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Shampoo-chan
Author of 34 Stories

Rated: K+ - Portuguese - Supernatural/General - Rin & Sesshomaru - Reviews: 24 - Updated: 06-20-09 - Published: 04-27-08 - id:4223566

"Ele me disse... 'Ah, essas coisas acontecem... '"

“A gente vai se ver amanhã?“, quis saber Rin enquanto falava com Sango ao telefone. “Tô com medo de ter mesmo aquela prova”

...”Tudo, tudo que ele me pedia eu fazia por ele...”

“Certo, tudo bem então”. Rin desligou o celular e espreguiçou-se. Olhou o relógio e franziu a testa.

Por que esse homem que eu amo tanto 'tá fazendo isso comigo?”

Era hora de mais uma noite de sonhos.


Sonhos Lúcidos

Capítulo 1: A moça do violino

Ao som de: After Dark (AKFG)


As aulas de música de Rin no conservatório se concentrava às segundas, quartas e sextas, com ensaio para apresentações aos sábados. Ela estava nessa escola há pelo menos dois anos, quando saiu da casa dos pais ao completar a maioridade e vir morar sozinha em Tokyo para estudar música.

Não se isolara completamente dos pais. Ainda reservava dois finais de semana no mês para visitá-los, e aproveitava bem cada dia antes de voltar para o apartamento na capital.

Não pôde, porém, fazer isso naquele final de semana. O problema era o ensaio intensivo para uma apresentação na sinfônica de Tokyo. Aquilo estava dando nos nervos de todos – inclusive ela não conseguia controlar às vezes a ansiedade. Isso se refletia também no sono.

A atual preocupação de Rin.

senaka no kage ga nobi kiru sono aima ni nigeru

Não sabia exatamente quando tinha começado, mas notou há algum tempo que conseguia... ver o que ia acontecer – algum evento futuro – antes em sonhos. Não contara a ninguém ainda, e por isso desejava muito que os ensaios acabassem para voltar a Yokohama e visitar os pais. Talvez a mãe a ajudasse, ela com certeza era uma pessoa que poderia explicar o que estava acontecendo.

Por enquanto, não era nada tão grave assim. Era até divertido saber que o próximo ônibus ia atrasar por causa de um pneu e então pegar outro por que já sabe o que vai acontecer... Mas, claro, não acontecia isso sempre. Rin tinha o péssimo hábito de esquecer tudo o que sonhara, então só lembrava alguma coisa quando estava acontecendo na hora. Pelo menos em 40% dos casos era assim.

hagare ochita hana ni mo kidzukazu ni tobou

Por conta disso, a partir daquela noite, decidira anotar os sonhos. Comprara um caderno de capa meio azul muito discreto, que lembrava qualquer caderno comum e não um “diário dos sonhos” para anotar qualquer coisa com que sonhasse. Carregaria também esse caderno consigo, e a discrição evitaria que algum curioso o lesse com a ânsia que qualquer um lê um diário que pertence a outro.

Suspirou e deitou-se.

machikado amai nioi ryuusen tooku mukou kara

As coisas mudaram bastante a partir do momento em que percebeu o que podia fazer. Não era muita coisa, mas poderia valorizá-lo. Sempre achou que não tivesse talento, nem mesmo para o piano que toca há dois anos, e isso poderia ser algo que poderia ser, de certa forma, útil.

dokoka de kiita you na nakigoe

Aprenderia a usá-lo com cuidado.


“Hmmm...”, foi o murmúrio de Rin. A cabeça começou a doer. Alguma coisa estava errada. Aquele barulho... ela conhecia...

Abriu os olhos e viu as horas, assustando-se.

yokaze ga hakobu awai kibou nosete
doko made yukeru ka
?

O ensaio começaria em vinte minutos.

sore wo kobamu you ni sekai wa yurete
subete wo ubau sa

“Ai, não!”, ela caiu da cama, levantou-se e correu para o banheiro. Numa velocidade impressionante, ela conseguiu se arrumar, comer um pão, tomar um copo de leite e pegar o material em dez minutos, descendo as escadas correndo. O novo vizinho notou a pressa e apenas a observou de longe, arqueando as sobrancelhas num sinal curioso.

yume nara sameta dakedo bokura wa
mada nani mo shite inai
susume

Pegar o metrô exigia esforço sobre-humano no horário de pico. Isso porque nessas horas simplesmente não se consegue entrar num vagão. Era um dos problemas de cidade grande. Respirou fundo e entrou no primeiro trem em direção a Moto-Yawata. Realmente aquilo era um problema dela. Único e exclusivo dela. Por que diabos continuou dormindo, enquanto o celular tocava praticamente todo o arquivo de músicas armazenado?

“Droga...”, ela murmurou consigo mesma. Lembrou que não havia anotado nada do que sonhara. E agora nem lembrava mais.

O dia começara mal mesmo para ela.

Em quinze minutos o trem S-10 alcançou a estação Moto-Yamata, onde Rin precisou desembarcar e imediatamente sair correndo. Pulou os degraus e quase caiu em cima de outra mulher, até que alcançou a rua que levava à escola. Correndo, viu uma moca na entrada.

De onde a conhecia?

mahiru no taida wo tachikiru you na suburi de ukabu

A garota – mais velha que ela, tinha certeza, segurava com uma das mãos um estojo de violino e a outra segurava a gravata de um rapaz, a quem beijava.

umareochita kumo made miorosu you ni tobou

Uma bonita cena.

machikado chi no nioi yuusen tooku mukou kara

Mas realmente Rin deveria conhecer aquela garota. Talvez de lá mesmo do curso. Passou por eles e não reconheceu o rapaz. Rosto comum. A garota também tinha um rosto comum, mas ficara mais perturbada com ela do que com o rapaz. Escutou as últimas frases dela para ele antes de entrar no prédio: “Nos vemos então mais tarde... tá?”

dokoka de kiita you na nakigoe

Subiu as escadas e respirou aliviada ao ver os alunos ainda reunidos, nos minutos ainda de aquecimento: alguns afinavam os instrumentos, outros liam e executavam algumas partituras, alguns colegas simplesmente conversavam entre si. Uma delas, é claro, era Sango. Mal viu Rin entrar na sala, foi logo contando as novidades sem nem falar bom dia perguntar se a colega ia bem.

“Sabe da última??”, foi noticiando num entusiasmo inédito. “Koyama-san foi chamada pro conservatório de Moscou! Ela vai esta semana!”

“Sério?”, os olhos de Rin arregalaram numa surpresa, embora não fosse de todo verdadeira. Quem diabos era Koyama-san? Sango sempre sabia dos nomes e das novidades de todo mundo, isso sim era um dom que Rin gostaria de ter. Mas estava também feliz pela pessoa. Era uma oportunidade única ser reconhecido por fora. E tocar no conservatório de Moscou, onde Rachmaninov também tocou... “Que bom, não?”

“O professor chamou Kagura-san pra ficar no lugar dela”.

“Hm”, foi a resposta monossilábica de Rin. “E quem é essa?”

“Aquela ali. Chegou logo atrás de você.”

Rin olhou para trás. Era a moça do violino.

“Hã...”, Rin não piscava. Chegaram mesmo juntas, rosto familiar. Agora aquela garota... Sango tinha que saber se... “Ela sempre estudou conosco?”

“Hmm...”, Sango tocou o ombro dela e franziu a testa. “Pelo que sei, ela sempre estudou à noite, com o outro professor. É a primeira vez que ela ensaia conosco”.

Rin fingiu não ficar preocupada. Mas sim, estava sim.

Sonhara com Kagura.

dorodoro nagareru fukaku akai
tsuki ga arawarete furareru sai


O ensaio não se estendeu além de três horas. Isso era o máximo que Rin e também – acreditava ela – o professor aguentavam. Voltou para casa em companhia de Sango e se separaram uma estação antes de Morishita, onde Rin descia e ia andando para casa.

Ao chegar ao saguão, parou em frente a uma das caixas de correio, exatamente a dela. Estava abarrotada de panfletos comerciais e jornais populares, nenhum outro postal ou recado da dona de Buyo. Quanto tempo mais ela permaneceria longe de casa?

Escutou outra pessoa entrar no saguão e dar passos em direção ao elevador. Ela também aproveitou a ida para subir.

E a companhia desta vez seria o novo vizinho.

Pararam um ao lado do outro, mas não trocaram olhares e muito menos palavras. Ficaram olhando a porta do elevador até que esta se abrisse e os dois pudessem entrar e subir ao mesmo andar.

E, quando chegaram ao quinto andar, cada um tomou a direção contrária.

detarame na hibi wo tachichikiritai
nani kuwanu kao de owaranu you ni


Olha... Eu sei que não te conheço direito... mas que droga... não faz isso... isso não vale a pena...”, dizia Rin a uma garota de costas para ela. Parecia bastante apreensiva com algum movimento que a outra fosse fazer.

Você não entende... Tudo, tudo que ele me pedisse eu poderia fazer por ele...”, a garota virou-se e Rin viu o rosto, despertando.

yokaze ga hakobu awai kibou nosete

Deu um suspiro muito profundo de alívio.

Sentou-se na cama, apoiando as costas na cabeceira. Era certa então a sensação que tivera mais cedo, ao conhecer Kagura no conservatório.

Rin sonhara com ela.

doko made yukeru ka?

Por um momento, achou que fosse chorar. Respirou fundo várias vezes até controlar-se. No sonho dela, Kagura estava no alto de um prédio, sentada de costas para ela no parapeito a ponto de escorregar com qualquer movimento, e isso assustava Rin ao extremo. E ela falava aquelas coisas sem sentido algum... A respeito de quem Kagura falava?

sore wo kobamu you ni sekai wa yurete

Olhou o relógio. Quase três da manhã. E em cinco horas mais ou menos teria que treinar novamente.

Deitou de costas e fixou o olhar no teto. Talvez fosse realmente uma boa oportunidade de ver Kagura naquele dia. Poderia descobrir, então, afinal de contas, porque estava sonhando com ela.

Que coisa mais estranha, antes era tão indiferente para ela importar-se com os outros.


“Bom dia, Rin-chan”.

Rin virou-se e encontrou o sorriso de Sango no cantinho especial dela – no dos tocadores de violino.

“Ah, oi...”, ela deu um sorriso para disfarçar a evasão. “Ainda estão afinando os instrumentos?”, olhava para os lados e procurava por Kagura sem querer despertar a curiosidade de Sango. Parecia que a outra violinista não chegara ainda.

“Vamos sair este final de semana antes do ensaio geral?”, Sango perguntou olhando também para o lado que Rin olhara. “’Tá procurando alguém?”

“Você não ia tocar hoje ao lado de... Kagura-san?”, Rin apostou tudo na pergunta.

“Ah...”, Sango deu um sorriso sem graça. “Ela passou direto pro banheiro quando chegou, ela tava chorando.

“É mesmo?”

“Parece...”, Sango baixou a voz num sussurro. “... que ela terminou com o namorado. Ele escondeu dela que tinha outra namorada... Ah, lá vem ela. Não conta pra ninguém, viu?”

O namorado que tinha outra, é? Impressionante como as coisas podem ser diferentes de um dia para outro. Ontem eles pareciam tão apaixonados, tão próximos, aquela cena era tão marcante... Pareceu até um comercial da época da semana de Valentine's Day. E agora, vendo-a entrar novamente na sala depois de lavar o rosto no banheiro, parecia ser a garota mais depressiva do universo.

subete wo ubau sa

“E então?”, escutou Sango perguntar.

“Então o quê?”

“Vamos sair no final de semana? Não quero ficar treinando, senão posso ficar louca por causa do concerto... Tem filmes legais passando, vamos ver um?”

“Ah... não sei...”

“Você me liga?”, Sango uniu as mãos num pedido. “Promete que vai pensar direitinho e me ligar? Não quero ficar deprê no sábado...”

Rin forçou um sorriso e concordou com a cabeça.


Final do dia. Todo mundo sai. Menos uma, que decidira ficar mais algum tempo: Rin.

E o motivo estava sentado ali perto dela, num banco que mais parecia um conforto que apoio – não para tocar, mas sim para simplesmente aliviar alguma dor. Kagura decidiu continuar na sala, mas não foi para treinar. Talvez fosse realmente esse o motivo inicial, entretanto ela continuou ali, sentada num canto, olhando o violino sem qualquer outra ação: não tocava e nem parecia animada para tal. E principalmente: não notara a presença de Rin.

“Ficou satisfeita com o resultado de hoje?”.

Kagura olhou para a direção de onde vinha a voz. Rin notou a surpresa dela ao perceber que havia outra pessoa na sala. E a pergunta era apenas para iniciar a conversa: não tinha o menor interesse em saber se o treino tinha sido bom ou não.

E de tão surpresa, Kagura só pôde gaguejar uma resposta: “Hmm... n-não muito...”

“Posso falar uma coisa?”, Rin esperou a confirmação de cabeça de Kagura para poder prosseguir. “Acho que você tocou meio... vazio hoje.”

“'Vazio'”, a outra repetiu. O que aquilo significava?

“Parecia que você tava tocando automaticamente. Que nem no avião, quando colocam tudo no piloto automático.”

“Ah...”, Kagura forçou um sorriso. Era tão forcado que era possível notar rugas de falsidade. Não que a garota fosse falsa, mas parecia que era queria mascarar a verdade da situação como numa peça de teatro, onde ela era a atriz principal. “Puxa, que pena, eu achava que estava tocando bem”.

“Você tocou, mas não tão bem quanto ontem.”, Rin comentou num sorriso.

Escutou Kagura dar um suspiro muito profundo. Era óbvio que não queria conversar.

“Vou ao banheiro.”, ela falou, fechando o estojo do violino. “Você vai continuar por aqui?”

“Só mais um pouco. Vou limpar o piano e depois volto pra casa...”, Rin olhou o relógio no pulso. “Você vai emb-...”

Franziu a testa. Kagura não estava mais na sala. Rin se sentiu de certa forma derrotada por não conseguir ter uma conversa de colega para colega. Não tivera esse hábito mesmo: sempre fora de falar pouco, de fazer poucas amizades. Não que fosse mal-humorada ou depressiva. Apenas não gostava de passar muito tempo com outras pessoas, mas sempre que conhecia alguém por quem tinha enorme apreço, virava uma outra pessoa. Os poucos amigos que tinha podiam falar com toda certeza que Rin era a pessoa mais divertida do mundo. Mas em Tokyo era tão difícil encontrar alguém simpático... As pessoas estavam sempre correndo, não ligavam para as outras, esbarravam um no outro e nem pediam desculpas...

Pensou em Sango. Sim, ela poderia ser uma amiga... Mas Rin a conhecia tão pouco, e Sango era amiga de praticamente todo mundo. Fora a primeira com quem Rin conversara ao entrar no conservatório. E se aceitar aquele convite para sair, será a primeira vez que se falarão fora da escola.

Tocou num dos “dós” do piano, que ressoou por toda sala vazia num tom desafinado. Não era piano dela, diferente dos outros músicos, que tinham suas próprias violas ou violinos. O conservatório tinha apenas dois pianos. O outro pianista era o professor, Hiranosuke Takeda, por quem Sango era – conforme percebera Rin – platonicamente apaixonada. Rin conseguira a outra vaga depois de uma árdua seleção, as provas duraram ao todo seis meses, tempo que poderia ser usado para fazer ou estudar outra coisa. Às vezes se perguntava como não tivera a idéia de estudar outra coisa, como Direito ou Licenciatura. Música exigia treino diário, suor, paciência, desespero, ansiedade antes de apresentações, calma diante do público para levá-lo ao êxtase, superando os ouvidos dos expectadores.

Tocou mais uma tecla e olhou o relógio, arregalando os olhos.

Kagura estava no banheiro há quase uma hora.

Rin levou a mão ao peito. Havia alguma coisa errada. Foi direto ao banheiro do corredor e entrou.

“Kagura?”, chamou. Sem resposta, estava vazio, constatou ao verificar por baixo das portinholas dos sanitários que não havia mesmo ninguém ali.

Levantou-se e apoiou as costas contra a parede.

Kagura não foi embora do prédio, tinha certeza disso. Deixara as coisas na sala, inclusive aquele violino importado.

Para onde teria ido?

O silêncio trouxe concentração. Lembrou-se do sonho.

...Tudo, tudo que ele me pedia eu fazia por ele...”

Os olhos ficaram maiores. Olhou para cima e compreendeu: Kagura estava no alto do prédio.

yume nara sameta dakedo bokura wa


O conservatório era um prédio anexo ao Instituto de Belas Artes de Tokyo. Era um prédio de 16 andares, dividido em departamentos de música, cinema, artes plásticas e teatro. O próximo curso a ser ofertado seria o de artes cênicas para formação de atores, cuja autorização para funcionamento sairá em dois meses. Havia muita expectativa para o sucesso do curso.

Era no alto desse prédio que Kagura se encontrava. Tinha uma visão horizontal da cidade, que naquela hora queria mergulhar em trevas. O negro brigava com as outras cores no céu.

Há quanto tempo estava ali? Deixara aquela menina sozinha na sala há uma hora, pelo menos. Precisava voltar.

Mas não queria.

Sentou-se no parapeito e olhava para baixo. O trânsito estava bem louco lá nas ruas.

“É bonito aqui, né?”

Kagura olhou por cima do ombro e viu Rin em pé atrás dela. Piscou um pouco surpresa, depois voltou a olhar o horizonte.

mada nani mo shite

“Fiquei preocupada por ter demorado”, Rin começou a explicar, mantendo uma distância razoável. “Fui procurar você nos banheiros, então...”

Ficaram em silêncio.

“Kagura-san, eu...”, respire fundo. Há um bom caminho para seguir e resolver tudo. “Você não quer descer comigo?”

Viu a cabeça da outra mover para os lados.

“Posso ajudar em alguma coisa?”

Mais uma vez, a resposta foi o silêncio.

“Quer conversar?”, foi outra tentativa.

Pareceu que, desta vez, obteve uma reação. O rosto de Kagura se comoveu e a voz embargou. Lágrimas começaram a escorrer.

“Eu... e-eu tive um... problema ontem...”

“Com aquele rapaz com quem estava ontem?”

“Ah...”, Kagura limpou uma lágrima da face. “A escola toda já sabe disso, eu acho.”

E eu me aproveito do fato pra não entrar em detalhes. Bonito isso, refletiu Rin.

“Ele e eu estávamos juntos há... três anos, até onde eu sei. E ontem descobri que ele... ele tava...”

Baixou o rosto e as mãos apertaram as vigas de sustentação. Rin prestava atenção a cada detalhe. Um movimento a mais e...

inai

“Ele era meu melhor amigo antes de ficarmos juntos... eu podia contar a ele qualquer coisa, sempre nos falávamos pela manhã, à noite ele era a última pessoa com quem eu falava... Só que há duas semanas eu percebi que ele estava diferente... Ele...”, engoliu em seco e mais lágrimas escorreram. “Ele falava que 'tava muito ocupado pra sair comigo’ e ficou indiferente quando falei que ia tocar no concerto. E ontem... ontem... eu descobri o motivo...”

“Ele tinha outra pessoa?”

Kagura virou o rosto e Rin conseguiu ver-lhe um meio sorriso.

“Parece que só eu não percebi isso.”

“Bem... se vocês eram tão amigos, não tinha um motivo pra você não confiar, não é mesmo?”, Rin retribuiu com outro meio sorriso. “Isso é a base entre pessoas que são amigas.”

“A-acho que sim...”. Kagura tremia. “Quando eu descobri ontem, vi um lado dele que não conhecia. Ele... falava coisas horríveis. Perguntei se eu tinha feito alguma coisa errada, ele me disse... 'Ah, minha cara, essas coisas acontecem...'”

“Kagura-san...”, aquela posição deixava Rin tensa. “Você poderia descer daí? Vamos conversar em algum canto?”

“Ah... eu... eu devia saber que isso não era bom...”, ela deu um salto e ficou longe do perigo, para alívio da outra colega. Rin estendeu uma mão para ajudar e as duas se sentaram no chão. Kagura olhava para baixo e o cabelo negro encobria o rosto. Começou a chorar.

“...Tudo, tudo que ele me pedia eu fazia por ele... e agora não entendo porque ele fez isso... ele falava aquelas coisas ontem, eu me perguntei: 'Por que esse homem que eu amo tanto 'tá fazendo isso comigo?'

A mão de Rin pousou no ombro da violinista.

“Eu não tenho idéia do que você sente agora... Ele provou que não dá valor nem à amizade entre vocês... Chore o quanto quiser, grite o quanto quiser, isso vai ajudar, isso vai ajudar a passar o que sente agora... Mas não pode mostrar pra esse cara que isso derrotou você por completo, não dê essa chance a ele, Kagura-san!”

A mão apertou forte no ombro.

“Mostre aos outros e principalmente a ele que você não é igual, que nunca vai trair uma amizade e nem falar coisas horríveis aos outros... O mais importante agora é aprender uma lição muito difícil e se erguer”.

Desta vez, Kagura gritou de desespero e Rin a consolou.

Susume!


Ao chegar em casa, Rin levou um susto ao ser recepcionada por Buyo. O felino a aguardava atrás da porta e passou pelas pernas dela, como se soubesse muito antes o horário em que ela costumava chegar em casa e o quanto estava atrasada naquele dia.

“'Tá com fome, é?”, ela foi direto ao pote de ração e jogou no pratinho dele. “Desculpa, Buyo, tive que resolver um problema.”

Depois de dar comida para o gato, foi para a cozinha e separou as coisas para preparar o jantar. Separou os legumes e os temperos, era uma boa oportunidade para fazer uma sopa. O dia estava frio, o inverno estava chegando, como pôde notar ao ficar no alto do prédio com Kagura. Logo teria que procurar os casacos para tirar o mofo.

E tudo terminou bem, não? Kagura parou de chorar e Rin a acompanhou até a estação. Pegaram metrô em direções opostas, mas Rin só foi embora depois que Kagura tomou o rumo em direção à casa desta. Estava mais calma e agradeceu o apoio.

Deu um suspiro. Olhou as horas. Quase dez da noite. Era a primeira vez que chegava tão tarde em casa.

Enquanto a água aquecia, foi até o telefone e não viu recados novos na secretária. A dona do gato ainda não havia entrado em contato com Rin. Os pais em Yokohoma não ligaram também. Era meio da semana ainda, talvez fossem ligar sábado.

Domingo... Sango pediu para sair com ela, não foi?

E se fosse possível contar com a ajuda de Sango com esse problema com os sonhos? Hoje tinha sido a prova mais concreta que essas coisas funcionavam mesmo, encontrou Kagura justo onde havia visto no sonho.

O que você vai fazer, Rin?

Pegou o celular e digitou uma mensagem. Curta e concreta:

'Sango, vamos sair no domingo. 15 hs 'tá bom pra mim. Quero te contar uma coisa'

Feito isso, deu um suspiro cansado e rumou à cozinha para terminar o jantar.


Nota da Autora: depois de um ano, volto ao fanfic! Isto hoje é presente de aniversário para Lan-Lan, espero que ela goste. Omedetou, omedetou ne!

Muita gente falou que isso poderia ser igual à série Médium, mas na época que comecei a escrever (meados de 2007), eu ainda não tinha visto nada da série. Hoje é uma das minhas séries favoritas!! Mas não se preocupem: Rin não vai investigar assassinatos ou coisas assim. O objetivo aqui é mostrar como uma pessoa pode mudar a vida dos outros com uma mão estendida e também a si mesma. A cada capítulo, ela vai ajudar as pessoas que vocês imaginam de Inuyasha. Hehe.

Espero que gostem do capítulo. Se for digno de um comentário, ficarei feliz em recebê-lo.

Shampoo-chan



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