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Author of 40 Stories |
Disclaimer: Nana continua não sendo meu. Mas lembra do outro disclaimer? CAPÍTULO 78! HÁ!
N.a.: Eis que não resisti em fazer coleção mesmo, olha só! Takumi e Reira consomem meu coração, não posso evitar... As ficlets não são relacionadas em... bem, nada! 8D E elas tampouco têm título.
Eu disse: tão melancólica quanto.
Idiot wind, blowing every time you move your mouth,
Blowing down the backroads headin' south.
Idiot wind, blowing every time you move your teeth,
You're an idiot, babe.
It's a wonder that you still know how to breathe.
Idiot Wind - Bob Dylan
E por favor não deixe a porta aberta
II
Ele não se recorda como nem porque começara a fumar, a princípio. Provavelmente fora uma questão de rebeldia, o mesmo impulso de auto-afirmação que o levara a destroçar janelas. Sentia-se tão adulto por dentro que precisava de alguma coisa que o fizesse sentir-se adulto por fora, naquela imagem de jovenzinho magrelo que encarava todo dia no espelho.
Fumar lhe dera a desculpa de matar aula, sentado na cobertura do colégio. Às vezes sozinho, às vezes com alguém que lhe prestasse um favor ou dois, ajoelhada entre suas pernas. Takumi não se importava muito se o rosto de hoje fosse o mesmo de amanhã ou não.
Foi com certa surpresa que descobriu que andaram espalhando seus momentos de reflexão, rebeldia e festa particular a ouvidos que não deveriam escutar sobre isso. A dona deles apareceu, certo dia, no seu santuário recém-formado, com aquele exagero de cachos perdendo controle contra o vento. Takumi praguejou rápido, antes que ela pudesse ouvir.
Aquele não era lugar para Reira. Aquele era um lugar para vícios ruins de sua vida e alívio rápido de suas tensões, não para a presença dela. Não era de seu gosto misturar o que valia a pena com o que não fazia diferença, e Takumi acreditava que ela era a melhor coisa que cultivara no mundo.
“Os boatos são verdade, então...” Reira comentou, brigando contra o vento que, além de seus cabelos, parecia muito inclinado a levar também sua saia. “Você passa o dia aqui, se achando o último imperador do Japão”.
Takumi suspirou, abaixando a cabeça entre os joelhos dobrados e abertos, sem acompanhar com os olhos a aproximação de Reira até que ela sentasse a seu lado. “As aulas são inúteis”. Resmungou, enfim. “Estou compondo músicas novas”.
E não era mentira. Ele compunha, às vezes, melodia e letra de cabeça, e chegava a riscar algumas no cimento com um pedaço de cano quebrado enquanto escutava antecipadamente o efeito que teriam na voz de Reira.
Ela não objetou sua afirmação. Acompanhou silenciosamente, ao invés, o movimento do cigarro na mão de Takumi, que erguia-se até pô-lo de encontro aos lábios.
A voz da curiosidade de Reira falou mais alto, segundos depois:
“Deixa eu tentar também”.
Takumi encarou-a de soslaio, franzindo as sobrancelhas.
“Tentar o quê?”
“Isso”. Ela apontou para o cigarro pendido entre os dedos dele. “Você fica tanto tempo aqui em cima por causa dessa coisa, deve haver algo de muito bom nisso”.
Takumi jogou o cigarro no chão de imediato, usando a sola do sapato para apagá-lo. Havia um bom tempo que ela começara a agir em espelho de suas ações. A mesma escola, o mesmo grupo de amigos. Sua influência estragara já muita coisa nela, ele não estava disposto a permitir mais um deslize.
“Isso faz mal”. Sentenciou, enfim. Reira fez uma careta indignada, mas ele continuou antes que ela pudesse vocalizar sua reclamação. “Para a sua voz. Como você vai cantar se estragar todo o seu pulmão com cigarro?”
Ela se retraiu. Sempre se calava quando o assunto era relacionado à própria voz. Reira sabia a importância que isso tinha para Takumi, tão grande ou talvez maior do que para ela mesma. Tão grande ou talvez maior do que ela mesma.
“Claro. Porque não teria problemas um compositor morrer de câncer”. Retrucou, após o instante de silêncio, revirando os olhos com sarcasmo.
Takumi suspirou, buscando o maço de dentro do bolso de sua calça e acendendo um cigarro novo, sabendo que ela não se atreveria a pedir para experimentar de novo. Deu um sorriso com o canto dos lábios, aquele que lhe garantia as companhias na cobertura do colégio durante os tempos de aula, ajeitando um dos cachos que fazia curva no alto da cabeça de Reira como um redemoinho.
“Eu posso morrer de qualquer coisa, contanto que você viva até lá”.
Ela corou, embora não fosse a intenção dele levá-la a tanto, encarando-o de olhos um pouco arregalados, sem saber o que dizer direito. Então ela decidiu por sorrir em resposta, ainda avermelhada como se debaixo do sol, e Takumi esperava que isso viesse mais de educação do que de sentimento.
“Odeio essa sua capacidade de fazer temas trágicos parecerem bonitos”. Reira disse, após o sorriso ter se apagado quase por completo, restando apenas uma sombra insistente de encantamento.
Takumi odiava também. Provavelmente menos do que ela, porque, apesar de tudo, havia sido essa capacidade que o levara até onde estava na vida – matando aula na cobertura, fumando e escrevendo músicas – e que o carregaria para sempre.
Era essa capacidade que o faria compor para ela até o último dia que lhe permitiria seu câncer de pulmão, e que o lembraria dessa conversa vez após vez, a cada dia agora que voltasse a subir ali, assombrado pelos cachos e sorrisos e rostos corados.
Mas Takumi a odiava, então, porque era essa a capacidade que o fazia, acima de tudo, sorrir de volta e ignorar que estava alimentando pouco a pouco algo que jamais poderia retribuir nem em pequenos pedaços.
O detalhe principal de fazer temas trágicos parecerem bonitos, Takumi sabia, era que parecerem não era sinônimo de tornarem-se.
N.a.: Depois dessa ficlet eu cheguei à conclusão de que essa coleção é mais para mim do que outra coisa. lol