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Josiane Veiga
Author of 40 Stories

Rated: M - Portuguese - Romance/Drama - Reviews: 67 - Updated: 08-14-09 - Published: 11-25-08 - id:4676039

A Insígnia de Claymor

Capítulo XV

Por Josiane Veiga

Claire Vardin encarou a mãe. A jovem já estava se fingindo de doente há quase uma semana e, por insistência de Noelle, simulava que a doença piorava. A idéia, por ela considerada ridícula, era ganhar tempo antes de cruzar a fronteira. Assim que os Vardin chegassem à Inglaterra, separar-se-iam do grupo de Trent e a ligação com o Barão estaria terminada. Quando isso ocorresse, as chances de Claire tornar-se baronesa findariam.

-É tudo culpa daquela ruiva! – Murmurou Noelle, com raiva.

Levantando os olhos para as estrelas, Claire suspirou.

-O fato é que, se eu realmente sentisse algo pelo barão, seria muito mais fácil lutar contra Rousse...

Noelle estava sentada em um manto, de frente para a filha. Quando ouviu as palavras baixas, irritou-se.

-O que está dizendo?

-Que me sinto aliviada quando ele não olha para mim...

-Não fale besteiras! – ralhou. – Daniel Trent é um homem rico, importante demais para ser desprezado!

A morena voltou os olhos para a mãe e concordou.

-Sei disso!

Noelle virou-se em direção às demais pessoas do acampamento. Vendo-os ao longe, jantando, prosseguiu com a conversa, num tom baixo.

-É muito melhor que não estejas apaixonada por ele!

-Será mesmo? Às vezes me pergunto como seria amar alguém...

-Não se pergunte! Olhe para mim e veja o que o amor fez comigo! Estou aqui, velha e feia, sem um teto sobre a cabeça! E tudo porque amei um dia! Mas o amor passou junto com os anos e agora olho para seu pai e amaldiçôo o dia em que permiti o coração bater rápido por ele!

Claire sabia que aquelas palavras frias eram verdadeiras. O mundo pertencia aos homens, e coitada da mulher que se deixasse levar por eles! O melhor que ela devia fazer era conquistar o barão e viver confortavelmente em um castelo. E daí se não suportava as idéias antiquadas de Daniel Trent? Pelo que conhecia dos casamentos, só teria que suportá-lo durante alguns minutos à noite, e isso apenas enquanto não estivesse grávida.

Protegendo os braços com a manta de lã, ela meditou nas coisas que devia fazer ainda naquela noite para conseguir o coração do Barão. A ruiva Rousse não a preocupava, pois a garota não era bela o suficiente para competir com Claire. E, antes dela aparecer, o barão havia demonstrado desejo pela morena. Além disso, a mãe havia explicado o que ela devia fazer para amarrar um homem rico. Claire conhecia seu próprio corpo e sabia que Daniel não seria capaz de resistir a ele.

-Com licença...

A voz de Daniel chegou a seus ouvidos, e ela voltou os olhos para o homem. O moreno vinha acompanhado de Richard, que a encarava com raiva. Era uma antipatia mútua e inexplicável, Claire pensou. Notou que a mãe havia se levantado e cumprimentava o barão.

-Vim apenas ver como se sente – ele explicou, dirigindo-se à jovem.

-Estou melhor – Claire sorriu. – Penso que poderemos prosseguir viagem amanhã.

O suspiro de Daniel despertou a curiosidade de Claire. Imaginava que o homem estaria ansioso para cruzar logo a fronteira, mas não foi isso que ele demonstrou.

-Acredito que deva descansar mais alguns dias – sugeriu o Lord.

Alguma coisa estava acontecendo! Claire lembrou-se que o barão ficava quase o dia todo fora do acampamento e que Richard o encarava sempre com os olhos interrogativos. Mas o que seria?

-Claire gostaria de falar em particular com o senhor – Noelle contou, com um sorriso.

-Oh, é mesmo? – Daniel parecia nervoso. – E o que seria, senhorita?

Levantando as mãos, Noelle aproximou-se de Richard.

-Vamos dar licença... – sugeriu.

-O Barão não tem segredos para mim! – Richard exclamou.

Daniel encarou o amigo. Kest era estranhamente irritante quando se tratava dos Vardin.

-Richard!

-O que ela pode querer falar que eu não possa ouvir? – o servo indagou.

-Não sei, mas você está sendo descortês com a dama! – Daniel retrucou.

-Verdade! – Richard arqueou as sobrancelhas. – Peço desculpas! – completou.

No entanto, não fez menção de sair do lugar e continuou olhando para Claire como se a desafiasse.

-Vá logo, Kest! – Daniel rugiu.

Sabendo que não adiantaria agir como criança, Richard deixou-se levar por Noelle Vardin. Ao longe, Daniel ainda podia ouvir o amigo soltando uma série de imprecações. Quando voltou-se para Claire, viu que a jovem havia sentado sobre a manta e que ela vestia apenas uma camisa.

-Peço desculpas por Richard – pronunciou Daniel, coçando a cabeça.

Ele estava desconsertado perante a imagem da mulher. Não que sentisse algum desejo, mas era-lhe estranho ver uma jovem cristã vestindo tão pouco. Daniel era um homem solteiro, e sabia que só poderia ver uma mulher daquela forma se ela fosse sua esposa.

-Seu servo sempre deixou claro o quanto não gosta de mim...

-Richard não tem muita educação – ele desculpou a falta de tato de Kest.

-No entanto, ele trata Rousse muito bem...

Daniel não pôde deixar de concordar.

-É verdade! Rousse é para Richard como uma irmã.

Claire levantou a mão e tocou o colo. Agiu tão naturalmente que deu a Daniel apenas a idéia de que a jovem estava com calor.

-Bom – ela continuou a passar a mão no peito. O gesto fez com que a camisa roçasse contra o corpo, revelando seus mamilos -, não entendo isso, pois sou filha única.

Assim que percebeu a cor mais escura da pele de Claire, Daniel afastou os olhos. Sentiu-se culpado por ter olhado para os seios dela, estando a moça doente. Notou o quanto um homem podia ser um animal sem escrúpulos, pois se acreditava apaixonado por Rousse e mesmo assim observou outra mulher.

-O que a senhorita gostaria de falar comigo?

Claire suspirou. Que homem idiota! Ele não olhava para ela e parecia incomodado por vê-la de camisa. Enquanto a maioria dos varões que conhecia não iriam pestanejar em observar-lhe as formas, Trent agia como um puritano. Por Deus! Ele era insuportável!

Quase sorriu ao imaginar como seria fazer sexo com ele. Provavelmente o barão iria colocar um lençol entre eles e ficaria chocado se a visse nua.

-Gostaria de lhe agradecer por ter trazido minha família em segurança até a fronteira – ela começou, com a voz rouca. – Mas não quero agir tão egoisticamente como minha mãe e lhe impedir de cruzar logo a divisa da França com a Inglaterra. Como já estamos praticamente nas terras de Elizabeth, creio que o senhor possa nos deixar aqui...

-Eu jamais faria isso! – Daniel a interrompeu. – Prometi aos líderes Waldenses em Paris que deixaria sua família em segurança, e ainda não estão seguros...

-Está se arriscando demais por nossa causa...

Daniel baixou a fronte, intranquilo. Os Vardin não eram a causa de ele permanecer na França. Claymor era! Não iria arrendar o pé dali antes de encontrar-se com a irmã de Alexei, seu inimigo.

-Por favor, apenas descanse.

Dando as costas para Claire, ele voltou rapidamente para o acampamento.

A jovem bufou de raiva! Que seria complicado conquistar o barão, ela já sabia, mas que ele fosse dificultar tanto era uma surpresa. Imaginava que todos os homens fossem guiados por seus órgãos sexuais, agindo como imbecis no cio, mas Daniel agora se mostrava diferente da maioria.

-Sobre o que conversaram? – a voz de Noelle chegou a ela.

Olhou para a mulher mais velha e suspirou.

-Vai ser complicado, mãe...

-Oh! – Noelle parecia aflita. – Não pode ser verdade...

-Vou ter que agir com mais intensidade...

-O que quer dizer?

-Faça com que o Barão vá até o rio mais tarde. Eu estarei lá...

-O que vai fazer?

-Ele é um Waldense, afinal de contas... – a voz dela suavizou.

-Claire! – Noelle exclamou. – O que está pensando?

-Estou pensando que Daniel Trent é um homem decente demais para permitir que uma jovem que ele desonrou fique solteira, maculada... – a implicação na voz dela era clara.

Noelle estremeceu.

-Entendo filha, mas não acho que seja uma boa idéia. É um plano perigoso demais para tanto risco. E se não der certo? Se você sujar seu nome, nunca arrumará um marido...

-Vou arriscar! – a morena parecia determinada. – Mas vou precisar de sua ajuda...

-De que forma?

-Preciso que faça com que papai vá atrás de nós e nos pegue em flagrante.

Noelle concordou com a cabeça. Sabia que, para se tornar mãe de uma baronesa, precisaria correr riscos. Estava cansada da vida sofrida ao lado de Antoine, e a perspectiva do conforto que teria nas terras de Trent deu-lhe coragem para concordar com a filha.


Phill sacudiu-se tentando arrancar o laçinho vermelho que sua dona amarrou em seu pescoço. O animal grunhiu desesperado enquanto Rousse ria com vontade.

-Pare, Phill! – ela ordenou. – Não retire o laço! Ficou tão bonito em você!

O porco olhou para a dona e, vendo-lhe o sorriso, acalmou-se. A ruiva continuou a rir e a acariciar o animal. Não parecia incomodada com a doença de Claire nem com o mau humor de todos no acampamento. Era como se estivesse vivendo um momento muito feliz. Era isso o que Richard via enquanto a observava.

Indiferente ao olhar fixo do amigo, ela continuou a tarefa do momento, que era transformar Phill na criatura mais adorável do mundo. Não que a tarefa fosse fácil, já que o porco era odiado por quase todos ali, mas, a seus olhos, não existia animal mais belo em toda a redondeza.

Richard sorriu.

Rousse era pura. Não era apenas de uma pureza física, mas de sentimentos. Coisa rara, sabia ele. Enquanto a maioria das pessoas olhava para a aparência, ela encarava a alma. Se a família de Rousse ainda a procurasse, com certeza estariam desesperados. Se ele a conhecia há poucos meses e já a amava, então como seriam os sentimentos daqueles que tinham o mesmo sangue?

O pensamento voltou para Albert Claymor.

Pensar nele enquanto olhava para a ruiva havia se tornado um hábito que estava incomodando demais o jovem servo, mas era impossível resistir à reflexão. Os dois eram idênticos! Se Richard não tivesse conhecido Jehanie Claymor, teria passado a acreditar que estavam com a filha do duque!

E se fosse Rousse uma bastarda?

Se, de fato, fosse esta a verdade, Daniel enlouqueceria, pois odiava tudo que viesse daquela família! Mas por que uma bastarda estaria vestida com uma camisola e um penhoar tão ricamente trabalhado quanto aquele em que eles a encontraram?

-Rich, o que houve?

Percebendo que a amiga havia notado o quanto ele a encarava, sorriu.

-Como era mesmo o seu pai? – questionou, de repente.

Abrindo um enorme sorriso, Rousse começou a falar, feliz por poder compartilhar as lembranças novamente.

-Ele tinha cabelos negros e longos, os olhos eram azuis como os meus e a pele era pálida. Um homem bonito... – ela suspirou.

-Você não se lembra do nome?

-Não – a voz tornou-se triste. – O único nome que me lembro era do padre que me educou...

-Sim – Richard sussurrou. – Adam...

-Sim, Adam! – ela repetiu. - Ele também era muito bonito! –sorriu. – Mas ninguém é como meu irmão...

A menção fez Richard arregalar os olhos. Por alguns instantes, ele sentiu medo de perguntar o que mais o incomodava, mas sabia que devia ter coragem. Esfregando uma mão na outra, e tentando aparentar uma calma que nem de longe sentia, ele indagou:

-É mesmo! Você tem um irmão! Como ele era?

Soltando Phill do colo, ela encarou o amigo com um sorriso triste.

-Amável – respondeu. – Doce, gentil... Eu não me lembro de nada em relação a ele, mas sei que o amei mais que tudo nesta vida...

-Ah! – Richard mordeu o lábio inferior, receoso. – E fisicamente?

Ela riu.

-Loiro! – falou, mais animada. – Acredite! Um pai de cabelos negros, um irmão de cabelos loiros e eu com os cabelos vermelhos! Somos realmente uma família estranha! – gracejou.

Richard sabia que Albert Claymor havia se casado com uma jovem russa e o filho mais velho havia puxado a cor das madeixas da mulher. Jehanie Claymor, diziam ter os cabelos da mãe, uma bela francesa ruiva que desejava ser freira, mas que foi obrigada ao casamento. A paternidade, porém, se confirmava pelo fato dos dois serem muito parecidos com Albert, não somente os olhos, mas também o nariz, boca e o formato do rosto.

O relato das lembranças de Rousse confirmava as suspeitas de Richard, mas o servo manteve-se calado. Lamentou o fato de não terem permanecido em Paris mais um ou dois dias para tentar confirmar a identidade de Jehanie Claymor. A cada dia que passava, ele cria mais que a mulher que viram fazendo sexo com Alexei na varanda não era a filha de Albert.

Levantou os olhos para o céu e suspirou.

Se tudo que passara a desconfiar se confirmasse, o destino era realmente muito cruel. Se Rousse fosse Jehanie Claymor, o desespero se abateria sobre Trent. Apesar do amigo não admitir, Kest sabia que Daniel estava apaixonado pela jovem.

-Vai chover...

Voltando os olhos para o homem grande que chegava, Richard sorriu.

-Já está nublado a mais de uma semana, Andy! – respondeu.

-Mas o vento está úmido e o ar, quente...

O homem de quase dois metros virou-se para ruiva.

-Logo chegaremos à Inglaterra e creio que, assim que estivermos lá, iremos comemorar suas bodas com o nosso Lord.

Rousse sorriu.

-Nossa Rousse será nossa Milady – o homem continuou, mostrando-lhe os dentes.

Mon Rousse n'est pas de femme! Vous êtes une dame”

A voz que lhe dizia que não era uma mulher comum, e sim uma Lady, era de Adam. A memória da jovem voltou a um castelo, em um quarto enorme. Seu quarto! Naquele instante, ela vestia-se auxiliada por uma ama de cabelos negros. O padre estava sentado próximo, observando-a. O fato de ele ser seu sacerdote talvez lhe desse a liberdade para permanecer naquele local, em um momento de intimidade.

Quero que essas regras sociais vão para o inferno!” – ela respondeu.

Não blasfeme! Se seu pai ouvi-la falando assim, poderá ter um ataque de nervos”.

Não entendo por que papai quer me ver em Paris! Por que precisa me casar? Se ele não quer se responsabilizar por uma filha mulher, sei que meu irmão assumirá esta incumbência”.

Naquele momento, Rousse soube que ela residia na Inglaterra e que se preparava para viajar até a França para tentar encontrar um marido. E, vendo-se bufar, notou o quanto o assunto a irritava.

Seu pai a ama acima de tudo, e está sofrendo muito por causa disso”.

Duvido!”

Ele crê que está fazendo o que é melhor para você e para seu irmão!”.

A menção do irmão a fez voltar-se para Adam.

O que meu irmão tem a ver com essa história?”

A resposta nunca chegou aos seus ouvidos. Ouvindo um ruído seco, ela virou-se para a porta. Encostado na batente, um rapaz loiro belíssimo a encarava. A boca dele curvou-se num sorriso. Sem que nenhuma palavra fosse pronunciada, tanto a ama quanto o padre retiraram-se do quarto, deixando os dois sozinhos.

Este casamento cômico nunca irá se realizar!” – ele afirmou quando ficaram sozinhos.

Rousse voltou-se para o espelho e continuou a ajeitar as mangas do vestido. Em pouco tempo percebeu que o irmão também refletia no espelho. Ele permanecia atrás dela, com as mãos sobre a calça justa de veludo, e a olhava através do objeto. O loiro era mais alto que ela, mais imponente, mas a ruiva sabia que conseguia controlá-lo facilmente.

E como fará para impedir papai?”

Tenho meus métodos...”

A voz dele era rouca e agressiva, mas ela não fez caso. Virou-se para ele e observou-lhe os olhos azul-turquesa.

Não quero ser escrava de homem nenhum! Sou feliz aqui, com papai e meus livros!”

Você não precisa me dizer isso!”

Papai disse-me ontem que está na hora de você se casar. Ele se preocupa com o ducado! Quer que você tenha filhos para perpetuar nosso nome. Mas eu prometo que jamais serei um empecilho para você. Prometo me comportar, portanto, ajude-me a escapar de algum casamento por conveniência”.

Como se algo houvesse acontecido no íntimo do irmão, o loiro não conseguiu conter-se e, levantando as mãos, agarrou os cabelos de Rousse. O gesto foi delicado e suave, mas não havia ternura na forma como ele encostou-a no enorme espelho atrás dela. A ruiva notou que ele tremia, como se tentasse conter-se, como se se culpasse pelo contato...

Nunca vou permitir que outro homem toque na sua pele! Nunca vou deixar que alguém ame você!”

-Rousse!

A voz de Richard fê-la encarar o rapaz. Tanto ele quanto Andy estavam na sua frente, com os olhos arregalados.

-Você teve outra lembrança?

-Sim...

-Lembrou-se de quem é? – a preocupação na voz do amigo era palpável.

Papai disse-me ontem que está na hora de você se casar. Ele se preocupa com o ducado!”

-Sim...

Observando o rosto moreno de Richard, Rousse viu lágrimas.

-Então, por Deus, diga quem você é! – ele insistiu.

-Sou uma duquesa.


-Uma duquesa? Não seja ridículo! – Daniel mordeu um pedaço de peixe - Um ducado é o título mais alto que uma pessoa pode ter dentro de uma monarquia, depois do próprio Rei.

Andy e Richard permaneciam em pé, de frente para o Barão, que jantava naquele momento. Quando Richard lhe contou sobre a última lembrança de Rousse, Daniel soltou uma gargalhada, e nem por insistência do amigo parecia acreditar naquelas palavras.

-Estou lhe afirmando, Daniel! Rousse é filha de um duque!

-Você acha mesmo que, se a filha de um duque estivesse perdida, não haveria tropas por todos os lados, buscando a jovem?

-E quem disse que não há? Estamos viajando escondidos desde que saímos de Paris. Nosso único contato externo há meses foi a tropa de Claymor!

Esfregando a boca lambuzada da gordura do peixe na manga da camisa, Daniel sorriu.

-E os modos dela? Ela tem a educação de uma mulher das tavernas! Imagine a filha de um duque batendo em um homem ou gritando como ela grita! – soltou outra gargalhada, divertindo-se com a situação. – Imagine a filha de um duque cuidando de um porco!

-Uma mulher das tavernas sabe ler? E o conhecimento dela? Rousse entende de religião como poucos sacerdotes! - Richard insistiu.

-Isso é ridículo! A filha de alguém tão importante viveria na corte! Eu conheço a corte inglesa muito bem, e já frequentei a francesa. Crê mesmo que eu não iria conhecê-la...?

-Nem todas as mulheres de título frequentam a corte – Richard o interrompeu. – Existem aquelas como Jehanie Claymor, que foram criadas dentro do castelo, protegidas do mundo externo...

A referência à filha de Albert foi proposital. Kest queria ver a reação de Daniel, tentando ligar os fatos.

-É, eu sei – o barão não pareceu entender a intenção do servo. – Bom, pode até ser! – exclamou por fim. – E isso é um mau sinal!

Arregalando os olhos, Richard aproximou-se.

-Mau sinal?

-Sim. Se ela for realmente filha de um duque, será complicado casar-me com ela, pois meu título é muito inferior.

O servo moreno quase tapou a boca com as mãos para não xingar Daniel de todos os nomes sujos que conhecia - e não eram poucos! Inferno! Será que só ele percebeu que havia algo de errado naquela história?

-Daniel, gostaria de ir até a cidade... – solicitou.

Andy, que permanecia calado, ouvindo o diálogo dos dois amigos, intrometeu-se.

-Na cidade? O que vai fazer lá?

-Estou há alguns meses sem mulher... – Richard murmurou, explicando.

Levantando-se, Daniel encarou o jovem, incrédulo.

-Um homem só deve se deitar com sua esposa! – censurou-o. - Você deveria arrumar uma jovem cristã decente e honrada e desposá-la, se não consegue ficar sem copular.

Richard suspirou.

-Oh, perdoe-me, senhor imaculado barão, mas eu não irei me casar e não tenho a menor vontade de fazer sexo com a mesma mulher pro resto da minha vida!

-O que você diz é transgressão!

Richard não resistiu à provocação:

-Daniel! Pense bem... Eu saio agora, vou a uma taverna, encontro uma bela morena ou loira, com enormes seios e belas ancas, me divirto com ela, pago-a e amanhã não irei mais vê-la. Ou seja, ela nunca irá me incomodar com “aqueles dias”, nem irei vê-la gorda, ou terei que suportar nossos filhos berrando à noite... Irei apenas aproveitar o bom lado de ter uma mulher... mas...

-Mas o quê?

-Bom, já você...

-O que tenho eu, infeliz?

-Já que insiste tanto em se amarrar à mesma mulher... Enfim, você terá que suportar todos esses espinhos – colocou o braço no ombro de Daniel e aproximou a boca do ouvido do amigo. – Para sempre... e sempre...

-Quer parar com essas tolices?

-E sempre... sempre... sempre... – continuou.

Era tão evidente que Richard o provocava que Daniel não pôde deixar de rir. Virando o braço, conseguiu prender a cabeça do amigo com um golpe e, enquanto o judiava, afirmou:

-Admita, você me inveja!

Richard sorriu.

-Só um pouquinho! Mas, para minha sorte, eu irei acompanhar seu casamento com Rousse e vou vê-la engordando, ficando feia, com rugas e peitos caindo... E então vou agradecer a todos os anjos por você ter se intrometido entre ela e eu!

-Rich!

A voz feminina fez os homens levantarem a cabeça. Em frente a eles, Rousse os fuzilava com o olhar.

-É isso que você acha que vai acontecer comigo?

-Isso se você tiver sorte e não morrer de tédio ao lado de Daniel – ele continuou.

Desta vez foi a ruiva que riu.

-Deixe de besteiras! –ralhou. – Você já jantou? – ela perguntou ao servo.

-Ele vai comer na cidade – Daniel revelou.

-E vai comer muito bem... – Andy completou.

Arqueando as sobrancelhas, a jovem tentou entender a mensagem oculta nas palavras dos homens.

-Rousse, vou para a cidade, mas volto de manhã. Cuide-se e não faça nada que eu não faria! – Richard largou Daniel e aproximou-se da jovem. – E não se esqueça do que eu lhe disse... eu sempre estarei ao seu lado...

O que ele queria dizer? Richard estava agindo de modo estranho ultimamente, e isso preocupava muito a jovem. Quis indagar-lhe, questioná-lo, mas ele deu-lhe as costas e saiu andando para fora do acampamento. Por alguns instantes ela pensou em segui-lo, mas então notou que Daniel veio até seu lado e, num abraço casto, tocou-lhe os ombros.

-Ele está muito estranho... – murmurou para ela.

Andy permaneceu parado no mesmo lugar.

-O fracote é estranho desde que nasceu. Lembro-me de quando éramos crianças e um dia ele previu que a carroça de meu pai ia virar na estrada. Disse que não aconteceria nada com o velho, mas que alguém que estava junto iria morrer.

A revelação fez Rousse olhar para trás.

-E aconteceu?

-No dia seguinte. Papai estava levando meu irmão mais novo para a lida no campo, e a carroça virou. Meu irmão morreu na hora.

-Richard tinha onze anos – Daniel continuou o relato. – Acusaram-no de bruxaria. Se não fosse por meu falecido pai, ele teria sido queimado vivo.

-Meu Deus! – Rousse estava chocada. – Como as pessoas podem ser tão cruéis com uma criança?

-O clero romano na época disse que Richard estava dominado por demônios. Mas, por sorte, um waldense chegou a nossas terras. Ele estava fugindo da Igreja, e escondeu-se em nossa casa. Explicou a meu pai sobre Richard. Disse que o que ele tinha era um dom, um dom diferente, mas um dom. E este dom poderia ser benéfico se fosse usado com sabedoria.

-Sim. Se papai tivesse dado ouvidos a Richard, meu irmão não teria sofrido o acidente da carroça.

-Ou teria – Daniel suspirou. – Nunca saberemos. O fato é que mantemos o dom de Richard em segredo desde então. Como ele não é, como diríamos, um santo, as pessoas não vêem Richard como um profeta, e sim como um pagão.

Concordando com a cabeça, Rousse baixou os olhos. Pagão Richard não era! Ele era um adorável e bom moço, e ela sentia muito orgulho de ser sua amiga.

-Mas, para nossa sorte, Elizabeth tornou-se protestante! – Daniel sorriu. – Assim, os malditos católicos não podem mais matar na Inglaterra.

Tudo é questão de poder! Os homens usam a religião como desculpa para tornarem-se animais. Veja o caso de Nossa Majestade: assim que se tornou protestante, mandou matar a rainha da Escócia, com a desculpa religiosa. Entretanto, me pergunto: qual a diferença entre a morte católica com a morte protestante? Nenhuma! Todos querem apenas poder! Garanto que nenhum deles pensa em Jesus Cristo quando agem como demônios!”

Mais uma lembrança! E, desta vez, quem lhe falava era seu pai! A voz dele fê-la entender uma coisa que até então lhe era desconhecida. Rousse não seguia nenhuma religião! Era cristã. Uma cristã apaixonada pelo estudo, mas não acreditava em denominações religiosas. Nem ela, nem seu pai.

-O que houve, Rousse?

-Nada – ela murmurou.

Não sentia nenhuma vontade de falar sobre aquilo com Daniel. Por quê? Não deviam ser cúmplices? Não iriam se casar e construir uma vida juntos?

-Você ficou estranha de repente... – ele afirmou, encarando-a.

Levantando os olhos, ela o enfrentou.

-Ouvi a voz de meu pai... uma recordação...

As lembranças dela estavam voltando, Daniel percebeu, pois já era a segunda vez naquela noite que ela se lembrava de algo referente ao passado.

-E o que ouviu?

A jovem baixou a fronte sem saber o que responder. Por fim, percebeu que, para viver ao lado daquele homem, precisaria de coragem.

-Recordei-me que a religião pode transformar os homens em seres irracionais, capazes de todas as crueldades por causa da fé.

-Como assim?

-Você acusa os católicos de martírios e mortes. Mas a salvadora Elizabeth , a mesma rainha que disse frases célebres como “Existe apenas um Cristo, Jesus, uma fé”, agiu de forma anti-bíblica quando mandou decapitar sua prima.

-Foi necessário! – Daniel irritou-se. - Elizabeth não teve alternativas, pois precisava deter Mary Stuart, que foi acusada de assassinato – defendeu a rainha.

-Pode parecer uma surpresa para você, mas na Bíblia Jesus manda amar seus inimigos e fazer o bem àqueles que lhe desejam mal. Ele fala que, se nos baterem numa face, nós devemos oferecer a outra! Portanto, eu não acredito em denominações religiosas. Nesta época, todos estão errados e poucos estão buscando verdadeiramente a santificação.

Daniel não pôde retrucar. A voz simplesmente não saía de sua boca. Ela estava certa, e isso lhe doía intensamente.

Todos estão errados”.

Mais do que nunca, ele estava. Era um cretino que ainda ousava chamar-se cristão. Planejava trair a mulher a sua frente e enganar uma outra para vingar-se de Alexei Claymor. Por mais imoral que fosse, Jehanie Claymor nada lhe fizera para ser punida daquela forma.

Sentia vergonha de si mesmo, e a culpa o corroía. Sabia que, se levasse adiante seus planos, nunca se perdoaria.

-Daniel...

A voz meiga de Rousse fez com que o homem a encarasse. A ruiva parecia apreensiva e preocupada.

-Desculpe-me por ser tão dura, mas é isso que eu penso.

O Barão aquiesceu com a face. Voltou o rosto para o lado e notou que Andy permanecia próximo, ouvindo o diálogo. Andy também era protestante, mas não ousou retrucar Rousse pelas palavras. Seria por medo do Lord, ou porque também pensava como ela?

-Você está certa! – Admitiu.

A jovem parecia não acreditar na frase do namorado.

-Você acha?

-Sim.

Aceitar os pensamentos de Rousse podia ser considerado uma traição à Rainha, mas ele reconhecia que a ruiva tinha razão e não havia nada de mal em assumir isso perante ela e o leal cavaleiro.

-O que você acha, Andy?

A pergunta escapou-lhe dos lábios. Pela primeira vez na vida, a opinião de um de seus homens que não fosse Richard, era-lhe importante.

-Acho que terá muito trabalho para controlar sua mulher – foi a resposta.

A gargalhada de Daniel fez-se ouvir em todo o acampamento.


O cavaleiro Thomas aproximou-se de seu senhor de forma silenciosa. Naquele instante, Daniel estava terminando de afiar a faca, e apenas arqueou as sobrancelhas quando notou o servo.

-Fiquei de vigia na cidade durante todo o dia, e Claymor não apareceu – murmurou.

O Claymor em questão era Alexei.

-E o duque?

-Permanece na taverna. É muito claro que está doente, fraco. Os cavaleiros que o acompanham também não são amistosos, e todos parecem em luto.

-Você não conseguiu descobrir nada?

-Fiz perguntas, mas ninguém soube responder. O taverneiro disse que ele desce, come e bebe, mas não lhe dirige sequer um olhar. Tampouco os homens.

-Claymor sempre foi discreto, mas isso é demais – Daniel notou.

-Quando saí da Taverna, o duque e seus homens já haviam se retirado para os quartos que ocupam. Amanhã de manhã irei até eles para ver se descubro mais alguma coisa.

O líder dos cavaleiros afastou-se e Daniel ficou sozinho, olhando para o nada. Desde a conversa com Rousse, ele já não tinha mais certeza de que devia vingar-se de Alexei Claymor usando a jovem Jehanie. As dúvidas em sua mente pareciam machucá-lo, e o rapaz realmente sentia-se confuso.

O que fazer? Que atitude tomar?

Pensava constantemente em Rianna e no quanto a irmã sofreu desamparada. Teria ele o direito de agora não vingá-la?

Começou a caminhar lentamente pelas laterais do acampamento, meditando sobre sua vida, sua vingança, e sobre a possibilidade de deixar tudo nas mãos de Deus. No fundo, sentia pena de si mesmo por não ser capaz de decidir-se rapidamente.

-Barão...

A voz de Noelle tirou-o do devaneio. Virou-se em direção à velha e notou-a preocupada.

-Sim?

-Minha Claire... – a mulher balbuciou.

Assustado, Daniel aproximou-se.

-O que houve?

-Ela se sentiu melhor e resolveu ir ao rio lavar-se. Mas já foi há um bom tempo, e ainda não voltou. Temo contar ao pai dela, pois Antoine é muito rígido sobre o fato de ela ficar sozinha...

Por que aquela impressão de manipulação chegou a Daniel? Encarou a Vardin e, de alguma forma, soube que havia algo por trás das intenções da mulher. Mas o que seria?

-Vou avisar Joseph para ir atrás de sua filha.

A mão de Noelle rapidamente chegou ao braço de Daniel, impedindo-o.

-Oh, não! Por favor, Barão, não faça isso! Seus homens, apesar de serem bons homens – retificou -, podem comentar entre si que Claire foi sozinha ao rio, e o pai dela pode ficar muito zangado.

A imagem do Sr. Vardin irritado não se formou na mente de Trent. Era realmente algo que ele não conseguia imaginar. Virou-se em direção à comitiva, e pensou por alguns instantes. Procurou Rousse com os olhos e viu-a conversando com Antoine. Não poderia pedir a ela que o acompanhasse sem causar suspeitas no pai e então, mesmo a contragosto, resolveu ir atrás da jovem Vardin sozinho.

Sem delongas, virou-se em direção ao rio, sem perceber o sorriso vitorioso de Noelle e o olhar de Rousse, que havia notado anteriormente que Daniel a estava procurando com os olhos.

Caminhou rapidamente em direção ao rio, disposto a trazer de uma vez Claire e livrar-se da incumbência de proteger a jovem.

O pressentimento de que algo estava errado confirmou-se assim que chegou às margens da água. A lua cheia no céu iluminava o local o suficiente para que ele notasse que a jovem morena estava despida. Nua e deitada sobre o gramado vasto que arredondava o rio, Claire parecia uma ninfa selvagem, com os longos cabelos negros cascateando sobre os seios grandes e macios.

A moça parecia não ter notado a presença do homem e, por alguns instantes, Daniel ficou completamente atônito diante de tal visão. Entretanto, a reação masculina durou muito pouco, e ele logo voltou a ter controle de si mesmo. Envergonhado, baixou o rosto e pensou em avisá-la de que estava ali. Foi quando notou que a jovem estava quieta demais. A lembrança de que ela estava doente o pegou de assalto e se aproximou, preocupado, achando que Claire havia desmaiado.

Mas, quando postou-se ao lado dela, viu que a morena abriu os olhos e lhe sorriu.

Era uma armadilha!

A idéia foi tão clara e forte em sua mente quanto o próprio ar que entrava em seus pulmões. Daniel não era tão tolo de não notar que o aviso da mãe, a exibição da mulher a sua frente, e principalmente, as acusações a Antoine eram partes de um plano. Mas plano para quê?

-Cubra-se – avisou-lhe.

O sorriso dela morreu no rosto da mesma forma que o nojo tomou conta de Daniel. Ao contrário de Rousse, que agia sensualmente sem malícia, a mulher a sua frente armava para tentar amarrá-lo em alguma teia de pecado.

-Devia se envergonhar – aconselhou-a, dando-lhe as costas.

O farfalhar da roupa atrás dele fez com que Daniel notasse que a jovem estava vestindo-se.

-Por quê? – a indagação dela fez com que ele voltasse a encará-la.

Trent notou que ela apenas protegia a parte frontal do corpo com o vestido, sem vestir-se verdadeiramente.

-Por que o quê?

-Por que não me deseja? Todos os homens apreciam meu corpo, mas, no entanto...

-Você confia demais na própria aparência – ele a interrompeu. - Quando a conheci, pensei em torná-la minha esposa, mas não por causa de sua beleza, e sim porque era uma waldense. Entretanto, nesta viagem, percebi que nem sempre seguir publicamente uma religião torna você alguém de caráter ou escrúpulos.

O olhar dela era incrédulo e raivoso.

-Não acredito nisso... – murmurou.

Soltando o vestido que lhe tapava a nudez, ela ficou diante dele, exposta ao seu olhar. Daniel, no entanto, desviou os olhos.

-Por que está fazendo isso? – ele indagou.

-Gosto de você... – ela respondeu.

-Estamos seguindo viagem juntos há algum tempo, mas duvido que você me tenha sentimentos verdadeiros, afinal, eu já notei que você mal suporta a minha presença.

-Não é verdade...

-É verdade sim, não negue! – ele disse, sério. – Agora fale logo o porquê disso tudo, pois posso ser um homem grosseiro, criado sem a educação das cidades, mas não sou idiota!

Pela primeira vez desde que conheceu o barão Daniel Trent, Claire o admirou. Não era um religioso fraco, e sim um homem de caráter. Se ela soubesse daquilo antes, poderia talvez ter lutado com afinco pela preferência do Lord. Mas via agora que ele nutria sentimentos profundos pela tal Rousse, e ela havia perdido aquela batalha.

Abriu a boca, incerta sobre o que dizer-lhe, mas não chegou a expressar-se. Um barulho vindo dos arbustos indicou aos dois de que mais pessoas chegavam. Os rostos de Antoine e de Rousse surgiram logo depois.

Com um grito baixo e feminino, Claire começou a se vestir, enquanto que Daniel, petrificado, encarava o pai da jovem e a namorada.

-Por Deus, Claire! – Antoine gemeu. – O que você fez?

Pouco depois Noelle também veio, seguida de Thomas. Um silêncio sepulcral indicou a Trent o pensamento dos companheiros de viagem.

-Não é o que vocês estão pensando... – ele murmurou.

-Como não? – gritou Noelle. – Como se atreve a jogar minha inocente filha à lama?

A boca de Daniel abriu-se para defender-se quando ele se lembrou de que foi a própria Vardin que lhe ordenara ir atrás da filha. Era aquilo! Uma armadilha para um casamento!

-Senhor Vardin – Daniel dirigiu-se a Antoine. – Dou-lhe minha palavra de que não aconteceu nada. Vim atrás de sua filha apenas porque a mãe dela me pediu, e encontrei-a nua. Foi apenas isso.

-Quer que meu marido acredite que eu iria lhe pedir para um homem solteiro ir de encontro a minha filha no meio da noite?

A mentira deslavada de Noelle enfureceu Daniel. Ele quase avançou sobre a velha, e só não o fez pelos princípios de cavalheirismo que o pai lhe ensinou desde criança. Voltou-se então para o homem, disposto a esclarecer o mal entendido.

-Senhor Vardin – recomeçou, incerto -, conheceu-me o suficiente nesta viagem para saber que eu jamais agiria sem honra...

-Sou homem, Barão – Antoine o interrompeu. – E sei muito bem que nem sempre um homem pensa na honra ao ver uma mulher bonita...

-Não pode estar falando sério – Daniel irritou-se. – Somos Waldenses!

-Sim, somos! – Antoine encarava Daniel com uma notável raiva. – Por este motivo, espero que aja de forma correta e despose minha filha.

A possibilidade de se casar com Claire quase fez Daniel rir. Preferia ser expulso da religião a se amarrar a uma mulher tão baixa que se dispunha a agir de forma errônea apenas para arrumar um marido.

-Não serei pego nesta armadilha... – Daniel murmurou, com raiva.

A recusa do barão era algo que Noelle não esperava. Claire era bonita, desejável e da mesma fé. O homem estava em idade de se casar e, portanto, ser flagrado numa situação embaraçosa poderia sim ser um bom motivo para unirem-se em matrimônio.

-Os líderes Waldenses ficarão sabendo disso... – murmurou Antoine.

-Minha consciência está limpa.

O homem aproximou-se da filha e puxou Claire por um braço. Confusa e sem saber como reagir à negativa do Lord, Claire mantinha-se em silêncio, enquanto Noelle berrava alto, amaldiçoando a Deus e ao mundo.

Quando a família sumiu por entre as árvores, Daniel voltou-se para Thomas. Só então percebeu que Rousse não estava mais lá.

-Onde está Rousse?

O cavaleiro parecia surpreso pelo lord não ter percebido que a moça havia deixado o grupo logo após ver Daniel e Claire naquela situação.

-Ela voltou para o acampamento logo após a senhora Vardin e eu chegarmos aqui.

Inferno! A culpa de tudo era de Richard! Por que. sempre que o amigo saía de perto, acontecia algo de ruim? Agora, teria que enfrentar a namorada raivosa, que provavelmente mostraria a ele o peso dos pulsos, da mesma forma que já havia mostrado a Andy!

Começou a caminhar de volta ao acampamento, seguido de perto por Thomas, que não sabia o que dizer ao Lord, diante dos fatos que acabavam de ocorrer. O percurso, portanto, foi realizado em silêncio e de forma rápida.

Quando, por fim, chegaram até a fogueira que centralizava as acomodações do grupo, uma garoa fina começava a cair. O tempo havia estado instável durante toda a semana, mas era a primeira água que caia do céu desde que o inverno havia começado.

Passando as mãos nos cabelos molhados, Daniel voltou-se para Andy, que supervisionava os homens. Naquele momento, todos estavam tentando proteger seus pertences da chuva.

Péssimo dia para Richard ter tido instintos sexuais!

-Onde está Rousse? – indagou, assim que se aproximou de Andy.

O gigante olhou para o barão com as sobrancelhas erguidas.

-Ela pegou o porco e saiu andando por aquele lado.

A tranquilidade com que Andy lhe disse isso, fez Daniel berrar:

-E você deixou?

-Era pra impedir?

Suspirando alto, Daniel voltou os olhos para os irmãos que o serviam.

-Mark – chamou o mais velho. – Onde estão os Vardin?

-Eles disseram que iam embora – intrometeu-se Micah.

-É verdade, meu senhor – disse Mark. – O senhor Antoine chegou muito zangado com a filha, eles discutiram rapidamente, e a jovem foi em direção à cidade. O pai e a mãe a seguiram pouco depois.

Que noite!

Enfim, não iria ficar se preocupando com os franceses, pois a culpa de tudo aquilo era das mulheres Vardin. O que mais o deixava apreensivo agora era Rousse, que havia saído sozinha pela mata, provavelmente muito zangada com ele.

-Pra que lado Rousse foi? – perguntou a Andy.

O homem apontou uma trilha fechada. Como não fazia muito tempo que a jovem havia partido, ainda devia estar bem perto. Então, sem nenhuma palavra, Daniel seguiu em seu encalço.


O odor de rum era tão forte que Richard tapou o nariz com a mão. Sempre detestou bebidas alcoólicas, e o único motivo que o levava a tavernas eram as belas fêmeas que serviam as mesas. Mas, naquela cidade de fronteira, nem as mulheres valiam o esforço.

Suspirou.

Não, não estava ali por causa das prostitutas que circulavam sorridentes por entre os fregueses. Isso não passou de uma desculpa dada a Daniel. O que ele desejava era conversar com Albert Claymor. Depois de alguns sorrisos para uma das moças que ali trabalhava, descobriu que o pai de Alexei vinha todas as noites beber. Também soube que o homem não falava, não ria, e se alimentava mal. Quando Kest indagou o motivo, a morena, que já havia sentado em seu colo, apenas moveu a cabeça negativamente, e disse que a causa era desconhecida.

Após uns quinze minutos de prosa e a constatação de que Richard não iria dormir com ela, a moça foi atender outro cliente, e deixou-o sozinho. Kest voltou a atenção para o copo com rum que fingia bebericar, enquanto observava o local.

Há quanto tempo estava ali? Devia já fazer algumas horas, e a mente começou a voar para o dia em que conheceu Rousse. Pensou nos olhos azuis da amiga, idênticos ao de Alexei Claymor.

Se o que ele passou a desconfiar fosse uma grande inverdade, Richard provavelmente teria ataques de riso. Esperava que, no final daquela noite, fosse exatamente isso que ocorresse. E, se assim fosse, contaria a Daniel e os dois iriam rir juntos.

Sim! Que grande besteira! Rousse ser Jehanie Claymor! Impossível!

-Milord, sua mesa de sempre está pronta.

A voz do taverneiro fez Richard voltar ao presente. Levantou-se da cadeira quase a derrubando, e encarou o homem alto e moreno que arrastava-se seguindo o taverneiro.

Claymor era um dos duques mais poderosos da Inglaterra. A nobreza no sangue, porém, nunca deu àquele homem o desejo de vangloriar-se dos demais. Ao contrário, Albert era conhecido por não arriscar-se em jogos, não frequentar bordéis e nem sustentar amantes. Diziam que ele amava Deus e a literatura mais do que a própria vida. Quando casou-se com a russa que conheceu na corte inglesa, passou a amá-la também, mas a vida roubou-lhe a mulher loira. No entanto, deixou-lhe um herdeiro. Mais tarde, outra esposa, que já havia falecido, também entregou-lhe uma criança.

Dois filhos! Um casal! Dois seres que passariam a ser a vida de Albert Claymor, e a eles o duque dedicou tudo que tinha de mais caro.

Como seria para aquele pai saber da paixão do filho pela filha? Como ele, um religioso quase fanático, sustentava a moral dentro de sua casa?

Alheio aos pensamentos de Richard, Albert sentou-se à mesa. O taverneiro ofereceu-lhe cerveja quente, e recebeu apenas uma aquiescência do duque. O homem agia como se não estivesse ali, e sim em outro lugar.

Kest podia agora sentir muito mais forte a dor que vinha do duque. Era algo tão profundo e irreal quanto a própria existência do desespero. Deu dois passos em direção ao homem, mas parou. A aparência do duque era o que mais o deixava em pânico. O rosto de Claymor era idêntico ao de Rousse. A maneira como ele se sentava na cadeira e a forma com que mordia o lábio inferior enquanto pensava também denotava e apontava para a ruiva que namorava Daniel.

O tremor voltou ao corpo de Richard, e ele apoiou-se a uma mesa para não cair. Queria sair dali... precisava deixar aquele local. A verdade era algo forte demais para ele. Tomado por um horror que o deixou prestes a perder os sentidos, o servo de Daniel voltou-se para a porta. Embasbacado, ficou parado no mesmo lugar.

A sua frente, como que numa miragem maldita, estava Alexei Claymor. O homem loiro vinha com os olhos vagos, e nem notou sua presença. Caminhava devagar, como se estivesse, também, a morrer.

Mais dor.

A sensibilidade espiritual de Richard o estava destruindo. Se ficasse próximo daqueles dois, seria levado com eles para o inferno em que suas almas agonizavam. No entanto, as pernas não o obedeciam e, sem saída, ele apenas desviou-se de Alexei, deixando que o loiro passasse.

Estava tão próximo dos dois que podia ouvir a respiração de Albert e ver com tranquilidade o olhar atônito do pai para o filho.

-Jehan... – a voz de Albert era baixa, sofrível.

O olhar de Alexei baixou. Richard quase sentiu pena dele, tamanha a tristeza que o russo lhe transmitia.

O som de exclamações abafadas dos homens da taverna fez a atenção de Richard voltar-se para a porta. Naquele instante, a mulher mais bela que ele já havia visto em toda a sua vida adentrava o local.

Era Jehanie, ou aquela que ele cria ser Jehan! Ou não cria mais? Inferno! Por todos os demônios, o que ele devia pensar?

A ruiva aproximou-se de Alexei e colocou a mão em seu braço. Uma cena banal, não fossem os sentimentos que Richard percebia na mulher. Ela queria transmitir força ao rapaz.

-Jehan está morta.

A frase, dita por Alexei, inapropriada para aquele lugar, fez com que algo desencadeasse dentro de Albert, e o duque tapou o rosto com as mãos. Em segundos, lágrimas grossas lhe desciam pela face.

Jehan está morta”

A citação não representava apenas o falecimento de alguém. Também desencadeava a verdade ao jovem Kest. Jehanie não era a ruiva que agora estava a poucos centímetros dele, e também não era a mulher que Daniel e ele viram em ato sexual com o russo.

-Como você sabe? – o pai tentava lutar contra a informação.

Naquele instante, outras pessoas se aproximavam. Pessoas da própria comitiva de Claymor, e também um rapaz loiro que aparentava ser nobre. Mas nenhum deles chamou tanto a atenção de Richard quanto o padre que abriu caminho e sentou-se em um banco, ao lado de Albert.

-Meu senhor – o sacerdote disse, colocando um dos braços sobre o pescoço do duque -, precisa ser forte.

-Isso é uma punição divina – Albert afirmou. – Eu fui muito mau com a mãe de Jehanie. Josephine sofreu demais em minhas mãos e Deus me puniu, dando-me uma filha que eu amaria mais que tudo e depois perderia, para que eu sofresse como Josephine sofreu.

-Não é verdade, e sabes disso! – o padre rebateu. – Milord precisa aceitar o que ocorreu e seguir adiante. Sua filha foi vingada!

A menção de vingança fez Richard se arrepiar. A dor, tão palpável, agora misturava-se com ódio e degradação.

-O que aconteceu? – a indagação partiu do duque.

O rosto de Richard voltou-se para Alexei. O russo estava oco, vazio de sentimentos. A única coisa que partia dele era o sofrimento, mais nada. Nunca imaginou que veria alguém imponente como Alexei Claymor daquela forma.

-O que aconteceu? – Albert repetiu a pergunta, gritando com todos ali.

Alexei baixou a fronte. As palavras simplesmente não saiam de sua boca, mas, para sua sorte, Brent veio em seu socorro.

-O homem que a raptou tentou abusar dela. Lady Jehanie lutou contra ele, mas caiu em um barranco e quebrou o pescoço.

A crueza das palavras fez Albert perder as forças. Imagens da filha lutando contra algum bárbaro e depois morta começaram a povoar a sua mente.

Richard começou a suar. Um barranco! Alguém caída em um barranco! Rousse! A perda da memória! O padre!

Voltou os olhos para o sacerdote, segurando a língua para perguntar o nome do padre, ansioso para esclarecer aquele último ponto. O padre ainda era sua última esperança.

Deus”, orou, “que ele não se chame Adam...!”

-Minha filha...

A voz embargada de Albert fez com que uma jovem mulher morena se aproximasse.

-Milord precisa descansar – ela sugeriu aos homens.

Numa obediência silenciosa, um dos homens, provavelmente um dos cavaleiros de Claymor, aproximou-se de Albert e, juntamente com o padre, ajudou o homem a se levantar. A cena desenrolou-se sob os olhos aflitos de Richard e a postura seca de Alexei, que não moveu um músculo para ir até o pai.

-Não posso suportar a vida sem minha Jehan... – a voz de Albert era comovente.

Não devia existir dor maior no mundo para um pai do que perder um filho. Era impossível para Richard não sentir os olhos inundados de lágrimas ao presenciar a dor daquele homem.

Albert Claymor, amparado pelo sacerdote, começou a ser levado para fora da taverna. Ele soluçava alto, e as pessoas que bebiam naquele estabelecimento ficaram em silêncio, em respeito ao luto do homem.

O olhar de Kest ia de Albert a Alexei, como se esperasse que o filho fizesse algo, mas o loiro permanecia em pé, inerte, mudo e solitário em sua própria dor.

Alexei Claymor amava Jehanie, isso era um fato.

Por mais que o sentimento dele fosse deturpado, Richard conseguia entender o quão intenso era.

O russo olhava para o nada. Os olhos fixos em algum ponto inimaginável, talvez em lembranças do passado, ao lado da irmã a quem ele sempre se devotou.

Richard fechou os olhos por alguns instantes.

Rousse...

Tudo se encaixava perfeitamente. Como ele poderia culpar Claymor por aquele amor obcecado e maluco? E pior, o que faria com Daniel quando este descobrisse a verdade?

As pernas de Kest voltaram-se para a porta. Precisava voltar para o acampamento e contar tudo a Daniel. Iria proteger Rousse, ou Jehanie, do barão, se necessário fosse, mas Daniel não poderia mais viver na ignorância.

Destino cruel e traiçoeiro. Colocou nas mãos de um homem doente por vingança uma arma tão poderosa. Daniel agora poderia se vingar facilmente de Alexei Claymor. Entretanto, se fizesse isso, quem sofreria mais? O russo ou o Barão?

Abrindo os olhos, Richard começou a caminhar para fora da taverna, quando chocou-se contra alguém. Era o padre, que voltava para dar apoio a Alexei, o qual parecia tão consternado quanto o pai.

-Perdão, padre... – murmurou Richard, fazendo uma reverência.

Apesar de não ser católico, agiu como tal, ansioso para não chamar a atenção.

-Adam, por favor, ajude Alexei.

O pedido veio da ruiva que estava ao lado do futuro duque.

Adam”

O coração de Richard saltar ao peito e ele baixou a fronte dando passagem ao clérigo.

-Eu me lembrei de alguém!”

-De quem?”

-De um padre. Ele se chamava Adam...”

A imagem de Rousse e seu sorriso ao contar-lhe a lembrança pegou Richard desprevenido. Ele tapou os lábios para impedir que sua angústia se tornasse audível e, observando ir o padre ao encontro de Alexei, sentiu uma ânsia de falar a verdade àquelas pessoas.

-Marie, vá até Albert e ajude Sophie a cuidar dele. Deixe Alexei comigo.

Marie!

Por que Daniel e ele não se certificaram da verdade?

Agora...tarde demais, Richard se culpava. Desesperado, o jovem servo conseguiu chegar até a porta. Precisava fugir dali, antes que as dúvidas o enlouquecessem.

Uma chuva fina veio de encontro ao seu rosto. A noite estava clara, apesar da chuva, e algumas pessoas caminhavam por entre os becos.

Kest começou a andar sem rumo, como se perdido dentro de si mesmo.

Rousse era Jehanie Claymor!

Tapou o rosto, tentando controlar o tremor. Ele amava a amiga! Amava a irmã do maior inimigo de seu senhor!

Um segundo choque ocorreu contra seu corpo. Atordoado, baixou as mãos e encarou a mulher a sua frente. A boca abriu-se, surpresa:

-O que está fazendo aqui? – perguntou, espantado.

Continua...


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