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A lanchonete
Diante da lanchonete, um garotinho estava de pé.
Parecia um garotinho quase normal; um tanto descabelado, com cabelos escuros e mechas douradas na frente. Pequeno, franzino, parecia não ter mais de onze ou doze anos, com os olhos grandes, tímidos e cheios de uma inocência pura e líquida que parecia não conseguir sumir com a idade. Estava usando uma jaqueta um tanto larga para ele, com as mangas longas ameaçando lhe cobrir as mãos, colarinho aberto e levantado. Meio desleixado. Ainda assim, era adorável.
Tudo que merecia alguma atenção especial a seu respeito era o enorme cordão ao seu pescoço, com uma pirâmide pendurada, que chamava muita atenção num menino que, apesar de tantos traços característicos, não mereceria mais que duas ou três olhadelas.
A pirâmide era toda dourada.
Todos os olhos corriam de seu rosto pálido para ela, de seus olhos para o olho esculpido em uma das faces dela.
Um olho desconcertante. Fundo. Astuto.
Parecia enxergar a todos mais profundamente que os olhos inocentes do garoto.
Ela brilhava ao sol fraco.
O menino luzia de suor sob o sol fraco.
Abria e fechava um par de mãos trêmulas, que pingavam suor.
Ele mordia o lábio, olhando para a porta da lanchonete. Enxugou as mãos na calça, num movimento lento e inseguro. Parecia decidido, o mais decidido que poderia parecer sem tirar o olhar assustado e sem mover um centímetro adiante.
Estava ali fazia dez minutos; finalmente reunira coragem para entrar, mas não achava que ia sobrar alguma pra fazer o que importava. Mesmo assim, queria tentar. Ele era medroso e sabia bem disso, mas queria tentar, mesmo que não conseguisse.
Respirou fundo e subiu a escadinha, abrindo a porta de vidro fosco. Parecia que estava indo para o cadafalso. Uma garçonete adolescente, alta e notavelmente bonita o viu entrar, e abriu um grande sorriso para ele, o cabelo curto e liso balançando com o movimento.
Ele vermelhou como um sinal de tráfego, e parecia querer sair correndo.
Andando com uma graça inconsciente, ela se aproximou dele, se inclinando para ficar mais perto de seu rosto.
– Yuugi! Você está bem? Está suando.
Ele tentou falar, mas sua voz parecia ter decidido dar um rolé em algum lugar onde não era audível.
– Está vermelho. Veio correndo?
Ele balançou a cabeça, desistindo de procurar pela garganta.
– Olhe, tem uma mesa vaga aqui. Quer alguma coisa? Veio lanchar ou só falar comigo?
Ele desabou na cadeira, sentindo as pernas moles. A pirâmide tilintou, chocando-se com os botões da jaqueta. Ele a segurou, como se esperasse que ela lhe desse coragem, e por um momento o olho esculpido nela brilhou com simpatia, e até pareceu sorrir.
– Anzu-san… – ele começou. Pareceu um esforço titânico.
– Pode falar, quer uma coca-cola?
– Bem, eu… – ele murmurou.
– Sim?
– Eu, eu… queria dizer… – sua voz estava falhando de novo, e ele não estava conseguindo respirar direito. Agarrou o pano da calça com força, tentando manter a calma. – Queria dizer que… – engoliu em seco – …eu… gosto…
– Hm?
– Gosto… gosto de… gosto de Coca-cola, mas preferiria um guaraná.
A jovem sorriu, se endireitando, com um ar muito profissional.
– É pra já!! – ela girou nos calcanhares, o cabelo girando e ricocheteando em seu rosto liso, andando a passos largos para o balcão.
Quando o som de seus passos sumiu, ele deitou a cabeça na mesa, sem se preocupar com o baque audível.
– Covarde – murmurou ele. – Covardecovardecovarde.
Alguém, que tinha olhos muito perceptivos, mais tarde juraria ter visto uma sombra translúcida, idêntica ao garoto, mas com um olhar adulto, flutuar sobre ele, dando tapinhas em seu ombro; um companheiro desta pessoa não viu nada a não ser uma ondulação indefinida, mas ouviu claramente uma voz murmurando:
– Não se martirize. Poucos têm a coragem necessária para isso.