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Mitzrael Girl
Author of 46 Stories

Rated: T - Portuguese - Drama/Adventure - Reviews: 8 - Updated: 07-22-09 - Published: 04-26-09 - id:5022405

Disclaimer: Saint Seiya não me pertence. Faço este fic apenas por diversão, sem fins lucrativos.

The Judgment

Para Imouto e Tia Nat

II

Mina quase teve vontade de tirar a máscara naquele momento, ao encarar aquela paisagem que já devia ser comum aos seus olhos, visto que estivera numa ilha por muitos anos de sua vida. Mas aquela parecia completamente diferente. Em meio às ruínas do antigo templo de Poseidon – este certamente desabitado, ao contrário do de Athena –, encarava o grande oceano que banhava as terras gregas. Aquela brisa a fez ter vontade de apenas sentar-se e descansar, como nos velhos tempos… entretanto, não estava mais numa ilha habitada apenas por amazonas. Na verdade, estava acompanhada naquele exato momento, pelo seu atual mestre, Saga de Gêmeos.

Os dois tinham alcançado o local em menos de minutos com a velocidade que seus cosmos lhes permitiam. Trajados em suas armaduras – um contraste certamente imenso entre a armadura de treinamento de Mina e a de ouro de Saga –, estavam parados apenas observando o mar… ou era o que Mina imaginava. Pelo menos Saga ainda não havia se pronunciado desde que saíra do Santuário aquela manhã. As únicas palavras que ouvira o dia todo foram: “Vamos começar o treinamento” e “Siga-me”. Estava imaginando, enquanto o encarava de costas, se o treinamento deles ia ser só meditação ou coisa parecida, porque já calculava mais de dez minutos que estavam apenas parados ali, encarando o mar.

– Então… o que vamos fazer agora? – Mina perguntou finalmente, tentando atrair a atenção de Saga. Mas ele não parecia que estava ouvindo qualquer palavra além do som do vento. Talvez fosse culpa daquele elmo que tapava a audição dele, ou coisa parecida, mas por mais uns cinco minutos ele ficou calado, sem dar sinal de que ouvira Mina.

Ela quase sentou nas ruínas com o tédio que estava começando a lhe subir à cabeça. Não sabia o que ele podia ter em mente, mas talvez não fosse punida por fazer alguma coisa que ele não negara explicitamente.

– Por que viemos aqui? – Mina tentou chamar a atenção dele mais uma vez, e decidira que se ele não ia falar, ela poderia se ocupar daquela tarefa. – Eu achei que o treinamento ia acontecer no Santuário mesmo. Vim aqui para aprender alguma coisa em especial?

– Esse lugar é ideal. – Saga respondeu finalmente, retirando o elmo e se virando para fitar Mina. – Me lembra como pode ser fácil prender alguém por tanto tempo.

– O que quer dizer com isso? – Mina perguntou, confusa com a súbita afirmação do cavaleiro de ouro.

– Esse vai ser o seu primeiro teste como futura amazona de Gêmeos. – ele abaixou-se cautelosamente, deixando o elmo sobre uma das ruínas e virando-se para Mina. – Lhe ensinarei o primeiro golpe essencial para o Cavaleiro de Gêmeos. E você vai precisar voltar até aqui, e fique atenta… só vai ver o golpe uma vez.

Mina piscou duas vezes por trás da máscara, preparando-se para o que quer que estivesse por vir. Mas antes que pudesse raciocinar direito, as mãos de Saga tinham se unido sobre a cabeça, e ela ouviu apenas duas palavras antes de sentir-se atingida por um pulso de energia tão forte que poderia tê-la jogado em outro espaço: “Outra dimensão!”

A amazona precisou piscar duas vezes para ter certeza de que a sua suposição estava certa. Poderia estar em qualquer lugar, menos na Terra. Na verdade, estava em lugar nenhum, pelo visto.

– O que é isso…? – perguntou-se, olhando ao redor e percebendo que seus pés não tocavam um chão, como se seu corpo flutuasse, embora não tivesse aquela sensação.

Tudo ao redor era banhado em escuridão. Não havia nada, nenhum som, nenhuma imagem, nada além de um gigantesco vazio negro que ela não fazia idéia de onde começava e onde terminava, se é que haveria limites ali.

– O que significa isso? Como é que vou treinar aqui? Que inferno é esse?! – reclamou consigo mesma, e teve dúvidas se sua voz tinha mesmo saído de sua boca. – Eu preciso… sair daqui?

Naquele lugar, parecia difícil até se virar. Era como se não houvesse até ar para respirar, ou o próprio espaço ao redor dela não existisse. Uma sensação estranha preenchia seu corpo, um completo vazio. No momento, estava achando que aquilo não poderia ficar muito pior, e sua maior preocupação era achar a porta daquele local de volta para a Terra, de preferência, direto para o Santuário, longe daquele cavaleiro maluco. Entretanto, as preocupações começaram a surgir com o que ela poderia jurar que era “a luz no fim do túnel”. Havia um ponto branco, que parecia incrivelmente distante de onde ela estava, e o mais frustrante, era que não conseguia se mover na direção dele. Mas o ponto parecia estar se aproximando, ela só não tinha certeza do que seria verdade: o ponto se aproximando, ela se movendo, ou o branco se expandindo. Ela só teve certeza de alguma coisa quando aquela mancha branca atingiu o tamanho de uma bola de vôlei, e não era certeza de uma coisa boa. Era como se aquela mancha branca estivesse lhe tirando o espaço que ela deveria ocupar, quase como se estivesse sufocando-a, esmagando seu corpo sem realmente o fazer.

Ela ainda não sabia o que era aquilo, mas seu instinto de amazona e mesmo de sobrevivência estava gritando para que ela conseguisse sair dali o mais rápido possível.

– Mas como?! – perguntou-se, tentando, em vão, se afastar da mancha branca.

Em poucos minutos – ou o que ela achou serem alguns minutos –, a sensação de estar sendo esmagada começou a piorar, com se algo estivesse pesando cada vez mais, e então, viu mais um ponto branco começar a surgir distante.

– Isso não pode ser verdade… – mesmo que ela não conseguisse ouvir a própria voz direito, sentia como se ela tivesse diminuído, por conta da nova sensação. Se não saísse dali em pouco tempo, não sairia nunca mais.

xXx

Liadan já estava xingando mentalmente há pelo menos meia hora enquanto subiam aquelas montanhas caminhando sem usar nenhuma habilidade eficiente. “Isso vai ser parte do seu treinamento”, eram as palavras que Mu tinha dito a ela quando desembarcaram naquele fim de mundo. Nem sabia direito onde estavam, algum lugar muito longe do Santuário, com certeza… entretanto, pelo sol, claro que o tempo não parecia ter passado.

O lugar era frio – e quanto mais subiam, mais frio ficava –, o ar estava ficando rarefeito, e ela realmente não estava acostumada com aquele clima. Gostava de frio, mas não tão exagerado, principalmente quando uma máscara prateada estava ameaçando ficar grudada ao seu rosto pelo resto da vida.

A fome já estava lhe incomodando, sentia que devia ter comido bem mais no café da manhã… bom, se tivesse tempo pelo menos, por terem acordado tão cedo pra irem praquele lugar. Provavelmente o Santuário inteiro ainda estava dormindo quando eles partiram. Só queria saber do que exatamente se tratava aquele treinamento. E ainda nem tivera tempo para falar com Alexia e Mina sobre as teorias de conspiração dos cavaleiros de Ouro contra elas.

– Estamos quase chegando agora.

Aquelas palavras fizeram um sorriso se abrir automaticamente nos lábios de Liadan. Mu, obviamente, não parecia nem um milésimo de cansado, e ainda estava carregando aquela urna enorme nas costas com a armadura de Áries. Ela não estava carregando nada mesmo, e ainda assim odiava a maldita caminhada.

Claro que tinha um treinamento mais que suficiente para não cansar com toda aquela escalada, mas devia admitir que era tedioso. Do mesmo modo que subir e descer todas as malditas escadarias do santuário. Para que aquele exagero? Era pra ser algum tipo de prova? Se inimigos fortes fossem enfrentar o Santuário, certamente que as escadas seriam o menor de seus problemas.

Depois do anúncio de Mu, precisaram andar ainda mais uns dez minutos até que ele parasse diante de um rochedo e virasse para ela.

– Agora sim, chegamos. – o ariano anunciou.

Liadan se apressou para o lado dele e ao passar do paredão, encarou uma área plana e grande, entre as várias montanhas cujos picos ainda se escondiam entre as nuvens altas. Naquela planície, um tipo de prédio de arquitetura oriental se erguia. Era estranho, não tinha portas no andar térreo, apenas nos andares superiores, e ia se erguendo como uma torre uniforme.

– Alguém se esqueceu de alguma coisa nesse prédio aí… que lugar é esse?

– Jamiel. É aqui onde eu costumo estar quando não estou no Santuário. E é aqui onde grande parte dos cavaleiros de Athena vêm para pedir que suas armaduras sejam consertadas. – Mu disse, continuando a andar na direção do prédio. Liadan o seguiu.

– Mas eu achei que você pudesse fazer isso na casa de Áries. – Liadan comentou, parando ao lado de Mu quando ele ficou a alguns passos de distância do prédio e colocou a urna de ouro no chão.

– E posso. Mas eu disse que nem todos os cavaleiros de Áries são necessariamente restauradores de armaduras. – ele sorriu. – Os restauradores é que ficam aqui.

– Ah tá. – Liadan respondeu, despreocupada. – Ainda bem que eu num vou ter que morar nisso aqui. – ela não precisou se preocupar com a expressão surpresa por trás da máscara, Mu não podia ver, e provavelmente ficaria irritado se alguém chamasse a casa dele de “isso”, mas ela logo se importou em mudar de assunto. – Então… o que viemos fazer aqui exatamente?

– Nós… viemos treinar, claro. – Mu respondeu, e fez com que a urna começasse a flutuar bem diante deles.

– Wow… vai jogar isso em mim? – Liadan perguntou, apontando para a urna que estava flutuando bem diante deles e então, virou-se para Mu. Ele sorriu.

Sem respostas, a urna se desmontou e em um piscar de olhos, a armadura de Áries estava cobrindo o dono dos cabelos lilases.

– A primeira coisa e a mais importante que precisa saber sobre o cavaleiro de Áries é a Telecinese. Os principais golpes de Áries são baseados em telecinese, e se não souber controlá-la perfeitamente, não vou poder ensinar nenhum deles… e suponho que se não aprender os golpes de um cavaleiro de ouro, não pode ser um de nós. – ele disse, andando lentamente e parando a alguns metros de distancia de Liadan, de frente para ela, tirando o elmo e segurando sob um dos braços.

– Hm… certo. Como eu vou aprender isso? – Liadan perguntou, começando a prestar bem mais atenção depois da parte de "não pode ser um de nós".

– Suponho que eu não precise lhe explicar do que se trata a telecinese, não? – Mu comentou, e Liadan apenas fez um sinal de cabeça para confirmar, como se a resposta fosse óbvia demais para ser falada. – Bom… o fato é que a telecinese é uma arte natural dos lemurianos, um povo há muito extinto e com poucos descendentes.

– Eu acho que não tenho sangue desse povo. – Liadan comentou, um pouco confusa. – Então, como vamos fazer?

– Eu disse que a telecinese é uma arte natural dos lemurianos. – Um falou, caminhando alguns passos na direção da enorme torre. – Não disse que outros humanos não poderiam aprendê-la.

– Ahh… – Liadan fez cara de entendida, mas Mu certamente não poderia vê-la. – Então…

– Então, vamos aprender isso do jeito mais prático. – Mu disse, virando-se novamente para a amazona e estendendo um braço na direção da torre. – Levante-a.

Mu não pôde ver o sorriso de escárnio no rosto de Liadan, mas certamente ouviu a risada incrédula dela.

– Você… tá brincando, né? – ela perguntou, tentando rir mesmo diante da expressão séria de Mu.

– Brincando…? Não. Cavaleiros de Ouro não brincam em serviço. – Mu respondeu, e aquela expressão comumente calma dele parecia ter sumido completamente do rosto, dando lugar a um grande vazio que Liadan não conseguia definir.

Ela parou subitamente de rir, e em dois segundos, precisou levantar a cabeça para ver que o cavaleiro de Áries estava parado de pé diante da entrada mais alta da torre, olhando-a de lá.

– Você tem cinco minutos para conseguir. – ele disse, os braços cruzados diante do corpo, a capa balançando com força diante do vento forte, e mesmo assim, a voz dele pareceu alcançar os ouvidos da aprendiz sem a menor dificuldade, quase como se estivesse soando dentro da cabeça dela. – Começando… agora.

– Isso só pode ser graça. – Liadan sorriu consigo mesma, crente de que o cavaleiro não a estava ouvindo daquela distância, e parecia daquele jeito, já que ele não tinha comentado nada, nem mesmo movido um dedo. – Como inferno eu vou levantar isso aí com telecinese? Eu nem sei como se usa isso! Esse cavaleiro só pode estar com uns parafusos a menos! Essa porcaria de telecinese deve ter derretido o cérebro dele! Isso é contra as leis da física!

– Leis da física? – a voz de Mu subitamente invadiu os ouvidos dela e a jovem arregalou um pouco os olhos ao perceber que ele devia ter ouvido tudo. – Suponho que alguma das coisas que os Cavaleiros de Athena fazem esteja de acordo com as leis da física? Você tem mais três minutos.

Liadan não contou história e começou a se concentrar em levantar a torre. Entretanto, a única coisa que estava funcionando ali era os inúmeros palavrões que estava proferindo contra seu mestre em seu idioma natal. Não adiantava, por mais que tentasse, por mais força que fizesse, fosse ela mental ou não, nem uma mísera pedra se movia no chão. Seria bem mais fácil ir lá e erguer aquilo tudo com as mãos. A torre poderia ser um bocado grande, mas com um esforço a mais de seu cosmo, não devia ser muito problema tentar levantá-la.

Sem que percebesse, de tão concentrada que estava em tentar fazer aquilo, Mu parou bem diante de si, fazendo-a dar um pulo para trás com o susto.

– Seu tempo acabou. – ele disse. – E deveria prestar mais atenção ao seu redor, estava tão perdida a ponto de nem prever a minha chegada.

– Você é um Cavaleiro de Ouro, dá um desconto! – Liadan disse, relaxando depois do susto. – E também tava concentrada tentando fazer esse absurdo aí.

– E você, suponho eu, será em breve uma amazona de ouro. Portanto, terá que aprender a se concentrar em mais de uma coisa ao mesmo tempo. – Mu disse, dando as costas e novamente andando na direção da torre.

– Bom, como eu não consegui… o que vamos fazer agora? Voltar ao treinamento tradicional? – Liadan perguntou, já pensando na possibilidade de se sentar numa daquelas rochas e descansar um pouco.

– Você precisa aprender telecinese. – o cavaleiro de Áries disse, e antes que Liadan conseguisse questionar como conseguiria aquilo, ele ergueu os dois braços ao mesmo tempo, fitando algum ponto bem atrás dela.

Liadan se virou, ainda em dúvida se realmente queria fazer aquilo, e então, viu uma rocha simplesmente gigantesca se erguendo sozinha do meio das montanhas. Ela instintivamente, pensou em correr ao ver que ela estava indo exatamente na sua direção. Claro, correr antes de ser atingida acidentalmente. Bom, mas não foi aquilo que aconteceu. Seu corpo parecia completamente paralisado e por mais que tentasse mover as pernas, elas não saíam do lugar, não importava o esforço que fizesse. Depois de tentar se mover, voltou a observar a rocha gigantesca, que continuava indo na direção dela.

– Mas o que…?

– Por que a pressa? – a voz de Mu fez com que ela virasse o rosto para encará-lo. Ele continuava com o semblante inexpressivo. – Agora, você não tem saída a não ser se livrar disso com telecinese.

De repente, ela sentiu as mãos se unirem atrás de seu corpo, como se fossem atraídas por um imã muito forte, e não podia mover sequer um milímetro de nenhum membro do corpo. A rocha se aproximou mais e mais, e logo, estava a menos de um centímetro de tocar a sua testa, enquanto sua cabeça estava inclinada para cima.

– Você tem meia hora até que essa rocha caia sobre você. A cada minuto que passe, ela vai descer mais e mais, e só poderá se livrar dela se combater a minha telecinese, claro, com telecinese. – Mu disse, e mesmo que Liadan quisesse virar o rosto para frente de novo, para encará-lo e começar a gritar todos os palavrões em todas as línguas que conhecia, o seu rosto também não iria se mover. – Não adianta tentar usar sua força física, não vai ser de muita ajuda. O tempo está correndo. Aconselharia você a se concentrar mais na telecinese e menos nos palavrões que deseja proferir contra mim.

A única coisa que aconteceu foi Liadan aumentar a quantidade de xingamentos em sua cabeça, sem conseguir mesmo falar.

xXx

Tão distante quanto Liadan estava do Santuário, Alexia também precisava enfrentar uma longa caminhada, acompanhando o cavaleiro de libra aos Cinco Picos de Rozan, na China. Entretanto, tão mais paciente que a amiga, não estava reclamando e nem pensando nos mais diferentes xingamentos contra seu mestre. A caminhada estava silenciosa e ela não tinha nem vontade de falar, apenas queria saber o que iam fazer, depois de ter saído do Santuário tão antes do sol nascer para chegar àquele local. Eles apenas pararam de andar quando chegaram numa plataforma, entre os montes, que ficava exatamente de frente para uma paisagem mais que bela. Entre os cinco picos antigos, ela fitava, daquele precipício, uma queda d’água gigantesca, sendo cortada apenas por algumas saliências da montanha. A força daquela água correndo devia ser forte o suficiente para treinar cavaleiros de bronze e prata, mas um Cavaleiro de Ouro? Devia ser algo bem fácil para uma pessoa naquele escalão. Talvez a idéia fosse fazê-la treinar lá até que as cosias parecessem fáceis demais.

– E então…? – ela finalmente se pronunciou, quando Dohko tirou a urna de ouro das costas e colocou-a ao seu lado, no chão, ainda fitando a queda d’água.

– Treiná-la como uma amazona de Sagitário vai ser uma coisa difícil, eu preciso admitir. – Dohko disse, finalmente se virando para encarar a máscara prateada que cobria o rosto dela. – Eu posso lhe passar, obviamente, os golpes do cavaleiro de Libra com perfeição. Entretanto, eles são os golpes do Cavaleiro de Libra, e não de Sagitário. Mas entendo porque Athena tenha me convocado para treiná-la. Em 245 anos de cumprimento do meu dever, eu vi vários golpes de vários cavaleiros de ouro ou não. Mas isso não é o suficiente para ensiná-la esses golpes com perfeição. Talvez até… precisemos da ajuda de Aiolia.

– Aiolia? – Alexia perguntou, confusa.

– Aiolia é o cavaleiro de Leão. – Dohko respondeu rapidamente. – Ele era irmão mais novo do antigo Cavaleiro de Sagitário, Aiolos. Foi treinado pelo irmão mais velho, e herdou golpes dele, certamente.

– Entendo.

– Mas… mais do que tudo, você será a amazona que vai precisar se dedicar mais. Sem um mestre Cavaleiro de Sagitário, você terá que recriar os golpes desse signo. E para isso, precisará de muito empenho. – Dohko explicou, voltando a olhar para a cachoeira.

– Claro… – Alexia concordou, contendo a imensa vontade que sentia de reclamar daquela idéia, ainda ia ter que ter mais trabalho que as outras, reinventando os golpes sozinha! Um completo absurdo! Sentia vontade de agir como Liadan e simplesmente começar a xingá-lo. – Então, o que exatamente viemos fazer aqui.

– Como Cavaleiro de Ouro de Libra, vou lhe dar um treinamento digno de um Cavaleiro de Ouro. – Dohko disse, e tocou na urna ao seu lado. Depois de um brilho que por pouco não ofuscou Alexia, por conta da proteção da máscara, a armadura tinha revestido o cavaleiro por completo, e parecia tão mais reluzente que da última vez que a vira. – E se sobreviver, poderá se tornar amazona de ouro.

– Er… tá brincando, né? – por mais que a jovem tivesse tentado manter as palavras dentro da boca, elas pareciam ter saído por conta própria depois de ouvir a palavra “sobreviver”.

Não precisou de respostas diretas, Dohko apenas se virou e encarou-a com o semblante sério, para ela recuperar a compostura.

– Use seu cosmo e reverta o fluxo de Rozan. – ele disse, indicando a cachoeira bem diante de si.

Alexia quase sentiu vontade de soltar uma exclamação, mas se conteve e deu alguns passos para frente, na direção da beira do penhasco, na intenção de se concentrar para fazer o que ele dissera.

– O que está fazendo? – Dohko perguntou, quando ela parou diante dele, na beira do penhasco.

– Hm… é para tentar reverter o fluxo? – ela perguntou, tentando usar o seu tom menos sarcástico possível.

– Não disse que era daqui. – o cavaleiro respondeu, e antes que Alexia tivesse a chance de questionar de onde ela teria que fazer aquilo, sentiu um pulso incrivelmente forte de energia que a lançou direto na direção da cachoeira, quase na mesma velocidade de um cavaleiro de prata.

Ela sentiu o corpo se chocar contra a água que corria fortemente para o fundo do precipício, e não soube se tinha se chocado contra a parede por trás da água ou apenas com o líquido. Foi empurrada pela água e ajudada pela força da gravidade, até cair em uma das rochas salientes da cachoeira, que dividiam o fluxo da água. Se a queda não tivesse sido tão rápida a ponto de confundir seu raciocínio, teria imaginado que iria parar apenas quando chegasse ao fundo do penhasco e se afogasse no lago. Ficou deitada na rocha por alguns segundos, tossindo toda a água que conseguira engolir com o movimento súbito, e tentando se levantar, ainda sentindo a água cair fortemente em seu corpo. Imaginava como inferno aquela rocha resistia tanto sob um fluxo tão incrivelmente forte.

– Esse cara só pode tá ficando doido! – ela reclamou, assim que conseguiu cuspir toda a água acumulada em sua boca. – Inferno!

– Levante-se. – mesmo que a voz dele tivesse soado na altura de um grito, apenas um rastro dela alcançou-a em meio ao barulho daquela cachoeira. – Inverta o fluxo de Rozan. Não sairemos daqui enquanto não fizer isso.

– Okay… – Alexia disse consigo mesma. – Não pode ser tão difícil, é só um golpe, depois de mais de dez anos de treinamento, isso vai ser moleza.

Ela apoiou as mãos mo chão e se levantou, com pouco esforço. Depois de concentrada, não era tão difícil fazer aquilo, então, depois de algum tempo e mais esforço, não deveria ser trabalho duro inverter o fluxo.

Quando ela finalmente se concentrou, de pé e começando a controlar seu cosmo, nem mesmo a água a incomodava mais, ou o barulho ao redor, precisava apenas daquilo para poder aumentar o cosmo ao máximo e inverter aquele fluxo, por mais difícil que pudesse parecer. Ou pelo menos, achava que estava certa. Quando pensou em fazer algum movimento para testar a inversão do fluxo, uma rocha a atingiu com tanta força nas costas que se despedaçou por completo e ainda fez-la cair de joelhos.

– Mas o que por…! – ela conteve a frase, ao virar o rosto e ver que Dohko estava de pé, numa posição de ataque. Tinha acabado de despedaçar o topo de uma colina exatamente na direção dela.

– Concentre-se, amazona. – o cavaleiro disse, já em nova posição para atingir mais pedras e lançar na direção dela. – Jamais vai se tornar uma amazona de ouro se não conseguir se concentrar em mais de um inimigo ao mesmo tempo.

– Só me faltava esse caralho. – Alexia disse, levantando-se para tentar inverter o fluxo novamente. E mais uma vez, mais pedras atingiram suas costas, suas pernas e seus braços, e por mais força que tivessem, pelo menos se despedaçavam mais fácil com sua resistência. Mas a dor estava aumentando, e a concentração dela se tornando em vontade de xingar o seu mestre com todos os palavrões que aprendera com Liadan.

xXx

Durante um tempo incontável Mina se sentiu cada vez mais impotente naquela terrível dimensão, enquanto as esferas brancas continuavam a lhe esmagar, e ela quase conseguia sentir a presença da morte lhe espreitando. Talvez, no mesmo tempo, os minutos estivessem sendo mais que cruciais para Liadan, que em Jamiel, já estava deitada no chão, sentindo aquela rocha gigantesca se aproximar mais e mais de seu corpo, deixando-a com uma sensação cada vez pior de claustrofobia. Àquela altura, também Alexia não estava agüentando se levantar, diante das incansáveis rochas batendo em seu corpo, os arranhões e hematomas latejando, e a água fria fazendo seu corpo estremecer sob aquela roupa simples e a armadura de treinamento.

Em um ponto preciso da linha de tempo e espaço, as três, mesmo com todos os países que as separavam, tiveram o mesmo sentimento de estar perto da morte, uma sensação que alcançou até mesmo os doze Cavaleiros de Ouro, em lugares distantes, e a Deusa Athena. Mu perdeu a concentração em sua telecinesia; Saga virou-se na direção das ruínas do templo de Poseidon, arregalando os olhos ligeiramente; Dohko parou com os golpes de imediato.

Todo o branco que insistia em esmagar Mina se despedaçou, tão frágil como cristal, e a jovem parou de pé diante de Saga, no templo de Poseidon; a rocha que prendia Liadan junto à telecinese de Mu e várias rochas ao redor se dissiparam no próprio ar, quando a jovem se ergueu de uma vez; o fluxo de Rozan se inverteu com tal intensidade que Dohko pôde sentir um tremor sob seus pés antes de pular para trás, para não cair junto com o chão que se rachara, Alexia estava exatamente de frente para ele.

Não se metam em nosso caminho, cavaleiros. – as vozes estavam completamente diferentes, as amazonas estavam completamente diferentes, até mesmo no cosmo que os cavaleiros de ouro sentiam. Um cosmo estranhamente singular… sem uma presença inimiga, sem uma presença aliada, uma presença mais forte do que eles podiam imaginar, e por mais neutro que parecesse, como cavaleiros de ouro, todos conseguiram sentir que aquele “nada” era uma ameaça para sua Deusa.

Apenas com aquela frase e alguns poucos segundos, as três amazonas caíram inconscientes diante de seus mestres. E pelos minutos seguintes, nenhum deles soube exatamente o que fazer, ou o que pensar diante do acontecido, àquela altura, não sabiam nem se o certo era levá-las de volta ao Santuário.

– Por ordens de Athena… – Dohko precisou respirar fundo para falar aquilo e tomar coragem de erguer a jovem amazona nos braços e seguir para longe dos Cinco Picos Antigos de Rozan. Era como entregar a adaga ao inimigo para que ele lhe matasse, mas era o que Athena desejava. E como ele, foi no que Saga e Mu pensaram para poderem levar as suas aprendizes de volta ao Santuário.

Quando Alexia finalmente acordou, não sabia exatamente onde estava, nem que dia era. Demorou mais de cinco minutos para lembrar que tinha saído antes do amanhecer com Dohko para iniciar o treinamento nos Cinco Picos Antigos da China. Ergueu-se de um susto ao lembrar que não tinha conseguido exatamente reverter o fluxo de Rozan, e ainda mais, que provavelmente ficara inconsciente dos constantes ataques – pois não se lembrava de mais nada depois de algum tempo de treino.

Depois de se acalmar, levou a mão ao rosto para perceber que ainda estava com sua máscara, mas pela leveza em seu corpo, pelo menos a armadura de treinamento tinha sido removida. Então, tocou o tecido macio sobre o qual estava deitada… era o mesmo em que tinha dormido na noite que chegara ao Santuário. Mais alguns minutos de concentração e recuperação, era impossível não saber que estava de volta à Casa de Sagitário, e completamente sozinha – pelo menos por enquanto.

Havia uma bandeja com comida servida na mesa ao lado da porta, ela não demorou muito para levar a bandeja até a cama e comer tudo o que tinha direito, depois de ter certeza de que a porta estava fechada, para poder tirar a máscara de prata.

Ela ainda sentia o corpo completamente dolorido do treinamento de Dohko, mas com o treinamento de amazona, os ferimentos estavam se curando bem rápido. Queria saber como Mina e Liadan tinham se saído, e certamente não demoraria muito para descobrir. Depois de terminar a refeição, ainda se permitiu um banho bem demorado para mudar a roupa ainda rasgada que usara no treinamento, e então, recolocou a máscara e saiu do quarto, na direção da entrada da Casa de Sagitário, já tinha o caminho todo de cor em sua cabeça, era muito boa em decorar lugares e direções.

Quando alcançou a entrada da casa, Liadan e Mina já estavam na metade das escadarias para encontrá-la.

– E aí, Alex! – a voz de Liadan já se proferiu mesmo da distância em que estava, e logo as duas se apressaram para chegar à Casa de Sagitário. – E aí, como foi o treinamento hoje?

– Eu acho melhor a gente entrar. – Alexia disse, fazendo um sinal indicando o interior da casa.

– Também acho. E se acho. – Mina disse, já seguindo a amiga para dentro da casa, e logo elas estavam no quarto de Alexia, sentadas na cama, à vontade para tirar as máscaras.

– Incrível como você decora esse caminho rápido demais. – Liadan disse, começando a pular na cama enorme. – Acho que ser cega ajuda um pouquinho, ce usa o que pra decorar isso? O cheiro?

– Pare de pular na cama, Lia. – Alexia disse, e mais do que um pedido, ela chutou as pernas da amiga para que ela caísse sentada.

– Ei! Vai chutar a bunda daqueles mestres da gente, não eu! – a dona dos olhos azuis reclamou.

– Então, mudando de assunto, a coisa foi só comigo, ou todo mundo teve um treinamento mais do que desagradável ontem? – Mina perguntou, sentada numa das poltronas ao lado direito da cama, em volta de uma pequena mesa de centro.

– Treinamento desagradável… acho que o termo é bem fraco pra o que a gente teve. – Alexia respondeu, pensativa, encostando-se no armário do lado esquerdo da cama, cruzando os braços diante do corpo.

– Desagradável? Eu não sei se foi só comigo, mas eu tenho a ligeira impressão de que aquele Cavaleiro de Áries estava querendo era me matar! – Liadan reclamou, aquietando-se sobre a cama. – Ele queria que eu aprendesse telecinese do nada! Me prendeu com aquele poder maluco e me colocou debaixo de uma rocha do tamanho do mundo! Me deu trinta minutos pra me livrar dele usando telecinesia!

– Não foi tão diferente pra mim. – Mina disse. – De repente, o Saga me arremessou numa dimensão paralela dizendo que era pra eu aprender o golpe e só o veria uma vez, e mais, disse que eu precisaria voltar, sozinha, claro. Eu achava que só precisava sair de lá, sei lá como, mas de repente, alguma coisa muito estranha aconteceu, e era como se eu tivesse sendo esmagada. Sinceramente, por uns segundos eu jurava que iria morrer.

– E eu aposto que todo mundo aqui pensou que ia morrer… e daí, não se lembram de mais nada, não é? – Alexia completou. – Eu fui jogada embaixo de uma queda d’água gigantesca, pra inverter o fluxo dela, isso enquanto o Dohko me atingia com todas as maiores rochas que estavam ao redor. Ainda tenho alguns hematomas pra provar.

– Eu juro que não é só mais impressão minha. Eles estão tentando nos matar, com certeza. – Mina disse.

– Se estivessem realmente tentando isso, não teriam tido a chance quando ficamos inconscientes? – Alexia perguntou.

– Eles estão apenas tentando nos torturar, isso sim! – Liadan reclamou, enfática.

– Esperem um pouco. – Alexia disse, pegando a máscara sobre o armário e seguindo até a porta.

– O que foi? – Mina perguntou.

– Tem um dos cavaleiros vindo pra cá. – Alexia disse, seguindo até a porta.

– Ih, é mesmo. – Liadan disse. – Estávamos tão preocupadas com os treinamentos que nem deu pra perceber.

– É o Shaka… – Mina disse, e àquela altura, Alexia já tinha fechado a porta para ir receber o cavaleiro de ouro.

Ela não precisou andar demais até alcançar a entrada da casa de Sagitário, Shaka já estava lá, parado diante das grandes colunas da entrada da casa, como se realmente estivesse esperando permissão para entrar, embora Alexia não imaginasse que ele estivesse esperando permissão dela, especificamente. Ela não podia ver a aparência dele, nem nada bem definido, conseguia apenas formar uma sombra indistinta em sua mente por conta do cosmo poderoso do cavaleiro, assim como todas as coisas ao seu redor se projetavam em sua mente através de sombras indistintas, o que fazia com que ela nunca esbarrasse em nada, perder um dos sentidos, para um dos cavaleiros de Athena, às vezes era até mais proveitoso do que ter todos eles, e ela tinha aprendido aquilo da pior maneira possível. Certamente que ela sentia um estranho cosmo acumulado no corpo do novo cavaleiro, concentrado na região dos olhos.

– Então você é a nova amazona de Sagitário. – Shaka disse, e era como se tivesse ficado parado ali apenas para saber de quem se tratava.

– Você está com os olhos fechados? – ela nem se deu ao trabalho de responder, apenas perguntou o que estava lhe confundindo a cabeça. – Interessante sua técnica. Acho que posso usar isso para tentar convencer Lia a ficar calada.

– Quem é você? – Shaka perguntou, e Alexia ficou completamente desatenta ao tom da pergunta, dando a resposta mais óbvia que se imaginava: seu nome.

– Eu sou Alexia. – ela respondeu. – E… ainda não sou a protetora oficial de Sagitário, portanto, imagino que não espere que eu seja sua guia pela casa.

– Na verdade, estava esperando por isso. – Shaka disse, dando alguns passos para entrar na casa de Sagitário. – Se vai ser a guardiã oficial de Sagitário, tem que saber o caminho melhor que ninguém.

– Eu creio que eu já saiba. – Alexia disse, e meio a contra-gosto, começou a guiar o cavaleiro de Virgem pela casa. – E você… o cavaleiro de Virgem, não é?

– Shaka. – ele respondeu apenas, fazendo com que o silêncio pairasse entre os dois por um longo caminho.

Sabia, de conversas antigas, que ele era considerado o cavaleiro mais próximo de Deus, e daquelas mesmas conversas, que não se sabia qual deles era o mais poderoso, Shaka, ou o antigo Grande Mestre, Saga de Gêmeos. Mas naquele momento, enquanto caminhava para o outro lado da casa guiando o cavaleiro de Virgem, a única coisa que podia pensar era que ele estava quase que a vigiando, ou tentando descobrir algo que nem ela mesma sabia o que era. O caminho foi completamente silencioso, até praticamente a saída da casa de Sagitário, quando Shaka finalmente voltou a falar.

– O treinamento de Dohko deve ter sido duro. – ele disse, e Alexia não se deu ao trabalho de virar o rosto para ele para comentar.

– Tanto que fiquei inconsciente. – ela respondeu. – A essa altura, um mestre de Ouro deveria achar que eu não tenho capacidade para ser uma amazona de Sagitário… ficar inconsciente bem no meio do treinamento, isso não acontece há mais de dez anos.

– O treinamento foi tão ruim assim? – Shaka comentou, com um tom falsamente desinteressado que já estava irritando Alexia.

– Ficar debaixo de uma cachoeira levando pedradas a cada segundo não é muito agradável. Nem lembro quando exatamente apaguei, mas apaguei. – ela respondeu, e finalmente sentiu que estavam chegando ao final da casa.

– Não se lembra? – Shaka pergunto, e o tom dele parecia verdadeiramente confuso.

– Você lembra quando você dorme? – Alexia perguntou, e finalmente parou, diante da saída de Sagitário e virou para ele. – Uma das pedras deve ter me atingido na cabeça e só. Engraçado… é que Lia e Mina também ficaram inconscientes, então, acho que eu não estava tão fraca afinal. Bom… chegamos.

Shaka não respondeu, apenas andou para além de Alexia e desceu o pequeno lance de escadas para subir as próximas escadarias, de Capricórnio. A amazona não podia ter certeza, mas sentiu como se ele estivesse divagando sobre as palavras que ela tinha acabado de dizer, mal-educado o suficiente a ponto de nem se despedir.

– Bom… ele vai ter que voltar, mais cedo ou mais tarde mesmo. – Alexia deu de ombros, voltando para o quarto o mais rápido possível.

Não se impressionou ao entrar no aposento e perceber que Liadan tinha voltado a pular na cama. Mina parecia estar apenas distraída, quase dormindo, na poltrona acolchoada que havia ali do lado.

– E aí, deu em cima do Shaka? – Liadan perguntou, assim que Alexia fechou a porta e tirou a máscara. – Ele faz o seu tipo, sabe.

– Claro, eu consigo ver exatamente a aparência dele. – a morena disse. – Ele só está é tentando matar a gente, como os outros três… ou onze.

– Doze. – Mina consertou. – Lembra que o cavaleiro de gêmeos é na verdade, dois, e gêmeos?

– Ah, claro. Tinha esquecido desse detalhe. – Alexia disse, andando até uma das outras poltronas e se sentando também, desistindo de tentar fazer Liadan parar de pular.

– Eu só não consigo entender o porquê ainda. É tão ruim assim ter amazonas de ouro? – Mina comentou, se endireitando na cadeira.

– Os cavaleiros de ouro são treinados para defenderem a Deusa Athena apenas. Se eles realmente estão tentando nos matar, estão nos encarando como perigo. – Alexia comentou.

– Que perigo? Nem temos armaduras ainda, nem conhecemos nada desse Santuário ou do resto do mundo. – Liadan reclamou, finalmente se sentando. – A última coisa que iríamos representar aqui era algum tipo de perigo. Eles só estão paranóicos e ponto. Depois de tantas batalhas e tantos deuses que enfrentaram, idas e vindas dos mais diversos lugares, ficaram com alguns parafusos trocados, e só porque somos novas aprendizes, ficam aí, tentando acabar com a nossa raça pra não tomarmos os lugares deles.

– Eu não sei mais o que pensar. – Mina balançou a cabeça de forma pesarosa.

– Não pense. – Liadan disse, se levantando de um pulo. – Que tal irmos dar um passeio? Ainda não conhecemos o resto do Santuário, ar fresco pode ajudar a refrescar as idéias.

– Estamos precisando. – Alexia concordou, já se levantando também. Mina apenas deu de ombros e fez o mesmo.

As três recolocaram as máscaras prateadas e saíram da casa de Sagitário, seguindo para um dos lados, ao invés de passar pelas casas zodiacais de novo, seguiram pelo caminho dos servos e se dirigiram primeiro ao campo de treinamento das amazonas. Pela visão de Alexia, tinha muitos lugares para onde elas podiam ir ainda.

Mas, para além do que elas tinham em mente para o passeio, Shaka já tinha alcançado a ante-câmara e estava seguindo para o grande Salão, onde Athena o esperava. Ela estava sentada na enorme cadeira sobre a plataforma diante de um pequeno lance de degraus, bem atrás dela estavam cortinas vermelhas que escondiam a passagem para um salão proibido a qualquer um que não ela mesma e o Grande Mestre. O virginiano parou exatamente no meio do salão e se ajoelhou, diante de Athena.

– Aqui estou, Deusa Athena. – ele disse, simplesmente.

– Levante-se, Shaka. – Saori disse, encarando-o seriamente. – Aproxime-se.

Shaka fez exatamente o que ela disse, e parou de pé, diante do pequeno lance de escadas.

– Athena…?

– Você já percebeu, não é? – ela comentou, prendendo a atenção do loiro. – Já sabe quem são.

Shaka não respondeu, continuou calado, sem se mover ou falar, parecia que tinha até parado de respirar.

– Eu sei que já. – Saori continuou. – Depois do que aconteceu no treinamento, acho difícil não ter descoberto ainda. Dohko, Mu e Saga não deviam ter feito aquilo, pode ter despertado ainda mais a fúria delas.

– Eu não creio que seja esse o caso, Athena. – Shaka finalmente respondeu. – Eu não sei o que exatamente acontece, mas essas garotas destinadas a serem amazonas… também não fazem idéia.

– Isso não vem ao caso agora. – Athena falou, se levantando e dando as costas ao cavaleiro, para seguir até a sala bem atrás da poltrona. Entretanto, parou por uns segundos. – E, como deve saber, não cabe a nenhum de nós interferir.

– Claro, Athena. – Shaka disse. – Eu transmitirei isso aos outros…

– Não. Você não pode falar nada disso a nenhum deles. – Saori disse, enfática.

– Mas, Deusa…

– Shaka de Virgem. – ela se virou para ele novamente. – Qual é a sua função como Cavaleiro de Ouro?

– Protegê-la, acima de tudo, minha Deusa. – o loiro respondeu de uma maneira quase automática.

– E o que os outros fariam caso você revelasse o que nós sabemos? – Athena perguntou.

– Iriam protegê-la. – ao falar aquilo, a idéia já parecia mais que óbvia.

– E dessa vez…

– Nada pode ser feito. – Shaka completou. – Eu compreendo, Athena.

– Que bom. – Saori sorriu e seguiu na direção das cortinas vermelhas. – Pode se retirar agora, Shaka de Virgem.

– Sim, Deusa Athena. – Shaka disse, fazendo uma breve reverência e se virando para sair do lugar.

Enquanto o cavaleiro de Virgem seguia para fora do grande salão, Saori entrou na outra sala, escondida pelas cortinas e por mais um corredor e algumas portas. Em alguns minutos, estava diante da estátua de ouro da Deusa Athena que há tanto repousava naquele Santuário. Parou exatamente diante dela, e mesmo ali, vendo a grandeza da Deusa que ela representava naquele momento, não sabia o que fazer.

– Dessa vez… só preciso esperar. – a jovem disse a si mesma. – O tempo está chegando.

Quando Shaka voltou o caminho até a sexta casa, de Virgem, já conseguia sentir o cosmo das três aprendizes de ouro bem longe de suas respectivas casas. Sabia, de certeza, que Mu, Saga e Dohko estavam mantendo uma considerável distância delas depois do que acontecera no treinamento, e elas teriam algum tempo livre antes deles decidirem o que fazer com elas novamente. Os três continuavam nos lugares de treinamento delas, talvez buscando por pistas ou confirmação do que tinha acontecido… e cedo ou tarde, eles descobririam.

Ao chegar à casa de Virgem, Shaka seguiu imediatamente até o Jardim das Salas Gêmeas. Aquele era um bom momento para meditar, especialmente naquele jardim.

Àquela altura, as três garotas já tinham alcançado os gramados do campo de treinamento das amazonas. Elas continuavam lá, lutando umas com as outras e seguindo instruções das veteranas. Quando chegaram lá, Shina ainda se virou para vê-las e depois voltou a atenção para as duas garotas que estava treinando, ignorando completamente o grupo. Liadan não fazia a mínima questão de esconder o largo sorriso de satisfação que surgiu em seu rosto, entretanto, não tinha como tirar a máscara.

– Ah-há. Agora que sabe que nós vamos ser superiores dela, ela nem quer chegar perto da gente. – Liadan disse, cruzando os braços diante do corpo numa posição de superioridade. – Bem feito.

– É, mas ainda não somos. – Alexia disse, batendo de leve no ombro da amiga. – Portanto, é bom tomar cuidado.

– Cuidado?! É ruim ela conseguir ser mais forte que eu, hein. – Liadan reclamou.

– Não arrume confusão tão cedo, Lia. – Mina disse, sentando-se no gramado, descansando.

– Pelo visto vocês se recuperaram completamente do treinamento.

As três precisaram se virar para encarar Marin, que se aproximava delas com a armadura de treinamento, e, certamente, com a máscara de amazona também. Por mais que elas procurassem, mesmo no campo de treinamento, não havia uma garota sequer sem aquela maldita máscara.

– É… um dia a gente ia ter que se recuperar. – Liadan deu de ombros.

– Meus parabéns para as futuras amazonas de ouro. – Marin disse. – Espero que se empenhem. Se continuarem tão bem quanto no último treinamento, logo conseguirão suas armaduras.

– Tão bem…? – Alexia indagou, virando-se completamente para Marin, e até mesmo Mina tinha se levantado.

– Como no último treinamento? – Mina perguntou, tão confusa quanto as outras duas.

– Bom, acho que todo mundo no Santuário sentiu aquele cosmo quando vocês revidaram o treinamento. – Marin falou, como se fosse a coisa mais natural do mundo. – Claro que o mais forte foi o de Mina, por ela estar aqui mesmo na Grécia, mas foi incrível conseguir sentir até ondas de Jamiel e dos Cinco Picos Antigos.

– Como é qu…? – Liadan estava tentando formular a pergunta, mas foi interrompida quando uma das aprendizes chamou por Marin e ela as interrompeu.

– Eu preciso voltar ao treinamento. Sintam-se livres para virem aqui quando precisarem. – Marin disse. – E mais uma vez, parabéns no treinamento para amazonas de Ouro. Certamente fizeram por merecer.

Marin se virou e num minuto, já estava praticamente do outro lado do campo de treinamento. Por uns cinco minutos, nenhuma das três aprendizes falou algo, elas apenas se entreolharam, e a confusão podia mesmo ser sentida entre elas, já que era impossível ver suas expressões de choque.

– O que é que ela quis dizer com aquilo? – Liadan perguntou, fazendo um sinal com a mão, indicando Marin bem atrás de si.

– O cosmo da gente deu pra sentir até aqui? – Alexia questionou. – Eu estava na China!

– Até onde eu lembro… nós apagamos. – Mina falou. – Apagamos completamente com aquela pressão toda. Que história é essa, afinal?

– Quando o Shaka passou por lá pela casa de Sagitário, ele fez perguntas demais sobre o treinamento também. – Alexia disse.

– Hm… que tal a gente ir nadar um pouco? – Liadan falou, de repente, fazendo com que as duas virassem os rostos pra ela, descrentes do que tinham ouvido.

– Será que não percebeu ainda a confusão que temos aqui? – Alexia perguntou, sarcástica.

– Eu não sou burra também, né. – Liadan revidou. – Mas de que adianta ficar pensando nisso? Estamos fazendo isso desde que chegamos nesse maldito Santuário. Quer saber de uma coisa? Que se dane. Estamos aqui pra conseguir armaduras de ouro, enquanto eles não matarem a gente, e pelo visto, não vão conseguir tão cedo, eu vou correr atrás da minha. Não to nem aí pro que eles tão pensando ou deixam de pensar. Isso só ta me deixando com dor de cabeça e quero ir nadar naquela lagoa legal que vimos quando estávamos chegando aqui!

Alexia e Mina ficaram caladas por um tempo, e então, as duas deram de ombros praticamente de maneira simultânea.

– Que se dane. – disseram, ao mesmo tempo, e logo começaram a rir, as três.

– Vamos, vamos nadar e relaxar. – Liadan disse, já andando na frente, a passos largos.

Em pouco tempo, elas alcançaram um lago de águas cristalinas, dentro do território de treinamento das amazonas. Nenhuma delas estava lá, afinal, ainda era tarde, todas deviam estar se dedicando aos treinamentos, como boas amazonas. Mas, com Dohko, Mu e Saga bem longe do Santuário, a última coisa com a qual as três precisavam se preocupar era com treinamentos.

Liadan, Alexia e Mina só voltaram às suas respectivas Casas Zodiacais quando já estava perto do pôr do sol. Alexia tinha a grande vantagem de ficar sozinha naquela grande casa, assim, poderia ter a sua refeição calmamente, sem a máscara e à mesa, diferente das amigas que precisavam sempre comer no quarto. As três só sentiram a presença dos seus respectivos mestres nos limites do Santuário, muito depois do pôr do sol, e ainda assim, eles não ficaram muito tempo perto de suas casas a serem protegidas, ao contrário, seguiram para o grande salão, a casa antes da de Athena.

Saga, Mu e Dohko pararam exatamente no mesmo local em que Shaka tinha parado naquele mesmo dia, horas mais cedo, ajoelhados diante de Saori que estava sentada no mesmo trono de ouro.

– Acho que os três sabem por que estão aqui. – Saori disse, parecendo desanimada demais para se levantar da cadeira. – Podem se levantar. Aproximem-se.

– Athena… todos sentiram aquilo. – Dohko foi o primeiro a falar. – Está mais do que comprovado que elas são uma ameaça à sua segurança.

– Não sabemos o que aconteceu exatamente, nem quem elas são. Mas elas não estão aqui para serem amazonas de ouro. – Mu completou.

– Aquele poder é demais até para um cavaleiro de ouro. – Saga disse. – Elas não podem continuar no Santuário.

– Vocês… – Saori calou-se por uns segundos, apenas os encarando. – Descumpriram minhas ordens.

– Athena! Nossa função é proteger esse Santuário! – Dohko disse, enfático.

– Não podemos deixar aquelas três mulheres tão perto de você. – Mu concordou, mas Saga ficou calado, apenas encarando a jovem diante deles.

– Já chega. – Saori disse, e seu tom continuava o mais calmo possível, quando ela se levantou e ficou diante do trono. – Aquelas três nasceram destinadas a serem amazonas de ouro, e assim vai ser. Os três foram designados para o treinamento individual de cada uma, se não estão satisfeitos quanto a isso, posso providenciar que sejam treinadas por outro Cavaleiro de Ouro que consiga levar minhas direções a sério. Infelizmente, não gostaria de fazer isso, pelo menos quanto à Mina e Liadan, já que seus mestres estão exatamente aqui, diante de mim, mas quanto à Alexia, não vejo problemas em mudar seu mestre, se estiver incomodado, Dohko de Libra.

– Athena… nós não… – Dohko tentou formular uma frase, mas Saori o interrompeu.

– Aceitem o dever que estou lhes dando. – Saori disse, em tom definitivo. – Essas três nasceram para serem amazonas de ouro, nasceram para estar aqui, nesse momento. Se vocês se recusam a treiná-las, outros o farão em seu lugar.

– Quem são elas, Deusa Athena? – Saga finalmente perguntou, e sentiu o olhar não da garota Saori, mas da Deusa Athena fitá-lo, por um breve momento.

– Elas são… – Saori começou, pausando por uns breves segundos. – Liadan Ibsen, aprendiz de ouro de Áries, Mina Van’Allen, aprendiz de ouro de Gêmeos e Alexia De Valentine, aprendiz de ouro de Sagitário.

– Deusa Athena… – mais uma vez Dohko tentou falar, mas dessa vez, Saga o interrompeu.

– Faremos como nos foi dito. – o Cavaleiro de Gêmeos respondeu de imediato. – Vamos treiná-las, como amazonas de Ouro.

– Fico feliz de ouvir isso. – Saori disse e deixou que um sorriso surgisse em seus lábios. – Podem voltar às suas casas agora.

Nenhum dos quatro falou mais alguma coisa. Os cavaleiros de Ouro apenas fizeram uma breve reverência e se viraram para sair de lá, enquanto Athena voltava para a sua casa no Santuário.

Apenas quando estavam nas escadarias de peixes, Dohko voltou a falar.

– Não devíamos ter aceitado. – o cavaleiro de Libra disse.

– Fomos escolhidos para treiná-las, e vamos fazer isso. – Saga disse. – Athena sempre soube quem elas eram, desde que colocaram os pés nesse Santuário, e não gostou de termos feito aquele treinamento.

– Mas nossa principal missão é proteger Athena, e não parece que estamos fazendo isso. – Mu discordou.

– Depois do que aconteceu no treinamento ontem, só há um cavaleiro que pode ter descoberto quem elas realmente são. – Saga disse, olhando para frente fixamente. – Se Shaka não souber quem elas são, não tem muito mais pessoas para questionar. E o que precisamos saber agora, é exatamente isso.

– Precisamos acabar com isso o quanto antes. Está ficando mais perigoso do que deveria.

Aquelas foram as últimas palavras que os três ouviram, de Dohko, antes de caírem em pensamentos enquanto seguiam até suas casas Zodiacais. Por mais que conseguissem sentir o perigo, parecia que se nem Athena queria ser protegida, não havia muito que eles pudessem fazer. A única questão era o que um Deus poderia temer.

Final Capítulo II



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