olhava-o com certo desprezo, mas também com certo interesse. Havia um vinco em sua testa, deixando o semblante sério. A garçonete voltou-se sorridente, vestia um uniforme bonito e bem alinhado, e tinha os cabelos presos num coque. Trazia nas mãos um pequeno bloco de papel onde se podia ler no canto superior, o nome do restaurante em letras douradas e bem desenhadas. Aizen notou o sorriso dela tremer quando olhou Rangiku dos pés a cabeça. Sentiu a tão clássica rivalidade feminina densa no ar. Tomou um gole mais de seu chocolate. A moça aguardava o pedido de Rangiku, que veio logo a seguir.

“Água, por favor” Algo no tom dela ao fazer o pedido o desagradou. Algo naquele pedido inocente, no jeito como ela estava em pé diante dele, no olhar um pouco estreito escondendo grande parte da íris muito azul. Não soube dizer o que fora exatamente, mas despertara algo nele. Rápido. Foi assim que o sorriso dele morreu nos lábios, seu rosto se transformou em uma máscara dura.

“Se eu realmente quisesse você morta, eu já teria feito isso há muito eu quisesse a Sereitei destruída, eu já teria feito isso há muito tempo. Nem você, nem qualquer um dos Taichous da Sereitei teve qualquer chance contra o que fiz... Desconsidere a hipótese de que quero algum mal a você” O tom de voz até então gentil e sereno, tornara-se baixo, grave e gélido. Mesmo sem fitá-la, sentiu o gesto instintivo que ela fez ao levar as mãos aos braços, para afastar o frio e o que ele sabia ter sido um arrepio que lhe subiu pela espinha. Furtivamente, e de forma que ela nem notasse, dirigiu o olhar para os lábios dela, que ela mordeu para evitar que tremesse. Então sorriu, fechando os olhos. “Água, Rangiku-san? Será que finalmente entrou em abstinência?”

“Só bebo na presença de amigos, Aizen...” Impulsiva demais. Ele a viu sentar-se em sua frente. Ela tinha esperado bastante até que ele fosse cavalheiro o suficiente para lhe convidar, mas ele estava esperando justamente que ela agisse dessa forma. Ele sorriu e foi diferente. Não sabia se ela conseguia notar a diferença, mas esse sorriso era perigoso, um aviso silencioso que poucos, muito poucos, conseguiam notar...


Should I've seen this coming?
Should I've known this,
shouldn't have let this happen³

Um vulto. Rápido, ágil, meticulosamente habilidoso.

Rangiku sentiu seus cabelos balançarem levemente quando ele passou ao seu lado, usando shumpoo e parando atrás dela. Gelada. Afiada. Foi assim que sentiu a zanpakutou dele em sua garganta.

“E eu, não lhe convidei à mesa comigo...” Ele ia dizendo bem próximo ao seu ouvido, causando um tremor involuntário que fez sua pele roçar ainda mais na lâmina fria, causando uma sensação ruim de medo e angustia. “Rangiku San, não tome como hospitalidade um sorriso e um convite, afinal, se não quer sentir-se bem... devo dizer que escolheu uma má companhia para expressar seu mal estar. Admiro sua sinceridade, mas sou forçado a agir assim, já que também não tenho qualquer traço de confiança em você”

Um toque. Ele virara a zanpakutou e o final do cabo encosta na nuca de Rangiku, retirando-a da Gigai. Por não ter colocado qualquer alma modelada dentro da mesma, a Gigai de Aizen cuida para que a mesma não caia no chão, agindo rapidamente, segurando-a devagar. Rangiku sentiu seus olhos muito abertos, deixando as íris azuis sobressaltadas, imagens passando em sua cabeça. Você é uma idiota Rangiku, o que você imaginava que iria acontecer com você vindo sozinha? Lembrou-se de como ficara andando por meia hora no Gotei X enquanto tentava decifrar o porquê Aizen queria falar com ela, e ao mesmo tempo se perguntando se deveria ir até Aizen sozinha como ele sugerira ou se deveria avisar seu Taichou e consequentemente todos os taichous e tenentes da Soul Society. Sua mente tinha criado milhões de alternativas e depois banira todas, até que decidira-se em ir sozinha. Lembrou-se do longo caminho a pé que percorreu até o restaurante, dando passos lentos, caminhando sozinha pelas ruas de Karakura enquanto passava as mãos freneticamente pelos braços arrepiados do ar gelado da cidade. Tinha errado de forma imperdoável na escolha da roupa. Fazia um dia gelado de inverno e ela escolhera um vestido de alça e sandálias para sua Gigai. Poderia ter se poupado do frio, e ter se utilizado do shumpoo para chegar mais rápido a seu destino, mas preferiu andar. Talvez por que assim adiava mais o encontro que a estava deixando aflita e ao mesmo tempo muito curiosa. Naquele momento ela achava que tinha total noção de quem ele era, e mentira para si mesma dizendo que não aconteceria nada, continuando por pura curiosidade e atração. Lembrou-se das borboletas...

“Não, ela não está usando nada” A voz da Gigai de Aizen fez com que ela se sobressaltasse, voltando de suas divagações. As vestes negras do corpo espiritual de Rangiku chacoalharam ao vento gelado, o símbolo de tenente pesou-lhe de repente no braço esquerdo, tirando-a de seus devaneios. Sentiu o olhar do verdadeiro Aizen pesar nas suas costas, mas não se virou, ainda petrificada pelo que estava acontecendo.

“Que bom” Ele diz, e ela pode jurar que ele está sorrindo daquela forma serena tão habitual. “Não gostaria de ter de matar qualquer um que seja hoje. Voltemos ao nosso... bem... “encontro”... Rangiku San” Ele passa ao lado dela devagar, e senta-se entrando em sua Gigai, continuando a segurar a Gigai de Matsumoto pelo ombro e fazendo um gesto simples, para que ela se sente, com a mão livre.

Faça alguma coisa Matsumoto. Não fique parada com esse ar de assombro. Diz para si mesma enquanto continua de pé, fitando-o segurar sua Gigai pelo ombro. De repente a imagem dela parada no meio do caminho, antes de ir até ele no restaurante lhe veio na mente. Era difícil precisar seus sentimentos. Uma mistura de medo, curiosidade, atração. Sentiu seu coração pular no peito, exatamente como quando dera o primeiro passo para aproximar-se dele aquela noite. Agradecera tanto o fato de ele estar tão compenetrado em sua bebida que não olhava para lado nenhum, dando-lhe a vantagem de chegar até a mesa sem precisar se concentrar em equilibrar-se nas sandálias de salto. Piscou algumas vezes, devagar, para arranjar coragem de voltar para sua Gigai ao lado dele e esforçando-se para não demonstrar nada, anda até a cadeira onde sua Gigai está, sentando-se e ficando ereta muito rapidamente. Sua vontade era levantar-se imediatamente afastando-se o máximo possível, mas permanece sentada e enfim ergue os olhos azuis pra ele, respirando devagar, tentando em vão, controlar as emoções e a voz.

“O que você quer comigo Aizen?”

O sorriso permanecia no rosto dele, sereno e gentil. Aquele sorriso. Não se tem notícias de que este sorriso meigo e simpático tenha sido visto de outra forma se não extremamente convidativa.

“Eu não tenho interesse em combater você e tenho absoluta certeza de que sabe disso. Sabe que eu não vou lhe machucar... não se você não me der um bom motivo para isso. Eu apenas quero conversar... ‘jogar conversa fora’, como dizem, afinal, não vejo qualquer problema nisso, já que jamais lhe fiz mal algum. O que acha que eu devo estar tramando?” Ele abriu os olhos, neste momento, fitando-a profundamente. “E lembre-se, mentir pra mim, não funciona...”

Ela não entendia o que ele pretendia. Aquilo não fazia sentido nenhum, e arqueou as sobrancelhas demonstrando sua incompreensão.

“Porque fez tudo isso comigo? O que pretendia encontrar?”

Ele respondeu enquanto a garçonete lhe servia a água e saía em seguida. “Isso, se chama prevenção. Geralmente, Shinigamis não vêm ao Mundo Real sem que deixem de ter contato com a Sereitei de alguma forma. Este restaurante, está dentro de uma "área morta" para os radares da Sereitei, por isso, eu sempre venho aqui. Mas qualquer um que entrar com um comunicador, pode denunciar este local, que é o único que me serve um chocolate quente tão gostoso. O que fiz com você, foi apenas uma distopia de ondas, ou seja, eu vasculhei sua Gigai e vi que você não estava com qualquer traço de tecnologia embutida, ou seja, que você realmente confiou em si mesma para vir me encontrar aqui. O que é louvável... perigoso, mas louvável.”

Perigoso. Repete pra si mesma em pensamento. Você é uma tola Matsumoto Rangiku, o que pensa que está fazendo? Olhava para seu copo em cima da mesa, arrastando-o de leve para lá e para cá com as mãos, o semblante pensativo. Ao perceber que o silêncio se estenderia pela eternidade, tomou um gole de água e ao devolver o copo na mesa ajuntou.

“Bem, já fez a sua “revista” e não tenho nada que vá lhe denunciar...e agora?”

“Yare, Yare... se não quer conversar comigo, e me ver como alguém sociável... tudo bem!” E ao dizer isso, ele se levanta devagar, retirando do bolso a carteira e deixando algum dinheiro na mesa para pagar a consumação. Qualquer um, que não o conhecesse, não o notaria como alguém tão poderoso. “A conta está paga... se quiser, pode voltar para a Sereitei... não vou mais lhe incomodar, nee, Rangiku San? Saionara!” E colocando um belo chapéu, sai do restaurante a passos calmos de quem faz um passeio despreocupado. Rangiku o fita espantada, enquanto o observa distanciar-se lentamente. Levanta-se no mesmo instante, desequilibrando-se um pouco e apoiando na mesa para firmar os passos. Fica uns minutos parada olhando ele se afastar na dúvida se vai até ele, ou volta para a Sereitei. Sabia que deveria voltar, mas alguma coisa dentro dela, faz com que ande apressadamente tentando alcançá-lo, apesar dos saltos finos.

“Ei... você... você me chamou aqui para me deixar sentada naquele restaurante sozinha?”

Ele parou onde estava, cavalheiro, para esperar que ela o alcançasse.

“Creio que assim como chegou, saberá o caminho de volta, não? Lhe chamei para um momento agradável... mas se este não é possível, não vejo porquê insistir. Se não acredita que eu não tenho qualquer intenção de lhe machucar, não terá como estar a vontade junto de mim... e não estando à vontade, jamais sairá da defensiva comigo. Prefiro então, que volte para seus afazeres... Se bem me lembro, seu Taichou vive lhe regalando algum serviço, apesar de nenhum deles ser completo, ou...” Subia um pouco o chapéu com uma das mãos enquanto a outra saída do bolso com um par de luvas brancas... “Mudou de idéia?”

Rangiku chega a abrir a boca para questionar mais uma vez, mas desiste no meio do caminho e curva os lábios num sorriso animado, suavizando os olhos e o semblante. Talvez se jogasse o jogo dele, no final, saberia o motivo de tudo aquilo.

“Mudei”

Ele pareceu assentir com um sorriso, enquanto colocava as luvas e retirava o sobretudo. Ele levou o sobretudo na direção dela, colocando jeitosamente sobre o corpo dela, que aceitou um pouco constrangida, abaixando o olhar e sentindo o rosto ruborizar de leve. Eram gestos simples demais, para ele. Ele era poderoso, o Rei do Hueco Mundo, era difícil e confuso pra ela vê-lo dessa forma.

“Então, que local sugere para caminharmos? Sei que está um pouco frio, mas tomei a liberdade de comprar algo para você. Seria uma pena se não mudasse de idéia... Eu teria de jogar fora” Ele dizia de forma tranqüila, fitando-a. Rangiku cruza os braços abaixo dos seios fartos, ainda com certo receio àquele homem ao seu lado e o fita muito surpresa quando ouve suas palavras.

“Comprou algo pra mim?”

“Hai... porquê a surpresa? Não poderia? Não gosta de receber presentes?” Ele parecia se divertir. “Um presente, não significa nada além de um presente, não?”

“Sim... não... quer dizer, sim, é apenas um presente” Matsumoto tropeça nas palavras enquanto se recrimina por dentro. Ainda de braços cruzados sem coragem nenhuma para pegar o presente, pergunta, um tanto curiosa. “O que é?”

“Sei que já percebeu que comigo, terá que arriscar mais vezes...” Ele realmente estava se divertindo. O sorriso em seu rosto o denunciava, enquanto ele arrumava o chapéu, rebaixando um pouco a frente, cobrindo-lhe parte do rosto. “Já lhe disse onde achar”

Permanece a olhar para ele, e para o seu sorriso brincalhão e se pergunta intimamente mais uma vez, talvez pela centésima vez, se está fazendo a coisa certa. Sua curiosidade é ainda maior, e coloca a mão no bolso esquerdo como ele havia indicado. Sente entre os dedos algo macio, agradável ao tato. Quando retira do bolso, vê um belo par de luvas negras em couro e um cachecol aveludado, extremamente confortável. Fica olhando para os dois itens em suas mãos, sem saber muito o que dizer. Ele lhe poupou por alguns minutos acrescentando.

“Não esperava que eu, sabendo do tempo aqui no Mundo Real a deixaria desprevenida, não? Certamente, sabia que não se importaria com as vestes e que viria de qualquer forma. Está certo que eu me corrijo ao ver que usa um belo vestido de noite, mas impróprio para uma época tão fria. Como estamos usando Gigais, elas são nossos receptores de sensações aqui, e sentem frio também. Por isso, me adiantei, já que sabia que você não o faria e os comprei”

“Arigatou” Murmura em um tom baixo, sem conseguir conter o sorriso diante das belas peças. Não deixa de notar o leve ácido nas palavras dele ao falar sobre seu desleixo em se vestir, mas parecia já ter acostumado, pois não se importou, preocupando-se em vestir as luvas e colocar o cachecol. De forma espontânea, uma característica particular, virou-se pra ele, sorrindo largamente. “Fiquei bem?”

“Ficou muito bem... “ E o sorriso dele parecia muito sincero enquanto ele levantava o chapéu para olhá-la melhor. “Vejo que não adianta apenas ter bom gosto, se a modelo não for bela. Para onde vamos?” Finaliza, aproximando-se e lhe estendendo o braço cordialmente.

Rangiku coloca seu braço no dele e só então se dá conta que fez isso sem sequer pensar. Um medo repentino se apossa dela, mas se esforça para permanecer natural, sorrindo e respondendo com a voz macia e gentil.

“Não sei... não foi você quem me convidou? Então... me leve a algum lugar... agradável”

“Bem, é verdade. Eu a convidei, mas era para estar no restaurante, onde ela não queria ficar... humm... e agora? Para onde eu posso levar essa mulher... “ Ia dizendo ele de forma irônica e brincalhona como se estivesse pensando apenas e ela não o estivesse ouvindo “Ah, já sei... que tal irmos ao lago? Está uma bela noite, e com este tempo frio, certamente devem ter poucas nuvens. Aceita?”

Ouvia os argumentos dele, achando graça e pensando em discutir o fato de “ela” não querer ficar no restaurante, mas acha melhor apenas relevar as palavras e abre um leve sorriso quando ele menciona o lago.

“Sim, será realmente um belo passeio”

Não era distante, era uma boa caminhada de alguns poucos minutos, que fizeram lado a lado, em silêncio enquanto a brisa fria lhes acariciava os rostos. Logo, estão de frente a um pequeno muro que dá completa visão para o Lago da cidade. Apesar do ar gelado, o céu está limpo e muito estrelado. Continuam andando para fora do limite do muro, indo mais para dentro do campo à beira do lago. Rangiku luta contra o impulso de chegar mais perto dele, e aconchegar-se mais para afastar o frio. Ao invés disso, com a mão livre, arruma melhor o casaco dele sobre os ombros, se recriminando mais uma vez por não ter tido a mínima noção em escolher a roupa adequada para a noite fria que fazia em Karakura. Ainda assim, estava gostando do passeio, o ar enregelado que fazia seus cabelos balançarem lentamente, o céu extremamente estrelado, a serenidade estranha que sentia ao lado daquele homem poderoso. Rangiku dava passos tranqüilos, sentindo-se leve e sorrindo involuntariamente, quando sente ele parar bem próximo ao lago. Muito rápido, ele solta seu braço e se põe atrás dela, abraçando-a pelas costas, um de seus braços enlaçando a sua cintura, enquanto leva a mão livre à seu rosto, erguendo-o para o céu negro infinitamente cravejado de estrelas. Matsumoto sente o coração disparar, quando o sente abraçá-la lembrando o ocorrido no restaurante, mas não tem muito tempo para pensar nisso, pois quando ele ergue seu rosto para o céu, seus olhos se enchem com aquela beleza, os lábios se curvando num sorriso que era uma mistura de admiração e conforto. Naquele momento, seu cérebro esqueceu-se completamente de quem ele era. De quem ela era.

“Aqui, longe das luzes, há uma melhor forma de ver o real brilho de cada uma delas no céu. Percebi que estava com mais frio e decidi lhe abraçar, já que meu corpo vai gerar calor para nós dois. Não me tome como indevido, mas apenas cordial” O tom grave e suave que chegou ao seu ouvido esquerdo fora tão perto que sentiu o hálito quente ir até o seu pescoço, e um tremor subiu-lhe pelas costas. Preferiu o silêncio e continuou olhando o céu estrelado, mas seu sorriso sumiu do rosto, ficando com o semblante sério e pensativo. Ele, que olhava para ela enquanto falava, percebe a mudança e com uma voz clara, faz a pergunta simples.

“Algo errado?”

“Não”

“Algo correto, então?”

Rangiku não consegue conter um sorriso leve com o tom meio cínico que ele faz a pergunta, virando o rosto para fitá-lo, e depois desviando o olhar.

“É uma bela noite Aizen... e o passeio está... agradável até o momento”

Ele parece estudar-lhe as feições em busca de um sentido para a frase, mas parece preferir questionar.

“Até o momento?”

Procurou muitas palavras para responder, e por isso ficou alguns minutos em silêncio. Na verdade não sabia bem o que dizer, por não estar entendendo muito bem o que estava acontecendo. Tudo parecia muito confuso, e estranho, e ao mesmo tempo tão natural.

“Sim... até o momento. Nunca se sabe o que se passa em sua mente... Aizen”

Ele queria entender o que se passava na mente dela. Seria alguma frustração por ver nele um desperdício de talento e força? Seria algum sentimento que ela escondeu até hoje por ele? Contra ele? Ele sabe que há muitas hipóteses, mas não sabe qual delas é a certeza.


Quer me dizer alguma coisa?” Ele pergunta de repente, após também ficar alguns segundos em silêncio. Antes que ela pudesse pensar em responder, ele continua: “Apesar de não mudar quem sou, sei que você pode ver que não sou apenas o lado negro da história, que sou tão normal quanto qualquer um, mas que apenas tenho meus objetivos diferente do de vocês”

“Não quero lhe dizer nada...” A voz dela é fraca, quase um sussurro. Ouvi-lo dizer estas palavras lhe trazia algumas lembranças dolorosas demais, além de fazê-la sentir infinitamente mal por estar nos braços do maior inimigo de seu Taichou. “Talvez quisesse inclusive que você não dissesse nada...” Volta seu olhar às estrelas novamente. A ultima frase foi dita tão baixa, que ela achava que ele sequer fosse ouvir.

Ele suspirou. Queria que ela entendesse que ele não tinha qualquer raiva ou rancor de qualquer um deles, que ele apenas não podia se manter vivendo olhando para os lados, mas queria olhar para frente e para cima.

“Posso fazer uma coisa? Não pergunte o que é... apenas diga sim ou não”

Sem olhá-lo, ela suspira voltando o rosto para o lago e pensando na pergunta dele. O que mais poderia lhe acontecer depois de toda aquela noite inesperada e estranha? Apenas, virou o rosto um pouco para ele e assentiu com um gesto de cabeça.

Ele a segura de maneira firme, mas delicada, puxando-a mais para perto de si, virando-a no abraço. Ele segura por seu pescoço, a trazendo pela nuca, e a deixa colada com ele por alguns segundos, enquanto com o outro braço, ele a abraça.
Ele acaricia sua nuca e seus cabelos com os dedos e diz olhando profundamente nos olhos dela.

“Me perdoe por isso, mas lhe darei uma prova definitiva de que posso ser tão humano quanto você...” Ele se aproxima vagarosamente, torturando o momento. Matsumoto sente os dedos dele em sua nuca com um tremor e se pergunta porquê não tem reação nenhuma, além de fitá-lo nos olhos como se estivesse hipnotizada pelo poder emanado por ele. Ele aproxima mais o rosto, encostando a ponta do nariz dele no dela, seus lábios quase se tocam quando ele continua: “Da mesma forma como sente, eu também sinto...”

Medo. Desejo. Culpa. Apenas alguns dos sentimentos que se misturam dentro de Rangiku ao senti-lo assim tão perto. Estremece, fechando os olhos por um instante, depois os abre novamente fitando-o sem se mover. Sabia que o sensato era afastar-se, ir embora, deixá-lo ali sozinho, sair correndo, qualquer uma dessas alternativas, porém seu corpo se recusava a obedecer ao lado racional. Lentamente, ele recua um pouco, encostando o rosto ao lado do dela, dizendo ainda bem baixo, o tom grave e ao mesmo tempo suave da voz dele, fazendo-a arrepiar-se.

“Por ser humano, eu entendo o que seria estar em sua posição agora... Entendo que eu seria desleal com você impondo-lhe um beijo neste momento. Posso ser tão humano que sinto o quanto você quer, mas se nega a querer mais. Culpa-se pelo simples fato de querer-me agora. Eu não a machucaria de forma alguma, Rangiku San. De forma alguma” Voltando seu rosto, ele para de frente para ela e beija-lhe a ponta do nariz. Ele começa a voltar seu rosto para mais longe do dela, ficando em sua posição normal. “
Entende?”

Gostaria de não estar tão abalada emocionalmente e ter algo a dizer, mas temia além disso, não encontrar sua voz e por isso, manteve-se em silêncio, trêmula, e ainda espantada como aquele homem tão poderoso, que imaginava ser capaz do que quer que fosse para alcançar seus objetivos, podia ser tão sutil e carinhoso. Ainda lutava contra suas emoções quando foi surpreendia mais uma vez por ele, que se abaixara lentamente ao seu lado e agora segurava-a no colo de forma confortável.

“Vou levá-la pra casa”

Pega totalmente de surpresa, se segura nele, encostando a cabeça em seu ombro como se aquilo fosse natural. Ouviu sua própria voz soar baixa e suave, dizendo.

“Eu ia mesmo dizer que precisava ir pra casa...”

Ele sorriu sincero, ela pode sentir, mesmo estando de olhos fechados. Um piscar de olhos. Não mais do que isso, na verdade, quase menos e eles estão na Sereitei. Ele continua carregando-a, mas é incrível como ela, mesmo estando em seus braços, não sente qualquer traço da Reiatsu dele. É quase como se ele fosse um fantasma, sem qualquer traço de Reiatsu.

“Perdoe-me por entrar em seu quarto, mas aqui seria o único lugar que eu poderia trazê-la sem chamar atenção. Gomen...”

Apenas quando é colocada no chão, Rangiku percebe estar em seu quarto no Gotei X. Fita-o, agora vestido novamente como o soberano do Hueco Mundo e já parece ser outra pessoa, o que a traz de certa forma para a realidade. Uma onda insustentável de culpa e receio a toma de uma forma que baixa os olhos sem conseguir sustentar o olhar para ele.

“Tudo bem...” Ela diz devagar e com esforço, cheia de sentimentos, se afastando um pouco e ainda sem olhá-lo. Seu rosto estava levemente ruborizado. Ele já não sorria mais, porém sua face não expressava seriedade quando ele lhe dirige mais uma vez a palavra:

“Sei que não me responderia... ao menos eu acho, mas... “ Três passos. Ele se aproxima bastante neles. Ao parar bem de frente para ela, leva a mão ao rosto dela, passando os dedos devagar, indo até uma mecha de cabelos e colocando atrás da orelha dela. “
Se... eu a tivesse beijado...?”

Rangiku assusta-se mais uma vez com o poder emanado por aquele homem, mas ergue o olhar para ele, sentindo-se ao mesmo tempo corajosa e tola. Tenta ignorar as mãos dele em seu cabelo e o toque em sua pele

“Não posso responder... Pois só se houvesse feito eu saberia como teria reagido”

Ele permaneceu acariciando seu rosto e cabelo, porém agora sorria de novo. Era estranho, mas o sorriso dele queria dizer alguma coisa, quase algo bom.
De verdade.

“Eu devo lhe beijar e ver qual será sua reação?”

Olhava pra ele perguntando-se pela centésima vez o que ele queria com ela, o que fazia ali, tocando-a daquela maneira, esperava o que dela? Em que será ela poderia lhe ser útil? Imaginava que ele não faria nada que não fosse levá-lo a algum objetivo. Sentia a garganta seca, e toma coragem afastando delicadamente a mão dele de seus cabelos e rosto.

“Nunca se pergunta a uma mulher se deveria ou não beijá-la” E ao dizer isso, afasta-se alguns passos.

Ela o viu sorrir, aquele sorriso convidativo com um toque de assustador. Como uma premonição para o que viria a seguir.

“Yare, Yare... Sei que devo agir quando uma mulher me mostra abertura para uma ação, mas...” Uma mudança completa de clima. Ele ocupa rapidamente o espaço que os separavam e a segura pela cintura. Puxa-a para si de uma forma rápida, encaixando seus corpos perfeitamente. Ele baixa um pouco sua cabeça, já que é um tanto mais alto que ela e leva a mão até seu rosto, seus dedos indo para trás de sua orelha. Quando ele fala, a voz é grave e macia e a está fitando tão profundamente que ela teme que ele leia o que há de mais íntimo em sua alma. “Você não é uma mulher qualquer. Jamais me portaria com você como agiria com qualquer mulher. Por isso mesmo eu lhe pergunto mais uma vez, devo beijá-la para ver qual sua reação?”

Mesmo que quisesse não conseguiria responder de imediato. Seu coração batia tão acelerado que podia senti-lo na garganta. Engole em seco, fitando-o com os olhos arregalados. Gostaria de não estar tão assustada e vulnerável, e gostaria de ter sido preparada para lidar com isso. Mas não era o caso, e oferendo-lhe um sorriso trêmulo, diz lentamente e muito baixo.

“Acho que deveria arriscar se é o que deseja”

Ele continua fitando-a e sorri mais uma vez, antes de se afastar dela, descolando seus corpos, mantendo contato com ela apenas pelo toque em sua mão, que leva aos lábios. Depois a solta, suavemente, voltando a ficar ereto e muito alto, imponente naquelas vestimentas. Faz um leve gesto com a mão, abrindo um portal para a Garganta que leva ao Hueco Mundo.

“Tenha uma boa noite, Matsumoto Rangiku...”

“Boa Noite Aizen” ela diz em voz fraca, quando o vê entrar no Portal que se fecha logo em seguida. Não sabe dizer por quanto tempo ficou parada no mesmo lugar, olhando o espaço vazio por onde ele se foi. Estava séria e seu coração batia descompassado. Tudo em que conseguia pensar agora era em beber sakê até esquecer que quase beijara o maior inimigo de seu Taichou, mas ao contrário disso, deitou-se para tentar dormir.


• continua •


¹ Título do capítulo inspirado na música Only an ocean awaySarah Brightman:

Apenas a um oceano de distância

² Trecho da música Somewhere in Time - Martin Nievera:

Não importa o quão arduamente eu tente,
eu morro por dentro
pra deixar você ir

³ Trecho da música In This Together - Apoptygma Berzerk:

Devia ter visto isso chegando
Devia saber disso
Não devia ter deixado isso acontecer


Return to Top