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"Bleach não me pertence, todos os direitos a Kubo Tite"
CAPÍTULO II – DESCANSE EM PAZ, KUCHIKI FAMILY.
Meus olhos ardiam e eu não conseguia parar de soluçar. As mãos tremiam. O corpo tremia. O cabelo ia infestando-se de suor que me pingava pelo rosto. Eu não estava cansada. Ao contrário: andava rápido demais e com disposição.
Eu podia enxergar perfeitamente bem no negrume da mata. Ele me guiava entre as árvores como se pudesse ver através da noite e premeditar as trilhas mais acessíveis por entre elas. As pernas dele mexiam-se muito mais que as minhas e ás vezes, paravam. Eram seus olhos que volviam para trás impacientes aguardando que eu alcançasse o resto do corpo.
Já passava meia hora na mata de árvores altas e densas e nada do homem dizer uma só palavra. Ele tinha nome e título agora. Era meu mestre e eu não entendia bem o significado disto... Até então Kurosaki Ichigo era a quem eu devia minha “morte” e minha fuga.
Meu choro foi cessando e o que sobrava era apenas meu instinto de sobrevivência. Custei a despregar os lábios costurados pelo grande período em silêncio.
-Ei... – a voz quase não saiu – Ei, para onde estamos indo? Você sabe andar por aqui? – já parecia conseguir falar melhor.
O ruivo parou, eu o alcancei. Ele olhou para um relógio que tirava do bolso e me encarou.
-Nós temos algumas horas até o sol nascer. – disse com uma pincelada de rabugem.
-E...?
-E você sabe o que acontece quando vampiros ficam expostos ao sol? Nunca viu filmes de terror? – respondeu ainda no mesmo tom.
-Eles viram pó, certo?
-E você? Quer virar pó? – Ichigo riu ligeiro – Lógico que não quer, olhe só pra você. Desesperada. Mas te respondendo enfim... – recomeçou a andar – Vou te levar pra onde estou ficando, lá conversaremos e eu esclarecerei todas as suas dúvidas... As que eu quiser. Não devemos demorar muito pra chegar ao asfalto, e de lá, devemos ir pelo subterrâneo, ninguém pode te ver.
-Porque não podem? – o segui.
-Você é burra Rukia? Você acabou de morrer naquela mansão! Todos vão pensar que virou cinzas, bem como os infelizes que ficaram lá com o fogo.
As palavras arderam e eu me lembrei de meu irmão e de Nana. Duas pessoas que eu amava muito e havia acabado de tirar a vida. O choro veio, mais forte.
Vampiros não deveriam ser capazes de derramar lágrimas, suar frio ou sentir dor, mas é o que se passava comigo. Ichigo fingia não se importar, acelerou o passo.
Pouco tempo depois avistávamos uma rua larga que ficava há alguns quilômetros de minha casa. Olhei para trás pela primeira vez e vi ao longe uma torrente de fumaça vermelha sujar o céu. Provavelmente, naquele momento, tudo o que minha nobre e antiga família havia construído, estava incinerado. Ao longe começamos a ouvir as primeiras sirenes. Polícia, bombeiros e imprensa. Nossa mentira começava ali.
Assim que tocamos o asfalto Ichigo fez sinal para que eu voltasse para trás e me escondesse, limpei meu rosto borrado e desajeitadamente corri até o verde que ladeava a rua. Antes que eu chegasse pude ver que ele já estava na minha frente. Era verdade, ele podia se teletransportar, fora assim que nos tirou da mansão. Juntei-me a ele.
-Se pode fazer isto, ir de um lugar ao outro, porque não nos tira daqui?
Uma enxurrada de carros da polícia passou seguida por outros veículos. Este era o tratamento que uma família rica recebia. Assim que não havia mais ninguém e depois de muito tempo calados, ele me respondeu, me puxando para a rua.
-Comece a usar seus olhos de vampira. Isso não é teletransporte idiota, isso é só muita velocidade. Faça um esforço e conseguirá me ver deslocar. – Ichigo respondeu com atraso e impaciência, como que tentando explicar a um garoto de cinco anos algo obvio, mas inteligível para sua idade. – E não dá pra eu ir te carregando desta maneira até o nosso destino.
-Mas Ichigo, você me seguiu certo? – ignorei o sermão – Como chegou até mim? Não podia usar o mesmo caminho? Porque estamos dando essa volta?
-Podíamos, mas você veio pelo lado mais movimentado... Da cidade para a propriedade. Se nós voltássemos pelo mesmo lado, veríamos mais gente, poderíamos ser pegos. Eu posso me ocultar, você não.
Ouvi calada e não quis pensar, minha cabeça pesava, minha consciência doía, eu trocaria todo o pesar que sentia por horas de tortura em masmorras gélidas... Mas lamentavelmente meu corpo não mostrava sinais de cansaço.
Depois de uns dez minutos no asfalto o alaranjado decidiu estranhamente parar.
-Aqui, um bueiro. – apontou e foi logo tirando uma tampa pesada que se camuflava no chão – A madame vai conseguir encarar? Espero que não reclame.
Não reclamei, não falei, sequer fiz algum movimento desnecessário, pulei junto de meu guia para o subterrâneo e o segui muda por muito tempo. As pernas não doíam, mas meu peito parecia tomado por pequenos ossos pontiagudos que me rasgavam toda vez que eu pensava em minha situação.
Há alguns dias eu voltava da escola, havia sido atacada por um maluco e o ruivo a minha frente me salvara. De algum modo, agora eu era um monstro famulento e desprezível que havia acabado de transar com o próprio irmão e o jantado, além de friamente ter assassinado minha bondosa governanta. Eu não estava em condição de me importar com os ratos e toda a sujeira por onde passava. Eu, Kuchiki Rukia, já havia chegado a um ponto no qual nada mais fazia diferença, já para Ichigo... Tudo parecia ok.
O jovem andava despreocupado, como se dançasse. Ia diminuindo a velocidade enquanto assoviava sem parar e cantarolava alguma coisa em francês.
-Ei, Rukia... Você gosta da França?
Não era hora para dirigir uma pergunta dessas a uma pessoa no meu estado.
-Err... Parri é muito suja, prefiro os campos, as cidades pequenas, os vinhos...
Fiz um imenso esforço para responder e mesmo assim ele pareceu não me ouvir. Ignorou-me com eficácia e parou. Eu pude ver que eram escadas de ferro imundas que davam acesso a superfície. Ichigo olhou um pouco para o teto, parecia enxergar além. Sorriu e subiu. Eu o acompanhei.
Saímos em uma rua estreita, alguns prédios não muito altos, residenciais.
-Tem idéia de onde estamos?
Zombeteiro, ele se virou.
-Morcegos voam não é mesmo? Vai se importar se eu me transformar em um e for dar uma olhada mais de cima?
Gritei de pavor. Eu era uma aberração... Morcegos... Lobos ou até corvos, eu poderia... Quem sabe um dia... O pensamento foi tomando todo o meu cérebro e meus olhos anuviaram-se. Era tristeza, decepção, nojo de saber no que eu havia me tornado... As lágrimas iam começar a brotar a qualquer momento, mas uma das mãos de Ichigo fora direto para o meu pulso.
-Não agüento mais escutar você lamentar-se. Devia me agradecer ao invés de chorar. E não faça alarde, podemos ser ouvidos.
-É... É verdade mesmo? Pode se transformar?
-Sim, sim, mas não quero estragar o seu prazer de me ver. – disse ríspido – Eu só estava brincando.
Por algum motivo ele não me fixava os olhos. Eu não entendia bem, mas acatei a bronca daquele desconhecido tentando entrar em estado de calma.
-Mestre... É assim que eu devo lhe chamar, Ichigo? – as palavras saiam da minha boca muito leves – Me desculpe. Você picou a pessoa errada. Eu não sou forte como essas mulheres sedutoras destes contos libidinosos...
Era mania, só podia ser mania. Era a enésima vez que ele não ouvia o que eu dizia.
-Está vendo aquele prédio ali? É para lá que vamos, é lá perto.
-Ichigo. Eu não vou mais chorar. Eu não sou o que você espera que eu seja, mas não vou mais me lamentar. – eu disse firme, retomando o que anteriormente dizia.
O ruivo me olhou e bufou antes de responder com a marra típica mostrada durante a nossa pouca convivência.
-Olha aqui... Não precisa ficar dando de boazinha também não, está bem? Você não percebe, mas tem potencial... Agora cala a boca e me segue, anã de jardim.
Exceto pela ofensa à minha baixa estatura, acatei o comentário de bom grado e o segui. Andamos devagar e silenciosos por entre as ruas habitadas somente pelos gatos esfomeados da noite.
-Agora é só atravessar essa rua e virar ali. – a voz dele era tranqüila.
Estar perto de um lugar para chamar de “abrigo”, provavelmente me abrandava.
O ruivo não me olhava, já andava alongando os braços e estralando os dedos, dizia alto para si mesmo que aqueles quilômetros tinham o deixado “ferrado”.
O último trecho fora muito curto, e logo estávamos de frente a uma casa escura no fim de uma rua torta.
O casarão era envolto por muros antigos de pedra e um portão de grades férricas pretas, altas e pontudas. Entramos por um caminho também de pedra gasta. Vi que eram três andares, um telhado quebrado em certos pontos, uma chaminé soltando fumaça, luzes avermelhadas saindo da janela dos quartos de cima, duas árvores secas e uma ainda viva servindo de morada para os morcegos que voavam rasante à nossa chegada. O jardim da frente era morto, como nós. O cenário era proposital. Ele provavelmente havia escolhido aquela casa por seu ar de assombro.
A porta de madeira rangeu, mais um passo e eu estaria, em teoria, totalmente protegida.
Assim que nos enclausuramos, velas acenderam e revelaram um lugar acolhedor.
A sala era pequena. Candelabros ladeando uma estante de madeira escura apinhada de livros muito empoeirados, um tapete que cobria todo o chão de um tom verde musgo debaixo de meus pés e o resto eram duas poltronas fofas disputando o pouco espaço que sobrava com uma mesinha de centro. No canto, um corredor.
-Esperava um castelo de pedra com um tapete vermelho e ambientação medieval? Sem essa.
Meu rosto revelou-se surpreso. Era exatamente o que eu pensava.
-E sim Rukia, eu tenho certa comunicação com a sua mente.
-Só uma pergunta... – se eu ainda estivesse viva, minha face teria se enrubescido pela idiotice do meu questionamento – Pra que uma lareira se você... Não sentimos frio, certo?
-Depende de você. Você não pode chorar? Ainda está muito humanizada. Chega uma hora que você fatalmente só sentirá desejo por sangue. Quanto a mim... Eu gosto da lareira, porque mesmo não podendo sentir os dedos trincando pelo frio lá fora eu gosto me lembrar de como é o fogo, de como ele dá a sensação de segurança, mesmo sendo ele uma arma letal para nos matar. Então, mais uma vez, depende de você.
Ele havia se virado para mim, era a primeira vez que eu via os olhos dele nos meus. Vermelhos. Não como no dia em que me salvou. Estavam mais brandos. Uma idéia me ocorria. Muitas idéias vieram, muitas dúvidas.
-Então, aquelas vozes... Era você? – perguntei séria me lembrando do que me motivava enquanto matava meu nii-sama.
Ele entrou pelo corredor, deixando o silêncio, confirmando minha dúvida.
Gritei de raiva.
-Me incitou a matar? ME FEZ MATAR MEU IRMÃO? VOCÊ VIU TUDO AQUILO? INCENTIVOU-ME? – a voz falhava, alternavam-se o volume e o meu estado, de enérgica para temerosa.
Ele voltava despreocupado com uma caixa de papelão nas mãos, colocando-o na mesa de centro.
-Por deus Ichigo... Me responda. – eu disse baixo, tentando me conter.
-Vai querer que eu te conte tudo, desde o começo, ou vai insistir em gritar comigo?
O ruivo encostou-se em uma poltrona e me olhou.
-Já que decidiu, sente-se então.
Ele mandava e desmandava em mim. Eu não podia lutar contra. Sentei-me de frente a ele tentando me amaciar para esperar a resposta. Ansiei para que ele abrisse a boca, mas não o fez. Ele permaneceu calado e rasgou a caixa que havia buscado por além do corredor enquanto eu ralhava.
Espantei-me. Era uma encomenda de sangue medicinal.
Eu sentia-me estranha... Um desejo instantâneo por aquilo que via ia me envolvendo.
Ichigo colocou delicadamente os dedos sobre um dos pacotes plásticos e o segurou. Meus olhos foram do rubro sob o transparente para os seus lábios, já o ruivo, não tirava seus orbes de mim enquanto os caninos lhe apontavam.
Eu não tive medo. Ele estava me testando, queria ver minha reação diante daquilo. Queria saber se eu iria me segurar, se eu rogaria pelo sangue.
Seus dentes perfuraram o plástico e ele bebeu calmo deixando todo o cheiro e o sabor invadirem o ar. Meu peito encheu-se de calor contrastando com minha pele gelada.
Eu não via, mas eu já estava de pé, sem controlar-me indo em direção a ele que permanecia calmamente sentado e me olhando. Eu estava em completa hipnose.
O sangue que ele bebia me chamava, eu não conseguia parar de olhar para a boca dele, um filete vermelho escorria pelo canto esquerdo, os dentes brancos e pontudos se sujavam e lambuzam com a língua, ele lambia o plástico, eu sentia aquilo na minha pele, ele me lambendo ao invés daquilo.
Seu ultimo gole veio seguido por um sorriso de satisfação.
Eu já estava sobre Ichigo lambendo o sangue que lhe caia da boca. Meu corpo ajeitado em seu colo, minhas mãos cravadas em seu pescoço, minha língua passava pelo seu queixo, chegando até os lábios e entrando em sua boca.
Era um beijo. Eu de olhos fechados. Ele de olhos abertos. Eu me revolvendo toda e balançando minha língua a procura de sangue. Ele inerte como um simples doador de comida.
De longe era de fato um beijo desajeitado, duas línguas unidas e duas pessoas próximas.
Mas nós sabíamos... Aquele ósculo era só a minha fome.
Resolvi abrir meus olhos. Nossos vermelhos se confrontaram.
“Você gosta disto?”
A voz parecia sair das duas esferas que estavam grudadas nas minhas. Ele estabelecia contato.
“Acorde”, eu me obriguei.
De súbito sai de cima de Ichigo e limpei a boca com as mãos.
Ele riu sem graça, me olhou e apontou a outra poltrona da sala.
Eu muito envergonhada e entendendo o que tinha acontecido, fui reclusa até meu lugar.
-Você quis o sangue, ou me quis? – ele fora bem direto.
-Eu... Assim, parando para pensar... Eu sinceramente eu não sei. – e eu fui bem sincera. – Não sei, eu, eu... Foi como meu irmão, eu o seduzi, eu o arranhei, o sangue... Veio o sangue e eu enlouqueci, mas foi mais, eu me descontrolei, eu estava fora de mim, eu não soube parar... Eu...
Ficava transtornada mais uma vez. Começava a captar a mensagem, compreendia... Finalmente conseguia apreender “o porquê” das vozes, o motivo de ele atentar enquanto eu estava sobre meu irmão.
Era fato, eu também quis. E de uma maneira ou outra, iria fazê-lo, iria tirar a vida de Byakuya.
Provavelmente Ichigo havia feito aquela cena comigo para que não precisasse usar palavras. Eu entenderia por mim mesma o significado de “sede por sangue”.
-Ainda me deve outras explicações. Por tudo... Desde o começo de preferência. Por favor.
A expressão dele de não decifrável foi para algo grave e sério, assim, pôs-se a falar.
Contou-me em detalhes o que aconteceu com o ser que me atacou no porão, e tudo sobre minha transformação. Era quase improvável que eu vivesse.
-E porque você me salvou?
-Não te salvei com intenção, já lhe disse. Eu não costumo morder as pessoas. Prefiro matar vampiros. Mas é que coincidentemente, no dia, eu estava faminto e você despertou meu desejo, eu saí do controle. Como o que aconteceu com seu irmão e você, por exemplo. Você ficou sem sangue por ter apagado naquele hotel, e quando o viu e sentiu o cheiro, não agüentou.
Algo tinha me intrigado.
-Você... Os mata? – a voz saiu falha.
-Sim, não trabalho pra ninguém se quer saber, e não vou estender este assunto. Não adianta insistir. Só escute bem o que eu vou lhe dizer... A partir de agora você pode deixar de existir por várias maneiras e pode perdurar através de várias outras... Beba sangue fresco, ultrapasse seus limites, tente se conhecer pra sobreviver. Se aceite, logicamente.
Ele pegou um dos pacotes de sangue medicinal e mandou para mim, o peguei com destreza no ar.
-Beba. Eu quero ver. Tente se lembrar do que sentiu quando me viu mordendo o plástico.
Senti uma nesga de vergonha pelo episódio citado, mas concentrei-me solta na tarefa. Sem vontade, usei as mãos para abrir o pacote.
-Use os dentes, idiota. Queira beber.
Fechei os olhos. Senti o gosto que ainda estava na minha boca.
Eu quis.
Meus dentes estavam pontudos, furavam o pacote. Eu podia sentir todo o fluido entrando dentro de mim.
-Não é tão difícil, viu? – ele me saudou – Continuando... Acho bom você saber como tudo pode acabar. Pode viver eternamente, mas tem que tomar cuidado. Você pode virar cinzas se sair ao sol, se for decapitada ou se lhe fincarem uma estaca no peito.
-Como nos filmes? – perguntei inocente.
-Não. Isso é o básico. Hoje há muitas novas técnicas para se matar um vampiro, ainda mais um fraco como você. Não é ofensa, mas quando mais velho maior a experiência. Você acabou de nascer.
-Quantos anos você tem Ichigo?
-Isso não vem ao caso.
-E o alho, essas coisas?
-Incomoda um pouco pra quem é novato, é só ficar longe disso. Na verdade não é o alho em si que faz mal, é a crença da pessoa que o usa. Isso vale para todo o resto dessas outras lendas.
-Eu não entendo porque isso foi me acontecer... Você fala de crenças e eu lhe digo que sou ligada a Igreja de muitas maneiras, não sou cristã de vitrine, eu realmente acredito e...
-Esqueça Deus e sua Igreja. – me interrompeu áspero – Agora, você é inimiga destas instituições. A fé é algo que te fere. Você é tão ruim que nem ao inferno pode descer. Escolha ficar viva.
-Como assim esqueça Deus? – apertei as unhas nas mãos ofendida com o comentário. Fechei os olhos. – Se eu vivi até agora e estou aqui, não foi Deus? O que te mandou até mim não foi Deus Ichigo?
-Você não está viva! Não entende? Vai matar pessoas, vai fazer coisas inescrupulosas e ser uma criatura da noite... Você não pode lutar contra isso. Você não tem mais ligação com Deus e essas coisas, nós sequer sabemos se Ele existe. Não se prenda a isso.
-Mas...
-Sem isso. Nem tente pensar em mais nada destas coisas. E não adianta suicidar, isso não funciona. E se parar pra pensar, você acabou de transar com seu irmão de sangue, só isso é suficiente para que você esqueça a Igreja. – riu.
-Você disse que me explicaria tudo, mas tudo o que faz é me deixar ainda mais confusa e com medo! – esbravejei de forma arbitrária e sem nexo, apenas pra não encarar a fala sobre Byakuya.
-Você não tem medo, você domina o medo. Você não teve medo ao matar aquela governanta, você teve?
Ele insistia no assunto que me ruía.
-Cale-se, você não sabe o que aconteceu! – eu gritei alto levantando da poltrona. Ele me olhava com indiferença.
-Eu sei. Eu presenciei tudo. Te segui para te buscar e te instruir, e vi que você já sabia bem o que fazer.
Senti um ódio momentâneo por ele. Toda aquela voz na minha mente, todo o medo que eu perdi quando ataquei meu nii-sama e Nana... Ele já havia feito com que eu entendesse, mas na verdade, eu não queria era aceitar que eu mesma havia tido participação naquilo.
-Eu não vou te perdoar por ter feito isto. Eu não pedi pra ser salva por você!
Os olhos vermelhos do ruivo entristeceram com meu comentário inútil. Ele ponderou um pouco antes de me responder baixando os orbes.
-É verdade. Você está certa. Não é de meu feitio salvar as pessoas. Mas é tudo vazio e solitário por aqui. – ele enrolava os cabelos alaranjados nos dedos finos cobertos de anéis – Acho que no momento eu só pensei em ter a companhia de alguém. – eu fiz menção em respondê-lo, mas ele me interrompeu – Siga o corredor e quando chegar à cozinha desça as escadas, feche a porta e durma no porão, lá não entra sol, você vai dormir como uma criança.
Vê-lo usar a palavra “criança” fez perceber que ali, só se encontrava um jovem provavelmente centenário, carente e a procura de alguém para ter cuidados e do outro lado uma garota tola e fraca, precisando de muitos.
Arrependi-me amargamente por ter encerrado nossa primeira interação com palavras cruéis e depois de ouvir as dele, nunca, nunca mais o culpei por nada que meu instinto assassino fizesse.
Ele era um homem triste.
Ichigo não era o culpado por meus infortúnios. Ichigo daquele momento em diante, era meu suntuário mestre.
Naquela manhã, quem soubesse que aquele garoto pálido, ruivo e de ar melancólico que andava pelo centro da cinzenta Londres, era um vampiro, iria se espantar. O jovem em questão era eu.
Definitivamente sair ao sol é algo que minha raça não pode se arriscar a fazer. Mas eu sou um pouco diferente. Posso andar sobre a luz do dia, posso comer, não tenho alergia a alho e água benta me faz coçar às vezes.
Seguir Rukia no dia anterior e ter visto aquele banquete com o pobre e morto Kuchiki tinha me deixado realmente excitado.
Quando acordei com os raios dourados sobre minha pele macilenta, já havia me decido. Eu iria deixar a casa de árvores secas e sair à procura de três bons jornais para comprar na banca próxima ao centro comercial do bairro, de lá, me transformaria e seguiria ao centro voando.
Eu queria saber cada detalhe do incêndio, precisava saber. Um “incompreendido” e “misterioso” em meio à matéria do periódico e eu teria de usar meus imaculados caninos. Não estava a fim de matar por matar. Nunca fui disso. Eu geralmente escolhia bem as minhas presas. Geralmente mesmo, não era regra, porque veja só Rukia, ela eu não escolhi, não mesmo.
Acho até engraçado. Quem diria que eu ia acabar salvando aquela baixinha do seu fatídico destino? Provavelmente haveria gente melhor para que eu encontrasse, mas o acaso me direcionou àquela garota. Era uma anãzinha, branquela, louca, tinha cara de criança, chorava e gritava a torto e direito e sem contar na paixão avassaladora que nutriu por anos pelo próprio irmão.
Eu não compreendi como ela podia se apaixonar por um cara morto daquele. Eu o chamo de defunto porque para mim, a expressão ensangüentada e esquálida que ele apresentava sem pulsação era a idêntica a de quando ainda vivia.
Por isso, ao sair de casa naquela manhã opulenta para aclarar o “pequeno” incêndio que eu mesmo havia causado por culpa daquela pirralha, eu não parava de pensar. Como é que pude me fazer mestre de alguém tão desequilibrado e estranho?
Passei pelo caminho de pedras ainda remoendo esta questão e dei uma última olhada para o casarão antes de trancar o portão.
Eu andava como se eu me alimentasse da luz. Não, nem tanto. Brincadeirinha. Suportar aquela claridade ordinária, não fazia de mim um entusiasta dos belos alvoreceres. Cobri-me como pude com um sobretudo preto, por baixo, meu conjunto favorito e jeans e camisa branca. Fazia um friozinho típico do horário.
Logo, logo, eu estava sentado no balcão de um confortável café junto de alguns conceituados jornais locais e nacionais em mãos. Da vidraça olhei para o céu que já se fechava e se tornava todo nebuloso.
-Aqui em Londres é sempre assim. As nuvens se condensam e a gente mal mal vê além. – um homem se aproximou – Você é estrangeiro, não?
-Tenho origem japonesa. Mas sempre passo temporadas na cidade. Já me acostumei com o clima mórbido daqui. – respondi com muita sinceridade.
-Então, você viu o que aconteceu ontem aos seus conterrâneos, não é? – o homem de meia idade sentou-se ao meu lado olhando para o embrulhado de papéis cinzentos no balcão – Pobre dos Kuchikis... Mas ao menos agora vou ver meu país ser coordenado por verdadeiros ingleses.
Xenofobia era comum por todo o Reino Unido, que não dava bem nem entre si. Mas pelo tom com ele havia falado... A família de Rukia não era muito bem vista por lá.
Senti um mínimo de pena da garota. Confesso que mesmo ela sendo inútil, havia criado certa afeição por sua pessoa.
Acho que era o desespero.
Os olhos dela umidificavam-se toda vez que estava em apuros, as mãos eram rasgadas pelas unhas e ela gritava muito. Isso era muito atraente. Os gritos dela eram muito, muito atraentes.
E ver assim alguém que não sabia o que realmente havia se passado na mansão no dia anterior tratando do assunto como politicagem e negócios, me entristeceu um pouco.
-Vou levar estes pro pessoal do trabalho– decidi me pronunciar depois das investidas de olhares do homem sobre a minha profunda curiosidade sobre a tragédia – acho que está todo mundo querendo saber o que aconteceu. Já me vou, bom dia para o senhor.
Eu já havia lido o suficiente.
A primeira página de todas as edições estava estampada com uma foto da família Kuchiki. Em suma, todos diziam praticamente o mesmo.
Fogo desconhecido que queimou toda a propriedade, morreram todos os empregados e os últimos dos Kuchikis. Uma parte da fortuna seria convertida em ações e a outra alimentaria crianças raquíticas em algum país subdesenvolvido qualquer como os da África ou da América do Sul.
Em um dos periódicos, também havia um apanhado geral da vida dos incestuosos. Ela era “brilhante” segundo o jornalista puxa saco, e ele, “compenetrado e empreendedor”. Nada disso os assegurou de escaparem de virar respectivamente uma vampira e jantar de vampira.
Sem mais no que me estender, transformei-me em um beco ocluso e escuro e voei até o centro, a minha segunda ação merecia atenção, não queria me perder.
-Bom dia, senhor – eu disse simpático assim que cheguei ao meu destino.
-Dia. O que deseja?
-Duas, por favor, classe econômica, para às dez da noite.
-Trinte e duas libras cada.
O dinheiro foi entregue ao atendente que me passou as passagens. As coloquei no bolso e segui andando. Havia mais algumas paradas. A próxima seria a imobiliária.
-Foi um prazer tê-lo naquela casa Sr. Kurosaki. Você pode nos dizer o motivo da saída?
-Dizem que é mal assombrada, monstros, vampiros, essas coisas. Eu não gosto disso. – fingi humanidade.
-Ah, cá entre nós... – o corretor disse mais baixo – Ninguém locava aquela casa há anos, achei que o senhor já sabia das histórias e era corajoso o suficiente para se instalar lá. Dizem que até conserva os móveis do antigo dono.
-É verdade. Os dois meses que passei naquele lugar foram felizes, mas depois que escutei a historia de um assassinato em que um homem bebeu o sangue do outro em taças de cristal eu desanimei seriamente. Não acredito nisso, mas não me agrada morar em lugar manchado de sangue. – o homem me olhava horrorizado – Tem planos para aquela casa?
-Demolição.
Era uma pena. Era um lugar muito agradável. Eu a tinha escolhido justamente pelo porão e pela bela decoração antiga. Mas tudo o que eu tocava parecia ter o mesmo destino. Destruição.
Resolvi mais alguns outros detalhes antecedentes à minha partida e voei direto para a casa de árvores secas. Entrei pela janela do quarto no terceiro andar, que propositalmente havia deixado aberta, e me transformei.
Faltavam duas horas para o poente. A casa estava silenciosa. Eu estava faminto. Desci até térreo e fui até a cozinha quase inutilizada. A porta do porão estava fechada, de certo minha pupila ainda não havia despertado de seu sono, e mesmo se tivesse, não podia se arriscar saindo de lá.
Liguei a TV velha que eu havia instalado na cozinha para passar o tempo e sintonizei um canal em que eu tinha certeza que às seis passaria um rápido programa de notícias. Rukia iria acordar neste horário e poderia assistir em minha companhia.
Enquanto não começava e uma novela adolescente me irritava os ouvidos, decidi acabar com a minha miséria.
A geladeira como sempre cheia de comidas apimentadas, chocolates e encomendas de sangue medicinal que eu articuladamente desviava de certos hospitais. Eu precisava de algo que me desse sustento, decidi saborear três pacotes de minha paixão rubra.
O sol ao poucos foi baixando. Esperava que ela se levantasse em instantes. Dito e feito.
-Ichigo... – uma voz fraca apareceu – Bom dia...
-Boa noite. – eu respondi sarcástico.
Ela ainda usava o casaco do dia anterior, tinha os cabelos bagunçados, estava descalça e com os olhos inchados. Provavelmente havia chorado muito antes de conseguir pegar no sono, se é que havia dormido.
-Ah sim. – ela olhou para o chão melancólica, respondendo ao meu comentário, ao olhar para fora e constatar que enegrecia.
Apontei-lhe uma cadeira e joguei um pacote do meu lanche para seu lado. Rukia olhou com nojo para o sangue, mas engoliu em seco e o abocanhou.
-Rukia, eu comprei alguns jornais na banca pra saber o que deu no incêndio. Vai passar um noticiário agora, devem falar alguma coisa.
A garota assentiu triste com a cabeça, sem me olhar.
A TV anunciou que eram seis e a chamada do noticiário era justamente acerca das últimas notícias da morte dos Kuchikis.
Enquanto não começava, Rukia dirigiu-se a mim.
-Ichigo... Você andou por aí de dia? Não é perigoso pra você? – perguntou fraca.
-Não se preocupe comigo. Deve se preocupar com você. Ontem se alimentou muito bem, mas isso não extingue o fato de que você ficou dois a três dias sem sangue.
De fato Rukia precisava de cuidados. O que mais me preocupava, não era seu corpo. Ela iria resistir muito bem, estava 70%. O que realmente deveria ser analisado era seu psicológico. Tudo ainda era muito novo para a jovem, e ela visivelmente estava muita confusa. Eu poderia ajudá-la com isto. Mas cabia a mim guiá-la. Descobrir-se, era com ela. Sinceramente eu não queria ficar bancando a babá e/ou conselheiro pessoal.
Achei até pertinente ela ter se preocupado comigo. De fato eu não estava nas minhas melhores condições. Expor-me ao sol me deixava mais fraco. Pensei em agradecer pela consideração, mas uma repórter esguia entrevistava um senhor alto e de barba branca aparada que dizia ter tido o ultimo contato com a mansão. Olhei para Rukia que me respondeu em seguida.
-É o Dr. Watson. Nós havíamos o chamado pra cuidar de mim.
Permanecemos calados para escutar o médico.
“A governanta, Nana, havia feito uma ligação dizendo que a menina Kuchiki estava mal, vomitando e pálida. Eu como médico da família vim o mais rápido que pude. Mas houve uma emergência no hospital, e me atrasei, quando cheguei tudo estava tomado pelo fogo, liguei imediatamente para as autoridades e para os bombeiros. É terrível pensar que gente como eles pudessem morrer de maneira tão trágica. Ainda não me conformo.”
-Nós vamos embora de Londres Rukia. – eu disse de súbito tentando adiantar tudo.
-Como assim? – ela me olhava espantada. – Como assim ir embora? Pra onde?
-Eu sei que você não gosta de Paris, mas não vamos poder visitar os campos na França. Eu tenho um trabalho importante por lá.
-Eu não posso ir! Eu não quero sair daqui! Você não pode me obrigar! – o desequilíbrio da jovem era previsível, já estava de pé se defendendo.
-Você é minha. E não tem opção. Se ficar, você morre. Ainda não tem astúcia pra caçar como se deve.
Rukia me olhou tomada de raiva e jogou a TV do armário fazendo-a explodir no chão.
-Não tente ser malvada, você não conseguiria. – eu respondi zombando sua atitude.
-Você não sabe do que eu sou capaz. – ela me respondeu duvidosa.
-Sim, eu sei. Você é capaz de dormir com seu irmão e matar sua governanta.
Um tapa atingiria meu rosto se eu fosse humano. Mas minha velocidade era superior a dela. Segurei seu pulso no ar e me levantei o apertando. Era uma garota muito temperamental.
-Nunca tente enfrentar seu mestre, garota. – intimidei.
A pequena deu um grito de raiva, socou a parede e caiu em prantos. Aquilo já estava ficando chato. No momento eu tentava entender o que acontecia. Eu sabia o que ela queria, e sabia o que ela sentia, estava mal.
-Diga Rukia, você tem um pedido, não tem?
Delicadamente, eu me aproximei e a puxei para mim a abraçando. Há muito eu não me relacionava com pessoas, imaginei que se cedesse um pouco com aquele gesto poderia confortá-la e parar com aquela choradeira irritante.
Eu estava certo.
Por ter ligação com os pensamentos da morena, eu já sabia o que ela iria me dizer há muito. No dia anterior, quando conversávamos na sala, ela dava pistas de que iria fazê-lo, mesmo sem mim.
-Quero ir ao meu velório, Ichigo. Eu sei que tudo virou cinzas, mas eu quero ir ao meu velório.
-Sim, eu notoriamente já sabia disto. Preparei tudo pra você poder ir. Será no salão de conferencias da sua empresa. É arriscado, mas nosso trem sai às dez. Temos tempo.
Separei-me de Rukia que estava visivelmente transtornada.
-Ichigo... Mas já?Achei que iam resolver isso de velório mais pra frente...
-O fogo com que eu amaldiçoei sua propriedade é destes que destroem sem deixar nada sólido, com velocidade e eficácia. Assim como fiz com a sua vida, Rukia. – os olhos dela me fitaram vívidos – Os bombeiros, a polícia... Eles não conseguiram descobrir o porquê deste incêndio. Não entenderam até agora porque o fogo surgiu, porque incinerou tudo, porque se alastrou e se apagou quase que por si só. Não sobrou nada. Eles o classificaram como misterioso. Não há como nem identificar os corpos.
-Entendo. Então essa é a qualidade do seu trabalho e a extensão do seu poder. – disse esclarecida – E Ichigo...
-O que foi?
-Você não destruiu a minha vida. Ela nunca de fato existiu.
N/A
Como ela vai se disfarçar ein? Já dei a dica no capítulo, que por sinal muito demorado e cheio de inutilidades. Mas eu precisava esclarecer certas coisinhas. O hentai dos dois vem por aí. Já deu pra ver que eles se ligaram de uma maneira muito forte, não é mesmo? Revisei os prólogos e o primeiro capítulo. Haviam erros gritantes sobre a história.
E ah, algo importante: Eu sei nada de vampiros, ok? Vou inventar um U. A. de acordo com o que eu precisar, e mala pra RPG, livro de não sei quê e patati, patatá, infelizmente não tenho tempo pra ficar pesquisando e nunca tive muito contato. Sorry.
É isso! Capítulo dois aí! Obrigada pelos reviews, acho que eu respondi todo mundo, se não, desculpa pela falta de organização, espero muito que gostem da fic (e se não gostarem aguardem o próximo, é só o segundo capítulo ainda! x_x)!