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Author of 10 Stories |
Notas da Tradutora: Bem, oi!
É a primeira vez que eu me aventuro em uma tradução, e é a primeira vez que posto alguma coisa no fandom brasileiro de fics em Naruto. Em geral, eu sempre fiquei lá mesmo pelas fics de Harry Potter me divertindo com as minhas fics de UA e tudo o mais (xD), mas esse ano eu fiquei passeando bastante pelas fics em inglês de Naruto, em NaruSaku, mais especificamente, porque lá em inglês tem 160 páginas de fics do casal, acho... o que é uma diferença monstruosa se considerar as cinco, seis páginas daqui em Português. Triste, mas é a realidade xD
De qualquer modo, essa é uma das minhas fics favoritas, e achei que poderia ser interessante traduzí-la para quem não pudesse lê-la em inglês e tudo o mais. A autora disse que, em termos de casais, a fic pode ou não terminar em NaruSaku, mas se caso o Naruto terminar com alguém provavelmente será a Sakura, porque é o que vem mais naturalmente, na opinião dela. Mas é uma leitura que vale MUITO a pena, e espero que vocês gostem :D.
Bem, já dizendo, TODOS os créditos da história vão à autora da fic, Shivakashi (Thank you very much for letting me translates your story!!), eu só sou uma mera pseudotradutora e fã da fic :B. Quem quiser ver a fic original, em inglês e tudo o mais, é só acessar o meu "Favorite Stories" que ela está lá na lista :D
Em nota, eu preferi deixar o nome dos capítulos e o nome da fic em inglês por escolha pessoal, mesmo.
Ah, e a fic se passa a partir dos acontecimentos do capítulo 406 do mangá (aquela coisa trágica que eu não vou dizer o nome para não estragar para quem não leu).
É isso, enjoy :D
Disclaimer: Nem eu nem a autora temos direitos autorais em cima do Naruto. Pena :B
Capitulo Um: A Responsabilidade Indesejada
‘Deve ser ótimo’, Hatake Kakashi pensou à medida que ele observava habitantes da vila perambular pela mesma, completamente ignorantes a respeito dos perigos que os rodeavam todos os dias, ‘ser capaz de fazer a vida parecer tão simples, tão fácil... ’
O jounin estava empoleirado no telhado de um hotel desconhecido, com seu livro aberto em sua mão esquerda e sua mente em outro lugar.
Ele fez uma careta ao recordar sua missão mais recente e a viagem tensa e depressiva de volta para casa por sua equipe de oito homens, após a última tentativa fracassada de recuperar Sasuke. A missão tinha sido decepcionante, para dizer o mínimo, e isso ficou nítido nos ombros rígidos e nas sobrancelhas franzidas de seus dois estudantes restantes, os dois originais.
Kakashi sabia muito bem que Naruto e Sakura eram duas criaturas precipitadas e extremamente emocionais, completamente propensos a saltar em conclusões e fazer rápidas acusações, e ambos estavam sempre procurando uma saída para qualquer emoção esmagadora que estivessem sentindo – especialmente quando esta já estava agravada o suficiente. Com isso, era uma sorte que o Time Oito tivesse bom senso para evitar qualquer contato com eles durante o resto da viagem.
Era como se não importasse o que eles fizessem, Sasuke sempre estaria fora do alcance e isso dilacerava seus corações todo o tempo. Doía em Kakashi ter que assistir, porque ele sabia o quanto eles se esforçavam para manter a esperança, o quanto eles se recusavam a encarar a cruel verdade de que Sasuke não queria voltar para casa. Sakura se apegava à visão do retorno do Time Sete para o que era anteriormente, enquanto Naruto não permitia a si mesmo quebrar uma promessa. Fosse pelas fantasias infantis dela ou pelo orgulho dele, estas eram as bases para qualquer razão complicada em que eles se enganavam para continuar a caçada.
Contudo, ainda que o jovem gênio tivesse sido seu estudante, e ainda tivesse uma parte dele que gostaria que o garoto estivesse seguro, Kakashi estava velho demais para ter pequenas esperanças como essa. Sasuke havia tomado sua decisão e agiu contra Konoha e seus antigos companheiros de time muito mais do que uma vez; não existia redenção para o vingador mesmo que ele desejasse retornar. Naruto e Sakura simplesmente se recusavam a acreditar nisso.
Às vezes ele sentia vontade de simplesmente esganar os dois antes que eles acabassem enlouquecendo.
Mas agora... Agora ele duvidava que Sasuke estivesse na mente de qualquer um...
Retornando para descobrir que Jiraiya-sama havia sido morto pelas mãos da Akatsuki fora apenas a cereja no topo do bolo para seus espíritos já abalados. O líder, Pein, havia abatido o melhor espião de Konoha, um dos mais poderosos ninjas que a vila já havia treinado. Era o suficiente para que qualquer um se arrepiasse de medo.
Girando seus ombros rígidos, o ninja mascarado se ergueu de seu poleiro e escondeu seu livro dentro do bolso de seu colete. Ele fora designado a uma missão para daqui a poucos dias – uma ótima maneira para livrar sua mente das noticias devastadoras que escutara no dia anterior no escritório da Hokage – mesmo que ainda tenha vindo em uma péssima hora. Já era ruim o suficiente não estar ao redor para ajudar seus alunos a se recuperarem do recente disparate, e agora iria deixar Naruto sozinho logo após ter descoberto sobre a morte de seu sensei.
O jounin suspirou e pulou do telhado para a rua com poucas pessoas, iniciando assim sua longa e lenta jornada em direção ao seu humilde apartamento.
Talvez ele devesse ter sido um pouco mais solidário com Naruto, quando o loiro escutara as notícias diretamente de Tsunade. Ele tinha deixado o escritório com palavras frias na tarde do dia anterior, e Kakashi não o tinha visto desde então. Iruka foi gentil o suficiente para informá-lo que havia conversado brevemente com Naruto na mesma noite e que estava sob a impressão de que tivera algum progresso em acalmar o pobre garoto.
A íris escura de Kakashi passeou por entre as cabeças coloridas se movendo na avenida para observar em direção ao apartamento de Naruto. O jounin tivera um pequeno encontro com Shikamaru, não muito antes, a respeito do código que Jiraiya-sama enviara em seu ultimo momento de força, e ele encorajara o rapaz para ver se podia fazer alguma coisa por Naruto.
Pode ter sido patético, mas apenas podia ter esperanças de que o que Iruka não havia conseguido alcançar em Naruto, alguém de sua idade conseguiria. O garoto era importante demais para a guerra que se aproximava para ser vitima de seu próprio sofrimento.
Naruto realmente precisava lavar a fronha de seu travesseiro. Aquilo cheirava a mariposas molhadas.
Contudo, apesar do cheiro azedo, ele inspirou profundamente mais uma vez no travesseiro que havia enterrado o rosto há quase uma hora. Ele simplesmente não conseguia obrigar a si mesmo a sair daquela posição; estava cansado demais e confuso demais.
E isso estava se tornando um péssimo hábito seu.
Jiraiya estava morto. Sasuke havia escapado. Konoha estava pronta para entrar em guerra. Ele estava sendo caçado constantemente por um grupo de psicopatas fanáticos em dominar o mundo ou qualquer coisa do tipo. E a lista ia e vinha...
Desde que Naruto o conhecera, Jiraiya tinha sido uma das poucas verdadeiras constantes em sua vida. Pelo amor de Deus, eles tinham viajado pelo mundo juntos, formando um laço que era mais forte do que qualquer outro que ele havia compartilhado antes. Jiraiya era muito mais do que um sensei para ele; ele era um avô, um tio maluco, um melhor amigo, um laço – seu único laço – ao seu passado. E ainda mais do que isso... Ele era um Sannin. A merda de um Sannin lendário. Eles simplesmente não morrem! Eles não… eles não… eles… não...
Naruto soltou um gemido baixo contra o material desgastado da sua fronha. Shikamaru tinha razão, Iruka tinha razão... Ele simplesmente não poderia perder o controle no momento; ele tinha que fazer com que aquele pervertido ficasse orgulhoso. Tinha que se tornar um ninja incrível para que assim pudesse passar seus ensinamentos à geração seguinte. Ele tinha que vingar sua morte destruindo a Akatsuki.
Mas porque era tão difícil?
Ele sabia o que precisava saber, sabia que precisava sair daquele estado sombrio logo e voltar a treinar, mas seu coração simplesmente se recusava a deixá-lo. Desde que escutara as notícias fatais vindas diretamente dos lábios de Tsunade-baa-chan, tudo ao seu redor parecera se mover em câmera lenta. Tudo parecera mais sombrio, menos significante que o buraco gigantesco que Jiraiya havia deixado em seu coração.
A lenta recuperação deste golpe emocional poderia ser atribuída a vários outros problemas menores que assolavam à sua mente.
Tal como Itachi.
O que Itachi havia feito a ele naquela floresta? O que ele pretendia ao dizer que lhe daria um pouco de seu poder? Ele realmente falava sério ou fora apenas um truque? Não, aquilo tinha que ser verdade – ele pôde sentir a mudança em seu corpo, fora capaz de reconhecer algo não familiar dentro de si.
Se Naruto fosse completamente sincero consigo mesmo, ele não queria nenhum outro poder – especialmente se esse viesse de outras fontes. Já era ruim o suficiente tentar ganhar o controle sobre seu próprio chackra, isso sem contar com o da Kyuubi, que ele tinha que conter. Não precisava de mais nenhum outro poder para lhe dar dor de cabeça.
Ele não havia contado a ninguém em detalhes sobre seu encontro com Itachi, é claro, apenas que o recém-abatido ninja o havia colocado sob uma ilusão e ele escapara. Nem mesmo Sakura, que mal conseguira olhar nos olhos esses dias, suspeitava de algo estranho que pudesse ter acontecido entre eles; ela estava distraída demais a respeito de Sasuke, que caíra nas mãos da Akatsuki.
E quanto a Sasuke? Tantas vezes fora alertado para desistir dele, tantas vezes estivera tentado a fazer isso. Mas isso não se encaixava a ele; ele não desistia das pessoas – mesmo depois que elas tivessem desistido de si próprias.
Ele realmente teria que escolher entre Konoha e Sasuke?
Deixou escapar uma exclamação, abafado pelo travesseiro velho, à medida que seu humor diminuía ainda mais. O que o fez se sentir ainda pior foi o fato de que não iria a longas missões por um bom tempo. Após o confronto com não apenas um, mas dois Akatsuki na ultima missão, Tsunade o assegurou que o conselho estava fazendo tudo o que podia para mantê-lo seguro entre as paredes da vila.
Que Deus livrasse Konoha de perder seu trunfo durante esses tempos receosos.
Naruto sabia que aquilo era o melhor a se fazer e sabia que aquilo não era um descaso com suas habilidades, mas ao mesmo tempo isso não o deixava menos irritado. Agora ele ficaria preso em uma vila que apenas o faria se recordar das pessoas que perdera por todo lugar que olhasse. Não existia escapatória desse Inferno temporário, existia?
“Nós não podemos agir como crianças para sempre...”
As palavras de Shikamaru ecoaram em sua cabeça.
‘Eu sei, eu sei!’, ele pensou frustrado consigo mesmo, ‘Mas isso não torna tudo isso mais fácil para se lidar!’
“Nada vai acontecer se você continuar hesitando...”
‘Eu não estou hesitando’, ele insistiu. ‘Eu só preciso de tempo. ’
Mas ele não tinha esse tempo, tinha? A Akatsuki estava ficando mais forte, cada vez mais ninjas de Konoha estavam morrendo, só Deus sabia o que iria acontecer a Sasuke –
Uma dura e rápida batida na porta, o som fora forte o suficiente para fazê-lo se erguer a cabeça, bem como salvá-lo de seus próprios pensamentos depressivos. Ele coçou sua cabeça e olhou para o relógio, ficando chocado ao perceber que já havia se passado realmente quase uma hora desde que havia retornado de seu passeio com Shikamaru.
A batida à porta veio mais uma vez, e ele se obrigou a levantar, chutando as roupas à medida que atravessava o quarto e caminhava para receber sua visita. Ele abriu a porta, piscando com a luz solar que invadiu seus olhos de forma súbita.
Uma vez que os vários pontos pretos começaram a esvair-se de sua visão, ele percebeu um jounin – a julgar pela jaqueta – de cabelos castanhos curtos e uma cicatriz em forma de um risco em sua bochecha esquerda parado à sua porta.
Ele lhe pareceu realmente familiar.
“Ah—Uh...”
“Raido...” o homem disse de forma dura, a face amargurada quase indo à irritação. Naruto se lembrou dele após ter dito o nome; havia conversado com o jounin algumas vezes antes de ter partido para treinar.
“Ah sim!” Naruto disse enquanto estalava seus dedos, “Raido! Desculpe. O que foi?”
“A Hokage gostaria de conversar com você imediatamente. Ela o está esperando em seu escritório em não mais que cinco minutos.” Raido disse de forma curta. Naruto piscou com a ordem e então deu de ombros.
“Oh, um, tudo bem. Obrigado.”
Ele permaneceu um tempo parado à soleira de sua porta após a partida do jounin. Não conseguia imaginar em mais nada para discutir após ontem; o que mais poderia ter acontecido? Não era como se ela fosse mandá-lo a uma missão – ou pelo menos em alguma importante, no caso. E ele deveria se encontrar com Shikamaru apenas amanhã na unidade de criptografia para ajudar a desvendar o código que Jiraiya havia mandado, então duvidava que fosse algo a respeito disso.
Ele apenas esperava que não fosse mais nada que pudesse acabar com seu estado de espírito ainda mais, porque a última coisa que ele precisava agora eram mais más notícias.
“Hei, baa-chan,” o loiro cumprimento assim que entrou no escritório da Hokage sem nada mais que uma única batida à porta como aviso. Sua voz estava com o mesmo tom leve e blasé de sempre, mas mesmo depois de três drinques Tsunade foi capaz de escutar o pequeno desencanto que ele estava tentando esconder enquanto falava. Fora ruim demais para o coração de uma velha na idade dela vivenciar a luz escapar de forma súbita do que antes eram olhos vivos e animados após ter contado as notícias sobre Jiraiya a ele. Ela podia se lembrar claramente da negação e descrédito escrita em sua face, antes preenchida por inexpressividade.
Era um pouco confortante reconhecer um pouco mais de vida em seus olhos hoje – nada como costumava ser, mas um bom início para uma melhora, com certeza. Ela podia apenas torcer para que a conversa que teriam não prejudicaria tal progresso.
“Sente-se, Naruto,” ela disse de forma cansada, indicando a única cadeira a sua frente com a mão. Naruto obedeceu à simples exigência, pensando que era estranho que ela tivesse uma cadeira em frente a sua escrivaninha. Geralmente existia apenas um espaço entre ela e os ninjas.
Tsunade ficou em silêncio durante o tempo em que ele se sentava, pensando em como poderia ser o melhor jeito de começar. O loiro mais novo se remexeu desconfortável na cadeira com todo aquele silêncio, se sentindo tenso e incomodado à medida que ele tinha uma vaga idéia do motivo.
“Em primeiro lugar, Nar –“
“Me desculpe,” ele disse de forma abrupta, cortando-a de sua primeira frase. Ela o encarou por um longo momento em pura confusão, os lábios entreabertos, e ele se apressou em continuar, sentindo um rubor logo abaixo do colarinho, “Me desculpe por dizer aquelas coisas a você ontem... Sobre Jiraiya, digo... Eu sei que você nunca iria, uh, o que eu quero dizer é que eu sei que ele era importante a você também e... um...”
Tsunade fechou a boca e um sorriso apareceu de forma suave em seus lábios assim como seus ombros relaxaram.
“Desculpas aceitas,” ela disse sobre sua atrapalhada tentativa de desculpas, poupando-o de continuar, “contudo não foi por causa disso que eu o chamei aqui.”
Suas costas, antes rígidas, pareceram relaxar levemente e o pouco de tensão que ele notou quando havia acabado de chegar evaporara.
“A primeira coisa que eu gostaria de conversar com você diz respeito à Jiraiya...” ela disse de modo forte, indo direto ao ponto e dominando suas emoções, da forma como fora treinada a fazer. Naruto não mostrou nenhum sinal de sofrimento, apenas atenuado interesse, então ela assumiu que poderia falar abertamente a respeito das atividades de seu sensei àquele ponto.
“Como sabe, há algumas semanas ele partiu em uma missão de reconhecimento em Amegakure, onde estava coletando informações a respeito do líder da Akatsuki,” na medida em que ela falava, Tsunade puxou um pacote e o colocou sobre a escrivaninha à sua frente, “ele enviou isto alguns dias antes de sua morte; dentro há todas as informações e datas que ele recolheu a respeito da Akatsuki. E eu agora a entrego a você.”
Seus lábios formaram uma fina linha quando ele percebeu o punho da velha fechar-se com força sobre o pacote antes de soltá-lo e uma fina evidência de osso pulsar em seu pescoço. Ainda doía falar sobre isso, para ela.
“Eu? Por quê?” Naruto perguntou confuso, aproximando-se e pegando o arquivo em mãos. Ele o abriu e puxou alguns papéis pela metade, tendo um pequeno relance da biografia de Kisame.
“Porque...” ela parou, subitamente não sabendo como contar a ele ou como isso poderia soar aos próprios ouvidos, “Porque agora você irá tomar o lugar de Jiraiya. Você será nosso maior informante a respeito da Akatsuki.”
Os olhos de Naruto imediatamente pararam de encarar as figuras nos arquivos e a observaram de forma ponderada.
“Eu?” ele perguntou novamente por via das dúvidas, sua voz dura e cautelosa.
Tsunade se obrigou a sustentar seu olhar, bem como tentou transmitir a mensagem silenciosa a ele: ‘Seja forte. Você pode fazer isso. ’
Naruto engoliu em seco, esperando conter sua primeira resposta de escapar de sua boca e fechando os olhos com força contra o que estava acontecendo. Sua mente estava repassando o significado de todas as palavras que ela havia dito. Ela estava pedindo para que ele substituísse Jiraiya – tomar lugar em tudo o que aquele homem havia trabalhado durante a vida inteira, ajudar a promover o esquecimento dele neste mundo. Como? Como ele seria capaz de fazer isso?
“Eu não posso... E-eu não acho que posso,” ele disse em voz baixa, quase que de modo calmo, mantendo sua cabeça abaixada e seus ombros caídos.
Tsunade ficou um pouco perturbada com a forma não característica que ele estava lidando com aquilo. Ela havia esperado uma explosão, gritaria, exclamações, vandalismo... Algo parecido com sua primeira reação ao descobrir a morte de Jiraiya – qualquer coisa menos isso.
Suas costas estavam curvadas e tensas enquanto seus dedos inconscientemente deslizavam e apertavam os arquivos a respeito da Akatsuki; o garoto parecia pronto para fugir a qualquer momento. Havia algo completamente fora com aquela atitude, algo instável sobre toda sua aura. Ela conseguia entender que ele já estava chateado com sua perda, mas talvez fora cedo demais para colocá-lo a par de tudo de uma vez.
Poderia ter sido apenas impressão, mas Naruto jurava ter sentido lágrimas começarem a se acumular no canto dos olhos. Ele não conseguia entender porque aquele simples (ou não tão simples assim) pedido o abalara tanto. Ele rapidamente ergueu sua cabeça mais uma vez, disposto a colocar aquelas lágrimas em cheque, não importava quanto sua garganta e peito doessem. Merda... O quão patético ele havia se tornado? Ele já não havia superado tudo aquilo?
Tsunade ergueu uma mão para alcançá-lo, apenas para hesitar e desistir de seu intento.
“Me desculpe,” ela disse o mais calma que pôde, “Eu... Eu sei que isso deve ser extremamente difícil de ouvir e tudo o mais, e eu espero que você possa ter um tempo para pensar nisso. Mas eu devo pedir para que aceite essa responsabilidade, e tente estudar esses arquivos o mais rápido possível, por favor. Você é a única pessoa em Konoha que conhecesse onde estão todos os contatos de Jiraiya. Sem ele, estamos tomos às cegas a respeito dos movimentos da Akatsuki – nós precisamos de você para –“
“Está tudo bem,” ele a cortou de forma seca. Percebendo o olhar em seu rosto, ele repetiu com uma voz mais suave, “Está tudo bem. É sério. Eu entendo. Eu posso fazer isso. Eu – Eu –“
Os olhos de Tsunade se tornaram mais gentis e ela lhe enviou um sorriso triste. “Obrigada Naruto, eu sei que é extremamente injusto da minha parte pedir isso para você, mas eu também sei que você o fará por nós.”
“Isso... Isso é tudo?”ele perguntou rouco. Sua visão estava presa ao documento que tinha em mãos e sua postura indicava que ele estava pronto para ir.
Tsunade mal conseguia encará-lo, não enquanto ele continuasse tão abertamente devastado, mas ainda existia mais uma notícia que ela deveria entregá-lo – uma que já deveria ter sido há tempos.
“Não. Há mais uma coisa,” ele não relaxou; continuou sentado da mesma forma, mantendo seus olhos olhando para baixo, “e ela diz respeito aos seus pais...”
Naruto soltou um suspiro leve e temeroso – esse era o assunto que havia se tornado um tabu em sua mente, praticamente. Era verdade que ele havia esperado por anos para ouvir a respeito deles; quando criança se enchera de curiosidade para saber de onde tinha vindo. Mas conforme ia crescendo, começara a se importar cada vez menos até chegar ao ponto em que quase sentia pavor de saber. Afinal, acostumara-se tanto a fazer as coisas por conta própria – tão acostumado a se posicionar ao mundo, sem nenhuma influência a não ser a própria – que tomara receio sobre aprender quem ele “realmente era”. Desde então, decidira que quem ele “realmente era” seria “qualquer coisa” que o havia feito; ele não precisava ou queria qualquer nome para carregar durante a vida ou algo que mudasse seu modo de ver a si mesmo.
Apesar de toda essa proteção que havia criado, ele já tinha uma boa idéia de quem seus pais eram, ou, pelo menos, quem era seu pai. Podia se lembrar de inúmeras vezes em que Jiraiya retornava ao seu quarto de hotel bêbado e o chamava de Minato por acidente. Ele não era totalmente estúpido – ele sabia o nome do homem; ele vira figuras e a semelhança era assombrosa. Mas era justamente por esse único motivo que ele nunca pressionou o assunto. Ele era Uzumaki Naruto, e de jeito nenhum que iria se tornar Hokage se escondendo atrás dos atos heróicos de outra pessoa. Ele não queria que a vila subitamente passasse a respeitá-lo por descobrir sua linhagem. Isso destruiria todo o propósito de tudo o que havia feito até hoje, bem como acabaria com toda a satisfação.
As sobrancelhas de Tsunade se ergueram com sua falta de resposta e ela continuou de forma lenta, “Naruto, seu pai foi Namikaze Minato, o quarto Hokage.”
Naruto não reagiu, tendo já chegado àquela conclusão e tendo o tempo apropriado para digerir tudo o que aquilo significava – incluindo o fato de que seu próprio pai não tivera escolha ao condená-lo àquela vida amaldiçoada.
Sua negação ao reconhecer tudo o que ela estava dizendo deixou a Hokage perdida.
“Eu sei que deve ter muita coisa para compreender,” ela disse suavemente, tomando seu silêncio como choque, “especialmente considerando o que vive em você. Mas você deve compreender, seu pai apenas quis –“
“Eu sei por que ele fez isso,” ele a cortou novamente de modo franco, quase fazendo com que ela mordesse a própria língua. Ele não disse nada por um tempo e, mais uma vez, Tsunade se encontrou particularmente perturbada com seu comportamento.
Após deslizar os dedos pelo envelope em mãos mais uma vez, ele perguntou, “E minha mãe?”
Esse era o verdadeiro mistério, em sua opinião.
“Uzumaki Kushina,” ela disse com um leve sorriso, “Ela era uma ninja refugiada, vinda do já não mais existente país do Redemoinho e uma beleza rara. Você puxou bastante a ela.”
“Ah...”
“Isso é tudo o que você tem a dizer?” ela perguntou, o choque claro em sua voz. Ela tinha esperado que ele ao menos perguntasse mais a respeito de seus pais; como eles eram, onde ele se parecia com eles, se eles o amavam ou não (algo que ela responderia com um alto “SIM”).
“O que você quer que eu diga?” ele perguntou ao invés disso. Sua voz estava sofrida e era óbvio que a morte de Jiraiya e tudo o mais estava fazendo sua parte em mascarar qualquer reação apropriada às novidades, “Isso não muda nada, sabendo quem são ou não. Mas obrigado, de qualquer modo, por me dizer. Agora eu posso ir?”
“Pode,” ela suspirou, seus ombros pesando talvez tanto quanto o coração dele estava àquele momento. Ela o observou se levantar com olhos preocupados, franzindo o cenho para o cabelo que caía no rosto dele e mal escutando os passos suaves ao deixar seu escritório. Tsunade deitou a cabeça sobre sua escrivaninha assim que a porta se fechou. Ela estava realmente ficando velha para aquele emprego, e não sabia se conseguiria esperar mais tempo até Naruto crescer e tomar seu lugar.
Afinal, nunca era um bom sinal quando seu coração doía mais que seu corpo... Especialmente em sua idade.
Uma jovem kunoichi de cabelos rosas passou pelos corredores pouco movimentados do prédio administrativo da Hokage com um caminhar lento, a forma distraída de uma pessoa perdida em seus pensamentos. Seu bom humor estava particularmente baixo desde que Sasuke escapara novamente por entre seus dedos – eles estavam tão perto, o clone de Naruto o tinha encontrado e tudo o mais, e agora tudo o que eles sabiam era que ele estava machucado e nas mãos da Akatsuki. E para tornar as coisas ainda piores, tudo parecera desabar ainda mais quando retornaram à Konoha; Jiraiya-sama fora morto. Não apenas Naruto estava incrivelmente machucado, mas a dor mal guardada de sua mestra a deixara sentindo frio e insegurança. O pensamento de perder um companheiro de time, um amigo que a Hokage conhecia praticamente uma vida inteira... Bem, Sakura não poderia imaginar como sua sensei se sentia àquele momento.
Cara, ela nunca conseguiria dormir essa noite.
Suspirando, ela finalmente ergueu a cabeça à medida que se aproximava da porta do escritório de sua mestra, apenas para evitar trombar com a pessoa que havia acabado de sair.
“Naruto!” exclamou ao loiro que continuou caminhando, passando por ela; ele não deve tê-la percebido. “O que você está fazendo aqui?”
Ela pôde ver que suas costas ficaram tensas com o som de sua voz, e franziu o cenho. O garoto mal havia conversado com ela desde que haviam retornado à Konoha, não desde que ele havia explodido no escritório da Hokage no dia anterior. Ela quase fora procurar por ele em seu apartamento na noite passada, sua preocupação com o estado mental e emocional dele tomando vantagem dela, mas no ultimo minuto decidira deixá-lo esfriar a cabeça primeiro. Agora ela estava se arrependendo de sua decisão porque ele enviava uma aura de isolamento, como se tivesse perdido uma oportunidade crucial de que ele se abrisse com ela.
Naruto virou o rosto um pouco para que ela pudesse ver seu perfil, mas não moveu o corpo. Não queria que ela o visse pronto para desmoronar mais uma vez; com isso ela começaria a fazer perguntas, e com isso teria que explicá-las. Ele não conseguiria explicar nada no momento – o que ele sentia não fazia sentido nem a si mesmo. Ele simplesmente queria ir para casa. Ele estava emocional demais agora, de modo que mal conseguia suportar.
“Tive que conversar com a baa-chan,” ele disse asperamente. Deus, ele desejou que ela simplesmente aceitasse aquela resposta e fosse embora.
“Oh?” ela deu um passo para se aproximar dele e ele abaixou o rosto, deixando claro que não gostaria que ela ficasse próxima. Ela mordeu o lábio e depois pressionou suavemente, “a respeito do quê?”
Por uma fração de segundo, Naruto realmente considerou a possibilidade de contar a ela tudo o que estava de errado em sua vida. Como Itachi havia feito algo a ele, como Sasuke havia não apenas escapado por entre seus dedos novamente, mas que também era um perigo em potencial para Konoha, que seu sensei estava morto, maldição, que ele tinha que reorganizar o trabalho de espionagem... Mas o pensamento foi afastado no minuto seguinte e ele manteve sua boca fechada.
Sakura franziu o cenho ante seu silêncio bem como a sua postura tensa. Era obvio que ele estava realmente chateado a respeito de algo além de Jiraiya. Ele parecia estranhamente silencioso e retraído, como se estivesse preso em sua própria mente. Ele nem ao menos a encarava, mas ela era capaz de ver o pequeno tremular em suas mãos e escutar a crua emoção nas poucas palavras que havia dito. Ele não era capaz de imaginar nada que pudesse fazê-lo agir dessa forma a menos que fosse relacionado à última devastação em sua vida, então ela continuou e assumiu o motivo mais óbvio.
“Naruto,” disse tão suave quanto pôde enquanto colocava uma mão sobre seu ombro, “não se preocupe. Nós vamos desvendar o código que Jiraiya-sama nos deixou; nós vamos destruir a Akatsuki. Sua morte não será em vão, prometo.”
Ela pôde sentir seu corpo estremecer levemente sob seus dedos. Sua mão lhe deu um pequeno apertão, reconhecendo que o assunto ainda era extremamente sensível a ele.
“O que é isso em sua mão?” ela continuou assim que notou os arquivos e o puxando levemente para que ele se virasse, “É uma nova missão?”
Naruto afastou seu ombro da mão dela e lhe deu as costas novamente.
“Não. Não é nada,” ele disse mais duro do que pretendia. Ele queria ter mais controle sobre suas emoções, sério, como queria.
“Não precisa ser grosso comigo!” ela disse em mesmo tom, “Eu só perguntei!”
Naruto pôde sentir alguns olhares virando em sua direção e ele se sentiu frustrado. Pela primeira vez ele não queria atenção. Pela primeira vez ele queria ficar sozinho.
“Agora não, Sakura,” ele respondeu em voz baixa, dando um passo para longe dela. Ela o parou ao colocar a mão em seu ombro, desta vez de modo mais forte.
“Naruto, por favor! Me diz o que é que há de errado com você! Eu só quero ajudar! Eu – você está me assustando, por favor – “
“Não! Eu disse que agora não!” dessa vez sua voz se elevou em um latido ácido e ele se afastou dela, não mais se importando com quem estava encarando ou não.
Sakura não tomou de forma gentil aquele grito, “Por que é que você está agindo como um pé no saco?! Por que você simplesmente não fala comigo?”
“Tenho que ir,” ele murmurou, não entrando em seu jogo. Sakura o observou se afastar, sua raiva mesclando com sua preocupação a respeito de seu comportamento.
“Deixe-o, Sakura.”
A jovem se virou de modo que pudesse ver a Hokage parada à soleira da porta de seu escritório com os braços cruzados sob o busto e observando onde Naruto havia estado há poucos segundos.
“Mas shishou... o que há de errado com ele? O que está acontecendo? Isso tem a ver com Jiraiya-sama ou com Sasuke?” ela estava muito confusa. Já havia perdido um companheiro de time e agora parecia que o outro estava se afastando cada vez mais dela. “Por que ele não me diz nada?”
A mulher loira fechou os olhos e soltou um pequeno suspiro.
“Sakura... Você tem que ser paciente com ele. Apenas lhe dê espaço; ele tem muito o quê pensar agora. Mas quando estiver pronto para falar, não... não o deixe encará-la de modo duro.”
Sakura jogou a cabeça para o lado e franziu o cenho, “huh?”
Sua mestra simplesmente suspirou mais uma vez e retornou a sua escrivaninha, esperando que Naruto melhorasse de tudo aquilo.
Naruto se moveu como um zumbi através das ruas moderadamente cheias. Após trombar na quarta pessoa, seu subconsciente tivera a prudência de movê-lo de volta por ruas e becos, dando-lhe uma viagem de volta gratuita ao seu apartamento.
Ele apenas percebeu que havia chegado a sua casa quando se encontrou chutando sua porta com a lateral de seu pé enquanto retirava a chave da fechadura. As dobradiças estavam realmente precisando de óleo, algo percebido graças ao som. Ele acendeu as luzes e jogou a chave e o envelope sobre a mesa enquanto retirava seus sapatos em um costumeiro ritual.
Nada estava passando por sua mente, no momento. Mesmo quando se dirigira à cozinha e começara a esquentar um pouco de água para o ramen – ramen este que ele nem ao menos estava com apetite – sua mente permaneceu abençoadamente vazia. Ele sentiu um familiar entorpecimento e estava bem com isso, pois assim não precisaria sentir toda a dor que sabia estar apenas atrás da fina parede que havia criado. Se ele não pensava, ele não poderia sentir.
Então ele não pensaria a respeito do novo fardo que Tsunade havia perigosamente colocado em suas mãos, não pensaria a respeito da genealogia que lhe foi negada por inúmeros anos, por qualquer razão. Ele iria fingir que nunca fora ver a Hokage aquela tarde pelo período mais longo que pudesse.
Abrindo a dispensa, ele foi recebido com inúmeros sabores de seu macarrão favorito. Agora qual escolheria? Porco sempre o deixou satisfeito, mas tinha algo calmante a respeito do frango e ele poderia definitivamente usar esse conforto. Por outro lado, ele não poderia deixar o miso –
Uma batida suave à porta interrompeu sua crucial linha de decisões. Ele colocou a cabeça para fora da cozinha e lançou um olhar para a porta principal, debatendo-se se deveria fingir que estava dormindo ou qualquer coisa do tipo. Não estava com humor para falar com ninguém – ele não achava que seria capaz de conversar com qualquer um novamente. Se fosse Sakura, ela provavelmente iria querer que Naruto explicasse o que diabos acontecera no escritório da Hokage. Se fosse Kakashi, ele simplesmente chutaria o jounin nas bolas por deixá-lo preso em Konoha por uma semana sem missões.
E se fosse alguém com qualquer outra notícia...
A batida à porta veio novamente, desta vez um pouco mais forte.
“Tá bom, tá bom...” ele resmungou, indo até a porta. Ele passou pela mesa de café, recusando-se a encarar o arquivo, recusando-se a reconhecer tudo àquilo apenas por mais algum tempo. Ele alcançou a porta e a abriu de forma abrupta, já armado com inúmeras desculpas para fazer sua visita ir embora.
Um estranho barulho escapou de seus lábios ao invés das palavras que ele tão cuidadosamente havia preparado. Sua mente se fechou à medida que ele observava a ultima pessoa que espera que estivesse parada à soleira da sua porta.
Ela ainda possuía os mesmo olhos castanhos e brilhantes que ele se lembrava; o mesmo grosso e ondulado cabelo lavanda e o mesmo sorriso. A única verdadeira diferença de todos aqueles meses atrás era seu peso; um pouco da gordura de bebê havia deixado suas bochechas com uma aparência mais velha do que se recordava. Isso e o fato de que suas roupas estavam bem menos chamativas; nada parecido com os adornos elegantes que ele estava acostumado ao vê-la usar.
Oh sim, e somando-se a tudo isso ela também estava grávida.
Notas da Tadutora (é, de novo :B): Lembrem-se que deixar um review deixa um tradutor e um autor feliz. Gostou? Achou alguma coisa? Botãozinho ali em baixo funciona e faz o dia de qualquer um, vai por mim! ;D
And again, all credits to this story goes to Shivakashi. :D