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Capítulo 9: Fim
Um aroma doce atingiu minhas narinas, fazendo-me despertar do sonho com o mesmo par de olhos verdes que me assombrava todas as noites. Assim que tomei consciência, lembrei-me de outros olhos que vinham confundindo minha mente nos últimos meses. Procurei-a ao meu lado, mas ela não estava mais lá.
Idiota! – pensei comigo mesmo. Recriminando-me por ter me deixado levar pelos meus instintos carnais no dia anterior. Eu já tivera outras mulheres antes, casos sem importância e nenhum comprometimento emocional; não era o que eu queria para a Sakura.
Com um suspiro amuado, levantei-me e comecei a me preparar para as aulas da manhã. Durante um banho demorado, me peguei por várias vezes pensando na noite anterior. Éramos duas almas solitárias tentando nos completar. O corpo dela, talvez com mais cicatrizes que o meu, evidenciava a vida rígida de um shinobi, mas eu sabia que era o coração dela que carregava uma ferida ainda maior, incurada, assim como o meu. Eu sabia que jamais completaria aquele vazio, assim como ela jamais substituiria a Lílian, mas não podia permitir que a Sakura encontrasse o mesmo destino de solidão que eu encontrei. Entretanto, eu conhecia aquela dedicação que li na mente dela meses atrás, e sabia que a única maneira de deixá-la feliz era salvar aquele rapaz.
Não compareci ao café-da-manhã com os demais professores, fazendo uma parada no laboratório antes da primeira aula da manhã. A poção preparada no dia anterior ainda estava em repouso no caldeirão, mas eu sabia que ela era inútil. Entretanto, depois de inúmeras tentativas, eu também sabia que não havia nada de errado nela. Todos os ingredientes foram preparados e adicionados na ordem correta, toda a teoria dos mais obscuros livros de Poções fora seguida. Se aquilo não era capaz de refrear o avanço daquela Magia das Trevas no corpo do rapaz, nada mais o faria...
As sakuras esquecidas na bancada me deixavam mais melancólico ao lembrar-me da mulher que levava o mesmo nome delas. Não conseguia aceitar o fato de ser incapaz de preparar uma poção para ajudá-la. Concentrando-me novamente sobre o que poderia ter dado errado, lembrei que já tinha visto aquelas marcas regredirem antes, duas vezes. Quando conheci o jovem no hospital de Konoha e, depois, nas lembranças da Sakura. Assim como a Lílian foi a única pessoa que me arrancou das trevas, a Sakura parecia ser a única pessoa capaz de fazer o mesmo com seu antigo amigo de infância.
- Sakura... – sussurrei. Não fazia sentido, mas as flores na minha frente pareciam gritar a solução para mim.
Mesmo que fosse inútil, uma infusão de sakuras não arruinaria uma poção que já se mostrara ineficaz, pensei. Retirei as delicadas pétalas, macerando-as com cuidado, até que seu perfume preencheu o lugar; o mesmo perfume que estava impregnado em meus lençóis e me fizera despertar naquela manhã.
Espalhei as pétalas amassadas pelo conteúdo do caldeirão e o deixei aquecendo brandamente, tampado. Até o final da aula, a essência das flores já teria passado para a poção, só precisaria testá-la novamente. Segui para a sala onde encontraria meus alunos de N.I.E.M., deixando o laboratório vazio.
Duas horas depois, quando voltei para verificar o resultado da poção, ela também estava lá.
- Eu vim me despedir – ela disse, assim que me viu entrar.
Não havia nenhum traço de arrependimento na expressão dela, apenas serenidade. Eu respondi com um aceno de cabeça.
- Eu vi que você modificou a poção – ela afirmou, embora houvesse um tom de dúvida na voz.
- Sim – respondi, aproximando-me do caldeirão. – Eu pensei em testar uma última fórmula antes de desistirmos por completo.
Verificando a poção, retirei uma parte para um frasco e entreguei a ela.
- Importa-se de testá-la?
- Não – ela respondeu, pegando o frasco das minhas mãos. O brilho de esperança, sempre presente nos olhos dela quando testávamos uma nova fórmula, havia desaparecido.
Eu a observei estender mais uma vez sobre a bancada um de seus pergaminhos, cheios de inscrições e preparados com o sangue contaminado do amigo. Ela pingou algumas gotas da nova versão da poção, e eu preparei meus ouvidos para a explosão que viria a seguir.
Silêncio.
Levantei o olhar do pergaminho para o rosto dela. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
- Funcionou – ela disse, quase num sussurro.
Respirei aliviado, e um leve sorriso conseguiu escapar pelos meus lábios. Sakura continuava olhando fixamente para o pergaminho quando me aproximei pelas costas dela.
- Agora você pode voltar – disse.
Ela virou bruscamente para me encarar. Depois de alguns momentos de dúvida, sorriu e falou:
- Sim. E agora você também poderá se livrar daquela marca. – O antigo brilho havia voltado aos olhos verdes.
- Não – respondi. – O ingrediente que usei nessa poção não teria efeito em mim. – Na verdade, a única pessoa capaz de me ajudar numa poção para apagar aquela Marca Negra havia morrido há anos, por minha culpa; mas eu não podia dizer isso a Sakura.
Ela me considerou com a testa franzida, em dúvida. Como eu não continuei com a explicação, ela simplesmente se afastou e disse:
- Obrigada.
Um silêncio incômodo pousou entre nós. Era a primeira vez que tinha que lidar com uma situação daquelas; ela não era uma mulher do Cabeça de Javali ou da Travessa do Tranco, facilmente dispensadas com alguns trocados. Entretanto, quando finalmente resolvi que era hora de esclarecer o que havia acontecido na noite passada, ela também decidiu falar.
- Sobre ontem a noite...
- O que aconteceu ontem...
Nós começamos ao mesmo tempo e nos interrompemos com as palavras um do outro. Outro pequeno silêncio, até que ela abriu a boca mais uma vez e continuou, séria:
- Eu sei, foi um erro. – Um sorriso triste enfeitava o rosto dela. Baixando os olhos, ela ainda tentou se explicar: - Eu... eu pensei que tinha conseguido me esquecer dele, mas...
- Não, Sakura – respondi-lhe, interrompendo-a. – Acredite em mim. Até hoje, eu jamais consegui esquecê-la. Pelo menos, agora você sabe que ele vai sobreviver.
Os olhos dela se levantaram em direção à poção que repousava no caldeirão, algumas lágrimas voltaram a aparecer. Quieta, seguiu até a poção e a transferiu para um frasco, guardando-o na bolsa que carregava em sua cintura.
- Às vezes – ela começou, a voz embargada tentando segurar as lágrimas e os olhos fitando o infinito –, eu acho que não me importaria se essa poção jamais funcionasse. Isso significa apenas que... que em breve eu voltarei a ser ignorada e...
- Não, Sakura! – eu a interrompi, seguindo até onde ela estava. – Não diga isso.
Ela focou os olhos em mim e continuou me considerando, confusa.
- Não importa o que ele disser quando acordar – continuei. – Eu também fui tocado pelas trevas uma vez, eu sei como ele se sente. E posso garantir que você sempre será uma pessoa especial para ele.
Uma lágrima solitária conseguiu transbordar dos olhos dela, e um sorriso triste se formou nos seus lábios.
- Obrigada – ela disse mais uma vez.
- Adeus, Sakura – respondi.
- Adeus – ela devolveu.
Nós ainda nos consideramos por algum tempo, guardando a imagem um do outro com um carinho que, acho, jamais teria por outra pessoa novamente. Finalmente, com um gesto de reverência, como era comum na cultura dela, ela se retirou. Eu nunca mais a vi novamente.
Meu coração ainda pesava em dúvida quando a Chave de Portal do Diretor Dumbledore me fez aparecer no escritório de Tsunade-sama. Entretanto, assim que ouvi os berros estridentes do Naruto, uma sensação de familiaridade me atingiu, e eu fiquei feliz por estar em casa novamente.
Ao encarar minha mestra, entretanto, um frio cruzou minha espinha. Ela estava com o semblante sério, e a agitação além do normal do Naruto me fazia concluir que algo muito grave estava acontecendo.
- Você conseguiu o antídoto, Sakura? – Tsunade me questionou, séria.
- Oras, vovó Tsunade – o Naruto respondeu antes que eu conseguisse abrir a boca. – É claro que a Sakura-chan conseguiu. Nós não vamos perder o Sasuke para aquele selo maldito do Orochimaru, dattebayo!
A confiança do meu antigo companheiro de time me animou, e eu assenti com a cabeça para a Tsunade-sama, mostrando-lhe o frasco com o antídoto.
- Neste caso – ela disse –, vamos direto para o Hospital. O último relatório que a Shizune me passou sobre o estado do Sasuke não era nada animador.
O Naruto praticamente me carregou até o hospital, puxando-me impaciente pelo braço. Quando cheguei no quarto onde o Sasuke era atendido, meu coração pareceu paralisar com a imagem dele. Um dos mais brilhantes shinobis de Konoha estava amarrado sobre a cama, seu corpo passando por espasmos violentos enquanto a Shizune-san tentava, inutilmente, controlar o avanço do selo.
- Tsunade-sama! – Shizune gritou, desesperada, assim que nos viu entrar. – Isso está consumindo todo o chakra dele. Desde que a Sakura voltou para a Inglaterra, que ninguém mais consegue controlá-lo.
Sem pensar, eu corri para o lado da cama e tomei o lugar de Shizune, usando o meu chakra para tentar acalmar o avanço do selo.
- Rápido, Shizune! – ordenei. – O antídoto está na minha bolsa.
Ela conseguiu achar o antídoto enquanto minhas mãos ocupavam-se do Sasuke, agora um pouco mais calmo. Os espasmos haviam parado, embora o selo continuasse espalhado pelo corpo dele.
Shizune tentou fazê-lo engolir a poção, mas ele se recusava a aceitar.
- Vamos, Sasuke... – sussurrei, achando que ele jamais ouviria. – É um antídoto, vai fazê-lo se livrar da influência dele para sempre. Tente fazer isso por mim... e pelo Naruto...
Shizune forçou o antídoto mais uma vez, e então parecia que ele havia conseguido engolir uma pequena dose. Aos poucos, as marcas do selo foram regredindo e voltando para a base do pescoço. Senti o chakra dele voltando ao normal e me afastei, em poucos minutos ele deveria despertar.
- Sasuke! – o berro do Naruto anunciou a todos no quarto que o Sasuke havia acabado de abrir os olhos.
Eu continuei afastada enquanto o Naruto corria abraçá-lo, e a Tsunade-sama e a Shizune-san tentavam separar os dois para que pudessem examinar o Sasuke. A felicidade do Naruto chegava a ser contagiante, entretanto, eu ainda não sabia como reagir.
- Sa... Sakura...
A voz dele chamando por mim fez com que um arrepio cruzasse o meu corpo, mas ainda assim, não tive coragem de encará-lo. Senti os olhares de todos ao meu redor, mas continuei a fitar o chão.
- Sakura – ele insistiu –, obrigado.
Levantei os olhos, assustada. As mesmas palavras que ele dissera quando abandonou Konoha. Entretanto, quando encontrei os olhos escuros dele, havia o esboço de um sorriso em seu rosto, e eu não me contive e sorri também.
Não corri para os braços dele, contudo, como teria feito anos atrás. As palavras do Snape quando nos despedimos ainda ressoavam em minha mente; e por mais que eu quisesse acreditar que aquilo era verdade, achei melhor esperar para o tempo decidir. Tsunade-sama e Naruto continuaram olhando em dúvida para mim, mas eu apenas fiz um aceno de cabeça para o Sasuke e me retirei.
Dattebayo: expressão típica do Naruto, sem tradução própria para o português, usada para reafirmar a frase anterior.
- FIM -