
Wendy é uma garota de 16 anos que, ao contrário das outras de sua idade, não quer crescer. Pelo menos não no mundo cinza e triste onde vive. Graças a um rapaz que surge em sua janela certa noite, ela encontra tudo o que procura em Neverland.
Rated: Fiction T - Portuguese - Adventure/Romance - Wendy D. & Peter Pan - Chapters: 6 - Words: 7,215 - Reviews: 8 - Favs: 3 - Follows: 2 - Updated: 04-21-13 - Published: 10-06-11 - id: 7441207
|
|
A+ A- |
III. SEM MAIS HISTÓRIAS
John segurava um cabide de roupas em sua mão esquerda e uma espada de madeira na direita, gritando ameaças a um Peter Pan imaginário, enquanto Michael, somente de ceroulas, atirava flechas e corria com Teddy, que usava um cocar colorido, pelo quarto. Os dois corriam e gritavam, encenando parte das histórias contadas pela irmã mais velha, muitas vezes usando Naná como alvo. Os dois pararam de lutar quando ouviram o bater da porta no andar de baixo e a voz zangada do Sr. Darling ralhando com alguém. Os irmãos desceram as escadas sorrateiramente e puseram os ouvidos na porta da sala, que estava fechada, para ouvir melhor.
- Uma selvagem! - gritava o Sr. Darling - era como essa menina agia, como uma selvagem! Onde já se viu uma moça de uma família respeitada como a nossa saindo no tapa com um garoto?
Wendy ouvia a bronca de cabeça baixa, quando lembrou, com alívio, de que pelo menos havia pego a carta e que a mesma encontrava-se escondida dentro de seu espartilho. A Sra. Darling olhava aflita para o marido e para a filha, enquanto Tia Margareth balançava negativamente a cabeça para a garota.
- Qual o motivo desse seu comportamento, afinal? - o Sr. Darling perguntou.
- O garoto queria contar-lhe mentiras sobre mim!
- Que mentiras? E a troco de que ele me contaria mentiras a seu respeito?
- Acharam um desenho em meu caderno - ela começou a falar, corando - e interpretaram de maneira incorreta.
- Que desenho? - foi a vez da Sra. Darling perguntar, aproximando-se da filha.
- Um desenho que fiz sobre um sonho que tive - a garota respondeu, quase que em um sussurro - um sonho sobre a sombra de Peter Pan estar em minha janela.
- Sempre essas histórias! Sempre! - o pai gritava.
- Calma, querido. Por favor. - a Sra. Darling pedia - e de que maneira interpretaram tal desenho, querida?
- Pensam que algum garoto vem me encontrar a noite, que me comporto de maneira indevida.
Nesse exato momento, Naná veio correndo e bateu em John e Michael, que, na tentativa de se segurarem, agarraram o trinco da porta e a mesma abriu, revelando os dois meninos e a babá, caídos no chão. O Sr. Darling foi até os dois meninos e os levantou, espumando de raiva.
- Está vendo? - ele olhava diretamente para a filha - Está vendo o que essas histórias estúpidas fazem? Estou cansado disso tudo! A partir de hoje seremos uma família normal.
Todos o encaravam como se ele estivesse louco. O Sr. Darling caminhou até os meninos, arrancando o cabide, a espada e o arco de suas mãos.
- Isso não é maneira de se comportar, e isso - ele disse, apontando para Naná - não é uma babá, é um cachorro! E cachorros ficam na rua!
- Mas, querido... - a Sra. Darling começou a protestar.
- "Mas, querido" nada. E quanto a você - ele apontou para Wendy - está proibida de contar histórias! Amanhã mesmo providencio seu novo quarto e suas aulas de etiqueta com Tia Margareth começam. Já está na hora de agir de acordo com a sua idade e aprender a ser uma moça.
Wendy subiu as escadas correndo e jogou-se em sua cama, chorando. Alguns minutos depois a mãe e os irmãos adentraram o quarto. John arrumou rapidamente sua cama e dirigiu-se ao banheiro para tomar banho. Michael agarrou Teddy e deixou em sua cama. A Sra. Darling dirigiu-se até a cama do caçula e sentou-se ao seu lado, passando a mão em seus cabelos.
Wendy era muito parecida com a mãe. Possuía o mesmo queixo fino, os mesmos lábios rosados, as mesmas sardas e os mesmos olhos azuis. Fora a única filha que herdara tais olhos. A diferença mais perceptível entre as duas estava nos cabelos. Enquanto a Sra. Darling tinha cabelos dourados na altura dos ombros, Wendy tinha longos cabelos castanhos acobreados. Diziam que a única coisa que a garota herdara do pai fora a teimosia. John era o mais parecido com o pai: era alto e tinha cabelos escuros. Michael era uma mistura dos dois: herdara os cabelos dourados e as sardas da mãe, porém possuía os olhos castanhos do pai.
- Por que ele está tão bravo? - Michael perguntou, manhoso.
- Ele só não está em um bom dia, querido - a mãe respondeu - ele tem um jantar importante hoje e está enfrentando várias batalhas no trabalho.
- Batalhas como as dos índios e dos piratas? - o garoto perguntou, e logo baixou a cabeça, corando, ao lembrar que foram as histórias que começaram toda a confusão. Mas a Sra. Darling apenas sorriu.
- Sim, querido. Acredito que até mais difíceis. Mas vai passar, seu pai é um homem corajoso e conseguirá se sair bem.
- Você também vai a esse jantar? - John perguntou, entrando no quarto enquanto secava as lentes dos óculos na toalha.
- Claro que vou. Afinal, por mais corajoso que seu pai seja, vai precisar de um apoio especial.
- Pobrezinha da Naná - Michael suspirou, agarrando Teddy mais forte. Pequenas lágrimas se formaram em seus olhos - está sozinha lá fora.
A Sra. Darling passou a mão novamente nos cabelos do filho pequeno, beijou sua testa e se levantou. Caminhou até a porta e disse que iria se arrumar, mas que voltaria para se despedir.
Uma hora mais tarde a mãe voltou, como prometido. Michael pediu para que ela contasse uma última história, como costumava fazer antes de Wendy começar a contá-las, mas a Sra. Darling respondeu que era melhor que não houvessem histórias aquela noite. Ela beijou os três filhos na testa, desejando boa noite e dirigiu-se a janela, fechando-a.
- Não! - Wendy protestou - A deixe aberta, só esta noite. Por favor, ele tem que pegar de volta.
- Pegar de volta o que, querida?
- A sombra dele. Naná o assustou certa noite, e a janela bateu tão forte que a sombra ficou presa. Eu a guardei dentro de uma gaveta, mas ele não vai conseguir pegá-la se a janela estiver fechada.
- E de quem é a sombra?
- Peter Pan, é claro.
A Sra. Darling sorriu e respondeu que a deixaria fechada, porém com a tranca aberta, para que Peter Pan conseguisse entrar e recuperar a sombra. Wendy sorriu de volta e desejou boa noite à mãe. As luzes se apagaram e a garota pôde ouvir todos os sons da casa. Ouviu os latidos de Naná no pátio, ouviu o pai apressar a mãe e ligar o carro, ouviu Tia Margareth praguejar e entrar em seu quarto, batendo a porta. Pôde ouvir um barulhinho, muito baixo, de sino. Sininho. E caiu no sono.
|
||||||