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Disclaimer: Supernatural não me pertence. Faço este fic sem fins lucrativos, apenas por diversão.
A Herdeira de Hellsing
Para Lis
Capítulo Dois: Sonhos
As aulas na faculdade decorreram em sua normal habitualidade, professores, atividades, explicações, garotas atiradas dando em cima do aluno novo… calma, aquilo definitivamente não era algo habitual na faculdade, e ela estava ficando incomodada com aquilo. Já estava na hora do almoço, ela e sua prima estavam longe das salas, sentadas sob a sombra de uma árvore no gramado em frente ao prédio de Direito, com as bolsas e livros espalhados pelo chão. Lislie já tinha notado a presença daquele tal de Sam, mas o jovem agia como se nunca a tivesse visto na vida. Não que ela fizesse questão de que ele a notasse – ainda que fosse o mais velho –, mas o que será que estava acontecendo ali, aquele garoto era estranho, aliás, os dois eram estranhos… ainda bem que o mais velho não tinha entrado na faculdade também ou ela ia acabar brigando com alguém.
– Lis… ei, Lis! Você quer acordar, garota! – uma voz adentrava seus ouvidos de maneira impaciente. Se ela não tivesse virado o rosto para encarar sua prima, tinha certeza de que teria levado um tapa na testa para acordar dos devaneios. – O que deu em você? O que está olhando com tanta atenção?
Alisson virou-se para buscar com os olhos o que prendia a atenção da jovem prima, mas Lislie fez-la virar-se para encará-la de novo.
– Não é nada. – Lislie fez questão de ressaltar, percebendo que se a prima se virasse, veria o centro de suas atuais atenções. – Eu estava pensando como vou me dividir em duas pra fazer todos os trabalhos em grupo e relatórios individuais essa semana, só isso.
– Ah tá, até parece que me engana. – Alisson disse, recolhendo o seu material para levantar-se e sair do lugar. – Eu tenho que encontrar o meu grupo de trabalho, precisamos acertar uns detalhes para o seminário de amanhã. Vejo você na saída.
– Okay. – Lislie concordou. – Eu vou procurar os outros na biblioteca.
Alisson levantou-se e se afastou da prima, acenando levemente como sinal de despedida. Ela também começou a arrumar os seus livros para poder se levantar e encontrar o grupo de amigos que deveria estar dividido entre a biblioteca e a lanchonete. Mas como estava de regime, o mais seguro era procurar alguém na biblioteca.
Depois de colocar a bolsa nas costas e conseguir arrumar a pilha de livros nos braços, levantou-se para seguir até o prédio de Direito mais uma vez… ou pelo menos era aquilo que tinha em mente, se algum desastrado não tivesse esbarrado em si, fazendo-a derrubar todos os livros no gramado.
– Ei! – ela reclamou assim que sentiu o impacto de alguém que estava de costas para ela. – Vê se olha por onde anda!
– Ahn? Ah! Eu não tinha visto… – uma voz ligeiramente familiar respondeu, quando ela se abaixou para recolher os livros mais uma vez.
A pessoa se abaixou para ajudá-la também, mas apenas quando tinha recolhido todos os livros e estava pronta para se levantar, seus olhos pousaram sobre o rosto perigosamente perto da pessoa que tinha esbarrado em si.
– Ah! – afastou-se de maneira instintiva, largando os livros no chão mais uma vez e caindo de bunda no gramado. Não que tivesse se assustado com a aparência da pessoa ou coisa do tipo, algo que seria basicamente impossível, assustar-se com a aparência dele… mas a proximidade que estava e o fato de que estava ali não era uma coisa muito normal.
– Você derrubou tudo de novo! O que você tem de errado, hein? – ele perguntou, voltando a juntar os livros que estavam no chão.
– O… o que você está fazendo aqui?! – ela perguntou, confusa com a presença dele e se irritando com o modo que ele lhe falara.
– Eu? – ele levantou os olhos para a jovem, com a testa enrugada ao arquear as duas sobrancelhas. – Eu sou estudante daqui…
– Estudante? – Lislie indagou, descrente com o que ele acabara de falar.
– Isso mesmo, estudante. – Dean respondeu, com um ar superior. – Sou… estudante de Direito.
– Direito? – mais uma vez ela questionou. – Ah, não é não.
– E como você sabe? – dessa vez, ele pareceu confuso, ainda tentando manter o ar de superioridade.
– Porque eu estudo Direito. E o único estudante novo foi o seu irmão. – ela explicou, praticamente tomando os livros das mãos dele e indicando o irmão a alguns metros de distância do lugar.
– Ah? O Sammy? É claro que eu não estudo no mesmo período que ele. – recuperou o ar de superioridade, se recompondo depois que ela tomou-lhe os livros. – Ah, de nada. – completou, ironicamente.
– Por ter derrubado os livros ou tê-los apanhado? – ela perguntou, já os ajeitando nos braços e se virando para sair. – Boa sorte na sua mentira, vamos ver quantos mais acreditam.
– Que garota teimosa. – ele cruzou os braços, observando a mulher se afastar ainda mais.
Seus pensamentos foram interrompidos quando sentiu uma pancada na altura de seu ombro. Virou o rosto, com raiva de quem já vinha lhe interrompendo.
– O que acha que está fazendo parado aí? – Sam implicou, colocando as mãos dentro dos bolsos. – Você não devia estar investigando o prédio?
– Eu estou fazendo isso. – Dean respondeu de volta. – Agora, seja um bom menino e volte a fazer sei lá o que tava fazendo pra ajudar. Eu vou terminar de investigar isso aqui. – ele bateu de leve no ombro de Sam e então saiu andando, com as mãos nos bolsos, na direção do prédio, observando mais as mulheres ao redor do que o prédio em si.
Sam balançou a cabeça negativamente, suspirando demoradamente.
– Não tem jeito. – virou-se para voltar ao seu prédio, mas parou ao ver uma pessoa que parecia observá-los de maneira curiosa, por trás do tronco de uma das árvores mais adiante.
A pessoa se assustou e se escondeu de novo, assim que o encarou nos olhos, foi rápida o suficiente para ele não perceber quem era. Ele simplesmente ignorou e continuou o seu caminho dando de ombros.
Lislie suspirou aliviada quando conseguiu se esconder de novo atrás da árvore. Aqueles dois irmãos pareciam suspeitos demais. Primeiro, correndo a cavalo feito loucos atrás de alguém, segundo, fugindo de uma igreja com água benta! E agora, os dois estavam na mesma faculdade que ela e cheios de mentiras?! Ela, com certeza, iria descobrir o que eles estavam armando, precisava investigar o quanto antes… e convenhamos, seria uma bela distração ter que seguir o irmão mais velho. Só tinha que achar alguém para perseguir o mais novo.
Mas claro, só poderia pensar naquilo depois da próxima aula, afinal, já era hora de voltar pra sala para não chegar atrasada e escutar as advertências do professor.
A jovem encontrou com alguns amigos no caminho e começaram a conversar até chegarem à sala de aula. Ela sentou-se no mesmo lugar de sempre, lançando olhares desconfiados ao outro homem novato na classe. Ele parecia ou não notá-la, ou não dar a mínima bola se ela estava ali ou deixava de estar. Conversava vagamente com os outros, sempre parecendo que estava prestando atenção em outra coisa que não a conversa.
Por uns minutos, ficou observando o irmão mais novo, tentando descobrir alguma coisa mais suspeita do que o aparente, e então, o professor finalmente entrou na sala, fazendo todos se calarem e se sentarem em suas respectivas carteiras.
A aula teria transcorrido normalmente, claro, se Lislie não estivesse prestando atenção na porta de entrada da sala, com um vitral que permitia observar quem estava passando lá fora e também deixar que os de fora vissem quem estava dentro da sala. Claro que não podia ter sido diferente de seus pensamentos, logo ela avistou a cabeça daquele irmão mais velho passando pela frente da sala, parecia procurar alguma coisa no corredor, e certamente, ele deveria estar na sua sala de aula, qualquer que fosse esta.
Sem se importar com o que o irmão mais novo poderia fazer, ela se levantou, chamando a atenção do professor e do resto da sala.
– Er… banheiro. – ela disse simplesmente, indicando o motivo pelo qual ter se levantado.
O professor não precisou responder ou dar permissão, apenas retomou a fala de onde tinha parado. Lislie não esperou mais nenhuma reação e saiu andando pelas fileiras de cadeiras. Logo tinha saído da sala e estava observando os corredores, no momento, vazios.
– Agora… onde será que ele foi parar? – perguntou-se, olhando para os lados. Não demorou muito e decidiu seguir pela sua esquerda, era o único lugar que sabia que ele podia ter ido, por ter desaparecido no vitral por aquele lado. – Pode esperar, eu vou descobrir o que você está tramando.
Ela andou até o final do corredor, tomando cuidado para que ninguém a visse, e então, quando olhou para os dois lados do corredor, precisou se esconder de novo. Ele estava lá, olhando através de um dos vitrais de uma sala, realmente parecia procurar algo e esse algo parecia importante demais, pela primeira vez ela parecia vê-lo com uma expressão realmente séria.
Ele se afastou da porta, parecendo insatisfeito com o que tinha visto. Andou mais um pouco, até a próxima porta. Lislie seguiu-o, escondendo-se atrás de um dos armários de lá. Olhou de relance, ele tinha parado bem no meio do corredor, virando o rosto lentamente, como se quisesse ver alguma coisa atrás de si. A garota imediatamente escondeu-se atrás do armário novamente. Ele não poderia descobri-la, pelo menos não enquanto ela não descobrisse o que ele estava tramando.
Depois de algum tempo, respirando profundamente para ter certeza de que ele já tinha voltado a andar, ela espiou novamente pelo armário. Ele tinha voltado a andar e já estava prestes a virar um corredor. Lislie precisou ser rápida para alcançá-lo e não perder de vista, mas quando parou ao lado do corredor, apenas para espionar se ele já tinha se afastado, quase bateu de cara com ele quando ele apareceu na sua frente.
– Wah! – ela se afastou, surpresa com o aparecimento dele, de braços cruzados e não parecendo tão feliz.
– Você de novo. – ele disse, simplesmente.
– Eu… eu… – Lislie tentou formular uma frase decente, agora que tinha sido descoberta.
– Você anda me seguindo? – Dean perguntou, mas com um tom mais afirmativo que interrogativo.
– Eu?! Seguindo você?! – ela falou, de uma maneira como se estivesse indignada. – Eu com certeza não perderia o meu precioso tempo. Por que acha que eu o seguiria?
– Não sei… talvez porque estivesse… sei lá… se escondendo atrás do armário dois minutos atrás? – Dean respondeu, com um ar extremamente convencido.
– Atrás do armário? – Lislie questionou, ainda encenando indignação. – Eu não estava me escondendo atrás do armário. Você está ficando louco. Está vendo coisas demais.
– Estou é? – falando daquele jeito ele parecia até um pai prestes a dar uma bronca no filho mentiroso. – Por que você não pára de mentir logo e admite que estava me seguindo? Eu vi.
– Porque eu simplesmente não estou mentindo e não estava te seguindo. E olha só de quem estou ouvindo para parar de mentir. Devia dar exemplos. – ela cruzou os braços diante do corpo, não saindo da ofensiva contra ele.
– Já te disseram o quanto você é teimosa, menina? – ele descruzou os braços, colocando as mãos nos bolsos.
– Não me chame de menina! Eu não sou uma criança, oras. – Lislie implicou, se irritando com o tratamento.
– Mas parece, seguindo os outros desse jeito. – Dean replicou, confiante.
– Eu já disse que não estava seguindo! – ela repetiu, já começando a ficar cansada daquela insistência.
– Não vai descobrir nada com essa atitude. – ele quase não deixou espaço para que ela terminasse de falar.
– Vou sim, espere só pra ver! – Lislie falou sem pensar duas vezes, apenas se deu conta do que tinha feito quando viu o sorriso de deboche na face dele.
– Então você realmente estava me seguindo. – Dean disse, convencido. – Eu sei que sou irresistível.
– Oras! Até parece!!! Você me enganou, idiota! – ela reclamou, corando com o que acabara de acontecer. Se denunciara e ele ainda tinha que dizer que era irresistível com aquele sorriso no rosto?
– Shii… – ele fez um sinal para que ela calasse, olhando para o corredor bem atrás dela.
– E não me mande cal…! – antes que ela pudesse terminar a frase, ele já tinha puxado-a e calado a sua boca com a mão.
Puxou-a para o corredor em que ele tinha se escondido minutos atrás. Por uns segundos, ela ficou sem ação diante do que ele tinha acabado de fazer, mas então, recobrou a consciência e então, puxou a mão dele de sua boca, para se virar e encará-lo e começar a brigar com ele, claro.
Antes que pudesse falar alguma coisa, ele colocou os dedos sobre os lábios dela, e com o rosto incrivelmente próximo e talvez um pouco sério, ele fez outro sinal para que ela calasse. Lislie resolveu obedecer pela primeira vez. Estava ficando curiosa com o que causara aquela reação repentina nele.
Ele se encostou à parede de novo, virando o rosto para espiar sutilmente o corredor em que estavam minutos atrás. Dessa vez ele realmente parecia querer se esconder de quem quer que estivesse ali.
Curiosa, como sempre, ela aproximou-se da parede também, para poder observar a mesma coisa que ele.
– Eh?! – ela falou ao ver a pessoa que ele estava observando, sem entender.
Antes que ela pudesse perguntar alguma coisa, ele tapou-lhe a boca novamente e mandou-a calar, depois, voltou a observar uma mulher alta, com cabelos loiros amarrados num coque baixo. Ela estava parada de frente para o corredor por onde Lislie e Dean haviam aparecido, parecia também procurar alguma coisa.
Lislie ainda tentou se soltar dele, mas ele parecia bem mais forte do que ela tinha imaginado. Apenas se viu livre dos braços dele quando a mulher finalmente voltou a andar, desaparecendo ao longo do corredor. Dean esticou o pescoço um pouco mais, para confirmar que ela tinha saído de vista, e apenas nesse momento, ele largou a outra.
– O que diabos você achou que estava fazendo?! – ela reclamou, irritada com a atitude dele.
– Você faz muito barulho. – ele disse, recolocando as mãos nos bolsos. Então, curvando-se como se fosse confidenciar algum segredo para ela, completou. – Quase fomos descobertos.
– Descobertos o que?! – ela perguntou, corada com a aproximação. – Não estávamos fazendo nada de errado!
– É melhor você parar de seguir os outros por aí, ou vão achar bem estranho. – Dean disse, dando as costas e começando a andar pelo corredor.
– Ei! Não dê as costas pra mim! – ela reclamou, batendo o pé no chão e com vontade de persegui-lo.
– Eu tenho coisas mais importantes pra fazer, menina. – ele disse, parando e dando meia volta para voltar a encará-la, com aquele sorriso debochado no rosto. – Tchau.
Acenou levemente e então, desapareceu por mais um dos malditos corredores.
– Ah, você não vai fugir. – ela disse, já correndo para poder tirar aquela história a limpo.
Mas, infelizmente, pouco antes de alcançar o corredor, as aulas tinham acabado, então, de repente tinham pessoas demais saindo de todas as salas. Quando ela alcançou o corredor, esse já estava tão infestado de pessoas que ela o perdeu completamente de vista.
– Droga! – praguejou, tentando passar pela multidão de pessoas e ver se ainda conseguia avistar as costas do rapaz, pelo menos. Mas eles todos eram altos demais e Dean parecia ter desaparecido com mágica.
Suspirou derrotada e quando estava prestes a se virar para voltar para a sala, foi de encontro com outra pessoa que estava bem atrás de si.
– Lis?
A dona dos olhos esverdeados levantou a cabeça ao escutar uma conhecida voz chamar seu nome.
– Ah, Alisson. – Lislie respirou aliviada ao perceber quem era.
– O que está fazendo aqui? – Alisson perguntou, estranhando o fato da prima estar por ali, se a aula dela era a alguns corredores de distância. – Suas aulas acabaram mais cedo?
– Eh… acabaram. – Lislie sorriu sem graça. Claro que não ia dizer pra prima que estivera seguindo um cara suspeito pelos corredores da faculdade. Na verdade, quem não era suspeito ali dentro?
– Então… onde estão suas coisas? – Alisson perguntou, notando que a outra não carregava a bolsa ou os livros de costume. Na verdade, não carregava nada além daquela expressão de uma criança travessa que acabara de fazer alguma coisa errada e não queria contar para os pais.
– Er… – ela olhou para os lados, como se esperasse que os livros aparecessem ali magicamente, mas infelizmente não foi o que aconteceu. – Boa pergunta.
– Então, o que estava fazendo? – Alisson perguntou, colocando a mão na cintura, enquanto o outro braço segurava alguns poucos livros.
– Que tal a gente ir buscar as coisas que eu esqueci na sala? – Lislie tentou mudar de assunto. – Daí a gente pode ir pra casa. Você vai lá pra casa hoje? Pode ir jantar lá. – ela propôs, já andando na direção do corredor que dava na sua sala, Alisson a seguia de perto.
– Então você vai me contar o que estava fazendo aqui? – Alisson perguntou, alcançando-a e andando ao seu lado.
– Vou. – Lislie respondeu. – Eu justamente vim aqui para chamar você pra gente ir lá pra casa.
– E o que estava procurando no corredor com tanta gente? – Alisson perguntou.
– Não estava procurando nada. – Lislie respondeu, já começando a se irritar com a insistência. Se continuasse daquele jeito, ela acabaria falando o que não devia. – E pare de fazer perguntas como se eu estivesse fazendo alguma coisa errada.
– E não estava? – Alisson perguntou, sorrindo levemente.
– Claro que não! – Lislie respondeu, como uma criancinha emburrada que havia sido contrariada.
– Se você diz, prima. – Alisson sorriu novamente. Uma hora ou outra acabaria descobrindo o que estava se passando na cabeça da mais nova. Ela não era a melhor pessoa do mundo para disfarçar alguma coisa.
– Bom, você vai pra minha casa? – ela perguntou, quando já chegava até sua sala e se despedia de algumas pessoas que estavam saindo, enquanto entrava para pegar suas coisas.
– Não, hoje não vai dar. – Alisson disse, olhando o relógio. – Eu preciso fazer uns trabalhos e terminar um relatório. Amanhã a gente se fala então.
– Certo. – Lislie concordou, sorridente, feliz que tinham parado de falar sobre ela estar espreitando pelos corredores da faculdade.
– Então até mais. – Alisson acenou, seguindo até a porta para sair pelo corredor.
– Até amanhã. – Lislie acenou também, guardando o material e saindo da sala poucos minutos depois.
Demorou a chegar em casa, mas ela finalmente conseguiu o tão merecido descanso. Ainda precisava organizar umas coisas da faculdade mais tarde. Alguns trabalhos e ainda tinha que estudar, claro.
Quando ela finalmente foi dormir, já caindo de sono, já passava das onze da noite. Além do que, maior parte dos estudos ela sempre se pegava pensando no que não devia – ou melhor, em quem não devia – o que dificultava um pouco as coisas.
Por sorte, conseguiu não se atrasar na manhã seguinte. Na verdade, chegou cedo o suficiente para não encontrar ninguém conhecido. Seguiu direto para a sala, cumprimentou alguns colegas de classe com quem tinha menos afinidade e então, seguiu até a sua carteira. Sentou-se e colocou a bolsa de lado, com alguns livros em cima da mesa. Teria ficado ali, quieta e sem conversar com ninguém até que algum de seus amigos desse o ar da graça, caso uma conversa de dois outros alunos não lhe tivesse chamado a atenção.
– Você soube que teve mais uma aluna daqui que morreu essa semana? – uma garota de longos cabelos negros, cujo nome Lislie não tinha certeza se sabia, falou quase num sussurro, mas Lislie conseguiu escutar o relato perfeitamente bem.
– Daqui do nosso curso? – a mulher dona dos cabelos loiros, a qual Lislie já tinha ouvido atender pelo nome de Mariane, questionou.
– Não. Daqui da faculdade. – a outra retificou. – Parece que ela fazia Administração.
– Nossa, já é a segunda pessoa em um mês. – Mariane comentou. – Que coisa estranha, não?
– A primeira garota que morreu era do nosso curso, mas ela era novata. – a dona dos cabelos negros comentou. – Mas estranho não são as mortes, estranho são o jeito como elas morrem.
– E como é? Eu nunca prestava atenção nessas notícias. – Mariane perguntou, parecendo curiosa.
– É uma boa pergunta. – a segunda mulher sorriu. – Por alto, sabemos que as vítimas morreram por perda de sangue, mas ninguém sabe os detalhes, as autoridades se recusam a entrar em mais detalhes, sabe-se lá por que. Será que agora temos um assassino serial na nossa cidade? – sorriu novamente, como se aquela idéia fosse uma coisa com a qual se empolgar.
– Não diga esse tipo de coisas. – Mariane repreendeu a amiga. – Vai que estamos em perigo?
– Que nada. – a outra fez descaso. – Ninguém vai querer matar mulheres numa só faculdade. E além do mais, o que tem demais nessa faculdade que não tem nas outras. É só alguma brincadeira sem gosto.
– E que brincadeira mais sem gosto. – Mariane comentou.
Daquele momento em diante, Lislie não viu o menor sentido em continuar prestando atenção à conversa delas, até porque não precisava saber sobre garotos que elas estavam atrás ou sobre os detalhes do trabalho em grupo que teriam de fazer no fim de semana.
Ficou com a cabeça apoiada nas mãos por um minuto, apenas olhando fixo. Pensava sobre aquelas notícias e na verdade não tinha idéia do que tinha acontecido com aquelas duas garotas de que suas colegas de classe falavam. Será que estava assim tão desatenta ao que acontecia no próprio ambiente de estudo a ponto de não saber de mortes, ou as mortes não eram assim tão significativas?
Balançou a cabeça depois de um tempo, não estava com vontade de pensar em mortes naquele momento, aquilo lhe dava náuseas. Levantou-se e saiu da sala procurando algum lugar para lavar o rosto, e depois beber um pouco de água também. Pelo menos durante toda aquela manhã ela não se importava com o fato de que aquele homem ainda podia estar rondando a faculdade, cheio de seus mistérios. Diante de dois assassinatos suspeitos, ele parecia o mínimo dos interesses no momento.
Ela parou na porta do banheiro e entrou, se olhou no espelho por alguns minutos e então, lavou o rosto. Enxugou as mãos e o rosto também para poder sair do lugar, assim que fechou a porta e estava virando na direção do corredor da sua sala, esbarrou com uma pessoa, não caindo por pouco, assim como a outra pessoa.
– Ah, me desculpe, eu não vi por onde estava indo. – uma voz feminina se desculpou, fazendo Lislie erguer a cabeça para encarar a pessoa desconhecida.
A mulher que estava a sua frente era um pouco mais alta que ela, tinha cabelos loiros amarrados de maneira desleixada num coque baixo, os olhos estavam fundos como se não dormisse bem há dias, tinha também uma pele muito pálida. Parecia até estar doente. Os olhos dela também eram de um azul incrivelmente claro e estranhamente sem brilho.
– Não tem problema. – Lislie sorriu para a jovem garota, fazendo com que ela levantasse os olhos do chão para encará-la. – Você está procurando por alguém? Eu nunca a vi por aqui…
– Ah… não. – ela respondeu, sorrindo fracamente. – É que eu acabei de ser transferida. Estava procurando a minha sala.
– Ah certo. – Lislie disse, não imaginando que àquela altura do ano ainda pudesse encontrar pessoas transferidas. – E em que sala você está? Talvez eu possa ajudar.
– Er… – ela buscou uma folha entre os livros que carregava em mãos, analisou-a por uns segundos e finalmente respondeu, ainda atenta ao pedaço de papel. – Estou na sala 201.
– É a minha sala. – Lislie sorriu para a jovem. – Venha, está indo para o lado errado.
– Obrigada. – a mulher agradeceu, tentando forçar um sorriso, mas aquilo parecia uma coisa difícil para ela fazer.
– Parece que vamos estudar na mesma classe de agora em diante. – Lislie tentou puxar conversa com a outra, que parecia completamente retraída. – Ainda não me disse seu nome.
– Nathaly. – ela respondeu, desviando os olhos rapidamente do chão para poder fitar a nova colega de classe.
– Prazer, Nathaly. – Lislie estendeu a mão para que a mulher apertasse-a. – Eu sou Lis. Bom, seja bem-vinda.
– Obrigada. – Nathaly agradeceu mais uma vez.
– De onde você vem? – Lislie perguntou, ainda tentando manter uma conversa civilizada com a mulher enquanto não alcançavam a sala de aula.
– De Phoenix. – Nathaly tinha voltado a encarar o chão. Lislie já estava ficando incomodada com aquela fixação que a garota tinha por seus próprios pés. Não era de se estranhar que tivessem se esbarrado alguns minutos antes.
– E você… veio com seus pais? Sozinha? – Nathaly parecia querer parar de falar, mas Lislie não a deixaria em paz, pelo menos enquanto não estivessem durante a aula.
– Eu vim… – ela hesitou por uns minutos, e se não estivesse fitando os próprios pés, Lislie poderia dizer de certeza que os olhos dela haviam se arregalado um pouco. – Pra morar com meus tios.
– Ah, então seus pais ficaram lá em Phoenix?
– Er… é essa a nossa sala? – Nathaly desviou do assunto, fazendo Lislie se virar para ver a porta diante da qual estavam no momento.
– É essa sim. – ela confirmou, e antes mesmo que pudesse perceber, Nathaly parecia ter corrido para dentro da sala, fugindo dela e de suas perguntas, e sentara-se numa cadeira bem no fundo, longe dos olhares curiosos, se é que era possível, com aquela aparência completamente abatida.
Lislie ficou a fitá-la por alguns segundos, então, deu de ombros e entrou na sala, não sem antes perceber que mais alguém estava de olho na aluna novata. Andou até a sua carteira encarando aquele irmão mais novo que tinha entrado para sua classe no dia anterior mesmo. Agora que estava vendo-o, sua curiosidade pelo que os dois irmãos estavam escondendo começava a aumentar. Da outra vez, Dean estava vigiando uma loira que ela tinha certeza que nunca tinha visto ali. Mas claro que tinha que ser uma mulher… homens eram todos iguais, adoravam pensar com a cabeça errada.
Ao alcançar sua carteira, não teve tempo de trocar ao menos um oi com os amigos que tinham chegado no meio tempo que ela fora até o banheiro, e o professor já tinha entrado na sala, silencioso como sempre, pronto para começar a aula, e todos os alunos já tinham sentado em seus devidos lugares.
Durante o resto das aulas, as coisas pareciam mais uma vez completamente normais, exceto pelo fato de que o tal do Sam não parava de encarar a novata como se desconfiasse que ela estivesse com uma arma escondida… e outro fato importante, o irmão mais velho não tinha aparecido ainda. Não que Lislie esperasse que ele aparecesse, ela apenas achava que com o comportamento estranho dele e com a mentira descarada de que estudava ali, ele devia ter aparecido naquele dia também.
Lislie não conseguiu voltar a falar com Nathaly, assim como parecia que ela estava se afastando de todo mundo, parecia ter medo de contrair algum tipo de doença contagiosa.
Apenas quando estava arrumando as coisas para ir embora, viu uma possibilidade de voltar a conversar com a mulher, ela também estava terminando de guardar suas coisas, e fazia aquilo de maneira tão rápida que conseguia se atrapalhar ainda mais.
Depois de arrumar os livros dentro da bolsa e despedir-se dos amigos, Lislie andou até a loira e ajudou-a a terminar de arrumar os livros. Franziu o cenho quando tocou num dos livros e percebeu que Nathaly se assustara com a súbita presença.
– Alguma coisa errada? – Lislie perguntou, notando que ela ficara aliviada ao reconhecer a colega de classe.
– N-não. – Nathaly mais uma vez tentou forçar o sorriso, aceitando o livro que Lislie recolhera e tentando arrumá-lo mais calmamente, voltando o olhar para baixo.
– Tem certeza? – Lislie voltou a perguntar. – Você me parece um pouco doente.
– T-tenho sim. Eu estou bem, obrigada. – Nathaly praticamente tomou o outro livro das mãos de Lislie e então, se dirigiu rapidamente até a porta da sala.
– De nada… – Lislie disse, quando a garota já estava fora de seu campo de visão.
Andou até a porta para poder ir embora também, mas antes de alcançá-la, Alisson já estava chegando.
– Você se perdeu no caminho da sua carteira até a porta, prima? – Alisson perguntou, parando encostada à batente da porta.
– Desculpe a demora. – Lislie disse, já andando para saírem dali. – Estava ajudando uma aluna novata.
– Novata? Nessa época do ano? – Alisson questionou.
– Pois é, eu pensei a mesma coisa. – Lislie respondeu. – Ela veio transferida de Phoenix. Parece que não está muito bem.
– Então… será que é uma loira, magra, que eu vi passando agorinha? – Alisson perguntou, lembrando-se da figura que encontrara no corredor.
– Isso mesmo. – Lislie confirmou.
– Bom, eu quero chegar cedo em casa hoje. – Alisson disse, apressando o passo para saírem do prédio de Direito. – Tenho que começar uma monografia pra entregar semana que vem.
– Também tenho que começar a fazer alguns trabalhos pra semana que vem. – Lislie disse, abrindo o livro que carregava em mãos para ver anotações que tinha feito nos cantos das páginas. – Isso, tenho que entregar um pra próxima segunda. E outro pra quarta.
– Parece que o fim de semana vai ser bem cheio, prima. – Alisson disse, quando elas finalmente alcançaram os gramados do campus.
Lislie fechou o livro, concordando mentalmente com a prima, provavelmente seria bem cheio de trabalhos pra fazer, nem ia poder se divertir um pouco. Elas andavam a passos largos para poder sair do campus, quando os olhos de Lislie pousaram sobre a figura conhecida na qual pensara mais cedo – e na maior parte das aulas também.
Dean estava conversando com o irmão mais novo, ao lado de um carro preto que estava no estacionamento. Ele parecia bem sério e mesmo que estivessem longe de tudo e todos, pareciam falar em sussurros, por conta dos movimentos leves que faziam. Vez ou outra eles olhavam para algum papel que estava estendido sobre o teto do carro, como se analisassem informações.
Teria continuado observando-os, caso Alisson não tivesse puxado seu braço de maneira brusca, por pouco não arrancando fora.
– Ei! – Lislie reclamou, puxando o braço de volta.
– Você tá em que mundo, priminha? – Alisson perguntou, no mesmo tom calmo de sempre. – Se continuasse olhando para os homens ali, ia bater com a testa na árvore. Acho que não seria muito bom pra sua imagem diante dos caras que está paquerando.
– Paquerando?! – Lislie questionou de maneira indignada. – Você está ficando louca. Eu jamais iria paquerar esses dois caras… – ela andava mais rápido agora e olhando apenas para frente.
– Os dois não, mas pelo menos um deles… – Alisson disse, sorrindo insinuante.
– Pare de pensar besteiras, prima, acho que a monografia está lhe afetando seriamente. – Lislie disse. – Eu não estou paquerando ninguém.
– Sei, sei. – Alisson concordou vagamente, desconsiderando, claro, que aquilo fosse verdade.
– Vamos mais rápido, tenho muita coisa pra fazer ainda hoje! – Lislie disse, praticamente começando a correr para fugir da prima.
– Certo, não precisa correr, senão tem a chance de tropeçar na frente deles também! – Alisson continuou a tentar irritar a prima.
Lislie não respondeu mais, apenas lançou um último olhar à dupla de irmãos antes deles saírem de vista. Parecia que eles não tinham nem percebido ela passando, e pareciam não perceber mais ninguém à volta.
A jovem finalmente deu as costas ao campus para poder seguir na direção em que pegaria o metrô para voltar para casa. Nunca imaginou que a sua faculdade pudesse deixá-la tão confusa. De repente, parecia que tudo estava aparecendo de uma só vez… homens estranhos, mortes das quais ela não sabia, alunos novos e estranhos…
– Aii!!! – bateu com a mão na testa, quando já estava ao lado de sua prima, perto da estação de metrô.
– O que foi dessa vez? – Alisson perguntou, notando o ato repentino da prima.
– Esqueci que tenho aula amanhã também! Que inferno! Só eu que preciso ter aula seis dias por semana e estudar oito. – resmungou mais pra si mesma do que para Alisson.
– Veja pelo lado bom, pelo menos vai encontrar os dois irmãos de novo, ou um deles, dependendo se eles vierem para a faculdade. – Alisson disse casualmente, descendo as escadas para a estação do metrô.
– É, tem esse lado tamb… – Lislie parou de falar de súbito, quando notou um sorrisinho debochado na face da prima. Inferno! Por que ela tinha sempre que cair naquelas brincadeiras?! – Você nem parece ser minha prima, me enganando desse jeito!
– Você tá vermelhinha, Lis! – Alisson comentou, sorrindo largamente diante da atitude infantil da outra.
– Blá! – tentou ignorar o comentário dela, sabia que estava vermelha, só não sabia se aquilo era mais de raiva ou de vergonha.
Qualquer que fosse, não era algo com o que se preocupar agora, só precisava entrar no metrô, esquecer tudo o que estava em sua cabeça e voltar para a faculdade na manhã seguinte, rezando para que reencontrasse os irmãos, ou pelo menos o mais velho, já valeria sua manhã. Repreendeu-se mentalmente de imediato ao perceber no que estava pensando. Ia para a faculdade para estudar e não para ficar de olho nos homens.
Quando Lislie conseguiu parar de pensar naqueles caras e nos seus supostos mistérios, já estava em casa, na frente do computador, trancada em seu quarto, digitando parte dos trabalhos e relatórios que precisaria entregar nas semanas que se seguiriam.
Quando teve finalmente a chance de desligar o computador para ir dormir, já passava da meia noite. E teria que acordar bem cedo na manhã seguinte. Praguejava aquilo de ter que estudar pela manhã. Só podia ser algum tipo de maldição que tinham lançado em si.
Depois de desligado o computador, levantou-se da cadeira, espreguiçando-se. E então, seguiu até a janela para fechá-la e fechar as cortinas. Teria feito aquilo, se algo não tivesse lhe chamado a atenção na rua.
Estava tudo deserto, exceto por duas pessoas que estavam exatamente no meio da rua, clareada apenas pelas fracas luzes de alguns poucos postes, que Lislie sabia que seriam desligadas em breve e a luz da lua. Eram duas pessoas bem estranhas. Uma delas, que estava de costas para a janela de onde a jovem observava, estava com um tipo de capa que tinha um capuz, conseqüentemente, a única coisa que a garota pôde constatar, era que a pessoa era muito alta. Bem de frente a essa pessoa, e de frente para a janela de onde ela observava também, estava uma mulher. Ela tinha cabelos negros e curtos, estavam bem assanhados, àquela distância, Lislie não pôde confirmar, mas tinha a ligeira impressão de que a mulher parecia desesperada, principalmente pelos movimentos bruscos que fazia hora ou outra, enquanto falava com a pessoa à sua frente.
Aquela cena era uma cena bem estranha de se observar bem ali, na rua pela qual costumava passar todos os dias e que costumava estar deserta a partir das dez da noite. Já estava quase caindo de sono, mas estava tão curiosa, que precisou esfregar os olhos para manter-se acordada tempo o suficiente para descobrir o que aquelas duas pessoas estavam fazendo ali. Queria ter audição biônica, assim poderia escutá-las também. Não que gostasse de fofocas, mas que aquilo era suspeito, ah, sim, era – e seu nível de coisas suspeitas tinha aumentado desde o aparecimento dos tais dois irmãos.
Só precisou esfregar os olhos uma vez mais para assustar-se com a rapidez com a qual a situação lá embaixo tinha mudado. A pessoa que estava encapuzada segurava fortemente a mulher diante de si pelo pescoço. A mulher tentava soltar-se inutilmente. Lislie levou as mãos à boca quando percebeu que a mulher parecia estar começando a ficar com falta de ar. Por Deus, o que eles estavam fazendo? A mulher desesperou-se ainda mais, tentando se libertar o quanto antes. Queria gritar, mas a mão da segunda pessoa parecia impedir que a voz dela saísse.
Lislie queria fechar os olhos, com medo do que pudesse acontecer, mas não conseguia, incrivelmente, seus olhos queriam prestar atenção naquela cena. Com uma rapidez que ela mesma não sabia que humanos tinham, a pessoa encapuzada puxou a mulher para perto de si, repousando a cabeça na curva entre o pescoço e o ombro. Era impressão dela, ou o ser encapuzado estava mordendo a outra mulher?
Sem que percebesse, suas feições contorceram-se em nojo. Encarou o rosto da mulher que agora parecia completamente entorpecida. A mão da pessoa encapuzada ainda apertava o pescoço da mulher fortemente. Por alguns segundos, Lislie teve a ligeira impressão de que a mulher estava lhe encarando… arregalou os olhos levemente com aquela sensação. Estava com medo.
Sentiu o corpo estremecer quando a pessoa encapuzada afastou-se rapidamente da mulher, fazendo um movimento tão ágil com a mão que sangue espirrou para todo o lado saindo do pescoço da mulher… ela caiu com um baque surdo no chão, seu sangue espalhando-se por todo o asfalto. Apenas naquele momento Lislie pôde notar que havia uma coisa como uma garra no dedo polegar da pessoa encapuzada. Ela ainda continuava de costas, olhando a mulher estendida no chão.
Ela queria ter gritado com aquilo, sentiu uma lágrima correr de seus olhos… por Deus, o que era aquilo que tinha acabado de presenciar? Seus olhos encararam o corpo desfalecido da vítima no chão, seus olhos encararam agora os olhos sem vida da mulher. Ainda era impressão ou aquele cadáver estava encarando-lhe? O corpo estremeceu mais ainda… e apenas naquele momento percebeu que a pessoa encapuzada ainda fitava o corpo da mulher, como se estivesse curiosa. Deu alguns passos até chegar perto do rosto da vítima, abaixando-se e tocando levemente a pele da mulher estendida no chão.
E naquele momento, virou o rosto de súbito, exatamente para a mesma janela pela qual Lislie estava encarando o corpo. Foi simplesmente instintivo, mas antes que pudesse ao menos encarar direito o rosto do assassino, Lislie virou-se, escondendo-se ao lado da janela. Sua respiração estava pesada, as batidas descompassadas… passou a mão pelo rosto, sentindo o líquido que acabara de escorrer de seus olhos. Será que tinha mesmo presenciado aquilo? Não podia ser… não podia ser verdade. Ainda conseguia sentir o medo em cada fio de seu cabelo… será que ele a tinha visto? E ela… teria encarado o rosto dele ou não?
Correu para sua cama sem nem pensar duas vezes, escondendo-se em baixo do lençol, encolhida.
– Um sonho… isso só pode ter sido um sonho… quando eu acordar amanhã, vou descobrir que tudo não passou de um mero sonho! – sussurrou consigo mesma, tentando convencer-se daquela verdade fantasiosa.
Que fosse apenas um sonho.
Final do Capítulo Dois
Primeiro capítulo postado no ano de 2009!
Bom, espero que eu poste mais coisas nesse ano…
Feliz 2009 a todos! –se é que tem alguém por aqui XD–
Obrigada à Palas Lis, PATRICIA RODRIGUES, Rukia-hime e Crica pelos comentários, espero que continuem lendo, e até a próxima!