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Nada acontece a não ser que
sonhemos primeiro.
Carl Sandburg.
“Buyo”?, uma vozinha chamou por um gato feio e gordo. Nada de resposta. E já era de cansar esperar por uma depois de dez minutos de busca frustrada.
... o terremoto que sacudiu Osaka...
Sentada num chão de madeira, uma garota de nome Shiroi Rin tentava não se irritar tanto com um gato tão odioso que nem ao menos pertencia a ela. A jovem vizinha dela, Higurashi Kagome, pediu para que ela tomasse conta dele por pelo menos duas semanas, tempo que levaria para voltar de uma viagem a Osaka. Rin não percebeu na hora o sorriso brilhante da esperta vizinha, aceitando o serviço sem arrependimento... até agora.
... uma magnitude de 5 da escala Shindo...
“Mas que diabo...”, ela amaldiçoou-se. Levantando-se, acabou dando um grito ao bater a cabeça na mesa de centro da sala.
... e a população está em alerta.
“Ai...”, gemeu. Deitando-se no chão, olhou fixamente o teto e fechou os olhos, fazendo um esforço para lembrar os eventos daquele dia.
Primeiro: a mãe ligara para avisar que terminara o namoro com o terceiro namorado em três anos. Segundo: o professor anunciara que ela teria que participar de uma apresentação em Nagoya dentro de quatro dias, e ficar longe da capital significava apenas ter estresse. E esse gato teria que ficar sozinho no apartamento, caso não encontrasse alguém para cuidar dele.
Colocou o braço em cima da testa e fechou os olhos. Se Buyo não aparecesse logo...
O celular, em cima da mesa, tinha como toque uma das músicas mais famosas de Koda Kumi, cantora favorita dela. Ao escutar a canção, o braço apoiado na testa se esticou e alcançou o objeto em cima da mesa, que mostrava no visor a chegada de uma nova mensagem.
Talvez fosse o cansaço, talvez fosse o sono, mas o fato é que ela demorou a entender os kanji que recebera. Notou mais outra coisa ainda e franziu e testa: como, raios, a vizinha dela, Higurashi Kagome, tinha o número do celular dela? Sim, a mensagem era da mesma, e ela leu, certamente curiosa, o recado.
Estou na região de Kinki e teve terremoto aqui de 5,3 graus. Vou te mandar um vídeo. Eu caí de uma plataforma na hora. Higurashi K.
Um sorriso mais que amarelo apareceu no rosto dela, iluminado pelo display azulado. Rin não entendia como Kagome conseguira o número dela, muito menos o motivo de ela precisar mandar uma mensagem com um vídeo... Curiosa, ela viu o arquivo e achou graça da situação. Era realmente inusitado: Kagome, de cabelos longos e negros, roupa escolhida a dedo, maquiada e usando um salto que Rin nunca teria coragem de calçar, estava em pé ao centro, aplaudindo ao mesmo tempo em que o público a uma pessoa que acabara de fazer um discurso. De repente a câmera começou a tremer, indicando o início do terremoto. A garota, assim como outras pessoas, ficou nervosa. Entretanto, apenas ela se desequilibrou e caiu do palco, quebrando o salto.
Depois disso, o vídeo terminou.
Dando de ombros, ela voltou a apoiar o braço sobre a testa, fechando os olhos para pensar naquilo depois. Buyo ainda estava brincando de esconde-esconde dentro de casa.
Que estranho... Ela não ouvira notícia alguma de terremotos em Osaka ou Kobe. O último tinha sido perto de Tóquio realmente, cujo tremor deixou dez mortos em cidades próximas.
Buyo pulou em cima da barriga dela e a despertou com o susto. Abrindo os olhos e esfregando-os, ela teve dúvidas se estava dormindo ou simplesmente de olhos fechados e pensativa.
Levantou-se e procurou pelo celular. Estava em cima da mesinha do centro, o que era também um pouco estranho. Talvez tivesse ela realmente cochilado. Ligou o display e viu as horas. Quase duas da manhã. Talvez Buyo estivesse com fome e desistido da brincadeira.
Contava os dias para a dona dele estar de volta, mesmo depois de cair de um palco e provavelmente ter uma perna quebrada. Se isso tiver acontecido, seria até melhor. Assim Buyo teria a companhia da própria dona, sempre tão ocupada e viajante.
Os dedos buscaram pelo arquivo enviado enquanto uma sobrancelha se arqueou. A vontade de ver novamente a vizinha cair do palco foi substituída por uma certa apreensão: a mensagem desaparecera. Será que apagara sem querer e não lembrava?
Não, não tinha feito aquilo... Ou será que tinha?
Deu um suspiro e rumou à cozinha. Devia ser um pouco mais de dez da noite quando adormecera no centro da sala, e nem ao menos jantara. Buyo que se danasse, ela tinha direito de comer antes dele.
Pegou um prato e colocou pequenas porções de arroz e salada, temperando tudo da maneira mais japonesa possível. Seu hashi, o qual apelidara de Yuricchi, havia sido um presente de um rapaz completamente envolvente no último aniversário. Infelizmente o rapaz era um depravado, e namorava agora uma de suas melhores amigas.
Ligou a tevê e sentou-se num amontoado de almofadas no chão. Apenas filmes passavam nos canais mais sérios naquele horário, e não sentia vontade de ver um pornô sem a companhia de outras pessoas. Coisa que nunca fizera e nem queria fazer, pensou com certa graça.
O polegar parou de apertar o botão do controle quando ela reconheceu o símbolo no canto superior direito de um canal de notícias. Talvez passasse alguma reportagem sobre o terremoto da região de Kinki.
Meia hora se passou e nada havia sido noticiado. Talvez tivesse sido apenas um reflexo, fruto de algum deslocamento de placas no Pacífico; e ninguém se feriu, o que significava, portanto, que não era necessário uma grande atenção por parte da imprensa.
Ao concluir isso, resolveu adormecer.
Três dias depois:
“Desculpe, desculpe.” Rin se desculpava com todos no meio do caminho. Estava atrasada para a aula de piano. Não que tivesse acordado tarde. O fato é que Buyo simplesmente desapareceu e ela só o encontrou muito tempo depois, quando finalmente se deu conta de que deveria ter deixado o maldito gato da vizinha de lado e se preparado logo para ir para a aula.
Na entrada da estação, a pasta com as partituras escorreu do braço quando ela foi verificar se levava na bolsa o cartão-eletrônico para o metrô. Ao se abaixar para pegá-la, um pé ficou despropositalmente em cima dela.
“Perdão”, o novo vizinho da frente se abaixou antes ao perceber o que fizera. “Não vi...”
“Sem problemas”, ela se desculpou logo, fazendo um tchau nervoso e apressando o passo. Não tivera tempo até aquele momento de se apresentar ao novo morador, ou melhor: ao irmão do novo morador. Os dois haviam mudado não fazia uma semana, e ela só os via sempre que descia pela manhã para ir ao conservatório. Não tinha idéia que eles pegavam o metrô na mesma estação.
Subindo a escadaria da estação para pegar o próximo S-10 com direção a Moto-Yawata, ela nem ficou surpresa de encontrar o banco que Kawashima Sango costuma ocupar todas as manhãs vazio. Havia mandado uma mensagem pelo celular para a colega, desculpando-se pela demora e que ela podia ir antes.
Olhou o relógio no pulso e o relógio da estação. “Dez minutos...”, murmurou com um suspiro. Era quase 9 da manhã, e até chegar a Kudanshita demoraria pelo menos uns 15 minutos...
Nunca mais tomaria conta dos gatos dos outros vizinhos, estava já decidido!
“E ele ficou só dando atenção praquela... praquela... Menina. Até parece que a gente não tava lá também!”
A reclamação vinha da menina de enorme rabo-de-cabelo, esbelta e vestida elegantemente. Sango acompanhava Rin tanto na ida quanto na volta para casa, pois as duas moravam perto da mesma estação de Morishita. E obviamente o assunto principal era a notória disposição do professor de piano delas em atender as novas alunas e esquecer as veteranas. Logicamente Rin notou também o disfarçado ciúme de Sango, de longe, a melhor aluna da pequena turma particular.
As duas faziam caminho para casa tomando cada uma um expresso. Rin chegou meia hora atrasada e o professor nem reclamou: estava ocupado demais com a novata, ensinando-lhe de perto os trechos mais complicados das partituras mozartianas.
“Qual é mesmo o nome dela?”, Rin perguntou sem realmente interesse. Era apenas uma pergunta para tentar acalmar o furioso estado de espírito de uma aluna tão ciumenta quanto Sango.
“’Tsu’ alguma coisa. Também não lembro de ela ter se apresentado”.
“Ah!”, Rin deu um tapa na testa. “Tenho que comprar comida pro gato!”
“Você tem um gato?”, Sango franziu a testa.
“É da minha vizinha... Ela ‘tá em Kobe e me pediu pra ficar cuidando dele... Mas... eu não gosto de gatos, sabe... E eu cheguei atrasada hoje por causa dele.”
“Ah, é mesmo, eu tinha até esquecido de perguntar por quê...”
“Você sabe se ainda existe aquele petshop perto de casa?”, Rin perguntou, tomando um pouco do expresso.
“Tá falando daquela lojinha do velho trambiqueiro?”
Rin deu uma risada alta, disfarçando os modos depois. Garotas japonesas não riam tão alto quanto ela, e geralmente a garota tinha problemas para controlar a voz.
“Mas eu não tô mentindo...”, Sango quis convencê-la. “Ele é trambiqueiro. Meu irmão me contou que...”
A garota parou ao notar que Rin ficara para trás, estancada em frente a uma loja de eletroeletrônicos e eletrodomésticos. Ela tinha os olhos fixos em uma das tevês.
Ao se aproximar, Sango entendeu o que prendia a atenção dela: era um noticiário. Apenas a voz da repórter era ouvida, e o jornal se encarregava de mostrar vídeos e fotos de uma cidade.
“... o terremoto que sacudiu Osaka nesta manhã teve uma magnitude de 5 da escala Shindo, que vai até 7, equivalente a 5,3 da escala Richter. Os cientistas do Instituto de Tecnologia da região avisam que novos tremores podem sacudir Kinki nos próximos dias e a população está em alerta. Alguns prédios antigos sofreram danos por causa dos... .”
Nisso, o copo de café caiu da mão de Rin.