Título: Em frente.
Aviso: Coleção de drabbles, baseado na cena entre Harry e Dumbledore em Relíquias da Morte, sobre a morte de cada personagem.
Personagem: Narcisa Malfoy
Sinopse: A dívida estava paga, e havia sido paga com a moeda preferida de Albus Dumbledore: amor.


Ela não poderia ter escolhido outro lugar para estar. Por vários motivos. Primeiro, porque não era como se tivesse conhecido imensidões de outros lugares. Não, seu lugar sempre havia sido entre aquelas paredes de mármore, e ela não estava reclamando. Segundo, porque era o único lugar que a fazia se sentir em paz. Não pudera se desfazer da mansão nem depois que a construção servira de covil para Lord Voldemort. Ela simplesmente trancou para sempre as portas que abrigaram as Artes das Trevas – não só em sua casa, como no restante de sua vida.

Pois bem, estava feliz por estar onde estava. Porque o barulho da água da fonte era muito agradável, e o som indistinto os pavões albinos mais a frente era tão familiar. Ela sabia que acordara diferente naquela manhã, mas não sabia exatamente o motivo. O clima não mudara. As paredes continuavam brancas. O chão ainda era lustroso. Era tudo igual, mas Narcisa sabia que não era no exterior que as coisas estavam diferentes, mas sim no interior. Era nela.

Contornou o gramado macio, recém-regado e muito verde. Sabia que encontraria alguém dentro em breve, só não sabia por que tinha tanta certeza de coisas que ainda não haviam acontecido. Ainda era sua casa, mas era como se, a cada passo que desse para longe da fachada de mármore, algo indistinto se tornasse mais palpável diante de seus olhos. Então, sem saber se esperava por aquilo ou não, ela as viu.

Fitaram-se as três. Reconheceu todas elas sem precisar se esforçar muito. Conhecera Lily Evans, é claro. E mesmo que não fosse o caso, era impossível não associar seus olhos esmeraldinos aos de Harry Potter. Do mesmo modo, era fácil associar os cabelos ruivos – e as vestes de segunda mão –, de Molly Weasley. Ela tombou a cabeça com um certo assombro, decidindo que, decididamente, havia algo errado naquele dia nublado. Nublado. Ela olhou para o céu, certa de que as figuras não desapareceriam quando retornasse o olhar, apenas para analisar o cinza chuvoso. O cinza dos olhos de Draco. Ela sorriu, entendendo do que tratava aquilo, e voltou o olhar as duas outras mulheres.

— Sinto muito que não tenha podido se despedir dele —, Lily se manifestou primeiro, com sinceridade materna na voz.

Narcisa sorriu, muito elegantemente, e desviou os olhos para o jardim da mansão. Absorveu a paisagem, como se soubesse que lhe restava pouco tempo para tal. Seus dedos descalços tocaram a terra bem-cuidada, dando-se conta só então de que nunca havia tocado os pés nus naquele verde repentinamente tão agradável.

— Tive uma vida inteira para isso —, ela murmurou devagar, sem olhar para as outras duas.

Molly olhava de uma mulher para a outra, ainda sem entender o que faziam naquele lugar. A ostentação não lhe causava boa impressão, e ela nunca a trocaria pela lareira quente e confortável da Toca. Mesmo assim ela não protestou, porque Lily parecia muito certa de que era ali que elas deviam estar.

— Não viemos te buscar, Narcisa, outras pessoas logo virão.

Narcisa não pareceu se abalar, e era preciso dizer que sua elegância a acompanhava mesmo em seus cabelos grisalhos e em seus pés sujos de terra.

— Por que estão aqui, então? — ela finalmente tornou os olhos até elas, deixando transparecer uma educada curiosidade.

— Você sabe muito bem porque vim —, ela sorriu, e Molly não conseguia entender o motivo de tanta doçura em sua voz, embora ela não conseguisse se cansar do tom.

Houve um período de silêncio, que Narcisa aproveitou para perder-se de novo no som da água e das aves farfalhando em seu jardim. Ela sabia.

— Fiz aquilo para salvar meu filho, Evans — ela retornou, cruzando os braços e apertando discretamente o fino tecido de seda de seu roupão prateado.

— Eu sei, e isso não anula o que fez. Pelo contrário — uma brisa gostosa esvoaçou os cabelos acajus de Evans, antes que ela pudesse continuar —, pelo contrário. Você fez como o resto de nós. Como uma verdadeira mãe. Se, no processo, salvou a vida de meu filho, eu não devo menos gratidão à você.

Molly admirou-se. Seus olhos assustados correram de uma para a outra e, quando Lily se virou para ela e seus olhos se cruzaram, ela tomou conhecimento súbito a respeito do que elas falavam. Havia conflito em seu rosto quando olhou de volta para a figura imponente de Narcisa Malfoy. A mulher que salvara Harry Potter. Que enfrentou Lord Voldemort para salvar seu filho, do mesmo jeito que ela e Lily, e todo o passado se dissolveu na mente de Molly. Não se assustou ao ver-se nela. Porque havia amor maternal em seus olhos frios.

— Seu filho salvou a vida do meu —, ela murmurou depois de alguns minutos, ou segundos, ou horas — Draco me contou depois. Considere a dívida paga.

Não havia frieza ou defensiva em sua voz. Não poderia haver, por parte de nenhuma delas, porque de repente tornou-se muito claro que sempre haviam lutado pelo mesmo objetivo. Embora Narcisa tivesse apenas demorado um pouco mais para se juntar a elas.

— Obrigada, Narcisa — Lily lhe sorriu. Molly acompanhou, e o amor que fluía de Lily quase a abarcou por completo.

Pareceu arrebatar Narcisa também, pois ela sorriu, deixando o ato se estender até seus olhos, tornando-os mais parecidos do que nunca com os de Draco. Não eram precisas mais palavras de agradecimento. A dívida estava paga, e havia sido paga com a moeda preferida de Albus Dumbledore: amor.

— Para onde me levarão? — ela perguntou de repente, apertando mais umas vez as belas e longas unhas revestidas de preto, no fino tecido do roupão — seja lá quem estiver vindo me buscar, para onde vamos?

Lily, assim como Molly, percebeu que havia certo temor em sua voz.

— O lugar para onde vamos não é divido em preto no branco, Narcisa, e tenho certeza de que você não se arrependerá se seguir quem vier te receber de fato.

Ela temia que fosse um lugar onde não pudesse rever Draco, num futuro distante, ou seu marido, que há muito já partira. Se Lucius, que havia tomado tantas escolhas erradas...

— Ele também lutou pela vida de Draco, não foi? — Molly tomou a palavra dessa vez, sobressaltando Narcisa, que confirmou com um aperto na garganta — então, creio que não faz diferença, no final.

— Em frente, Narcisa — Lily murmurou muito gentilmente, suas palavras escapando-lhe por entre os lábios curvados em um sorriso terno, calando a pergunta que estava por vir.

Se o objetivo final havia sido o mesmo, o resto era apenas um longo caminho, uma segunda chance eterna que, Lily tinha certeza, uma mãe que ariscara tudo pelo filho jamais desperdiçaria. E o objetivo de todas elas havia sido, em sua raiz, exatamente o mesmo.

Harry Potter sobrevivera pela intervenção do amor de três mães.


NA: Meu Deus, doeu muito! Um agradecimento especial para essa fofa que sempre comenta, Amanda R. Malfoy. Obrigada mesmo!
E eu decidi que perde a graça anunciar quem será o próximo personagem.