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A Insígnia de Claymor
Capítulo XVI
Por Josiane Veiga
Nota da Autora:
1- Como vocês devem estar reparando, as postagens da Insígnia tem se tornado mais raras. Os motivos são dois: a pesquisa para a história e também o tamanho da mesma. Capítulos de mais de trinta paginas com, no mínimo, uma semana de leitura sobre Idade Média, está realmente me matando, mas eu estou gostando muito mais do resultado sem prazo do que os capítulos pequenos semanais.
Outro motivo importante: Rendição. Meu trabalho “fanfic” yaoi (história de dois homossexuais), me trouxe de volta o gosto por escrever. Quanto tempo eu não me divertia tanto! Eu precisava disso, para espairecer diante das sempre dramáticas cenas que a Insígnia insiste em ter!
Para os leitores mais desavisados ou os que não freqüentam a minha comunidade no Orkut, Insígnia se dividirá em dois livros. O livro 1 está chegando ao fim, mas creio que ainda terá uns quatro ou cinco capítulos. Não sei bem ao certo. Sendo como for, o livro dois continuará a Insígnia, trazendo a entrada de mais um protagonista. Sim, aquele que eu prometi há muito tempo, mas que resolvi não colocá-lo agora na história, pois acharia injusto que um personagem tão importante entrasse na metade da saga dos Claymor.
Sobre este capítulo: Alexei realmente é humano. Ele tem seu lado bom e ruim. Daniel também! Sei que muitas vão odiar Daniel (mais que antes) e amar Alexei, mas sinceramente, creio que as atitudes dos dois são apenas atos de pessoas que tem falhas e qualidades... e também que vivem no momento mais escuro da história da humanidade.
2- Tive a desagradável surpresa de me ver sendo plagiada mais uma vez. A história vítima dessa vez foi “Meu futuro é com você”. Dessa forma, Luciane criou uma comunidade chamada “Escritores contra o Plágio”. Eu entrei de cabeça nessa. Se você presenciar ou for vitima de plagio, entre na comunidade que nós iremos contra o plagiador. Está na hora de dar um basta nessas pessoas sem caráter que roubam o trabalho alheio. Ah, e antes que pensem em pôr as mãos na Insignia, saibam que ela é registrada e eu processo sem dó quem roubar qualquer coisa desse trabalho!
3- Chega de falar de coisa ruim! Espero que gostem do cap. Boa leitura! Obrigada Paola-chan pela revisão sempre perfeita!
Rousse apertou Phill contra o corpo, tentando aquecer tanto o animal quanto a si própria. A garoa fina daquele início de primavera fez a temperatura tornar-se um inverno inesperado. Se continuasse assim, a ruiva iria congelar em meio àquelas árvores frondosas.
-Tudo por culpa de Daniel... –murmurou.
A lembrança do namorado fê-la sentir um calor enorme no rosto. Não deveria ter fugido! Devia ter ficado e arrebentado a cabeça dele contra as pedras que cercavam o rio, cortado-o em pedaços e dado aos lobos! Entretanto, quando o viu com Claire, ela ficou sem reação, tamanho o choque. Jamais esperera que alguém como ele agisse de forma tão imoral.
Caminhou o suficiente para as pernas arderem. O sapato inadequado e a lama que se formava sob a relva macia tornavam o caminho mais penoso. Suspirou e acariciou a pele macia de Phill.
Queria que Richard estivesse ali com ela...
A garoa tornou-se uma chuva mais intensa. Apertou Phill contra o vestido molhado e caminhou rápido. De repente a noite clara de lua cheia tornou-se trevas perante seus olhos aflitos. Onde estava? Tinha quase certeza de que andava em direção à cidade, onde esperava encontrar Richard. Mas a caminhada já durava cerca de uma hora e ela não ouvia nenhum barulho típico de uma comunidade.
Então o pé afundou-se na água. Baixou os olhos e tentou ver o que tinha a sua frente. Era um córrego. Talvez um afluente do mesmo rio em que flagrara Daniel e Claire. Apesar de aparentemente não ser muito largo, era noite e sem uma visão clara, ela poderia cair em algum buraco. E, pelos céus, ela não sabia nadar! Começou então a caminhar pelas margens, em direção ao norte, sem imaginar para onde os pés a estavam levando.
Quinze minutos depois, percebeu uma pequena elevação sobre a água. Aproximou-se, curiosa.
-Oh Phill! – murmurou ao porco. – É uma ponte!
Colocou um dos pés sobre a madeira e forçou-a para experimentar sua segurança. Não tinha certeza de que estava indo para o local certo, mas resolveu arriscar. Para sua sorte, as lenhas podres aguentaram seu peso e alguns segundos depois a ruiva já se encontrava do outro lado.
Prosseguiu a caminhada pela floresta fechada. Já havia experimentado aquilo antes? Já andara sozinha pela floresta...?
Um barulho atrás de si pegou-a desprevenida. A imagem de um homem enorme e de cabelos negros surgiu em sua mente. Enquanto o pensamento divagava sobre as lembranças que agora a tomavam, suas pernas começaram a correr. Phill mexia-se aflito em seu colo, mas ela ignorou o animal. Apertando-o contra si, ela cruzava as árvores, como uma cega, sem saber para onde estava indo.
“Olha só o que encontrei: uma potranca ruiva.”
O que era aquilo? De quem era aquela voz? Então a imagem de um acampamento surgiu em sua mente, juntamente com uma briga sobre um barranco. Lembrou-se de ter caído, e por algum razão inexplicável, quando a imagem da sua queda se formou, sentiu que o próprio chão faltou sobre seus pés.
Desesperada, soltou Phill para que o animal não se ferisse, enquanto sentia o próprio corpo chocando-se contra o chão. Havia caído novamente em um barranco, mas dessa vez não era nada muito alto e sim de apenas um metro.
-Phill! – Gritou assim que conseguiu se colocar novamente em pé.
Voltou o rosto para o alto, procurando seu animal, quando viu a silhueta de alguém.
-O porco está bem! – a voz era conhecida. – O que deu em você? Por que correu feito uma louca?
Daniel!
As mãos de Rousse tremiam sem parar e suas pernas travaram. Ela ainda estava sob o efeito da última lembrança, e a presença de um homem só a assustou ainda mais.
-Ei! – ele gritou. – Está bem? Está machucada?
Em segundos o namorado surgiu ao seu lado. Ele começou a apalpar seu corpo procurando algum ferimento e, quando nada achou, encarou-a. A ruiva não podia ver com clareza o seu rosto, mas sabia que ele estava furioso.
-Por que não parou quando eu chamei? – ele perguntou, zangado.
-Não o ouvi... – ela disse baixo.
Daniel percebeu que as mãos de Rousse tremiam, assim como seu corpo. Apesar da chuva, de alguma forma ele soube que não era pelo tempo.
-O que aconteceu?
-Eu me lembrei de algo – ela contou, ainda em pânico.
Abraçando a jovem, o barão tentou aquecê-la.
-Tudo bem – ele disse. – Me contará tudo assim que encontrarmos um local seco para nos aquecer.
-O acampamento...?
-A ponte quebrou... – ele contou, revoltado - quando eu estava passando por ela – completou, num murmúrio.
Tocando-o, Rousse percebeu que ele estava muito mais molhado que ela. Um riso histérico a tomou quando imaginou Daniel na água. Do jeito que ele gostava de tomar banho, era bem possível que a culpasse pelo resto da vida pela aspersão inesperada.
-Não é engraçado! – ele berrou.
-É sim! – a ruiva curvou-se com a mão sobre a boca. – Bem feito! Você mereceu!
O barão deu-lhe as costas e foi até o porco. Pegando-o no colo, voltou-se para a mulher.
-Quando você parar de gargalhar, poderá me seguir!
No entanto, ela continuou rindo enquanto acompanhava Trent.
Fora recusada como uma vagabunda de quinta jamais seria. Apesar de no fundo nunca ter querido nada com o Barão, saber que ele preferia aquela ruiva sem formas doeu-lhe o orgulho. Daniel Trent preferia ser expulso da causa Waldense a desposá-la. Pousou as mãos sobre os lábios carnudos, contendo um riso abafado. Era uma vergonha, mas era engraçado!
Pro inferno que fosse! O barão e aquela ruiva sem graça se mereciam! Eram dois estúpidos sem malícias! Claire Vardin merecia mais! Merecia um homem com sangue quente! Alguém que não a matasse de tédio e mantivesse nela sempre o desejo do desafio.
E era isso que ela resolveu buscar quando abandonou a família. A mãe não passava de uma mulher estúpida que não soube aproveitar a beleza quando jovem e agora queria obrigá-la a agir da mesma forma tola. O pai, então, nem se falava! Um homem crédulo, idiota, que acreditava em coisas irracionais como deus, religião e moral.
Eram todos alienados!
Claire não! Claire era esperta! Uma morena inteligente que tinha a sorte de ter nascido com um corpo escultural! Ela estava indo a cidade, não para ser meretriz, e sim para desposar algum homem importante que não fosse capaz de resistir-lhe.
Uma cidade de fronteira sempre é ponto de encontro de homens ricos. Fingir-se de órfã talvez ajudasse. Ou poderia seduzir alguém do Clero que seria um bom aliado para casá-la com algum membro do feudo local.
O que fizesse, porém, teria que ter um começo. Pensando nisso, ela voltou os olhos à procura de alguma taverna. Iria pedir emprego. Precisava se manter até conhecer as pessoas daquele local. Foi neste momento que esbarrou em alguém que vinha de uma rua escura.
-O que você está fazendo aqui?
Richard!
Encarou o servo e percebeu que ele parecia nervoso, aflito.
-Está sozinha? – ele olhou para o lado preocupado.
-Estou.
Para sua surpresa, Kest acalmou-se.
-E por quê? – ele indagou. – É muito perigoso para uma mulher andar só por essas ruas.
Apesar da frase amigável, ela sabia que o conselho não era preocupado. Richard pouco se importava com o que acontecesse com ela e a jovem sentia o mesmo por aquele homem insuportável.
-Comemore! – a morena exclamou, sorridente. – Abandonei o acampamento!
-Você fez o quê?
-Disse adeus ao seu bando de amigos ineptos, a sua amiguinha desmemoriada, a minha família degradante, ao seu barão obtuso e especialmente a um certo vidente de meia tigela que sempre me causou nojo.
Richard abriu os lábios, incapaz de responder. Teria aquela Vardin ficado louca? Bom, isso não era problema dele. Já tinha suas próprias aflições a perturbá-lo.
-É mesmo? – ele perguntou. – Eu adoraria ficar e discutir contigo todos os percalços da sua decisão, mas por dois motivos, isso não será possível. O primeiro é que eu não tenho tempo e o segundo é que... – ele olhou para o céu e levantou as mãos -, oh... o segundo é que esta é a melhor notícia do dia!
-Vá pro inferno!
Ele assentiu com a cabeça.
-Creia-me, tenho quase certeza de que estarei lá. Obviamente, você também! E sua companhia será tão horrível quanto o fogo eterno; se bem que, acho, o fogo não tem uma voz de taquara rachada! – ele parecia meditar. - Enfim, com licença e seja feliz na sua nova vida.
Desviando da mulher, Richard voltou a caminhar. Claire sabia que ele estava indo em direção ao acampamento e que contaria aos pais onde ela estava quando os encontrasse pelo caminho. Mas uma segurança enorme a tomou. Era, pela primeira vez, dona de sua própria vida. Tomaria suas próprias decisões e nunca mais faria algo que não desejasse.
Riu ao voltar a caminhar. Kest, Rousse, sua mãe e todos os outros agora eram passado. Iria iniciar do zero, e iria vencer!
Porém, percebeu que nada era tão fácil alguns minutos depois. Claire caminhava de modo despreocupado pelas ruas desertas e frias quando ouviu o som de passos. Voltou o rosto e percebeu que eram três homens.
Respirou fundo e tentou aparentar calma enquanto apressava o passo procurando por alguma porta aberta onde poderia se refugiar. No entanto, por causa da garoa, todas as casas estavam fechadas. Em questão de segundos estava encurralada em um beco pelos vilões.
-O que querem? – gritou, em pânico.
-Uma beleza como você não deve ficar andando sozinha por aí! – um deles falou. – Você precisa de amigos... nós poderemos ser seus amigos, não é, companheiros?
O homem que falou tinha os dentes da boca podres e seu cheiro era de bebida. Os outros dois tinham a mesma aparência, e a risada sarcástica que trocaram a enregelou. Foi nesse momento que a garoa fina transformou-se em chuva. Desesperada, Claire percebeu que não adiantaria gritar, mas mesmo assim, quando sentiu que um deles a empurrou, um grito histérico escapou de seus lábios.
E outros vieram, na mesma intensidade.
-Cala a boca, cadela! – um deles falou, enquanto a esbofeteava.
Ao sentir a violência, caiu ao chão. Tentou, mas não conseguiu se erguer. Mãos firmes a mantinham presa. Lutou bravamente, mas era em vão. Ao levantar os olhos, percebeu que um deles abria a calça. Quase vomitou ao notar um membro sujo aparecendo diante de si.
-Depois de você, sou eu! – riu o que lhe segurava os braços.
Percebeu que o que mantinha suas pernas imóveis, agora lhe abria as mesmas. O que abaixou a calça colocou-se no meio de si e levantou-lhe as saias.
Claire achou que fosse desmaiar ao sentir os dedos grossos apertando-lhe a pélvis. Gritou mais alto, em pânico. Lágrimas escorriam pelo seu rosto e o coração parecia saltar no peito.
-Não chore, princesa! – o homem lhe disse. – Você vai gostar!
-Não! Não, por favor! – ela implorou. –Por favor, não faça isso!
Eles riram diante do estado da jovem. Claire notou que nada importava para eles e que provavelmente ela não era a primeira mulher a ser submetida daquela forma.
-Vá de uma vez! – um deles gritou. – Mal posso esperar...
-É tão bonita e macia... – o que estava nas suas pernas murmurou. – Vou me perder aí dentro.
A jovem Vardin então preparou-se para o pior. Acreditou que, naquele instante, todos os seus planos estavam arruinados, assim como sua vida, desgraçada. Mas, como um náufrago que encontra terra firme, ela esperançou-se ao ouvir o som de passos.
-Adam! Estão violentando uma mulher!
Claire sentiu o corpo libertado e percebeu que lutavam próximo a ela. Ainda estava dormente, e o medo a paralisou. Mas o som de espadas fê-la notar que alguém vinha salvá-la. Não demorou muito e o som de corpos caindo no chão chegou-lhe aos ouvidos.
Pouco depois, alguém segurou-lhe o rosto.
-Você está bem?
O que era aquele homem? Um anjo? Uma beleza tão perfeita não poderia ser real. Os cabelos dele, loiros, caiam em caracóis sobre os ombros másculos. A boca firme ostentava lábios carnudos e macios. O nariz era perfeito, quase feminino e os olhos pareciam dois lagos azuis profundos.
-Ela está em choque – uma outra voz ergueu-se.
Movendo os olhos, ela notou que aquele que agora falava parecia um padre. Vestia uma batina preta, mas também era um belo homem.
Sentindo-se levantada, Claire notou que ele a erguia do chão e a carregava no colo. Os olhos inexpressivos perceberam que o padre o seguia.
-Que noite! – murmurou o sacerdote.
-Eu precisava esfriar a cabeça antes de voltar à pousada – o loiro desculpou-se. – O que no fundo foi uma sorte, pois acabamos salvando esta aqui! – falou, apontando a jovem com a cabeça.
-Oh sim... e eu gosto tanto de bancar o herói!
A voz do clérigo era irônica. Ela sentiu o peito do homem que a carregava nos braços movendo-se, como se ele segurasse um riso triste.
-Eu odeio estupros! Todas as mulheres que eu tive vieram a mim porque quiseram...
-Eu sei! – o padre afirmou. – O que não quer dizer que você não tenha coagido algumas com pequenas mentirinhas.
-Uma mulher tem que ser muito estúpida para acreditar em palavras de amor de um homem como eu! Ou seja, mereciam ser enganadas!
Claire fechou os olhos. Apesar das palavras frias daquele homem, ela estava segura com ele. Encostou a cabeça em seu peito e deixou-se ficar, sendo levada pelos braços firmes. Cochilou e não notou quando foi colocada sobre uma cama.
-Quem é ela? – a voz feminina a despertou.
Uma mulher morena, incrivelmente bela, a encarava com os olhos chispando de ódio.
-A salvamos de um estupro – o padre explicou.
Claire vagou os olhos pelo quarto. Era um local simples, porém limpo e confortável.
-Não gosto dela! – a morena afirmou, sem se incomodar em dizer-lhe isso pessoalmente. – Tem olhos de cobra!
-Sophie! – uma ruiva aproximou-se. – É uma mulher que acabou de ser submetida a uma experiência traumatizante! Seja um pouco mais caridosa!
A morena ignorou a ruiva e foi até o outro lado da sala. Só então Claire notou que o homem que a salvara estava no recinto. O loiro mantinha-se quieto, olhando pela janela, com o olhar perdido.
-Alexei – a morena chamou-o. – Quando amanhecer, mande-a embora!
Um ciúme louco tomou Claire ao ver a mulher tocando o loiro com intimidade. Alexei! Ele se chamava Alexei! Era um nome incomum, e a Vardin não se lembrava de t^-lo ouvido antes.
Os olhos azul-turquesa então voltaram-se para ela, e o coração da morena disparou. Sentiu a respiração falhar e quis correr até ele. Provavelmente teria feito isso se tivesse visto qualquer sinal de calor no olhar. Mas não havia nada lá, só indiferença.
-Não tenho família! – ela mentiu, desesperada, esperando que ele a deixasse ficar por perto.
-Não temos nada a ver com isso! – a morena, chamada Sophie, respondeu-lhe.
Ela ignorou a outra e tentou persuadir o loiro.
-Por favor, deixe-me ficar! Posso ser sua empregada!
-Ele já tem duas empregadas, queridinha! – Sophie rebateu, deixando bem claro o tipo de emprego que ela supunha que Claire queria.
-Não tenho para onde ir – a morena voltou a implorar. – Estou sozinha no mundo. Aceito qualquer serviço!
No entanto, o loiro mal notou seu pedido. Seu olhar voltou para a janela e ele ficou alguns instantes observando a chuva, antes de murmurar:
-Jehan gostava de noites assim... – a voz parecia cálida e Claire sentiu um estranho formigamento em seu ser. – Ela afirmava que o som das gotas batendo contra o teto acalmava seu sono e tranquilizava sua mente.
-Alexei... – a morena abraçou-o por trás. – Lady Jehanie não iria gostar de vê-lo falando assim.
Lady Jehanie? Quem era aquela mulher que fazia o olhar do loiro abrandar-se. O sentimento de ciúme era tão estranho para Claire, mas ela o reconheceu de imediato. Odiou Jehanie, fosse quem quer que fosse!
Fechou os olhos tentando acalmar-se e, quando os abriu, percebeu que seu salvador a encarava.
-Sou Lord Alexei Claymor, futuro duque de Claymor e você pode dormir descansada esta noite, pois está sob minha proteção. Amanhã falaremos de seu futuro.
Depois dessas palavras firmes, o homem saiu do quarto. A morena acompanhou-o, assim como o padre. Apenas a ruiva manteve-se ali.
Claire encarou-a. Se existia uma mulher no mundo que era mais bela que ela, esta mulher estava diante de si. A ruiva parecia uma ninfa de beleza diabólica. No entanto, ela não reagiu como a morena e não foi desagradável. Por este motivo, Claire sorriu-lhe.
-Sou Marie – ela apresentou-se.
-Claire Vardin.
A ruiva voltou-se para uma bandeja sobre a mesa de canto.
-Aqui está seu jantar. Sopa e queijo. Coma bem, porque precisará de forças para enfrentar Sophie amanhã.
Sentando-se na cama, Claire recebeu a bandeja no colo. Aquela mulher lhe lembrava alguém... mas quem?
-Ela pareceu bem agressiva... – a morena comentou.
-Sophie é muito espontânea, e diz o que está na mente! Eu não sou assim, prefiro guardar para mim mesma minhas opiniões.
A voz era calma, mas Claire sentiu que havia algo entre as entrelinhas.
-E o que achou de mim?
Marie a encarou. O rosto era uma máscara inexpressiva, e nada poderia ser sugerido pela forma com que ela olhava Claire.
-Honestamente?
-Sim – a morena murmurou.
-Tenho a mesma opinião de Sophie.
Nenhuma outra palavra foi trocada entre as duas. Claire comeu em silêncio e Marie saiu de seu quarto assim que a morena terminou de jantar, carregando a bandeja sobre as mãos e o olhar de ódio de Claire sobre os ombros.
-Você não vai parar de rir?
Sim, ela tentava controlar o riso histérico, mas não conseguia. A raiva por causa de Claire, o susto pela lembrança má e a queda de Daniel no córrego causou em Rousse um misto de sentimentos desconhecidos que acabaram se transformando em uma risada incontrolável.
A ruiva pousou a mão sobre a boca, tentando pelo menos evitar o som, mas notou que não estava tendo muito sucesso.
-Pelos céus! Só nos falta ficarmos perdidos nesta floresta, sem abrigo e com chuva!
Foi então que ela notou que Trent estava preocupado. E a inquietação dele era tamanha que o mesmo nem notara que segurava o porco Phill como se fossem muito amigos.
-Você não quer que eu peça desculpas, não é?
A irritação foi a única coisa que fê-la parar de rir.
-Desculpar-se seria muito digno de sua parte! – ele respondeu.
Era uma pena que ela não pudesse vê-lo facilmente, pois assim poderia arremessar-lhe uma pedra nas fuças sem o perigo de ferir Phill.
-Quem pediu para você vir atrás de mim?
-Você está sob minha proteção... – ele começou.
-Pro inferno sua proteção! – Rousse o interrompeu. – O único que me protegeu até hoje foi Richard! A única coisa que você fez por mim foi me magoar!
Daniel virou-se em direção à namorada. No escuro, seus olhos crisparam, felinos, e ela notou que estava zangado.
-Vou desconsiderar suas palavras porque sei que você crê que lhe traí.
-Crer? – ela fechou os punhos. – Não creio em nada! Eu vi!
-Você não viu nada!
-Nada? A senhorita Vardin estava nua!
-E eu vestido, se bem me lembro.
Só de lembrar daquela imagem, Rousse sentiu uma enorme vontade de chorar, mas lutou bravamente contra aquela sensação. Continuou andando atrás dele, mas queria sair correndo mato adentro. O que pensar sobre Daniel? Deveria confiar nele?
-Oh! Que sorte! Uma cabana!
O barão parecia uma criança que ganhava um doce. Viu-o correndo em direção ao vulto que percebiam ser uma pequena casa de caça.
-Não tem luzes! Provavelmente não tem ninguém – ela comentou.
-Mas tem teto! E se Deus quiser, terá lenha! – ele respondeu, já à porta da cabana.
Quando Rousse entrou, notou que realmente devia pertencer a algum caçador pobre. O local era de uma humildade quase decepcionante. O cubículo mantinha uma mesa no centro, uma pequena lareira e palha no chão, formando uma cama.
-Que sorte! Tem pólvora! Vou fazer fogo!
Como ele sempre agia como um príncipe, deixando todo o trabalho braçal do acampamento para os outros homens, Rousse não imaginava que o barão conseguiria fazer algo tão simples como acender fogo, mas, para sua surpresa, poucos minutos depois a lareira estava acesa.
Pegando Phill, que já perambulava pela casa, Rousse sentou-se próxima à fogueira. Tanto ela quanto Daniel estavam ensopados, mas nenhum parecia ter a menor pretensão de tirar a roupa.
-Está com fome?
A voz dele fê-la voltar-lhe a cabeça.
-Eu já havia comido quando saí do acampamento.
Aquiescendo com a fronte, Daniel pareceu mais tranquilo.
-Que bom, senão teríamos que matar seu porco para preparar alguma comida.
Aquilo era alguma tentativa de piada? Pois o sucesso dele se resplandeceu na face séria de Rousse, que mais parecia ofendida que alegre.
-Vai ser uma longa noite! – Daniel murmurou para si mesmo.
Teria que aguentar a madrugada fria, as roupas molhadas e uma mulher que parecia prestes a matá-lo. Por mais incrível que parecesse, o único ali que lhe dava alguma esperança de tranquilidade era o porco, que ele sempre detestou.
-Estou muito magoada com você...
A voz de Rousse o surpreendeu. Não esperava que ela confessasse seu abatimento tão facilmente. Encarou a namorada e abriu a boca para responder-lhe, mas não sabia o que dizer. Nunca fora bom com as palavras, e o orador do clã sempre fora Richard. Entretanto, ele amava Rousse! Iria casar-se com ela e, desde que admitira seus sentimentos a si mesmo, nunca a traiu, nem mesmo em pensamento.
-Nunca pensei que você fosse o tipo de homem que...
-Espere! – ele a interrompeu. – Não continue! Você poderá dizer coisas que poderão nos separar...
-Já estamos separados...
-Não estamos! –ele negou. – Apenas ocorreu um mal-entendido...
-Não existem mal-entendidos quando se trata de adultério.
-Querer parar de me dizer isso? Eu não fiz nada! Sou inocente!
Ela desviou os olhos azuis de Daniel e olhou para o fogo. Durante alguns segundos, pareceu meditar nas palavras dele. Quando, por fim, voltou a falar, indagou:
-Vai se casar com ela?
-Vou me casar com você! – ele respondeu, irritado.
-Não vou me casar com um homem que...
A frase de Rousse não pode ser concluída, pois, para sua surpresa, Daniel pegou-lhe pelo braço e puxou-a contra si. As respirações de ambos se chocaram enquanto os narizes se tocavam.
-Nunca mais diga que não vai se casar comigo... – ele murmurou.
O cheiro masculino causou nela uma necessidade quase dolorosa de tocá-lo. Rousse o amava e não queria perdê-lo. Por que toda mulher era tola o suficiente para não lutar contra aquilo?
-O senhor Vardin não vai aceitar que não despose sua filha...
-Claire armou uma emboscada para mim, mas eu não vou aceitar isso... – ele levantou a mão e tocou o queixo de Rousse, erguendo-o. – Eu não traí você! Pelo amor de Deus, eu mal dou conta de você, por que iria atrás de outra mulher?
Sentindo o hálito cálido contra a face, Rousse resolveu acreditar no namorado. Talvez fossem seus próprios hormônios que a fizeram tomar aquela decisão, mas ela sentia que havia mais que desejo na resolução.
-Eu te amo, Daniel... – ela confessou, comovida. – Eu te amo muito, e não posso pensar em te perder...
-Isso nunca vai acontecer...
-Claire é tão bonita, e tão mais feminina. Sinto-me desajeitada perto dela, e sei que qualquer homem normal não teria dúvidas sobre qual direção olhar se tivesse que escolher.
-Tem razão! – ele disse firme. – Eu não tenho dúvidas. Eu quero você.
Naquele instante, Phill saiu de seu colo e ela não fez objeção ao animal. Aproximando-se mais do namorado, a ruiva curvou-se para ele e beijou-lhe a boca.
Não foi um beijo normal. Talvez fosse o fato de que, pela primeira vez, estavam completamente sozinhos e longe dos outros, ou talvez fosse por terem acabado de se reconciliar de uma suposta briga... Mas o caso era que, quando Trent lambeu seu lábio inferior, algo dentro dela explodiu.
-Daniel... – ela murmurou.
O beijo ficou mais profundo, mais quente. Das outras vezes em que se beijaram, era praticamente o toque dos lábios. Agora, um parecia querer sugar o outro para dentro de si, para que nunca mais se separassem.
-Rousse, pare... – ele gemeu.
O toque firme que ela já havia sentido contra o ventre em outra oportunidade - e que parecia fazê-lo constranger-se - estava de volta. Baixou os olhos discretamente e notou um volume ereto nas calças de Daniel.
Mais curiosa que assustada, a jovem desceu a mão e pegou de forma segura na elevação.
-Rousse! – Daniel parecia ter levado um choque e a encarou assustado, enquanto lhe afastava os dedos.
-O que foi?
-Você não deve fazer isso!
-Por quê?
-Porque... – ele colocou as duas mãos sobre o membro, tentando conter aquela excitação desesperadora. – Porque... não tenho idéia, mas não deve!
Estava com tanta vontade de se deitar com ela ali que esqueceu todas as palavras. O coração batia em descompasso, e a respiração parecia travada no peito.
-Quero tocar você... é errado?
Daniel encarou Rousse e sorriu. Não era uma tentativa barata de sedução e sim uma dúvida. Mesmo sem conhecer o passado daquela mulher, Trent sabia por instinto que ela era tão inexperiente quanto ele.
-Não... –ele murmurou. – Pelo contrario, isso é muito positivo. Indica que teremos uma vida conjugal feliz, e muitos filhos...
A imagem de uma criança de cabelos negros como os de Daniel surgiu na mente de Rousse, e a urgência de seu corpo aumentou de forma devastadora. Por que imaginar-se mãe fazia todo o seu corpo pulsar?
-Se eu não posso tocar você... – ela segurou-lhe as mãos - quero que me toque...
Trazendo uma das mãos de Daniel contra o peito, ela fez com que ele lhe apertasse os seios. O homem parecia hipnotizado pelo ato, e por alguns segundos nem respirou. Quando por fim soltou o fôlego, também sentia o corpo em chamas.
Apesar de toda a resistência inicial, Daniel não demorou muito dar-se por vencido. Trazendo a cabeça contra os seios dela, ele beijou-lhe por cima do vestido e, quando ouviu o suspiro satisfeito dela, perdeu completamente o controle.
Elevando-se o suficiente para ficar na altura dela, o barão começou a abrir os botões do vestido. A peça estava molhada e dificultou muito o trabalho, mas, para sua surpresa, a namorada resolveu ajudar na tarefa. Baixando a parte superior da vestimenta até a cintura, Daniel contemplou-a nua da cintura para cima.
Aqueles pequenos seios que já haviam lhe roubado o sono várias vezes estavam eretos e firmes, como se implorassem por carícias. Mal este pensamento passou-lhe na mente, o jovem barão fez-lhe a vontade. Voltando a baixar a fronte, ele tocou com os lábios o bico das mamas e, erguendo Rousse para o seu colo, ficou a beijar-lhe os seios livremente, como se fosse uma tarefa única, especial.
A ruiva sentou-se de pernas abertas contra a cintura do homem. A sensação de sentir o volume de suas calças pulsando contra seu centro feminino era indescritível, e os beijos que Daniel lhe dava nos seios eram tão prazerosos que ela pensou que iria desfalecer. Deitando a cabeça para trás, ela entregou-se inteiramente àquele momento, permitindo que o barão fizesse o que quisesse com seu corpo.
Quando Daniel voltou a olhá-la, a visão era tão erótica quanto qualquer sonho secreto que ele já havia tido. Rousse estava em sua cintura, gemendo e rebolando sobre seu membro firme, com os seios molhados por sua saliva. Aquilo foi o limite do suportável, e ele deitou-a para trás, ficando no meio das suas pernas, de joelhos, encarando aquela imagem feminina e sensual.
Os cabelos encaracolados e ruivos de Rousse caíram sobre os seios brancos e isso foi tudo que a protegeu de seu olhar de macho quando ele puxou-lhe o vestido pelas pernas.
Nua...
Apesar da falta de roupas, não havia frio em Rousse. Ao contrário, ela era fogo puro, paixão e luxúria.
-Minha mulher... – Daniel gemeu quando tirou a camisa.
O olhar faminto de Rousse demorou-se nos ombros másculos e firmes. O tórax duro dele era formado por músculos tensos que estavam encharcados de suor.
-Ainda há tempo... – ele murmurou, não convicto.
-De quê?
-De parar...
-Não quero que pare... – ela sussurrou. – Estou queimando...
Daniel podia sentir o pênis erguer-se ainda mais e bater contra a barreira da calça. Era um tormento doloroso e prazeroso ao mesmo tempo. Como um zumbi dominado pelo próprio anseio, ele puxou a calça justa e ficou nu diante da ruiva.
O membro sempre fora um pouco maior que o normal e agora, ereto, poderia assustar Rousse, mas ao olhá-la, notou que ela não parecia nem um pouco chocada, apenas demonstrava interesse.
-Você é bem diferente de mim... – ela comentou.
-Sim...
-Ainda estou proibida de tocá-lo?
Daniel gemeu.
-Não...
Erguendo o corpo, Rousse levou a mão até o pênis de Daniel e o acariciou. Para sua surpresa e vaidade feminina, percebeu que aquilo o deixava totalmente sob seu controle e, na sua mão, o membro já firme ficava ainda mais duro.
-Quando eu toco você – ela disse -, me sinto muito mais...
A voz falhou, mas o barão sentiu-se curioso.
-Muito mais o quê?
-Molhada...
Incapaz de resistir mais tempo, ele segurou-lhe os ombros e empurrou-a para trás, enquanto deitava-se sobre a mulher. Descendo as mãos pelas laterais, o barão apertou-lhe as coxas e ergueu-as, contra ele.
-Se você não gostar, me diga...
-Sim...
-Prometa que vai dizer... não quero que sofra só porque me ama...
Os olhos dela ficaram repletos de lágrimas pelo cuidado que ele tinha.
-Eu prometo – afirmou emocionada.
Introduzindo a cabeça de seu órgão na entrada da feminilidade de Rousse, Daniel tentou aparentar calma, o que não era muito fácil, já que era a primeira vez que ele fazia aquilo. Tentou se lembrar de todas as histórias que Richard lhe contava, mas nada vinha. Estava agindo por puro instinto e não fazia idéia se isso era bom ou ruim.
Quando Rousse sentiu aquele mastro duro e quente entrando dentro de si, ela pulsou de prazer. Queria aquilo e mesmo a sensação de dor que seguiu-se ao ato, não tirou dela o sentimento de posse, de soberba, diante da situação.
Fazer sexo com Daniel era mais que um simples ato que até os animais praticavam. Não era apenas um corpo entrando no outro e um dominando o outro. Era uma entrega e um domínio. Uma derrota e uma vitória. Um ato físico, mas também emocional... Puramente emocional...
A moça gemeu quando o sentiu completamente dentro de si, e arqueou as nádegas para tentar participar mais da sensação. Não se importou com a dor, apesar de choramingar um pouco quando a ardência ficou forte. Não o deixou parar quando ele o quis ao perceber-lhe as lágrimas e tampouco o deixou sair de dentro de si quando ele ergueu-se pela primeira vez.
Porém, ela notou que a subida e decida que Daniel fazia com as nádegas, num momento preciso de vai-e-vem, era exatamente o que a deixava em estado de graça, o que lhe dava tanto prazer quanto uma mulher podia querer.
Envolta nas próprias sensações, a ruiva foi pensar em Daniel apenas quando o ouviu murmurar um monte de palavras que ela não conseguia identificar. Ele gemia alto, como se sentisse dor, e ela teve-lhe pena, mas não conseguia parar.
Ergueu as coxas e prendeu-o pela cintura, enquanto lhe acariciava o rosto. Que Daniel a perdoasse, mas ele teria que sofrer, pois ela não queria parar com o ato de jeito nenhum.
Foi então que o movimento dele ficou mais intenso, mais frenético. Rousse também era capaz de sentir-lhe a carne quente latejando dentro de si e pouco depois ela foi inundada por um líquido fervente que a ajudou a chegar ao ápice daquilo que ela creu ser a maior felicidade que pudesse existir no mundo.
Queria fazer aquilo de novo! E de novo... e novo! E tantas vezes quanto fosse possível! Sentiu que Daniel desabou sobre si e apertou-o nos braços, feliz pelas sensações que ele lhe dera.
Sim! Iria fazer muito aquilo! Faria até que Daniel não aguentasse mais! Sentia pena dele, mas, num pensamento mau e malicioso, pensou que era justo. Afinal, se as mulheres tinham regras todos os meses, que fossem elas então a sentir prazer!
Pela primeira vez na vida, agradeceu aos céus por ter nascido fêmea!
Porém, quando baixou os olhos para encarar o namorado, que ainda respirava pesadamente contra o peito dela, um carinho enorme a tomou. Passou os dedos firmes pelos cabelos negros de Daniel e culpou-se pelo egoísmo.
-Eu lamento muito... – murmurou.
-Unh.. – ele gemeu e então se ergueu para ela. – Lamenta?
-Sim... – ela parecia tão maternal naquele instante que ele imaginou se Rousse não iria colocar-lhe no colo e lhe dar tapinhas de consolo na cabeça. – Por ter sido doloroso pra você...
-Doloroso?
-Sim. – a sobrancelha ruiva de Rousse se ergueu. – Não foi?
-Não...
Pareciam duas pessoas de dois países estranhos, tentando falar a mesma língua.
-Foi doloroso pra você? – Daniel indagou.
-Só de início.
Ele baixou a fronte e olhou para as coxas dela.
-Você sangrou um pouco... – ele resmungou.
Rousse sentou-se imediatamente e observou o sangue escuro que se misturava ao sêmen.
-Eu sangrei? Você pode ter sangrado!
-Eu?
-Sim... por que só eu que sangrei? Só por que eu sou mulher? Está me chamando de fraca?
Ela estava zangada? Daniel sentou-se no meio das pernas dela e coçou a cabeça.
-Sim... não... na verdade, porque você é mulher...você sangra... não é? – ele tentou ligar os fatos.
Mas vendo a face indignada da namorada, percebeu que não se saíra bem.
-Isso é um absurdo! Recuso-me a ficar ouvindo você denegrir meu sexo.
-Denegrir?
Que inferno! Mas do que diabos ela estava falando?
-Mesmo que o sangue fosse meu, pelo menos eu não fiquei gemendo como se estivessem arrancando minhas tripas! Eu aguentei a dor muito melhor que você!
-Mas não teve nenhuma dor pra mim...
-Não fique se fazendo de corajoso, porque qualquer um que tivesse lhe ouvido saberia que foi muito ruim pra você.
-Ruim?
Só então Daniel percebeu que Rousse entendera mal os gemidos dele, e notou também o quanto o fato de crer que uma mulher poderia se sair tão bem quanto um homem em qualquer circunstância era importante pra ela.
-Eu te amo...
A confissão súbita do homem fez Rousse olhá-lo chocada. Já se conheciam há meses. Ela já lhe confessara os sentimentos em inúmeras oportunidades, mas Trent jamais havia tocado no assunto. Daniel era tão retraído e de poucas palavras que ela já se conformara em nunca ouvi-lo dizer algo parecido. Entretanto, agora sentia-se grata.
-Mesmo?
-Mesmo.
Repentinamente, a jovem voltou a aproximar-se do homem. Abraçaram-se num ato tão íntimo quanto aquele que haviam acabado de partilhar.
-Vamos nos casar amanhã... – ele prometeu.
-Amanhã?
-Sim. O que fizemos hoje foi errado, pois não somos casados, mas o erro será corrigido amanhã – ele parecia feliz. - Quero dormir com você todas as noites enquanto eu viver.
As palavras a tocaram profundamente. O beijo que se seguiu foi apenas o início da noite, que prometia ser longa.
O som de passos no corredor não acordou Claire. Na verdade, a jovem não havia conseguido dormir ainda, ansiosa por decidir o destino da sua vida.
-Milord Alexei quer companhia?
O som da voz de Sophie chegou aos seus ouvidos, e então Claire percebeu duas coisas: que a morena oferecia seus préstimos sexuais ao seu senhor, e que Alexei dormia no quarto em frente ao seu.
Levantando-se da cama, Claire aproximou-se da porta e colou o ouvido na mesma, tentando escutar a resposta.
-Obrigado, minha querida... – ele disse, triste. – Mas quero ficar sozinho.
O suspiro de Sophie irritou profundamente Claire. Um pequeno silêncio antecedeu os sons dos passos e então a morena Vardin notou que a empregada havia voltado ao próprio quarto.
Que homem era aquele que recusava uma mulher tão bela? Que homem era ele que brigava na rua com marginais para defender uma desconhecida? Talvez Alexei Claymor fosse a resposta a suas preces, e aquilo era deveras animador.
Com o coração saltando no peito, a jovem abriu a porta devagar. O quarto de Alexei não estava com a porta totalmente fechada, e ela podia ver que as luzes não haviam sido apagadas.
Audaciosa, ela resolveu agir.
Caminhou de forma leve até a entrada e, tentando aparentar calma, bateu levemente na madeira da porta, chamando a atenção do futuro duque, que estava de costas, em frente à janela.
Quando ele voltou os olhos para ela, o coração da morena disparou. Por Deus, ele era perfeito! Claire sabia que havia se apaixonado por ele à primeira vista e, de repente, estava ansiosa para que ele notasse a mulher que ela podia ser.
-Algum problema?
A voz dele era calma e apática. Não precisava ser um grande gênio para saber que o jovem Claymor parecia triste.
-Vi as luzes acesas... – Claire começou. – Como o senhor foi meu salvador esta noite, perguntei-me se não quer conversar...
Os olhos azuis dele pareceram escurecer.
-Conversar?
-Sim... sobre sua dor.
Era um risco que Claire sentiu prazer em correr. Se ele a rechaçasse, a jovem aceitaria e voltaria ao quarto, derrotada. Mas, se ele aceitasse conversar, talvez pudessem criar um vínculo profundo.
-Estou em luto – ele contou, aproximando-se da mesa central do quarto.
-Lamento muito – ela tentou parecer sincera. – Ouvi o nome de uma lady quando estava em meu quarto – Claire foi em direção à mesa devagar, calculando cada passo. – Creio que era Jehanie, não? Era sua esposa?
Alexei colocou as duas mãos no bolso.
-Era minha irmã – ele sentou-se em uma cadeira de madeira e colocou os cotovelos sobre a mesa.
Suspirando de alívio por saber que nenhuma dama dominava o coração de Claymor, a jovem quase sorriu.
-Que triste. Como ela faleceu? – Claire sentou-se à mesa, acompanhando-o.
-Foi raptada quando minha família retornava da França para a Inglaterra.
-E como vocês sabem que ela faleceu?
-Pegamos o bandido e ele nos contou que, durante uma tentativa de estupro, ela caiu de um barranco e quebrou o pescoço.
Claire já tentava aproximar sua mão da de Alexei, numa tentativa de consolo quando ouviu um barulho a porta. Um homem de cabelos negros e de beleza impressionante adentrou no local.
A jovem levantou-se imediatamente, fazendo uma reverência ao homem que chegava.
-Quem é essa? – o homem não se dignou a encará-la.
-Salvei-a esta noite de um estupro – Alexei contou, indiferente. – Não tem família e está à procura de um emprego.
-E o que ela faz no seu quarto a esta hora da noite?
Alexei levantou o olhar para o homem e, zangado, respondeu desrespeitosamente:
-Por que essas perguntas estúpidas? Acha mesmo que tenho cabeça para me deitar com uma mulher depois de ter perdido minha Jehan?
O homem passou os dedos pelos cabelos negros e suspirou. Foi então que encarou Claire.
-Perdoe-me senhorita – disse, abatido. – Estou passando por momentos difíceis. Normalmente sou mais respeitoso...
Não foi a frase, nem tampouco a forma com que o homem saiu do quarto com os ombros caídos que paralisou completamente a jovem Vardin. O que fez Claire parar no lugar, sem conseguir se mexer ou respirar, foi o olhar do homem. Voltou os olhos para Alexei e notou-lhe que eram idênticos... olhos azul-turquesa.
-Seu pai? – murmurou a pergunta.
-Sim...
Olhos azuis iguais aos de Rousse!
A constatação caiu sobre Claire como um balde de água fria. Uma irmã raptada, que havia caído em um barranco... e com aquele olhar único, de uma cor exclusiva. Podia haver tanta coincidência neste mundo?
-Como era sua irmã?
-Uma pessoa maravilhosa...
-Falo fisicamente...
Claymor levantou-se imediatamente, e aproximou-se de Claire. Pelos céus, a mulher falava como se Jehanie estivesse viva!
-Ruiva... – murmurou. – Magra, de olhos azuis... – ele mal conseguia falar. – Por que quer saber?
-Com que roupa ela foi raptada?
-Usava camisola e um penhoar de peles...
Claire respirou fundo e Alexei preparou-se para algo grandioso.
-Estive em uma comitiva que saía da França em direção à Inglaterra – ela contou. – E no caminho encontramos uma jovem ruiva, magra e que vestia uma camisola branca e um penhor de peles. Ela tem seus olhos e falava muito de um padre que ela considerava seu melhor amigo.
A respiração de Alexei quase parou. Ele sentiu os olhos cheios de lágrimas, mas não sabia se era correto entregar-se àquela esperança.
-Não pode ser a mesma pessoa – ele murmurou. – Jehanie teria pedido para que a levassem para a família ou...
-Ela perdeu a memória – Claire contou. –Não se lembra de nada!
O coração de Alexei parecia que iria escapar-lhe pela boca. Aliás, cria ele ser capaz de sentir o órgão quase lhe arrebentando o peito. Era como se, de repente, tornasse-se um adolescente novamente, cheio de dúvidas e anseios, cheio de medo e coragem, num misto de sentimentos conflitantes que o deixavam sem saber como reagir.
-Quero ver esta mulher! Quero vê-la agora! Preciso saber se ela é ou não minha irmã!
A oportunidade perfeita! Claire quase gargalhou! Diziam que os deuses davam as chances somente àqueles que soubessem aproveitá-las, e a jovem Vardin pensou que não deixaria uma ocasião destas escapar.
-Levo-o até esta mulher... Mas somente com uma condição.
Uma chantagem? Alexei sentiu a boca secar, mas qualquer preço valeria descobrir que Jehan estivesse viva.
-Pagar-lhe-ei o que quiser...
-Quero você!
Alexei imaginou se estava ouvindo direito. Havia salvado aquela jovem há poucas horas e ela não o conhecia o suficiente para pedir tamanho absurdo.
-É alguma brincadeira?
-Eu sempre sonhei em ser uma Lady! Se casar-se comigo eu o levarei até a ruiva, e você irá descobrir se ela é ou não sua irmã.
-Está maluca! – ele gritou, zangado. – Eu jamais me casaria contigo sem ao menos saber se está mulher é ou não Jehan! Como ousa exigir-me tamanho disparate?
-Escute! – Claire parecia segura. – Eu não acredito em tantas coincidências. Encontramos uma mulher idêntica à descrição que você me deu e se ama tanto sua irmã, por que não vender-se para tê-la?
-Saia daqui! – Alexei gritou. – Sua gananciosa desprezível! Bem que Sophie me avisou! – ele parecia prestes a bater em Claire. – Como ousa inventar tamanha mentira apenas para conseguir seus propósitos sórdidos?
Claire aproximou-se da porta, assustada.
-Vai se arriscar? Por que não paga para ver? – ela confrontou-o.
-Amanhã mesmo irei atrás da sua comitiva e verei se encontro uma mulher com a descrição de Jehan! Não preciso ter que me unir a uma vadia como você para isso!
-A comitiva é formada por Waldenses. Estão fugindo do poder católico e estão escondidos! Nunca os encontrará!
Claymor quase levantou a mão para atirar a morena porta afora, mas foi impedido pela chegada de um homem. Encarou Brent Feehan e suspirou.
-O que foi? – perguntou, tentando voltar à habitual frieza.
-Os porcos que comprou na pousada em Paris estão sendo trazidos pelos soldados. Como iremos partir daqui a dois dias, pergunto se quer que unam a comitiva que acaba de chegar a nossa.
Alexei passou os dedos pelos cabelos loiros e fechou os olhos.
-Faça como achar melhor, Brent...
-Porcos? – a voz de Claire aumentou. – Porcos! Rousse, a ruiva que encontramos, adotou um filhote de porco!
Cada vez mais irritado, Alexei ordenou a Brent:
-Tire essa mulher daqui! Coloque-a na rua!
Feehan aproximou-se de Vardin e pegou-lhe no braço.
-Acredite em mim! –ela gritou.
-Vamos embora, senhorita – Feehan murmurou.
Quando a figura de Claire desapareceu de suas vistas, Alexei sentiu-se aliviado. Devia ter confiado na intuição de Sophie!
-Phill! – a voz já longínqua da morena chegou aos seus ouvidos. – Phill! É como Rousse chama o porco!
Alexei ainda sentiu-se paralisar por alguns instantes antes de sair correndo atrás de Claire.
-Você não quer um filho homem? – Rousse parecia chocada.
Daniel sorriu e voltou os olhos para a namorada que caminhava ao seu lado, em direção ao acampamento. Eles não se tocavam, mesmo que sentissem muita vontade. Daniel carregava Phill como um pai com o filho e Rousse sorria ao ver a cena.
A manhã estava ensolarada, num contraste impressionante com a noite chuvosa. Trent perguntou-se se os pássaros cantando alegremente eram uma forma da natureza compartilhar sua felicidade.
Haviam feito amor duas vezes durante aquela noite, e a perda da virgindade dupla os uniu ainda mais. Estava ansioso para reencontrar Richard e lhe comunicar do casamento. Iriam procurar um pastor protestante, mas, se não encontrasse, iria contra seus princípios e pediria a bênção de um padre. O importante era o casamento o mais rápido possível, pois não queria passar a noite sem sentir a pele quente de Rousse roçando na sua.
-Quero muitos filhos! E sim, quero um filho homem! Mas a prioridade é uma menina!
A ruiva sorriu.
-Por quê?
-Quero que ela se chame Rianna!
-O nome da sua irmã?
-Sim! Creio que é uma forma de homenageá-la!
Rousse pegou em seu braço, deixando que os seios tocassem em Daniel. O ato audacioso agora parecia inocente.
-Concordo, meu amor! – ela riu. – Gostaria de lembrar-me do nome de meu irmão; assim, se tivéssemos um filho homem, eu poderia chamá-lo pelo nome do tio.
Daniel tocou a mão de Rousse.
-Está se lembrando de várias coisas ultimamente. Creio que logo recuperará totalmente a memória.
Eles ainda sorriam quando chegaram ao acampamento. Os irmãos Mark e Matheus eram os únicos que se encontravam ali. Pareciam ocupados arrumando a bagunça provocada pela chuva, mas pararam os afazeres ao notar seu senhor aproximando-se.
-Milord! – saudou Matheus. – Estávamos preocupados!
-Fomos impedidos de voltar pela chuva – Daniel explicou rapidamente. – Onde estão os outros?
-Foram pegar mantimentos para a viagem – Mark explicou. – Os Vardin foram embora – como Daniel já sabia do fato, a explicação foi para Rousse. – E Richard está em sua barraca. Pediu-me que lhe avisasse que precisa falar-lhe com urgência.
Os namorados encararam-se surpresos. Sabendo que havia assuntos que Richard queria privacidade, ela comunicou a Daniel que iria com Phill ao rio se lavar.
O barão encaminhou-se então à barraca. Quando adentrou, encarou o melhor amigo. Richard parecia nervoso, mas isso não impediu Daniel de lhe abraçar.
-Tenho algo a contar-lhe! – disse Trent quando o soltou.
-Qualquer coisa que você tenha a me dizer, pode esperar! – Richard o interrompeu.
Daniel riu.
-Não quero saber de Claymor! – o barão entendeu mal o estado de Richard. – Acabei de passar a noite mais maravilhosa de minha vida.
O olhar arregalado de Richard parecia significar muitas coisas.
-Você dormiu com Rousse?
-Eu sei que foi errado, mas vou me casar com ela! Vou me casar hoje! – ele retificou. – Eu a amo e ela será a mãe de meus filhos.
Daniel esperava que Richard compartilhasse sua felicidade, mas, entretanto, o amigo não fez nenhuma menção de rir.
-Você não fez isso... – murmurou embasbacado.
-Fiz! – Daniel confirmou. – Qual o problema?
-Você passa mais de vinte anos da sua vida sem chegar perto de uma mulher, e quando eu me ausento por apenas uma noite você dorme com a minha protegida? – Richard irritou-se.
Daniel gargalhou.
-Se isso te alivia, nós não dormimos literalmente...
Inesperadamente, Richard agarrou Daniel pela camisa e o sacudiu. A reação era tão estranha que Trent não conseguiu reagir.
-Idiota! Idiota! Você dificultou tudo! – Richard dizia, enquanto as mãos batiam em pequenos socos no peito de Daniel.
-O que houve? – Daniel parecia assustado agora.
Como se tivesse perdido as forças das pernas, Richard ajoelhou-se perante Daniel.
-Está me assustando, Richard – o barão murmurou.
Agachando-se em frente ao amigo para ficar a sua altura, percebeu que Kest tinha lágrimas nos olhos.
-Por Deus, me diga o que aconteceu?
-Eu descobri a verdadeira identidade de Rousse...
A notícia assustou Daniel e, de alguma forma, ele tentou se preparar para o pior. Mas nada poderia prepará-lo para a próxima informação:
-Rousse é Jehanie Claymor – Kest contou de supetão.
A boca de Daniel secou-se e ele sentiu-se como num pesadelo.
-O quê? Você está errado... Eu conheço Jehanie Claymor...
-Não! – Richard negou. – Quem nós vimos naquela sacada com Alexei não era Jehanie, e sim sua ama. A mulher é muito parecida com Rousse, e isso nos confundiu.
Daniel negou com a cabeça.
-Se isso é alguma brincadeira, é de péssimo gosto!
-Eu tenho certeza, Daniel! – Richard confirmou. – Estive na noite passada na cidade e ouvi toda a história da boca do duque. Durante o retorno à Inglaterra, a comitiva de Claymor foi atacada e Jehanie foi sequestrada. Os Claymor conseguiram pôr as mãos no bandido, e então souberam que a lady havia caído de um barranco. O homem achou que ela quebrou o pescoço e, portanto, todos os Claymor acham que ela faleceu.
-Isso não prova nada! – Daniel negou-se a acreditar.
-Vá à cidade e olhe Albert Claymor. O cabelo ruivo é a única característica de Rousse diferente da do pai. Além disso, os olhos dela são idênticos ao de Alexei e eu conheci o padre de quem ela fala!
Levantando-se, Daniel foi até um dos cantos da barraca e ficou lá, como se estivesse tentando compreender toda aquela novidade.
-Não... O destino não pode ser tão cruel de me fazer apaixonar pela irmã do meu pior inimigo.
-Daniel – Richard aproximou-se e lhe abraçou por trás. – Ouça-me, meu amigo: não faça nada de que vá se arrepender. Rousse não tem culpa do que aconteceu. Ela não é como o irmão! Não tome nenhuma atitude precipitada!
Um silêncio se seguiu às palavras de Richard. O rapaz soltou Daniel e ficou esperando as costumeiras explosões ou os gritos de ódio, mas o barão não lhe falou absolutamente nada.
-Onde está Rousse? – perguntou Kest tentando tirá-lo da letargia.
-Vai contar a ela?
-Eu devo! – Richard murmurou. – Onde ela está? – repetiu, ansioso.
-Foi ao... – a palavra “rio” quase escapou-lhe dos lábios, mas ele a deteve a tempo. – Foi ao bosque procurar alguma fruta para Phill.
Aquiescendo com a face, Richard lhe avisou:
-Irei atrás dela. Por favor, pense no que vai fazer. Vou conversar com ela e lhe explicar certas coisas. Depois a trarei aqui para que vocês se acertem.
Daniel não olhou para Richard, mas soube pelo som que ele foi na direção oposta de onde estava Rousse... Jehanie! Com os olhos secos e uma raiva estranha o dominando, ele saiu da barraca e foi para o rio. Os irmãos que estavam no acampamento viram a cena, mas não disseram nada.
Os passos o guiaram de forma cega, pois ele não conseguia pensar direito. Tudo que via era Rousse lhe falando do padre, do irmão loiro. Lembrou-se de Richard lhe contando que ela era uma duquesa, e da forma com que Rousse falava da Bíblia. Como pudera ser tão cego? E pior, como pudera se apaixonar por aquela mulher? Rousse era irmã de Alexei Claymor! A irmã que o vilão amava mais que tudo! Lembrava-se agora dos boatos que ouviu de Pierre Danry falando que Claymor queria praticar incesto com a irmã. Bom... pelo menos isso, ele sabia que era mentira, pois, até a noite de ontem, Jehanie era virgem.
Parou ao avistá-la. A ruiva estava com as roupas de baixo, lavando-se no rio. Ela parecia indiferente ao frio e ria para o porco que fuçava próximo. Ele deve ter feito algum barulho, pois ela virou-se em sua direção e acenou.
Daniel estancou...
Ele a amava... Mas, e Rianna? Como poderia simplesmente esquecer todo o passado e não vingar sua irmã?
-Você está tão sério... – ela comentou assim que se aproximou.
Daniel naquele instante lutava com os dois sentimentos conflitantes. Ou a abraçava ou brigava com ela. Não sabia o que fazer...
-Viu Richard?
-Sim... – ele respondeu, melancólico.
Aproximando-se do vestido que estava jogado na relva, Rousse começou a se vestir.
-Contou-lhe sobre o casamento?
Era o momento...
-Não vai haver casamento...
Da sua vingança...
-Por quê? Aconteceu alguma coisa?
Daria a Claymor o mesmo que ele lhe havia dado: uma irmã maculada...
-Por que você acha que eu me casaria com uma rameira que mal podia esperar para abrir as pernas para mim ontem à noite?
Rousse arregalou os olhos e imaginou se a mente estava lhe pregando uma peça. Aquilo não podia ser real!
-Por que está falando assim? – ela murmurou assustada.
-Eu pensei melhor. Já tive de você o que qualquer homem desejaria, portanto, não vejo motivos para me unir a uma mulher sem nome, sem identidade... Uma ninguém.
A atitude agressiva do barão assustou Rousse de forma intensa. Ela terminou de colocar o vestido enquanto absorvia aquelas palavras estranhas. Daniel havia dito que lhe amava! Havia falado em casamento! Não uma, mas várias vezes! Por que agora ele agia assim? Era como se não fosse ele!
-Diga-me o que aconteceu! – ela implorou. – Não posso crer que você tenha mentido pra mim esse tempo todo.
-É muito fácil enganar vocês, mulheres... – ele ironizou cruelmente. – Tão simples... Algumas palavras tolas, e vocês já se entregam sem nem pestanejar.
A ruiva nem notou que lágrimas já lhe caíam pela face. Ouvi-lo difamá-la daquela forma era a coisa mais terrível pelo que ela já havia passado. O coração parecia doer no peito, e ela mal conseguia encará-lo. Como poderia se defender diante daquelas palavras?
-Quero que vá embora... – ele comunicou. – Pegue seu porco e desapareça da minha vida!
Por alguns segundos ela ainda ficou paralisada, mas então, como um zumbi ao ouvir um comando de seu amo, Rousse correu em direção a Phill. Pegou o animal no colo e sumiu por entre as árvores que formavam aquela robusta floresta. Não olhou para trás e tampouco viu que Daniel ainda correu alguns metros atrás dela antes de cair ajoelhado no chão, chorando.
O juiz da cidade encarou o futuro duque de forma chocada:
-Um casamento? Mas preciso realizar os proclamas... o padre precisa de tempo...
-Eu farei o casamento! – um padre de cabelos negros e de aparência impecável se aproximou. – Sou Adam Morgan, padre da Santa Igreja. De você, tudo que queremos é o ato formal.
O homem gordo e de cabelos brancos sentou-se. Diante de si encontrava-se o futuro duque de Claymor e uma jovem que nada lhe lembrava uma lady.
-Seu pai sabe? – indagou ao jovem.
Alexei não respondeu. Atirou sobre a mesa um saco cheio de moedas de ouro. Seu olhar era intenso, mas frio demais para um homem apaixonado.
-Mais alguma pergunta? – indagou o jovem rapaz.
Foi assim que se iniciou a manhã daquele dia para Alexei Claymor. Alguns anos à frente ele se lembraria daquela data e evento como um pequeno estorvo antes de conseguir aproximar-se novamente da irmã. Mas, agora, cavalgava ao lado de Claire Vardin e do seu padre e mentor Adam. Não havia comunicado a ninguém do casamento e os poucos que sabiam eram seus únicos verdadeiros amigos: Morgan e Feehan. Brent, aliás, havia permanecido na pousada para apaziguar quaisquer ânimos exaltados das mulheres – leia-se Sophie – quando notassem que o rapaz havia saído com a morena Vardin.
-Onde é o maldito acampamento? – indagou à mulher.
-Estamos quase chegando, marido! – ela sorriu.
A palavra de posse o irritou profundamente. Se não fosse Jehanie a ruiva desmemoriada, ele daria um jeito de Claire morrer para se livrar daquele empecilho. Mas se fosse Jehan, a morena estaria salva, afinal, ainda era um homem de palavra.
-Isso só pode ser loucura... – a voz era de Adam.
Virou-se em direção ao padre.
-Concordo... Mas se existe uma chance, quero arriscar!
O padre aquiesceu. Adam era uma pessoa fria, mas aquela pequena esperança que a morena Vardin deu-lhe ao contar sobre a ruiva fez com que ele experimentasse uma sensação de formigamento no corpo. Estava ansioso demais, e precisava logo ver a jovem.
A vida voltaria aos olhos de Albert se a filha estivesse viva...
-Adam...
A voz fraca de Alexei o fez encarar o jovem loiro. Notou então que o rapaz olhava além, para perto das árvores. Seguiu o olhar e então percebeu uma figura feminina, ruiva e vestida com um pobre vestido verde. A moça estava sentada próxima de uma árvore. Tinha algo nos braços que ele não conseguia identificar o que era, e a face estava abaixada. Ela permanecia numa posição fetal... parecia chorar.
-Meu Deus... – Adam suspirou, esquecendo-se provisoriamente de que era ateu.
O padre não percebeu de que parara o cavalo. Alexei também havia estancado no lugar. Ficaram os dois lado a lado, olhando para aquela imagem, com medo até de respirar, como se ela pudesse desaparecer de seus olhos. Seria um fantasma? Uma alucinação?
-É ela! – disse Claire. – Ela é a ruiva que encontramos na estrada.
A mulher estava muito distante daquela pequena comitiva, mas Alexei identificara a irmã. Era-lhe impossível não notar. Faltava-lhe apenas comprovar com a visão da face, e então ele desceu do cavalo.
Não queria assustá-la. Se ela estivesse realmente sem memória, provavelmente não iria reconhecê-lo. Caminhou devagar até ela e somente quando estava a poucos metros da figura, ele ousou falar.
-Jehan...
Ela levantou a cabeça. Os olhos estavam inchados de chorar, mas ainda traziam o azul turquesa que ele tanto gostava. A pele e os cabelos haviam perdido o brilho dos cuidados constantes das amas, mas ainda eram a visão mais bela que ele já havia visto.
-Você... – ele murmurou. – Está viva...
O porco que estava no colo de Jehanie saltou para o chão, mas a jovem não fez intenção de levantar-se. Ela encarava aquele homem loiro sem dar grandes demonstrações de reconhecimento. Apesar de tê-lo visto em algumas visões, as imagens nunca eram muito nítidas.
-Jehan... – ele voltou a chamá-la.
Jehan...Jehanie... O nome surgiu em sua mente com força. Era o seu nome! Jehanie Claymor! Duquesa Jehanie Claymor!
Alexei foi se aproximando devagar, respeitando o conflito que via nos olhos da irmã. Segurava-se para não abraçá-la naquele instante e encher os cabelos cacheados de beijos. Estava viva! Estava ali, diante de si. Estava ao alcance de suas mãos e nunca mais sairia de perto dele.
-Sou eu... – o rapaz murmurou.
O loiro ajoelhou-se diante dela, e segurou-lhe as mãos.
-Sou eu... Alexei...
-Alexei?
-Sim... seu irmão...
“-Alexei.
-Sim?
-Amo você mais que tudo.”
A confissão de amor surgiu na mente de Rousse de forma impecável. Alexei Claymor. Seu irmão mais velho. Seu protetor e melhor amigo.
-Alexei... – ela murmurou emocionada.
-Sim...sou eu...
-Amo você mais que tudo... – repetiu a confidência no mesmo instante em que se atirou em seus braços.
Continua...