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EXCENTRICIDADE
AUTOR: EMPTYSPACES11
DATA: JULHO DE 2008
NOTA1: Os personagens de Sobrenatural não me pertencem. Sou apenas uma fã que gosta de brincar com as inúmeras possibilidades que se apresentam na relação dos mesmos. Meus textos não têm fins lucrativos.
NOTA2: Os personagens criados para desenvolver a trama são de minha autoria. Os nomes, bem como suas características físicas e psicológicas, são fictícios. Se houver qualquer semelhança com qualquer pessoa, é mera coincidência.
NOTA3: Os lugares descritos nas histórias não existem e se, houver qualquer semelhança, considere mera coincidência.
ADVERTÊNCIA: O conteúdo dessas histórias é adulto. Estão advertidos, portanto, os leitores.
RESUMO: Sam e Dean têm um trabalho fácil pela frente. Fácil? Bem, nem sempre o que parece simples é realmente rápida solução. Especialmente se Dean Winchester resolve que não está de muito bom-humor. Terror/Humor/Aventura.
EXCENTRICIDADE
CAPÍTULO 6
Sam escutou o barulho no primeiro piso. Estava acontecendo algo. Escutou gritos. Alguém gritou ‘fogo’. Olhou pela janela. Os guardas de fora corriam para dentro. Tinha fumaça vindo do outro lado da mansão. Não parecia ser de dentro da mansão, mas de um lugar mais próximo. Se fosse um incêndio na mansão, provavelmente a fumaça estaria por todos os cantos.
“Dean,” foi o primeiro nome que seu cérebro lembrou. O primeiro e o único. Se aquilo era fogo, podia apostar que Dean estava metido. Se houvesse algum incêndio naquela casa enorme, ele se chamaria Dean Winchester. Não acreditava que seu irmão ficaria muito tempo sem agir. Não era próprio dele. Sam o conhecia tão bem que, às vezes, pensava que o conhecia melhor do que conhecia a si mesmo.
— Dean, se você é o causador disso, então é a chance que tenho para sair, certo? – resmungou baixinho procurando por algo para abrir a porta. Não encontrou nada nas gavetas que pudesse utilizar, mas nos armários encontrou cabides. Aquilo deveria resolver.
Verificou se os guardas estavam vigiando aquele quarto. Não havia som algum. Aquele incêndio devia ter sido coisa grande para todos correrem. Trabalhou durante alguns minutos na fechadura e a porta abriu.
Precisava então, encontrar Dean. Aquela mansão era realmente grande. Mas encontraria um jeito de achar seu irmão. Verificou o corredor com atenção, trancou a porta do mesmo jeito que a abriu, para que ninguém desconfiasse de sua fuga, e desceu as escadas. Confuso e preocupado, parou no hall. Tinha cheiro de fumaça naquele andar. Não tinha certeza, mas sairia pelos fundos. Então, correu em direção à cozinha. Ao menos aquele corredor parecia dar na cozinha, pois olhando de longe, o branco do piso chamava a atenção.
“Cozinha... Comida...”, pensou. Dean devia estar faminto a essa altura do campeonato. Sorriu da lembrança da última vez que Dean ficara sem comer por muito tempo. O humor do irmão tinha sido algo inesquecível. Muito mais preocupante do que o sobrenatural. Lembrava do estrago que Dean tinha feito na parte superior da casa quando ele, Sam, o tinha libertado. Dean havia ficado preso por mais de doze horas dentro de um armário por cortesia de um espírito. Tinha tentado de tudo para sair, mas o espírito tinha persistido em permanecer no lugar. Quando abrira a porta, a expressão do rosto de Dean era de loucura. Seu irmão estava possesso. Dean arrebentou a cadeira como se fosse nada. Levou vinte e quatro horas para que seu irmão falasse coerentemente, sem soltar um palavrão sequer. E mais vinte e quatro horas para que retornasse ao normal.
Sam também estava preocupado com todo aquele ritual. Aqueles deuses que a filha de Carringthon estava invocando eram divindades terríveis. Tudo poderia reverter contra os que estivessem naquele lugar. E ele não queria ser pego no meio daquelas forças. Além disso, tinham entidades demoníacas no meio. Aquilo não terminaria bem. Definitivamente. Precisava encontrar seu irmão.
Alguma coisa o fez parar antes de atravessar a porta dos fundos. Não tinha certeza, mas algo dizia para retornar. Era o cheiro de fumaça. E assim, deu meia volta. Retornou ao corredor, entre o hall de entrada e a cozinha. Havia outras portas ali, mas uma em especial, aberta, tinha passado despercebida. Era isso. A passagem para o porão e, de repente, para a cripta. Era o caminho até seu irmão. A cripta estava embaixo de seus pés, ou pelo menos há algumas centenas de passadas longe dele, mas abaixo de seus pés. Precisava certificar-se de que Dean estava bem, se estivesse lá embaixo. Precisava retornar à cripta. Aquilo era um labirinto, mas não tinha outro jeito.
Desceu as escadas com cuidado. Os sons vinham de mais adiante. E o cheiro da fumaça era mais intenso. “O que será que isso significa?” pensava enquanto percorria o enorme espaço vazio, cheio de colunas, daquele porão escuro e frio.
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Ratos eram animaizinhos horrendos. Era o que a natureza fez como resto. Assim pensava quando os via. Desde sempre eles o tinham apavorado. Controlava-se, porque era um homem. E um caçador. Mas os arrepios estavam sempre presentes. A idéia de que os ratos podiam comer carne humana era a idéia central de seu medo. Tudo, menos ratos. Aranhas, cobras... Mas não, ratos. Porque ao longe de sua vida de caçador, seu o pai o tinha conduzido por lugares obscuros, escuros, sujos, claustrofóbicos. Seu pai tinha mostrado além do sobrenatural, lugares cuja sensação dava-lhe nos nervos.
Quando ouviu que os sons concentravam-se na sala onde estava Carrighton, tratou de ficar o mais silencioso possível naquele recanto de porão. Se seu irmãozinho estava lá em cima, com certeza estava preso e sem saída. Precisava não ser precipitado. Precisava pensar.
“Sortudo, né?”, pensou, “deve estar sendo bem tratado. Engordando para o sacrifício...”, continuava a perder-se em pensamentos.
“E se eles o tivessem preso em outro lugar que não aquela mansão? E se ele estivesse lá embaixo, ainda, em algum lugar do porão que ele não encontrou ou não verificou? E se o tivessem levado para algum lugar diferente? E se ele não estivesse bem? E se estivesse inconsciente ou drogado?”, seus pensamentos em Sam aumentavam a cada segundo.
Muitas perguntas. Precisava encontrar um jeito de verificar toda aquela casa. Se o tivessem feito prisioneiro, era provável que usassem os quartos.
“Sammy... Queria que estivesse aqui, agora”, foi o que passou por sua cabeça quando o vulto entrou no cubículo e se encolheu bem a sua frente. O susto só não foi maior porque se reconheceram mutuamente.
— Dean! – sussurrou ao ver o irmão ali, sentado, encolhido e com uma arma apontada em sua direção – O que...?
— Quer me matar de susto? – respirou, tomando fôlego – Eu pus fogo em Carrrighton – sua voz era também baixinha e cuidadosa – Incinerei o cara – meneou a cabeça e sorriu maroto. Era inacreditável o prazer que estava contido naquele olhar.
Sam baixou a sua cabeça e balançou-a. Era incrível o que Dean conseguia realizar. Não entendia muito bem o processo de construção dentro daquela cabeça cheia de raciocínio Deaneano. Provavelmente, renderia alguma tese universitária aquela massa cinzenta, cheia de contrariedades, cheia de idéias escabrosas, cheia de uma dinâmica diferente das cabeças comuns... Sorriu e olhou para seu irmão outra vez.
— Como fez isso? – então pensou mais rapidamente – Não! Não me conte. Depois você vai ter tempo para relatar seus feitos – levantou-se e acocorou-se próximo de Dean – Não podemos dar o fora daqui – soltou as palavras sabendo que a explicação deveria ser muito boa.
— O quê? Está maluco, Sammy? Temos que cair fora, maninho – por que ele não entendia a urgência em fugir daquela propriedade? O que estava querendo? Ser preso outra vez? Dean o olhava como se não o reconhecesse como capaz e inteligente. Seu irmão menor sempre arranjava um jeito de complicar tudo.
— Não! Algumas daquelas divindades utilizam sangue humano para os sacrifícios. Outras precisam de objetos específicos. Precisamos nos certificar de que não há mais resquício de Carringhton nesse lugar e de destruir tudo o que estiver compondo o altar.
Dean acreditava em Sam, sempre que a pesquisa exigia um pouco mais de conhecimento e detalhe. Sam conseguia esmiuçar tudo. Dean seguia atentamente tudo o que o mais novo dizia, mas nessa situação, em meio a toda aquela gente...
— Nem pensar! Não vou ficar aqui dentro nem mais um minuto. Nós vamos dar o fora daqui – passou para Sam sua mochila.
— Dean! – era de estranhar. Seu irmão não era de deixar o serviço incompleto – O que está dizendo! Vamos deixar o serviço incompleto?
— Olha só, maninho. Essa gente está em maior número. Não reparou? Nós ainda temos tempo para agir. Não existe uma forma de sairmos sem sermos vistos. Eu...
— Você está cheirando mal... – olhou com estranheza para o mais velho. Depois que tinha se aproximado também pode ver que suas roupas estavam sujas e rasgadas. Olhou para o rosto de Dean e viu manchas de... Lama?
— Não abra mais a boca – resmungou zangado – Eu tive que sair pela única saída que encontrei: o esgoto. Tive que andar uma eternidade cheirando o que não queria, molhado até os ossos. Eu rasguei minha roupa, tenho o corpo dolorido e estou com fome – olhou para seu irmão buscando conforto, mas Sammy era mesmo um osso duro de roer – Cai do esgoto para o rio e acho que tenho costelas trincadas.
— Saiu mesmo pelo esgoto? – a história mais nojenta que poderia ter se passado com Dean. Aquele cheiro era mesmo insuportável.
— Vamos dar o fora daqui. Agora! – olhou sério para Sam. Estava perdendo a paciência com o irmão.
— Não! Tem que me escutar. Nós temos somente até depois de amanhã, Dean. Como quer agir? Quer fazer o quê? Voltar depois? E encontrar quem? Porque, Dean... Eles não vão ficar aqui depois de hoje, se não nos encontrarem. Eles vão buscar outra pessoa para tomar meu lugar – Sam tinha razão. Dean sabia, mas era tão perigoso ficar que a balança pendia sempre para o lado da fuga.
— Nós vamos dar o fora daqui e vamos voltar para desmantelar essa ‘quadrilha maluca’ chefiada por essa ‘Penélope-nada-charmosa’.
— Não! Nós precisamos destruir o altar, os objetos do ritual e dar fim no sangue. Temos que fazer isso logo. Temos que fazer isso antes e não dar tempo para que os reponham. Acredite. Se aquelas são as divindades do ritual, queimar o corpo de Carringhton não foi e nem será o suficiente. Ele deve ter deixado bem especificado de que seu sangue deveria ser retirado de seu corpo antes de esfriar.
— Ta de brincadeira, né? – depois, vendo que Sam o olhava firme – O que quer fazer? Dinamitar tudo? Nós não temos munição para isso. Não temos muita coisa nessas mochilas.
— Bem... Você já incendiou, Nero. O que seria explodir, depois de incendiar? – Dean arregalou os olhos. Seu irmão não estava ‘batendo bem’ da cabeça – O que foi? Por que está me olhando desse jeito?
— Está maluco?! Onde vamos encontrar explosivos? – Dean passou para Sam a arma que tinha retirado do homem da entrada da cripta.
— Você não prestou muita atenção às aulas de química, não é?
O mais velho dos irmãos estreitou o olhar. Aquilo era para se preocupar. Seu irmãozinho tinha conhecimentos para fazer uma bomba caseira? Desde quando? Não era ele, o cara perigoso da dupla? Não era ele, quem conhecia tudo aquilo? Não lembrava de tê-lo ensinado a fazer aquilo. Aquilo era mesmo preocupante.
— Precisamos de algumas coisas da cozinha e alguns produtos de limpeza. Vamos distraí-los, lá fora. Um de nós atrairá a atenção deles e o outro procura o sangue e destrói o altar.
Estavam sussurrando.
— Como vamos fazer isso!? Pirou de vez, certo? A cozinha fica em cima. Estamos na metade da tarde. Eu estou esgotado. Quer arriscar ser preso outra vez? Não vamos fazer coisa alguma, disso. Nós vamos dar o fora e depois voltamos para arrasar.
— Dean... É nossa única chance. Acredite. Precisamos encontrar o sangue do homem. O sangue é o elo para que o ritual aconteça.
As vozes tinham sumido. Por um instante o silêncio se tornou insuportável.
— Droga! – meneou a cabeça e resmungou – Por que tudo tem que ser tão difícil com você?
— Olha só... Eu vou subir, e distraí-los. E você, fica aqui em baixo. Procura o recipiente com o sangue na sala do altar. É lá que deve estar. Deve ser uma urna ou algo parecido, porque, segundo o que me lembro, o sangue deve ser espalhado pelo corpo de quem vai receber o espírito do outro, juntamente com os poderes das divindades.
— Você está brincando? Nem pensar! Não vai subir porcaria nenhuma – suspirou resignado – Eu subo e distraio todos eles. Você fica aqui em baixo e encontra a urna ou o que quer que contenha o sangue. Eu não consegui sair pela cripta. Girei aquelas pedras, mas a coisa não subiu. Não pode sair por lá. Vou esperar você lá em cima, fora da casa.
— Certo. Vamos marcar vinte minutos. Acha que dá tempo? – Sam olhou para Dean procurando afirmação.
— Você tem mais pernas que eu. Provavelmente consiga correr mais do que eu. Então, acho que vinte minutos é o suficiente – afastou-se e, num rompante voltou-se outra vez – Sam... Vinte minutos são vinte minutos. Se você não sair em vinte minutos eu vou direto para o Impala – olhou para Sam, com medo – Não vou entrar outra vez nessa casa.
— Tudo bem, Dean. Vinte minutos – deu as costas e seguiu para a entrada do cubículo.
— Sam... – chamou-o outra vez. Esperou que ele o olhasse – Vinte minutos e eu corro para o Impala.
— Eu já disse que sim! Se eu não sair em tempo, dou um jeito de me esconder e sair depois. Tudo bem?
Dean ficou em silêncio para entender o que seu irmão menor estava dizendo.
— Dean? – Sam queria ter certeza – Você entendeu? Você corre para o Impala e me aguarda lá. Vai dar tudo certo – Dean ainda o olhava – Dean?
— Certo. Tudo bem.
O porão estava parecendo um túmulo enorme, vazio, frio e silencioso.
Os irmãos saíram muito devagar de onde estavam. A confusão parecia ser em cima, na grande casa. Era de lá que ouviam as vozes. Era provável que estivessem procurando Sam, desta vez.
Os dois separaram-se e seguiram, cada um para um lado. Sam seguiu rumo ao corredor que dava para a cripta e Dean para as escadas que davam para a mansão. Tinham que fazer tudo acontecer muito rapidamente. Jamais tinha feito um serviço desses com o sol alto. Era a primeira vez que, realmente, estavam agindo à luz do dia. Mas o que tinha que ser feito, seria feito. Olharam-se pela última vez. Não disseram nada. Era o olhar de ‘tome cuidado’. Faziam isso há tanto tempo que já não mais precisavam falar.
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O corredor já tinha sido trilhado antes por ele, quando aqueles homens o tinham arrastado para cima. Sam sentiu um frio no estômago quando penetrou na galeria. Era aquela sensação de estar sozinho que lhe dava nos nervos. Sua percepção tornava-se mais aguçada, apesar de saber que não havia mais ninguém por ali. Não se ouvia som algum. Nem mesmo o seu respirar era barulhento. Foi seguindo, lembrando das imagens das estátuas. Precisava mesmo apenas destruir o sangue; torná-lo inaproveitável. O ritual jamais se realizaria se isso acontecesse. Duvidava muito que a filha de Carringhton relacionaria sua fuga com a necessidade de destruir o sangue. Acreditava que isso não teria passado por sua cabeça. Mas estava receoso por Dean. O que faria lá, em cima, só mesmo Deus saberia. Seu irmão era muito inclinado a causar barulho e problemas. Mas eles eram muitos, mesmo. Estava contando com a sorte de Dean não encontrar ninguém pela frente, sair e esconder-se até ele mesmo sair daquele lugar arrepiante.
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Dean subiu as escadas com cuidado. O corredor que ligava a cozinha com o hall estava vazio. Tudo, naquele andar, parecia estar em silêncio. Então, caminhou em direção à porta dos fundos, pela cozinha. Sairia de fininho e esperaria por Sam escondido entre as árvores. Já tinha passado por tantas que achava de direito não se esforçar muito nessa questão toda. Sam, com certeza, seria mais rápido que ele. Acharia logo o sangue, desmontaria o altar e correria para fora. Assim que o visse, fariam o que todas as pessoas em seu juízo normal fariam: dariam o fora dali muito mais do que depressa. Eles ainda tinham que alcançar o Impala. Não podiam esperar.
Ao colocar o pé para fora da porta, porém, surpreendeu-se com um dos guardas, bem na sua frente. O homem, por sua vez, também reagiu surpreso. Mas Dean foi mais rápido. Nocauteou o sujeito e o carregou para dentro da cozinha. Arrastou-o para uma porta. Era uma espécie de despensa. Juntou suas pernas e mãos com uma das toalhas que encontrou e amordaçou-lhe a boca. Fechou a porta e saiu novamente. Quantos, afinal, tinham por lá? Quantos homens esperando por aquele ritual? Eram todos malucos. Eram todos insanos.
Atravessou a cozinha mais uma vez e olhou para o relógio. Cinco minutos tinham se passado.
— Droga! – entre os dentes, aquela palavra parecia mais um som sem compreensão.
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No porão, já perto da sala do altar, Sam verificou o estrago do fogo. O cheiro da fumaça ainda estava lá, impregnando tudo. O cheiro era insuportável. Dean tinha queimado um corpo! As portas escancaradas deixavam tudo à mostra. O ataúde, os restos mortais do que tinha sido Carringhton, alguns objetos quebrados... O furacão Dean e seu jeito inesquecível de agir.
Chegando até onde o altar se situava, Sam olhou para o relógio. Tinham se passado oito minutos. Observou atentamente o altar e não parecia ter compartimento algum, ali, onde uma urna ou jarro ou qualquer vasilha pudesse ser depositada. Mas estava certo de que o sangue estava em algum lugar daquele recinto. Olhou atentamente para a composição do lugar. Doze bancos de pedra, redondos. As estátuas que estavam ao redor lembravam, todas, deuses pagãos e demônios. O altar estava bem à frente delas. Como guardar uma urna?
Mas, então, Sam olhou para a estátua do lado oposto do altar. Era uma deusa que carregava algo em seu ventre. Sam suspirou aliviado. Ao se aproximar da estátua observou que seu ventre era uma espécie de nicho fechado, de vidro. A urna estava lá, bem dentro da estátua à sua frente. Não esperou muito. Retirou sua jaqueta e enrolou-a no braço. Depois, bateu com força na parede transparente. Foram precisos vários golpes para quebrá-la.
A urna era feita de bronze. Tinha uma tampa lacrada. Sam puxou da mochila um pequeno pé-de-cabra e arrebentou o cadeado. O sangue estava todo lá, vermelho escuro, quase negro. Erguendo o objeto, pensou seriamente em levá-lo para fora e jogá-lo no rio que Dean disse existir, mas depois lembrou que deveria ser mais objetivo. Lembrou também que Dean tinha lhe dito que não havia possibilidade de sair pela cripta. Isso o incomodava: ter que voltar. Olhou para o relógio. Já tinha se passado mais de doze minutos. Restava pouco tempo. Iniciou seu caminho rumo ao porão.
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No alto, do lado de fora, Dean escondeu-se entre as árvores. Ficou entre os fundos e a frente. Assim, veria por onde Sam sairia. Não tinha noção do que fazer naquele momento além de esperar. Mas foi quando sentiu o cano de uma arma em sua nuca. Ergueu as mãos. Não queria ser baleado por qualquer movimento mal interpretado.
— Vai levantando, garoto – o sujeito falava grosso – Onde está seu irmão?
Dean virou-se lentamente e encarou o homem. Não era muito jovem, mas parecia experiente. E totalmente disposto a lhe por outra vez naquela cela nojenta. O pensamento de voltar àquele lugar fez a água salgada subir até a garganta. De jeito algum ele voltaria para aquele lugar. De jeito algum ele faria isso.
— Vai andando, espertinho – fez sinal com a cabeça. Outros dois sujeitos, avistando-os da lateral mais afastada da casa gritaram em sua direção – É o mais velho! – o sujeito respondeu – O que vai morrer, assim que nosso chefe retornar – sorriu cinicamente para Dean.
O mais velho dos Winchester olhou de soslaio para o pulso... Dezessete minutos. Dezessete malditos e loucos minutos. E nada de Sam. Virou-se, obedecendo o mando do sujeito. Deu alguns passos para fora das árvores.
— Olha, cara... Me deixa ir. Não tenho nada contra você. Sério – começou seu discurso tentando prolongar o caminho até a casa.
— Poupe suas palavras – o sujeito o empurrou com a arma – E por que está fedendo desse jeito? De onde veio, afinal – caminhava próximo, em direção dos outros dois que se aproximavam também.
Aquilo deu nos nervos de Dean. Tinha sido preso, tinha arrancado a pele dos dedos para levantar aquela pedra, tinha mergulhado no esgoto, tinha os joelhos esfolados, tinha rasgado as roupas, tinha batido a cabeça e caído no rio, machucando as costelas. O que ele queria?
— E então? Não vai responder? – o sujeito o empurrou mais uma vez. Olhou para o relógio. Sam já devia ter subido. Vinte e um minutos. Onde estava Sam? – Está fedendo.
Além disso, Dean lembrou que estava com fome. E com sede. E que não tinha dormido. E que estava puto. Estava mesmo muito avesso. E quando o sujeito o empurrou com a arma mais uma vez, num golpe rápido, voltou-se e arrancou de suas mãos a arma, batendo com força em seu queixo com a madeira da mesma. O sujeito deu para trás, enquanto que os outros partiram para cima dele, agarrando-o.
Mas Dean era bom de briga. E estava puto. Aquele era o fator decisivo. Era o fator que diferenciava Dean normal, de Dean totalmente fora de controle. Estava puto com tudo o que tinha passado. E não deu outra. Apoiou-se no que o prendia atrás para atingir com os pés o que estava à frente, jogando-o no chão. Depois, apoiou-se em seus pés e inclinou-se para a frente, carregando para a frente, também, o sujeito de trás. Golpeou-o no queixo e no estômago, e novamente no queixo. O que estava no chão, refazendo-se do golpe, correu em sua direção e jogou-se com tudo para cima de Dean. Ambos caíram. Dean bateu a lateral da face no chão. Por um segundo ficou atordoado. O sujeito ainda estava grudado nele. Rolou pelo chão com o homem. Sentiu-se apoiado e ergueu-se, erguendo junto com ele o guarda. Foi quando viu que o sujeito que tinha caído, puxava a arma e apontava-a em sua direção. Tentou puxar o guarda para servir de escudo, mas não deu certo. O sujeito disparou três vezes. A bala o atingiu de raspão, derrubando-o. Mas para sua sorte, um dos projéteis atingiu o segurança que estava do seu lado, tentando agarrá-lo outra vez.
O homem tombou feito madeira e o sujeito que havia disparado a arma, entre surpresa e desespero, levantou-se para socorrer o companheiro. Dean aproveitou o momento, como sempre e partiu para cima do sujeito. Mesmo sentindo dor e meio tonto, derrubou o homem com um pontapé certeiro. Não tinha mais para onde fugir. Outros dois homens armados apontavam no final da casa, pelo lado de fora. Fez a única coisa plausível. Correu para dentro.
Onde estava Sam? Estava ofegante. Onde tinha se metido seu irmão? Parou para respirar um segundo. Voltaria para o porão. Precisava ter certeza de que Sam tinha destruído o sangue.
Desceu atordoado as escadas. Percorreu a distância toda do porão ouvindo os gritos dos seguranças na parte superior. Estavam a sua procura. Entrou na galeria.
— Saaam!!! – gritou o nome do irmão.
Em vão. Sam não estava lá. E quando chegou perto de onde deveria estar a sala do altar, apenas um espaço vazio preenchia o lugar. A sala tinha subido. Encostou-se na parede. Respirou. Precisava pensar. Mas pensar de barriga vazia, cheio de dor, cansado...
— De volta para o buraco, Dean – resmungou entre os dentes. Não tinha escolha. Tinha que fugir pelo lugar mais imediato – Merda! – correu até o lugar onde tinha sido sua cela. Entrou. Tinham retirado a pedra do lugar. O buraco estava aberto. Era obvio que eles já tinham descoberto por onde tinha fugido. Mas o que poderia fazer. Teria que arriscar outra vez. E desceu.
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Sam abriu a urna que continha o sangue de Carringhton e despejou o conteúdo no pequeno córrego. Era provável que aquele fosse o rio do qual seu irmão tinha falado. Esperou por alguns minutos até que certificar-se de que aquele sangue era mesmo real e estava sendo levado pelas águas mansas. Depois, rapidamente, tratou de correr. Correu muito e tudo o que pode até avistar a coisa mais preciosa daquela aventura: o carro que os levaria para longe daquele lugar.
Sentou-se no banco do motorista do Impala. Estava ansioso. Por que Dean não aparecia? Porque não chegava logo? Onde estava, afinal? Ele sabia que, se terminassem os vinte minutos, deveria correr de lá. Seu irmão lhe dava nos nervos de vez em quando.
Tinha se passado apenas cinco minutos, depois da contagem. Tinha feito sua saída o mais rápido possível e percorrido a distância até o Impala em tempo recorde. Dean não deveria estar tão atrasado. Apertou suas mãos contra o volante e deixou sua cabeça cair por sobre elas. Estava cansado. Estava exausto. Queria um bom banho. Queria dormir. Deitar a cabeça no travesseiro e não pensar em mais nada.
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Dean parecia estar revivendo seu pior pesadelo.
Quando seus pés tocaram o chão abaixo outra vez, e aquele mesmo frio de antes invadiu suas botinas, um novo arrepio percorreu sua espinha. A escuridão continuava a mesma, apesar de que aquele caminho já não era desconhecido.
— Vida longa e próspera – resmungou entre os dentes enquanto colocava suas mãos no piso frio e úmido – Pra mim e para mais ninguém... – completou ajoelhando-se – Porque essa coisa de viajar pelo esgoto não é só viajar para o desconhecido.
O cheiro invadiu seu nariz outra vez. Suas mãos sentiram um pouco melhor o lodo que estava por toda a parte. O braço ferido estava doendo. Não queria pensar se era de raspão ou se a bala estava ali, esperando para lhe provocar uma infecção. E seu estômago não aguentou. Numa ânsia, numa única náusea, o líquido que estava em seu estômago subiu e não pode ser contido. Dean pôs para fora aquilo de um golpe só e tossiu violentamente várias vezes. Aquilo era definitivamente a coisa mais nojenta que já tinha feito. Aquela era a situação mais abominável que já tinha experimentado.
Não tinha escolha. Recompôs-se rapidamente. Não podia esperar que o seguissem. Tratou de rastejar o mais rápido que pode. No escuro, rumo à saída. E o fez. Realmente o fez. Até encontrar, em tempo recorde, a inclinação daquele esgoto e deslizar por ela, caindo no córrego.
Desta vez, a queda aconteceu de forma diferente. E a dor foi um pouco pior, porque não perdeu a consciência. Sentia cada músculo de seu corpo. Sentia cada partezinha dele.
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Sam tinha cochilado. E assustou-se quando Dean bateu com as mãos espalmadas no vidro.
— Dean! – num sobressalto, abriu a porta e saiu – Por onde andou? – olhou para seu irmão. Dean não parecia bem. Estava pálido e a cor intensa dos lábios não era normal.
— Por onde andei? Por onde você andou? Eu fiquei do lado de fora da casa, esperando por você! Quase fui preso – depois olhou o mais novo mais minuciosamente – Você está bem?
— Eu estou bem, mas você está cheirando um pouco pior... – completou Sam, brincando. Tentava aliviar toda aquela imagem de dor e sofrimento que via em seu irmão.
— Será que dá para você parar de falar e dirigir para longe daqui? – deu a volta e sentou-se no banco do passageiro. Estava exausto. Estava ‘se desligando’. Quando Sam entrou novamente, Dean o olhou firme. Não tinha vontade alguma de perguntar sobre qualquer coisa que fosse. Queria um banho. Queria uma cama. Queria comida. Queria um analgésico. Queria silêncio.
— Dean? – Sam chamou, dando a partida, mas Dean já estava sendo carregado por Morpheu e por seus braços. Sorriu de leve, porque se fizesse menção disso, seu irmão lhe daria uma carraspana dizendo-lhe que nenhum Morpheu o carregaria. Afinal ele era total e indubitavelmente homem para se deixar carregar por outro homem, qualquer que fosse.
Sam notou seus machucados. Notou o sangue na roupa. Dean estava sangrando em algum lugar. Com certeza não devia ser algo preocupante. Se estivesse mesmo em perigo, seu irmão já o teria avisado. Continuou dirigindo rumo ao motel.
Ao chegarem, cutucou Dean no braço. Não obteve resultado. Dean parecia mergulhado em sono profundo. Mas sua expressão era de cansaço. Não era uma expressão tranquila. Era de alguém atordoado, totalmente batido.
— Já chegamos, Dean. Vamos... – Sam falou mais próximo, mas desistiu de tentar acordá-lo.
Saiu do carro, correu até a porta do motel, abriu-a, deu meia volta, abriu a porta do carona e puxou seu irmão para fora, carregando-o para dentro do quarto. Tirou suas roupas, seus sapatos e meias. Verificou seus machucados, mas a primeira coisa era o banho. Dean sangrava e cheirava mal. Por Deus, ele não sabia por que tipo de esgoto seu irmão tinha andado, mas imaginava. E, além disso, Dean estava com febre. Estava quente e tremia.
A água do chuveiro estava quente. Sam o colocou sentado em uma das cadeiras do quarto, debaixo do chuveiro. Dean resmungou algumas coisas incompreensíveis. Resmungou outras, totalmente claras. Foi quando Sam começou a fazer-lhe perguntas, enquanto limpava-o. Então soube de como era o esgoto, da queda, dos espinhos, entre muitos palavrões ditos por entre os dentes. Também verificou o ferimento do braço. Precisava de limpeza, e pontos. Dean também falou algo sobre o capitão Kirk. E Spok. Balbuciou algumas palavras sobre Penélope ser charmosa. E sobre seu irmãozinho estar atrasado.
Sam verificou o ferimento do braço. A bala tinha entrado e saído. Seu corpo tinha arranhões, cortes e o que parecia ser pancadas. Muitos hematomas. Dean era uma obra prima – representava as consequências de seu trabalho como ninguém.
Enrolou-o nas toalhas que encontrou. Desinfetou todos os cortes e o ferimento da bala. Costurou-o com delicadeza. Deu-lhe uma dose de analgésicos e anti-térmicos. Vestiu-o apenas com uma boxer e o deixou dormindo, do jeito que estava.
Tomou banho e não se atreveu em deitar. Tinha que buscar algo para comer. Quando Dean acordasse, era a primeira coisa da qual ele iria sentir falta. E, de estômago vazio, ele não aguentaria seu irmão mais velho. Não com o mau-humor que ele sabia, viria por tabela, quando acordasse.
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Dean abriu os olhos. Sam estava deitado na cama ao lado. Gemeu, movimentando a cabeça para o lado, para certificar-se de que estava mesmo onde estava e que seu irmão o estava acompanhando.
Sam olhou para ele. Queria dizer muita coisa. Fazer muitas perguntas mais, mas percebeu que o olhar de Dean estava fora de foco. Estava mais do que claro que seu irmão mais velho ainda não estava plenamente no mundo dos vivos. Ficou olhando para Dean, esperando pelo que ele diria. Dean grunhiu, mexendo-se na cama, ajeitando-se melhor no travesseiro. Depois, voltou a olhar para o irmão mais novo.
— Sammy... Por qual das portas você saiu? – perguntou ele. Sam ergueu as sobrancelhas. Dean estava preocupado com o que ele menos esperava. Não perguntou sobre o sangue. Não perguntou se tinha tido problemas ou o que tinha acontecido, afinal.
— Saí pela cripta – respondeu Sam, surpreso, sem lembrar que Dean não tinha conseguido fazer a câmara subir.
— Como?! – a surpresa era maior em Dean.
— Eu girei as pedras ao contrário – Sam respondeu calmamente.
Dean o olhou por um instante como se estivesse processando a informação. Depois, mordeu os lábios, resmungou “filho da mãe”, virou para o lado e voltou a dormir. Sam sorriu. Fechou os olhos. Estava inclinado a concordar com a idéia de que seria melhor dormir do que discutir qualquer coisa que fosse daquele caso. Era melhor esquecer toda aquela história.
FIM