|
Author of 40 Stories |
A Senhora das Montanhas
Capítulo XI
Por Josiane Veiga
Nota da Autora: Relembrando:
Maa é mãe em hindu.
Ki = energia espiritual.
Youkai= demônio.
Quero pedir desculpas pela demora. Quem me acompanha sabe que estou passando por problemas bem difíceis, mas tentarei não atrasar tanto!
-Vim assim que soube que você brigou com um bruto na cidade!
A francesa Samantha entrou pela casa de Nicolas como um furação, assim que ele abriu a porta. Suspirando, ele a encarou. O nariz ainda sangrava e a raiva incontida por Live ter ficado do lado daquele brasileiro intrometido o fez ficar com uma insuportável dor de cabeça. E quando, por fim, achou que teria paz ao chegar em sua casa, era surpreendido pela entrada, aparentemente triunfal, da mulher que ele esnobou há poucos dias atrás.
-Não foi nada... – respondeu contrariado.
Ficou constrangido em lhe pedir que o deixasse sozinho, e então, sem saída, apenas fechou a porta e aceitou a presença dela.
-Trouxe um analgésico. Você tem material de primeiros socorros? –ela parecia solícita.
-Não preciso de nada. Foi apenas um soco.
-Seu nariz está inchado.
Como se ele não soubesse!
-Foi apenas um soco! – repetiu irritado.
Caminhando até um sofá, Nicolas jogou-se sobre ele. A raiva não era nada comparada ao ciúme que ele sentia. O brasileiro tinha a coragem de dizer que era pai adotivo de Live. Pai! Não tinha idade nem pra irmão mais velho! Poucos anos os separavam e era óbvio que existia muito sentimento entre eles.
Quando estava caminhando de encontro à moto, olhou mais uma vez para trás e viu os dois se abraçando. Sentiu ânsia de voltar lá e arrebentar aquele latino e xingar Live até perder a voz. Mas não era criança! Sabia que a raiva que ela estava sentindo era muito maior que a dele mesmo. E como culpa-la? Devia ter contado sobre Maria.
-Isso não teria acontecido se você houvesse me escutado e ficado longe daquela indiana.
A voz de Samantha pareceu intensamente sarcástica. Ele mesmo havia ridicularizado Live pelas origens, mas ver outra pessoa fazendo aquilo lhe doía.
-Eu a ouvi contando a aquele garoto que trabalha conosco no Centro...
-Iravan... O nome dele é Iravan! –Nicolas a interrompeu.
-Sim – Samantha concordou e prosseguiu- eu a ouvi contando a Iravan que foi adotada por duas mulheres! Duas lésbicas! Imagine o tipo de educação que recebeu! Imagine o tipo de coisas que viu! Talvez até tenha participado de algumas indecências que nem quero pensar... Pode ser que ela até seja como as mães!
Nick abriu a boca tentando defender Live, mas não conseguiu. Horrorizado ele notou que falava da mesma forma, que mantinha o mesmo preconceito! E quem era ele pra julgar os outros quando no fundo era um...?
Mordeu o lábio inferior tentando espantar os pensamentos. Fazia muito tempo que não analisava sua própria existência.
-Você é um homem rico e bonito. Não precisa ficar brigando na rua por uma mulher daquela laia.
Live era muito superior a ele mesmo. Ele sabia.
Nunca teria dado certo...
Os pensamentos de auto comiseração foram interrompidos quando ele sentiu uma mão deslizando por sua coxa. Sentou-se no sofá imediatamente tentando afastar a mão que subia em direção ao seu membro.
-Olhe para mim, Nick... – Samantha sentou-se ao seu lado e falou devagar, baixo e calidamente – sou mais bonita que ela. Não sou uma tola, tenho uma origem da qual posso me orgulhar. Você é um Velaz! Como poderia querer namorar uma ninguém?
As palavras de Samantha eram carregadas de sensualidade, mas por mais que Nick estivesse com raiva de Live, não conseguia ser atingido por aquele falso erotismo.
-Samantha...
-Sim?
O “sim” dela foi dito com a boca se aproximando da de Nicolas. Mas nenhum daqueles joguetes carnais funcionou com ele. Frio, apenas a encarou:
-Vá embora.
Era uma ordem seca. Assustada, Samantha se afastou dele.
-Por quê? –ela perguntou tentando entender como um homem podia rejeita-la.
-Porque eu me enojo quando você tenta ser sexy. É fútil e vulgar.
Sim, foi cruel. Mas Nicolas não ligava a mínima. Estava com raiva e a presença da francesa só o inflamava mais. Por mais que odiasse a origem de Live, seus amigos e toda a sua vida passada, este assunto só dizia respeito a si mesmo. Não admitia que outra pessoa a difamasse. Teve a aquariana nos seus braços, fez amor com ela, e conhecia seu caráter o suficiente para saber que Live era honrada e decente.
A jovem guardiã passou a adolescência na Europa, talvez exposta a todo o tipo de tentação e pecado, mas manteve-se fiel a sua religião, sua raiz. Assim que pode, voltou a sua terra pobre para ajudar aqueles que precisavam. Enfim, se tinha alguém que devesse provar seu caráter era ele e não Live.
Mas como poderia fazer isso? Foi sincero também quando disse que nunca poderia ficar com ela. Não por causa de nomes, dinheiro ou todo o resto... mas porque ele sabia quem ela era... e também sabia que ela jamais o perdoaria se casasse-se com ela sem lhe contar seu maior segredo. Mas não o podia revelar! Prometeu a mãe que nunca falaria sobre isso e não queria quebrar sua palavra. A mãe lhe era muito importante.
-Imbecil! – Samantha gritou e ele saiu imediatamente do devaneio.
Atirando-se sobre ele, a francesa tentou agredi-lo com os punhos fechados. Foi em vão. Mais forte que ela, Nicolas praticamente a arrastou até a saída e a expulsou de sua casa. Depois bateu a porta.
Não conseguia ter piedade daquela mulher.
Talvez seus sentimentos tão negros fossem reflexos de quem verdadeiramente ele era. Seu sangue... sua existência.
Pensou em talvez ir até Live e conversar com ela revelando sua identidade, mas deteve-se. Não funcionaria! Ele jamais teria coragem de falar a verdade! Voltando para o sofá, Nick deitou, fechou os olhos, e esquecendo-se de tudo, tentou dormir.
A alguns metros dali, na casa de Live, a situação era bem mais tranqüila. Com uma compressa de gelo, ela tentava aliviar o inchaço do rosto de Mauricio.
-Ai, vai mais devagar – ele disse quando ela passou um anticéptico nos seus lábios machucados – aquele seu espanhol tem um punho de direita que me surpreendeu.
-Ele não é “meu” espanhol! – a indiana reagiu apertando mais a compressa contra o rosto do brasileiro.
-Não é seu mesmo! Ele que tente se aproximar de você novamente que verá do que eu sou capaz!
Reprimindo uma risada, Live deitou a cabeça no ombro do moreno. Os dois ficaram alguns segundos assim, em tal silêncio, quebrado apenas pelos sons da noite que já se aproximava.
-O espanhol esta dando aula no seu Centro, não?
-Está sim. Nicolas é um bom artista. Talvez tão bom quanto o pai. Maire me disse que o Sr. Velaz é muito famoso em Madri.
-Ele não parece um artista – Mauricio observou – é muito arrogante e fechado para tal. Normalmente artistas são mais sociáveis.
-Tenho a mesma impressão. Nicolas parece querer esconder algo. Estar aqui, por exemplo! Vir à Índia parece uma desculpa para fugir das outras pessoas.
-Acredita que no fundo ele não é pintor?
Live se assustou com aquelas palavras.
-Não! Eu vi seus quadros. São simplesmente irreais e perfeitos! Nunca havia visto obras tão majestosas, e você sabe que eu praticamente cresci dentro de museus.
Mauricio sorriu.
-Sim, eu sei. Sábados à tarde você ia a museus e a noite ia ver lutas de boxe!
Os dois gargalharam lembrando das atividades estranhas que Mic e Maire a faziam compartilhar.
-Sinto falta de minhas Maas*
-Mic e Maire também sentem a sua falta.
Abraçando Live, Mauricio resolveu entrar em uma questão um tanto delicada.
-Live, sei que o Centro de Estudos é seu sonho, mas você não acha que poderia deixar alguém o administrando e voltar para a Europa? Vale a pena ficar longe de sua família, sozinha num local deserto, enfrentando algumas pessoas que não aceitam suas idéias? Você não precisa passar por isso!
Suspirando, ela olhou Mau nos olhos.
-Se eu não enfrentar os problemas do lugarejo em que nasci, quem o fará?
Tocando a face da moça, Mauricio apenas lhe sorriu. Ele sabia que ela era tão cabeça dura quanto Micaela e não voltaria a Europa deixando seu projeto nas mãos de outras pessoas. Ou não enquanto o Centro Kamadeva não fosse mais bem estruturado.
-Temo por você – disse simplesmente.
-Esqueceu que sou uma guardiã?
-A mais jovem e fraquinha...
Rindo, Live lhe deu um safanão no braço.
-Fraquinha? Esta parecendo o Sniper falando da Shermmie.
-Nem me lembre esses dois! Brigavam tanto e acabaram juntos!
-E os demais guardiões? Com o tempo, acabamos nos tornando amigos virtuais, simplesmente trocando e-mails e telefonemas.
-E verdade – Mauricio concordou – mas não nós dois! Visitei você varias vezes por ano e passou todas as suas férias comigo.
-Você é à exceção na minha vida. –ela sorriu.
Quando voltou a deitar no ombro dele, notou que estava cansada. Praticamente fechava os olhos de tanto sono. O dia fora realmente cheio de emoções e isso deve ter acabado com seus nervos.
Poucos minutos depois Mauricio percebeu que a sua garotinha dormia. E pegando-a no colo levou Live até o quarto e a colocou sobre a cama.
ººººº
Quando o dia amanheceu, Live acordou estranhamente bem animada. Não se lembrava de ter ido dormir, mas havia sonhado com Micaela e Maire. A presença das duas mulheres em sua vida sempre lhe trazia uma força impressionante. Até em sonhos, suas mães lhe davam animo para vencer as dificuldades que se apresentavam.
Saindo da cama, foi ao banheiro e tomou uma rápida ducha. Pouco depois já estava na cozinha. Mas quase caiu para trás ao ver Mauricio sentado tranqüilamente em sua mesa bebendo um café e comendo uma torrada.
-Mau! Que horas você chegou? – perguntou preocupada.
-Ontem à tarde... – ele parecia confuso.
-Por favor, não me diga que passou a noite aqui!
-Pois digo que passei.
-Ai!
Live colocou a mão na cabeça.
-O que houve?
-Você é homem e solteiro! Estamos na Índia!
-Grande coisa. Sou seu pai.
-Não biológico.
-Mas mais pai que aquele alemão feioso que deixou você sozinha aqui com seu avô. –ao ver que as suas palavras machucaram Live, Mauricio automaticamente se desculpou – não quis dizer isso, Live. Sabe que escapou... foi sem querer.
-Tudo bem Mau - Live sorriu ante o olhar aflito dele - sei que não falou por mal. E quer saber, dane-se o que as pessoas do vilarejo vão pensar, você esta certo! É meu pai real! E é claro que tem que ficar na minha casa!
Mauricio ficou tomado pelo alivio.
-Vai sair?
-Sim, irei ao Centro. Acho que depois de tudo o que houve, Nicolas não vai mais ensinar arte às crianças e quero providenciar logo um novo professor, para não deixar os estudos dos pequenos atrasarem.
Tomando um gole de café, Mauricio sorriu. Apesar de toda a postura de Micaela ser refletida nas atitudes diárias de Live, era Maire que agora surgia em sua mente. A forte inclinação social da guardiã de Libra era vista a olhos vivos no entoar da voz da indiana.
-Então venha comer uma omelete.
-Não gosto de tomar café da manhã – ela respondeu sorrindo.
-Disso eu sei, mas venha comer!
-Mau, eu não tenho mais 12 anos!
Diante do olhar firme da jovem, Mauricio aquiesceu.
-Tudo bem. Já esta magra como um palito, depois ficará doente e daí vai ver como é ruim não obedecer aos mais velhos.
Live segurou uma risada. Mauricio nunca deixaria de vê-la como uma criança.
-Mau... vou indo. Cuide de tudo para mim, ok?
Assim que ela saiu pela porta, Mauricio correu até o telefone. Teclou os números tão conhecidos e após dois toques, ouviu a voz esperada.
-Por que não me ligou ontem à noite?
Sorriu imaginando Micaela ansiosa a espera do telefone combinado.
-Não pude Mic.
Ela suspirou, claramente zangada.
-Mas e então? Como chegou? Como esta REALMENTE Live? Como é este espanhol hippie por quem ela se apaixonou?
Um barulho no telefone indicou que alguém havia clicado no botão viva voz.
-Maire, estou numa ligação particular – Mauricio ouviu Micaela falando e começou a rir.
-Particular? Sei bem que está falando sobre Live e eu tenho tanto direito quanto você de saber das novidades! Também sou mãe dela!
“Pronto”, pensou Mauricio, “as duas vão começar a discutir agora em quem tem mais direito de se envolver na vida da aquariana”. Mas para sua surpresa, notou que Micaela aceitou a interrupção de Maire. Apesar da personalidade forte, Micaela sempre acatava o que Maire queria.
-Fale logo Mauricio! – suspirou a guardiã de Gêmeos.
-Bom, Live está bem. Ficariam orgulhosas em relação ao Centro de estudos que ela montou!
-Estou emocionada – disse Maire.
-E O ESPANHOL, CASPITA?! – Gritou Micaela raivosa.
-Eu bati nele ontem. – Mauricio contou orgulhoso.
-Você bateu nele ontem? – Maire ficou impressionada – o que deu em você? Devia ir até aí para ajudar Live e não brigar com o namorado dela!
-Estou orgulhosa de você Mauricio! – Micaela disse simplesmente.
-Maire, se você visse o que ele disse pra ela... bom, até você teria partido para a ignorância.
-O que ele disse? – perguntou Mic assustada.
-Estava tentando obriga-la a dormir com ele, ameaçando em relação ao Centro. Cheguei bem na hora em que aquele maldito espanhol a estava intimidando. Juro que fiquei cego de raiva.
Maire, olhou Micaela e notou que a esposa não esboçou nenhuma reação. Aquilo a assustou. Se Mic extravagasse sua raiva, ela sabia que a atitude seria o limite. Mas quando a loira se calava e agia com raciocínio, então sim, a vingança seria preocupante.
-E Live, como reagiu? – perguntou a libriana.
-Ainda não tive tempo de conversar com ela sobre seus sentimentos, pois ela parece bem desanimada. Mas acredito que esteja apaixonada. Os olhos dela tem um brilho especial que antes não estava lá.
-Que lindo! – Maire deixou escapulir.
Mic, ao ouvir a frase, encarou a esposa completamente irada.
-Lindo? Ela esta sofrendo.
-Todo amor causa dor. Mas compensa! Espero de verdade que Live e Nicolas conversem e se acertem.
-Você só pode estar brincando! - Mic e Mau falaram ao mesmo tempo.
-O cara é um esnobe! Está obvio que só fará Live sofrer! Não colocarei os pés num avião para voltar para casa, antes de ter certeza que este tal de Velaz foi embora! – esbravejou o taurino.
-Isso é ridículo Mauricio! – exclamou Maire – Live já é uma mulher e independente da vontade de Mic ou sua, ela cresceu e tem direito a escolher seu destino.
-Um destino que a fará sofrer? – a voz masculina vinda da Índia ecoou na sala de estar do apartamento das mulheres.
-O destino que ela escolher! – Maire foi firme. – além disso, eu não sei o motivo, mas assim que ouvi o nome deste pintor, eu simpatizei com ele.
Incrédulo, Mau perguntou:
-Mic, esta aí?
-Sim, estou. – a voz de Micaela era grave.
-Maire andou bebendo?
Pela primeira vez a guardiã de Gêmeos esboçou um sorriso.
-Mauricio, esta fazendo um ótimo trabalho. Continue assim e me mantenha informada.
O barulho constante indicou a Mauricio que Micaela havia desligado o telefone. Sentiu-se um soldado em meio a uma batalha a espera das ordens do general. Bom, sua superior era exatamente a mulher que ele adoraria obedecer pra sempre.
Caminhou até uma janela e olhou para o jardim da casa Kamadeva. A floresta após as flores indicava o quão íngreme era aquele lugar. Rústico, mas exótico. Mic adoraria...
Não!
Devia tirar esses pensamentos da cabeça de uma vez por todas! Como podia ter coragem de pensar em Mic como mulher sabendo o quanto de amor existia entre ela e Maire?
Ainda com o celular na mão, ele saiu da janela e foi caminhando até a sala. De repente parou subitamente. Era um Ki*! Um forte Ki*! Ah quanto tempo não sentia algo assim? A ultima vez fora quando Kari-chan, sua companheira guardiã, manifestou seu poder e descobriram que ela não era totalmente humana e sim uma meia-youkai.
Correndo até o calendário, ele surpreendeu-se.
Todas as lendas diziam que um meio youkai, ou herdava mais seu lado humano, ou mais seu lado demônio. Se fosse demônio, sua identidade estava constantemente alterada. Mas se fosse humana, apenas no primeiro dia de cada mês, o ser se manifestava como youkai.
E hoje era dia 01!
E ele sentia um Ki muito poderoso próximo. Pensou em correr até Live e avisá-la, quando o celular começou a vibrar em sua mão. Sem nem olhar no visor, atendeu rapidamente.
-Sim?
-Mau – a voz de Live estava embargada... era como.... como se ela estivesse chorando.
-Pelos Céus! O que houve?
O coração de Mauricio pareceu sair pela boca. Teria o meio youkai a atacado?
-Meu Centro Mau... estão atacando meu Centro!
Continua...